Escrita terapêutica: quando escrever sobre o abuso sexual é a melhor forma de lidar com o trauma

by Think Olga

Ione Wells, criadora da campanha #notguilty. Foto: Bret Hartman / TED Ione Wells, criadora da campanha #notguilty. Foto: Bret Hartman / TED
Certa noite, Ione Wells foi perseguida da estação de metrô até a rua da sua casa por um homem que lhe tapou a boca e tentou estuprá-la. Ione reagiu, entrou em uma luta corporal com o agressor e conseguiu gritar. Como represália, ele violentamente bateu seu rosto contra o asfalto. Uma vizinha viu a cena e o mandou parar. Ele continuou mesmo assim e lhe arrancou o sutiã. Só parou quando vários vizinhos se uniram para fazê-lo parar — e fugiu. Ione foi para a delegacia e prestou uma queixa. Vinte minutos depois, uma câmera da rua o flagrou seguindo outra mulher a partir da mesma estação de metrô. Ele foi preso. Ione foi salva, mas o trauma ficou. Para lidar com ele, resolveu usar a arma que conhece melhor: a escrita. Estudante de Inglês da Universidade de Oxford, Ione trabalhava para o jornal estudantil e resolveu publicar uma carta dirigida ao seu agressor dizendo tudo que gostaria de dizer cara a cara. No final do texto, convidou os leitores para compartilharem sua história de abuso sexual com a hashtag #notguilty (“não culpada”, em português). A ideia era combater a culpabilização da vítima e conscientizar as pessoas sobre o abuso sexual. A caixa de e-mail de Ione e do jornal foi rapidamente lotada de histórias. Era impossível publicar todas as cartas. Então ela criou um site em que as pessoas pudessem enviar diretamente seus textos e publicá-los por lá. Jornais britânicos passaram a falar sobre a campanha e o buzz só aumentou: Ione recebeu dezenas de centenas de cartas não só do Reino Unido, mas de várias partes do mundo. Foi convidada a dar palestras e transformou a campanha em algo muito maior, realizando eventos para reunir vítimas de abuso e escrever sobre suas experiências, ensinando mais pessoas a transformar o trauma em algo positivo. Conversamos com Ione sobre abuso sexual em diferentes contextos, escrita terapêutica e, é claro, a campanha #notguilty. Confira a conversa:
Como você começou a campanha #notguilty? Comecei a campanha depois que escrevi uma carta para alguém que me abusou e publiquei em um jornal estudantil. No final da carta eu pedi para as pessoas escreverem sobre suas experiências com a hashtag #notguilty porque a ideia da campanha era afirmar que vítimas de violência sexual não devem ser culpadas pelo que acontece, combater a culpabilização da vítima. Muitas pessoas começaram a usar a hashtag e como estávamos recebendo muito tráfego de pessoas escrevendo online, montei um site para facilitar a publicação, assim as pessoas poderiam enviar seus textos diretamente para a campanha através do site. A partir daí a campanha viralizou porque os jornais começaram a falar sobre isso e a carta original também foi publicada na imprensa. Pessoas ao redor do mundo começaram a enviar suas histórias e rapidamente tínhamos várias histórias publicadas.
No Brasil várias feministas fizeram campanhas semelhantes para combater a cultura do estupro, mas a violência contra a mulher é um problema óbvio no Brasil. No Reino Unido, não vejo o mesmo tipo de discussão. Como você avalia esse cenário? As pessoas podem não perceber, mas acho que a situação da violência contra as mulheres aqui é parecida com a do Brasil. Na última vez que olhei dados da Rape Crisis Center, que é a organização que lida com isso aqui, dizia que uma em cada cinco mulheres vai passar por algum tipo de abuso sexual ou estupro durante sua vida. Os índices de violência aqui são bem altos, só que as pessoas não falam sobre isso o bastante, não é falado na mídia tanto assim e as pessoas ficam quietas a respeito por causa do estigma quando na verdade a maioria das pessoas conhece alguém que já passou por isso, se não a própria pessoa. Culpabilização da vítima também existe aqui e justamente porque isso não é falado as pessoas acham que isso não acontece e quando acontece acham que é a consequência do comportamento da mulher, que roupa estava usando, se bebeu, e não percebem que acontece o tempo inteiro. O tipo mais comum de abuso no Reino Unido é cometido por alguém que a vítima conhece então isso vai contra esses mitos que culpam a vítima porque na verdade os mais comuns tipos de estupro são cometidos por companheiros ou dentro de relacionamentos.
Na sua opinião, como podemos combater a violência contra a mulher? O sexismo funciona num espectro. Há muitos casos de discriminação, assédio, abuso contra mulheres, ainda ouvimos muita cantada de rua. Precisamos falar mais sobre isso para combater esses problemas, ainda que alguns sejam mais graves que outros, todos vêm dos mesmos princípios de discriminação contra a mulher. Eu acredito que devemos educar as pessoas desde cedo, então temos que combater também o sexismo na escola, muitas meninas ao crescer sentem que não tiveram tantas oportunidades quanto seus colegas homens ou se sentem intimidadas por eles ou não recebem educação sexual o bastante. A educação precisa começar cedo e precisamos combater todos os tipos de abuso, inclusive os mais brandos, todo o espectro do sexismo.
Você foi bastante corajosa ao expor seu rosto na carta que deu início à #notguilty. Por que dar um rosto à campanha? Eu esperava que mostrar meu rosto poderia ajudar a espalhar a campanha. Parte do problema é que as pessoas ouvem falar desses casos de abuso mas não conseguem humanizar as pessoas que passam por isso. Colocar um rosto na história faz as pessoas verem o problema como algo humano e as pessoas veem quem foi atingido, isso faz as pessoas entenderem a mensagem mais rapidamente. Mas também para outras vítimas que querem ajuda acho que ajuda elas verem a pessoa e se identificar com elas. Às vezes pode ser bem distanciador ouvir uma história no jornal sem saber quem passou por isso e sem sentir que você pode se identificar com ela de alguma forma. Essas foram as razões que me levaram a fazer isso.
Como foi para você, pessoalmente, se expor assim? Foi difícil para mim, me senti meio sobrecarregada porque nunca esperava que a campanha chegaria a esse nível, esperava que ficaria só entre estudantes em Oxford, que atingiria alguns alunos que estudam lá. Ter atenção da mídia nacional e do mundo inteiro foi bem intenso. Não foi fácil lidar com essa atenção pública toda, mas internamente eu acho que me ajudou muito transformar uma experiência negativa em algo positivo porque tinha um senso de solidariedade, de apoio das pessoas, foi muito bom.
Muitas pessoas têm medo de se expor, mas às vezes contar sua história empodera mais do que fragiliza. Como você vê esse processo emocional? O senso de solidariedade que veio com a campanha definitivamente me empoderou. Ver tantas pessoas falando sobre e reconhecendo quão grande é o problema me deu confiança e ter tantas pessoas escrevendo sobre isso me fez sentir menos sozinha e isso fazia parte do objetivo também, juntar todas essas vozes e ver que há tantas pessoas por aí com experiências parecidas com as suas e querem se ajudar e lhe ajudar. Acho que em geral me fez sentir mais forte. Muitas pessoas que participaram da campanha falaram que finalmente acharam uma maneira de falar para seus amigos e família como eles se sentiram mostrando o que outras pessoas falaram. Muitas pessoas sentiram que não acreditaram nelas quando falaram sobre o assunto, então mostrar que isso acontece com tantas mulheres foi muito importante.
Na campanha você fala bastante sobre homens vítimas de violência também. Ao mesmo tempo, pessoas mal intencionadas podem usar esses fatos para diminuir a violência contra a mulher e dizer que “todos são abusados”. Como você balança essa equação? Eu recebi a carta de um homem holandês que foi drogado em uma boate em Londres e foi estuprado. Uma das coisas que ele disse foi que ninguém acreditou nele. Ser acreditada é um grande problema para mulheres mas é ainda mais para homens porque homens não são vistos como vítimas de abuso sexual e quando isso acontece com um homem é ainda mais difícil para eles falar sobre o assunto e receber ajuda porque as pessoas não acreditam que isso acontece com homens. Precisamos ser mais transparentes e deixar claro que isso acontece para que as pessoas levem a sério quando ouvirem um relato sobre. É importante lembrar que obviamente as mulheres são atingidas por abuso sexual desproporcionalmente, as mulheres são muito mais afetadas por isso do que os homens, a taxa é muito mais alta. Temos que chegar a um equilíbrio de dizer que isso acontece com homens e não isolar vítimas homens, mas deixar claro que é um assunto que afeta predominantemente as mulheres e também é predominantemente cometido por homens.
A campanha viralizou e virou pauta de veículos nacionais e internacionais. Fale mais sobre o alcance da #notguilty e os planos para o futuro. Recebemos histórias o tempo inteiro, tivemos dezenas de centenas histórias, mas perdemos a conta do alcance nas redes sociais. O alcance foi incrível, recebemos histórias que aconteceram aqui no Reino Unido mas também nos Estados Unidos, no Brasil, na Índia, na Austrália, abusos contra homens e mulheres. Algo que aprendi sobre isso é quão amplo esse problema é. Também tivemos muita variedade de abusos, desde trolls na internet, violência doméstica, estupro, assédio na rua, coisas bem diferentes entre si. Fizemos uma série de eventos também, dei workshops de escrita para pessoas que passaram por abuso sexual, as mulheres vieram e escreveram cartas físicas. Reunimos pessoas para escrever sobre o que aconteceu com elas, o que é bem empoderador. Também damos workshops em escolas, como eu disse antes acho importante educar desde cedo e usar o trabalho da campanha e todas essas histórias que temos para fazer as pessoas falarem sobre o que aconteceu e tentar lidar com isso o mais cedo possível. Fizemos muitas palestras de conscientização aqui no Reino Unido e eu gostaria de espalhar isso para outros países também, fazer esses eventos que unem as pessoas. Podemos ter efeitos maiores com pessoas reunidas em uma sala em vez de apenas lendo online.
Como são os workshops de escrita sobre abusos? Pode nos dar alguma dica de como escrever sobre um evento traumático? Quando fazemos workshops eu sempre digo às pessoas que é algo para elas, ninguém é obrigado a compartilhar. Acho que a escrita mais poderosa é você falar o que precisa falar em uma carta, é muito libertador porque você sabe que sempre pode jogar o papel fora, mas o ato de colocar algo para fora é muito catártico e útil. Escrever sempre foi a maneira que encontrei de me expressar mas tem um uso duplo, pode ser para você mas se você se sente confortável pode ser algo para dividir com outras pessoas e dizer a elas como você se sente. Se é muito difícil falar ao vivo ou em uma conversa, escrever pode ser uma saída. Minha principal dica seria que precisa vir de você e ser o que você quer dizer, para você, sem a pressão de compartilhar porque assim você pode ser mais honesta com você mesma. Abaixo, confira a TED em que Ione fala da campanha (em inglês):