Não me chame de gostosa

by Think Olga

olga marina

Marina Santa Helena é apresentadora da Mix TV e criadora do portal feminino Supremas. Já foi VJ da MTV e fez fotos para Trip e Playboy. Se você acha que a fama a protege do assédio pelo qual qualquer mulher passa nas ruas, saiba que é o contrário.  Aqui, ela conta em detalhes como desde os 10 anos, e em vários momentos do dia-a-dia, foi intimidada por homens e sofreu machismo por parte das mulheres. E como aprendeu a lidar com isso.
 
Em um cenário em que temos tão pouco debate, números ou informações sobre as violências que as mulheres recebem na rua, são denúncias como essa que nos ajudam a despertar a consciência. Leia abaixo o depoimento de Marina:
 

Assédio aos 10 anos
Eu me desenvolvi muito cedo, e tem homem que é cara de pau e olha mesmo, pode ter a idade que for. Aos oito anos, era a mais alta da classe e usava sutiã. Aos nove, fiquei menstruada e chorei horrores porque não estava preparada para aquilo. Com dez anos, já ia sozinha pra escola – eu morava em cidade pequena e tudo era meio perto – e aí sim foi que sofri minha primeira intimidação sexual de verdade.
 
Um dia eu estava voltando da escola, quando um cara de bicicleta apareceu do nada e passou a mão na minha bunda. E não foi só uma simples passadinha de mão, ele encheu a mão mesmo, sem nenhuma vergonha. Daí saiu em sua bicicleta como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei parada uns minutos, sem saber o que fazer, sem saber se contava pra alguém, se chamava polícia. Poxa, há poucos minutos a minha maior preocupação era a boneca que ia levar no noutro dia pra escola ou o que seria servido no almoço lá em casa, daí apareceu esse cara…
 
Não chorei, nunca contei pra ninguém, nem deixei isso virar tema de terapia. Mas foi a primeira vez na vida que tive essa sensação horrível. Um gosto amargo na boca, o coração acelerado, uma vergonha, uma culpa por algo que eu nem conseguia entender ou explicar. Mal sabia que esse seria um sentimento recorrente a mim, e a todas as mulheres têm que lidar com situações de assédio nas ruas.
 
O dia-a-dia
Além dessa primeira história, que já foi bem marcante, aconteceram várias outras situações. Sempre tem um cara que acha que você tá lá, linda e cheirosa, vestida pra ele, e chega em você sem ter senso nenhum do ridículo, sem ter noção de que sim, essa é uma forma de violência, eu diria até de estupro.
 
Uma vez eu estava em um show e, também do nada, apareceu um sujeito completamente bêbado e veio certo pegar nos meus peitos. Claro que ele ganhou um belo de um tapa. Outra vez, quando tinha feito umas fotos de lingerie pra uma revista, o porteiro do prédio onde eu trabalhava decidiu que estava apaixonado por mim ou, sei lá, achou que eu tinha feito as fotos pensando nele, e começou a me dar presentes e pedir pra “me acompanhar até o ponto”. Sorte que não fiquei muito tempo nesse trabalho.
 
Fora as milhões de vezes que eu (e quase todas as mulheres) tenho que andar pelas ruas na defensiva, evitando olhar quando chamam, mesmo que seja pra pedir informações. Engraçado é que ontem mesmo aconteceu uma dessas. Eu estava andando de fones de ouvido - sempre, para evitar ouvir as bobagens que os homens falam – e aí veio um cara por trás de mim, pegou no meu ombro e eu, bobona, achei que ele queria perguntar algo pertinente. Desacelerei o passo, tirei o fone e ele disse “onde a princesa vai com tanta pressa?”. Ahh, mas fiquei tão brava, que caí na besteira de xingar o homem com todos os palavrões conhecidos, o que pareceu deixa-lo ainda mais instigado. Saí de perto do homem, quase correndo e fiquei olhando para trás o caminho inteiro, para ver se ele não tinha me seguido. Quase pego um taxi.
 
olga marina santa helena

Deixar de fazer coisas por medo
Sim e acho que muitas mulheres já deixaram. Por exemplo, se deixo o carro em casa e vou a pé, de ônibus ou de metrô para algum lugar, a roupa é outra. Visto uma calça jeans e um camisetão, jamais vou de saia. Se vejo um grupo de caras de um lado da rua, atravesso. Outra coisa que raramente faço é ir sozinha para um bar. Acho que a primeira vez que fiz isso foi há uns dois anos, quando estava viajando sozinha. Nessa noite, aconteceu outra história marcante. Chegaram alguns caras tentando me pagar drinks e neguei todos. Até que apareceu um outro, que só pode ter achado que eu estava lá a negócios, se é que você me entende. Ele foi tão insistente que achei melhor ir embora do bar. Mesmo assim, ele me seguiu até a esquina, falando bobagens e agarrou o meu braço quando tentei seguir por outro caminho. A rua estava vazia, não passava nenhum taxi e eu já estava entrando em desespero, quando apareceu um outro cara e eu ameacei gritar. Daí ele me largou e foi embora. Depois desse dia, apesar de não me privar de sair, penso três vezes antes de ir sozinha.
 
A culpa é nossa?
No início, eu sentia gosto amargo, uma vergonha, uma culpa. Era como se eu fosse a culpada por aquilo estar acontecendo, pelo simples fato de que meu corpo era o que “inspirava” os caras a cometerem esse tipo de violência – a velha e terrível mentalidade de que a culpa do estupro é do vestido, um pensamento horroroso que a sociedade tende a enfiar em nossas cabeças. Mas, ao longo do tempo, fui amadurecendo e vi que quem tem que ficar com vergonha não sou eu, mas um sujeito que faz isso, os pais que criam os filhos dentro dessa cultura, as mulheres que julgam o tamanho do seu vestido. Ninguém sai de casa com um vestido curto porque “tá pedindo pra ser estuprada”, ninguém faz fotos sensuais porque quer ser desejada e abordada a todo instante, ninguém anda nas ruas rezando para que o próximo mané da esquina a chame de gostosa e puxe um papinho. Hoje, o gosto amargo ainda volta e o coração ainda acelera nessas situações. Porém, não sinto mais culpa ou vergonha, só raiva.
 
Como é ser famosa e ler comentários sobre seu corpo
Essa ainda é uma questão que preciso trabalhar melhor. Sim, os comentários “positivos” desse naipe (“gostosa”, “delícia”) também incomodam. Esses dias recebi comentários no Instagram de um cara dizendo que queria me comer, que me pegava fácil e outras coisas do gênero (daí pra pior). Fiquei bastante incomodada, pensei por vários dias se deveria responder ou não. Mas, no final das contas, simplesmente apaguei os comentários e bloqueei o usuário. Pronto, a pessoa sumiu da minha vida. Pelo menos até o próximo imbecil aparecer para comentar tudo de novo. Não dá pra se acostumar com esse tipo de coisa, é algo que, assim como os comentários negativos, sempre estará lá pra te machucar naqueles dias em que você não está se sentindo tão bem assim.
 
 
olga jessica

O machismo das mulheres
Por incrível que pareça, as reações mais absurdas de quando fiz um ensaio para a Trip e uma foto para o calendário da Playboy foram de mulheres. Tem muitas que acham que esse tipo de trabalho denigre a imagem das mulheres como um todo, tem quem ache que você é só mais uma pessoa insegura, carente de atenção e tem outras que queriam mesmo é estar no seu lugar.
 
Passei muito tempo tentando justificar os comentários que recebi, mas é complicado. Acho que, quando você faz uma foto, aparece num filme ou num programa de TV, a imagem deixa de ser sua para virar domínio público. Não tem nada que você possa fazer em relação a isso, a não ser se libertar. As pessoas vão te julgar sempre, para o bem ou para o mal. Eu já fiz fotos vestida, de biquíni, de lingerie e nua, sinceramente não vejo muita diferença. O preconceito, os julgamentos, os estereótipos, moram na cabeça das pessoas. Eu fiz fotos ditas “sensuais” porque me sinto confortável com elas, me sinto segura vestindo apenas a minha própria pele e não preciso justificar meus motivos para cada hater que aparece. Claro que, se isso me afetar diretamente de alguma forma, vou precisar me defender, mas até agora tudo o que recebi foram comentários pela internet.

Coragem para debater o assédio
Não acho que o assédio sexual é debatido minimamente na nossa sociedade e é por isso que estou aqui no Olga. Sinto que é uma coisa muito velada porque a gente se acostumou. Ora, onde já se viu passar pela obra e não ser chamada de gostosa? Onde já se viu passar um caminhão do seu lado e não buzinar? A gente acha que isso é normal, mas não deveria ser. É um constrangimento sem tamanho. Outro dia passei de carro e vi uma amiga andando na rua, buzinei para ela e ela não olhou, claro que não olhou. Podia ser uma cara fazendo gestos obscenos, podia ser alguém que ia apontar uma arma e obrigá-la a entrar no carro. É comum. Se você for homem e não estiver entendendo, achar que estou exagerando, pode perguntar para sua irmã, sua mãe, namorada ou amiga se ela já sofreu algum tipo de assédio e eu tenho 100% de certeza que ela vai dizer que sim.
 
Mas acho que o debate não é tão grande porque ainda rola aquela coisa da vergonha. Muitas ficam envergonhadas de admitir que, sim, resolveram sair lindas de casa, passaram perfume, maquiagem e colocaram sainha. E se sentem culpadas porque isso desperta o interesse de dúzias de caras que se acham no direito de assediá-las sexualmente. Não vão ser os homens que vão começar a debater uma coisa que os afeta tão pouco, ainda por cima quando muitos deles são os responsáveis pela perpetuação desse tipo de comportamento.

Como lutar contra a intimidação sexual
Depende muito do tipo de intimidação. Não dá pra fazer um escândalo toda vez que um cara assobiar e te chamar de gostosa. Isso vai acabar com o seu dia, vai te transformar numa pessoa amarga e raivosa. Agora, nos casos de intimidação mais direta - como quando um sujeito passa a mão numa mulher, ou a segue ou tenta agarrar - acho que tem que pôr a boca no mundo mesmo. Vale gritar, espernear, chamar o cara de tarado, pedir ajuda. É muito comum acontecer isso no metrô, na hora do rush, quando tudo está lotado e aquele cara te dá uma encoxada, assim, como quem não quer nada. Eu sou muito a favor de partir para a violência para cima do cara ou de gritar até deixá-lo constrangido, para ver se aprende uma lição e nunca mais faz aquilo.

Agora, fora desse tipo de situação, o que dá pra fazer é debater o assunto, conversar mais com os amigos (homens e mulheres), educar as crianças para que elas tenham consciência de que interferir no caminho de uma mulher de qualquer forma (palavras ou atos), com o intuito de se obter vantagens sexuais, é sim uma violência.  Acho que muita gente não tem isso muito claro. Por exemplo, será que um cara que assobia pra você sabe que ele tá te deixando com nojinho e não com tesão? É por isso que esse tipo de conversa é importante, temos que criar uma nova cultura.