agnes cecile mulheres ti olga

agnes cecile mulheres ti olga
 
Bárbara Castro, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, desenvolveu uma pesquisa sobre relações de gêneros no mercado de TI. Aqui, ela explica por que o público feminino se distanciou do mundo da tecnologia nas últimas quatro décadas e como felizmente o cenário está mudando graças a ninguém menos do que as próprias mulheres. 
 

Eu estou bastante otimista com o cenário da TI para as mulheres hoje. Apesar da baixa participação feminina no setor no mundo todo (1/3 dos profissionais da União Européia, 20% dos profissionais no Brasil), percebi, nas entrevistas que fiz, uma diferença geracional nos discursos. E há uma diferença na socialização das mulheres com a tecnologia.

As pioneiras do setor no Brasil me contaram que a maioria dos alunos de Ciências da Computação, lá na década de 1970, era composta por mulheres. Ainda que, posteriormente, não tenham optado por ingressar no mercado de trabalho. Elas fizeram essa opção no momento do vestibular porque o computador e a computação lhe pareciam uma entidade mística, e que aquela aura de mistério (poucos tinham visto um computador de perto ou sabiam para quê ele funcionava) era o que as havia atraído para a área. Era como desvendar o funcionamento de uma célula, sabe? Calcular e desenvolver logaritmos eram mais associados a funções de cientista de laboratório, bastante distante de um uso prático e socialmente reconhecido.

Se fizermos uma análise rápida a partir dessas histórias, o que podemos dizer é que a área da computação não tinha o status que tem hoje. Não era atrativa, não era considerada “séria” ou uma profissão que “dá futuro”, como encorajam os nossos pais quando escolhemos uma profissão. E estamos falando de um contexto específico, em que a participação das mulheres no mercado de trabalho só cresce mesmo a partir dos anos 1980 e quando os homens ainda eram considerados os provedores da família.

É nesse sentido que podemos considerar a hipótese de que os homens não procuravam a computação como carreira porque não tinha status social e não embutia as ideias de segurança, estabilidade (veja que falo sempre, aqui, do tipo médio, porque é claro que tem sempre os que não seguem essas normas sociais). Quando o computador pessoal entra nos escritórios e nas casas das pessoas, ali em finais dos anos 1980, há uma mudança de percepção da profissão, da sua centralidade para a economia. Movimento que se reforça com a Internet.

No meio desse caminho, aquela imagem do computador como entidade mística se perde e é reconstruída, no imaginário social, pela ideia de uma máquina difícil de ser operada – assim como uma série de máquinas que sempre foram operadas por homens nas indústrias. A relação, óbvio, não é imediata, mas o que quero dizer é que o computador deixa de ser uma entidade abstrata para ser uma tecnologia concreta e complexa.

E tanto o status da profissão quanto a associação socialmente construída da tecnologia com as máquinas fizeram o movimento de levar mais homens para o setor, ao mesmo tempo em que as mulheres não se sentiram mais tão atraídas por ele. Seja por medo de não saber mexer, seja por terem sido ensinada de que máquinas são coisas de meninos, seja porque achavam que não dariam conta de uma carreira tão central à economia.

Mas por que estou otimista, então? Porque tem duas coisas legais acontecendo hoje. A primeira é que as mulheres estão se organizando e criando grupos e associações para debater a baixa participação das mulheres na TI e para tentar criar mecanismos de mudança desse cenário. A segunda é que a mística negativa, de não saber usar ou de quebrar um computador tentando aprender a usá-lo, está deixando de existir com essa nova geração, que já nasce conectada.

Apesar de muitos garotos ainda dizerem que mulheres não sabem programar ou de muitos clientes desconfiarem de mulheres em chefias de projetos técnicos, aos poucos esse domínio da programação e do desenvolvimento de software como habilidades complexas e exclusivas de um grupo vão perdendo o espaço no discurso mais geral pelo próprio uso diário das tecnologias. Ações que parecem corriqueiras, como instalar apps no celular ou mudar o mexer no código de um blog para mudar o template, vão mudando a forma de homens e mulheres se relacionarem com a linguagem da computação e desmistificando sua associação com o universo masculino.

Por isso que falo que estou otimista com o cenário atual: porque há uma mudança de discurso e de postura que podem provocar uma mudança na maneira como a TI é pensada enquanto profissão. Movimento muito parecido com o que ocorreu em outras profissões ao longo da história, como a medicina ou a dança, por exemplo.

Quem faz

Conheça algumas comunidades que incentivam a participação da mulher na TI com cursos de programação e workshops de gerenciamento. Ter pessoas dispostas a ensinar é importante. Mas o primeiro passo é existir quem diga que é possível ser feito.

Advancing Women in IT, EUA

Berlin Geekettes, Alemanha

Lady Geek, Inglaterra

/MNT, Brasil

Ônibus Hacker, Brasil

Compartilhar