Deixe meu corpo em paz

by Think Olga

olga negahamburguer 05
No começo de outubro, a revista Marie Claire publicou em seu site uma foto da modelo Izabel Goulart de biquíni. No título, diziam que ela exibia um “corpo perfeito”. Não é de espantar que a matéria tenha causado alvoroço nas redes sociais: quando uma publicação feminina rotula um corpo magro como “perfeito”, está estabelecendo um padrão de beleza. E isso, como sabemos, gera uma ansiedade pela busca da “perfeição”, que pode ter consequências graves como bulimia e anorexia. Além do mais, não existe corpo perfeito. Infelizmente, a revolta não foi direcionada à Marie Claire e ao uso irresponsável do adjetivo “perfeito”, mas sim à modelo. O corpo de Izabel Goulart foi chamado de “horrível”, entre outras coisas muito mais grosseiras. Ela foi acusada de ser anoréxica (e até de aidética e tuberculosa por alguns). Não faltava gente para dizer que ela deveria ter mais isso ou menos aquilo, para fazer piadas, ou para dizer que o corpo de Izabel não satisfazia às expectativas sexuais dos homens (a velha máxima de “tem que ter onde pegar”).
olga negahamburguer 01
Essa atitude também é conhecida como body shaming, expressão usada para definir os comentários negativos em relação ao corpo de outrem (no caso, mulheres). O curioso é que, na vontade de reprimir alguém que supostamente estava envergonhando os corpos gordinhos ao classificar a magra como perfeita, acabou-se fazendo a mesma coisa: detonando o corpo magro e classificando a “gostosa” como ideal de beleza. Na tentativa de criticar o corpo alheio, a saúde é um dos argumentos mais usados. Do mesmo jeito que dizem que o problema da gorda é não ser saudável, as magras são tachadas de doentes, numa brincadeira de médico sem nenhuma graça. À exceção de casos extremos, não dá para julgar a saúde de uma pessoa apenas por uma foto. Quem também sofreu com esse julgamento foi a cantora Fiona Apple. Em um show em Portland, ela expulsou uma garota que gritou: “fique saudável! Queremos te ver daqui a 10 anos. Eu te vi 20 anos atrás e você era linda”. Fiona saiu do palco aos prantos. Afinal, essa liberdade que muitos acreditam ter de criticar e/ou diagnosticar o corpo alheio machuca, e muito.
olga negahamburguer 03
Lutar para que as publicações femininas estampem em suas páginas uma maior diversidade de corpos e que não tentem definir a perfeição feminina é válido e necessário. Mas não é recriminando mulheres, por serem magras ou gordas ou qualquer outra coisa, que vamos conseguir isso. Quem faz body shaming para reclamar do padrão magro de uma revista, na verdade, está fazendo a mesma coisa que tanto critica: impondo um padrão de corpo como o bonito, o ideal. E ainda por cima usando palavras cruéis pra detonar outro tipo de corpo.
olga negahamburguer 02
Nenhuma mulher é obrigada a ter as coxas da Sabrina Sato só porque “homem não gosta de osso”. E, se tiver, tudo bem também. Tudo bem ser magra. Tudo bem ser gorda. Tudo bem ter pouco ou muito peito, quadril largo ou estreito. Envergonhar outras mulheres por causa de seus corpos não, isso não está nada bem.

Taís Toti é jornalista, escreve no Estadão e no Indieoteca, fala no Comando Legal, cuida de duas gatas e pensa muito antes de postar textos no Facebook. As ilustrações fazem parte da campanha "Beleza Real" da ilustradora brasileira Negahamburguer.