Cultura alheia: guia de boas maneiras

by Think Olga

Quando ouvi falar em apropriação cultural pela primeira vez, em meio às minhas andanças diárias pelo Tumblr em 2013, tive a impressão de estar vivendo embaixo de uma pedra. Só isso explicaria o meu completo desconhecimento de um assunto tão popular - a busca “cultural appropriation tumblr” retorna quase 250 mil resultados no Google - e que pipocava com tanta frequência no meu dashboard, sob a forma de discussões que escalavam perigosamente em apenas 2 ou 3 reblogs. Porém, ao longo do ano, proliferaram na cena pop performances e aparições de celebridades que multiplicaram os debates online sobre o tema, e meu senso de “mulher do padre” foi desconstruído. Eu não era exceção, mas parte da regra tanto quanto Katy Perry, Miley Cyrus, Selena Gomez, Iggy Azalea, Lana del Rey, o criativo da Victoria’s Secret e muitos outros exemplos de pessoas que nunca ouviram falar em apropriação cultural, não entenderam do que ela se trata ou julgaram tudo muito barulho por nada.   Ainda que não se trate de um fenômeno novo, a apropriação cultural parece ser pouco conhecida pelas pessoas em geral e de fato configura uma questão complexa. Em termos simples, ela pode ser definida como a “pilhagem” de artefatos, expressões culturais, práticas e saberes tradicionais de uma cultura por outra, em uma dinâmica marcada por uma relação de poder desigual. Ou seja, no sentido corrente, ela se refere à seleção e tomada de elementos estratégicos de uma cultura marginalizada por outra que é hegemônica e vale-se de sua posição de privilégio para isso. Entender as implicações das relações de poder em questão é fundamental para diferenciar a apropriação do intercâmbio e da apreciação cultural. Não estamos falando aqui de um processo de troca entre culturas pois não há compartilhamento de itens e práticas, mas a imposição da cultura dominante e o esvaziamento da cultura colonizada.  
É comum emergirem falsas simetrias em discussões sobre o assunto a fim de defender a tese do intercâmbio cultural, como, digamos, “por que eu não posso me fantasiar com um cocar se os índios hoje podem usar as mesmas roupas que eu?”. Essa pergunta ignora o processo histórico que levou os povos indígenas a assimilarem as nossas roupas e as que vieram antes delas, em primeiro lugar. Via de regra, os costumes ocidentais não foram adotados de livre e espontânea vontade pelas populações de territórios colonizados: eles foram implementados à força como meios de “civilizar” culturas tidas como “primitivas” e “selvagens” pela perspectiva eurocêntrica. A colonização europeia, marcada por um histórico de genocídio e violência física, também foi muito eficiente em vilipendiar as culturas originárias de cada região, construindo e disseminando um sólido imaginário racista e pejorativo sobre elas para justificar a exploração e desumanização de seus membros.   Infelizmente, nós ainda temos muito a ver com atrocidades ocorridas há centenas de anos, e é nesse sentido que o debate sobre apropriação cultural é relevante. Continua viva em nosso tempo a lógica colonizadora segundo a qual as culturas não-ocidentais existem somente em relação aos interesses da metrópole, como bolsões dos quais se extraem os bens materiais e simbólicos mais convenientes - e, por vezes, isso se expressa de forma muito sutil. Não é raro encontrar artistas famosos que buscam em outras culturas a inspiração para novos trabalhos, mas cujas obras terminam por reproduzir estereótipos rasos e ideias de senso comum sobre o país e o povo que eles supostamente estão homenageando - seja nos trajes e estilização escolhidos para as performances, seja no conceito dos videoclipes, seja na descrição de personagens não-ocidentais em obras de ficção. Muitas vezes, fica claro que o artista não reuniu conhecimento suficiente sobre aquela cultura para poder apreciá-la de fato e está jogando com os elementos mais “palatáveis”, que, uma vez adotados por ele, dão um “tempero” exótico ao produto e o diferenciam do resto.   Isso é problemático porque resulta em uma representação parcial ou completamente divorciada da cultura à qual ela afirma se referir, exotificando e banalizando universos que já carregam um fardo histórico de pilhagem e ainda hoje são considerados “atrasados”. Quando descontextualizados e orquestrados de forma irresponsável nos termos do artista, símbolos tradicionais são empobrecidos por perderem seu significado e serem reduzidos a acessórios cuja função é agregar valor ao produto de terceiros. Mesmo os membros de culturas marginalizadas podem ser objetificados para compor a ambiência étnica, como as dançarinas negras de We Can't Stop, de Miley Cyrus, e, mais recentemente, as Harajuku girls de Hello Kitty, clipe pelo qual Avril Lavigne foram duramente criticada. Pode-se dizer, então, que a apropriação cultural promove a comodificação de culturas minoritárias para que estrangeiros lucrem sobre elas a despeito de um passado de inferiorização, exclusão e violência, e sejam reconhecidos como criativos, inovadores, cool ou trendy por isso.   Outra expressão apropriativa bastante comum são as fantasias com fundo cultural, étnico e/ou racial, que costumam gerar discussão na internet na época do Halloween. De primeira, pode parecer que a patrulha do politicamente correto está mais uma vez querendo podar os demais em uma data onde todos deveriam se divertir; entretanto, as próprias fantasias sinalizam para uma questão muito mais séria. Frequentemente, as fantasias de índio (chamadas em inglês de redface), árabe, havaiano, oriental (yellowface) e mesmo de negros (blackface) tem por objetivo fazer rir ou, no caso de fantasias femininas, sensualizar. O que existe de engraçado nessas fantasias? De que forma uma fantasia ridícula e caricata demonstra admiração ou no mínimo interesse por aquela cultura? Qual o impacto que a fetichização dessas minorias pode ter sobre as vidas dos indivíduos que vestem essas “máscaras” todos os dias, pela vida toda? Acima de tudo: por que somos tão resistentes em admitir que talvez, por pura ignorância e privilégio social, estejamos mesmo ofendendo o próximo e lhe devemos desculpas?  
Qualquer debate saudável sobre apropriação cultural exige dos envolvidos o discernimento para reconhecer que isso não é sobre eles, e sim sobre padrões de comportamento opressivos, persistentes e macro. Receber críticas a respeito de uma peça de roupa, linguajar ou prática não é uma perseguição a sua pessoa, mas um lembrete de que nós não existimos no vácuo e também somos responsáveis pela mudança ou manutenção de estruturas discriminatórias na sociedade em que vivemos. A exposição de manifestações apropriativas e racistas não tem como objetivo criar “guetos” fechados e estagnar a interação entre culturas diferentes, mas mostrar como isso é feito hoje em contextos de desigualdade e preconceito para que possamos pensar em formas mais respeitosas de nos relacionarmos - em especial com aqueles pertencentes à culturas historicamente invisibilizadas. Não é fácil catalogar o que é e o que não é apropriação cultural tanto pela imensa diversidade de culturas existentes no mundo quanto por nem sempre haver um consenso entre seus respectivos membros: o uso do bindi hindu por celebridades americanas em festivais como o Coachella, por exemplo, foi considerado apropriativo por alguns e não por outros. Susan Scafidi, professora da Universidade de Fordham (EUA) e estudiosa do assunto, recomenda que três aspectos sejam considerados para determinar o que pode ou não ter potencial apropriativo:   “Reflita sobre os três S: source (fonte), significance or sacredness (significância ou sacralidade) e similarity (similaridade). A comunidade original convidou você, indireta ou diretamente, a partilhar dessa parte específica de sua cultura, e essa cultura possui um histórico de exploração danosa? Qual a significância cultural do item - é apenas um objeto ou imagem cotidiana, ou é um artefato religioso que exige reverência? E o quão similar é o elemento apropriado do original - é uma reprodução literal, ou apenas uma referência de cor ou formato?” (Jezebel.com)   Por fim, o ideal é sempre atentar para o que os integrantes de cada cultura em particular têm a dizer e ter a sensibilidade de rever a sua posição quando solicitado, já que um único indivíduo que afirme não se incomodar com isso ou aquilo não tem como representar uma comunidade inteira. Compreender o espaço que se ocupa no mundo é uma tarefa ingrata e difícil, mas justamente por isso, ela é fundamental.  
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