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Durante a campanha #PrimeiroAssédio, em 2015, a baiana Sofia Costa contou sobre o abuso que sofreu em fevereiro daquele ano, durante o carnaval de Salvador, junto a uma amiga que estava alcoolizada e desacordada.

O agressor é um artista muito conhecido na região. Ele abriu contra Sofia um processo por calúnia e ela, por meio de uma transação penal, atualmente cumpre 7 horas semanais em serviços comunitários, somando um total de 40 horas. Seu abusador teve cobertura da mídia para defender-se das acusações. Sofia não. Confira o relato dela aqui: https://www.facebook.com/sofia.costa.52090/posts/1187383354605906?pnref=story

Sofia não é a primeira e, infelizmente, ainda não será a última mulher a encarar as dificuldades e a incredulidade com que vítimas de crimes sexuais são recebidas pela justiça e pela opinião pública:

– A universitária Júlia Velo foi ao Bar Quitandinha, em São Paulo, com uma amiga, dias antes do carnaval. Lá, foram assediadas e agredidas fisicamente por dois rapazes. A gerência nada fez para defedê-las, tratou os agressores super bem por serem clientes antigos e expulsou as duas garotas por causar confusão. Quando publicou seu depoimento no Facebook, a publicação viralizou e a página do bar recebeu uma enxurrada de críticas. A gerência tentou se desculpar, depois desmentiu, disse ser contra o assédio, mas começou uma campanha contra Júlia, chegando a subir um vídeo no YouTube, editado internamente, para acusá-la de ter inventado a história. Apesar do apoio que recebeu, Júlia também foi vítima de outros ataques, além da gerência do bar (que nunca procurou ouvi-la), de pessoas que não deram crédito à sua história.

– Há mais de 20 anos recaem sobre as costas do comediante Bill Cosby acusações de estupro, mas foi somente em 2014, quando Hannibal Buress citou seu passado criminoso em um show de stand up, que a conversa em torno do assunto ganhou força e, desde então, são mais de 50 as mulheres a acusá-lo do crime. Apesar disso, parte da opinião pública ainda duvida da palavra delas e Cosby está processando sete de suas acusadoras por difamação.

– Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la estuprado na infância. Ainda que, além de sua palavra, existam fortes evidências de que o abuso tenha acontecido, Woody Allen nunca foi condenado judicialmente e permanece um diretor aclamado pela opinião pública.

– Quando o vídeo de Janay Rice sendo nocauteada por seu marido, o jogador de futebol americano Ray Rice, em um elevador foi parar na mídia, ainda que um ato tão grave de violência tenha sido registrado de maneira indiscutível, ainda sobrou espaço para questionamentos sobre a atitude de Janay: por que ela ficou? Por que não se separa dele? Como se a culpa pelo soco fosse dela por não abandonar um relacionamento abusivo. Janay deu uma série de entrevistas explicando sua decisão e o caso gerou importantes discussões online por meio das hashtags #whyIstayed(#porqueeufiquei) e #whyIleft (#porqueEuParti), que jogaram luz sobre a complexidade de relacionamentos que se tornam violentos.

– O cantor Cee-Lo foi absolvido das acusações de ter aplicado o golpe “Boa noite Cinderela” em uma mulher que afirmou que lembrava ter ingerido a bebida e depois estar subitamente nua em sua cama. Autoridades não acreditaram na história dela porque eles já estavam saindo há alguns meses e feito sexo antes.

– O jogador de futebol americano Greg Hardy é um dos muitos a cometer violência contra mulheres. Ele deu uma surra na namorada, fez o que pôde para fazer com que parecesse legítima defesa, mas o caso foi encerrado desfavoravelmente a ele. Apesar disso, ele voltou a jogar e teve a oportunidade de dar uma entrevista à ESPN, um dos maiores canais de esporte do mundo, desmentindo o caso. Sua ex-namorada teve a vida destruída e não consegue arrumar um emprego.

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– Em 1991, o assédio sexual sofrido por Anita Hill em seu ambiente de trabalho por seu então chefe e atual candidato a juiz da suprema corte americana, Clarence Thomas, se tornou um dos principais assuntos do país. O depoimento e questionamento de Anita sobre o caso perante as autoridades foi televisionado, obrigando-a a recontar e reviver seu trauma em rede nacional e diante de seus familiares. Clarence negou as acusações, que se tornou um caso da palavra dela contra a dele, e conseguiu sua nomeação como juiz da Suprema Corte. Apesar dessa derrota para os apoiadores de Anita, seu caso colaborou para um aumento substancial de mulheres na política, já que as americanas perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava as mulheres; milhares de vítimas de assédio vieram à frente para denunciar seus casos e se tornou um marco no combate ao assédio sexual em ambientes de trabalho nos EUA.

– A cantora Kesha pediu a quebra de seu contrato com o produtor Dr. Luke acusando-o de abuso sexual, verbal, físico e emocional. Ela não apenas perdeu o processo como continua sob a obrigação de gravar mais seis álbuns com seu agressor. A juíza do caso ainda disse que “Nem todo estupro é um crime de ódio motivado pelo gênero”. ( E quais seriam???). A gravadora ofereceu a quebra de contrato posteriormente caso ela desmentisse as acusações. Ela se negou.

– Em uma das edições do programa Big Brother Brasil, um dos participantes estuprou uma mulher embriagada o suficiente para não ter condições de consentir. Ela foi interrogada por três horas, ele foi expulso do programa, mas a opinião pública condenou a moça.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 47.646 estupros foram registrados no Brasil em 2014, mas estima-se que apenas 10% dos casos sejam notificados. Ou seja, em média 450 mil mulheres preferem manter o silêncio sobre o crime que sofreram a procurar a justiça.

Não apenas as delegacias (incluindo muitas DEAMs http://lugardemulher.com.br/a-ineficiencia-da-delegacia-da-mulher-parte-i) estão despreparadas para reconhecer o crime e lidar com as vítimas, como o judiciário em si, em toda sua ineficiência, ajuda a prolongar a dor com processos enormes e por vezes inconclusivos.

Existe também o mito das falsas acusações de estupro, sendo que estatisticamente é mais fácil um homem ser estuprado do que ser vítima de uma acusação falsa. Além disso, uma vez que o caso é levado à justiça, cabe às autoridades uma investigação neutra sobre o caso e, caso a acusação seja mentirosa, medidas punitivas serão tomadas contra quem a fez. Quem não deve, não teme – ou, pelo menos, não deveria temer.

Em uma sociedade machista como a nossa, não existem benefícios diretos a uma mulher que se assume vítima de estupro. O bem que isso traz é para as mulheres como um todo. A cada Sofia que levanta sua voz e conta o que passou, muitas Anas, Robertas, Jéssicas, Sheilas e sabe-se lá quantas outras ouvintes saberão que essa dor não é só delas, que não estão sozinhas, que outras sobreviveram, que existe um caminho.

Pode ser que no caminho algumas derrotas sejam inevitáveis, mas o silêncio não nos protege. Oferecemos toda nossa solidariedade e carinho às vítimas que decidem não falar sobre o assunto – continuaremos lutando por elas. E agradecemos a todas que tomaram a decisão de lutar por justiça: obrigada por compartilhar a sua história para tornar o mundo um lugar mais seguro para todas nós.

#ChegadeFiuFiu #FoiEstuproSim#MexeuComUmaMexeuComTodas


Arte: Alex Fine

 

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“A cor está para o Brasil como o gelo está para a população do Alasca.” – Hélio Santos.

As narrativas de pessoas negras não são as mesmas, mas possuem diversas semelhanças. Não seria diferente no quesito acadêmico e intelectual: crescemos acreditando que não sabemos nada, ou popularmente dizendo, que somos burros. Com essa percepção que baseia nosso intelecto como limitado, somos sabotados muitas vezes por nós mesmos ao acreditarmos que não somos intelectuais, inteligentes ou capazes o suficiente para sermos reconhecidos. Esse sentimento de “autossabotagem” nos espreita, essa sensação foi introjetada por nós negros, seja no inconsciente fruto da inferiorização racista seja na autoestima que se reflete na rotineira insegurança para certas atividades nas quais não costumamos nos ver, essa introjeção nos limita e nos frustra.

Na escola, alunos negros tendem a receber um tratamento diferente dos demais, um descaso velado. Isso já se dá pela seleção feita pelo racismo institucional que priva alunos negros de maioria pobre do acesso a uma educação de qualidade, essa que fica restrita as classes altas. O aluno negro está alheio às condições plenas de desenvolvimento, afastado dos meios que o tornariam qualificado e competitivo. Paralelo a isso o aluno negro mesmo em meios onde a maioria é negra, sofre com ofensas racistas dos coleguinhas, quanto mais escura sua pele e mais evidente são os traços “lidos” como negros, as agressões tendem a ser constantes e ferozes.

“O professor estava corrigindo as tarefas. Ele tinha terminado e falou que a gente podia conversar. A gente foi conversar e eu estava com o colega do lado. Ele chegou e cuspiu em mim”.

Esse é um relato de um jovem de 14 anos, sobre um caso que aconteceu em novembro de 2015. Provando que a violência sistêmica e estrutural que o racismo apresenta no Brasil reflete o ambiente das escolas, até mesmo por partes dos seus professores, inclusive, muitos isentam-se dos esforços na implementação da lei 10.639:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Eu sei que a vida dos professores em escolas públicas é difícil, a profissão é desvalorizada, exaustiva e mal remunerada, estudei nesses locais de estrutura precária minha vida toda até o ensino superior. Porém eu não vou negar que existe racismo por parte de alguns, dos alunos e da direção. Que essa lei não se implementa também por desinteresse e desconhecimento dos próprios agentes da educação sobre o que seria uma educação com foco racial, e quando isso é debatido em reuniões de professores, muitos partem para ignorância e racismo, julgando o contéudo como opcional, secundário e descartável. Já se passaram mais de 10 anos e não temos uma lei que vai impactar a vida principalmente dos alunos negros sendo implementada e efetivamente aplicada e esses alunos negros, portanto, continuam sendo a maioria nos números de baixo desempenho e consequente evasão escolar.

Estima-se que mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos não frequentam a sala de aula, segundo informações do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do UNICEF. O perfil dos adolescentes fora da escola no Brasil englobam em sua maioria adolescentes negros e pobres. Sendo assim, a evasão escolar é mais do que uma questão de classe social, ela envolve raça, a falta de discussões raciais, a distância da realidade dos jovens negros e frequentes violências geram o afastamento desde da vida escolar até a manutenção do lugar negro fora do ambiente acadêmico.

Mesmo quando criança eu já percebia que deveria me esforçar mais que os demais: seja sempre duas vezes melhor.

Meninas aprendem logo cedo que precisam ser melhores que meninos na escola, afinal eles sempre serão “os caras da matématica”, das exatas, do raciocínio lógico e rápido, mesmo que você seja a aluna que tenha passado mais vezes nas Olímpiadas de Matemática da sua escola. A mulher que se destaca em alguns campos acadêmicos não é tomada como exemplo a ser seguido pelas demais, mas como exceção, temos então um grande problema no quesito representatividade. Com o negro não é diferente, a complexidade da forma como o racismo agiu na nossa sociedade nesses quase 400 anos de escravidão, deixa muitas vezes passar que intelectuais como Luiz Gama sofreram o racismo que o impedia de estar como aluno numa sala de aula do Curso de Direito do Largo do São Francisco – hoje denominada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Gama, por conta do racismo era obrigado a escutar as aulas de fora da sala de aula, pois era impedido, por conta de sua cor, de compartilhar aquele ambiente com os demais alunos do seu curso.

A pergunta é: Quantos como Luiz Gama não ficaram da porta pra fora e nunca puderam exercer sua plena capacidade intelectual por isso? Nunca puderam estar [dentro] de forma legítima e presente usufruindo de todas as potencialidades daquele ambiente acadêmico. Não pode haver avaliação justa numa situação desigual em oportunidades e diferenciada em tratamentos.

Precisamos entender tais conceitos de gênero e raça que nos assolam durante os períodos da vida escolar, para compreender como se dá a narrativa da mulher negra no ensino acadêmico e porque os cursos superiores ainda contam com maioria branca. São duas opressões, que se realimentam e se somam criando uma situação onde não devemos ser duas vezes melhor – isso era ingenuidade minha quando criança: temos que ser quatro, dez, mil vezes melhores para possivelmente se destacar, já que nem isso é garantido. O sistema meritocrático que garante para alguns uma rápida ascensão profissional e salarial, não funciona para nós que nascemos negros. Eu fui ensinada a me exigir obsessivamente, pois as barreiras que enfrentaria eram maiores, da mesma forma que fui encorajada a esconder minha inteligência. Eu sofria literalmente por cada erro, provas com notas não tão altas, tarefas com resultado não tão positivo, eu me exigia a perfeição…

Eu não sou o símbolo que vem ao imaginário quando se pensa na boa educação e consequentemente não sou o modelo do que é ser intelectualizado. A permanência universitária se torna difícil não só pelas questões materiais, mas também pelo psicológico fragilizado pela destruição da autoestima de nós negros, não é à toa que desenvolvemos as chamadas crises de ansiedade. Quando se é colocado num ambiente onde as pessoas a sua volta não têm as mesmas preocupações, demandas, dilemas, obstáculos e dificuldades que você, a tendência é que o sujeito se cobre mais para estar no mesmo nível, mesmo que haja uma impossibilidade socio-instrumental desse parâmetro se equalizar. Pois o passado conta, a vida na escola pública pesa, a aula de inglês que não existiu é cobrada, aquela lacuna constante que fazia todo mundo ficar pelo menos uma vez por semana sem aula, a renda no limite, o intercâmbio que sua posição não forneceu, o mercado de trabalho pós cotas, Prouni/Fies é complicado para quem precisa pagar por cursos e especializações caríssimas para se tornar um profissional competitivo.

Então sim, temos alunos negros depressivos, mentalmente fragilizados, com síndrome do pânico e crises de ansiedade além de outras doenças e transtornos psicológicos graves que minam a vida social e reduzem a qualidade de vida do seu portador.

Isso é frescura? Alguns podem achar que sim. Mas me diga como podemos acreditar em nós, quando ninguém mais acredita? Quais os impactos disso sobre nossa mente?

Será que sou capaz? Será que mereço? Será que sou uma farsa?

“A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito.” – Conceição Evaristo.

No imaginário de jovens negros essas perguntas permeiam uma realidade autopunitiva. Algumas pessoas apontarão isso como mera falta de autoestima ou falta de vontade, eu vejo como consequências de um estado racista, que chegou a privar o negro do acesso à educação e ainda hoje faz isso de forma indireta, tanto que precisou de cotas para o nosso ingresso ser “simbólico”. A intelectualidade para o negro ainda é negada ou repleta de ressalvas, pois uma das alcunhas racistas sobre a definição dessa, é que ela é inerente ao ensino acadêmico, não que o branco venha exercendo a intelectualidade. No Brasil, cada vez mais, a pessoa vista como intelectual se mostra alienada ou despreparada para entender questões que envolvem raça, classe e gênero. O intelectual pode não ter o diploma, assim como o diplomado não é necessariamente o intelectual. O exercício da intelectualidade também requer uma nova visão sobre a universidade e como o ensino se mostra ainda retrógrado, elitizado e limitado.

A busca pela academia é uma busca de legitimação, por isso defender a importância do acesso acadêmico para negros no Brasil é também uma questão que envolve garantir a vivência da intelectualidade como algo pleno e fidedigno.

O que esconde esses nomes e suas produções intelectuais é o racismo. Não existe outra justificativa plausível, assim como muitos intelectuais negros para serem aceitos são primeiro embranquecidos. Os que falam diretamente sobre racismo são os que mais tendem a ser “escondidos” dos olhos de todos. Esses que acabam inclusive sendo só fonte de estudos para alunos negros que se mostram interessados em suas narrativas e produções.

 

Indicação de leitura:

http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/10/16465-50747-1-PB.pdf?5adc52

http://www.geledes.org.br/professores-sao-suspeitos-de-cuspir-em-aluno-e-de-racismo-em-escola/


Stephanie Ribeiro é militante do movimento feminista negro e estudante de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Arte: Manjit Thapp

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Eu cresci sendo aquela única negra da turma. É o que acontece quando você nasce em uma família e mora em bairros classe média, estuda em escolas particulares, faz curso de inglês e uma universidade federal. Passei a infância pedindo (e ganhando) a Barbie, o namorado da Barbie, o carro da Barbie, a casa da Barbie, pro Papai Noel. Na adolescência, a pretexto de diminuir o volume e “soltar” os cachos, por anos fiz relaxamento no cabelo. Em uma das idas ao salão, sofri calada enquanto sentia as queimaduras no meu couro cabeludo, afinal, eu tinha aprendido que pra ficar bonita eu precisava sofrer. E por muito, muito tempo nada disso me pareceu um problema. Ao contrário. Eu me achava privilegiada demais para reivindicar qualquer coisa, inclusive minha identidade negra. Mas o tempo – novamente ele – passou e descobri que ser uma negra de privilégios em ambientes majoritariamente brancos não é fácil e deixou marcas. Minha vida pode ter sido sim mais confortável que a de outros, mas ser uma minoria nos espaços que deveriam ser igualitários também é um tipo de opressão. Especialmente se você é uma mulher negra.

Por mais que eu estivesse entre brancos, nunca fui um deles. E isso ficava claro nos pequenos racismos do dia a dia, nas piadas que atacavam aquilo que eu tinha e tenho de mais característico. Não foram poucas as vezes em que me peguei tendo vergonha do meu cabelo, do meu nariz, desejando ser branca para que os garotos (mais tarde, os empregadores) fossem um pouquinho mais solícitos comigo. Em algum lugar ao longo do caminho eu comecei a acreditar que eu não era boa o suficiente como as outras meninas, o que quer que isso significasse. O racismo, ainda que eu não o enxergasse, me fez desconfortável em torno de meu próprio corpo. Mesmo adulta esse sentimento de inadequação me acompanhava. E até compreender que o problema não era eu, não estava em mim, muito estrago se fez.

Não sei exatamente quando consegui romper com esse ciclo e tomei consciência de como os outros me veem, mas foi de certo um percurso longo, sem direito a atalhos. Nele fui costurando minha identidade, encontrando meus pares, (re)conhecendo minha história e minha ancestralidade, juntando os pedaços da minha autoestima numa trajetória por vezes dolorosa, mas também de liberdade. Só que isso não representa um final feliz. Porque aprendi que ser uma mulher negra é, inevitavelmente, militar todos os dias. Vai ter sempre um incomodado querendo nos anular, mostrar qual é “o nosso lugar”. Basta um vacilo para pôr tudo a perder.

O estereótipo racista
Infelizmente, minha história não é única. De acordo com o IBGE, as mulheres negras representam 25% do total da população brasileira, o que corresponde a cerca de 49 milhões de pessoas. São 49 milhões de histórias diferentes de luta diária pelo resgate da autoestima. Você sabe o que é se olhar no espelho e querer ser outra? Abrir os jornais e perceber que os seus só estampam os cadernos policiais – no máximo os de cultura e entretenimento? O que é ligar a televisão e se enxergar carregada de preconceitos? Não nos vemos representadas num país de quase 53% da população autodeclarada negra. E é nessa ausência e distorção da imagem da mulher negra na mídia que o racismo mais se manifesta porque ela desempenha o papel perverso de perpetuar estereótipos. Somos as vítimas das tragédias; as mães, esposas ou irmãs dos criminosos; as mulatas do carnaval; as domésticas das telenovelas.

De fato, ainda que a desigualdade venha se reduzindo em todo o país, as mulheres negras continuam na base da pirâmide social, política e econômica. Dados do IPEA, de 2014, mostram que, mesmo com qualificação similar, a renda das mulheres negras corresponde a 56% da renda das mulheres brancas; o acesso aos direitos sociais básicos (educação, saúde, habitação) é muito mais precário; os postos de trabalhos são escassos e requerem pouca qualificação – 70% das empregadas domésticas são negras e a maioria ainda sem carteira assinada. E não para por aí: os homicídios contra negras aumentaram 54%, enquanto o de brancas diminuíram 10%, de acordo com o Mapa da Violência 2015.

Isso é resultado do preconceito e discriminação que nos excluem de determinados espaços e nos negam possibilidades por uma dupla opressão: de gênero e racial. Mas não podemos mais permitir que as representações não retratem toda a profundidade de quem somos. Queremos mais. Podemos estar em menor número, mas estamos aí nas engenharias, no jornalismo, na advocacia, no empreendedorismo, na ciência, na academia. Produzindo intelectualmente. E é por isso que representatividade importa, porque empodera. E mulher negra empoderada incomoda. Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para ver que muitas das vítimas dos casos mais recentes de racismo no Brasil foram todas mulheres que ocupam espaços nos quais, normalmente, não se veem representadas, mas que elas podem e devem ocupar. É a jornalista que aparece no principal telejornal do país orgulhosa do seu black power; a atriz protagonista de seriado na Globo; a modelo que ganhou um concurso de beleza; a estudante que cursa Medicina em uma universidade federal.

Em busca do protagonismo
Em um país cuja uma das poucas interações com a realidade e cultura negra se dá através das lentes distorcidas dos meios de comunicação, estes hegemonicamente brancos, o resultado só pode ser a difusão de um discurso fortemente racista e naturalizado. Uma pesquisa sobre a presença dos negros nas agências de publicidade no Brasil mostrou que apenas 0,74% dos cargos de alta direção são ocupados por negros. Dos 404 executivos, apenas 3 são negros. Entre as mulheres é ainda pior: nenhuma negra ocupa um cargo de gestão estratégica. O resultado a gente vê sendo veiculado todos os dias: propagandas que, quando não simplesmente ignoram mulheres e homens negros, são institucionais ou cometem equívocos próprios de quem não faz a menor ideia do que é ser negro nesse país.

O jornalismo não é diferente. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), apenas 23% dos profissionais da área são negros. É uma das profissões com a menor proporção de negros no país. E se a pluralidade não começa dentro do processo não há como encontrá-la no produto final, certo? Não é à toa que, diariamente, vemos na imprensa as demandas específicas de mais da metade da população serem ignoradas, que o termo discriminação ou preconceito são mais usados em vez de racismo, que injúria racial está mais para bullying que para crime. Entre as fontes jornalísticas, ou seja, personagens e profissionais especializadas entrevistadas, como psicólogas, antropólogas, médicas, advogadas, arqueólogas ou engenheiras, por exemplo, também somos minoria, mesmo quando questões raciais estão em pauta.

Pensando nisso, hoje nasce o projeto Entreviste um Negro, inspirado na proposta do Entreviste uma Mulher, da Think Olga: um jornalismo mais plural e que busque um equilíbrio em seus pontos de vista. O banco de fontes é colaborativo e vai aproximar mulheres e homens negros, experts nas mais diversas áreas ou que têm experiências para contar, a jornalistas que procuram fontes especializadas, seja para pautas com recorte étnico-racial ou não.

O funcionamento é básico. Se você é jornalista, é só acessar o banco de fontes e procurar pelo profissional que melhor se encaixa na sua pauta e entrar em contato diretamente com ele. Se você quer ser fonte ou indicar uma, é só mandar para o e-mail entrevisteumnegro@gmail.com nome, uma mini biografia, as áreas de expertise (os assuntos que você pode abordar numa entrevista em formato de palavra-chave), contato (site, portfólio, telefone e/ou e-mail), e cidade onde a entrevista será realizada, caso seja feita pessoalmente. E faça essa rede crescer!

A mudança só virá quando deixarmos de ser objetos e nos tornarmos sujeitos, quando a nossa presença se tornar a norma. E não apenas pela autoestima da mulher negra, mas porque isso normaliza a sua humanidade para os outros. Queremos ser protagonistas das nossas próprias histórias. Deixem que a gente fale por si. Que sejamos nós por nós. Como clama a rapper-musa-preta Tássia Reis, ouça-me.

ACESSE O BANCO DE FONTES ENTREVISTE UM NEGROhttp://bit.ly/EntrevisteUmNegro


Helaine Martins é jornalista freelancer, formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com 11 anos de experiência em assessoria de imprensa e reportagem, e pós-graduanda em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais pela ECA/USP. Fez parte da primeira turma da Olga Mentoring – Escola de Líderes.

Arte: Jeff Ötisberg

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Erykah

Quando tinha seis anos, uma “amiga” contou para um garoto da escola que eu era apaixonada por ele. Ele me deu um chute na canela e gritou “Sai, Cabeluda”, me humilhando na frente de todos por causa do meu cabelo crespo e volumoso. Aprendi cedo que as pessoas são especialmente cruéis com as mulheres que não se enquadram nos padrões de beleza promovidos em nossa sociedade. Somos apontadas na escola, na rua, nos espaços públicos e muitas vezes dentro da própria família, “Olha que horror aquele cabelo”, “olha aquela mulher gorda”, “Você tem uma beleza exótica”, “Vamos alisar esse cabelo hoje?”, “Seu cabelo precisa de uma hidratação urgente, está muito armado”. Também já ouvi pérolas como “Ainda bem que apesar desse cabelo você é branca” e “Com esse cabelo dá pra saber que você tem o pé na cozinha”. Essas declarações muitas vezes foram feitas no ambiente de trabalho, partiram de professores e de pessoas que tinham a minha confiança e apreço. Percebi que algumas pessoas acreditavam que estavam fazendo um elogio ou um favor me lembrando que precisava cuidar melhor aparência.

O assédio direcionado a mulheres que tem alguma característica física marcante, como as mulheres gordas, negras ou que tem cabelo crespo e volumoso, tem alguns agravantes. Ele é cometido por homens e mulheres, de todas as idades e tem a intenção de ferir, desqualificar e constranger a vítima, com base em alguma característica física que não é considerada “atraente”, segundo os padrões de beleza impostos desde muito cedo para todas as mulheres. “ Frases de deboche seguidas de gargalhadas são ditas em voz alta, na rua, no transporte público ou em qualquer situação social. É profundamente desrespeitoso apontar a aparência física de alguém, especialmente na presença daquela pessoa. Além disso, é comum que completos desconhecidos ou uma pessoa que acabamos de conhecer coloque a mão no nosso cabelo, sem pedir permissão “Eu sempre quis tocar num cabelo assim”, é o que alegam para invadir o nosso espaço pessoal e tocar nosso corpo, como se ele fosse público. Tanto o deboche, quanto o toque invasivo são atitudes egoístas e que incomodam a maioria das mulheres crespas. Mas por que isso acontece com tanta frequência?

A publicidade e as revistas ensinam que as mulheres desejáveis são magras, loiras, tem cabelo liso, comprido e bem tratado, assim como as unhas, que devem estar sempre feitas, esmaltadas e de preferência com alguma cor que não chame muita atenção. Todas as mulheres que não estiverem de acordo ou ao menos buscando se adequar a esse padrão, ou seja, a maioria, acabam pagando um preço alto, seja pela exigência social para que continuem melhorando sua aparência ou pela cobrança interna para atenderem às expectativas dos outros sobre seus corpos.

No caso das mulheres negras e crespas, há um forte componente racista na propaganda de produtos de beleza dirigida a este público. Ao invés de estampar nas embalagens, fotos de cabelos crespos reais,  as propagandas tem sempre uma modelo branca, com cabelo cacheado com babyliss e a promessa de “cachos perfeitos e domados, sem volume e sem frizz”. Tudo para tornar o cabelo crespo socialmente mais aceitável, mais distante de suas origens afro. Esse bombardeio publicitário e excludente foi silenciado e naturalizado por nós durante tempo demais. Quando apontamos o racismo na fala das pessoas dizem que estamos exagerando e tentam novamente nos silenciar.

O processo de cura e de construção da auto-estima das mulheres fora do padrão numa sociedade doente como a nossa pode ser longo. Antes de fazer as pazes com a minha auto-imagem passei anos  usando o cabelo preso e fui escrava da chapinha. Não me achava bonita o bastante, magra o suficiente e adoeci após fazer todo tipo de loucura e sacrifício para tentar ficar mais próxima dessas expectativas irreais de beleza. Durante meu processo de cura, entendi que pessoas insatisfeitas com a sua aparência consomem mais produtos e tratamentos de beleza, fazem mais plásticas e ainda assim permanecem insatisfeitas, mas com a ilusão momentânea de que o consumo e esses esforços trarão recompensas, aceitação ou alívio da culpa por serem ~inadequadas~. E uma vez que tinha experimentado essa sensação de liberdade, percebi que poderia me conectar a outras mulheres com experiências parecidas.  Assim surgiram minhas duas paixões: o Blog das Cabeludas, para inspirar mulheres a se libertarem da da obrigação de alisar o cabelo e a minha banda X So Pretty​, que também luta pelo empoderamento feminino e fala sobre a diversidade num meio tão machista quanto o Rock.

Obrigada a todas as mulheres que resistem diariamente aos ataques, ao assédio, a qualquer tipo de preconceito, em especial ao racismo. Obrigada àquelas que tem a ousadia de expor suas vozes, seus relatos e seus rostos na internet e na vida offline porque sabem que representatividade empodera muitas outras! Parabéns a todas as mulheres que assumem seus cabelos crespos e inspiram suas mães, filhas e filhos a fazerem o mesmo. Obrigada lindas cabeludas que se deixaram ser fotografadas por meu celular e que dividiram suas histórias comigo para que eu as espalhasse na internet. E principalmente: obrigada a todas as mulheres que vieram antes de mim, que lutaram e resistiram para que tenhamos direito a voz. Nossa luta é por um mundo mais livre em que a aparência de alguém não seja motivo de piada e em que possamos aprender com as diferenças para começa a celebrá-las.


Nanda Cury é criadora do Blog das Cabeludas, vocal da banda X So Pretty e especialista em marketing digital.

Arte: Erikah

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