Violência Sexual: informação responsável salva vidas

by Think Olga

No rastro da repercussão do manifesto das cem artistas e intelectuais francesas na defesa pela liberdade dos homens de “importunar” as mulheres, a escritora e crítica de arte Catherine Millet, uma das signatárias do texto, deu uma entrevista ao jornal El País, no último sábado (12). Mais uma vez, ela usa de sua visibilidade midiática e do perigoso apoio de uma imprensa mais preocupada em clicks do que em informar, para ratificar um discurso que banaliza a violência sexual e faz apologia ao estupro.
 
Nós, da Olga, defendemos que todas as mulheres tenham o direito de expressar sua opinião, ainda que discordemos dela. Mas, também acreditamos que, quando essa opinião pode custar a vida de outras tantas mulheres vítimas do machismo, é nossa responsabilidade nos manifestarmos e, acima de tudo, passar a informação correta e bem fundamentada. É por isso que comentamos, abaixo, os pontos mais preocupantes da entrevista de Catherine Millet.
 
Nossa missão é empoderar mulheres por meio da informação. E ela pode salvar vidas.
 
“Lamento muito não ter sido estuprada, porque assim poderia provar que um estupro também pode ser superado”
 
A declaração de Millet, que na entrevista ao El País justificou como uma “formulação um tanto cômica e sem reflexão”, foi dada em dezembro do ano passado, no programa "À voix nue", da rádio France Culture. Na ocasião, a apresentadora Raphaëlle Rérolle questionou a escritora por afirmar que um estupro não é doloroso o suficiente para causar traumas, dizendo, inclusive, que só seria uma violação do corpo se a vítima fosse virgem. No coração de seu argumento está o fato de que, para ela, durante um estupro, o agressor se apropriaria apenas de um corpo e não de sua consciência. “Se a violência desse ato tivesse me transtornado, acredito contar com a capacidade moral suficiente para superar esse fato e tentar esquecê-lo. Essa é minha resposta pessoal”, ratifica ao El País.
 
A Millet falta empatia e sobram privilégios. Partindo da realidade de uma mulher que pode se beneficiar de todo o tipo de tratamento para curar qualquer tipo de trauma, é bem possível que ele seja realmente superado. Que a experiência de ter sido estuprada fique, simplesmente, para trás. Para a maioria das vítimas, no entanto, essa não é uma possibilidade. Especialmente no Brasil, onde 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) -- sendo 15% desses estupros sendo feitos por dois ou mais agressores. Dados que corroboram com campanhas da Olga, como a campanha #primeiroassedio, que convidou mulheres a contar a história da primeira vez que sofreram assédio. Ao reunir as 3.111 histórias compartilhadas no Twitter, constatou-se que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.
 
Para além das consequências físicas, como gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, as vítimas de estupro têm de conviver com inúmeras consequências psicológicas. E não somos nós que estamos dizendo. Segundo o Ministério da Saúde, um estupro pode causar danos à saúde mental da vítima, como ansiedade, depressão, sentimentos de medo da morte, sensação de solidão, vergonha e culpa, transtornos da sexualidade - incluindo vaginismo, dispareunia, diminuição da lubrificação vaginal e perda do orgasmo, que podem evoluir para a completa aversão ao sexo. Em muitos casos, chega ao suicídio. Não à toa, a violência sexual é considerada uma questão de saúde pública no Brasil e na maior parte do mundo.
 
“Há pouco tempo, li uma entrevista de uma advogada que havia sido estuprada quando jovem e que desaconselhava suas clientes a denunciar e processar, porque isso só te faz prisioneira do sofrimento. Salvo em casos em que haja consequências físicas graves, acredito que a mente consegue vencer o corpo.”
 
Falar de violência sexual exige não só respeito, especialmente às vítimas, mas, principalmente, responsabilidade. Uma informação errada pode colocar tudo a perder. Claro que ao ser vítima de um estupro, a mulher tem todo o direito de escolher fazer uma denuncia ou não. E muitas vezes elas são tão negligenciadas pelo Estado que decidem não passar por mais esse constrangimento e humilhação. Mas, de forma alguma, isso deve ser incentivado. Denunciar e processar o seu agressor são importantes para evitar que outros casos aconteçam. Para gerar dados e estatísticas. Para pautar políticas públicas. Para evitar que outras mulheres também sejam estupradas.      
 
“Elas (consequências psicológicas) existem para algumas mulheres, mas não para todas. É preciso deixar de pensar que a mulher é sempre uma vítima. Pode ser vítima desse ato num instante, mas também pode encontrar a capacidade de reagir...”
 
Durante todo o texto, Millet usa a sua experiência pessoal de mulher branca e privilegiada para justificar o coletivo. Em momento algum a escritora consegue criar empatia com a demanda de mulheres que não têm outra escolha que não seja pegar transporte público, que têm que sair de casa ainda de madrugada para trabalhar (portanto, física e psicologicamente vulneráveis), que não podem reagir a investidas de seus chefes porque são arrimo de família e, por isso, morrem. De medo, de agressões físicas, por suicídio. É, não deve ser fácil compreender experiências tão fora de sua realidade...
 
 
Falar sobre estupro não é nada fácil. Vivê-lo, menos ainda. Ainda mais quando sua história e dor são banalizadas e ironizadas. Pensando nisso, nós, da Think Olga, estamos preparando um manual que orienta vítimas, amigos e familiares e responde as principais perguntas sobre o tema. Acompanhe  nosso site e redes sociais que lançaremos em breve. E ajude a compartilhar informações que salvam vidas.