Nós nos importamos

by Think Olga

Quando cerca de 140 meninas e mulheres vítimas de abuso sexual juntam forças para denunciar o seu agressor é de se esperar que a imprensa repercuta o fato e a sociedade proteste pedindo justiça. Mas não é o que tem acontecido desde que vieram à tona, a partir do segundo semestre de 2017, as diversas denúncias de atletas da seleção americana de ginástica contra Larry Nassar, ex-médico da equipe e da Michigan State University.

 
Depois de anos de rumores e denúncias que foram abafadas, ignoradas ou relativizadas, Nassar, já condenado a 60 anos por posse de pornografia infantil, está finalmente sendo julgado. Diversas atletas e ex-atletas – da ginástica, do futebol, do vôlei e da patinação artística – confrontam o ex-médico em audiência que iniciou na terça-feira, 16, no tribunal em Lansing, no Michigan. Em depoimentos perturbadores, elas revelaram detalhes dos abusos disfarçados de exames médicos e que as levaram a lutar contra a anorexia, bulimia, depressão e tentativas de suicídio. Algumas, infelizmente, não resistiram.
 
Nem mesmo a fama das campeãs olímpicas, sensação nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, foi capaz de poupar Aly Raisman, Simone Biles e Gabby Douglas dos abusos praticados por Nassar. Biles, considerada a melhor ginasta do mundo, foi encorajada pelos relatos das companheiras de equipe a denunciar. “Eu também sou uma das muitas sobreviventes que foi sexualmente abusada por Larry Nassar”, disse Biles em uma carta publicada em sua conta no Twitter. “Por favor, acreditem em mim quando digo que foi muito mais difícil falar essas palavras em voz alta do que é agora colocá-las no papel. Existem muitas razões para eu ter relutado em contar minha história, mas agora eu sei que não é minha culpa.”
 
A ex-ginasta McKayla Maroney, campeã olímpica em 2012, também foi vítima e chegou a ser paga pela Federação de Ginástica dos Estados Unidos para assinar um acordo de confidencialidade que a impedia de tornar o caso público. Na época, ela aceitou o dinheiro, mas em outubro do ano passado, ao ver as dezenas de denúncias de outras mulheres, Maroney optou por violar os termos de seu acordo e revelou publicamente, primeiro no Twitter, que havia sido abusada por Nassar. A Federação de Ginástica chegou a ameça-la com uma multa se ela testemunhasse contra o médico, mas voltou atrás na decisão.
 
Ainda assim, o que se ouve é um silêncio quase ensurdecedor diante de um crime que soma praticamente o mesmo número do total de vítimas de casos com muito mais espaço na imprensa, como os do produtor de cinema Harvey Weinstein, do comediante Bill Cosby e do ex-assistente de futebol americano Jerry Sandusky – condenado por ter abusado sexualmente de ao menos dez garotos.
Diante de dados e depoimentos tão contudentes, por que o caso de Larry Nassar não tem repercutido na imprensa como os casos de Hollywood? Será que para imprensa e sociedade pesam mais na balança os nomes de agressores poderosos do que de vítimas que não têm fama? Será que o fato de serem atletas de esportes considerados femininos justifica a falta de interesse? A agressão às mulheres já é tão normalizada que não choca mais? E se fossem meninos e homens vítimas de abuso o tratamento seria o mesmo? Por que o já considerado maior escândalo de abuso sexual no esporte não gerou comoção?
 
As vítimas acreditam que o sexismo é, sim, a resposta. Em entrevista ao Huffpost, a ginasta Larissa Boyce, abusada dos 16 aos 20 anos, afirmou: “Não percebi nenhum sentimento de ultraje público”.
22 de janeiro de 2018
 
Já a dançarina Morgan McCaul disse: “Acho que a questão é a importância que damos aos atletas homens, versus as mulheres. Este caso envolve ginastas, dançarinas e patinadoras artísticas, não jogadores de basquete ou futebol americano.”
 
E basta uma pesquisa rápida no Google para confirmar as suspeitas. A maioria das notícias sobre abusos sexuais no esporte se refere a casos que aconteceram nos bastidores do futebol masculino. Ainda que, segundo o IPEA, as agressões envolvendo meninos não cheguem a 30% do total de crianças e adolescentes abusadas sexualmente no Brasil.
 
Mas se a imprensa e a população se calam, cabe às vítimas compartilhar suas histórias, trazer à tona as denúncias e mantê-las vivas. Nossas campanhas como a #ChegadeFiuFiu e #PrimeiroAssédio, que reuniram relatos de meninas e mulheres de todo o país, comprovaram que a coragem de uma mulher é o que enche outras de confiança. Nós sabemos o quanto isso é doloroso, mas também entendemos que é unindo forças e vozes que garantimos nosso direito de viver sem medo.
 
É por isso que nos manifestamos: nós nos importamos.