Revistas femininas: o fútil é essencial

by Think Olga

olga revistas
No fim do mês passado, fui entrevistada por uma repórter da revista TPM. Conversamos sobre revistas femininas para a edição de agosto, com a capa Pra Que Mentir?. O papo foi bem legal, e me forçou a pensar e colocar em palavras um monte de coisas sobre essas publicações. No fim, minhas opiniões não saíram na reportagem, mas divido elas aqui com vocês. A matéria dizia que as revistas femininas criam padrões impossíveis de serem reproduzidos na vida real, o que é um argumento compreensível. Em um mundo no qual se exige tanto das mulheres - que sejam lindas, inteligentes, bem sucedidas, castas e boas de cama - é normal que exista uma reação a quem fique dando conselhos sobre como atingir todos esses objetivos tão contraditórios. Mas é errado dizer que as revistas femininas sejam ruins ou desnecessárias - e pior ainda criticar quem as lê. Primeiro porque é um direito de todas nós acompanhar assuntos que muita gente chama de fútil. Toda mulher tem o direito de fazer dieta, de querer saber a maneira perfeita de se maquiar ou de decorar as 1001 maneiras de enlouquecer o namorado. Tudo isso é valioso para quem quer atingir esses objetivos. Num cenário em que grande parte da comunicação é feita por homens, qualquer informação feita exclusivamente para mulheres é bem-vinda. Não é na Placar ou na Quatro Rodas que uma menina vai conseguir lidar com o doloroso fato de que o menino não ligou no dia seguinte (quem nunca?). É sempre muito difícil falar sobre mulher, porque todo mundo acha que pode colocar sua verdade sobre o que elas devem ser, como devem se portar e com o que devem sonhar. Entram todo tipo de proibições nesse caldeirão, muitas vezes em nome da "liberdade" feminina. Desde o começo da Olga, tracei a minha régua: celebrar quem dá mais opções para as mulheres e não quem as limita.  
Desdenhar de quem lê Nova, Claudia, Marie Claire ou Capricho apenas diminui o número já pequeno de alternativas que as mulheres têm para se informar. Cada uma tem o direito de ser quem quiser - mesmo que isso envolva decorar 30 novas técnicas de como lidar com um pênis. Todo mês. De novo e de novo. Minha questão com as femininas, eu disse para a entrevistadora da TPM, não era o fato de elas darem essa opção para as mulheres (frívola ou não, depende de cada um). Mas sim o fato de serem tão monotemáticas, de mostrarem apenas UM CAMINHO. Temos 150 maneiras de conquistar a barriga chapada em uma semana. Bacana, mas como eu faço se quiser apenas dicas de moda para a minha barriga positiva (e exponencial)? Eu tenho doutorado em como não deixar o meu relacionamento esfriar, mas nenhuma dica sobre como eu poderia de fato obter um doutorado (aquele de verdade, da universidade, sabe?) Por que essa insistência em apenas UMA voz? Pode ser por medo de perder leitores, pode ser por falta de tempo, dinheiro ou até mesmo coragem para investir em outras abordagens. Provavelmente é apenas a repetição de uma visão que surgiu anos ou décadas atrás e se desatualizou. A mulher a quem as revistas se dirigem ainda existe, mas é uma em meio a tantas que ninguém se preocupou em incluir. A ética também mudou. Quinze anos atrás, era  normal receber e seguir dicas para ser uma "mulher para casar" em vez de "mulher para ficar". Hoje, isso é inaceitável. Por que uma revista na qual a leitora confia e admira colocaria essa pressão em cima dela? O fato é que essa reprodução de um só tema gera ansiedade em algumas mulheres. Se elas não se enquadram no modelo, então acabam se sentindo erradas. Copio aqui parte de um e-mail enviado pela leitora Mariana Vilela.   "Me sinto um ET porque todas as minhas maquiagens juntas não somam 15 itens. Não tenho 15 blushs, 19 máscaras de cílios e 300 pincéis - eu na verdade tenho preguiça de me maquiar todo dia de manhã. E eu penso que pareço ser a única assim. Somos muito mais e mal entendemos a complexidade disso. (...) Que tal eu te pagar para me trazer mensalmente uma publicação que realmente fale sobre as minhas dúvidas e expectativas em vez de me deixar em crise de ansiedade sem entender porque não me encaixo em nada disso?" Ou seja, tem público disposto a pagar para ouvir outras vozes. Enquanto isso, as editoras suando para encontrar uma solução para a "crise do jornalismo". O ideal é que tivéssemos testes, dicas, colírios, fotos, páginas lacradas e guias que nos ajudassem com toda a nossa complexidade feminina. Alguns desses caminhos - de boas esposas, amantes, fashionistas ou fãs de One Direction - já estão bem cobertos. Falta construir todos os outros.
VALE A PENA CONHECER
Rookie Mag Tavi Gevinson virou blogueira de moda aos 11 anos. Aos 15, trocou o foco dos seus texto para feminismo e lançou o portal Rookie Mag. Sem deixar de falar de mundo fashion, a adolescente criou um espaço ultra original para conversar com suas leitoras e encontrou uma voz mais honesta e real. Muitas das suas colaboradoras são teens, o que deixa o conteúdo com pé no chão. Há um setor de dicas de beleza, moda e auto-estima chamado Damn Girl Ya Look Good onde repórteres respondem dúvidas das leitoras, mas apenas aqueles que passaram pelas mesmas experiências - evitando enrolações ou papo furado de quem nunca viveu o drama.
olga rookie
Frankie A revista feminina é dividida nas seguintes sessões: arte, craft, design, fotografia, moda, música, livros, filmes, decoração, comida, vintage e "histórias da vida real". Eles se descrevem como uma revista "esperta, engraçada, sarcástica, amigável, fofa, rude, curiosa e carinhosa".
olga frankie
Libertine A publicação, que traz temas de estilo de vida e consumo, também passeia por economia, tecnologia e negócios. Na primeira edição, por exemplo, há uma coluna sobre investimentos e um artigo com dicas de como usar computação em nuvem.
olga libertine