O futebol feminino brasileiro precisa de nós

by Think Olga

É quase surreal ver uma estrela do futebol como a Marta Vieira da Silva tão emocionada e pedindo que a torcida, que tanto apoiou o time durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, continue valorizando o esporte feminino. "A gente precisa muito de vocês", disse ela em entrevista ao SPORT TV depois da disputa pelo bronze, perdida para o Canadá. Encerrada a Olimpíada, o apelo de Marta faz ainda mais sentido. De acordo com o blog Bastidores FC, do Globo Esporte, a Confederação Brasileira de Futebol cogita acabar com a Seleção Feminina fixa. "O futebol feminino não 'pega' no Brasil", é a declaração de um dos representantes da CBF, além do argumento de que houve investimento "desperdiçado" em uma participação sem medalhas nos Jogos, o que definitivamente não configura uma participação ruim: nossa seleção feminina é a 4ª melhor do mundo. Considerando que o elenco da Seleção masculina (ou como a CBF classifica, “Seleção Principal”) pode ser mudado à cada convocação do técnico, em teoria, esta notícia não deveria ser preocupante. Pois ainda que não haja mais uma Seleção fixa, não quer dizer que não haverá mais Seleção Feminina, certo? Infelizmente, não é tão simples assim, pois o time fixo é o que garante a participação do Brasil em campeonatos internacionais e até o emprego de atletas que não têm contratos com clubes. Ao se despedir dos campos depois de participar da sexta Olimpíada, a jogadora Formiga questionou em entrevista à Revista CLAUDIA: "Quando a gente joga aqui, o carinho é enorme. Todo mundo gosta da gente. É um sucesso. Por que os clubes não montam times femininos?". Somente 7 dos 20 clubes brasileiros mantêm times femininos e pagam as jogadoras com os restos dos grandes investimentos feitos para os homens. E assim elas caminham para a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro feminino, sendo que o último dura somente 4 meses para os times que chegam à final. Enquanto os grandes clubes ignoram a categoria, também há pouco interesse da mídia e de patrocinadores. Por isso não temos uma rotatividade de jogadoras tão frequente quanto os times o masculinos à cada temporada. A Seleção Feminina fixa acaba sendo um porto seguro para as jogadoras experientes e também um aprendizado para as mais jovens, o que no futebol masculino seriam as categorias de base estruturadas pelos clubes. Junto com a responsabilidade de defender nosso país em grandes campeonatos, as novatas como Andressa Alves, Luana, Beatriz Zaneratto e Thaisinha, que jogaram na categoria sub-20, dividem treinos e a prática no campo ao lado de Marta, Formiga e Cristiane e todas elas crescem juntas. Não é o cenário ideal, mas a extinção do time fixo trará apenas mais dificuldades e retrocessos para o nosso já pouco valorizado futebol feminino. Diante dessa situação, não é de se espantar que Formiga valorize muito mais o incentivo para as mulheres no esporte e a chegada de novas atletas, do que suas próprias conquistas: "Troco ouro por mais mulheres nos grandes clubes". Nós também queremos ver esta mudança, por isso criamos a Olga Esporte Clube, onde incentivamos a prática do esporte e a torcida pelas mulheres. Sabemos que as atletas brasileiras, não só no futebol, precisam de nossa torcida assim como, em busca de motivação para nossa prática, precisamos de heroínas.
Foto: Miguel Schincariol/AP