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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Fuck YOu Marion Peck

 

A modelo, atriz e inspiração para todas nós por sua autenticidade no mundo quadrado em que vivemos, Cara Delevingne foi entrevistada por um programa matinal da cidade de Sacramento, na Califórnia. Tudo normal, exceto pelo fato dessa entrevista ter se tornado um monumento à vergonha alheia de tão desastrosa que foi. Estabeleceu-se um ambiente passivo-agressivo que, em seguida, tornou-se apenas agressivo. Quando o link de Cara é cortado, os três apresentadores começam a falar mal do comportamento da moça. Mas… o que eles esperavam?

Cara estava disposta e disponível para falar sobre o seu trabalho. Em suas redes sociais e alguns trabalhos de moda, costuma demonstrar um lado divertido e brincalhão. Como modelo, isso é lucrativo por ser diferente e ousado, e não há dúvidas de que Cara fatura com a construção dessa imagem. Se é autêntica ou inventada, nunca saberemos, mas no momento da entrevista ela não estava ali para entreter ninguém com seu jeito carismático ou agradar a audiência com brincadeiras e sorrisos. Ela é uma atriz que foi convidada para falar sobre um filme que fez. Lá, encontra apresentadores que erram seu nome e insultam sua inteligência ao perguntar se ela ao menos leu o livro que inspirou o longa. Ao se deparar com uma entrevista morna e pouco elaborada, Cara deu respostas mornas e pouco elaboradas, porém foi ela quem levou a fama de rude por não demonstrar uma animação nítida de estar ali. O terceiro apresentador chega a dizer que, ganhando o que ganha, ela tinha o dever de sorrir.

Não é de hoje, porém, que sorrisos e afetações são o mínimo esperado das mulheres, especialmente na mídia. As negras, então, sofrem ainda mais com essa pressão pois qualquer tom menos agradável e elas já caem rapidamente no estereótipo da “negra barraqueira”. Se fala com mais autoridade ou aumenta o tom de voz, “perdeu a razão”. Controlar a postura da mulher é uma sutil, porém eficaz forma de silenciamento que limita a liberdade de expressão, tolhendo emoções e adequando-as aos rígidos padrões do que é considerado feminino e masculino socialmente. Um homem que é assertivo e expressa suas opiniões com dureza sem pedir desculpas por seu comportamento, é másculo, viril, poderoso. A mulher que faz o mesmo é grosseira, machona, bruta ou descontrolada.

Dois pesos, duas medidas
O curioso é que, para sobreviver profissionalmente no mundo corporativo, a mulher ” tem que ter culhão” e “botar o pau na mesa”, expressões machistas que são sinônimos de assertividade, coragem, opinião forte, ambição, garra e outras características geralmente associadas ao sexo masculino. Elas são valorizadas no mundo do trabalho que, é óbvio, ainda não conseguiu se desvencilhar de suas raízes patriarcais. Apesar disso, toda a masculinização necessária para que uma mulher sobreviva e tenha chances de subir degraus na carreira passa a ser desvalorizada no momento em que ela os abraça. Ellen Pao, executiva do Vale do Silício cujo processo contra o machismo corporativo a alçou a manchetes no mundo inteiro, estava à frente do reddit como CEO quando a rede social passou por uma limpeza que excluiu subfóruns misóginos e racistas.

Ellen, que não se deixou intimidar ao dar esse passo contra um público cada vez mais conhecido por seu ódio ao sexo feminino, os nerds, passou então a ser retratada como uma ditadora em charges à frente de paradas militares, em cima de tanques de guerra e com suásticas começaram a pipocar pela internet. Ou seja, uma instituição masculina em essência, o exército, cujas características intrínsecas  são disciplina, rigidez, hierarquia e uso da força, torna-se absolutamente condenável quando associada à ousadia de uma mulher. Ataques sem misericórdia e sem pedidos desculpas em seguida são falhas graves na personalidade de uma mulher. Após outras crises no comando da rede social, Pao foi substituída sob diversas acusações que, semanas depois, mostraram-se falsas.

Estímulos opostos fazem parte do crescimento da maioria das mulheres – e descobrir quem realmente somos no espectro das possibilidades é uma jornada para a vida inteira. Mas, no que se refere ao comportamento, o que se espera de uma mulher, quase sempre, são simpatia e cordialidade. Do contrário, são vistas como rabugentas, metidas ou de TPM. Em um mundo de homens, a presença da mulher tem um quê de favor que jamais poderá ser pago e uma subserviência que é o mínimo esperado. A aceitação parece depender da adequação a um limitado espaço determinado e a um padrão de comportamento dócil, e qualquer passo fora da linha são lidos como sinais de rebeldia e ingratidão.

Talvez seja por isso que as mulheres tenham uma tendência muito maior a pedir desculpas do que os homens.  Mesmo quando estão certas ou em seu direito, é comum que peçam desculpas quase como um reflexo ou adotam uma postura passiva e cordial diante de acontecimentos em que um posicionamento mais firme seria adequado. A Pantene lançou uma campanha endereçada justamente a esse comportamento chamada “Not Sorry” (algo como “Sem desculpas”, em tradução livre), na qual são exibidos diversos exemplos de momentos em que as mulheres se desculpam sem necessidade.

  Um estudo americano realizado em 2010 aponta que o excesso de desculpas das mulheres se dá pelo fato de que os homens têm uma tolerância maior à agressividade do que elas – ou seja, por serem mais sensíveis, elas pensam em como a própria dureza pode afetar o próximo e se desculpam com antecedência para amenizar o incômodo. Mas até que ponto a exposição dos homens a modelos de comportamento mais agressivos e um incentivo muito maior às emoções duras, socialmente masculinizadas, influenciam nesse resultado?

Afinal, desde a infância as mulheres são apresentadas à candura como um ideal a ser alcançado. Brigar, bater, apanhar e continuar brincando não são coisas de menina, mas garotos fazem isso o tempo todo. É mais difícil criar uma carapaça quando um pesado escudo social nos é imposto para nos proteger desde cedo. Princesas fazem parte do imaginário infantil das meninas pois reúnem todas as qualidades tidas como positivas em uma mulher: são bonitas, educadas, falam baixo e cumprem seu papel social com graça e carisma. Você não imagina uma princesa falando firme com um gerente pois o seu pedido veio errado – ela provavelmente diria, sorrindo, que “deve ter havido algum engano” ou, pior ainda, mandaria o príncipe ou um criado ir resolver. Para um homem, exigir seus direitos com firmeza em uma situação dessas é algo normal, sem qualquer necessidade de colocar açúcar para não causar desconforto. Já a mulher que vive essa situação ou abraça a possibilidade de ser vista como barraqueira ou abdica de suas emoções para vestir o cabresto emocional que nos mantém na linha.

Esse comportamento possui consequências que mantêm as mulheres no atraso. A sensação de inadequação as acompanha até no mercado de trabalho. Além de estarem em menor número e ganhando salários menores que os homens, ou talvez por isso mesmo, elas sentem uma angústia muito maior na hora de lutar por cargos e salário. A professora de economia Linda Babcook, da Carnegie Mellon University, publicou em 2003 o livro Women Don’t Ask: Negotiation and the Gender Divide, no qual investigou a atitude das mulheres em relação a salários e promoções. Ela descobriu que mulheres sentem mais ansiedade na hora de pedir por promoções e mais pagamento por seu trabalho. Em seu estudo, ela descobriu que 57% dos homens que se formaram na escola de negócios da universidade negociaram seus salários iniciais, mas apenas 7% das mulheres fizeram o mesmo. Em um artigo de 2005, ela e outros dois co-autores descobriram também que mulheres que tentaram negociar com chefes homens por maiores compensações foram mais rejeitadas que homens na mesma posição – sendo que quando homens e mulheres negociavam com chefes do sexo feminino, o gênero do empregado não interferiu na reação ao pedido de aumento.

Ellen Pao, quando ainda estava no comando do reddit, tomou providências para tentar resolver esse problema. Ela instituiu um salário fixo para novos contratados. “Os homens negociam mais duramente que as mulheres e às vezes as mulheres são penalizadas por negociar”, disse Pao ao Wall Street Journal.  Sendo assim, ela concluiu que, já que os homens se dão melhor na hora de negociar salários ao entrar nas empresas, as mulheres não devem ser punidas recebendo menos simplesmente por não ter a mesma habilidade, embora sejam contratadas para executar o mesmo trabalho. A ideia possui opositores, mas é um sinal de que essa discussão está ganhando adeptos dentro das grandes empresas.

 

O perigo de ser gentil
É preciso desestigmatizar a assertividade e o desagrado feminino, inclusive, pela vulnerabilidade que eles geram também fora do âmbito profissional. Dizer “não” a um homem é uma tarefa dificílima para a mulher. Não apenas por serem programadas desde a infância a agradá-los e a satisfazer seus desejos, mas também pelo medo de parecerem rudes (característica que não é vista como atraente para o sexo feminino) e, principalmente, porque eles não estão prontos para isso. Se por um lado os homens são mais resistentes à agressividade, por outro são extremamente sensíveis à rejeição – o que piora o trabalho delas de se desvencilhar de investidas masculinas e ainda sobra muita culpa de brinde.  Some-se a isso a noção de que os corpos femininos são públicos e o mito de que as mulheres precisam de um homem para ser completas e o que sem tem é a normalização não apenas do assédio, mas também da violência que se segue em caso de negativa. Afinal, quem mandou provocar?

Um exemplo é o que aconteceu com uma redatora do Buzzfeed, Grace Spelman. Após recentemente ser citada em uma lista de mulheres mais engraçadas do Twitter, eis que surge Benjamin Schoen, apresentador de um podcast sobre Harry Potter que ela havia adicionado no Facebook aos 14 anos por ser fã dos livros de J.K. Rowling. No início de agosto, Benjamin enviou um tweet para Grace dizendo-se surpreso de saber que eles já eram amigos no Facebook – e ela educadamente favoritou a postagem, mas não respondeu. Em seguida, ele enviou mais algumas mensagens que ela nunca retornou. Querendo chamar a atenção dela, resolveu entrar em contato via inbox no Facebook:

Grace você faz um ótimo trabalho ao deixar a luz da sua personalidade brilhar online. É hiperativamente lindo. E você parece ser bem introspectiva. Então o que eu quero saber é se você quer casar comigo em um desses lugares tipo drive thru. Se você não suportar toda essa espontaneidade eu entendo que posso estar me adiantando

Estou lançando um novo podcast e adoraria que você ouvisse e, se você gostar, eu amaria que participasse de um episódio

Você me ganhou quando postou aquele vídeo do kendrick lamar

Foi quando me dei conta de que você provavelmente é definitivamente uma alma especial (ou seja “a pessoa certa”) 🙂

Esse smile foi acidentalmente assustador

Grace, que nunca havia feito mais que curtir o primeiro tweet que ele enviou, e até então esse havia sido o único contato correspondido, respondeu com um simples e direto: “Oi Ben! Obrigada pelas palavras gentis, mas na verdade eu já tenho namorado. Espero que fique bem!”. Sentindo-se desconfortável com a insistência dele, ela bloqueou Ben nas duas redes sociais. Foi o suficiente para que ele se revoltasse e enviasse o seguinte email para sua caixa de entrada:

Grace,

Quando você me excluiu do Facebook tão sorrateiramente eu fiquei tão irritado e ofendido que escrevi um texto de 1500 palavras “te colocando no seu lugar”. Mas ao invés de enviar eu salvei como rascunho, já que é minha política não enviar emails quando estou me sentindo irritado, triste ou ferido. Eu quero saber porque você fez isso comigo. Você me parece uma pessoa bem esperta e divertida e as mensagens que eu te enviei foram uma tentativa de fingir ser seu fãzinho. Eu entendo como você pode ter achado que eu estava dando em cima de você. Eu lamento que tenha ficado essa impressão. A última coisa que eu queria era deixá-la desconfortável.Eu só queria quebrar o gelo porque te acho imensamente talentosa e acho que está sendo mal utilizada no seu emprego atual. Sou um escritor, programador e empreendedor. Estava tentando ser seu amigo pois acredito que poderia ajudá-la a avançar na sua carreira. Ao publicar seu trabalho eu melhoraria meus produtos com conteúdo de qualidade.

Essas portas não estão fechadas. Se você não está interessada em trabalhar comigo e se existe alguma outra razão além de você estar ocupada, eu gostaria de saber o porquê. Eu escrevi para você no Twitter para expressar minha genuína admiração e a maneira como você me mandou ir me foder genuinamente me magoou.

Eu queria ver se podia ajudar no seu futuro, já que você havia acabado de twittar que se sentira insegura sobre ele.

Espero que me dê uma segunda chance e possa ver que posso ser útil para você.

Mais uma vez me desculpe se te deixei desconfortável. Eu te admiro Grace e honestamente tenho tido dificuldades para dormir porque não sei o que fiz para te aborrecer tanto.

Espero sinceramente que você me responda.

Quando Grace decidiu expôr a história em seu perfil no Twitter, Ben tornou-se abertamente agressivo e chegou a afimar que Grace estava “naqueles dias”.  Tudo o que ela fez foi desvencilhar-se de um completo desconhecido fazendo uso de dispositivos que existem justamente para afastar pessoas que não desejamos ver em nossas redes sociais. A dificuldade em entender a rejeição e a perseguição que isso gerou fazem parte do pesadelo que uma mulher pode viver ao rejeitar um homem. É desse suposto direito sobre a mulher escolhida que nascem fantasias como a friendzone, uma espécie de purgatório para onde vão os “caras legais” que foram rejeitados por mulheres que – oh, a crueldade! – não queriam nada além da amizade deles.

A zona da amizade realmente existe, mas não há nada de errado em ter só a amizade de uma mulher. Não devemos sexo em troca de uma paixão que não desejamos viver. E, ainda que toda essa fantasia romântica tenha partido da cabeça do homem, as mulheres é que são vistas como malvadas por colocá-los na friendzone. Dizer não, ter uma opinião contrária, mais uma vez faz das mulheres as vilãs da história. No caso da Grace, ela ainda citou o fato de ter um namorado – uma manobra básica para tentar amenizar a decepção do homem, sendo uma desculpa para o fato de não poderem ficar juntos, mas também uma das únicas formas de conseguir o respeito instantâneo deles: associando-se a outro homem já que, se estamos sozinhas, nenhuma razão parece ser suficiente para dispensar o afeto masculino.

Perto dos muitos casos de violência contra mulheres que tentaram sair de relacionamentos, a história de Grace parece simples, mas ela apenas salienta o fato de que esse sentimento de direito dos homens sobre as mulheres permeia até as interações mais superficiais. Por baixo do receio que a mulher sente ao rejeitar as investidas de um homem, está o pavor de uma violência física, uma violação sexual, do uso da força como meio para ele conseguir o que deseja. Pode parecer exagero, mas é autopreservação. E, na manifestação do pior cenário possível, é a falta de cautela da mulher é que vai para o banco dos réus.

 

Virando o jogo
Para Sheryl Sandberg, COO do Facebook, autora do livro e fundadora do movimento Lean In, as mulheres não devem se envergonhar de ter ambição e assumir posições de liderança com assertividade e firmeza. Para ela, não apenas as pessoas devem se adaptar a ver mulheres líderes, mas as próprias mulheres devem se acostumar com essa posição. Ela não acredita que os homens sejam confiantes demais, apenas que as mulheres são confiantes de menos. No livro, ela conta sua trajetória em busca dessa confiança. Mesmo quando foi considerada a quinta mulher mais poderosa do planeta pela revista Forbes, ela ainda pedia desculpas pelo próprio sucesso e sentia uma forte necessidade de agradar os outros. Com tantos estímulos conflitantes durante toda a vida, essa não é uma conclusão a que se chegue facilmente. Por isso, além do livro, o site LeanIn.org incentiva as mulheres a se reunir, se educar e estabelecer uma rede de contatos que as fortaleça profissionalmente.

Particularmente, encontrar a própria voz, se fazer ouvir e não se deixar envergonhar pela própria opinião ou pelo espaço que ocupa no mundo são passos essenciais para o empoderamento feminino. Não é uma tarefa fácil. Afinal, trata-se de uma luta contra séculos de uma socialização que limita e silencia as mulheres. O resultado, porém, pode ser magnífico e recompensador. Nas palavras de Chimamanda Ngozi Adichie, em seu discurso na faculdade de Wellesley este ano:

“No mundo inteiro, as meninas são ensinadas a serem agradáveis, a se moldarem em formas que agradem outras pessoas. Por favor, não se modifiquem para agradar outras pessoas. Não façam isso. Se alguém gosta dessa versão sua que é falsa e te diminui, essas pessoas gostam de uma forma vazia e não de você. E o mundo é tão gloriosamente vasto, multifacetado e diverso que certamente existem pessoas no mundo que vão gostar de você como você é.

 

(…) Uma última coisa sobre minha mãe. Eu e minha mãe discordamos sobre muitas coisas quando o assunto é gênero. Existem algumas coisas que minha mãe acredita que uma pessoa deve fazer apenas “por ser mulher”. Como ocasionalmente acenar e sorrir, mesmo que sorrir seja a última coisa que se queira fazer. Como estrategicamente deixar de argumentar apenas porque a outra pessoa com quem se está discutindo não é uma mulher. Como casar e ter filhos. Eu penso que tudo isso pode ser feito por algumas boas razões, mas “porque você é uma mulher” não é uma delas. Então, Turma de 2015, nunca aceitem o “porque você é uma mulher” como uma razão para fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa.”

Felizmente, mulheres como a Cara, citada lá no início do texto, já aprenderam essa lição e não se curvam mais diante das expectativas alheias sobre o comportamento feminino. Ela é divertida quando se sente divertida e foi séria quando quis ser levada a sério. Aos pouquinhos, exemplos como o dela vão mostrando para o mundo que o valor de uma mulher não se perde quando ela é agressiva, tampouco reside apenas em seu sorriso. Seu conteúdo é o mesmo e merece respeito independente da forma como é expressado. As emoções femininas dispensam juízo de valor e cabresto. Nós somos muito mais que isso.


Arte: Marion Peck

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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Quando você pensa em machismo, o que vem à sua cabeça? Estupro, violência doméstica, restrição econômica, submissão e subserviência. Porém, existem alguns comportamentos machistas que permeiam nosso cotidiano e sequer nos damos conta. Gestos que parecem inofensivos, mas na verdade roubam nossa força, nosso espaço e limitam as possibilidades das mulheres. Mas estamos de olho! A Think Olga traz uma explicação sobre quatro tipos de machismo invisíveis para te ajudar a combatê-los no seu dia-a-dia: manterruptingbropriating, mansplaining e gaslighting. São comportamentos batizados em inglês sem tradução oficial. Mas também achamos imprescindível pensarmos em versões em português!

 

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A palavra é uma junção de man (homem) e interrupting (e interrupção) Em tradução livre, manterrupting significa “homens que interrompem”. Este é um comportamento muito comum em reuniões e palestras mistas, quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor.

Em março, um caso típico ganhou a internet: em um painel do SXSW 2015, evento de inovação, música e cinema que acontece todos os anos em Austin, Texas, uma mulher brilhante discutia a baixa presença feminina na tecnologia ao lado de dois homens, igualmente inteligentes. Eram eles o chairman do Google, Eric Schmidt, o jornalista e biógrafo do Steve Jobs, Walter Isaacson, e a Chefe de Tecnologia do governo americano (Pentágono), Megan Smith. E, apesar de o papo ser sobre ampliar as possibilidades para as mulheres, os homens da mesa não estavam dispostos a ceder espaço a ela. Cada vez que Megan Smith tentava fazer uma colocação, era interrompida de forma desnecessária por um dos dois homens:

  • “Sim, Senhora Smith, sei que você pode falar sobre isso melhor que ninguém, mas é que…”
  • “Acho que esta pergunta (da plateia) tem bastante a ver com a área da Senhira Smith, mas eu só queria falar que…”
  • (falando por cima dela) “Sim, Senhora Smith, mas o que vale a pena ser dito é que…”

Esta postura clássica de manterrupting foi tão impactante que uma pessoa na plateia perguntou porque eles não deixavam Megan falar. O público, que estava incomodado, aplaudiu de pé. Outro episódio famoso é o de Kanye West, que interrompeu Taylor Swift durante seu discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor videoclipe feminino do MTV Music Awards, em 2009. Ele invadiu a cena para defender Beyoncé, que concorria com ela na categoria. A interrupção começou com o “Hey Taylor, I’m really happy for you and Imma let ou finish” e acabou quebrando a internet, com uma enxurrada de memes. Mas, disfarçado de piada, ali está o machismo. Não apenas por não dar espaço para que Taylor falasse, mas também por ele se expressar em nome de outra mulher, no caso, a poderosa Beyoncé. Desnecessário e agressivo. Com licença, Kanye, mas nós não vamos mais deixar você terminar…
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O termo é uma junção de bro (curto para brother, irmão, mano) e appropriating (apropriação) e se refere a quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela em reuniões. Quando colocamos uma ideia, muitas vezes não somos ouvidas. E então, um homem assume a palavra, repete exatamente o que você disse e é aplaudido por isso. Quem já não se viu nesta situação?

Em seu livro “Faça Acontecer”, Sheryl Sandberg, Diretora de Operações do Facebook, convida as mulheres a sentarem à mesa. A serem conscientes de seus lugares e de sua importância na sala de reuniões. Ela explica que somos criadas como delicadas, suaves e gentis, jamais como enfáticas ou assertivas. E quando nos impomos somos vistas como masculinizadas. Não há dúvidas de que isso atrapalha nossa vida profissional.

E este comportamento não é privilégio de algumas áreas. Em todos os mercados funciona assim. Em qualquer sala de reunião. O bropriating ajuda a explicar porque existem tão poucas mulheres nas lideranças das empresas. Além das supostas desvantagens mercadológicas e o preconceito de gênero, ainda servimos de plataforma para o crescimento de colegas homens, pelo simples fato de sermos menos ouvidas e levadas a sério. Garotas do mundo todo, sejamos as donas das nossas ideias!

 

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O termo é uma junção de man (homem) e explaining (explicar). É quando um homem dedica seu tempo para explicar a uma mulher como o mundo é redondo, o céu é azul, e 2+2=4. E fala didaticamente como se ela não fosse capaz de compreender, afinal é mulher. Mas o mansplaining também pode servir para um cara explicar como você está errada a respeito de algo sobre o qual você de fato está certa, ou apresentar ‘fatos’ variados e incorretos sobre algo que você conhece muito melhor que ele, só para demonstrar conhecimento. Acontece muito em conversa sobre feminismo!

Um caso bem ilustrativo foi de um comentarista da CNN, ao falar sobre o caso Hollaback!, em Nova York, e mansplaining assédio sexual em locais públicos para a âncora e para a outra entrevistada:

Algumas pérolas selecionadas (com comentários):

  • “Não há nada que uma mulher goste mais do que ouvir o quanto ela é bonita.” (puxa, obrigada por essa informação #sqn)
  • “Se ela não gosta de cantadas, ela que não saia na rua.” (ótima ideia! Não, péra.)
  • “E por que as mulheres simplesmente não respondem pros caras, já que elas não gostam? (Oi, tem mulher que morre por causa disso, amigo. #exausta)

A verdadeira intenção do mansplaining é desmerecer o conhecimento de uma mulher. É tirar dela a confiança, autoridade e o respeito sobre o que ela está falando. É tratá-la como inferior e menos capaz intelectualmente. Talvez você não tenha percebido isso de forma tão explícita no seu cotidiano, mas com certeza agora irá prestar atenção na maneira como seu chefe ou seu marido falam com você, com os elogios desnecessários ou idiotas que você recebe, nas mensagens bobas de parabéns pelo dia das mulheres. Tá tudo lotado de mansplaining.

 

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Gaslighting é a violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade. Este comportamento afeta homens e mulheres, porém somos vítimas culturalmente mais fáceis. No dia a dia, aposto que vocês já ouviram alguma vez – ou várias:

  • “Você está exagerando”
  • “Nossa, você é sensível demais”
  • “Para de surtar”
  • “Você está delirando”
  • “Cadê seu senso de humor?”
  • “Não aceita nem uma brincadeira?”
  • E o mais clássico: “você está louca”.

O termo gaslighting surgiu por causa de um filme de mesmo nome, de 1944, em que um homem descobre que pode tomar a fortuna de sua mulher se ela for internada como doente mental. Por isso, ele começa a desenvolver uma série de artimanhas – como piscar a luz de casa, por exemplo – para que ela acredite que enlouqueceu.

Um caso recente, ocorrido dentro da marinha americana, foi noticiado pela imprensa: cinco mulheres afirmaram ter sido vítimas de estupro dentro da corporação. Poucos meses depois, todas foram afastadas por problemas emocionais. Outras mulheres relatam casos dentro da instituição. Após denunciar as agressões, ouviram de volta:

  • “Não venha me aborrecer só porque fez sexo e se arrependeu.”
  • “Isso nunca aconteceu. Agora pode ir embora.”

Isso é gaslighting. Uma forma de manipulação que desencadeia um total esvaziamento da autonomia da vítima. Uma ferramenta presente em muitos relacionamentos, que levam as mulheres a abrir mão de suas escolhas, de suas opiniões e até de cuidar da sua própria vida. É desempoderamento, opressão e controle. Algo que não deve ser admitido em nenhuma situação.

Manterrupting, bropriating, mansplaining e gaslighting. Saber que estes problemas existem já é parte importante da solução. Estar atenta aos pequenos gestos cotidianos e transformá-los pouco a pouco farão a sua vida, e de muitas mulheres, melhor.

 

Pequeno dicionário:

#manterrupting: quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor.

#bropriating: Quando, em uma reunião, um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela.

#mansplaining:  É quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a você, como se não fosse capaz de compreender, afinal você é uma mulher.

#gaslighting: violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz.

 


Maíra Liguori é jornalista, publicitária e co-fundadora do Think Eva

Arte: Aline Jorge

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Parece simples, mas não é. A fronteira entre o estupro e o sexo ainda está embaçada na cabeça de muita gente. O hit Blurred Lines, sucesso absoluto na voz do cantor Robin Thicke em parceria com o rapper Pharrell, é basicamente uma ode à violência sexual. Pra se ter uma ideia, o Projeto Unbreakable, que reúne fotos de vítimas de estupro segurando cartazes com o que seus agressores diziam na hora da violência, conseguiu recriar a letra da música apenas com imagens previamente publicadas.

A popularidade desse tipo de canção é um forte indício da identificação ou da conformidade do público com essa abordagem. “Eu sei que você quer”, “A maneira como me segura, deve estar querendo mais”: a canção (e a sociedade?) está lotada de suposições equivocadas sobre o desejo da mulher. Ela é considerada apenas parte interessante, mas não interessada, pois em nenhum momento perguntam o que ela quer.

Consentimento é a certeza de que as duas (ou mais) pessoas estão dispostas a participar de uma interação afetiva. Do flerte ao sexo, qualquer tipo de aproximação entre um casal só pode ter sucesso caso ambos estejam absolutamente certos do desejo do outro em estar ali. É preciso ter um entendimento inequívoco da vontade de ambos – tanto de um para o outro, quanto individualmente (ou seja, se VOCÊ quer mesmo que isso aconteça).

Relacionamentos, sejam de uma noite ou para a vida inteira, não devem ser encarados como uma obrigação, mas como uma escolha. Independente dos motivos que levam duas pessoas a ficar juntas, o ideal é que eles venham de dentro, que sejam genuínos e pessoais. Consentir é diferente de “deixar” ou “dar permissão”: é verdadeiramente querer e desejar que aquilo aconteça.

O consentimento só pode ser dado por livre e espontânea vontade. Todo ato íntimo proveniente de ameaça, coerção e intimidação é considerado estupro. Por isso, antes de continuarmos nosso papo sobre consentimento, precisamos primeiro acabar com alguns mitos sobre violência sexual:

Mito 1 – Estupro só acontece em vielas escuras e são cometidos por tarados malucos que vivem atrás de moitas

A maioria dos estupros é cometida por pessoas conhecidas pelas vítimas, muitas vezes em suas próprias casas e por seus parceiros íntimos. Por mais desagradável que esse pensamento seja, é preciso encarar a realidade de que é preciso muito mais que “evitar andar sozinha à noite” para evitar ser violentada.

Mito 2 – Mulheres provocam o estupro por se vestirem de maneira sexy

“Mas ela está pedindo!”. Não, ninguém pede para ser estuprada e nem todas as vítimas estão de saia curta. A única pessoa responsável por um estupro é o estuprador. Os homens (que geralmente são os aqueles percebidos como perpetrores desse tipo de violência) não são bestas selvagens e deveriam se ofender com a acusação de que não podem se controlar ao ver um decote. Uma mulher deve ser livre para vestir o que quiser sem temer ser violentada por isso.

Mito 3 – Mulheres que bebem ou se drogam estão pedindo pra ser estupradas

A vulnerabilidade que acompanha o entorpecimento não implica que a mulher esteja disponível para fazer sexo. Se ela está inconsciente ou parece incapaz de tomar uma decisão, tal como dar consentimento, é estupro. Beber não é crime, estupro sim.

Mito 4 –Se a vítima não gritou, fugiu ou se machucou, então não é estupro

Qualquer relação sexual sem consentimento é estupro. Não é necessário nada além disso para que essa situação configure como violência sexual. Em muitos casos, a vítima coopera com o estuprador por temer pela própria vida, ou por consequência de sua personalidade ou da situação, não têm coragem ou força de reagir, sentindo-se paralisadas pelo pavor. Esse tipo de questionamento transfere a responsabilidade de evitar o estupro para a vítima – e, como já dissemos anteriormente, o único culpado pelo estupro é o estuprador.

Mito 5 – Se a vítima não reclama ou dá queixa logo em seguida, não é estupro.

Um estupro pode provocar sentimentos de vergonha e culpa tão grandes que impedem a vítima de falar sobre o assunto. Ainda mais vivendo em uma sociedade que tenta justificar o estupro de todas as formas (vide esses mitos!) e constantemente transfere a culpa

Mito 6 – Estupro de prostituta não conta

A prostituição é baseada fundamentalmente no consenso em praticar atos sexuais em troca de dinheiro.  O que passa desse acordo é estupro.

 

Ok, então… como consentir e como obter consentimento?

Comunicação! Comunicação! Comunicação! Para ser eficaz, o consentimento deve ser expresso de maneira ativa e voluntária, por meio de palavras ou ações que indiquem o desejo mútuo de participar de uma atividade sexual. Confira abaixo algumas reflexões importantes sobre consentimento:

– Ambiguidade não ajuda em nada. Sim é sim e não é não. É importante é respeitar esses limites quando dados pelo seu parceiro ou parceira.

– Sentiu desconforto para dizer não? Sinal vermelho! É um forte indicativo de intimidação e medo – coisas que não combinam com momentos de intimidade nos quais devemos nos sentir seguras para expressar nossos desejos.

– Se o parceiro ou parceira está hesitando, o ideal é não ir adiante com o contato íntimo. Consentimento é ter absoluta certeza de que o que está acontecendo naquele momento é algo que os envolvidos desejam verdadeiramente. Talvez é não.

– Consentimento para um ato sexual específico não significa que todos as outras formas de interação íntima estão liberadas.

– Mesmo depois que o consentimento tenha se estabelecido entre o casal, ambos são livres para mudar de ideia em qualquer momento do ato sexual.

– Caso isso aconteça, seja por palavras ou ações, a relação deve ser interrompida imediatamente. Ainda que o “não” tenha soado meio indeciso ou confuso, ele deve ser respeitado como uma quebra do acordo prévio. E sem consentimento, sem sexo.

– Especialmente entre casais que já se relacionam a mais tempo, o consentimento deve ser obtido toda vez em que houver atividade sexual. A intimidade pode levar a deduções que nem sempre são corretas e, consequentemente, levar a experiências desagradáveis.

– Ser casado com a vítima não exime o marido de ser um criminoso. A inglesa Sarah Tetley, por exemplo, foi estuprada mais de 300 vezes pelo marido enquanto dormia. Ela trouxe sua história a público recentemente para aumentar a conscientização sobre o abuso.

– Silêncio, falta de resistência verbal ou física e relações anteriores não são sinônimos de consentimento, bem como tipos de roupa, flertar, um drink, um jantar ou qualquer outro gasto com alguém, também não significam que ele ou ela consentiu em fazer sexo com você.

– Usar drogas ou beber não impedem deliberadamente uma pessoa de consentir em fazer sexo, mas certos níveis de intoxicação a tornam incapaz de tomar essa decisão.

– Consentimento não se obtém com o uso de força (literal ou implicitamente), ameaças, intimidação e coerção.

– É sempre OK dizer não. Seja por que você não tá afim, por causa de religião, por ter medo de pegar uma doença, se quiser ir devagar ou só ver a pessoa como amigo e não como parceiro sexual. Se você acha que tem que consentir, então a escolha não é mais sua.

Sexo é pra ser divertido e empoderador. Falar sobre isso, também. Respeitar o consentimento é uma das responsabilidades de quem tem uma vida sexual ativa. Não se trata de preciosismo, mas de tomar cuidado para não ultrapassar os limites do seu parceiro e transformar um momento prazeroso em uma experiência traumática.

 


Arte:  Emily North

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olga cidades mulheres bike

olga cidades mulheres bike

Eu me lembro de assistir um stand up do humorista Donald Glover no qual ele dizia que, ao se mudar para uma cidade que ele considerava mais perigosa nos Estados Unidos, as mulheres que ele levava para casa sempre pediam para que ele as conduzisse até o carro ou táxi na hora de ir embora. Ele começou a se sentir incomodado com a tarefa, até que se deu conta de que ela era motivada pelo medo de suas amigas andarem sozinhas pelas ruas, mesmo que fosse por uma pequena parte da calçada.

A epifania de Donald gerou algumas piadas para seu show de comédia, mas a sensação de insegurança das mulheres ao circular pelas cidades não tem a menor graça. Esse é apenas um dos muitos paliativos encontrados pelo sexo feminino para exercer um direito que devia lhes pertencer, mas que é violado pela constante impressão de que, a qualquer esquina menos iluminada, ela pode sofrer algum tipo de violência.

Existem outras diferenças na maneira como a mulher vivencia a cidade. Em um mundo majoritariamente androcêntrico, é de se imaginar que o desenvolvimento urbano tenha ignorado as necessidades das mulheres em particular. À elas é reservado o passaporte de turista em cidades construídas para os homens e urbanizadas de acordo com o deslocamento deles pelas ruas e avenidas. Tornar as cidades mais amigáveis para as mulheres envolve a compreensão da sua rotina e da sua relação com o espaço urbano. Esse entendimento envolve, em boa parte, as conquistas femininas que transformaram a realidade das mulheres nos últimos anos.

Como, por exemplo, a conquista de espaço no mundo do trabalho. Para começar, essa mudança não implicou em uma divisão dos afazeres do lar, pelos quais elas tradicionalmente se encarregavam. Assumir cargos em empresas e sair de casa para trabalhar foi, por muito tempo, considerado uma espécie de capricho pelo qual a mulher devia pagar o preço. Elas até podiam ter empregos, contanto que não faltassem com seus compromissos de esposa, mãe e do lar – uma condição de milhares de mulheres no mundo inteiro até os dias atuais.

As poucas décadas de história vividas até o presente ainda não foram suficientes para reparar séculos de exclusão social feminina, embora a quantidade de conquistas obtidas desde então seja inegável. Ainda não há um equilíbrio satisfatório entre trabalho e responsabilidades de casa para a maioria das trabalhadoras. A rotina da mulher, trabalhe ela ou não, ainda é essencialmente distinta do homem – e isso afeta diretamente a relação delas com a cidade.

Perceber as distinções de gênero na arquitetura e no urbanismo demanda certa sensibilidade às gritantes sutilezas que cerceiam o direito de ir e vir feminino. A ActionAid realiza um importante trabalho de conscientização nesse sentido. Em agosto, a ONG lançou no Brasil a Campanha Cidades Seguras para as Mulheres, cujo objetivo é conseguir o comprometimento de gestores públicos com a melhoria da oferta dos serviços nas cidades para torná-las mais seguras para as mulheres. A organização procura identificar, através de metodologias participativas, quais as relações e dificuldades que elas enfrentam nos espaços públicos.

O movimento acompanha uma tendência internacional de replanejamento urbano sob a perspectiva de gênero (ou gender mainstreaming, uma estratégia globalmente aceita para a equidade entre os sexos corroborada pela Organização das Nações Unidas).  A cidade de Viena, capital da Áustria, é uma das pioneiras a considerar o fator de gênero em suas políticas públicas. Em 1991, a planejadora urbana Eva Kalil e um grupo de colegas lançaram uma exposição fotográfica chamada “Quem Domina o Espaço Público – A Rotina das Mulheres na Cidade”, que mostrava o dia a dia de um grupo de mulheres vienenses pelas ruas da capital e mais de quatro mil pessoas conferiram a exposição. O evento também chamou atenção da mídia e das autoridades, que perceberam a importância do tema e deram abertura para a criação de projetos urbanísticos que considerassem o viés do gênero. O primeiro a ser criado foi um complexo de apartamentos batizado de Frauen-Werk-Stadt ou Mulher-Trabalho-Cidade.

Para o projeto, foi realizada uma pesquisa que revelou que as mulheres dedicavam mais tempo a cuidar da casa e das crianças que os homens. Por isso, o conjunto contava com diversos pátios nos quais pais e filhos podiam brincar sem se afastar do lar, bem como uma gama de serviços úteis como farmácia, creche, consultório médico e transporte público – mais utilizado por elas do que pelos homens, como apontou outro projeto, anos depois.

Em 1999, a prefeitura de Viena realizou  mais uma pesquisa, dessa vez com os habitantes da cidade para descobrir com que frequência e porque eles utilizam transporte público. Os homens preenchiam o questionário em dois minutos, mas as mulheres simplesmente não paravam de escrever. O levantamento mostrou que eles utilizavam carro ou transporte público duas vezes ao dia – uma para ir e outra para voltar do trabalho. Já as mulheres descreveram um padrão muito mais variado de circulação pela cidade, incluindo em suas rotinas levar filhos ao médico, buscá-los na escola, fazer compras com a mãe e ir ao salão de beleza, por exemplo. Elas utilizavam muito mais o transporte público e andavam bem mais a pé que os homens, além de dividirem mais o tempo dedicado ao trabalho e à família, cuidando de crianças e de pais idosos.

Os planejadores urbanos da cidade, então, decidiram criar um plano que melhorasse a mobilidade dos pedestres e o acesso ao transporte público, além de tornarem a circulação à noite mais segura. A prioridade para elas é a segurança e a facilidade de movimentação. As calçadas foram alargadas e as escadas da cidade ganharam rampas que permitem a passagem de carrinhos de bebê, andadores e cadeiras de roda.

Viena também conta com parquinhos que incentivam a permanência de meninas, já que elas normalmente acabavam sendo expulsas pelos meninos que dominavam o território com suas brincadeiras. O exemplo da capital austríaca é uma inspiração para outros projetos, como os da cidade de Seul, na Coréia do Sul, hoje conhecida como a cidade mais amigável para as mulheres; de Berlim, cujos planejadores urbanos há mais de dez anos se debruçam sobre pesquisas, na aplicação e no envolvimento da população em mudanças que respeitam as diferenças entre os sexos na cidade; e de Camberra, na Austrália, que também realizou um estudo profundo sobre o uso do transporte público pelas mulheres.

No Brasil, o foco das ações da campanha lançada pela ActionAid estão focadas na segurança das mulheres em todo o território nacional. Para fortalecer o diálogo com diferentes áreas do governo e discutir questões relacionadas ao Cidades Seguras Para As Mulheres, a ONG entregou em secretarias municipais e estaduais, prefeituras e governos Estaduais uma carta política que aborda todos os pontos da campanha. Também já foram organizados lanternaços em três Estados (Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo) – uma ação que chama atenção da comunidade para locais públicos com falhas na iluminação e pressiona o poder público tomar providências. Ana Paula Ferreira, coordenadora da equipe de Direitos das Mulheres da ActionAid no Brasil, conversou com o Think Olga sobre a importância do projeto.

 

Por que hoje as cidades não são seguras para as mulheres?

Todas as mulheres sentem-se inseguras na cidade e vivem construindo uma série de estratégias, como não usar determinadas roupas, não sair sozinhas, não andar na rua em determinados horários e por aí vai. Isso se deve ao fato de que as cidades, historicamente, foram concebidas e construídas segundo uma perspectiva que não incluía as mulheres como sujeitas beneficiárias do espaço público. Ou seja, como durante muitos anos a gestão pública, o crescimento das cidades, e principalmente, o viver social foram processos eminentemente masculinos, a presença das mulheres nas cidades se tornou um fator estranho que se traduzia em uma violência sistemática na medida em que o espaço público não era pensado para as mulheres. Ruas escuras, demora no transporte público, assédio dentro e fora dos coletivos e falta de preparo dos policiais para lidar com questões ligadas à violência de gênero são exemplos de problemas dessa violência e que fazem aumentar a vulnerabilidade das mulheres nas cidades brasileiras hoje.

E tudo isso piora quando se trata de mulheres que vivem nas periferias das cidades. Na pesquisa que realizamos com 306 moradoras de áreas de periferia de Rio, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Norte, 53,3% das entrevistaram disseram que a má qualidade dos serviços públicos aumenta casos de estupro, assalto ou assédio. Enfim, as mulheres são impossibilitadas de viver plenamente suas cidades, pelo medo, por experiências de insegurança propriamente dita, pela falta de oportunidades, serviços públicos ineficientes e principalmente, pelas desigualdades de gênero presentes na nossa cultura.

 

Como funciona o trabalho do Cidades Seguras para as Mulheres?

A Campanha Cidades Seguras para as Mulheres foi lançada no início de agosto deste ano durante o Encontro Nacional do Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU), na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, com a presença de representantes de movimentos feministas. Um de nossos objetivos é conseguir o comprometimento dos gestores públicos com a melhoria da oferta dos serviços nas cidades, para torná-las mais seguras para as mulheres. O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, esteve presente no lançamento da nossa Campanha e recebeu nossa carta política, com as demandas listadas acima, e a pesquisa que realizamos para embasar a campanha. Os números são uma pequena amostra da relação entre a falta de qualidade dos serviços públicos e a sensação de vulnerabilidade das mulheres de periferia e a real incidência de violência entre elas.

A construção da campanha começou em 2011, com a realização de um projeto piloto financiado pela ActionAid internacional. Procuramos identificar, através de metodologias participativas, quais as relações e dificuldades que as mulheres enfrentavam nos espaços públicos. Desse trabalho, foi gerado um relatório internacional com mais quatro países (Quênia, Nepal, Etiópia, Camboja) demonstrando que a violência de gênero nos espaços públicos era uma realidade, mas também um aspecto muitas vezes invisível, assim como a própria existência das mulheres nas cidades.

Com a expansão desse trabalho, hoje atuamos diretamente em seis comunidades de quatro estados brasileiros em parceria com seis organizações parceiras: Maré (RJ – Redes da Maré); Heliópolis (SP – UNAS); Passarinho (PE – Casa da Mulher do Nordeste); Mossoró e Upanema (RN – Centro Feminista 8 de Março); Ibura (PE – ETAPAS); Cabo de Santo Agostinho (PE – Centro das Mulheres do Cabo). Nesses lugares, realizamos oficinas participativas em que as próprias mulheres das comunidades apontam suas demandas e constroem coletivamente o seu entendimento sobre Cidades Seguras para as Mulheres.

Com as informações e demandas levantadas nesse processo, estamos realizando diversas atividades: um abaixo-assinado junto a movimentos sociais em todo o país que queremos apresentar aos candidatos aos governos dos estados, junto com a carta política; articulação com o Fórum Nacional Reforma Urbana e Movimentos Locais para levar à reunião da UN Habitat, em 2016, a demanda para que o direito à cidade seja reconhecido como um direito humano. A ActionAid gostaria que o debate por cidades seguras ocupasse um papel central neste diálogo. Em novembro, levaremos a plataforma de cidades seguras para o seminário internacional de direito à cidade, em São Paulo.

Realizamos também lanternaços na comunidade de Passarinho, em Recife, e na cidade de Upanema, no Rio Grande do Norte. Descobrimos que, motivadas pelo medo da escuridão, muitas mulheres andavam com lanternas nas bolsas. Convidamos então as moradoras para percorrer pontos críticos desses locais com as lanternas nas mãos, para denunciar o problema da falta de iluminação. Em Upanema, no dia seguinte à ação, uma das participantes nos comunicou que a empresa de energia estava consertando os postes de sua rua. Estamos com um lanternaço agendado para 08 de setembro em Heliópolis (SP). Temos ainda uma plataforma digital da campanha, onde as pessoas podem ler textos e assistir a vídeos que retratam como o medo da violência nas cidades impacta as vidas das mulheres. Além disso, estamos com uma ação voltada para as redes sociais, em que as pessoas podem postar mensagens de apoio e engajamento com a campanha com a #cidadesegurasporque. Todo o conteúdo aparece no tumblr www.cidadessegurasporque.tumblr.com

Quais são os principais aspectos das cidades que podem ter melhorias significativas para a população feminina?

A precariedade e até a inexistência dos serviços públicos básicos aumentam ainda mais a vulnerabilidade das mulheres à violência, na medida em que limitam o exercício do Direito à Cidade. É preciso ter em mente que um planejamento urbano sensível a gênero com serviços públicos de qualidade e direito à cidade é pilar fundamental para trazer mudanças significativas nas vidas das mulheres.

Na realização da campanha, construímos uma carta política em parceria com as mulheres que entrevistamos. O documento traz as demandas delas para a melhoria da oferta desses serviços. Em iluminação, governo e concessionárias devem garantir a universalização da implantação e manutenção, fazendo o serviço chegar a todas as ruas, becos, praças, praias, ciclovias, parques, comunidades, pontos de espera por transporte público, e quaisquer acessos a unidades de utilidade pública, como estabelecimentos de ensino e de saúde.

Em transporte, é urgente melhorar a qualidade e a quantidade da frota dos meios de transporte público, priorizando a oferta para as áreas de periferia e comunidades, pois, de acordo com pesquisa que realizamos, a demora no transporte público aumenta sua vulnerabilidade (a maioria das mulheres que entrevistamos relata um tempo de espera de pelo menos 50 minutos pelos ônibus); a retirada ou substituição das propagandas de “outbus” que impedem a visibilidade de dentro dos veículos e favorecem a prática de violência; e a capacitação de motoristas e cobradoras/es para lidarem com casos de assédio dentro dos coletivos.

Em policiamento, destacamos a demanda por capacitação de policiais para o atendimento humanizado aos casos de violência contra a mulher e coibição de casos de assédio sexual, bem como a estruturação dos aparelhos de contenção de violência contra a mulher; e o debate sobre a possibilidade de leis específicas de combate à violência contra a mulher em espaços públicos.

Em relação ao tema da moradia, questão central nas cidades brasileiras, a perspectiva das mulheres – uma vez que na maioria das vezes são elas que ficam responsáveis pelo trabalho relacionado ao cuidado – deve ser levada em consideração; é preciso garantir acesso à moradia digna e, principalmente, que as mulheres tenham segurança na propriedade dos seus lares. Por exemplo, é preciso que os programas de financiamento habitacional atendam às necessidades das mulheres pobres.

Em educação, alguns dos pontos levantados foram a implementação de estratégias para promover uma educação não sexista, não racista, não homofóbica, inclusiva e contextualizada a partir de diálogos do governo com conselhos, fóruns de educação, organizações da sociedade civil e grêmios estudantis. Outra demanda recorrente que tem impacto direto no acesso das mulheres ao mercado de trabalho e à formação acadêmica é a melhoria na qualidade e na quantidade de creches – reivindicação história do movimento de mulheres, principalmente nas áreas de periferia.

 

Como você definiria uma cidade segura para as mulheres?

A mulher pode usufruir do seu direito à cidade quando ela vive livre do medo e da violência, e livre das violações de direitos que surgem nos espaços onde mulheres vivem e trabalham. O medo das mulheres limita o uso do espaço urbano cada vez mais. Em determinados lugares, elas se transformam em prisioneiras em suas próprias casas. Uma cidade segura para as mulheres é principalmente aquela em que a sua cidadania está garantida através do acesso a serviços, com liberdade e ir e vir quantas vezes forem necessárias; é aquela onde elas podem andar sozinhas, não se preocupar com horários, nem com seu modo de se vestir. Uma cidade segura para as mulheres é aquela em que a vontade das mulheres é respeitada, ou seja, é a cidade em que elas têm autonomia para ser quem querem.

 

Existe algo que as mulheres possam fazer para fomentar essa mudança?

Precisamos nos unir em torno desse tema. Convidamos as mulheres a se engajarem nesta campanha e em outras iniciativas que tratem do assunto. É importante dar visibilidade e desnaturalizar o comportamento machista que gera violência e assédio contra as mulheres. Precisamos tratar do tema de cidades seguras para as mulheres deixando clara sua relação com os temas de direito à cidade e de planejamento urbano. As moradoras de São Paulo estão convidadas a participar do lanternaço em Heliópolis. E as mulheres de outros estados que participam ou não da campanha podem acompanhar nossos canais digitais para se engajar e ficar a par das discussões sobre o tema e também conhecer outras organizações e/ou iniciativas que tratem deste assunto. E, claro, todas elas podem e devem denunciar a violência contra a mulher. É preciso que trabalhemos na construção de uma rede de sujeitas engajadas através da solidariedade das mulheres para rejeitar a violência e também lutar coletivamente por uma nova realidade nas cidades.


 

Arte: Raid71

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fotos vazadas olga

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Diante do lamentável vazamento (na verdade, roubo) de fotos das celebridades, é com satisfação que vemos tantos artigos positivos e esclarecedores sobre a violência online contra a mulher. Indicamos alguns:

:: O BuzzFeed fala sobre como a sociedade que compra e vende mulheres hipersexualizadas é a mesma que se choca quando a mulher é o sujeito do seu próprio desejo.

:: O Gizmodo se recusa a postar as fotos, os links para as fotos e explica aos seus leitores o valor da privacidade. “Se você terminar de ler esta matéria e for atrás dessas fotos, você precisa prometer nunca mais reclamar sobre a vigilância da NSA”

:: Não compartilhou, mas viu as fotos? O Daily Life explica por que isso perpetua o problema

:: O Ativismo de Sofá faz uma análise do público X privado, além de refletir sobre a objetificação feminina.

:: O Chez Noelle fala sobre victim blaming

:: No Lado Errado da Rua: A hipocrisia do celebgate e a geração que julga a todos

:: A Revista Sexy, cuja base do trabalho é fotografar mulheres nuas, lembra do conceito de consentimento

:: Lainey Gossip: “Se insistirmos na ideia de que a nudez feminina é escandalosa, nós então concordando que mulheres não devem ficar peladas e, se ficam, é porque estão fazendo algo errado”

:: Jezebel: Atrás de toda mulher vítima de bullying, há um homem gritando “liberdade de expressão”.

:: A Esquire reforça: “Não significa não. Até mesmo quando falamos de fotos roubadas”.

:: A TIME pergunta “Onde Estão As Fotos Vazadas de Homens?” e faz uma boa análise sobre a cultura sexista da internet.

:: Dois pesos, duas medidas: The Verge afirma que os homens que reclamam de serem vigiados pela NSA são os mesmos que culpam as mulheres por serem expostas por hacker.

:: Ótima postura da Forbes: não devemos tratar esse caso como um escândalo. Devemos tratá-lo como um crime sexual que invade a privacidade, rouba artigos pessoais e explora o corpo feminino.

:: A internet não gosta das mulheres. E o Huffington Post Women nos relembra dessa violência de gênero online.

:: Precisa desenhar para aprender? O Mashable fez um flowchart respondendo a pergunta: “Devo ver as fotos hackeadas?”. Spoiler alert: NÃO.

:: O Biscate Social Clube fez um tutorial do que fazer quando fotos íntimas são vazadas. Spoiler alert 2: NÃO VEJA AS FOTOS.

:: Lugar de Mulher denuncia o machismo como o caso está sendo tratado também por especialistas na TV (dá para acreditar?)

:: Girls With Style desabafa sobre o vazamento de imagens íntimas.

:: “E se quem visse as fotos das famosas nuas que caíram na internet também fosse culpado pelo crime?”, pergunta o Yahoo Mulher.


 

ARTE: Peony Yip

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olgaENVIAR

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“Eu nunca tive um orgasmo”. Quando eu tinha 18 anos, uma amiga me contou isso. Na época, uma Gabriela fã de carteirinha da Sue Johanson ficou em choque. “Como assim nunca teve um orgasmo? Tu nunca te masturbou??” – ênfase no sotaque gaúcho carregadíssimo de Santa Maria.

A resposta dela fez todo sentido: “não, nunca me toquei”. Ela dizia que até alguns anos atrás achava “nojento”, que era uma “guria de respeito” e que quando teve vontade mesmo, o bloqueio já era muito grande. Que conselho eu podia dar à minha amiga na época? “Assista a um filme pornô”? Nem eu assistia, a pornografia nunca me deu um pingo de tesão, com humilhações, depilações exageradas, fantasias que nunca foram as minhas e uma boa dose de violência. Tenho certeza de que há várias meninas como ela por aí, com nojo e vergonha da própria vagina e sem qualquer consciência do próprio corpo, muito menos do que lhes dá prazer. E isso tem tudo a ver com opressão a mulheres e pornografia mainstream.

Muitas feministas são antipornografia. Como dizia a feminista Robin Morgan: “a pornografia é a teoria; o estupro é a prática.” Há bons argumentos nessa linha feminista, como o fato de que é uma indústria que existe somente para fazer dinheiro, que mastiga e cospe as mulheres e mostra violência, assédio e ofensas como algo  aceitável e parte da sexualidade masculina. Dizem que a pornografia promove padrões de beleza misóginos e que afeta a todos porque influencia a forma como homens veem mulheres. “A pornografia mainstream heterossexual dita uma ideia estreita e limitada do que é a sexualidade humana. Na pornografia, a sexualidade masculina pressupõe crueldade, coerção e degradação e a feminina como submissa ou aparentemente apreciadora de um tratamento cruel, coercitivo e degradante. A pornografia anula as necessidades sexuais das mulheres e dificulta a descoberta de seus próprios corpos e sua sexualidade”, diz um blog americano de feministas antipornografia.

Vamos falar sobre alguns fatos da indústria pornográfica que fazem com que muitas feministas se oponham à pornografia. É um negócio bilionário, centralizado na Califórnia, onde fica 90% da produção mundial, dirigido e produzido por homens e voltado ao prazer masculino através da dominação. Sabe-se que 80% das sobreviventes do tráfico de pessoas relatam que seus algozes usaram a pornografia para mostrar a elas como deveriam se comportar em seu estado de escravos sexuais. Muitas vezes, essas vítimas também são fotografadas e filmadas para a indústria pornô, a fim de multiplicar o ganho de seus sequestradores. Além disso, muitas atrizes pornôs relataram situações análogas ao tráfico humano e/ou à escravidão sexual. Uma delas é Linda Lovelace, famosa pela sua atuação em Garganta Profunda e eternizada como símbolo da revolução sexual dos anos 1970. Só que era tudo uma mentira: na verdade, Linda era torturada, espancada e obrigada sob ameaça de morte a fazer filmes pornográficos por seu marido abusivo Chuck Traynor. Depois de conseguir fugir dele, Linda virou uma ativista antipornografia e relatou os abusos a que foi submetida em uma série de entrevistas até morrer em um acidente de carro em 2002. Um filme sobre sua história foi lançado no ano passado, inclusive. Assista ao trailer:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=O0Dyx3SE2Yo?rel=0&w=560&h=315]

 

Como é um mercado, a competição impera na indústria pornô, e o conteúdo “evolui” para práticas cada vez mais “ousadas”. O gang bang de três caras com uma mulher de repente vira o “extreme gang bang”, com 10, 20, 150 caras. O sexo anal vira rosebud (só dê um Google se tiver estômago). Surgem canais especializados em surras e outras práticas cada vez mais extremas, “extreme isso”, “extreme aquilo”. E assim por diante, com atos cada vez mais violentos e mais destruidores de corpos femininos. Quando eu falo destruidores, não me refiro somente a DSTs e HIV, que já configuram um cenário aterrador, mas a ferimentos graves nos órgãos genitais. No St. James Infirmary, uma clínica criada por trabalhadores da indústria do sexo para trabalhadores da indústria do sexo (inclusive prostitutas e garotos de programa) em São Francisco (Califórnia), reconstituição de vaginas e ânus são procedimentos comuns. Isso sem contar as “ciladas” que estão sempre bombando nos sites pornôs, como a que um cara finge que vai contratar uma funcionária como forma de persuasão para receber sexo oral ou outros serviços. Claro que essas emboscadas não são reais e sim hermeticamente produzidas pela indústria pornô, mas a mensagem de enganar mulheres só pela diversão é transmitida com sucesso.

Nos Estados Unidos, há algumas organizações de proteção a atrizes pornôs. Uma delas é a Pink Cross Foundation, uma instituição de caridade criada por Shelley Lubben, ex-atriz pornô que deixou o ramo após ser infectada pelo vírus da herpes e perder metade do útero. Shelley é uma voz importante no movimento antipornografia americano e sua organização realiza e divulga uma série de pesquisas sobre a vida das atrizes pornôs. Alguns dados apresentados pela organização: a expectativa média de vida de uma estrela pornô é de 36 anos; 208 atores morreram de aids, overdose, suicídio, homicídio ou outras doenças somente em 2014 e 66% desses trabalhadores têm herpes, uma doença sem cura. Entre as lutas, está a aprovação, em 2012, de uma lei que exige o uso de camisinha durante as gravações em Los Angeles. Um ano após a lei, a produção caiu 90% na cidade, e continua diminuindo este ano. Em 2014, uma lei semelhante chegou a ser aprovada no estado da Califórnia, mas ainda enfrenta uma longa batalha no senado para ser mantida. Veja este vídeo produzido por alunos da Universidade de São Paulo sobre o lado obscuro do mundo pornô, com falas de Shelley:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hIok-mr12P0?rel=0&w=560&h=315]

 

Mais de 11 milhões de adolescentes assistem a filmes pornôs na internet, e sabemos que educação sexual não é um procedimento padrão em muitos lares e não passa de uma conversa sobre o uso de camisinha em muitas escolas. Segundo a britânica Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), a pornografia tem um efeito sombrio sobre as crianças e está ligada à proliferação de casos de estupros entre adolescentes. Muitos concordam com essa ideia. Para fazer o documentário “Amor e Sexo na Era da Pornografia”, a pesquisadora Maree Crabbe entrevistou dezenas de jovens sobre suas práticas sexuais e percebeu que muitos deles estavam sendo educados pela pornografia, normalizando comportamentos agressivos. Meninas relataram a Maree que muitas vezes não se sentiam confortáveis com os pedidos de seus parceiros, mas acabavam cedendo pela pressão ou vontade de agradar. Alguém aí lembra daquela cena de Girls em que Adam pede para Hanna rastejar pelo quarto e ejacula em suas costas? Bem por aí. A pornografia pode tornar as mulheres cada vez mais presas a fantasias pornográficas que não são as suas.

Cansada de lidar com esse tipo de postura ao transar com novinhos educados pela pornografia, a empresária americana Cindy Gallop resolveu fazer algo a respeito. “Como uma mulher mais velha, madura, experiente e confiante, eu não tive dificuldade de perceber que uma certa quantidade de reeducação, reabilitação e reorientação era necessária”, disse Cindy em uma TED em 2009 ao lançar a iniciativa Make Love Not Porn (“Faça amor, não faça pornô”, em tradução livre). Basicamente, é um site educativo que mostra as diferenças entre o sexo real e o dos “filmes adultos” através de desenhos e vídeos.

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Traduzindo…”Mundo pornô: homens adoram gozar na cara das mulheres e as mulheres adoram que eles gozem na cara delas. Mundo real: algumas mulheres gostam disso, outras não. Alguns caras gostam disso, outros não. Depende inteiramente da sua escolha.”

Eu adoro como o pesquisador da Universidade de Tel Aviv Ran Gavrieli explica por que parou de consumir pornô em uma TED. Ele fala da necessidade de uma desintoxicação não apenas de nossos corpos através da alimentação, mas de nossa mente. Ran conta ter percebido como ele passou a fantasiar com situações que nunca lhe agradaram de verdade como consequência dos pornôs que via, e como ele observou que a cultura pop utiliza cada vez mais referência pornográficas (cita Lady Gaga e Miley Cyrus), influenciando adolescentes a tirar fotos e vídeos nuas para seduzir seus paqueras e muitas vezes acabam expostas por eles, com vazamentos que terminam em bullying, humilhações incessantes, perseguição, depressão e às vezes até suicídio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=gRJ_QfP2mhU?rel=0&w=560&h=315]

 

Apesar de tudo isso, eu não sou uma feminista antipornografia. Eu concordo com o que Wendy McElroy diz no livro XXX: A Woman’s Right to Pornography: “censura ou qualquer repressão sexual inevitavelmente se volta contra as mulheres, especialmente aquelas que querem questionar seus papeis tradicionais. A liberdade de expressão sexual, incluindo a pornografia, cria uma atmosfera de interrogação e exploração. Isso promove a sexualidade das mulheres e sua liberdade”.

Como em todas as áreas dominadas por homens, eu acredito que as mulheres devem tomar seu espaço na pornografia. Por exemplo fazendo pornô feminino, de mulher para mulher, como Erika Lust. A sueca formada em ciências políticas e feminismo na Universidade de Lund, uma das mais prestigiadas da Suécia, criou uma produtora de filmes eróticos vencedores de vários prêmios em festivais, inclusive o Feminist Porn Awards, que é praticamente um movimento em prol do pornô feminista. “É triste dizer isso, mas o sexo ainda é uma questão política”, disse Lust em uma entrevista à Tpm em 2012.

Sim, sexo é político. Michel Foucault já dizia em sua obra História da Sexualidade I que as sexualidades são socialmente construídas. “É pelo sexo, com efeito, ponto imaginário fixado pelo dispositivo da sexualidade, que cada um deve passar para ter acesso à sua própria inteligibilidade (…) à totalidade de seu corpo(…) à sua identidade”. Foucault vê a proliferação de sexualidades como uma extensão de poder. E quando as mulheres fazem pornografia para mulheres, elas tomam o poder para si. Quando uma atriz pornô reflete sobre o próprio trabalho e determina o que quer fazer e como quer fazer, a exemplo de Stoya, Sasha Grey e Mônica Mattos, ela está tomando poder para si mesma (mas vale lembrar que para cada Stoya há centenas de escravas sexuais).

Quando uma mulher se masturba e aprende a ter prazer sozinha, ela também está tomando poder sobre si mesma. Na história, a legitimação da masturbação feminina representou o uso do corpo como luta política, como as moças do Femen usam os seios. Isso ainda não mudou. É preciso se conhecer muito bem para saber o que dá prazer ou não, e para isso é preciso se tocar muito. Também é preciso saber o que gosta ou não para barrar aquele cara educado pelo pornô de tentar fazer coisas que você não quer. Para se impor sexualmente. Para se impor como mulher. E gozar muito. Porque siririca é o poder.

 

* E para quem quiser saber mais sobre pornô para mulheres, recomendo o blog da minha querida amiga Nina Neves, que fez um TCC a respeito.

* Fica para outra hora a discussão sobre como a pornografia mainstream também limita a nossa sexualidade.

IMAGEM: ART BY BlackHeart (Facebook e Instagram)

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Quando a Bia Granja, fundadora do YouPix, nos convidou para sermos curadoras do evento, enviamos para ela uma lista com 15 sugestões de mesas, debates, palestras, ações para, no fim, escolhermos apenas 2 (chuif).

É com muita alegria que anunciamos nossa grade:

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Pela primeira vez na história do YouPIX, haverá um dia (17) inteiramente focado em business e negócios.

17 de julho | 15h00 – 15h45
Mídias Sociais Que Tratam As Mulheres Como Gente

Ser amiga da garota plus size e da moça da academia, falar de esmalte da moda e estar preocupada com as lideranças femininas no mercado de trabalho. Como as marcas que se dedicam a falar com mulheres podem utilizar as redes sociais para atualizar o discurso e torná-lo mais inclusivo. No momento em que os dilemas femininos tomam uma voz mais forte na sociedade, o observatório para a conversa das marcas ser mais humana e atenta a esses novos anseios está na rotina das redes sociais.

– Amanda Luz, Head de Redes Sociais das revistas femininas da Editora Abril

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18 de julho | 14h00 – 15h00
A internet não gosta das mulheres

Ameaças, revenge porn, slut shaming, culpabilização da vítima: como o bullying e a violência online gera medo, silencia e maltrata as mulheres?
– Nana Queiroz (criadora do movimento Eu Não Mereço Ser Estuprada)
– Jéssica Ipólito (militante feminista e autora do blog Gorda e Sapatão)
– Estela Machado (aos 16 anos, é uma das criadoras do For You, aplicativo para vítimas de revenge porn)
Com mediação de Juliana de Faria (criadora do Think Olga)

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19 de julho | 11h00 – 12h00
Para a web, a Scarlett Johansson nua não é tudo isso

Uma foto de Scarlett nua no filme Under The Skin vazou e a web, acostumada com o Photoshop, os filtros do Instagram, as melhores poses e ângulos, a perfeição, não gostou. Como isso influencia os padrões de beleza inalcançáveis para as mulheres? Por que achamos OK o corpo feminino ser objeto de críticas duras por desconhecidos.
– Juliana Romano (blogueira do Entre Topetes e Vinis , que fala de moda com olhar na diversidade)
– Evelyn Negahamburguer (artista e ilustradora)
– Carol Guido (blogueira do GWS – Girls With Style e criadora da campanha #terçasemmake)
– Michi Provensi (modelo e autora do livro Preciso Rodar o Mundo)
Com mediação de Luíse Bello (diretora de comunicação do Think Olga)

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A entrada para o YouPix é gratuita. Basta você se inscrever aqui: https://secure.peela.com.br/youpix/cadastro/adesao_festival.asp

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