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[Situação 1]

A mulher diz: “Deveríamos tentar resolver o bug da forma [insira aqui uma ideia]…”

Ninguém dá bola.

Dois minutos depois:

O homem diz: “E se fizéssmemos [insira aqui a ideia da mulher]?”

Todos respondem: “Ótima ideia! Vamos fazer isso!”

 

[Situação 2]

Colega de trabalho diz: “Você é uma boa programadora, apesar de ser mulher.”

 

[Situação 3]

Recrutador diz: “Obrigado por vir, estamos procurando uma mulher desenvolvedora pois os meninos acham que precisamos “dar uma descontraída”.

 

[Situação 4]

Professor diz: “É bom ter uma mulher na turma de computação. Elas embelezam e perfumam o ambiente. Além do mais, são mais delicadas e atenciosas”.

 

Ser mulher é um desafio imenso. Ser mulher na área de tecnologia traz algumas dificuldades peculiares. Começa com a falta total de incentivo para que as meninas se envolvam com ciência e tecnologia, passa pela hostilidade que as estudantes dos cursos na área da computação encontram nas salas de aula e continua com um ambiente profissional misógino. Alguns números ajudam a entender o quadro atual:

A pesquisa Elephant in the Valley, que retratou o que enfrentam as mulheres no Vale do Silício, também traz números interessantes sobre a realidade das mulheres no maior oásis da tecnologia mundial: 66% das mais de 200 mulheres com mais de 10 anos de experiência no setor disseram já ter se sentindo excluídas de oportunidades por causa de gênero, 88% já enfrentaram situações em que perguntas foram feitas aos seus colegas homens – e não a elas, 60% já foram assediadas e 60% das que foram assediadas e denunciaram, ficaram insatisfeitas com as medidas tomadas.

A PrograMaria, um meta-site sobre mulheres e tecnologia, nasceu da inquietação com dois fatos: a crescente importância da tecnologia em nossas vidas e a falta de de representatividade da mulher na área – no Brasil, as mulheres vêm perdendo representatividade ao longo dos anos.

Muita gente argumenta que os números acima mostram a falta de interesse ou de capacidade das mulheres. Mas é preciso desconstruir a lógica falaciosa do “o cérebro da mulher não é feito para exatas”. Na escola, 74% das meninas demonstram interesse nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, mas na hora de decidir por uma graduação, apenas 0,4% dessas meninas escolhem Ciência da Computação. A pergunta não deve ser “por que devemos incluir as mulheres na tecnologia?” e sim “por que as excluímos?”.

É uma questão simples de igualdade de direitos e oportunidades – quando damos um conjunto de panelas para meninas e bloquinhos de montar para meninos, estamos dando estímulos diferentes, que determinam quais habilidades essas crianças irão desenvolver e, obviamente, isso pode interferir nos caminhos acadêmicos de cada um deles. Recomendo a leitura desta ótima entrevista com o psicólogo americano Andrew Meltzoff, que falou sobre o poder dos estereótipos culturais no aprendizado das crianças. (‘Estereótipo de que ‘matemática é para garotos’ afasta meninas da tecnologia, diz pesquisador”)

A partir de todo esse cenário, decidimos três pilares de atuação para a PrograMaria: inspirar meninas e mulheres a explorar os campos da tecnologia e da programação, fomentar e qualificar o debate sobre a falta de mulheres na área e promover oportunidades de aprendizagem.

Nossa missão é empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia e da programação – e acreditamos nisso por vários motivos:

  1. Faltam profissionais na área. A TI é um mercado em forte desenvolvimento e a demanda por desenvolvedores só irá crescer. Além disso, as empresas já se ligaram que precisam de diversidade no seu quadro de funcionários, afinal, um time diverso produz mais inovação e traz melhores resultados.
  2. As mulheres não precisam necessariamente querer trabalhar como desenvolvedoras para se beneficiarem da programação. Toda empresa hoje precisa de tecnologia. Ter noções básicas do tema facilita o trabalho em equipes multidisciplinares, aumentando a produtividade e melhorando resultados.
  3. Programar é uma ferramenta poderosa de transformação do mundo. Com ela, as mulheres podem dar vida a suas ideias, construir seus projetos e se expressar!

De tanto ouvir que “mulher não dá para exatas”, “mulher não é boa em matemática”, “homens são mais lógicos”, internalizamos essas verdades e passamos a acreditar nelas.

Nos eventos que organizamos e participamos, muitas mulheres contam que simplesmente nunca tentaram aprender porque achavam que programação era muito difícil para elas, que elas não conseguiriam entender e ponto final. Muitas têm ideias incríveis que gostariam de realizar, mas ficam a espera de um amigo desenvolvedor que tope ajudar.

A tecnologia determina a maneira como nos relacionamos, nos comunicamos, consumimos e aprendemos. A sociedade precisa que as mulheres também pensem sobre esses problemas e proponham soluções para eles. Quantas ideias deixam de se tornar projetos, produtos e serviços inovadores por que as mulheres estão à margem da produção de tecnologia?

Em fevereiro a PrograMaria completa um ano. Nesse caminho, encontramos muitas mulheres dispostas e entusiasmadas com a ideia de colaborar. 2016 vai ser um ano muito bom para o tema. Diversos grupos estão surgindo, unindo forças, e se fortalecendo para lutar e promover mudanças!

 

Campanha #SerMulherEmTech

Logo que lançamos nosso site e nossa página no Facebook, começamos a receber diversas mensagens de mulheres que estudavam ou trabalharam no setor, desabafando sobre as dificuldades que enfrentavam diariamente. Situações absurdas como as que você leu no início deste texto. (Tem mais na nossa reportagem especial Mulheres enfrentam preconceito e isolamento em cursos de computacão)

A campanha #SerMulherEmTech foi a maneira que encontramos para dar voz a essas histórias e promover a troca de experiências e de apoio entre essas mulheres. Acreditamos que a informação é o primeiro passo para transformar o que está aí. Queremos abrir espaço para o debate e mostrar que as violências, tão naturalizadas, não devem ser toleradas e precisam ser enfrentadas.


Iana Chan é jornalista e co-fundadora da PrograMaria.

Arte: Alessandra Genualdo

 

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Lola Aronovich sob ataques de machistas
SXSW cancela painel sobre violência contra a mulher no mundo dos games após receber ameaças com as quais as vítimas já estão mais que acostumadas, e volta atrás somente após perder patrocínios e ameaças de boicote
Maria Júlia Coutinho e Taís Araújo são vítimas de ataques racistas
– O perfil da Stephanie Ribeiro foi derrubado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook
 Também no Facebook, as páginas da Jout Jout e Feminismo Sem Demagogia estão fora do ar…

Mas é tarde demais para nos calar! 

A violência contra mulheres na internet atingiu um novo auge nos últimos tempos. Talvez como resposta aos avanços cada vez mais rápidos do feminismo em diversos espaços e do incômodo que a sua presença e fortalecimento causam.

Em menos de uma semana, a hashtag ‪#‎primeiroassedio‬ foi replicada 82 mil vezes em resposta à comentários machistas e pedófilos. A violência contra a mulher foi tema no principal exame de acesso à universidade no país. O Google (!) compartilhou o vídeo da Jout Jout sobre a cultura do estupro.

A frase “machistas não passarão” nunca fez tanto sentindo quanto agora: campanhas publicitárias, músicas e outros produtos midiáticos que desrespeitam as mulheres são rapidamente rechaçados (leia-se “Esqueci o não em casa” da Skol, Homens Risqué, chamar cólicas menstruais de mimimi, aquela música “Vou jogar na internet” etc).

Na internet (e fora dela), temos força, temos voz, mas também temos inimigos da nossa liberdade. Há anos a Lola recebe ameaças e é perseguida por sua militância na internet. Os haters divulgam seu endereço residencial, ligam para sua casa, a ameaçam de morte, querem destruir sua vida e reputação – e essa briga já foi parar na justiça diversas vezes. Tudo porque ela é mulher e tem uma opinião.

‪#‎ForçaLola‬! Estamos com você e NÃO VAMOS NOS CALAR diante do que está acontecendo. Sabemos que medidas legais já foram tomadas, registramos aqui nosso repúdio aos ataques e aproveitamos para divulgar seu único endereço na web mais uma vez:http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br

Se você também está sendo vítima de ataques virtuais, confira nosso FAQ sobre o que fazer quando isso acontece.

“Estou irritada porque esperam que eu aceite assédio virtual como preço por ser uma mulher de opinião” – Anita Sarkeesian, diretora executiva do Feminist Frequency e uma das principais vozes contra a violência online contra mulheres no mundo.

Nós também, Anita, nós também. Mas prometemos solenemente NUNCA compactuar com isso.


 

Arte: NVM Illustration

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Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 

A Comissão de Banda Larga da ONU divulgou esta quinta-feira os resultados de um levantamento sobre violência cibernética. Em todo o mundo, 73% das mulheres que estão conectadas já foram expostas a algum tipo de violência online.

As jovens entre 18 e 24 anos são as maiores vítimas de perseguições nas redes e de assédio sexual e muitas sofrem ameaças físicas. Nos países da União Europeia, 9 milhões de mulheres já passaram por alguma forma de violência online, algumas aos 15 anos de idade.

Sem Punição

Mas entre 86 países investigados, apenas 26% estão tomando medidas judiciais apropriadas para reverter o quadro. Uma entre cinco usuárias da internet mora em países onde casos de assédio e abuso na internet não recebem punição.

Combater a violência contra as mulheres na internet é uma preocupação da ONU Mulheres, agência que participou da apresentação do relatório.

Maneiras

A representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, explicou que os abusos online podem ocorrer de várias maneiras.

“Essa violência na internet pode ser a humilhação, a ofensa, a ameaça online, a publicação de mensagens e imagens íntimas, a invasão da privacidade, o preconceito, a intolerância na rede. Isso nos preocupa muito, porque a internet é parte de nossa realidade dia a dia. E mesmo que seja virtual, que não pareça ser real, é parte de nossa realidade.”

Segundo Nadine Gasman, da ONU Mulheres, outro efeito é o “intenso sofrimento emocional das vítimas” que têm sua vida íntima compartilhada nas redes.

Exploração Sexual

Durante o lançamento do relatório, a administradora do Programa da ONU para o Desenvolvimento, Pnud, mencionou “evidências de que o volume e conteúdo de material na internet que promove o tráfico humano com o propósito da exploração sexual é sem precedentes”.

Helen Clark destacou que a dimensão do desafio é clara: “70% das pessoas traficadas no mundo são mulheres ou meninas e 97% das traficadas são exploradas sexualmente”.

Investimentos

A internet já é considerada por especialistas como o principal meio de disseminação de material de pornografia infantil.

O relatório do grupo de trabalho da ONU alerta para a necessidade de mais investimentos para prevenir a violência cibernética. Esse dinheiro deve ser usado para sensibilizar o público, implementar técnicas de segurança e deter criminosos por meio de medidas legais e regulatórias.

O documento também pede atenção dos países e da indústria a esses riscos e para que pensem em novas soluções, como o uso de aplicativos móveis para monitorar e relatar a violência contra mulheres e meninas.

Escute a matéria AQUI.

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Esse post faz parte de uma parceria entre Think Olga e a Rádio ONU em Português para a divulgação de conteúdo relacionado a gênero.

Arte: Karolin Schnoor

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A violência contra as mulheres na internet é um grave questão, com reais consequências na vida offline. Já falamos sobre isso aqui mesmo na OLGA quando entrevistamos Marta Trzcinska, advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres. “É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime”, afirmou Marta sobre as práticas de assédio no ambiente virtual. Para o youPix 2014, montamos uma mesa com especialistas sobre o tema. Uma delas era Nana Queiroz, que criou a campanha Não Mereço Ser Estuprada e, mesmo assim, recebeu ameaças. “Uma delas dizia ‘prepara o Hipoglós! Vou meter meu pau tão forte em você que minhas bolas vão sair pela sua boca'”, conta. O usuário foi denunciado por Nana para a Polícia Federal e, ao ser localizado pelas autoridades, disse: “o problema é que ela não tem nenhum humor”.

Violência e assédio online é costumeiramente visto como “brincadeira”, “piada”. Não é. Esses abusos afastam as mulheres de suas atividades — por medo, por vergonha — e as isolam do seu direito de livre expressão. E apesar da internet ser sim um espaço belicoso para todos que a navegam, há uma enorme diferença na forma com que homens e mulheres são atingidos por essa questão problemática. Em 2006, pesquisadores da Universidade de Maryland criaram vários perfis falsos em salas de bate-papo. Usuários com nomes femininos receberam, em média, 100 mensagens violentas e de cunho sexual por dia. Usuários com nomes masculinos, apenas 3,7.

O próprio youPix publicou ontem, quarta (7), a matéria Ofensas, machismo e estereótipos: a difícil vida das mulheres no YouTube com os variados tipos de abordagem que as internautas recebem. Anita Sarkeesian e Caroline Criado Perez viraram vítimas cujos casos chamou a atenção do mundo todo. Ambas receberam ameaças de estupro e até de morte por simplesmente se proporem a criar projetos feministas. A primeira gravou programas no YouTube para falar sobre as características machistas dos videogames. A segunda criou uma campanha para que o Bank of England colocasse uma figura feminina em uma das notas de Libra.

No entanto, as mulheres nem precisam ser autoras de projetos feministas para virarem alvos de agressão. Qualquer exposição na net pode resultar em xingamentos, críticas tresloucadas à aparência e, claro, nos mais variados assédios sexuais. Lauren Mayberry, da banda escocesa Chvrches, escreveu um depoimento para o The Guardian sobre a ocasião quando, pela página oficial da banda, tentou abordar o assunto das mensagens sexistas e inconvenientes direcionadas a ela. O que Lauren escutou de volta foram coisas como “Isso não é cultura do estupro. Você vai saber o que é cultura do estupro quando eu estiver te estuprando, vagabunda” e “Sei o endereço da sua casa e vou passar aí para comer sua bunda e você vai amar, sua safada”.

Essa reação ainda mais violenta à uma denuncia não é novidade e já foi até cunhada de a Lei de Watson: “cada vez que você denuncia a violência [de gênero], ela se intensifica”. O mandamento ganhou o sobrenome de Rebecca Watson, que foi ao Twitter reclamar de uma cantada inadequada que recebeu durante uma convenção de ateus e virou vítima de ofensas descomedidas. Até o famoso biólogo evolutivo e ateu praticante Richard Dawkins entrou na briga e, em tom sarcástico, desdenhou da experiência machista que Rebecca viveu.

O custo para a sociedade é imenso: a brutalidade online mina a dignidade das mulheres, deslegitima suas vozes como cidadãs e as reduzem a corpos sexualizados e objetificados. Isso as afasta de discussões online e suprime suas opiniões e contribuições para a sociedade, seja um blog de conteúdo feminista, seja um vlog de moda ou dieta. E apesar da gravidade do problema, ele ainda não é levado a sério pelas empresas de redes socais, a polícia e o poder público.

Hoje, 7 de agosto, é o 8o aniversário da Lei Maria da Penha. Ela foi uma tremenda vitória feminina, mas que trata somente da violência doméstica e familiar, deixando de lado outras formas de abuso que vitimam mulheres. Nesse leque ainda não contemplado pelo poder público estão, entre eles, o feminicídio (o Ministério Público de São Paulo lançará campanha para que o senado inclua o crime no código penal), o assédio sexual (que o código penal enquadra como crime apenas no ambiente de trabalho, ignorando o local público) e a violência online. Esta última encontra dificuldade de ser vista como tal até mesmo pelas próprias empresas de redes sociais, os novos palcos de linchamentos de minorias. Não é clara, por exemplo, a estratégia de combate à misoginia do Facebook, plataforma que agrega muitas páginas sexistas e até mesmo criminosas. Quando denunciadas, a empresa envia comunicados automáticos, às vezes em questões de segundos, negando a retirada do conteúdo. Só as derruba, enfim, quando as denúncias são feitas em massa — tática também utilizada por machistas para tirar páginas feministas. O Twitter também é tão leviano quando se trata dessas questões que, mesmo após as mais violentas denúncias de machismo online, achou por bem, no fim do ano passado, rever a sua política do botão block. Ou seja, as pessoas bloqueadas ainda poderiam ler a timeline do usuário que as bloqueou. A resolução foi revertida em questão de dias, mas tratou-se de uma afronta às feministas que, por anos, tornam pública e conhecida a violência que ali vivem.

Enquanto as autoridades não tomam uma atitude, as mulheres podem se unir para revidar. Em primeiro lugar, saiba como agir se você for vítima de violência online. E, se vir alguém sofrendo essa violência em algum lugar da internet, junte-se, instrua, explique e, de maneira alguma, encare isso como algo que nunca poderá ser mudado.

*

Arte: Natacha Côrtez

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Em junho, o Google lançou uma série de programas para incentivar as mulheres a aprenderem computação. Houve distribuição de cursos grátis na Code School para a ala feminina e a iniciativa Made With Code, voltada para meninas, com o objetivo de mostrar a elas que é possível fazer o que mais gostam — de pulseiras a aplicativos, passando por filmes e smartphones — por meio da programação. Somente neste último projeto, o Google está investindo 50 milhões de dólares nos próximos três anos. Incrível! Mas, peraí, por que o Google subitamente está tão interessado nas mulheres?

A justificativa é bonita. “Não é segredo que a diversidade não é o forte da comunidade da tecnologia, e nós estamos sempre atrás de oportunidades que ajudem a mudar isso. Hoje, um quarto das vagas de Tecnologia de Informação são de mulheres, e mulheres negras representam apenas 3% das cientistas e engenheiras. A situação é clara: temos um longo percurso a seguir para criar uma comunidade mais diversa, aberta e inclusiva”, disse o Google.

Talvez o Google tenha reparado que a porcentagem de mulheres nas turmas de ciência da computação e na área de tecnologia seja ridícula (inclusive na própria empresa), ou tenha reconhecido que mulheres podem ser tão boas, ou até melhores, que homens na tecnologia, a exemplo de algumas mulheres inspiradoras como Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook), Marissa Mayer (executiva-chefe do Yahoo!) ou Virginia Rometty (presidente da IBM).

Fato é que sim, nós estamos em menor número na computação e isso é absurdo. Segundo o Censo 2010, o último levantamento do IBGE com essas informações, as mulheres representam apenas um quarto das 520 mil pessoas que trabalham com computação no Brasil. Para piorar, de acordo com o mesmo senso, o salário médio das mulheres no setor de TI é 34% menor do que o dos homens, e, nos cargos de chefia, elas ganhavam 65% a menos!

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A explicação para isso está relacionada ao motivo pelo qual as mulheres ficaram ao largo do desenvolvimento da ciência e da tecnologia até agora. Vejamos o que aconteceu com a ciência como um todo até aqui. Quantas mulheres engenheiras ou cientistas você pode citar agora sem pestanejar? Imagino que poucas, na maioria dos casos. É que historicamente as mulheres não se vincularam à tecnologia e à ciência por questões sociais. Esperava-se que as mulheres cuidassem da família e, como “procriadoras”, estivessem sempre ligadas à maternidade, que sempre foi pintada de cor-de-rosa, diga-se.

A figura feminina sempre esteve relacionada com o artístico, artesanal, o delicado — valores estigmatizados em gêneros. Essa ideia pode parecer distante para você agora, mas já parou para reparar o que sua sobrinha está ganhando de Natal em comparação ao seu sobrinho, por exemplo? Possivelmente um ferro de passar de plástico, uma cozinha equipada de brinquedo ou bonecas. E o menino com seus legos, pistas de corrida e videogames. Quem está sendo estimulado a quê?

Há um ótimo vídeo que fala sobre por que os pais deveriam estimular suas filhas a serem mais do que bonitas: basicamente porque 66% das meninas no Ensino Fundamental dizem que gostam de matemática e ciência, mas apenas 18% das engenheiras são mulheres nos Estados Unidos.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Esse problema tem a ver com a criação dos filhos, mas não é só isso. Em 2013, pesquisadores da Universidade de Yale publicaram um estudo dizendo que físicos, químicos e biólogos tendem a ver de uma forma mais favorável os homens do que as mulheres quando os dois grupos têm as mesmas qualificações. Meg Urry, diretora do centro de Astronomia e Astrofísica de Yale, disse que vê muitas mulheres deixando a Física não por não serem talentosas o bastante, mas por causa do desencorajamento de se sentir “menosprezada, desconfortável e de encontrar barreiras no caminho para o sucesso”.

Meg também diz que as mulheres não aprenderam a se gabar dos seus feitos como os homens, tendem a internalizar fracassos enquanto os homens colocam a culpa em alguém e são socializadas a reagir aos outros e considerar suas ideias sempre. “Não pergunte o que nós pensamos, não tente formar consenso. Apenas bata na mesa e nos diga o que fazer”, disse um colega certa vez a Meg. Mas muitas mulheres não foram educadas a se comportar dessa maneira ou não gostam de agir assim, seja por motivos de personalidade ou por serem julgadas quando o fazem (homens são “assertivos”, mulheres são “vacas”).

O resultado? Apenas um quarto dos físicos com PhD nos EUA são mulheres, apenas 14% dos professores de Física do país são mulheres, e o número cai vertiginosamente quando se considera hispânicas ou negras. No Brasil não é diferente: segundo um levantamento feito pelo GLOBO, dos 112 jovens cientistas eleitos membros afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) apenas 29 são mulheres. A situação fica ainda mais assustadora quando se considera que o número de cientistas mulheres é praticamente o mesmo que de homens, segundo o CNPq.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa, Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio Loreal/Unesco ano passado, viveu esse problema na pele e aponta uma causa principal: as características da carreira, como viajar bastante (a responsabilidade pelos filhos novamente cai sobre nossos ombros) e a necessidade de ser agressiva, o que nem sempre combina com o perfil das cientistas. Márcia também acha que a imagem da profissão torna a carreira desinteressante para as meninas, é passada uma ideia de que cientistas são nerds sem vida social, o que não é verdade.

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É válido aqui evocar Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo: “A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: a biologia, psicologia experimental, etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo a ‘igualdade dentro da diferença’. Essa fórmula, que fez fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizaram em relação aos negros dos EUA as leis de Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações”. Ou ninguém aqui ouviu falar das pesquisas que falam sobre as diferenças entre o ‘cérebro masculino’ e o ‘cérebro feminino'”?

Acontece uma situação muito parecida com a programação — e saber programar é MUITO importante no mundo em que vivemos. Se até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que programação deveria ser ensinada nas escolas, e Sandberg deixou bem claro que essa habilidade está se tornando cada vez mais necessária no mundo de hoje, está na hora de incentivar as meninas a serem programadoras de suas próprias vidas.

Quer mais um motivo? Porque os programadores são conhecidos por programar soluções para eles mesmos. Ou seja, se apenas homens estiverem no comando da tecnologia, veremos muito menos resoluções de problemas que atingem as mulheres – que já são muitos, convenhamos.

Manter a noção de que mulheres não tem a ver com as Ciências Exatas é uma tradição problemática que não apenas está excluindo as mulheres da elaboração do futuro como também está desperdiçando talentos. Exemplos são os maiores poderes de influência, e a tendência é que quanto mais mulheres trabalharem com tecnologia, mais meninas serão encorajadas a irem atrás de seus interesses na área. Por isso, uma boa forma de mudar padrões comportamentais é esclarecer e insistir que existe outro caminho, que outras pessoas conseguiram, que temos modelos para inspiração.

Podemos começar pelo Brasil. Claudia Melo, Ph.D. em Ciência da Computação, trabalha com  projetos de desenvolvimento de software há 15 anos e hoje é Diretora de Tecnologia da ThoughtWorks Brasil. Camila Achutti, com apenas 22 anos, é diretora nacional do Technovation Challenge Brasil, uma iniciativa apoiada pelo Google para incentivar meninas a serem empreendedoras da tecnologia, e fundadora do Mulheres na Computação, um site de apoio, incentivo e difusão da participação feminina no mundo da tecnologia. Luciana Fujii Pontello, entusiasta e usuária de software livre desde 2003 e desenvolvedora de software na GNOME.

Para as mais novas, temos as meninas do For You, aplicativo de combate ao slut shaming, que, ainda no Ensino Médio orientadas por Juliana Monteiro, usaram a tecnologia para solucionar um problema comum no colégio, o vazamento de fotos íntimas e consequente bullying contra as vítimas. Quer mais? Tome Luana Lara Lopes, bailarina de 18 anos do Teatro Bolshoi, que vai estudar Engenharia no MIT com o objetivo de criar robôs com movimentos tão delicados quanto os da dança.

A programação é o ingrediente para cada site, software, jogo e produto digital. Sabemos que não há outro caminho além do da tecnologia, com um futuro à nossa frente bordado com miniaturização dos chips, aliados à conectividade da internet em todo tipo de objeto cotidiano. Se as mulheres não começarem a cavar seu espaço agora, ficaremos ao largo na história mais uma vez. Os homens ainda são maioria nos cursos de engenharia e ciência da computação, mas as mulheres estão provando que programação também é coisa de mulher, oras. Está na hora de acabar com o estereótipo de programador homem, nerd e sem vida social. Entre tantos outros avanços, conquistamos — muito recentemente — o voto, direito ao divórcio e a pílula anticoncepcional… Agora é a vez de usar a programação em prol do empoderamento das mulheres.

*

 Para quem se empolgou com a ideia, aí vão algumas dicas:

Codecademy, uma instituição educacional que te ensina a programar de uma maneira fácil, grátis, em português e de casa.

– O projeto Scratch, do MIT, disponível no nosso maravilhoso português brasileiro,  permite ao usuário fazer seus projetos online sem precisar baixar outros programas e sem exigir conhecimento da linguagem de programação.

– Se você fala em inglês, pode se engraçar com a Made With Code, do Google, uma iniciativa cheia de projetos, eventos e comunidades para você participar e aprender a amar a programação.

– A fofa Try Ruby, além de ser uma graça, tem tutoriais e exercícios para te ensinar a programar, mas só está disponível em inglês 🙁

– Quer um abraço, uma palavra de conforto, um “vai lá que cê consegue”? Fala com a comunidade das Mulheres na Computação.

– Conheça o MariaLab,  um espaço mais receptivo às mulheres na área de ciência e tecnologia. Mulheres de fora da área, que queiram conhecer mais sobre tecnologia, podem começar, ali, seus estudos e trocas sem medo. O projeto ainda está em construção, mas vale iniciar contato com suas criadoras.

*

As ilustrações foram feitas especialmente para este post por Vanessa Kinoshita. <3

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Diana Assennato é uma das fundadoras do Arco,  startup que inovou a experiência de e-commerce ao desenvolver um sistema de compras pelo Instagram. Jornalista e mestre em mídias digitais pela Goldsmiths University of London, ela conta que, durante a criação da empresa, viu na prática o preconceito de gênero que ainda existe nesta área. “Eu só fui acreditar que essa era uma verdade do mundo tech quando comecei a frequentar eventos e perceber que o universo é esmagadoramente masculino e muitas vezes misógino.”  Por isso, criou ao lado de Natasha Madov a Ada, um portal de tecnologia que incentivar a participação feminina na área (o nome é uma homenagem à Ada Lovelace, mãe da programação). “Ainda vai demorar muito para a proporção de mulheres e homens se equalizar na indústria da tecnologia, mas o que eu tenho feito é ser um pouco menos humilde e um pouco mais assertiva.” A seguir, nosso papo com Diana:

Como você acha que o Arco pode impactar no formato de compras na internet? 

Basta olhar um pouquinho só para frente (e para trás) para entender que o futuro do e-commerce DEVE contemplar o poder do mobile e a tração das redes. Não acho exagero afirmar que as redes sociais são um contexto e uma condição da internet e não uma tendência situacional. Nesse sentido, qualquer produto ou serviço que queira ser à prova de futuro deve olhar para esse contexto antes de qualquer coisa. Cada vez é mais difícil atrair tráfego para os nossos sites, mas ao mesmo tempo estamos cada vez mais inseridos em todo tipo de mídias sociais. Desde o inevitável Facebook até as que atendem nichos muito específicos; é lá onde passamos grande parte do nosso tempo, exatamente por elas condensarem vários estratos da nossa vida on e offline. O Arco nasceu e tem crescido com isso em mente, criar pontes mais transparentes para que ofertas e demandas conversem livremente sem a força opressora da publicidade. A nossa ideia não é transformar a sua timeline em um shopping, aliás, é justo o contrário: queremos que cada um escolha quando e como usar a nossa ferramenta na sua rede social preferida. Não sabemos se o Arco pode mudar o formato do e-commerce no Brasil, mas com certeza está apontando em uma direção para a qual muitas empresas deveriam estar olhando.

O projeto encontrou algum tipo de resistência? E o que tem sido feito para contorná-la?

Trabalhar com inovação já cria uma resistência extremamente desafiadora. Como prever o que desperta o desejo nas pessoas? Como provar que o seu negócio tem futuro se não tem ninguém fazendo o que você faz? O que deve ser considerado sucesso quando o seu modelo de negócio é único? Eu tenho certeza que me faço muito mais perguntas do que conseguirei responder nesta vida, mas esse é o meu grande motor. Ao mesmo tempo, a inovação abre espaços, cria caminhos muito inesperados e funciona como um pretexto incrível para testar, experimentar e também falhar sem medo e sem culpa.

Sobre a questão da desigualdade de gêneros, eu só fui acreditar que essa era uma verdade do mundo tech quando comecei a frequentar eventos e perceber que o universo é esmagadoramente masculino e muitas vezes misógino. Fiquei triste, queria que fosse diferente para poder contar para as pessoas que basta a gente dar as caras, mas não é bem assim. Quando você vai a um evento, workshop, palestra e diz que trabalha com internet, logo te perguntam qual é o seu blog. “É de moda?”, como se a nossa expertise se resumisse à curadoria de looks do dia ou tutoriais de maquiagem.

Posso dizer sem culpa que desde que criamos o Arco eu passei por duas experiências extremamente desagradáveis nesse sentido, por isso mesmo hoje eu estou escolada. Não adianta chorar ou espernear: ainda vai demorar muito para a proporção de mulheres e homens se equalizar no universo da tecnologia, mas o que eu tenho feito é ser um pouco menos humilde e um pouco mais assertiva. Eu tenho essa característica de “play it down”, mas quando se está lá no meio da selva a gente precisa ter, sim, um aperto de mão firme e olhar certeiro. O importante é convencer as pessoas de que você sabe exatamente do que está falando (por incrível que pareça às vezes esse benefício nos é tirado por sermos mulheres).

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Como você avalia a participação feminina nas compras online?

Massiva! Já representamos 50,2% das compras feitas online com um ticket médio bem elevado. É engraçado porque, semanticamente, a mulher não se sente partícipe do mundo da tecnologia ou da internet, mas é ela que escolhe o seu smartphone, ela é fiel às marcas e a empresas digitais e é responsável pela compra de 85% dos gadgets que entram em uma casa. Além disso, eu vejo que o perfil da internauta brasileira é surpreendentemente aberto a novas ideias, experimentos e tentativas. O aspecto social também influi muito para a geração de leads nas vendas: se uma mulher gosta do que você vende, ela não só vai recomendar o seu produto para uma amiga, mas também vai mandar o link já com cupom de desconto. A mulher é viral por natureza!

Quais são as principais mudanças necessárias no cenário tecnológico atual? E como você quer contribuir para elas?

Hoje eu defendo apenas uma grande mudança: precisamos incluir a reflexão humanizada sobre o uso da tecnologia no desenvolvimento da própria tecnologia. Chega de reflexão de mercado. E isso não pode acontecer de cima para baixo, mas ao contrário. É o nosso uso e a nossa experiência de uso que deve ajudar a criar os caminhos do futuro, e não o que grandes empresas querem nos fazer comprar como um item de sobrevivência básico. É claro que muitas vezes nós não temos acesso a tudo que está sendo desenvolvido, mas prestar atenção na direção desses avanços, tentar conectar alguns pontos, discutir entre amigos e ouvir opiniões é extremamente importante para que a tecnologia e a internet sejam uma esfera prazerosa nas nossas vidas, e não opressora. As mudanças e inovações continuarão acontecendo porque (ainda bem) esse universo é infinito, exponencial, lindo e poderosíssimo, mas se conseguirmos cobrir esse bolo com uma grossa camada de reflexão humanista podemos criar um novo fluxo de desenvolvimento tecnológico, menos mercadológico e mais antropológico e social.

Sabemos que mulheres e tecnologia têm tudo a ver, mas qual é o caminho para retomarmos esse espaço?

Ter pessoas falando conosco. Na minha opinião a retomada do espaço só vai acontecer quando nos sentirmos parte dele, e para isso precisamos de pessoas falando com a gente, na nossa linguagem. Grandes jornais reduzem a editoria de tecnologia a meio caderno uma vez por semana ou a manchetes de compras e vendas milionárias de empresas. Para as revistas femininas o assunto sequer entra na pauta. Só que alguém tem que avisar esse povo que hoje, em alguns países, a mulher já gasta mais por ano em artigos tecnológicos do que em maquiagem. A mídia especializada é técnica demais: siglas, abreviações e números que não fazem o menor sentido e acabam nos afastando… Além disso: exemplos! Queremos ver exemplos de mulheres que usam, fazem, curtem, quebram, jogam, pensam e vivem a tecnologia de forma natural. Onde estão essas pessoas? Ah, sim, aqui mesmo! Só não nas capas de revistas nem nos altos escalões de grandes empresas de tech.

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O que é o Ada e o que o projeto tem a oferecer?

O Ada nasceu para ser o principal site acessado por mulheres que querem tirar as suas dúvidas, entender melhor ou simplesmente aprofundar seus conhecimentos sobre tecnologia, internet, comportamento digital e vida online. De uma forma ou de outra (e independente da gente gostar ou não), esses assuntos permeiam todas as esferas da nossa vida, seja através dos nossos smartphones ou da nossa dificuldade velada em entender a real diferença entre o Google Drive e o Dropbox. O ritmo das mudanças tecnológicas é rápido demais pra gente presumir que todo mundo está atualizado com tudo, por isso queremos oferecer um lugar para conversar sobre tudo isso com calma, sem pressa e com espaço para reflexão.

Que conselho você daria para uma menina que deseja trabalhar com tecnologia?

1) Leia, leia, leia! Leia os velhos, leia os novos, leia o Gizmodo, leia as entrelinhas do seu feed. Tente entender o cenário maior, e não apenas a ferramenta. Lembre-se que fogo também é tecnologia.

2) Não tenha medo de cursos técnicos, mas, principalmente, faça com que matérias “de humanas” acompanhem o seu trajeto. Estude antropologia, história, psicologia. É inacreditável como as mulheres conseguem subjetivar assuntos mecânicos e abrir diálogos novos e surpreendentes.

3) Comece logo. O mercado está gritando por profissionais qualificados, paga bem e a possibilidade de crescimento é incomparável com outras áreas.

 


[IMAGENS]

1) McTurgeon

2) The Reconstructionists

3) Women Rock Science 

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olga violencia

olga violencia
Conheci a Marta Trzcinska, uma advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres, na XII Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, da CEPAL. Em uma palestra, ela falou sobre as práticas de assédio e discriminação online contra as mulheres. Fiquei feliz de saber que alguém estava acompanhando mais de perto esse problema, pensando nos efeitos que ele causa às mulheres e em soluções de curto e longo prazo.

Claro que a violência online é apenas um desdobramento da violência cotidiana que sofremos nas ruas, no trabalho ou em nossas casas. E assim como as outras, ela não tem sido levada muito a sério, a não ser em casos que ganham grande repercussão nacional, como as fotos vazadas da atriz Carolina Dieckmann e da filha do Renato Gaúcho. O cyber-bullying ou o online harassment são práticas disseminadas na rede, mas ele é praticado de formas diferentes dependendo do sexo das pessoas.

Durante a campanha Chega de Fiu Fiu, a Juliana recebeu uma série de ameaças de estupro e teve sua aparência física colocada em debate. Um acontecimento lamentável que me chamou a atenção para a reprodução da prática que busca desqualificar argumentos e ideias pelo sexo da pessoa. A Marilena Chauí, lá na década de 1980, disse que a desigualdade, em suas diferentes formas, cria o problema do silêncio incompetente, que é o medo das pessoas manifestar suas opiniões em debates públicos por achar que não entendem ou não podem entender do assunto pela posição desigual que ocupam na sociedade.

A violência e agressão contra as mulheres em espaços de debate pode levar ao silenciamento de suas vozes. Quando a violência online é dirigida aos atributos físicos ou sexuais das mulheres, deixa explícita a mensagem de que o espaço público não é nosso lugar. Mas nós insistimos em dizer que sim, ele é de todas nós, e a ocupá-lo. Foi sobre esses e outros temas que conversei com a Marta..

Existe diferença no assédio virtual quando as vítimas são mulheres?
Todo mundo pode sofrer com assédio online, mas há uma diferença muito grande no tipo de assédio praticado dependendo do sexo da vítima. Quando homens se manifestam em debates, fóruns ou outros espaços online, eles geralmente recebem comentários sobre serem idiotas ou não terem competência ou qualificação para falar sobre aquele assunto. As ofensas às mulheres, por outro lado, é sexualizado. São comentários sobre a aparência, o tamanho dos seus seios e ameaças de estupro ou de serem molestadas. Em 2013, um canal de TV sueco produziu um documentário sobre violência online contra mulheres. Escritoras, jornalistas e apresentadoras de talk show contaram sobre suas experiências de assédio e das ameaças que receberam por expressar suas opiniões em público. O canal de TV postou uma parte do programa no Youtube. O vídeo recebeu tantas mensagens de ódio que o canal de TV teve que bloquear os comentários. Quando um jornal escreveu um artigo sobre o que havia acontecido com o vídeo do Youtube, esse artigo também recebeu o mesmo tipo de mensagem violenta. Não havia espaço em que essa história fosse divulgada no qual esse padrão não se repetisse. Parecia impossível quebrar o ciclo de ódio.

Que ações poderiam ser construídas para evitar práticas como essas?
O maior desafio, e o mais importante, é o de conscientizar a população sobre o assunto. Para conseguir fazer isso, o fundamental é que tanto os governos quanto a mídia assumam suas responsabilidades. Nos últimos anos, a mídia da Noruega tem se comprometido a monitorar comentários com conteúdo discriminatório. Os maiores jornais do país recentemente modificaram seus sistemas para que todos os que querem participar de debates online se registrem antes com nome completo, para que possam ser identificados. O assédio sexual online não está sendo levado suficientemente a sério pela polícia e pela justiça. Se essas instituições se dedicassem a essas práticas, passariam o sinal sério de que esse comportamento não deve ser tolerado por ninguém. Também é importante aumentar o debate sobre esses tipos de crime e sobre a igualdade de gênero já nas escolas, desde cedo.

No fim de 2013, duas jovens brasileiras cometeram suicídio após terem suas fotos e vídeos íntimos divulgados na rede. Nossa legislação sobre esse tipo de crime é muito recente e a polícia sempre diz que é difícil encontrar os culpados.
É muito triste saber disso. Pela minha experiência legal, a polícia tem, ou deveria ter, todo o conhecimento técnico para encontrar as pessoas que publicam fotos e vídeos íntimos não-autorizados. Acredito que, infelizmente, seja mais uma questão de quantos recursos eles querem usar – ou são investidos pelo-Estado – para investigar esses tipos de casos.

Qual é a consequência dessa violência online para as práticas democráticas?
O problema é que a violência nunca é apenas uma questão física. Ela também envolve os direitos humanos e a liberdade de expressão. As mulheres estão sendo aterrorizadas pelos homens para deslegitimar seus argumentos e opiniões. Opiniões importantes e necessárias estão sendo silenciadas pelo assédio e discriminação online. O resultado é um déficit democrático.

Quais são os principais problemas de gênero que você ainda identifica – tanto global quanto localmente?
A igualdade de gênero é um problema imenso para todas as sociedades e países ao redor do mundo. As mulheres, em geral, têm menor acesso à educação, ao trabalho, a um sistema de saúde decente, ao aborto livre, etc. Felizmente, a maioria dos países europeus avançaram bastante em muitas dessas desigualdades. Mas a violência contra as mulheres continua sendo o maior obstáculo para a igualdade de gênero, não importa quão rico ou pobre seja o país. É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime.


A entrevista foi realizada por Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em discussões sobre trabalho e gênero.

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olga tech
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olga tech

“Ela é mulher, mas é uma excelente programadora.” Que atire o primeiro código aquela que nunca ouviu isso no ambiente de trabalho. Disfarçada de elogio e frequentemente proferida na área de tecnologia, a frase é um retrato do preconceito que ainda assombra o setor e resulta até mesmo em disparidade salarial. No mesmo cargo de gestão, mulheres podem ganhar até 23% menos do que homens. A boa notícia é que o contra-ataque feminino vem ganhando forças.

No exterior, Sheryl Sandberg, vice-presidente de operações do Facebook, denunciou a discriminação sofrida pelas mulheres no mercado de trabalho, principalmente no de inovação, em seu livro Faça Acontecer. Em terras nacionais, contamos com a luta da Mulheres na Tecnologia (/MNT), ONG que visa o aumento da participação e o reconhecimento do potencial feminino na TI.

O grupo – criado há quase 5 anos por Andressa Martins, Narrira Lemos e Luciana Silva – organizou recentemente uma pesquisa online em que questionava sobre a existência de preconceito de gênero no setor. Mais de 70% dos participantes responderam que sim. “Não são raras as situações constrangedoras que uma profissional vive por estar num ambiente que supostamente não seria o dela”, afirmam Danielle Oliveira e Márcia Santos, conselheiras da /MNT. “Ouvir que programação é difícil para as mulheres é bastante comum no nosso dia-a-dia.” 

Abaixo, uma entrevista com a /MNT sobre as mudanças no atual cenário do mercado de trabalho e as ações que vão provar que tecnologia é coisa de mulher sim!


1 ) Em termos de gênero, qual é o atual cenário da área de tecnologia no Brasil? 

Podemos afirmar que o as mulheres geralmente representam entre 10 a 30% de profissionais na indústria de Tecnologia da Informação no mundo. Os números variam muito de país para país, de um modo geral há menos mulheres donas de suas próprias empresas ou startups do que as trabalham em empresas públicas ou privadas, e esta proporção é menor ainda em cargos de gestão técnica.

Nos Estados Unidos, incluindo os cargos administrativos, elas são 32% dos profissionais de TI. No Canadá, elas representam cerca de 23 a 28%  e, na França, são 20%. No Brasil, as mulheres correspondem a aproximadamente 19%, segundo o PNAD/2009. Diversas pesquisas apontam que há preconceito de gênero, e em uma pesquisa realizada em julho de 2012 em um evento da SBC foi afirmado que “a resistência – quando a menina diz que quer fazer computação ou alguma área tecnológica- começa em casa, com os pais e familiares; depois as adolescentes acabam esquecendo e não se identificam mais com a área.”

2 ) Ada Lovelace, Grace Hooper e as programadoras do Eniac são algumas mulheres ícones da área de tecnologia e programação. Quando foi que as mulheres perderam espaço para os homens nesse setor?

A professora da Unicamp, Claudia Medeiros – premiada pelo Instituto Anita Borg em reconhecimento a sua atuação em favor da inserção da mulher na computação no Brasil – citou em uma entrevista que havia duas hipóteses para este desinteresse feminino: uma econômica e outra social.

Justificou que o aspecto econômico deriva de um aumento da competição na área. “Antes, as mulheres buscavam profissões associadas porque não havia tanto interesse. À medida que o setor evoluiu e começou a oferecer salários melhores, os homens pressionaram o mercado de trabalho e a competição foi acirrada”, disse. A hipótese social considera o fato de a computação ser vista como uma profissão que privilegia o trabalho em isolamento, na qual se passa o dia todo diante de uma tela. A mulher teria preferência por atividades que incluam contatos humanos. “Sabemos que isso é uma mistificação, pois a computação exige cada vez mais interação social e tem importância em todas as áreas”, afirmou.

Acreditamos na hipótese econômica, onde, assim como em outros profissões de ciência e tecnologia, a mulher começou a perder espaço a partir do momento em que esta passou a ser uma área de atuação reconhecida e respeitada. Na medicina, por exemplo, até o século XIV as mulheres tinham um conhecimento tácito dos processos de curas. Com a advento da ciência moderna, a medicina se tornou uma profissão masculina e as mulheres foram proibidas pela sociedade e a igreja de exercê-la sendo consideradas bruxas as mulheres que ainda o faziam.

3 ) Vocês são otimistas com as mudanças, em termos de gênero, na área de computação, inovação e tecnologia? Como enxergam o futuro das mulheres na TI?

Estatisticamente, o percentual de mulheres em relação aos homens que se ingressam nos cursos de tecnologia vem reduzindo. Este é um fator preocupante, mas também incentivador de uma resposta da sociedade. Novos grupos, blogs e organizações sem fins lucrativos surgem focados na discussão desta temática. Grandes empresas de tecnologia, como Thoughtworks, Google, IBM, Microsoft e HP, começaram a se preocupar em ter mulheres no seu quadro de funcionários e já possuem programas específicos de retenção de talentos femininos e incentivo a entrada de novas mulheres.

Diante a compreensão das empresas sobre a importância de termos a diversidade de talentos e o cuidado em manter um clima apropriado, somos otimistas com o futuro das mulheres na área, mesmo entendendo que ainda a muito para se trilhar.

4 ) Como incentivar mais mulheres a participarem dessa área?

Temos um caminho longo a percorrer, várias ações ainda precisam ser tomadas no sentido não só de incentivar a participação de mais mulheres na área mas também de empoderar as mulheres que já estão na área. Podemos citar três linhas de atuação do grupo:

Conscientização da sociedade é a primeira forma de mudança desta cultura. Em março deste ano, organizamos o 1º Encontro Nacional de Mulheres na Tecnologia que contou com a presença de 100 mulheres que participaram de mais de 20 atividades. Para o ano de 2014, já estamos organizando o 2º Encontro Nacional que acontecerá nos dias 27 e 28 de março.

Aumentar a autoconfiança das mulheres na tecnologia. Temos a ideia de criar um espaço virtual e permanente de troca de informações, profissionalização, empregabilidade e sociabilização nas áreas de inovação e tecnologia.

Estamos elaborando um projeto piloto com objetivo de apresentar a jovens de ensino médio noções básicas de programação e robótica estimulando a curiosidade e interesse na área de tecnologia da informação. No âmbito da recolocação profissional, estamos iniciando em Goiânia um projeto piloto de capacitação e apropriação de tecnologia.

5 ) Qual seria o impacto que a industria da tecnologia sofreria se existisse mais mão de obra feminina?

O maior número de mulheres atuando nas empresas resultaria num ambiente com maior diversidade. Este tipo de ambiente tende a ser mais estimulante e produtivo, favorecendo a elaboração de novos projetos e soluções. Isso contribui para a obtenção de um clima positivo que, pelo combate à intolerância, estimula a cooperação e a sinergia entre os profissionais da organização em torno de seus objetivos comuns. De forma que cria-se um ambiente que reforça os vínculos dos funcionários com o trabalho e sua identificação com a empresa, ajudando a gerar ideias novas e a aumentar rendimentos.

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olga startup

olga startup

O empreendedorismo ainda é um setor majoritariamente masculino em todo o mundo. No Brasil, entretanto, a situação ao menos parece melhorar. Uma pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) em 2012 mostrou que as mulheres são metade dos empreendedores em começo de atividade no Brasil (49,6%). Elas não apenas têm disposição para empreender, mas também sabem o que estão fazendo: no setor de franquias, as mulheres costumam faturam, em média, até 32% a mais do que as lojas gerenciadas por homens, segundo a consultoria Rizzo Franchise, especializada nesse tipo de negócio. Mas ainda há uma grande diferença entre o empreendedorismo masculino e feminino: a inovação. Por serem minoria em áreas tecnológicas, elas ainda tem dificuldades em pesquisas e desenvolver novos produtos. 

Entrentanto, existe muita gente trabalhando para mudar esse cenário – e vamos mostrar aqui algumas delas. Veja quem são as brasileiras que estão ajudando a consolidar o setor de startups e inovação no país:

olga bel

A empreendedora: Bel Pesce, 25 anos

Ela é a nossa Mark Zuckerberg – sem os escândalos, os processos jurídicos e o PRISM. Bel Pesce, aos 25 anos, tem um currículo de invejar velhos de guerra. Formou-se no MIT, onde fez quatro cursos de graduação:   engenharia elétrica, administração, matemática e economia. Mas só a forma como foi aceita na universidade já é uma história de filme em si. “Descobri sobre o MIT alguns dias antes do prazo para entregar todos os documentos.  O processo de aplicação é extenso e complicado. Já havia passada a data para me inscrever na prova de múltipla escolha SAT e também para ser entrevistada por um ex-aluno do MIT”, conta em seu site. “Mas aprendi cedo que ter perseverança e dar o melhor de si pode fazer milagres. Fiz duas coisas um tanto malucas. Primeiro, descobri o endereço de um ex-aluno do MIT em São Paulo e fui bater na sua porta. Segundo, apareci nas provas do SAT e implorei por um exame, mas infelizmente as provas vinham contadas dos Estados Unidos. Pedi para esperar e ver se havia alguém que faltasse. Em uma cena dramática, fiquei ali à porta, vendo as pessoas entrarem e sentarem em frente aos seus exames. Mas um assento continuou sempre vago e acabei fazendo esse exame.”

Sua experiência profissional conta com empresas de peso como a Microsoft, Deutsch Bank e Google. Em 2011, foi para o Vale do Silício, na Califórnia, onde, aos 22 anos, foi diretora de produtos da Ooyala e comandou uma equipe de 25 engenheiros (sim, todos homens). Bel lançou por conta própria o aplicativo Lemon Wallet, que faz cópias digitais de tudo que você carrega na carteira. Mais de 2,5 milhões de pessoas já baixaram o programa. Seu primeiro livro A Menina do Vale, onde ela conta sua trajetória, viralizou pela internet com 1,5 milhões de downloads em três meses. Recentemente, inaugurou a FazINOVA, escola onde dá aulas descomplicadas sobre empreendedorismo.

olga camila

A investidora: Camila Farani

A advogada e empresária Camila, de 31 anos, passou para o outro lado da mesa do pitch por gostar de desafios. “Eu queria fugir da renda fixa, a bolsa está sem graça e acabei entrando no mundo dos profissionais que investem em pequenos negócios”, disse entrevista à revista Exame. Como investidora-anjo (pessoa física que compra participação em empresas), investiu 300 mil em cinco empresas de pequeno porte em áreas como hotelaria e nutrição cujo segredo era evoluir a inovação tecnológica. Em seu blog Startups e Empreendedorismo, no site da PAC-PME (Programa de Aceleração do Crescimento para Pequenas e Médias Empresas), Camila dá dicas para quem quer se aventurar nessa área.

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A advogada: Luiza Rezende, 25 anos

A paulistana Luiza Rezende formou-se em Direito pela USP, mas não quis deixar de lado seu interesse pelo empreendedorismo, tecnologia e inovação. Juntou as duas áreas e, hoje, oferece consultoria jurídica para quem quer embarcar no mundo das startups. “Tive uma atitude bem geração Y e fiz do meu trabalho o meu prazer”, conta a advogada, que fala fluentemente seis línguas. Em seu site, o Elemento Jurídico, ela esclarece dúvidas como “o que define uma startup?” e “como funciona a lei dos direitos autorais?” e debate temas tais quais “a importância dos termos de uso do seu aplicativo”.

“O universo empreendedor está começando a entrar em ebulição no Brasil”, afirma. Uma das causas apontadas por Luiza é o Startup Brasil, projeto do governo federal que apoia novas empresas no setor de ciência e tech. “Foi o primeiro passo para uma nova cultura empreendedora: deu popularidade ao termo startup, confiança aos empreendedores e aos investidores.” Sob sua ótica, a advogada aponta o mercado de nicho como o foco dos novos empreendedores: “Vejo muitas lojas virtuais de mercados específicos e redes sociais para profissionais sendo criados.”

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olga games 2

olga games 2

Quando tinha 16 anos, entrei em um jogo de estratégia online –  nele o jogador precisa desenvolver uma tribo, formar alianças e competir pelo domínio do servidor. Fiquei viciada. Passava horas jogando, traçando conspirações, desenvolvendo minhas cidades e programando batalhas. Tornei-me general da minha aliança, uma posição de importância crucial. Um belo dia, entrei no fórum do jogo e vi que havia uma enquete para eleger o jogador mais ‘temido’. Os candidatos estavam chamados de “Zézinho, o terrível gaulês” ou “Léo16, o sanguinário teutão”. Eu era a única jogadora (leia-se a única mulher) listada na votação. Minha descrição? “A doce romana”. Eu havia devastado cidades virtuais, saqueado alianças inteiras e era responsável pelo extermínio de vários jogadores. E era vista como doce. Ganhei a eleição – provavelmente só para provocar os outros jogadores listados ali, uma piada.

Parece um exemplo bobo, mas serviu para abrir meus olhos em relação ao que acontecia com garotas nesses jogos. Mudei de gráficos com outros games, mas o cenário era bem parecido. Em outra franquia  meu avatar era obrigado a usar roupas decotadas que nem de longe pareciam adequadas para a batalha. Minha personagem se protegia com uma espécie de sutiã de jade que mal tapava os mamilos (as opções eram sutiã de opala, de rubi, de ônix…). Tudo para preservar as tão valorizadas curvas exageradas com as quais a maioria dos títulos retratam suas personagens.

Em jogos de tiro, recebi cantadas e esculachos de jogadores de 10 a 40 anos ao usar um headphone para me comunicar com minha equipe. Era só uma voz feminina soar no grupo para que a atitude deles mudasse. Descobri que ‘tinha que ser mulher’ não é frase ouvida apenas no trânsito – basta levar um headshot. Ao comentar sobre games na escola e na faculdade via rapazes revirando os olhos por ‘eu não saber do que estava falando’ e moças achando que eu só tocava no assunto para chamar a atenção masculina. Será que já cunharam o termo nerdshaming?

Não é implicância minha, nem sou uma jogadora assim tão ruim para justificar a reação. Não sou a única que passa por isso – nem de longe, infelizmente. A revista New Media & Society publicou um estudo que revela que, ao comentarem coisas neutras (do tipo ‘oi, pessoal’) no headphone durante uma partida de Halo, mulheres recebem 3 vezes mais respostas negativas do que homens.

Recentemente, li uma entrevista com uma das roteiristas da franquia Bioshock, Susan O’Connor, que também participou do time de criação de Lara Croft e tem mais de 10 anos de experiência no mercado. Durante a conversa com o repórter ela se refere ao jogador sempre como uma figura masculina. Isso chama a atenção do jornalista que pergunta a ela “mas e a perspectiva feminina nos games?”. Susan então revela que nunca viu uma garota ser chamada para testar um game na produtora do Bioshock, a 2K Games. Logo depois é discutida uma personagem feminina do jogo Leisure Suit Larry que foi desenvolvida com uma história interessante, tem uma personalidade diferente, um prato cheio para uma roteirista… mas tudo para que, uma hora, o jogador fique ainda mais interessado em fazer sexo com ela. E então Susan revela que está cansada da indústria. “Não sou tão apaixonada por games para ignorar essas coisas sobre as quais discutimos”, confessa.

Se o machismo da indústria dos games é capaz de afastar uma roteirista com 10 anos de experiência, uma garota que está apenas começando a se interessar e sente tamanha resistência ao tentar entrar nesse mundo desiste sem pensar duas vezes. Acho que a maior prova de como o grupo dos gamers é fechado é o meme Idiotic Nerd Girl. Ele consiste em zoar meninas que por serem bonitas, ou populares, ou pegarem a crista da onda na moda de algum game, não teriam direito de participar de comunidades geeks por não serem nerds “de verdade” (suspiro).

Vamos pensar direito sobre o que esse meme realmente diz?

olga gamers

Então a cultura nerd é machista? Mas eles também não eram minoria há alguns anos?  

O estereótipo do nerd, alguns anos atrás, era o menino emocionalmente e fisicamente frágil, extremamente introvertido, que só tirava nota boa na escola. Hoje, o cenário é bem diferente –  alunos tímidos e CDF viraram magnatas, ser nerd ou geek é visto como uma coisa boa e tem um apelo cada vez maior. Mas os próprios nerds não gostam dessa popularização. Há aqueles que acham que suas paixões, antes exclusivas desse grupo, estão sendo ‘roubadas’, como se ficassem menos nobres com um maior número de fãs. E aí entram mulheres que, ao se aproximarem desses domínios, são ridicularizadas por sua falta de habilidade ou conhecimento.

Vale lembrar que a popularização da figura do geek coincide também com uma maior liberdade feminina em relação à cultura e à tecnologia. Em lojas especializadas, vemos pais comprando quadrinhos e games para as filhas. No ‘meu tempo’, quando meu pai me levava para comprar cartas de Magic The Gathering, eu cheguei a ser olhada com espanto por vendedores. Mas, mesmo hoje, nem sempre nos é dada a opção de fazer parte disso – de várias formas, como as citadas acima, somos encorajadas a perseguir interesses considerados ‘mais úteis’ ao universo feminino. Não é como se não gostássemos de games, quadrinhos, ficção ou qualquer outro elemento nerd. É que poucas meninas têm contato com esses produtos e menos ainda são aquelas encorajadas a cultivar sua relação com eles. 

Gosto de acreditar que esse cenário está mudando. Na última conferência E3, a Nintendo revelou que a normalmente frágil Princesa Peach, cujo papel na maioria dos jogos é ficar esperando Mario resgatá-la, será um personagem jogável em Super Mario 3D World. Sim, ela ainda é uma princesa, ela ainda usa rosa. Mas ela já consegue matar monstros sozinha e acompanhar os encanadores italianos numa boa*. Há quem diga que a ideia da Nintendo é trazer mais meninas para a série – acho que não há necessidade disso. Os títulos da franquia  sempre tiveram um grande contingente de adeptas. Penso que se trate, realmente, de uma maior conscientização sobre a forma com que mulheres são representadas.

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A verdade é que que cada um, homem ou mulher, tem seu tempo. Da mesma forma que a filha de uma amiga descobriu como baixar apps com 4 anos de idade, minha mãe descobriu o Call of Duty só depois dos 50 (e detona muito moleque no jogo). Isso mostra que a pequena quantidade de mulheres ou o tempo de contato menor não significa que somos menos apaixonadas pelas causas nerd. Se você, homem, se considera um conhecedor profundo de algum produto cultural, significa que você precisou estudá-lo, gastar tempo nele. Você também já deu mancada antes de acertar. E, sim, também já foi xingado de noob, dentre outras coisas. Mas ninguém te julgou menos capaz por ser um homem. Um hora, seu conhecimento cresceu e você foi reconhecido por isso.

Dê crédito às mulheres, tanto às que nasceram jogando videogame quanto às que descobriram ontem a paixão por Star Wars. Dê a elas a oportunidade de descobrirem seus gostos, sem envergonhá-las por ainda não terem tantas informações ou habilidade. Se você é geek hoje, você já foi um noob. Dê a mesma chance para qualquer um, homem ou mulher, que quiser trilhar o mesmo caminho.

Quer se aprofundar no assunto? Recomendo fortemente a série Damsel In Distress da vlogger Anita Sarkeesian (Feminist Frequency).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=X6p5AZp7r_Q]

A história da própria série de vídeos já é digna de nota – ela apelou ao Kickstarter para arrecadar fundos e produzir seus vídeos sobre o modo com que mulheres são retratadas nos games. E, ao lançar a campanha, se tornou alvo de bullying. Ela compartilha essa história em sua palestra no TED sobre garotas, games e machismo.

*Em 2006, foi lançado um game de Nintendo DS que trazia Peach como personagem principal “Super Princess Peach”. No episódio, Peach é que devia salvar Mario. Mas por se tratar de um título separado da série de games convencional, com o marketing voltado para garotas, o apelo dele entre os homens não foi memorável.


Luciana Galastri é repórter do site da revista Galileu. Se a vida fosse como um navegador, a sua se alternaria entre as seguintes abas: internet, games e literatura.

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