A vitória da sensibilidade

by Think Olga

sensibilidade olga
Outro dia, tive uma conversa que deixou a seguinte pergunta martelando na minha cabeça: por que nós, mulheres, temos vergonha da sensibilidade? O papo foi com a Gabi, amiga e talentosa fotógrafa. Quando nos conhecemos, ela era jornalista e seu foco, escrever. Hoje ela ainda conta histórias, o que mudou foi a plataforma. Vi suas fotos e me derreti em elogios. "Que sensíveis que são", disse. Ela me pegou despreparada quando respondeu: "Eu fico meio brava com isso, de verdade. Meus textos saem com essa cara sensível, minhas fotos também. Eu não queria ser sensível. Queria ser forte. Mas o que eu posso fazer, sabe? Tem que ter muita coragem para olhar para dentro da gente e descobrir se o que você faz é o que você realmente é ou o que os outros gostariam que você fosse." 
gabi olga
A sensibilidade de Gabi
O boicote - de personalidade, do jeito de ser, de algo que queremos - não é exclusividade feminina, é verdade. Mas o boicote da sensibilidade é possível que seja. Por isso que a frase da Gabi me marcou tanto. E talvez a maioria das mulheres se identifique de alguma forma também. A sensibilidade, um traço tão emaranhado com a feminilidade, é vista como fraqueza no mundo. As empresas por muito tempo foram ambientes predominantemente masculino, de competitividade extrema e jogos de poderes. São lugares onde se manda nas pessoas e, por isso, ninguém pode ser mostrar inseguro. Sensibilidade e fraqueza não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas infelizmente as pessoas acham que sim. Isso acontece porque dão muita atenção a uma das muitas associações de sensibilidade, a de vulnerabilidade ou fragilidade. Só que sensibilidade tem também outras associações, muito menos lembradas, mas extremamente importantes: o de perspicácia, de intuição e até mesmo de coragem (para mergulhar a fundo em algum assunto ou para perceber o que ninguém está vendo). É inegável que uma empresa precisa de cada um desses atributos, mas ainda assim esquecemos o quão relacionadas eles estão à sensibilidade. O mundo dos negócios ainda precisa mudar muito até que esses traços sejam aceitos. Administrar é mandar em pessoas e derrotar concorrentes - são metáforas quase militares, e na guerra não há mesmo espaço para poesia. Grande parte do mercado ainda se parece com um campo de batalha, com jogadas para conquistar territórios e processos entre concorrentes. Mas quem está vencendo a guerra mesmo tem outra abordagem, muito mais parecida com a de ser sensível. Qualquer que seja a empresa, não basta ser mais rápido ou mais forte. Você precisa inspirar, contar histórias convincentes, criar experiências e vender sonhos. Pense em uma marca com a qual você se identifica, com a qual você gasta dinheiro sem fazer cara feia. Ela não é apenas eficiente, mas principalmente interessante, inteligente e, sim, sensível! Às suas necessidades, ao modo como você vê a realidade, à maneira certa de agir no mundo. Atingir esse tipo de conexão é o que vence batalhas por mercados hoje. Mas, para obtê-la, é preciso também inspirar funcionários, fornecedores e todos que, de uma maneira ou outra, colaboram para fazer um produto ou serviço. A sensibilidade funciona, então, tanto dentro quanto fora dos portões de uma empresa: é preciso entender e inspirar muitas pessoas, para que elas possam inspirar consumidores. As mulheres podem trazer essa sensibilidade ao mercado. Vamos tentar encaixar o que somos nesse universo e não nos adaptarmos ao cenário. Remar contra a maré é um gasto desnecessário de energia. E a força tem muitas formas de florescer - inclusive na sensibilidade.