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PARTE I: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

O papel dos veículos de comunicação é fundamental na construção da cultura de um país. O jornalismo, em especial, por sua posição de confiança e virtude informativa, é capaz de legitimar discursos e práticas concomitantemente à transmissão de notícias. É por essa capacidade que salientamos a importância de um jornalismo livre de preconceitos, ainda que aqueles que estão por trás dos furos não o sejam.

Este manual pretende fornecer aos profissionais de comunicação ferramentas básicas para uma redação limpa de sexismo, racismo, homofobia e transfobia, apontando erros de abordagem básicos cometidos na cobertura de crimes de gênero – não apenas pelo dever moral do tratamento humanizado para todos os envolvidos, mas também para que o jornalismo não colabore com a perpetuação de discursos de ódio.

ABORDAGEM DE ESTUPRO

Segundo a lei, é estupro “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.” Caso a vítima tenha entre 14 e 18 anos, a pena é mais severa – abaixo disso, qualquer conjunção carnal é considerada estupro de vulnerável, independente do consentimento da vítima.

O estupro é um dos crimes mais subnotificados, por várias razões. A primeira delas é que, em uma sociedade patriarcal e machista como a brasileira, ao revelar que sofreram essa violência, as mulheres, maioria entre as vítimas de estupro no país (89%, segundo o Ipea), têm grandes chances de ser culpabilizadas pelo fato – sendo que o único responsável pelo crime é o estuprador.

As que têm coragem e força para fazer uma denúncia formal, encontram um poder público tecnicamente ineficaz para lidar com esse tipo de crime, seja por barreiras técnicas (falta de recursos) ou ideológicas (o machismo daqueles que estão realizando o atendimento). Apesar de apresentar mais uma barreira para que a denúncia seja realizada, diminuindo o número de crimes notificados, as denúncias que seguem adiante também não representam grandes chances de vitória para as vítimas.

No Rio de Janeiro, um estado que, entre janeiro e abril de 2016, registrou 13 estupros por dia,   somente 6% dos acusados de estupro foram a julgamento em 2015, segundo dados obtidos pela revista Época. Em São Paulo, o número sobre para 10,9% – ainda baixíssimo e desanimador para quem viveu essa dor e deseja buscar justiça.  

Esses são dados que mostram como o machismo ajuda a tornar o estupro um crime de impunidade quase certa. Se os meios de comunicação colaboram na atenuação de sua reportagem, eles ajudam a alimentar essa realidade. As mudanças aqui sugeridas podem parecer sutis, mas na verdade são cruciais para que esse crime seja descrito noticiosamente de forma mais humana e justa com as vítimas.

 

1 – Não romantizar o ato

G1 - Condenado a 54 anos por estupro faz coletiva e se diz vítima de 'inveja' - notícias em Acre - Google Chrome_2

RJ declaração de amor de aluna à professora indigna mãe - Google Chrome

Quando se tratar de uma notícia sobre estupro, jamais usar o termo “encontros amorosos”. Podem ser encontros, mas não há nada de amoroso em estuprar uma pessoa. São encontros criminosos. Esse é um padrão observável especialmente em notícias referentes à pedofilia, quando os abusos acontecem repetidas vezes, e os encontros são assim denominados. 

 

2 – Estupro NÃO É sexo

Padrasto preso na Serra acusado de obrigar enteada a fazer sexo Folha Vitória - Google Chrome

Estupro não é sexo. Sexo é consensual. “Suavizar” este fato, substituindo estupro por “obrigou a fazer sexo” ou usar o mesmo termo de uma prática consensual, como sexo oral, é diminuir a gravidade do crime. Não é sexo para a vítima. 

 

oito anos

cinco anos

Estupro não é sexo. Sexo oral implica consentimento das duas partes – e meninas de 8 anos e 5 anos, segundo a lei, são incapazes de consentir. Logo, é estupro. 

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Ainda que nessa notícia o acusado esteja negando o crime, em nenhum momento a vítima acusou-o de manter relação sexual com ela, mas de tê-la estuprado. Ou seja: é impossível negar uma relação sexual, mas sim um estupro. Usar o termo do acusado é dar à sua versão mais validade que a da vítima – sendo que o crime que está sendo investigado é o de estupro.

Cinco homens são presos por pedofilia em Jacarezinho - Google Chrome

Relações sexuais entre homens e vítimas de 9 a 14 anos não são sexo: são estupros de vulneráveis.

Onda de ataques a mulheres tem assustado população em cidade no interior de Minas Gerais - Google Chrome

Forçar o pênis contra a boca de uma mulher já configura estupro. “Consumou o estupro” provavelmente refere-se à penetração vaginal, mas ainda que esta não tivesse acontecido, o crime já estaria consumado.

Bons exemplos:

Cuiabá garçom é condenado a 54 anos de prisão por estupro de vulnerável - Só Notícias - Google Chrome

ovem é vítima de estupro, cárcere privado e assalto em casa no ES - notícias em Espírito Santo - Google Chrome

Marido é condenado a 9 anos de prisão por estuprar a própria mulher - Notícias - Cotidiano - Google Chrome

 

 

3 – Não desmerecer a vítima

Vítima de estupro por 33 homens, garota tem vida exposta na internet - Jornal do Commercio - Google Chrome

Partindo-se do princípio de que um estupro é uma conjunção carnal involuntária, somente o criminoso pode ser responsabilizado pelo ato. Para proteger a vítima, deve-se abster da divulgação de informações sobre a sua vida pregressa, em geral expostas para desmerecer sua conduta e, de alguma forma, colocar sobre ela algum merecimento sobre o que aconteceu.

 

ABORDAGEM DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FEMINICÍDIO

50,3% dos homicídios de mulheres registrados em 2013 foram cometidos por familiares ou ex-parceiros – quatro em cada sete foram cometidos por pessoas que tiveram ou tinham um relacionamento afetivo com a vítima.

Nos dez primeiros meses de 2015, 86% dos relatos de violência obtidos pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, correspondiam a situações de violência doméstica e familiar contra as mulheres.

Tanto os feminicídios quanto as ocorrências de violência contra a mulher são crimes de gênero e assim devem ser tratados nas abordagens jornalísticas, com a sobriedade necessária e sem romantizar o fato.

 

1 – NÃO ROMANTIZAR OS AGRESSORES E O CRIME

Essa é a principal falha nas matérias jornalísticas que abordam tanto violência doméstica quanto feminicídios. Se por um lado as vítimas de estupro têm sua conduta posta à prova na busca machista por razões que a responsabilizariam pelo crime, agressores e assassinos de mulheres têm o seu passado revirado em busca de bons antecedentes que revelem sua violência como um traço de loucura. O fato é que sua notoriedade se dá pelo crime que cometeram. Por isso, é preciso ter cautela para não minimizar a gravidade dos seus atos.

 

Rodrigo de Pádua docinhos, timidez e os segredos de um caderno VEJA São Paulo - Google Chrome

 

Amor que mata - DM.com.br - Google Chrome

A Lei do Feminicídio existe justamente para mostrar que o assassinato de parceiras é um crime de gênero. Colocar o amor como o motivo de um assassinato é corroborar a mensagem de que essa violência é um fim esperado para esse sentimento. Agressões, ameaças, surras e assassinatos não são gestos de amor.

 

Por ciúmes, homem mata mulher e filho a facadas - Fotos - R7 Cidades - Google Chrome

Sugestão: Homem mata mulher e filho a facadas. Não são ciúmes: é o entendimento machista de que a mulher, sua vida e seu corpo, são de propriedade do homem.

 

2 – NÃO JULGAR AS VÍTIMAS POR SEU COMPORTAMENTO APÓS O CRIME

'Ela voltou na comunidade. Ainda ficou de safadeza', diz suspeito de envolvimento em estupro coletivo - Jornal O Globo - Google Ch

Amber Heard aparece sorridente ao lado de amiga após reunião com advogados  E! Online Brasil - Google Chrome

G1 - 'É armação', diz advogado de delegado suspeito de abusar da neta - notícias em Sorocaba e Jundiaí - Google Chrome

Não importa o que a vítima fez antes ou depois do crime. Se decidiu perdoar o agressor ou se quis ir à uma festa: nada disso anula o que ela sofreu. As mulheres que decidem denunciar a violência que sofreram são colocadas sob um holofote e todos os seus passos são acompanhados na busca de sinais que provem que a sua versão dos fatos é uma mentira. Mas não existe protocolo em relação ao comportamento de uma mulher após sofrer uma violência. A ideia de que ela obrigatoriamente deve agir de maneira triste ou deprimida é, mais uma vez, colocar o foco sobre ela, minimizar a violência sofrida e atenuar a gravidade da agressão.

 

BOAS PRÁTICAS

  • Não ter medo de usar a palavra estupro. Quando a especificação do abuso sexual for absolutamente necessária, utilizar os termos estupro anal, estupro oral e estupro vaginal, abolindo a associação dessas práticas com o sexo consensual via ânus, boca ou vagina. Jovem é estuprada em lote vago na Rua Tomaz de Aquino no bairro Caramuru - Patos Agora - A notícia no seu tempo - Google ChromeCaso o ato seja masturbatório, sempre ressaltar que o ato foi forçado, como no exemplo:
    Bill Cosby admite ter abusado sexualmente de duas adolescentes Viver Diario de Pernambuco - Google Chrome
  • Vale lembrar que o Brasil é signatário da OEA e acolheu em seu sistema jurídico a “Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher – Convenção de Belém”, a qual assume como estupro qualquer ato que cause dano. Em outras palavras, não apenas a conjunção carnal é considerada estupro, mas também o ato de enfiar objetos no ânus, na boca ou na vagina da vítima – o que, ainda que não seja previsto pelo Código Penal, também é considerado estupro por sermos signatários. No Reino Unido, o Sex Acts Offenses prevê esse tipo de violação desde 2013 (Obrigada pela informação, Ivy!).
  • Chame feminicídio pelo nome:
    Homem é preso em flagrante por estupro e tentativa de feminicídio em MS Midiamax - Google Chrome
  • Quando for cabível, divulgar, na matéria, informações de apoio à vitimas e parentes de vítimas de crimes correlatos (como, por exemplo, o Disque 180 da Lei Maria da Penha), para ajudar a disseminar a informação de onde e como buscar ajuda caso alguém se encontre em situação parecida.
  • Aproveitar o espaço para trazer mais informações sobre violência contra a mulher. Uma excelente fonte de informações e especialistas para comentar as notícias é o Dossiê Violência contra as Mulheres, da Agência Patrícia Galvão. Exemplo:G1 - Preso homem acusado de matar a companheira grávida, em Baião - notícias em Pará - Google Chrome

Arte: Jack Vettriano

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Durante a campanha #PrimeiroAssédio, em 2015, a baiana Sofia Costa contou sobre o abuso que sofreu em fevereiro daquele ano, durante o carnaval de Salvador, junto a uma amiga que estava alcoolizada e desacordada.

O agressor é um artista muito conhecido na região. Ele abriu contra Sofia um processo por calúnia e ela, por meio de uma transação penal, atualmente cumpre 7 horas semanais em serviços comunitários, somando um total de 40 horas. Seu abusador teve cobertura da mídia para defender-se das acusações. Sofia não. Confira o relato dela aqui: https://www.facebook.com/sofia.costa.52090/posts/1187383354605906?pnref=story

Sofia não é a primeira e, infelizmente, ainda não será a última mulher a encarar as dificuldades e a incredulidade com que vítimas de crimes sexuais são recebidas pela justiça e pela opinião pública:

– A universitária Júlia Velo foi ao Bar Quitandinha, em São Paulo, com uma amiga, dias antes do carnaval. Lá, foram assediadas e agredidas fisicamente por dois rapazes. A gerência nada fez para defedê-las, tratou os agressores super bem por serem clientes antigos e expulsou as duas garotas por causar confusão. Quando publicou seu depoimento no Facebook, a publicação viralizou e a página do bar recebeu uma enxurrada de críticas. A gerência tentou se desculpar, depois desmentiu, disse ser contra o assédio, mas começou uma campanha contra Júlia, chegando a subir um vídeo no YouTube, editado internamente, para acusá-la de ter inventado a história. Apesar do apoio que recebeu, Júlia também foi vítima de outros ataques, além da gerência do bar (que nunca procurou ouvi-la), de pessoas que não deram crédito à sua história.

– Há mais de 20 anos recaem sobre as costas do comediante Bill Cosby acusações de estupro, mas foi somente em 2014, quando Hannibal Buress citou seu passado criminoso em um show de stand up, que a conversa em torno do assunto ganhou força e, desde então, são mais de 50 as mulheres a acusá-lo do crime. Apesar disso, parte da opinião pública ainda duvida da palavra delas e Cosby está processando sete de suas acusadoras por difamação.

– Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la estuprado na infância. Ainda que, além de sua palavra, existam fortes evidências de que o abuso tenha acontecido, Woody Allen nunca foi condenado judicialmente e permanece um diretor aclamado pela opinião pública.

– Quando o vídeo de Janay Rice sendo nocauteada por seu marido, o jogador de futebol americano Ray Rice, em um elevador foi parar na mídia, ainda que um ato tão grave de violência tenha sido registrado de maneira indiscutível, ainda sobrou espaço para questionamentos sobre a atitude de Janay: por que ela ficou? Por que não se separa dele? Como se a culpa pelo soco fosse dela por não abandonar um relacionamento abusivo. Janay deu uma série de entrevistas explicando sua decisão e o caso gerou importantes discussões online por meio das hashtags #whyIstayed(#porqueeufiquei) e #whyIleft (#porqueEuParti), que jogaram luz sobre a complexidade de relacionamentos que se tornam violentos.

– O cantor Cee-Lo foi absolvido das acusações de ter aplicado o golpe “Boa noite Cinderela” em uma mulher que afirmou que lembrava ter ingerido a bebida e depois estar subitamente nua em sua cama. Autoridades não acreditaram na história dela porque eles já estavam saindo há alguns meses e feito sexo antes.

– O jogador de futebol americano Greg Hardy é um dos muitos a cometer violência contra mulheres. Ele deu uma surra na namorada, fez o que pôde para fazer com que parecesse legítima defesa, mas o caso foi encerrado desfavoravelmente a ele. Apesar disso, ele voltou a jogar e teve a oportunidade de dar uma entrevista à ESPN, um dos maiores canais de esporte do mundo, desmentindo o caso. Sua ex-namorada teve a vida destruída e não consegue arrumar um emprego.

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– Em 1991, o assédio sexual sofrido por Anita Hill em seu ambiente de trabalho por seu então chefe e atual candidato a juiz da suprema corte americana, Clarence Thomas, se tornou um dos principais assuntos do país. O depoimento e questionamento de Anita sobre o caso perante as autoridades foi televisionado, obrigando-a a recontar e reviver seu trauma em rede nacional e diante de seus familiares. Clarence negou as acusações, que se tornou um caso da palavra dela contra a dele, e conseguiu sua nomeação como juiz da Suprema Corte. Apesar dessa derrota para os apoiadores de Anita, seu caso colaborou para um aumento substancial de mulheres na política, já que as americanas perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava as mulheres; milhares de vítimas de assédio vieram à frente para denunciar seus casos e se tornou um marco no combate ao assédio sexual em ambientes de trabalho nos EUA.

– A cantora Kesha pediu a quebra de seu contrato com o produtor Dr. Luke acusando-o de abuso sexual, verbal, físico e emocional. Ela não apenas perdeu o processo como continua sob a obrigação de gravar mais seis álbuns com seu agressor. A juíza do caso ainda disse que “Nem todo estupro é um crime de ódio motivado pelo gênero”. ( E quais seriam???). A gravadora ofereceu a quebra de contrato posteriormente caso ela desmentisse as acusações. Ela se negou.

– Em uma das edições do programa Big Brother Brasil, um dos participantes estuprou uma mulher embriagada o suficiente para não ter condições de consentir. Ela foi interrogada por três horas, ele foi expulso do programa, mas a opinião pública condenou a moça.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 47.646 estupros foram registrados no Brasil em 2014, mas estima-se que apenas 10% dos casos sejam notificados. Ou seja, em média 450 mil mulheres preferem manter o silêncio sobre o crime que sofreram a procurar a justiça.

Não apenas as delegacias (incluindo muitas DEAMs http://lugardemulher.com.br/a-ineficiencia-da-delegacia-da-mulher-parte-i) estão despreparadas para reconhecer o crime e lidar com as vítimas, como o judiciário em si, em toda sua ineficiência, ajuda a prolongar a dor com processos enormes e por vezes inconclusivos.

Existe também o mito das falsas acusações de estupro, sendo que estatisticamente é mais fácil um homem ser estuprado do que ser vítima de uma acusação falsa. Além disso, uma vez que o caso é levado à justiça, cabe às autoridades uma investigação neutra sobre o caso e, caso a acusação seja mentirosa, medidas punitivas serão tomadas contra quem a fez. Quem não deve, não teme – ou, pelo menos, não deveria temer.

Em uma sociedade machista como a nossa, não existem benefícios diretos a uma mulher que se assume vítima de estupro. O bem que isso traz é para as mulheres como um todo. A cada Sofia que levanta sua voz e conta o que passou, muitas Anas, Robertas, Jéssicas, Sheilas e sabe-se lá quantas outras ouvintes saberão que essa dor não é só delas, que não estão sozinhas, que outras sobreviveram, que existe um caminho.

Pode ser que no caminho algumas derrotas sejam inevitáveis, mas o silêncio não nos protege. Oferecemos toda nossa solidariedade e carinho às vítimas que decidem não falar sobre o assunto – continuaremos lutando por elas. E agradecemos a todas que tomaram a decisão de lutar por justiça: obrigada por compartilhar a sua história para tornar o mundo um lugar mais seguro para todas nós.

#ChegadeFiuFiu #FoiEstuproSim#MexeuComUmaMexeuComTodas


Arte: Alex Fine

 

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Éramos poucas na esplanada, em breve seremos nenhuma. Um homem não apenas ocupará o lugar da primeira presidenta eleita no Brasil, como também exonerará as poucas ministras a liderar pastas no governo. Os novos ministros, chamados “Homens de Temer”, definitivamente não representam as mulheres brasileiras.

Para piorar, as Secretarias das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, já combalidas por terem sido amalgamadas, serão abarcadas por um certo Ministério da Justiça e da Cidadania – perdendo ainda mais espaço e poder.

Não há motivo para temer as mulheres. A equidade de gênero é uma tendência mundial. Segundo dados da ONU, o número de mulheres parlamentares praticamente dobrou nos últimos 10 anos – elas ainda representam apenas 22% dos parlamentares no mundo inteiro, mas o número segue aumentando rápido.

No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau não só apenas estabeleceu um número equivalente de homens e mulheres em seu gabinete, como abriu espaço também para negros, aborígenes pessoas com deficiência e outras minorias historicamente excluídas de espaços de poder. Nos EUA, a candidata Hillary Clinton já declarou que tomará medidas similares como promessa de campanha – ou seja, a presença igualitária de mulheres é tida como um aspecto positivo.

E é não apenas isso, mas uma aplicação de simples lógica: somos uma metade da população e parimos a outra metade. É impossível acreditar que não houvesse uma mulher capaz de assumir um ministério que fosse. Ainda que antes estivéssemos longe de uma situação ideal, havia espaço para algumas poucas de nós exercermos poder em áreas cruciais do governo. Hoje, nem isso.

Lamentamos o vexame, mas não seremos combatidas pelo machismo ou atropeladas pelo retrocesso. As mulheres ainda são o futuro da política brasileira e vamos mostrar nosso poder nas ruas, nas urnas, na luta.

Leia mais:

Ministério de Temer deve ser o primeiro sem mulheres desde Geisel


Arte: Shigeo Fukuda

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“A cor está para o Brasil como o gelo está para a população do Alasca.” – Hélio Santos.

As narrativas de pessoas negras não são as mesmas, mas possuem diversas semelhanças. Não seria diferente no quesito acadêmico e intelectual: crescemos acreditando que não sabemos nada, ou popularmente dizendo, que somos burros. Com essa percepção que baseia nosso intelecto como limitado, somos sabotados muitas vezes por nós mesmos ao acreditarmos que não somos intelectuais, inteligentes ou capazes o suficiente para sermos reconhecidos. Esse sentimento de “autossabotagem” nos espreita, essa sensação foi introjetada por nós negros, seja no inconsciente fruto da inferiorização racista seja na autoestima que se reflete na rotineira insegurança para certas atividades nas quais não costumamos nos ver, essa introjeção nos limita e nos frustra.

Na escola, alunos negros tendem a receber um tratamento diferente dos demais, um descaso velado. Isso já se dá pela seleção feita pelo racismo institucional que priva alunos negros de maioria pobre do acesso a uma educação de qualidade, essa que fica restrita as classes altas. O aluno negro está alheio às condições plenas de desenvolvimento, afastado dos meios que o tornariam qualificado e competitivo. Paralelo a isso o aluno negro mesmo em meios onde a maioria é negra, sofre com ofensas racistas dos coleguinhas, quanto mais escura sua pele e mais evidente são os traços “lidos” como negros, as agressões tendem a ser constantes e ferozes.

“O professor estava corrigindo as tarefas. Ele tinha terminado e falou que a gente podia conversar. A gente foi conversar e eu estava com o colega do lado. Ele chegou e cuspiu em mim”.

Esse é um relato de um jovem de 14 anos, sobre um caso que aconteceu em novembro de 2015. Provando que a violência sistêmica e estrutural que o racismo apresenta no Brasil reflete o ambiente das escolas, até mesmo por partes dos seus professores, inclusive, muitos isentam-se dos esforços na implementação da lei 10.639:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Eu sei que a vida dos professores em escolas públicas é difícil, a profissão é desvalorizada, exaustiva e mal remunerada, estudei nesses locais de estrutura precária minha vida toda até o ensino superior. Porém eu não vou negar que existe racismo por parte de alguns, dos alunos e da direção. Que essa lei não se implementa também por desinteresse e desconhecimento dos próprios agentes da educação sobre o que seria uma educação com foco racial, e quando isso é debatido em reuniões de professores, muitos partem para ignorância e racismo, julgando o contéudo como opcional, secundário e descartável. Já se passaram mais de 10 anos e não temos uma lei que vai impactar a vida principalmente dos alunos negros sendo implementada e efetivamente aplicada e esses alunos negros, portanto, continuam sendo a maioria nos números de baixo desempenho e consequente evasão escolar.

Estima-se que mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos não frequentam a sala de aula, segundo informações do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do UNICEF. O perfil dos adolescentes fora da escola no Brasil englobam em sua maioria adolescentes negros e pobres. Sendo assim, a evasão escolar é mais do que uma questão de classe social, ela envolve raça, a falta de discussões raciais, a distância da realidade dos jovens negros e frequentes violências geram o afastamento desde da vida escolar até a manutenção do lugar negro fora do ambiente acadêmico.

Mesmo quando criança eu já percebia que deveria me esforçar mais que os demais: seja sempre duas vezes melhor.

Meninas aprendem logo cedo que precisam ser melhores que meninos na escola, afinal eles sempre serão “os caras da matématica”, das exatas, do raciocínio lógico e rápido, mesmo que você seja a aluna que tenha passado mais vezes nas Olímpiadas de Matemática da sua escola. A mulher que se destaca em alguns campos acadêmicos não é tomada como exemplo a ser seguido pelas demais, mas como exceção, temos então um grande problema no quesito representatividade. Com o negro não é diferente, a complexidade da forma como o racismo agiu na nossa sociedade nesses quase 400 anos de escravidão, deixa muitas vezes passar que intelectuais como Luiz Gama sofreram o racismo que o impedia de estar como aluno numa sala de aula do Curso de Direito do Largo do São Francisco – hoje denominada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Gama, por conta do racismo era obrigado a escutar as aulas de fora da sala de aula, pois era impedido, por conta de sua cor, de compartilhar aquele ambiente com os demais alunos do seu curso.

A pergunta é: Quantos como Luiz Gama não ficaram da porta pra fora e nunca puderam exercer sua plena capacidade intelectual por isso? Nunca puderam estar [dentro] de forma legítima e presente usufruindo de todas as potencialidades daquele ambiente acadêmico. Não pode haver avaliação justa numa situação desigual em oportunidades e diferenciada em tratamentos.

Precisamos entender tais conceitos de gênero e raça que nos assolam durante os períodos da vida escolar, para compreender como se dá a narrativa da mulher negra no ensino acadêmico e porque os cursos superiores ainda contam com maioria branca. São duas opressões, que se realimentam e se somam criando uma situação onde não devemos ser duas vezes melhor – isso era ingenuidade minha quando criança: temos que ser quatro, dez, mil vezes melhores para possivelmente se destacar, já que nem isso é garantido. O sistema meritocrático que garante para alguns uma rápida ascensão profissional e salarial, não funciona para nós que nascemos negros. Eu fui ensinada a me exigir obsessivamente, pois as barreiras que enfrentaria eram maiores, da mesma forma que fui encorajada a esconder minha inteligência. Eu sofria literalmente por cada erro, provas com notas não tão altas, tarefas com resultado não tão positivo, eu me exigia a perfeição…

Eu não sou o símbolo que vem ao imaginário quando se pensa na boa educação e consequentemente não sou o modelo do que é ser intelectualizado. A permanência universitária se torna difícil não só pelas questões materiais, mas também pelo psicológico fragilizado pela destruição da autoestima de nós negros, não é à toa que desenvolvemos as chamadas crises de ansiedade. Quando se é colocado num ambiente onde as pessoas a sua volta não têm as mesmas preocupações, demandas, dilemas, obstáculos e dificuldades que você, a tendência é que o sujeito se cobre mais para estar no mesmo nível, mesmo que haja uma impossibilidade socio-instrumental desse parâmetro se equalizar. Pois o passado conta, a vida na escola pública pesa, a aula de inglês que não existiu é cobrada, aquela lacuna constante que fazia todo mundo ficar pelo menos uma vez por semana sem aula, a renda no limite, o intercâmbio que sua posição não forneceu, o mercado de trabalho pós cotas, Prouni/Fies é complicado para quem precisa pagar por cursos e especializações caríssimas para se tornar um profissional competitivo.

Então sim, temos alunos negros depressivos, mentalmente fragilizados, com síndrome do pânico e crises de ansiedade além de outras doenças e transtornos psicológicos graves que minam a vida social e reduzem a qualidade de vida do seu portador.

Isso é frescura? Alguns podem achar que sim. Mas me diga como podemos acreditar em nós, quando ninguém mais acredita? Quais os impactos disso sobre nossa mente?

Será que sou capaz? Será que mereço? Será que sou uma farsa?

“A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito.” – Conceição Evaristo.

No imaginário de jovens negros essas perguntas permeiam uma realidade autopunitiva. Algumas pessoas apontarão isso como mera falta de autoestima ou falta de vontade, eu vejo como consequências de um estado racista, que chegou a privar o negro do acesso à educação e ainda hoje faz isso de forma indireta, tanto que precisou de cotas para o nosso ingresso ser “simbólico”. A intelectualidade para o negro ainda é negada ou repleta de ressalvas, pois uma das alcunhas racistas sobre a definição dessa, é que ela é inerente ao ensino acadêmico, não que o branco venha exercendo a intelectualidade. No Brasil, cada vez mais, a pessoa vista como intelectual se mostra alienada ou despreparada para entender questões que envolvem raça, classe e gênero. O intelectual pode não ter o diploma, assim como o diplomado não é necessariamente o intelectual. O exercício da intelectualidade também requer uma nova visão sobre a universidade e como o ensino se mostra ainda retrógrado, elitizado e limitado.

A busca pela academia é uma busca de legitimação, por isso defender a importância do acesso acadêmico para negros no Brasil é também uma questão que envolve garantir a vivência da intelectualidade como algo pleno e fidedigno.

O que esconde esses nomes e suas produções intelectuais é o racismo. Não existe outra justificativa plausível, assim como muitos intelectuais negros para serem aceitos são primeiro embranquecidos. Os que falam diretamente sobre racismo são os que mais tendem a ser “escondidos” dos olhos de todos. Esses que acabam inclusive sendo só fonte de estudos para alunos negros que se mostram interessados em suas narrativas e produções.

 

Indicação de leitura:

http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/10/16465-50747-1-PB.pdf?5adc52

http://www.geledes.org.br/professores-sao-suspeitos-de-cuspir-em-aluno-e-de-racismo-em-escola/


Stephanie Ribeiro é militante do movimento feminista negro e estudante de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Arte: Manjit Thapp

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Em uma dessas curiosas coincidências da vida, minha mãe me trouxe um balde de pipoca e um copo de refrigerante enquanto eu escrevia esse texto sobre cinema. A associação desse combo com a experiência de assistir filmes só não é maior que a do assédio com amor nos roteiros para a tela grande. Romance de verdade, de acordo com os filmes, tem muita perseguição, desrespeito à autonomia feminina e até pequenos crimes – tudo porque o verdadeiro amor nunca desiste. Será mesmo?

É importante frisar que me refiro majoritariamente aos filmes Hollywood por ser esta ser a indústria cinematográfica mais influente na cultura nacional, ocupando a maior parte das salas de cinema no Brasil, da programação da tevê fechada e dos catálogos virtuais que têm se tornado uma nova forma de consumo de produções audiovisuais, como NET NOW e Netflix.

Filmes americanos não são a única opção que existe, é verdade, mas pelo gigantismo de seus grandes estúdios, eles sufocam, dificultam e até inviabilizam a chegada de produções independentes em geral e de filmes nacionais e de outros países (especialmente os subdesenvolvidos) ao grande público. A exibição de filmes que estejam fora do eixo hollywoodiano é restrita a poucos títulos a ser encontrados na tevê paga e, quando chega aos cinemas, limita-se a poucas salas do circuito alternativo de grandes cidades, sem dublagem. Ou seja: por meios legais, são de difícil acesso à população em geral. Vale lembrar que os filmes brasileiros de maior orçamento e bilheteria nos últimos tempos têm seguido a cartilha de Hollywood.

Dito isso, o cinema mainstream americano, onipresente em nossos meios de comunicação, colabora – e muito – com a manutenção de estereótipos de gênero. A começar pela forma como os filmes são percebidos de acordo com a sua temática: filmes de guerra, ação, aventura e ficção científica são “de homem”, ao passo que dramas, romances e comédias românticas são “de mulher”. No caso da comédia, elas podem ter um público neutro, como e, por exemplo, o caso de O Mentiroso (1997) que, apesar de ter momentos bem machistas e uma história de amor envolvida, não é direcionado necessariamente a homens ou mulheres. Mas a comédia também pode ser dividida entre aquelas dirigidas ao público masculino, como Se Beber, Não Case! (2009), ou feminino, caso de Missão Madrinha de Casamento (2011) e praticamente todos os títulos classificados como comédias românticas.

E são as tais comédias românticas que mais recebem a pecha de “filmes de mulherzinha”, basicamente por trazerem alguns dos maiores clichês da expectativa social feminina. Ainda que mulheres sejam o público-alvo, o modo americano de fazer cinema é machista, heteronormativo, gordofóbico, capacitista e racista, resultando em roteiros que perpetuam noções limitadas sobre o que é ser uma mulher e o que elas esperam de relacionamentos amorosos.

Estrelados em sua maioria por mulheres brancas, magras e de cabelos lisos, esses filmes passam a impressão de que elas são as únicas dignas de receber amor. Sua beleza é valorizada a cada cena, em close ups e cenas que estão ali para apresentar suas características como objetos de desejo. São elas a receber as mais lindas declarações de amor dos maiores galãs do cinema interpretando os parceiros mais perfeitos possíveis dentro dos ideais do amor romântico, tudo com uma trilha sonora emocionante. Às negras, às gordas e às que de alguma forma são percebidas como menos atraentes restam os papéis de amiga, conselheira, alívio cômico ou até mesmo vilãs. A diversidade de cores e corpos femininos não é celebrada, pelo contrário: a presença de piadas e situações que ridicularizam mulheres gordas, por exemplo, são muito comuns.

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Simplesmente É Amor (2003)

Mas essa heroína-padrão-Hollywood não terá uma necessariamente vida fácil: é bem provável que o seu par, no mundo real, fosse um verdadeiro criminoso. Perseguições, assédio sexual, abusos, falta de respeito à vontade e à autonomia feminina, constrangimentos públicos e outros comportamentos desagradáveis ou até mesmo criminosos são retratados como grandes gestos de amor nas comédias românticas. A insistência masculina é extremamente valorizada e o convencimento da protagonista por aquele que fora inicialmente rejeitado é a espinha dorsal de alguns dos roteiros de maior sucesso do gênero.

Um Amor Para Recordar (2002), Mensagem Para Você (1998), 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999) e A Verdade Nua E Crua (2009) são alguns exemplos dessa vertente. Ainda que jogos de sedução sejam interessantes de assistir, esses filmes ajudam na criação da ideia nem sempre acertada de que “os opostos se atraem”, sendo que o lado masculino é, em geral, um rebelde, um sujeito agressivo e até mulherengo – um péssimo parceiro em potencial. Nesse caso, porém, a protagonista se torna a sua última conquista, aquela que, por ser tãããão especial, conseguiu amansar a fera… O tipo de ilusão que leva inúmeras mulheres a insistir em relacionamentos incompatíveis e a permanecer em relações abusivas no aguardo do final feliz dos filmes, do sossego do príncipe, algo que realisticamente pode até terminar em morte.

Parece exagero, mas não é. É nessa confusão entre gestos de amor e rejeição que comportamentos como o stalking, ou perseguição insistente, passam a ser entendidos como atos românticos. Um estudo realizado pela Universidade de Michigan apontou que a representação desse comportamento na mídia torna as mulheres mais tolerantes à insistência de um homem em persegui-las “romanticamente”. E vale tudo: decorar os horários da rotina da mulher e abordá-la sem aviso, invadir sua casa, deixar mil mensagens no seu telefone, importunar sua família e amigos, enviar centenas de rosas indesejadas. Para quem deseja a vitória sobre a presa a qualquer custo, vencer pelo cansaço é uma estratégia.

Em Quem Vai Ficar Com Mary (1998), a personagem de Cameron Diaz é disputada por quatro homens absolutamente obcecados por ela: um contrata um detetive para descobrir seu paradeiro e muda-se para a sua cidade em busca de uma nova chance, o detetive assume uma nova personalidade para conquista-la, um entregador de pizzas finge-se de amigo e médico para aproximar-se dela e seu ex-marido invade sua casa para roubar-lhe os sapatos.  No final, todos os atos são justificados pelo amor que eles sentem por Mary. Esses comportamentos, que se repetem em diversos outros filmes do gênero (Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo, Amor à Toda Prova, Segundas Intenções), ajudam a tornar a perseguição até mesmo como algo desejável na mente de quem assiste, atando o ato a clichês como “Uau, se ele fez tudo isso, é porque a ama de verdade!” ou “Se o homem realmente gostar de você, vai fazer enormes sacrifícios!”.

Isso quando, é claro, o sacrifício não é exigido delas. Nem sempre com a intenção da conquista, muitas comédias românticas trazem mulheres que só passam a ser percebidas como atraentes após uma transformação completa. É claro que as atrizes já carregam em si todas as características percebidas como atraentes, mas começam o filme com o cabelo volumoso/frisado, usando óculos e aparelho nos dentes, usando roupas fora de moda e outros apetrechos absolutamente comuns que Hollywood ajuda a estigmatizar como feios.

Miss Simpatia (2000), Ela É Demais (1999), Nunca Fui Beijada (1999), Uma Linda Mulher (1990), O Diabo Veste Prada (2006): todos trazem melhoras significativas nas vidas de suas personagens após o alisamento de seus cabelos, o uso de roupas mais reveladoras e maquiagem e a obtenção de uma personalidade mais confiante a partir da adequação aos padrões estéticos vigentes na mídia. Não importa que antes elas fossem as mulheres que sempre quiseram ser, tendo chegado até ali pela trajetória que escolheram para si mesmas em busca da felicidade: algum evento no roteiro vai mostrar que a vida pode ser muito melhor com um pouco de batom, blush e um homem que admira tudo isso ao seu lado.

Hollywood também cumpre seu papel de retratar o amor de uma mulher em um sentimento mágico capaz de tornar a vida de um homem muito mais feliz. Conhecidas como Manic Pixie Dream Girls, existe uma vertente de mocinhas que surgem na vida de um cara já prontas, sem precisar mudar quem são, justamente por já possuírem um seu jeitinho meio doido e um estilo diferenciado que servirão para mostrar ao par romântico uma alegria e um jeito de viver que ele ainda não conhecia, mas que eram exatamente o que lhe faltava.

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Ainda que muitas dessas personagens sejam interessantes e admiradas por muitas mulheres, a sua função no roteiro está intimamente ligada à do homem e em como a sua presença afetará a vida dele. Limitadas e limitantes para mulheres em todo o mundo, as Manic Pixie Dream Girls são um produto de fantasias masculinas que dão a mulheres incríveis a única missão de consertar a vida de um sofrido protagonista masculino.

Não é nenhuma surpresa: ainda que o público-alvo desses filmes seja o feminino, assim como quase todas as indústrias do mundo a de cinema também é controlada por homens – e eles vão colocar nas telas as ideias que eles têm sobre o que as mulheres gostam, querem e pensam. O site Polygraph realizou uma interessante pesquisa baseada no Teste de Bechdel, aquele que só aprova obras de ficção nas quais personagens femininas (com nomes) dialoguem entre si sobre algo que não seja um homem, criado pela cartunista Alison Bechdel, e tornou-se um marco na análise da presença de mulheres no cinema, na televisão e na literatura. O teste tem suas falhas: o filme Legalmente Loira (2001) passa apenas porque em determinado momento Elle Woods e uma amiga falam sobre cachorros, já Gravidade (2013) é protagonizado por uma mulher astronauta e foi reprovado.

Mas, na verdade, o consenso geral é que ele serve apenas para apontar que esse mínimo esperado por mulheres em um filme é surpreendentemente difícil de alcançar. O estudo do Polygraph analisou os 200 filmes de maior bilheteria de 1995 a 2005 e chegou às seguintes conclusões:

– Dos filmes que só tinham roteiristas homens, 53% falharam no teste.

– Dos que contavam com ao menos uma mulher assinando o roteiro, o número caiu para 38%.

– Todos os que tiveram roteiros escritos somente por mulheres passaram no teste.

E, ao analisar todos os 4000 filmes, do mesmo período, presentes no site do teste, o estudo apontou que quando os tomadores de decisão são homens, os filmes têm mais chances de falhar: roteiristas (46%), produtores (43%) e diretores (41%). Os números vão caindo vertiginosamente conforme o número de mulheres envolvidas aumenta.

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Além disso, a proporção entre diretores homens e mulheres na última amostra era de 5:1 e os números não melhoraram com o passar do tempo. Em 1995, 37% dos filmes falharam no teste e 18% tinham mulheres em cargos de decisão. Em 2015, 38% dos filmes não passaram no teste e 17% do total tinham ao menos uma mulher como diretora, produtora ou roteirista.

O fato de que as chances de um filme passar no teste aumentam com a presença de mulheres por trás das câmeras é um indicativo nítido de que a qualidade das personagens femininas e a diversidade nas telas dependem diretamente da diversidade dentro dos estúdios e, principalmente, entre aqueles que decidem o que será produzido e como.

A dificuldade em tornar a indústria de cinema mais inclusiva está no fato de que, até que um filme chegue aos cinemas, desde o roteiro até sua versão final, ele precisa passar pela aprovação de um sem número de pessoas, tornando mais difícil localizar a origem do problema. Não se trata apenas do machismo de diretores, produtores e roteiristas, mas do fato de que são eles os preferidos dos executivos para ocupar esses cargos, de que são os seus filmes a receber recursos e do seu sucesso comprovado nas bilheterias, que lhes garante ainda mais prestígio, só ter sido possível porque, lá atrás, lhes fora concedidas oportunidades que uma mulher negra, ainda que com a mesma formação e capacidade, não teria. É nesse momento em que a visão e a perspectiva dela são apagadas e a deles permanece.

O diretor Spike Lee sugere que Hollywood encontre uma forma de adotar a Regra de Rooney, utilizada pela NFL (Liga Nacional de Futebol Americano, na sigla em inglês), que obriga a Liga a entrevistar minorias para cargos de técnico e gestores dos times. Ele aponta o fato de que não há negros entre as pessoas que decidem o que será produzido ou não.  “Mais do que ter uma pessoa não-branca à frente de um estúdio ou emissora, precisamos estar entre as pessoas que decidem o que será feito e o que não será. A cada mais ou menos quatro meses acontecem essas reuniões nas quais eles se sentam, olham para o orçamento, leem os roteiros, quem está envolvido, e dizem ‘vamos fazer esse filme, mas não vamos fazer aquele’. (…) Não existe uma pessoa não-branca que tenha direito a esse voto [para produções televisivas ou de cinema]”, afirmou ele em seu discurso de agradecimento ao Governors Awards em 2015.

Nos últimos anos, o feminismo e o empoderamento feminino ganharam força no mundo inteiro e Hollywood reagiu a isso com a chegada de “filmes para mulheres” escritos por mulheres que foram verdadeiros sucessos de público e crítica. A Escolha Perfeita (2012), Missão Madrinha de Casamento (2011), Descompensada (2015) e Irmãs (2016) são bons exemplos de histórias que escapam a muitos clichês e trazem protagonistas que, por uma razão ou outra, parecem menos fictícias que as mocinhas clássicas das comédias românticas.

Ainda assim, não é suficiente. Afinal, as protagonistas dos filmes citados, ainda que não sejam necessariamente musas, estão dentro dos padrões do cinema americano, bem como as roteiristas. E um dos romances mais esperados do ano é o filme Como Eu Era Antes de Você, cuja protagonista é uma manic pixie dream girl das mais clássicas:

É bom que a indústria cinematográfica mexa-se rápido para mudar esse cenário, pois já sente os efeitos da feroz concorrência daquela que se tornou sua principal rival: a televisão – ou seria a internet? Estamos vivendo a chamada nova Era de Ouro da televisão, com produções de séries que não devem em nada a filmes de Hollywood ou que, com orçamentos muito mais tímidos, capturam mais espectadores que boa parte dos blockbusters em cartaz. E a Netflix, uma das principais empresas a entrar com o pé na porta na disputa pela audiência, têm feito sucesso com uma fórmula simples: liberdade total de criação para sua diversificada equipe de criadores. Resultado: Master of None, Orange Is The New Black, Sense 8, Narcos – séries absolutamente idolatradas pelo público com negras, mulheres trans*, latinos e indianos entre os personagens principais.

Hollywood também precisa repensar de maneira urgente a percepção de filmes a partir do gênero, algo que tem muito mais sutil e até mesmo imperceptível no mundo das séries, por exemplo. Por mais que, obviamente, todos sejam livres para assistir ao filme que quiserem, essa ideia de “filme de homem” e “filme de mulher” colabora com a manutenção da distinção entre gêneros.

O fato de Star Wars: O Despertar da Força (2016) ter sido protagonizado por uma mulher e um negro foi muito positivo nesse sentido, bem como a presença de Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria (2015): lugar de mulher também é em filmes de ação. Comédias românticas deviam ser filmes para quem gosta de comédia e romance misturados, bem como trazer mais perspectivas masculinas e sexualmente diversas, não sendo taxadas apenas como “filmes pra mulher”. Porque mulheres são apenas pessoas e suas histórias devem ser contadas por elas mesmas e ouvidas por todos.

 


Arte: Sally Nixon e desconhecido

 

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Esses dias eu descobri uma dessas novas dietas-desafio. Eu sou nutricionista, e perdão tribunal do mundo… Eu não conhecia essa. Era uma proposta de alimentação muito restritiva e que me parece insustentável de seguir pelo resto da vida. É um programa de mudança radical na alimentação que promete um organismo limpo, livre de “inflamação” e toxinas. Vocês podem buscar. Não vou explicar em minúcias porque não estou aqui para promover o programa alimentar “clean” dos outros.

Isso me fez pensar em algumas coisas. Uma delas é o quanto se fala em “saúde” atualmente. Eu diria que a Era da aeróbica, das fitas VHS da Jane Fonda, das refeições congeladas diet, chás e shakes de emagrecimento está ficando para trás num passado nebuloso.

Nas últimas décadas do século XX, o sofrimento primordial de milhões de mulheres era manter-se magra. Mas valia tudo. Cigarro, Coca Diet, “boletas” para emagrecer, volumes ridículos de comida. Atualmente, não vale tudo. Somos a “geração saúde” e nunca soubemos tanto sobre nutrição, dietas, alimentos que “fazem mal”, são “venenos” e deixam a população irremediavelmente doente por causa do seu amplo consumo. Nunca falou-se TANTO em alimentação saudável, no entanto, nunca tivemos números tão expressivos de obesidade ao redor do globo. Irônico.

Enfim… Ser magra é out. Esbanjar saúde é in.

Ocorreu a troca do “ser macérrima” por “ter saúde”, mas isso não significa que não exista oportunismo mercadológico fazendo lavagem cerebral nas pessoas. Antes bastava fazer aeróbica e comer refeições “diet” (e vomitar, tomar anfetaminas, fumar 4 carteiras de cigarro por dia… mas disso a gente não fala). Atualmente existe um tremendo terrorismo nutricional, alegações de que determinados grupos de alimentos são “inflamatórios”, causam câncer, causam todos os males da humanidade… Fujam.

Substâncias e práticas que supostamente limpam e curam o organismo estão sendo proclamadas como SAUDÁVEIS, como a dieta cetogênica (“paleo”), produtos DETOX, papos estranhos holísticos e jejuns. Se anteriormente tínhamos um forte encorajamento do desenvolvimento da anorexia/bulimia, neste começo de século fomos “presenteados” com mais dois novos tipos de transtornos: ortorexia e vigorexia.

Ortorexia é uma obsessão por “comer certo”. Comer “limpo”. É um transtorno alimentar que se relaciona pouco com a imagem corporal, mas é um dos mais torturantes e estressantes que existem. Não chega a ser hipocondria, mas é uma extravagância preventiva. A pessoa tem uma lista quilométrica de alimentos ‘proibidos’, lê rótulos obsessivamente, perde a vida social e fica com severa deficiência de nutrientes. A vigorexia cresce em ritmo recorde porque as pessoas estão confundindo “ter saúde” com ter baixo índice de gordura corporal.

Mas a gordura corporal não é uma inimiga. Ela está presente no nosso corpo, faz parte da nossa fisiologia e existe por diversos motivos (a gordura protege o corpo contra choques mecânicos, regula a temperatura corporal, é veículo de absorção das vitaminas A, D, E e K. E recentemente descobriu-se que o tecido adiposo tem funções endócrinas específicas e que até participa da regulação da fome e da saciedade.)

A indústria das DIETAS (kits, comidas congeladas, chás, shakes) deu lugar à Indústria Fitness e dos alimentos “””saudáveis””””… A coisa toda foi repaginada, mas seguimos sendo explorados por uma indústria que simplesmente se adaptou para nos vender um novo discurso: quem come “certo” é um vencedor e tem sucesso. Quem não se controla e “jaca” (como se diz no Brasil) é um derrotado, que não tem vergonha na cara. Ser gordo? Reprovação social plena!

Mas até que ponto essas práticas ‘saudáveis’ são verdadeiramente saudáveis? Alimentação e atividade física compõem uma vida sadia, é evidente. Mas não é SÓ isso. Será que estamos verdadeiramente vivendo de maneira saudável se seguirmos todas as regras higienistas da manutenção do corpo, mas submetidos a um imenso estresse mental?

Almoçar arroz integral, uma carne magra grelhada (ou uma substituição se você for vegetariano), salada e um copo d’água é uma opção saudável. Comer bolo floresta negra e brigadeiro em uma festa de aniversário TAMBÉM é saudável. O brigadeiro não é FUNCIONAL nem utilitário. No entanto, é afetivamente, mentalmente, socialmente e culturalmente saudável que as duas realidades se permeiem. A gente come de tudo um pouco. É normal.

Um tremendo esforço para manter uma alimentação SAUDÁVEL, mesmo que seja saudável, não é saudável. Da mesma maneira que nós não aceitamos mais a dieta dos pontos, as normas dos Vigilantes do Peso e os kits de shakes emagrecedores, chás e refeições ‘light’ congeladas… Nós também não aceitamos um referencial de beleza estupidamente magro. Acabaram-se os dias do “Heroin Chic”.

O advento da internet tem forte papel nessa mudança de mentalidade. Atualmente temos mídias alternativas (Blogs, Sites, canais no Youtube) que transmitem mensagens que não são veiculadas pelos meios de comunicação da mídia tradicional.

A mulher passou a perceber que ela não precisa emagrecer para frequentar a praia. Emagrecer para casar. Emagrecer porque é o seu dever existencial (porque mulheres devem ser bonitas, portanto magras).

Começou o movimento de aceitação. Porque tudo o que é muito represado, eventualmente extravasa. Porque quanto maior é a altura, maior é a queda. E se frequentamos as nossas aulas de história direitinho, já sabemos que todos os Impérios eventualmente acabam. Nós NÃO ENGOLIMOS mais a magreza surreal que nos foi socada goela abaixo ao longo de décadas.

Ok, mas e o homem? Ele nunca precisou se preocupar muito com isso porque ele é imagem e semelhança de Deus. É até bonito que ele fique grisalho, careca, barrigudinho… “quanto mais antiga a safra, melhor o vinho”, certo?

Entretanto,as coisas estão ficando apertadas para eles também. A febre fitness demanda corpos cada vez mais definidos, grandes, musculosos… E para sustentar as demonstrações corporais de potência e virilidade, MUITOS suplementos precisam ser consumidos e MUITO ferro precisa ser puxado. Foco. Força. Fé. E o seu dinheiro aplicado em potes cintilantes de Whey Protein.

~~Apenas uma curiosidade:

Quando o leite é entregue à indústria de laticínios, ele é aproveitado de diversas maneiras: leite integral, semidesnatado, desnatado. Manteiga, ricota, iogurte, creme de leite. TUDO é devidamente extraído e transformado para ser comercializado. Anteriormente, havia uma coisa que sobrava: o SORO do leite. E ele era sumariamente descartado. Eis a sacada de Midas: mas por que não LUCRAR com o descarte? Basta começar a vender a proteína isolada do soro do leite alegando ser o alimento mais completo do mundo. Tcha-nã: você comprou o lixo da indústria por quatrocentos reais.~~

Só que a situação não é TÃO ruim para os homens, já que eles podem conquistar aceitabilidade social e status através de dinheiro, poder, bens materiais, altas posições no mundo corporativo, intelectualidade… Há mais chances de ser reconhecido, certo?

Já as mulheres SÓ têm a beleza como moeda de valor. Então a manutenção dos atributos físicos é uma prática fundamental. É questão de sobrevivência e, com o movimento de aceitação, os limites da denifição de “beleza” se tornaram um pouco mais amplos. Um pouco. O ideal de beleza se encontra, de fato, um pouco menos restrito

Nós clamamos para que aceitassem os nossos diferentes corpos, pesos, alturas, cores, cabelos… E as indústrias da moda, dos cosméticos, da estética, da vida Fitness cederam… mas também não permitem que a coisa vá TÃO longe.

Temos top models Plus Size? Sim, nós temos! Mas é um corpo Plus Size “tolerável”. A gorda aceitável veste 44. Ou 46 (o que é muito avanço, se fizermos um comparativo com a ditadura do 34/36). A gorda aceitável também tem cintura fina. Bem fina. Ela é CAUCASIANA. Ela tem corpo de ampulheta e All the right junk in all the right places (Meghan Trainor – “All About That Bass”). E é primordial que a gorda aceitável declare, sempre, que ela é tonificada, come “certo” e faz bastante atividade física.

Aí que o tsunami da SAÚDE mescla com a (relativa) democratização dos corpos: “Nós permitimos que você não vista 36. Mas você não pode ser uma maldita gorda sedentária e sem vergonha. Porque nós temos uma genuína, grande, sincera preocupação com a sua SAÚDE… Então compre nossas marmitas fit, nossas receitas com Whey, nossos sucos detox, nosso programa de dieta Paleo, nossa linha sem glúten, nossos pudins 0% lactose!”

Nós não somos a geração saúde. Nós não estamos cultivando o bem estar. Nós não temos corpos livres. Nós não somos livres… Tudo isso é apenas uma NOVA maneira de mercantilizar a nossa vida. É preciso estar atentas para as novas armadilhas e lutar por uma liberdade que em nada nos limite.


Paola Altheia é nutricionista formada pela UFPR e criadora do projeto Não Sou Exposição.

Arte: Kelly Bastow, aka Moosekleenex

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Antes de tudo, esclareço o lugar de que falo, o lugar de Mulher com deficiência e de acadêmica, antropóloga. Desse lugar hibrido é que falo. E falo olhando para a violência que este corpo sofreu, em silêncio, ao longo da história. E do silêncio que foi produzido para que este corpo sofresse ainda mais em silêncio.

Como antropóloga, interessa-me pensar histórica e simbolicamente o corpo da mulher com deficiência e como esse corpo recebeu uma narrativa social, como uma narrativa social foi produzida a respeito desse corpo. Primeiramente, interessa-me o silêncio a que este corpo é imposto. Como foi produzido um silêncio a respeito do corpo da mulher com deficiência e de suas necessidades, especialmente de suas necessidades sexuais e reprodutivas. Um silêncio abusivo, castrador, horrível, aterrorizante.

Pensei em dividir esse bate-papo (quero muito ouvir todas vocês, comentem, escrevam), em três partes: na primeira, vou falar de dados de violência, na segunda vou falar das imagens simbólicas do corpo da mulher com deficiência, ao longo da história na narrativa social judaico cristã (o modelo religioso), e na terceira falar de deficiência e sexualidade.

Comecemos falando de violência. Quando falamos de violência e mulheres com deficiência as pessoas sempre precisam ser recordadas que temos um corpo, inclusive um corpo sexual. A narrativa social construiu um esquecimento acerca do tema, de maneira tão forte, que nosso corpo, esquecido e silenciado, é deixado nas sombras, para que os abusos aconteçam em silêncio. Estou aqui, como mulher com deficiência, disposta a quebrar o silêncio.

Cerca de 10% das mulheres do mundo vivem com uma deficiência, e nos países mais pobres, 75% das pessoas com deficiência são mulheres. No Brasil, de acordo com o Censo de 2010, mais de 25 milhões de mulheres com deficiência e quase um terço das mulheres negras tem uma deficiência.

A violência dirigida às mulheres com deficiência é um problema global. As mulheres com deficiência vivem em condições de maior isolamento social, o que amplia extremamente a possibilidade de violência e abuso. Elas têm menos chances de sucesso educacional, financeiro, profissional e social e isso também dificulta sair da condição de violência e abuso, pois inviabiliza autonomia e contato com redes que poderiam prestar ajuda. Na maioria das vezes o abuso vem de familiares, cuidadores, colegas, e isso torna denúncias um processo muito difícil. Por exemplo eu acompanhei um caso de uma senhora que o único contato com o mundo era o telefone. O cuidador, no caso o marido, desligava o telefone e ela não podia mais falar, nem do abuso que sofria. E quando falava, ela tinha medo, porque “só tinha ele” para cuidar dela.

Mulheres com deficiência sofrem abusos de todos os tipos: sexo forçado com trabalhadores, cuidadores ou outros residentes em instituições, são espancadas, esbofeteadas, ou feridas em crises, sofrem esterilização ou abortos forçados, são trancadas em quartos ou armários sozinhas, são obrigadas a banhos de gelo ou chuveiros frios como punição, são obrigadas a medicação forçada (tranquilizantes), muitas vezes obrigada a ter que se despir ou ficar nua na frente de outras pessoas, como castigo, são amarradas ou colocadas em restrição (contidas).

Numa pesquisa que realizamos em Escolas e Jovens e Adultos, na cidade de Campinas, em 2008, detectamos algumas situações: as mulheres com deficiência, mesmo sendo obrigadas a serem tocadas ou realizarem sexo contra sua vontade não percebem estar sendo abusadas ou violadas, tem grande dificuldade de sair desse processo, mulheres cegas ou com deficiência têm, proporcionalmente, duas vezes mais chances de serem abusadas ou violentadas que as sem deficiências, surdas, cinco vezes mais, e com deficiência mental de oito a nove vezes mais. Muitas famílias retiram as meninas com deficiência das escolas regulares por medo de abuso, mas são abusadas em casa, por funcionários e assistentes.

Na verdade, é preciso criar uma rede de proteção e denúncia estatal específica para a questão, apoio, inclusive de saúde mental para as famílias e medidas penais mais severas para os abusadores. Já encontrei no Facebook uma página, denunciada por mim que falava: estupre uma deficiente mental porque ela não vai saber contar. A gente precisa saber responder: Mas, nós vamos. Todas nós estamos vendo, e vamos fazer um escândalo


Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social (IFCH – UNICAMP), coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Arte: Manjit Thapp

 

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Quando eu tinha 3 anos de idade, minha família foi convidada para a festinha de um ano da minha prima. Há uma divertida fita VHS do evento e, toda vez que assistíamos, minha mãe me contava sobre como eu dei trabalho naquele dia. É que a comemoração ocorreu no salão de festas do play do prédio onde meu tio morava, mas fora daquele ambiente tudo estava escuro e vazio. E eu, sempre que encontrava oportunidade, saía zanzando sozinha a explorar o play inóspito e algum adulto tinha que ir me pegar.

Eu acredito ter alguns flashes de memória dessa ocasião (inclusive de quando descobri o camarim improvisado dos palhaços), mas certeza eu tenho mesmo é de que desde essa época eu já manifestava o gosto por fazer coisas sozinha. Só mais tarde é que entendi que, para muita gente, por incrível que pareça, isso é alguma espécie de defeito em uma mulher.

Ou até de danação. Ficar sozinha depois de certa idade, “para titia”, ainda assombra muitas mulheres pela simples pressão social a que são submetidas por esse motivo. Não importa o quão bem sucedida, feliz ou até mesmo bonita dentro dos padrões vigentes (magra, branca, cabelos lisos, etc) ela seja: se não conseguiu manter um homem ao seu lado, tem alguma coisa de errada com ela. Se tem filhos, nem mãe ela é: é mãe solteira, pois é preciso salientar o fato de que ela está criando o filho sozinha – já o pai, em geral, “tem uma filha de outro relacionamento” quando falam dele, pois ser pai e solteiro não o definem como indivíduo.

Mas o fato de não estar em um relacionamento gera situações em que a única saída possível é fazer algo por si só, ainda que eu nunca tenha dependido particularmente disso para gostar de fazer programas tendo só a mim como companhia. Nem sempre os amigos estão disponíveis também e eu não deixo de fazer o que quero por causa disso. É nesses momentos em que percebo como, em pleno século XXI, o mundo ainda não está totalmente preparado para esse tipo de autonomia feminina.

No início do ano passado, eu decidi que não deixaria para última hora os planos da próxima virada de ano. Rotineiramente, dezembro chegava e eu não fazia ideia de onde ia passar o réveillon. Dessa vez, porém, eu resolvi me organizar e decidi realizar um sonho que nutria há muito tempo: virar o ano em Nova York. Por alguma razão, eu sempre desconfiei que essa seria uma cidade incrível para se estar nesse momento específico do calendário e resolvi tirar a prova (resposta: eu estava certa).

De início, convidei pessoas próximas para me acompanhar, mas ninguém topou. Alguns por falta de grana, outros por medo do frio etc. Apesar disso, eu não ia deixar de fazer a viagem que eu tanto queria só por falta de companhia. Consegui me organizar financeiramente para arcar com os custos sem ter com quem dividí-los e me tornei uma expert na cidade, escolhendo com muito cuidado como gastaria os meus 20 dias e suados dólares (a cada mês mais caros!) que levaria na bagagem.

Depois de ter me decidido, a reação mais comum das pessoas à notícia da minha viagem era, disparado: “Mas você vai sozinha?!”, como se eu estivesse planejando invadir a Rússia no inverno armada apenas com uma faca de passar manteiga. Ir à Nova York está longe de ser uma viagem ousada. Talvez fosse, sim, um grande passo para mim, que não fui o tipo de criança que conheceu a Disney e havia saído do país pela primeira vez no ano anterior. Mas, de toda forma, eu estava falando apenas uma das cidades mais turísticas do mundo, não de ir para a Síria.

Foi necessário certo sangue frio e alguma determinação da minha parte para levar o projeto adiante. Eu sentia como se devesse aos outros os motivos, as razões e os porquês de gastar o meu dinheiro com algo que eu queria fazer. É claro que deixei muita gente no vácuo, mas penso nas mulheres que se deixam levar pela ideia de que não poderiam dar o mesmo passo. Que olham para o mundo como uma peça de museu: você pode admirá-lo, mas jamais poderá colocar as mãos nele, pois não lhe pertence. Somente pessoas autorizadas podem tocar o mundo e mulheres sozinhas não fazem parte desse time.

Não estou falando aqui do aspecto financeiro da questão. Sei bem que, ainda que eu esteja muito longe de ser endinheirada, tive e tenho oportunidades e condições de dedicar boa parte dos meus modestos rendimentos a planos completamente meus. Um número muito grande de mulheres nem mesmo pode sonhar com isso, ainda que tenham o desejo de tomar o mundo com as mãos. Mas o fato é que existem também essas mulheres, e muitas eu conheci ao falar sobre os meus planos, que, ainda que tivessem condições de viajar, não o fariam sozinhas, de jeito nenhum. Por quê?

Pelo mesmo medo que nos faz evitar ruas e avenidas, trocar de roupa e viver sob um toque de recolher informal: o medo do assédio, do abuso, do estupro, da violência contra a mulher. De ataques que homens não sofrem rotineiramente e simplesmente não consideram antes de comprar a passagem. Dependendo do país para onde uma mulher vai, é primordial que ela saiba como é o machismo naquele lugar, que tipo de apuros ela, pelo simples fato de ser mulher, pode passar ao visitar a região. Mulher, estrangeira e sozinha? Presa fácil em quase qualquer lugar. E essa é uma realidade que acomete diversos países.

Ou seja, o nome do nosso carcereiro, mais uma vez, é O Patriarcado. Hoje, de volta ao Brasil após uma viagem muito enriquecedora, sei que a melhor forma de combatê-lo é resistindo aos seus grilhões. Fico pensando nas experiências maravilhosas que eu teria perdido simplesmente por ter medo de viajar sozinha. Se eu me tivesse deixado convencer de que sou dependente, sempre, de outra pessoa, nem que fosse uma outra mulher. Mas sair sozinha? Do país, então? Jamais!

Aprendemos desde muito cedo como devemos agir para nos manter em segurança. Ainda que esse aprendizado não seja justo – são os homens que deviam ser ensinados que o corpo de uma mulher é propriedade dela e somente com o seu consentimento ele tem a liberdade de tecer comentários sobre ele ou tocá-lo. O que quer que passe disso é considerado, para dizer o mínimo, uma inconveniência. E pouco nos importamos com as suas intenções (“Eu só queria elogiar!”).

Mas é nesses momentos que devemos colocar nosso conhecimento em prática. Sabemos muito bem tomar conta de nós mesmas, somos treinadas para isso há anos. E, se mesmo assim sabemos que não há garantia de que estaremos a salvo de sofrer uma violência, não é na hora de viajar que vamos ter medo. Se ser mulher é um risco em quase todo lugar, então vamos explorar o mundo e ao menos ver lugares diferentes. Este artigo da Forbes, escrito por uma mulher que viajou sozinha por Bali durante quatro meses, fala juntamente sobre esse assunto:

“Não estou dizendo para você arrumar a mochila e viajar o mundo como um inocente e ridícula viajante solitária. Aquela que saltita por aí gritando bem alto o número do seu quarto no albergue, que bebe horrores com estranhos nas partes mais perigosas da cidade e anda pelas ruas à noite com fones de ouvido bem alto em ruas escuras. Nada me deixa mais perturbada do que quando essas garotas são atacadas e legiões de pessoas surgem gritando que essas mulheres deveriam fazer, vestir e falar o que elas quisessem.

Em um mundo perfeito, as mulheres deveriam poder fazer tudo isso e muito mais.

Esse mundo perfeito ainda não existe.”

Não vamos aceitar ser tratadas como idiotas, é o que eu quero dizer. Viajar sozinha não é sinônimo de se tornar cega para medidas básicas de segurança – ainda que NADA justifique que sejamos vítimas de qualquer tipo de violência. Não é certo, porém, que a intimidação nos impeça de expandir nossos horizontes. É normal ter medo, sim, temos razão para tal: uma em cada três mulheres já sofreu violência sexual ou física, segundo a ONU. Mas ser mulher, por si só, é viver apesar desse medo. Então vamos viajar apesar dele também.

Eu, eu mesma e Nova York

Apesar de já ter feito muitas viagens de trabalho sozinha, eu não sabia o que me esperava nessa que seria a minha primeira viagem de férias do tipo. Como 2015 foi um ano generoso comigo, ainda tive a oportunidade de ir à cidade antes de dezembro, por quatro dias, para uma conferência. Foi quando comecei a fazer algumas observações sobre como era estar sem mais ninguém naquela cidade, já que, ainda que tivesse compromissos profissionais, estava por minha conta.

Após o primeiro dia de palestras, resolvi ir ao Comedy Cellar, um tradicional clube de stand up comedy novaiorquino, já que eu adoro comédia. Eu fiz reserva com certa antecedência e fiquei feliz de conseguir chegar a tempo. Com o passaporte em mãos para comprovar que tenho idade o suficiente para adentrar o recinto e confirmar meu nome na lista, o segurança da porta me pergunta, com certa condescendência: “É só você?” Sim, sou só eu, reserva para um, obrigada. Ele sorriu com um misto de pena e admiração, como se eu merecesse um prêmio por ter a coragem de fazer algo desacompanhada. Mai um pouco e ele descia as escadas para tirar uma foto minha sozinha na mesa para dois.

Eu me pergunto se ele teria a mesma reação se eu fosse um cara ou se as piadas seriam mais engraçadas se eu soubesse que alguém conhecido as estaria ouvindo comigo. Se uma garota sai para se divertir sozinha e ninguém está lá para fazer-lhe companhia, sua felicidade ainda tem valor?

Quando voltei para lá em dezembro tive bem mais oportunidades de explorar a cidade, é claro. E fazê-lo sozinha foi libertador, divertido e inesquecível, mas em alguns momentos foi impossível não me aborrecer com as limitações que ainda existem para mulheres nessa modalidade de viagem, ainda que eu estivesse lá, em parte, para encará-las de frente.

Certa noite, lá pelas 23h de um domingo, eu estava voltando de metrô para a casa onde fiquei hospedada cheia de fome. Decidi descer na Times Square para comer alguma coisa, pois lá está sempre muito iluminado, tem polícia e onde certamente havia restaurantes abertos. Dito e feito. Depois de comer o que eu queria, fui meio caminhando, meio passeando até a minha estação de metrô. Digam o que quiser, mas aquele lugar é um símbolo da cidade e lá estava eu, sem mais ninguém, com tempo de sobra para apreciar aquela loucura toda. Eu estava bem no meio da praça, olhando para um letreiro, quando um homem se aproximou de mim. Ele parecia ser um cara normal em circunstâncias normais e perguntou se eu era brasileira. Eu disse que sim e ele começou a conversar comigo ali mesmo, em pé no meio de uma Times Square quase deserta (para os padrões normais de lá).

Fui tentando me desvencilhar do assunto quando ele tentou segurar minha mão. Não deixei. Ele insistiu. Tentou me dar o braço, como se fosse meu namorado, e disse que estávamos em um encontro. Eu disse que não, que aquilo não era um encontro, e eu ia embora. Saí andando depressa para o metrô, já com medo de estar sendo seguida. Meu passeio acabou. Depois me dei conta de que ele provavelmente era um desses pick up artists (“artistas da cantada”, homens que possuem técnicas para abordar e conquistar mulheres na rua e em baladas – geralmente sozinhas) tentando a sorte com estrangeiras.

No AirBnb onde fiquei hospedada, descobri que as anfitriãs haviam alugado o quarto ao lado para um cara e simplesmente não avisaram que haveria outro hóspede. Um dia a polícia bateu na porta por causa de uma chamada falsa e eu descobri junto a dois policiais que havia um homem na casa. A partir de então, fiquei preocupada. Sei que há mulheres que não se importam e não têm medo, mas eu havia alugado essa casa justamente por ser de uma mãe e uma filha. Por sorte, eu nunca mais o vi no apartamento e ele foi embora de vez dois dias depois. Na avaliação da hospedagem, perderam uma estrelinha em comunicação.

No geral, eu me sentia muito segura circulando sozinha pela cidade. Mas isso também se deve à minha ignorância em relação à criminalidade por lá. Vira e mexe eu via nos jornais locais notícias de estupro de mulheres em determinados bairros da cidade que eu só frequentei à noite quando acompanhada de amigos que encontrei por lá e, em geral, evitei explorar sozinha, o que é triste.

E foi essa minha falta de conhecimento sobre as regras não ditas da cidade que me surpreendeu quando, numa noite, eu tentava voltar para casa às duas da manhã e só havia homens nas ruas. Acho que vi uma ou duas mulheres em um percurso de quase duas horas em diversas estações de metrô – mas havia muito mais homens, alguns sozinhos, outros em grupos. Senti que não devia estar ali, não naquele horário. Deus sabe como relaxei quando tranquei a porta do apartamento e estava sã e a salvo, ainda que nada demais tenha acontecido no trajeto.

Fora esses incômodos com as amarras do patriarcado, o resto da viagem foi muito bacana. Acho que toda mulher, tendo a oportunidade, deveria fazer uma viagem sozinha, nem que seja só para ver como é. É algo tão simples e tão poderoso. Quem já tem vontade, provavelmente vai amar essa conquista. Quem nunca pensou nisso, pode descobrir que é capaz de muito mais que imagina. E sozinha! Na volta ainda pode se reunir com as amigas para contar causos e comemorar, bem assim como estou fazendo aqui com vocês. 🙂


Arte: Cari Vander Yacht

 

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Muitas foram as pautas que passaram pela minha cabeça quando fui convidada a escrever  para o Think Olga. Mas para começar resolvi me apresentar de alguma forma, falar de mim e da minha vivência. Por acreditar que é uma forma de me aproximar de vocês e de mim mesma.

Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. – Gloria Anzaldua

Passei anos da minha vida acreditando ser atraída por homens. Sendo violentada por uma sociedade que não me deixava amar as mulheres. Sendo martirizada por uma hierarquia que parece invisível e que é silenciadora. Passei anos da minha vida acreditando que só existia uma orientação sexual: a heterossexual. Que no final, ali, nas convenções que somos obrigadas a celebrar, eu deveria me submeter a ficar e estar com um homem: mesmo se eu não quisesse, mesmo se eu não desejasse.

Entre abusos, agressões físicas e psicológicas é que se deu o meu despertar . E não foi nada fácil contextualizar as relações em que eu estava inserida. Era como estar, literalmente, presa ao meu opressor. Doía muito, muito. Mas quanto mais eu sabia de mim, mais eu me fortalecia e me desmembrava da alienação ao qual me enquadravam.

Eu descobri que existe amor de verdade quando me amei, amei e fui amada por outra mulher. Eu descobri as possibilidades do meu corpo quando me amei, amei e fui amada por outra mulher. Eu me sinto um ser potencialmente mais político me assumindo lésbica.

 

Sou uma mulher negra e lésbica.

 

Ser uma mulher negra e lésbica me torna cada vez mais combativa.

Luto diariamente para viver minha identidade. Me vejo diariamente abominando a coisificação, a objetificação e a erotização que fazem dos nossos corpos. Me vejo diariamente tendo que arrombar a porta para ocupar espaços que deveriam ser meus e de minhas irmãs por direito.

Ser mulher negra e lésbica me coloca num lugar de poucos privilégios.  Sou rejeitada e invisibilizada por uma sociedade branca e heteronormativa. Sou tudo que o patriarcado enoja. Tenho medo de ver verter meu sangue nas mãos de homens que querem me transformar em “mulher de verdade.” Tenho medo de virar estatística.  Por isso denuncio: a nossa voz precisa ecoar contra o machismo, o racismo e a lesbofobia. Contra as opressões que querem nos desestabilizar.

Tenho o direito de existir. Temos. 

Somos muitas com nossas múltiplas identidades.

Sou orgulhosa de ser quem eu sou.

Sou uma mulher negra e lésbica.

“Sermos mulheres juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos garotas lésbicas juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos negras juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos mulheres negras juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos lésbicas negras juntas não era suficiente

Nós éramos diferentes.

Demorou algum tempo até percebermos que nosso lugar

Era a casa da diferença ela mesma,

Ao invés da segurança de qualquer diferença em particular”

Audre Lorde


Dayana Pinto é educadora e Co-administradora da Arquivos Feministas.

Arte: Taj Francis

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