Você não está sozinha

by Think Olga

olga sozinha
Era uma tarde qualquer da qual não lembro absolutamente nada com exceção disso: Estava voltando para casa da padaria à pé. O sinal para cruzamento de pedestre fechou. Comemorei, pois estava com fome e teria tempo de pegar um pão de queijo da sacola. Enquanto remexia nas compras atrás do saquinho, percebi que um carro, que antes vinha rápido, diminuiu a velocidade conforme se aproximava de mim. Quando chegou bem pertinho, o motorista abaixou o vidro e gritou: "SUA GOSTOSA!!!". Eu derrubei as compras no chão enquanto senti as letras maiúsculas e os três pontos de exclamação bater em mim. Eu fiquei observando o carro enquanto ele voltava a pegar velocidade na avenida e desci os olhos para conferir que roupas vestia. Eu tinha 11 anos.  Segui caminho confusa e assustada, com lágrimas escapando dos meus olhos sem entender direito o porquê. No meio do caminho, uma mulher, preocupada, me perguntou o que havia acontecido. Contei. Ela me disse: "pois você deveria era ficar feliz com os elogios que recebe". Essa é uma dentre inúmeras histórias dolorosas que acontecem por aí. E sei que todas elas têm um comum três características:
- A certeza de que somos as provocadoras do ato.
- O machismo que existe também na visão de outras mulheres. 
Por isso, acho de uma extrema importância quando o assunto ganha a atenção de meios de comunicação. Porque o assunto fala alto e claro comigo. Aos 11 anos, eu não teria como saber, mas hoje sou ciente de que não sou a única a sofrer com isso. Existem pesquisas que apontam que 90% das mulheres já sofreram  algum tipo de assédio em espaços públicos. E eles começam antes mesmo da puberdade. "Percebi que aprendi a andar na rua de cabeça baixa ou de cara fechada", já ouvi por aí. Ontem, 13 de maio, o NY Times publicou o artigo "Eu fui agarrada no metrô", de Kimberly Matus. A autora pegou o transporte público na hora do rush e foi assediada por um estranho. Dois policiais disfarçados, que por ali circulavam para conter batedores de carteira, conseguiram prender o criminoso. "Um deles me disse que, na verdade, os assédios contra as mulheres eram a verdadeira epidemia", escreveu em artigo ao NY Times, publicado ontem. Já são quase 300 comentários de outras mulheres compartilhando histórias lamentavelmente semelhantes. Fico feliz em saber que o assunto não se restringe apenas à veículos femininos. Mas me surpreendo em ver o quanto ele ainda é subestimado. Uma vez, uma amiga postou um desabafo sobre o assunto no Facebook. Em cinco minutos, literalmente, ela já tinha quase uma centena de "curtir" e uma dezena de comentários. Não é espantoso que um tema tão explosivo para as mulheres seja tão pouco discutido e que essa causa não seja abraçada por mais revistas e jornais? A ação é de tão fácil identificação que certamente teria resultados positivos também para esses meios, engajando novas leitoras e criando um relacionamento mais estreito com elas. Principalmente em um cenário em que normalmente nós não encontramos compreensão de homens e, por vezes, até mesmo das próprias mulheres. Se é difícil entender o que é o machismo, deixo aqui uma boa definição dada por Leonardo Sakamoto, coordenador da ONG Repórter Brasil: "machismo é muitas coisas. Mas é sobretudo uma violência apoiada na naturalização das desigualdades sociais entre homens e mulheres. É o machismo que, diariamente, tenta se apropriar do nosso corpo e nos subtrair algo que é caro a qualquer ser humano: a nossa autonomia"
INSPIRE-SE
Femme de La Rue
Para seu trabalho de conclusão do curso de cinema, Sofie Peeters registrou as cantadas que recebia na rua com uma câmera escondida. O resultado é o cru documentário Femme de La Rue. "Acho que a primeira coisa que uma mulher se pergunta é: 'Sou eu? Foi algo que fiz? São as minhas roupas?'", disse Sofie em uma entrevista à emissora de TV belga RTBF. . Veja o trailer abaixo com declarações como: "as mulheres sabem que as ruas não as pertencem".
E aqui um trecho do documentário para quem tem estômago.
I Hollaback LDN 
No site ihollabackldn.org, as mulheres trocam histórias sobre o assédios em Londres. O grupo ainda promove palestras e workshops.
Stop Street Harassment 
Portal completo com estatísticas, dados, gráficos sobre assédios nas ruas.
Project Unbreakable
O projeto reúne mulheres que sofreram abusos sexuais e, corajosamente, se deixam ser fotografadas com os dizeres de seus agressores. Como uma amiga minha bem notou: "você percebe como as pessoas precisam tirar isso de dentro delas e como elas precisam recuperar suas próprias vozes".