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Quando a Bia Granja, fundadora do YouPix, nos convidou para sermos curadoras do evento, enviamos para ela uma lista com 15 sugestões de mesas, debates, palestras, ações para, no fim, escolhermos apenas 2 (chuif).

É com muita alegria que anunciamos nossa grade:

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Pela primeira vez na história do YouPIX, haverá um dia (17) inteiramente focado em business e negócios.

17 de julho | 15h00 – 15h45
Mídias Sociais Que Tratam As Mulheres Como Gente

Ser amiga da garota plus size e da moça da academia, falar de esmalte da moda e estar preocupada com as lideranças femininas no mercado de trabalho. Como as marcas que se dedicam a falar com mulheres podem utilizar as redes sociais para atualizar o discurso e torná-lo mais inclusivo. No momento em que os dilemas femininos tomam uma voz mais forte na sociedade, o observatório para a conversa das marcas ser mais humana e atenta a esses novos anseios está na rotina das redes sociais.

– Amanda Luz, Head de Redes Sociais das revistas femininas da Editora Abril

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18 de julho | 14h00 – 15h00
A internet não gosta das mulheres

Ameaças, revenge porn, slut shaming, culpabilização da vítima: como o bullying e a violência online gera medo, silencia e maltrata as mulheres?
– Nana Queiroz (criadora do movimento Eu Não Mereço Ser Estuprada)
– Jéssica Ipólito (militante feminista e autora do blog Gorda e Sapatão)
– Estela Machado (aos 16 anos, é uma das criadoras do For You, aplicativo para vítimas de revenge porn)
Com mediação de Juliana de Faria (criadora do Think Olga)

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19 de julho | 11h00 – 12h00
Para a web, a Scarlett Johansson nua não é tudo isso

Uma foto de Scarlett nua no filme Under The Skin vazou e a web, acostumada com o Photoshop, os filtros do Instagram, as melhores poses e ângulos, a perfeição, não gostou. Como isso influencia os padrões de beleza inalcançáveis para as mulheres? Por que achamos OK o corpo feminino ser objeto de críticas duras por desconhecidos.
– Juliana Romano (blogueira do Entre Topetes e Vinis , que fala de moda com olhar na diversidade)
– Evelyn Negahamburguer (artista e ilustradora)
– Carol Guido (blogueira do GWS – Girls With Style e criadora da campanha #terçasemmake)
– Michi Provensi (modelo e autora do livro Preciso Rodar o Mundo)
Com mediação de Luíse Bello (diretora de comunicação do Think Olga)

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A entrada para o YouPix é gratuita. Basta você se inscrever aqui: https://secure.peela.com.br/youpix/cadastro/adesao_festival.asp

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“Quando eu tirei a roupa toda, ele simplesmente olhou, fez uma expressão de sobrancelha, deu as costas e foi embora… Fiquei lá, olhando ele indo, puxando as roupas pro corpo, com os olhos já cheios de lágrimas.”

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De repente, a artista Negahamburguer começou a receber confissões de anônimas tão dolorosas quanto a escrita acima. Uma atrás da outra, elas pingavam em seu e-mail, sempre com as mesmas aflições relacionadas ao corpo e auto-estima. Mas por que mulheres de todo o país – de todas as idades e de todos os formatos – sentiram-se à vontade para escrever suas vivências mais tristes para uma desconhecida pela internet? É que Negahamburguer, que também atende por Evelyn Queiróz, de 27 anos, vem ilustrando um mundo onde a diversidade é vista com carinho.

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Em seus desenhos, protagonizam personagens que assumem suas formas: gorda, magra, alta, baixa, com dobrinhas, curvas e pelos. Todas têm duas coisas em comum: 1) São, sobretudo, mulheres reais. 2) Exercitam uma aceitação alegre e verdadeira do próprio corpo. “Sou muito feliz com a minha leveza”, “gordas também são amadas”, “meu tamanho é lindo, meu peso, ideal”, “é muito egoísmo da minha parte esconder tanta beleza natural” são algumas das frases que acompanham os desenhos.

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Conforme os depoimentos foram aumentando, Negahamburguer decidiu transformar a dor e a coragem em um projeto, o Beleza Real. Por meio de intervenções urbanas (grafites e stickers), a artista espalha pela cidade as histórias dessas pessoas que “por culpa do padrão de beleza que é imposto já sofreram algum tipo de preconceito por qualquer condição linda que a nossa sociedade insiste em falar que não é bom ou bonito”. Mulheres reais para valer e não só para publicitário ver. O projeto foi parar no Catarse e conta com a ajuda de crowdfunding para virar livro. Qualquer pessoa pode colaborar em troca de brindes como a própria publicação, camisetas, adesivos e cadernos.

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A seguir, um bate-papo com Negahamburguer:

CHEGA DE PADRÃO

“Acho que a dificuldade enfrentadas pelas mulheres quando o assunto é o corpo e a auto-estima está em achar que é preciso se encaixar em uma lista de detalhes para se sentir bem e bonita. Com isso, se perde a ideia do como é lindo sermos diferentes, já que é assim que somos.”

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FALTA CUIDADO COM O OUTRO

“De vez em quando aparece um perfil fake causando ou alguém que não entendeu nada da proposta dos meus desenhos. Estou aprendendo a lidar com essa situação, com pessoas que não consegue enxergar o próximo. Fico triste por elas serem assim.”

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BELEZA REAL

“O projeto começou quando passei a receber histórias de pessoas que se identificavam com o trabalho. Vi que essas vivências poderiam ser base para algum projeto legal. Choro toda vez que leio um depoimento. A gente acha que já passou por constrangimentos, mas quando você conhece a experiência do próximo, percebe que não é só com você, e que muita gente passa por muita coisa pior no cotidiano.”

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A PARANOIA É LUCRATIVA (PARA ALGUNS)

“Não há diversidade nas publicações femininas e nas campanhas publicitárias porque não convêm. O que a publicidade mais quer é que a mulher se enxergue como insuficiente para poder vender porcarias que prometem fazer com que elas sejam mais felizes.”

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AMOR PRÓPRIO

“Sempre tive uma relação tranquila com meu corpo, nunca me cobrei. Até pensava uma coisinha aqui e outra ali quando era mais nova, mas nunca tomei alguma atitude pra mudá-lo. Gosto muito dele.”

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No começo de outubro, a revista Marie Claire publicou em seu site uma foto da modelo Izabel Goulart de biquíni. No título, diziam que ela exibia um “corpo perfeito”. Não é de espantar que a matéria tenha causado alvoroço nas redes sociais: quando uma publicação feminina rotula um corpo magro como “perfeito”, está estabelecendo um padrão de beleza. E isso, como sabemos, gera uma ansiedade pela busca da “perfeição”, que pode ter consequências graves como bulimia e anorexia. Além do mais, não existe corpo perfeito.

Infelizmente, a revolta não foi direcionada à Marie Claire e ao uso irresponsável do adjetivo “perfeito”, mas sim à modelo. O corpo de Izabel Goulart foi chamado de “horrível”, entre outras coisas muito mais grosseiras. Ela foi acusada de ser anoréxica (e até de aidética e tuberculosa por alguns). Não faltava gente para dizer que ela deveria ter mais isso ou menos aquilo, para fazer piadas, ou para dizer que o corpo de Izabel não satisfazia às expectativas sexuais dos homens (a velha máxima de “tem que ter onde pegar”).

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Essa atitude também é conhecida como body shaming, expressão usada para definir os comentários negativos em relação ao corpo de outrem (no caso, mulheres). O curioso é que, na vontade de reprimir alguém que supostamente estava envergonhando os corpos gordinhos ao classificar a magra como perfeita, acabou-se fazendo a mesma coisa: detonando o corpo magro e classificando a “gostosa” como ideal de beleza.

Na tentativa de criticar o corpo alheio, a saúde é um dos argumentos mais usados. Do mesmo jeito que dizem que o problema da gorda é não ser saudável, as magras são tachadas de doentes, numa brincadeira de médico sem nenhuma graça. À exceção de casos extremos, não dá para julgar a saúde de uma pessoa apenas por uma foto.

Quem também sofreu com esse julgamento foi a cantora Fiona Apple. Em um show em Portland, ela expulsou uma garota que gritou: “fique saudável! Queremos te ver daqui a 10 anos. Eu te vi 20 anos atrás e você era linda”. Fiona saiu do palco aos prantos. Afinal, essa liberdade que muitos acreditam ter de criticar e/ou diagnosticar o corpo alheio machuca, e muito.

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Lutar para que as publicações femininas estampem em suas páginas uma maior diversidade de corpos e que não tentem definir a perfeição feminina é válido e necessário. Mas não é recriminando mulheres, por serem magras ou gordas ou qualquer outra coisa, que vamos conseguir isso.

Quem faz body shaming para reclamar do padrão magro de uma revista, na verdade, está fazendo a mesma coisa que tanto critica: impondo um padrão de corpo como o bonito, o ideal. E ainda por cima usando palavras cruéis pra detonar outro tipo de corpo.

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Nenhuma mulher é obrigada a ter as coxas da Sabrina Sato só porque “homem não gosta de osso”. E, se tiver, tudo bem também. Tudo bem ser magra. Tudo bem ser gorda. Tudo bem ter pouco ou muito peito, quadril largo ou estreito. Envergonhar outras mulheres por causa de seus corpos não, isso não está nada bem.


Taís Toti é jornalista, escreve no Estadão e no Indieoteca, fala no Comando Legal, cuida de duas gatas e pensa muito antes de postar textos no Facebook.

As ilustrações fazem parte da campanha “Beleza Real” da ilustradora brasileira Negahamburguer.

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