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No dia 7 de junho, caminhei 200 metros por uma das avenidas centrais de Fortaleza carregando a Tocha Olímpica Rio 2016. Ao chegar no calçadão à beira mar, avistei Maria da Penha, ativista que batiza a lei que protege mulheres da violência doméstica. Fiz uma reverência cheia de admiração e, em volta de milhares de pessoas que acompanhavam o evento euforicamente, selei o beijo da chama com ela. Maria seguiu para atear a pira olímpica, num palco montado na praia, onde falou com firmeza sobre sua história e a necessidade urgente de combater a violência contra a mulher.

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Créditos: Rio 2016/ Fernando Soutello

Emocionante!!!

Mas… como foi que cheguei até aqui?

VIDA CORRIDA

Em março do ano passado, conheci uma mulher cuja história de vida me tocou profundamente.

Neide Santos, fundadora da ONG Vida Corrida, é uma corredora profissional que decidiu estreitar a relação das mulheres e das crianças com o esporte no Capão Redondo, um dos bairros com maiores taxas de criminalidade de São Paulo. A comunidade retoma a autoestima, aprende a conquistar espaços públicos e entende o valor que cada um dos seus corpos têm – principalmente as mulheres, que se viam destinadas a uma vida de serventia aos maridos e filhos, sem hobbies, sem interação uma com as outras, sem independência.

Neide, uma sobrevivente da violência em geral (de gênero, policial e urbana, que a marcou como mulher e levou seu marido e filho), teve ceifado o sonho de ser, ela mesma, uma atleta olímpica. Mas, pelo seu projeto, já estão saindo promessas brasileiras no atletismo. Ela é uma pessoa cheia de energia, está sempre de bom humor e muito disciplinada. Todo dia, às sete da manhã em ponto, está no parque do Capão dando início a mais uma aula, mesmo durante os anos em que fazia malabarismo com treinos e outros trabalhos para manter a ONG funcionando. Você pode vê-la contanto sobre sua própria história nesse vídeo que fizemos!

Em uma conversa descontraída, durante um dos nossos encontros, perguntaram à Neide qual era seu maior sonho no momento. “Carregar a tocha olímpica”, disse sem nem pensar.

“E seu eu puder realizar esse sonho com todas as crianças correndo atrás de mim, vou me considerar uma mulher realizada em tudo. Não me importo com o mundo vendo isso, e sim que as crianças entendam que tudo é capaz”.

Dois dias depois, a seleção para as equipes de revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016 foram abertas. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, convidou a Think Olga para indicar um nome para fazer parte da sua equipe de condutores. Havia o entendimento, por parte deles, de que, apesar de ser um espetáculo esportivo, os Jogos Olímpicos deveriam ter um impacto que vai além das quadras. A indicação de uma organização feminista teria grande importância para o debate das causas das mulheres.

Indicamos a Neide.

Foi uma faísca para um novo olhar sobre o mundo do esporte como ferramenta de empoderamento.

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Neide ao centro, com uma réplica da tocha, nos preparativos para o revezamento. 

OLGA ESPORTE CLUBE

Eu gostava muito de esportes durante minha adolescência. Vários fatores me afastaram da prática conforme fui envelhecendo. E descobri rapidamente que não era a única a estar parada. Mais de 50% das brasileiras são sedentárias, segundo pesquisa publicada pelo Ministério dos Esportes, no ano passado.

A Maíra Liguori, diretora da Think Olga, tinha uma visão sobre esse cenário: a pouca prática esportiva pelas mulheres encontra no machismo inúmeras razões de existir. Uma delas, por exemplo, é o acesso reticente aos espaços públicos pelas mulheres. Há um paralelo muito grande com o debate instigado pela nossa campanha Chega de Fiu Fiu, que fala sobre assédio sexual em locais públicos, e a ideia de que a mulher não pertence às ruas e sim ao ambiente doméstico. No esporte, essa visão se perpetua.

Outra questão é a insegurança com o corpo. Bombardeadas com mensagens sobre fitness, dietas e corpos perfeitos, a sensação é que precisamos estar torneadas e já cheias de fôlego e de condicionamento para começarmos a nos mexer, em um ciclo bizarro que mais uma vez não nos permite enxergar por onde começar.

Por fim, nos fechamos em esportes solitários, como yoga e pilates (que adoro!), mas que têm foco grande no bem estar e no corpo. Nos falta interações com outras pessoas, praticar a força, suar, exercitar a inteligência emocional, rir e comemorar loucamente um ponto, um gol, uma cesta, uma vitória – assim como os homens fazem naquele futebolzinho de todo sábado.

Maíra entendeu então o esporte como um caminho muito divertido para o fortalecimento da mulher, o estímulo à sororidade e a desconstrução do machismo na sociedade. Lançamos a campanha Olga Esporte Clube, cujo objetivo é transformar a relação das mulheres com o movimento e as libertar das pressões sociais que as afastam do mundo esportivo. A OEC também luta para abrir novos espaços e possibilidades para a prática feminina nas mais diversas modalidades.

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Fizemos uma pesquisa online sobre a relação da mulher com o esporte, e as respostas foram muito elucidativas.

  • Na infância, 69% das entrevistadas disseram que praticavam esportes por diversão. A partir dos 18 anos, 53% acha outra motivação: o emagrecimento.
  • Quase 25% das mulheres afirmam que já foram vítimas de preconceito ao tentarem se exercitar de alguma forma. Uma em cada quatro. E esse número fica ainda mais alto nas periferias (29%).
  • O racismo também ficou explícito nesse nosso estudo. A tenista Maria Sharapova (branca), por exemplo, tem menos títulos que Serena Williams (negra), mas ganha quase o dobro em patrocínio.

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Maíra Liguori, na apresentação da pesquisa da OEC, no Museu do Futebol, em SP

Foi uma grande mudança em toda a organização Think Olga! Não só passamos a olhar com mais cuidado e conhecimento sobre uma área que parecia não ser nossa, como mudamos também nossas vidas pessoais. Nana, outra diretora da ONG, começou a praticar futebol com um grupo de mulheres. Maíra e eu criamos um pequeno, mas muito animado, time de basquete (alou, beijos para as basqueteiras Nay, Bia, Joana, Nina, Vivi, Cris, Dani). Entendemos que, além de ser gostoso de praticar e de nos aproximarmos cada vez mais de mulheres interessantes, também estávamos retomando o poder sobre nosso próprio corpo.

A #CHAMAQUETRANSFORMA

Foi nesse cenário que fomos informadas com toda a alegria do mundo que Neide Santos, da Vida Corrida, havia sido selecionada como parte da equipe de revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016 do Bradesco. A surpresa veio logo a seguir: eu também havia sido indicada, selecionada e conduziria a tocha.

Ao nosso lado no revezamento, estiveram várias outras mulheres inspiradoras conduziram a Tocha Olímpica Rio 2016 em diferentes cidades: Janeth Arcain, Monique Evelle (Desabafo Social), Nadine Gasman (ONU Mulheres), Magá Moura…

Fui então para Fortaleza, onde pude, ao lado de Maria da Penha, levar não só a tocha, mas a bandeira dos direitos das mulheres. Foi um posicionamento importante, pois, apesar de se tratar de um grande evento sobre esporte, cujo foco é competição, diversão e o que for, a violência contra as mulheres ainda é tópico. Ela está em todos os lugares, em todas as áreas, e precisamos iluminá-la sempre.

Neste vídeo, de forma bem humorada, Neide e eu nos preparamos para esses dias tão especiais e surreais.

O dia dela está chegando! Será em São Bernardo, em SP, e cinco ônibus cheios de crianças do Capão vão acompanha-la no percurso. Você pode saber mais aqui.

#ElasAbraçam

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Ju e Neide

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Maria da Penha e Ju

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A primeira edição dos Jogos Olímpicos que deu origem ao que conhecemos hoje data do ano de 1896, mas sua história começou bem antes, na Grécia, em 776 a.C. Ao longo do tempo, a participação das mulheres na competição teve períodos conturbados: ainda na Antiguidade, elas eram proibidas de assistir os jogos sob pena de morte e na primeira edição oficialmente aberta ao público feminino em 1900, em Paris, somente 22 do total de 997 atletas eram mulheres, competindo em apenas cinco esportes.

A conquista de um total de 44% de participação feminina na última edição dos jogos em Londres, no ano de 2012, com a participação delas em todas as modalidades pela primeira vez na história, não foi sem o esforço e a luta de milhares de esportistas que não se curvaram diante das adversidades causadas pelo sexismo.

É de mulheres assim que são feitas as Olimpíadas:  guerreiras que trazem dentro de si a chama da transformação. Elas fazem história ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos dos quais eram excluídas ao provar que têm garra, talento e capacidade para brilhar nos esportes.

Mulheres como Neide Santos, ou Neide Vida Corrida, como ficou conhecida ao adotar como sobrenome o nome do projeto que criou no Capão Redondo, e que já transformou a vida de milhares de pessoas por meio da prática de corrida.

Na trilha de um sonho

Atleta desde os 14 anos, Neide teve sua carreira interrompida por revezes que a vida pôs em seu caminho. Primeiro, foi obrigada a mudar-se ainda menina para São Paulo, onde foi adotada por uma família que lhe deu educação, mas também a cruel responsabilidade de trabalhar como empregada doméstica ainda criança.  Trouxe sua família biológica para a cidade, mas só depois de adulta, onde ainda passou por muita pobreza e dificuldade.

Quando se casou, viu sua vida entrar um pouco nos trilhos e vislumbrava um futuro melhor, mas seu esposo foi assassinado por policiais no Capão Redondo, comunidade da periferia da cidade de São Paulo, onde moravam, deixando-a sozinha com um bebê recém-nascido e sonhos partidos.

Apesar das dificuldades que teve a partir de então como mãe solteira, Neide não abandonou sua paixão pela corrida e continuava a praticar o esporte amadoramente, participando de maratonas onde encontrava amigos da comunidade. Era a única mulher entre eles. Com o tempo, um pequeno grupo de mulheres de seu bairro a procurou pedindo que Neide as ensinasse a correr também. Elas queriam se movimentar tanto pelo lazer da atividade, quanto pela oportunidade de praticar um esporte, um privilégio geralmente reservado somente aos homens daquele local.

Em 1999, Neide se propôs a ensinar um grupo de seis mulheres do Capão Redondo a correr durante as duas semanas em que estava de férias no trabalho – e, desde então, esse voluntariado nunca mais parou. Assim, começava a história do projeto Vida Corrida. Mas a essência da iniciativa iria mudar drasticamente quando seu filho também teve a vida ceifada pela violência em um assalto no ano 2000, pelo disparo de um revólver empunhado por uma criança de 11 anos.

Neide quase desistiu de tudo, mas foi lembrando do desejo de seu filho de que ela incluísse crianças em seu projeto, para incentivá-las a trilhar o caminho do bem em uma comunidade refém de forças do mal, que ela decidiu não apenas continuar a transformar vidas por meio da corrida, mas ir além e estender esse benefício a meninos e meninas da comunidade.

 

Quando o impossível não existe

Hoje, o Vida Corrida, com mais de 350 participantes, atende 150 crianças do Capão Redondo e pretende expandir esse número em 2016. O projeto conta com o patrocínio de grandes empresas para a aquisição de equipamentos e estrutura para realização das atividades, mas principalmente com a dedicação de voluntários apaixonados pelo esporte.

O sucesso do Vida Corrida é motivo de orgulho para Neide e para todas nós que, conhecendo sua história, contemplam a capacidade de realização dessa mulher inspiradora. Com amor e entrega, criou uma onda de solidariedade, empoderamento e oportunidades que mudaram e inspiram a vida de tantas pessoas, como nós, aqui do Think Olga.

A Neide tem mais um grande sonho: carregar a Tocha Olímpica no Capão Redondo. Ver, na comunidade onde viu sua família ser vítima da violência, brilhar uma chama de esperança, a mesma que a leva todos os dias a continuar lutando pelo Vida Corrida. Ela quer mostrar para as crianças da comunidade, que aprenderam com ela a correr brincando, que nada é impossível.

Ano que vem, os Jogos Olímpicos serão realizados pela primeira vez no Brasil e o Comitê Olímpico Internacional tem um compromisso sério com a participação das mulheres no esporte. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, criou uma plataforma onde todos podemos indicar pessoas para conduzir a Tocha Olímpica Rio 2016. Por meio do site www.brades.co/thinkolgaindica, qualquer pessoa pode indicar alguém que faz a diferença na vida de outras pessoas para ter essa grande honra. Para a candidatura ser válida, é imprescindível o candidato fazer a confirmação por email ou ele será desconsiderado. Sugestão Think Olga: indique mulheres e ajude a aumentar a representatividade delas nos Jogos Olímpicos! Quem você conhece que tem uma #chamaquetransforma?

Nós acreditamos no sonho da Neide e vamos indicá-la não apenas porque acreditamos na importância da representatividade feminina nessa tradição tão importante dos Jogos Olímpicos, mas porque ela verdadeiramente transformou e transforma a vida de muitas pessoas com o seu projeto.

Tivemos a honra de conversar com a Neide sobre sua vida, sonhos e planos para o futuro. Conheça um pouco mais sobre a história dessa mulher inspiradora em suas próprias palavras:

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Como você se apaixonou pela corrida?

Aos 14 anos, eu fui a uma pista de atletismo e tinha um campeonato escolar, mas fui para jogar handebol. Só que, no revezamento 4×100, faltou uma menina. O professor de educação física olhou para um lado, para o outro, olhou para mim e falou: “Vai você mesmo!”.  E me mandou correr. Eu disse que nunca havia treinado, mas ele disse que eu corria muito e já treinava handebol – tudo o que eu precisava fazer era ser a última a pegar o bastão e correr o mais rápido que eu pudesse. Foi o que eu fiz: peguei o bastão , corri o mais rápido que eu pude e naquele dia eu me apaixonei pela corrida porque eu nunca tinha ganhado uma medalha para eu levar para casa. Quando a gente ganhava alguma coisa no handebol, ganhava um troféu que ficava na escola, mas naquele dia eu ganhei minha primeira medalha e eu gostei tanto daquilo que eu falei: “Não, agora eu não vou mais jogar handebol, não, vou começar a correr!”. E foi assim que a corrida entrou na minha vida e eu corro até hoje. Vai fazer 42 anos que eu corro.

 

O que a corrida representa hoje na sua vida? 

Hoje, para mim, a corrida é uma ferramenta de transformação social, porque através da dela eu consegui mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

 

E o que o futuro reserva para você e para o Vida Corrida?

Ontem mesmo eu fiquei até tarde trabalhando e planejando porque no ano que vem vou atender mais 250 crianças – nós atendíamos 150, mas agora teremos mais verba para atender mais. Sem contar as mulheres: hoje nós temos 200 e acredito que no ano que vem vamos receber mais. Também tenho planos de construir nossa casa, a Casa Vida Corrida, mas o meu maior sonho, acima de tudo, um sonho de criança, é de um dia estar nos Jogos Olímpicos. Outro sonho olímpico também é ver o Jonathan Santos, que eu ensinei a brincar de correr, nos Jogos Olímpicos de 2020.

 

Muitas das mulheres da comunidade têm jornada tripla e quase não sobra tempo ou dinheiro para lazer e atividades pessoais, para cuidar de si mesmas. Como a corrida e o projeto as ajudam?

Vou falar para você o que eu ouço delas. Um dia uma chegou para mim e falou que o projeto deu autoestima pra ela. Ela falou que o projeto a levou a lugares que ela jamais imaginaria ir. Outra disse que a vida corrida uniu a família dela, que elas não tinham uma vida social, mas que através da corrida elas entraram nas redes sociais, mostraram para as pessoas o que elas fazem. Teve uma menina que veio do Piauí que foi escolhida para ser entrevistada no programa Como Será, e aí ela me disse “Neide, minha família no Piauí está em festa, eles me viram na televisão, eles me viram correr!”. Tem mulheres no projeto que voltaram a estudar, algumas fazem faculdade para um dia trabalhar no Vida Corrida. Tem mulheres que nunca tinham conhecido pessoas que não fossem da comunidade.  O projeto as leva para outros lugares.

 

 

 

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