11 coisas que não tem nada a ver com ser mãe de meninos

by Think Olga

Ontem o Brasil Post publicou um texto traduzido com o seguinte título: “11 coisas que só entende quem tem filhos meninos”. Bem, eu tenho dois filhos meninos, então fui ler do que se tratava, afinal, quero saber o que é que só eu entendo e qual superpoder isso me dá.   Depois de ler o artigo - publicado originalmente na “The Next Family”, que se intitula “uma revista online para pais modernos” - , minha única vontade foi dizer a eles que eu entendo que a gente precisa de cliques, que a briga por audiência é dura para todos nós, mas que não vale publicar textos machistas para isso. Não.VALE.  
Ela começa dizendo que sempre sonhou em ter uma menina, porque aí, teria “horas tranquilas lendo juntas no sofá. Princesas da Disney e Dora, a Exploradora. (…) Compras e risadinhas. Paz, amor, felicidade e... paz. E então eu tive meninos.” Já achei estranho porque eu tenho tudo isso. E tenho meninos. Mas segui em frente.  
“1. Guerra nas Estrelas é uma religião” Isso acontece com meninos e meninas que são apaixonados por alguma coisa. Uma amiga costuma dizer que pessoas sem vícios em séries, livros, filmes ou músicas são pessoas chatas. Pessoas. E quando eu digo pessoas, estou falando de homens e mulheres de todas as idades. Meninas também amam Guerra nas Estrelas. Sabe por quê? Porque não é uma questão de gênero.  
“2. Odiar e agradecer ao mesmo tempo o privilégio que seu filho terá por ser um homem adulto.” Ela diz que “essa é difícil”, mas eu não acho. Acho apenas que essa mostra como ela é egoísta. Meus filhos, eu tenho certeza, não terão uma vida fácil. Isso porque eles já são os caras que explicam que as coisas estão erradas. Meu filho mais velho, de 10 anos, luta contra a homofobia. E ele não é gay. Meu filho mais novo, de 4 anos, luta, do jeito dele, contra papéis de gênero ao explicar que não existem brinquedos de meninos e meninas enquanto coloca suas Barbies dentro de carros. Eles serão alvos fáceis e claros porque não são como os outros homens. Eles terão privilégios? É claro! Mas não vão lidar com isso como se os merecessem. E isso eles aprendem comigo, todos os dias, porque eu não quero respirar aliviada, eu quero mudar o mundo.  
“3. Meninos dão os melhores abraços. E beijos. E apertões.” Tenho certeza que se eu tivesse uma menina, seria igual. Porque isso chama amor e respeito e afinidade. E então ela diz assim: “Ele não está tramando nada. A afeição dos meninos é simples. Você nunca vai encontrar nada mais puro neste mundo, garanto.”. Calma aí, amiga. Você está mesmo dizendo, nas entrelinhas, que mulheres sempre têm interesses? Bom, é por isso que nossa vida é tão difícil e você respira aliviada por ser mãe de homens. Mulheres são tão verdadeiras quanto homens, isso depende de características de cada um, não do gênero.  
“4. Puns são engraçados.” Eu sou mulher. Sou assim desde que me conheço por gente. E nunca tive problema com puns. Porém, meus filhos são ensinados de que não é educado soltar gases na frente dos outros. Em casa, tudo bem, mas é preciso respeitar as pessoas. Mais uma vez, não é questão de gênero, mas de como você educa seus filhos.  
“5. Tudo vai ficar coberto de xixi.” Moça, vamos precisar ter uma conversa séria: você está criando animais. Eles não respeitam nada. Nem espaço (ela fala um pouco mais pra frente), nem higiene, nem os outros... Será que não está na hora de repensar os limites? Meu filho mais novo, inclusive, seca o pipi depois de ir ao banheiro. Novamente, nada com o gênero, tudo com a educacão.  
“6. Qualquer coisa pode, e vai, virar uma arma.” Você nunca viu meninas brincando de brigar com bonecas? Ou com espadas? “O fato é que os meninos adoram armas.” Não, o fato é que a sociedade enfia esse gosto goela abaixo dos meninos. Meus filhos gostam de milhares de outras coisas. As amigas deles também. Será que isso não é uma maneira triste de colocar crianças dentro de caixinhas para facilitar a vida de adultos?  
“7. Meninos são físicos.” Aqui começa a parte que mais me assustou nesse texto: “desde o instante em que eles irrompem das nossas vaginas e entram no mundo, os meninos são donos do espaço que habitam.” Uma mulher está dizendo isso. Imagina se essas crianças vão respeitar as pessoas ao seu redor? E as mulheres? E os espaços individuais? Meninos só são assim se ninguém lhes impõe limites. Limites são bons, são amigos, são saudáveis.  
“8. Meninos não ouvem.” Eles ouvem. Quando querem. Assim como eu e você. Quantas vezes você simplesmente não continuou fazendo o que estava fazendo simplesmente porque queria assim? "Estudos mostram que os meninos têm audição menos sensível que as meninas quando nascem, e a diferença só aumenta com a idade.” Se você realmente acredita nisso, uma dica: vá na frente do seu filho, segure em seus ombros com firmeza, olhe em seus olhos e diga o que precisa. Vai surtir efeito. Além disso, gritar é um tipo de agressão e, bem, nenhuma de nós quer ser uma agressora de crianças, né?  
“9. Marvel x DC.” Assim como sua filha. E seus amigos. E seus pais. E seus chefes. E seus subordinados. E a pessoa que vende cortinas. Se eles se interessarem por quadrinhos. Bem, não preciso explicar muito sobre não ter nada com ser mãe de menino, né?  
“10. Roupas não significam nada.” Amiga, para os seus filhos, porque para os meus... Meus filhos AMAM comprar roupas. É um gasto sem fim, se eu não ficar esperta. E não é só calça, bermuda e camiseta. São coletes, jaquetas, blusas fechadas de moletom, malhas, tênis, chuteiras, bonés, chapéus, toucas... Questão de personalidade.    
“11. Meninos amam incondicionalmente.” E meninas amam como? Por favor, me explique. “Filhas batem o pé e pedem para ficar sozinhas. Filhos simplesmente te amam.” Eu diria essa frase de outra maneira: pessoas com certo tipo de personalidade batem o pé e blábláblá, já pessoas com outro tipo de personalidade apenas amam e aceitam o que você quiser que elas aceitem”.   “Fico deslumbrada com a energia, a sensibilidade, a curiosidade, a inocência e a compaixão dos meus filhos, dia após dia.” E ficaria da mesma maneira se tivesse uma menina, que poderia ter exatamente a mesma personalidade que os meninos que vivem com você hoje.   Dividir gêneros, seus papéis, seus traços de personalidade e gostos não só não faz sentido, como é prejudicial para todas as gerações que virão. Homens podem ser delicados e gostar de balé. Mulheres podem ter uma agressividade notável e escolher luta como esporte. Todo mundo pode tudo porque somos pessoas, temos nossas individualidades e somos formados de experiências.   Essas experiências nos são oferecidas desde bem pequenos. Talvez a criação influencie, talvez não. Não há estudos conclusivos. O que há é observação e respeito por cada pessoa, independente do seu gênero.   Criar filhos é muito mais do que bater palmas para tudo o que eles querem fazer. Criar filhos é guia-los para a construção de um mundo melhor e mais justo. E isso se faz não deixando que eles abracem seus privilégios e aceitem imposições sociais.