A confeiteira de palavras

by Think Olga

olga fabi secches
Fabiane Secches e Flávia Stefani Resende entraram na nossa lista de mulheres inspiradoras de 2013 pelo trabalho à frente da Confeitaria -- coletivo literário que já soma mais de 300 textos publicados. Em fevereiro, a dupla fará o lançamento do primeiro livro do grupo, o Amor, Pequenas Estórias. Ao todo, são 40 histórias de amor ("o mais antigo e o mais atual dos temas", como diz Fabi) com até 800 caracteres. A publicação contou com a participação de mais de 60 pessoas, entre autores, ilustradores e equipe técnica*. 
Conversamos com Fabi sobre a experiência em comandar tais projetos e o espaço das mulheres no mercado literário.
 

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O que você descobriu sobre amor ao editar o livro? 
Tem uma frase da Emily Dickinson de que sempre gostei muito e que está na introdução do livro: "Que o amor é tudo é tudo que sabemos do amor". Acho que comecei e terminei o livro com essa mesma sensação. De outro lado, a criação do livro em si foi um processo de amor. A generosidade de todos que participaram, autores, ilustradores, equipe editorial, amigos e parceiros, me comoveu demais. Aprendi muito com cada um. 
 
O que podemos aprender sobre as mulheres ao falar de amor?
Eu tenho muito cuidado em fazer qualquer generalização, porque é fácil reforçar estereótipos, mas sabemos que, historicamente, a mulher transita pelo território do afeto com mais familiaridade, com mais intimidade. Ainda assim, acredito que a vivência do amor é tão singular que não pode ser determinada por algo como gênero. 
 
Por que criar a Confeitaria? 
Tentamos construir um espaço para escrever sem nos preocupar com números. Na época, eram poucos os lugares na internet em que encontrávamos textos mais longos em português, como ensaios e resenhas críticas de livros e filmes. Também eram poucas as iniciativas que publicavam ficção contemporânea. Então reunimos um grupo de amigos e colegas começamos. Com o tempo, o coletivo foi crescendo. Hoje a Confeitaria é formada por mais de 40 autores. 
 
Qual a linha condutora da Confeitaria?
O timing da internet está ligado à quantidade e à agilidade, mas na Confeitaria preferimos ir um pouco mais devagar. Pedimos aos leitores que façam uma pausa. É uma forma de resistência à pressa, à velocidade imposta pelo nosso tempo.
 
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O que você aprendeu sobre você mesma, como mulher, liderando projetos como a Confeitaria e o livro Amor, Pequenas Estórias
A Confeitaria está caminhando para o seu segundo ano e posso dizer que esse foi o período em que mais aprendi sobre mim mesma, especificamente, como mulher. Ter a oportunidade de ler e me aproximar de mulheres questionadoras fez com que me interessasse mais pelo feminismo e por todas as questões críticas que o atravessam. Sinto que é apenas o começo e ainda tenho muito a aprender. 
 
Você acha que o mercado literário recebe bem as mulheres, sejam elas escritoras, quanto leitoras? 
Acho que ainda existe preconceito também na literatura, seções de "literatura feminina", uma classificação que costuma ser pejorativa. Mas percebo mudanças importantes, conquistadas a duras penas. Historicamente, grandes mulheres inscreveram seus nomes na literatura, como Mary Shelley, Jane Austen, Agatha Christie Virginia Woolf, Clarice Lispector. Hoje, temos Alice Munro, vencedora do prêmio Nobel de literatura no ano passado, aos 82 anos. Toni Morrison, que também venceu o Nobel e tem uma obra importantíssima. Malala Yousafzai, que comoveu o mundo com "Eu sou Malala", tendo apenas 16 anos. E quantas autoras estão nas listas de livros mais vendidos, quebrando paradigmas comerciais. Quero acreditar que estamos caminhando para um novo momento, mais justo com as mulheres. Embora a distância ainda seja longa, me parece um caminho sem volta. 
 
Na sua opinião, a internet é receptiva com as autoras?  
A internet é um reflexo (e às vezes uma amplificação) do mundo e, infelizmente, vivemos em um mundo machista. Mas as mulheres têm conquistado espaços importantes. Temos vozes expressivas denunciando o sexismo de cada dia, como Roxane Gay e Aline Valek, e iniciativas importantes debatendo questões como a violência nos espaços públicos, como o Olga. Acredito em um futuro com mais equidade.Vamos lutar para isso.

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Ficha técnica:
Coordenação editorial: Fabiane Secches
Edição de arte/projeto gráfico: Thiago Thomé
Capa: Arthur Daraujo + Thiago Thomé
Revisão: Thiago Blumenthal
96 páginas.
Impressão off set e colorida.
* Tive a honra de fazer parte deste grupo. A convite de Fabi, dividi a minha história de amor, com toda a dificuldade de uma tímida incorrigível. O texto será acompanhado de uma ilustração da minha fiel escudeira Gabriela Shigihara.