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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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A última semana foi uma das mais intensas do ano para nós do Think Olga. Lançamos a hashtag #primeiroassedio para saber das mulheres quando foi a primeira vez que foram abordadas sexualmente. A iniciativa foi uma resposta ao imenso número de mensagens de teor pedófilo que circularam no Twitter durante a estreia do programa Masterchef Júnior, na Band. Uma das meninas tornou-se alvo de homens que não se intimidaram em manifestar publicamente seu desejo sexual por uma criança.

 

Durante os dois anos de existência da Chega de Fiu Fiu, nossa campanha contra o assédio em locais públicos, e por experiência pessoal, sabemos que infelizmente o que estava acontecendo no Twitter e chamando atenção pelo absurdo nada mais eram que registros reunidos a refletir um comportamento familiar a muitas mulheres. O assédio começa na vida de uma mulher no momento em que algum homem decide que ela já tem idade suficiente para ver seu pênis, ouvir palavras sujas ou coisa pior. Para algumas, tão cedo quanto aos cinco anos de idade.

 

Outro evento recente que diz respeito às mulheres é a aprovação do Projeto de Lei 5069/13 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. De autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o próximo passo é a votação em Plenário da Câmara. O projeto de lei visa dificultar o acesso a métodos abortivos mesmo quando a profilaxia da gestação é permitida por lei, como em casos de estupro.

 

Para tal, segundo o texto do projeto, será negada às vítimas atendimento básico em casas de saúde logo após uma violência sexual. O ato deve ser violento o suficiente para causar danos físicos e psicológicos – a ser comprovados via exame de corpo de delito, em uma delegacia. Com o laudo que comprove o estupro em mãos, só então a pessoa poderá procurar auxílio em uma emergência hospitalar.

 

Tudo isso está superficialmente explicado em um texto aberto a interpretações e subjetividades que, em todos os níveis, prejudicam somente as mulheres. No Brasil, o acessoao aborto é limitado aos casos nos quais há risco de vida para a mulher causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro ou se o feto for anencefálico. Nas três circunstâncias, a mulher é vitima de fatores externos, mas em um deles ela ainda será obrigada a encontrar forças se quiser ter acesso aos procedimentos necessários para sua própria saúde. Antes de cuidar de si, a mulher deve cuidar de provar para o estado que foi vítima de um crime – uma tarefa que definitivamente não é fácil quando se conhece a realidade burocrática, fria e machista das delegacias brasileiras, inclusive as da mulher. Caso ela não consiga, será impedida de ter acesso ao kit estupro (medicamentos que incluem a pílula do dia seguinte e salvaguardam a vida da mulher após essa violência), correndo risco não apenas de gerar um bebê indesejado, mas também de contrair todo tipo de doença sexualmente transmissível.

 

O PL também se esforça para manter mulheres na escuridão. Segundo ele, estarão sujeitos à penas de reclusão os profissionais de saúde que ajudarem mulheres a abortar sem a comprovação obtida em uma delegacia e, se a vítima for menor de 18 anos, o tempo de cadeia é maior ainda. Além disso, o “anúncio de meio abortivo” também seria criminalizado para dificultar a educação das mulheres em relação a direitos reprodutivos.

 

Para entender o quanto esse projeto está descolado da realidade, basta olhar para os números. No Brasil, uma pessoa é estuprada a cada 10 minutos e mais da metade das vezes é apenas uma criança. Ter acesso ao aborto garantido por lei quando uma gravidez proveniente desse crime acontece já é difícil por si só. Em suma, as maiores prejudicadas por esse PL são meninas pobres e definitivamente nenhuma mulher sai ganhando. Seu maior beneficiário talvez seja o estuprador, que seguirá impune (e livre para fazer piadas sobre pedofilia na internet), ancorado por leis que afastam as vítimas da denúncia.

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O fato de todos esses absurdos terem meramente sido aprovados pela CCJ já constituem uma derrota na luta pelos direitos das mulheres, mas ainda não perdemos a guerra. No Brasil inteiro, mulheres estão se mobilizando para que o projeto não seja aprovado no Plenário. É possível assinar a petição online contra o projeto, participar dos atos que vão acontecer em São Paulo e entrar em contato com nossos deputados federais para colocar pressão e demonstrar que as mulheres repudiam esse PL.

 

Tomar iniciativa é apenas fazer valer direitos que já conquistamos. É triste perceber que a discussão sobre direitos reprodutivos no Brasil e o direito sobre os nossos próprios corpos ainda esteja tão atrasada e correndo risco de retroceder, mas não será desistindo de nos fazer ouvir que essa realidade mudará. Essa é uma lei que não faz qualquer sentido e não tem espaço na realidade atual do país que temos hoje e muito menos na do país que queremos um dia ser. Querem nos desinformar, nos intimidar e nos fazer pagar com nossas próprias vidas pelo crime dos outros. Temos 5069 razões para lutar contra essa lei e pelas nossas vidas – e a primeira delas é a nossa paixão pela liberdade.


Arte: Leah Reena Goren

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O OLGA Mentoring: Escola de Líderes surgiu do desejo de ajudar mulheres a ir além em suas ideias de negócios. O empreendedorismo é uma importante ferramenta para a diminuição da desigualdade de gênero, seja pelo fato de que nesse modelo a mulher é dona do próprio negócio e, assim,  pode eliminar o problema de discriminação dentro da empresa, quanto pelo aumento feminino no número de empresários do país.

Para as mulheres, empreender no Brasil ainda é desafiador: embora estejam à frente de 43% dos negócios, somente 0,2% delas são sócias ou proprietárias de empresas de grande porte, segundo dados de pesquisa divulgada  pelo Experian este ano.

Isso se dá não apenas pela segregação de gênero institucionalizada a que são submetidas no mundo corporativo, permeada por muitos preconceitos inconscientes ou não. A ausência de mulheres nestes cargos também acontece por um traço cultural de muitas empreendedoras brasileiras: o desejo de empreender em busca de qualidade de vida, e não por ganhos financeiros – uma reação direta das mulheres a modelos de negócio despreparados para as particularidades de funcionárias do sexo feminino.

Sendo assim, boa parte das empreendedoras brasileiras preferem abrir pequenos negócios para conciliar vida pessoal e profissional, ficar mais perto de casa, da família, fugir do mundo corporativo e conquistar um novo ganha-pão, mas hesitam na hora de expandir os negócios. Ainda segundo a pesquisa, 73% dos micro ou pequenos empreendimentos são comandados por mulheres, sendo que o número sobre para 98% quando somadas as Micro Empreendedoras Individuais (MEI). Pesa também sobre elas a exclusão sistemática das mulheres à informações sobre negócios, recursos financeiros e uma rede de apoio que as dê suporte para ir adiante.

 

O que é a Escola?

Criado com o objetivo de ajudar mulheres a seguir o caminho do empreendedorismo, o OLGA Mentoring Escola de Líderes tem sua primeira edição em São Paulo com turma de oito alunas com diferentes histórias de vida. Mães, avós, jovens cheias de ideias, elas foram selecionadas entre as mais de 300 candidatas que mostraram interesse pelo curso.

As aulas e workshops abordam temas variados e essenciais para quem deseja dar os primeiros passos no mundo do empreendedorismo: como montar um plano de negócios, noções de marketing, como vender sua ideia, finanças, tendências, etc. São nove encontros presenciais realizados no Aldeia Lisboa Espaço Coletivo.

A Escola é liderada por Nana Lima, publicitária formada pela FAAP com MBA pela ESADE Business School, de Barcelona,  especialização em  Comunicação e Marketing de Moda pelo Istituto Europeo di Design (IED) e experiência em agências de publicidade e na área de marketing de grandes empresas, ela atualmente é empreendedora e sócia da Think Eva, consultoria de negócios para marcas que desejam uma comunicação mais eficiente com o público feminino.

“As mulheres não arriscam tanto ou arriscam menos que os homens porque porque não têm as ferramentas e conhecem menos o conteúdo de negócios. Daí veio a ideia: por que nós não fornecemos isso a elas? E aí juntamos também o desejo de fornecer mentoria e criar uma rede de apoio”, explica Nana. Mais que um local de aprendizado, o OLGA Mentoring busca ser um espaço no qual as participantes possam falar abertamente sobre suas ideias, receber feedbacks construtivos e contar com a experiência de quem já possui mais tempo de mercado – além de aumentar a base de contatos dessas mulheres.

Joana Gabriela Mendes é uma das alunas da primeira turma. “Eu acho a iniciativa ótima. Me inscrevi porque estou cheia de projetos e nem sei como torná-los viáveis. A dificuldade que eu vejo é que é difícil alguém pra te dar a mão e te ajudar,  sabe? E o medo também. De não dar certo, de como fazer e com quem”, afirma. “A seleção de meninas foi incrível, elas são super interessadas e cada uma vem com uma ideia de negócio dentro da sua própria realidade, de seus próprios valores, que estão se encaixando muito bem e estamos aprendendo muito umas com as outras”, elogia Nana.

A primeira edição atraiu interessadas do Brasil inteiro e a vontade de levar a Escola de Líderes para outras regiões do Brasil é enorme. “Nós da Olga também estamos aprendendo muito sobre o formato e descobrindo como podemos empoderar as mulheres por meio desse tipo de iniciativa. Não vejo a hora de descobrirmos, a partir dessa primeira edição, formas expandir o projeto para que possamos absorver mais mulheres e levar o OLGA Mentoring para em outros estados do Brasil além do sudeste”, sonha a líder do projeto.


Arte: Leah Reena Goren

 

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A primeira edição dos Jogos Olímpicos que deu origem ao que conhecemos hoje data do ano de 1896, mas sua história começou bem antes, na Grécia, em 776 a.C. Ao longo do tempo, a participação das mulheres na competição teve períodos conturbados: ainda na Antiguidade, elas eram proibidas de assistir os jogos sob pena de morte e na primeira edição oficialmente aberta ao público feminino em 1900, em Paris, somente 22 do total de 997 atletas eram mulheres, competindo em apenas cinco esportes.

A conquista de um total de 44% de participação feminina na última edição dos jogos em Londres, no ano de 2012, com a participação delas em todas as modalidades pela primeira vez na história, não foi sem o esforço e a luta de milhares de esportistas que não se curvaram diante das adversidades causadas pelo sexismo.

É de mulheres assim que são feitas as Olimpíadas:  guerreiras que trazem dentro de si a chama da transformação. Elas fazem história ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos dos quais eram excluídas ao provar que têm garra, talento e capacidade para brilhar nos esportes.

Mulheres como Neide Santos, ou Neide Vida Corrida, como ficou conhecida ao adotar como sobrenome o nome do projeto que criou no Capão Redondo, e que já transformou a vida de milhares de pessoas por meio da prática de corrida.

Na trilha de um sonho

Atleta desde os 14 anos, Neide teve sua carreira interrompida por revezes que a vida pôs em seu caminho. Primeiro, foi obrigada a mudar-se ainda menina para São Paulo, onde foi adotada por uma família que lhe deu educação, mas também a cruel responsabilidade de trabalhar como empregada doméstica ainda criança.  Trouxe sua família biológica para a cidade, mas só depois de adulta, onde ainda passou por muita pobreza e dificuldade.

Quando se casou, viu sua vida entrar um pouco nos trilhos e vislumbrava um futuro melhor, mas seu esposo foi assassinado por policiais no Capão Redondo, comunidade da periferia da cidade de São Paulo, onde moravam, deixando-a sozinha com um bebê recém-nascido e sonhos partidos.

Apesar das dificuldades que teve a partir de então como mãe solteira, Neide não abandonou sua paixão pela corrida e continuava a praticar o esporte amadoramente, participando de maratonas onde encontrava amigos da comunidade. Era a única mulher entre eles. Com o tempo, um pequeno grupo de mulheres de seu bairro a procurou pedindo que Neide as ensinasse a correr também. Elas queriam se movimentar tanto pelo lazer da atividade, quanto pela oportunidade de praticar um esporte, um privilégio geralmente reservado somente aos homens daquele local.

Em 1999, Neide se propôs a ensinar um grupo de seis mulheres do Capão Redondo a correr durante as duas semanas em que estava de férias no trabalho – e, desde então, esse voluntariado nunca mais parou. Assim, começava a história do projeto Vida Corrida. Mas a essência da iniciativa iria mudar drasticamente quando seu filho também teve a vida ceifada pela violência em um assalto no ano 2000, pelo disparo de um revólver empunhado por uma criança de 11 anos.

Neide quase desistiu de tudo, mas foi lembrando do desejo de seu filho de que ela incluísse crianças em seu projeto, para incentivá-las a trilhar o caminho do bem em uma comunidade refém de forças do mal, que ela decidiu não apenas continuar a transformar vidas por meio da corrida, mas ir além e estender esse benefício a meninos e meninas da comunidade.

 

Quando o impossível não existe

Hoje, o Vida Corrida, com mais de 350 participantes, atende 150 crianças do Capão Redondo e pretende expandir esse número em 2016. O projeto conta com o patrocínio de grandes empresas para a aquisição de equipamentos e estrutura para realização das atividades, mas principalmente com a dedicação de voluntários apaixonados pelo esporte.

O sucesso do Vida Corrida é motivo de orgulho para Neide e para todas nós que, conhecendo sua história, contemplam a capacidade de realização dessa mulher inspiradora. Com amor e entrega, criou uma onda de solidariedade, empoderamento e oportunidades que mudaram e inspiram a vida de tantas pessoas, como nós, aqui do Think Olga.

A Neide tem mais um grande sonho: carregar a Tocha Olímpica no Capão Redondo. Ver, na comunidade onde viu sua família ser vítima da violência, brilhar uma chama de esperança, a mesma que a leva todos os dias a continuar lutando pelo Vida Corrida. Ela quer mostrar para as crianças da comunidade, que aprenderam com ela a correr brincando, que nada é impossível.

Ano que vem, os Jogos Olímpicos serão realizados pela primeira vez no Brasil e o Comitê Olímpico Internacional tem um compromisso sério com a participação das mulheres no esporte. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, criou uma plataforma onde todos podemos indicar pessoas para conduzir a Tocha Olímpica Rio 2016. Por meio do site www.brades.co/thinkolgaindica, qualquer pessoa pode indicar alguém que faz a diferença na vida de outras pessoas para ter essa grande honra. Para a candidatura ser válida, é imprescindível o candidato fazer a confirmação por email ou ele será desconsiderado. Sugestão Think Olga: indique mulheres e ajude a aumentar a representatividade delas nos Jogos Olímpicos! Quem você conhece que tem uma #chamaquetransforma?

Nós acreditamos no sonho da Neide e vamos indicá-la não apenas porque acreditamos na importância da representatividade feminina nessa tradição tão importante dos Jogos Olímpicos, mas porque ela verdadeiramente transformou e transforma a vida de muitas pessoas com o seu projeto.

Tivemos a honra de conversar com a Neide sobre sua vida, sonhos e planos para o futuro. Conheça um pouco mais sobre a história dessa mulher inspiradora em suas próprias palavras:

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Como você se apaixonou pela corrida?

Aos 14 anos, eu fui a uma pista de atletismo e tinha um campeonato escolar, mas fui para jogar handebol. Só que, no revezamento 4×100, faltou uma menina. O professor de educação física olhou para um lado, para o outro, olhou para mim e falou: “Vai você mesmo!”.  E me mandou correr. Eu disse que nunca havia treinado, mas ele disse que eu corria muito e já treinava handebol – tudo o que eu precisava fazer era ser a última a pegar o bastão e correr o mais rápido que eu pudesse. Foi o que eu fiz: peguei o bastão , corri o mais rápido que eu pude e naquele dia eu me apaixonei pela corrida porque eu nunca tinha ganhado uma medalha para eu levar para casa. Quando a gente ganhava alguma coisa no handebol, ganhava um troféu que ficava na escola, mas naquele dia eu ganhei minha primeira medalha e eu gostei tanto daquilo que eu falei: “Não, agora eu não vou mais jogar handebol, não, vou começar a correr!”. E foi assim que a corrida entrou na minha vida e eu corro até hoje. Vai fazer 42 anos que eu corro.

 

O que a corrida representa hoje na sua vida? 

Hoje, para mim, a corrida é uma ferramenta de transformação social, porque através da dela eu consegui mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

 

E o que o futuro reserva para você e para o Vida Corrida?

Ontem mesmo eu fiquei até tarde trabalhando e planejando porque no ano que vem vou atender mais 250 crianças – nós atendíamos 150, mas agora teremos mais verba para atender mais. Sem contar as mulheres: hoje nós temos 200 e acredito que no ano que vem vamos receber mais. Também tenho planos de construir nossa casa, a Casa Vida Corrida, mas o meu maior sonho, acima de tudo, um sonho de criança, é de um dia estar nos Jogos Olímpicos. Outro sonho olímpico também é ver o Jonathan Santos, que eu ensinei a brincar de correr, nos Jogos Olímpicos de 2020.

 

Muitas das mulheres da comunidade têm jornada tripla e quase não sobra tempo ou dinheiro para lazer e atividades pessoais, para cuidar de si mesmas. Como a corrida e o projeto as ajudam?

Vou falar para você o que eu ouço delas. Um dia uma chegou para mim e falou que o projeto deu autoestima pra ela. Ela falou que o projeto a levou a lugares que ela jamais imaginaria ir. Outra disse que a vida corrida uniu a família dela, que elas não tinham uma vida social, mas que através da corrida elas entraram nas redes sociais, mostraram para as pessoas o que elas fazem. Teve uma menina que veio do Piauí que foi escolhida para ser entrevistada no programa Como Será, e aí ela me disse “Neide, minha família no Piauí está em festa, eles me viram na televisão, eles me viram correr!”. Tem mulheres no projeto que voltaram a estudar, algumas fazem faculdade para um dia trabalhar no Vida Corrida. Tem mulheres que nunca tinham conhecido pessoas que não fossem da comunidade.  O projeto as leva para outros lugares.

 

 

 

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Illustration - Illustration by Laura Wilson - Google Chrome

Leda Letra, da Rádio ONU em Português, em Nova York.

 

O Conselho de Direitos Humanos da ONU promoveu esta terça-feira, em Genebra, uma sessão sobre igualdade de gênero. O presidente do órgão notou que as mulheres formam mais de 50% da população mundial, ou 3,5 bilhões de cidadãs.

Apesar dos números, Joachim Rücker lamentou o fato de que em muitos países as mulheres enfrentam restrições para poder participar da vida pública, política e econômica.

Diferença

Já o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos informou que nenhum país do mundo “alcançou totalmente a igualdade de gênero”. Zeid Al Hussein pediu aos 47 países que integram o órgão para “fazer a real diferença” neste sentindo.

Segundo ele, as mulheres são vistas com muita frequência participando de paineis sobre questões relacionadas aos direitos da criança e ao universo feminino. Mas nas discussões sobre conflitos armados, combate ao terrorismo, pena de morte e sanções, os homens formam a maioria.

Zeid também considera que existe falta de igualdade de gênero até mesmo em organismos da ONU ligados aos direitos humanos, o que segundo ele pode ser um sintoma da baixa representação feminina nos Estados-membros.

Exemplos

O alto comissário acredita que muitas meninas podem ficar longe das tecnologias da computação ou da engenharia “porque ser melhor que os meninos em matemática pode não parecer feminino”.

Zeid Al Hussein afirmou que as garotas que crescem vendo apenas “presidentes ou embaixadores homens podem desenvolver a crença de que o poder é essencialmente masculino”.

Mudanças

O alto comissário destacou que todos têm a responsabilidade e o poder de promover a igualdade de gênero e fez um apelo por mais ação para tratar a discriminação e combater estereótipos.

Zeid elogiou “cotas e outros esforços temporários, que podem ajudar as mulheres a ter voz em sistemas políticos e legais”. Mas pediu que a igualdade deixe de ser encarada como um “exercício”, porque a representação igual de homens e mulheres constrói sociedades mais justas”.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos prometeu que não irá participar de nenhum painel de discussão que não incluir mulheres especialistas no tópico e  afirmou que vai trabalhar para melhorar a igualdade de gênero no seu próprio escritório.

Escute a entrevista AQUI.

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Esse post faz parte de uma parceria entre Think Olga e a Rádio ONU em Português para a divulgação de conteúdo relacionado a gênero.

Arte: Laura Wilson

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Quem não teria curiosidade em saber quem foi a mulher considerada “a dama das artes plásticas brasileiras”? E para nos instigar ainda mais, outros fatores de sua biografia que a fizeram/fazem uma mulher inspiradora para todas nós: chegando ao Brasil aos 23 anos, ela não deixou que sua condição de estrangeira a limitasse ou a impedisse de traçar o caminho que desejou; e, recém aos 40 anos, essa “imigrante comum” iniciou-se no mundo das artes plásticas contrariando clichês que, lamentavelmente ainda hoje existem em torno de nós mulheres: de ser estrangeira/imigrante/migrante em um país ou cidade novos e de quase não ter o “direito” de começar uma nova profissão/carreira após os quarenta anos de idade por ser considerada “velha” para o mercado de trabalho. Essa mulher tem um nome: Tomie Ohtake, a artista plástica nipo-brasileira que personificou muitas das reivindicações femininas (ainda atuais) como sua inserção e a conquista de respeito e reconhecimento por seu trabalho num campo laboral antigamente praticamente dominado por homens – é de se lembrar que Tomie Ohtake começou sua produção artística em 1952 em São Paulo. E ela soube conquistar e defender seu espaço e presença nesse ambiente através de suas obras escultóricas gigantestas, com proporções monumentais que desafiam a estaticidade elástica desses corpos, e sua contínua pesquisa com cores e texturas em suas telas, produzidos ainda quando ela cumprira seu centenário de vida.

Tomie Ohtake é/foi uma mulher inspiradora porque combateu com seu trabalho, e em proporções colossais, todos os fatores sociais e culturais que poderiam vir “contra” si e fez isso deixando muito bem marcada sua presença no cotidiano de milhares de brasileiros através de 27 obras públicas espalhadas por algumas cidades brasileiras. Milhões de pessoas passam ou veem diariamente as obras de Tomie, e inclusive as têm incorporada a sua paisagem urbana, sem se darem conta disso. E como não entender essa inserção discreta e definitiva da presença da artista em nosso cotidiano se não como uma forma de resistência permanente e provocativamente silenciosa aos “nãos” que uma cultura conservadora e machista procura nos obrigar a aceitar como regra? As obras de Tomie Ohtake protestam pela excepção a essa regra, à regra da convencionalidade, da estaticidade dos objetos e ordens naturais, do conforto e funcionalidade imediata das coisas ao nosso redor.

Quando um está chegando ou partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (São Paulo), exatamente no meio de um campo ao céu aberto encontra-se instalada uma enorme escultura em forma circular. Porém,  a escultura circular de Tomie Ohtake foge à regra geométrica de uma esfera que esperamos e conhecemos. A sua esfera nos seduz quer por seu vermelho intenso quer por suas dimensões inexatas, desproporcionadas, como se fosse um corpo celular disforme viesse ao nosso encontro, procurando nos atrair, capturar e tragar para dentro de uma dimensão determinada e conhecida somente por Tomie.

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Imagem: Escultura no Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo, 2008.

Essa poderia ser a primeira experiência de um observador distraído com as obras de Tomie Ohtake. Mas, passeando pela capital paulista, mais exatamente pela estação do Metrô Consolação ou passando pela Avenida 23 de maio, nos damos conta que a presença da artista está fortemente demarcada e compõe a paisagem urbana do cotidiano de milhares de pessoas, mesmo que essas não saibam ou ignorem a autoria das obras. O fato é que: Tomie está ali – e de forma colossal e permanente.

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Imagem: Estação do Metrô Consolação (São Paulo), 1991.

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Imagem: Escultura na Avenida 23 de maio (São Paulo), 1988.

Na cidade de Santos, litoral paulista, encontra-se no Parque Municipal Roberto Mário Santini outro exemplo da liberdade de criação da artista que impressiona o visitante pela leveza e movimento das placas metálicas que compõem a obra. Uma vez mais, suas esculturas (consciente e meticulosamente arquitetadas) brincam e põem em questão a massa, o volume, o peso, o tamanho, a forma e a cor das obras que cria. É como se as coisas que criava não tivessem paz – assim como na música homônima de Arnaldo Antunes “As coisas” – pois elas se encontram em um contraditório território de imobilidade elástica, em permanente movimento que, muitas vezes, parece nos buscar, nos envolver para dentro de si entre seus tentáculos.

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Imagem: Escultura no Parque Municipal Roberto Mário Santini (Santos, Estado de São Paulo).

 

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Imagem: Escultura na entrada do teatro do Parque do Ibirapuera, São Paulo, XX

Ao cumprir seu centenário em 2013 e em plena fase de produção, Tomie Ohtake inaugurou três exposições organizadas pelo Instituto Tomie Ohtake (www.institutotomieohtake.org.br), inaugurado em 2000 na capital paulista. Em uma delas, numa galeria de arte desta cidade, cerca de vinte quadros e esculturas inéditos produzidos pela artista entre 2011 e 2012 foram expostos e transmitiam ao observador uma impactante energia e vitalidade criativa da artista. A conhecida leveza e delicadeza de seu gesto e a mobilidade estática de suas esculturas voltaram a ser exibidas, como na obra abaixo (semelhante escultura também pode ser encontrada instalada em frente ao Museu de Arte Contemporânea da Cidade Universitária de São Paulo):

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Imagem: Escultura instalada na Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2013.

Suas telas comportam uma explosão de cores, de texturas, de gestos/pinceladas sobrepostos – resultado de uma constante investigação durante toda sua trajetória artística. Dependendo da proximidade ou da distância frente a suas telas, o observador é brindado com a visão de novas formas, temas e tramas tridimensionais que se mesclam simultanea e harmonicamente. Formas circulares, recorrentes na produção de Tomie Ohtake desde os anos de 1950, reincidiram em seus últimos trabalhos – numa espécie de encerramento do ciclo de um trabalho claramente projetado e investigado durante toda uma vida.

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Imagem: Quadro azul, acrílico sobre tela, 2012.

Assim como suas esculturas são caracterizadas por uma ação gestual linear muito bem marcada, suas telas demonstram uma exploração em limite máximo da potência das cores que cria uma textura particular, lograda através de diversas capas de acrílico sobrepostas. Essa materialidade possibilita a formação de imagens abstratas em permanente movimento, como se, assim como suas esculturas colossais, também buscassem capturar o observador para dentro de si. Novas formas (como círculos, arcos, elipses), novos planos, ondas tridimensionais, em uma organicidade quase selvática, saltam ao olhar do observador a cada nova mirada e somente possível através da potência e das gradações das cores primárias e secundárias.

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Imagem: Quadro verde, acrílico sobre tela, 2012.

Ao largo de sua produção, Tomie Ohtake revelou um permanente e meticuloso compromisso com a busca pelas propriedades cromáticas da veladura, transparência, irradiação e retração, assim como com a particular e harmonica tensão entre o gesto livre, o movimento delicado, a leveza linear e suas impactantes, imponentes e massissas esculturas em dimensões megalomaníacas. Através de suas pinceladas, ora carregadas de tinta ora trabalhadas na transparência, a artista não limitou o uso espacial de suas telas. Ao contrário, ela as utilizou bem mais como metáforas do que “ainda está por vir”, já que oferecem ao observador uma leitura aberta que, a cada nova mirada, descobre novas formas e imagens no emaranhado abstrato fomentado pela potência de suas cores. Através de suas obras, Tomie Ohtake nos inspira porque são uma resposta inconvencional, sensata e sensível às convencionalidades clássicas que estamos acostumados e esperamos de esculturas e pinturas. Como mulher, Tomie segue nos inspirando, ainda que tenha partido no dia 12 de fevereiro, porque concretizou em si a quebra de paradigmas sociais que poderiam tê-la reprimido a realizar seus desejos e projetos; porque sua resposta às convencionalidades sociais foi trabalhada metaforicamente de forma contínua ao largo de mais de sessenta anos de produção e em formatos colossais, para que aqueles que buscam justificá-las ou defendê-las não possam ignorar por completo a delicada, massissa e monumental resistência que essa mulher inseriu em seus cotidianos através de suas esculturas nada convencionais.

 


 

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens exibidas neste artigo foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake (esculturas públicas) e pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara (quadros azul e verde de 2012). A imagem da escultura linear fotografada num espaço interior pertence à autora do texto.

 

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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politicas

Janete Rocha Pietá, 68 anos, conheceu seu marido, Elói Pietá, na política. Juntos, eles lutaram contra a ditadura e ajudaram a formar o Partido dos Trabalhadores (PT). Certa vez, nos anos 1980, Janete era presidente do PT em Guarulhos e tinha como missão articular o partido e a bancada, enquanto seu marido era vereador. Só que quando outros políticos do partido ligavam para os Pietá para discutir a articulação, poucos procuravam Janete. Mesmo que não fosse a responsabilidade de Elói, eles procuravam o homem da casa para discutir política. Essa história de Janete, além de outras que mostram o preconceito que sofreu por ser, além de mulher, negra, é um pequeno exemplo da tradição política brasileira de segregação. Ainda hoje, mais de 80 anos depois da conquista do voto feminino, as mulheres são minoria nas esferas de poder e impera o pensamento de que elas não pertencem à política. Enquanto isso, as que fazem questão de pertencer enfrentam preconceito, assédio, exclusão dos grupos de decisão e do financiamento de suas campanhas, além de uma inclusão de fachada movida por oportunismo.

Mas por que, mesmo, as mulheres precisam estar no poder? Um motivo é representatividade, importante porque as mulheres são 52% dos eleitores brasileiros, ou 74 milhões de eleitoras que vão eleger um congresso praticamente 90% masculino, com poucas opções de candidatas em relação a candidatos. Em segundo lugar, as brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932, mas este não é o único direito político das mulheres – acesso a cargos políticos também o é.

Em terceiro lugar, ter mais mulheres no poder não significa necessariamente mais propostas  feministas, mas certamente há uma probabilidade maior da situação das brasileiras entrar em pauta. Mas tomemos o exemplo do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para despenalização do aborto, um problema de saúde para cerca de um milhão de mulheres que abortam anualmente no Brasil. O projeto está em votação pública e online no site Vote na Web, e o resultado até o fechamento desta reportagem mostra 57% de aprovação geral, com 71% de aprovação feminina e apenas 40% de aprovação masculina. Se os brasileiros em geral tivessem o poder de decidir através de uma votação online se o aborto deve ser crime ou não, já temos a resposta. Se as mulheres pudessem decidir sobre seu próprio corpo então, nem se fala. No entanto, vivemos em uma democracia representativa, em que nossos representantes decidem as leis por nós. Só que 90% desses representantes são homens brancos, muitos deles empresários. E eles não querem largar o osso.

Internacionalmente, o Brasil é aclamado por ter uma presidente mulher, enquanto tantos países de tradição democrática, como Estados Unidos e França, por exemplo, nunca tiveram uma. Na prática, ter uma presidenta reeleita tem efeitos meramente simbólicos, já que as mulheres são minorias em todas as instâncias políticas, mesmo compondo 51% da população. Na Câmara de Deputados, elas representam 8,8% das cadeiras; no Senado, 9,9%; nas Prefeituras, 12% e nos governos estaduais, 3,7% (na verdade, apenas uma mulher foi eleita dos 27 estados brasileiros). Esses números constrangedores colocam o Brasil em 120º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) que mede o índice de mulheres nos parlamentos, perdendo até para países islâmicos.

Há uma série de fatores para uma participação feminina tão limitada, que vão desde o conceito de que a responsabilidade do lar e dos filhos é da mulher até a falta de investimento financeiro. Mas uma das mais citadas entre especialistas é a resistência dentro dos partidos políticos – absolutamente todos eles. “Nas direções nacionais não temos nenhuma mulher presidente de nenhum partido. Quem decide quem vai ser candidato? Nos últimos anos, as mulheres têm representado 64% das pessoas que se filiam a partidos. O que não há é tradição e cultura de que as mulheres devem ocupar esses espaços. Não basta ser filiada, não basta ser candidata, é preciso estar dentro do poder de decisão”, disse Rose Scalabrin, Secretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, no painel Pequim +20, uma série de debates realizados em 14 de abril deste ano sobre a participação feminina na política 20 anos depois da IV Conferência sobre as Mulheres, realizada na capital chinesa.

 

Filme de terror

Em sua fala, Scalabrin disse que o sistema brasileiro de cotas se mostrou ineficiente nessas últimas duas décadas e que a reforma política, para ser eficaz, precisa englobar os partidos, para que a forma como as decisões são tomadas e os recursos são geridos seja transformada. “Muitas mulheres saem literalmente traumatizadas de uma campanha eleitoral, saem tão fragilizadas que não querem nem saber de partido político. E justamente por estarem em baixíssimos numeros em outros lugares que geram capital politico, como ministérios e secretarias, elas dificilmente têm uma base para começar. Elas têm medo de se envolver nesse jogo do financiamento, as empresas não confiam nelas porque geralmente os caciques que vão resolver as questões e elas não são recomendadas pelos partidos como candidaturas prioritárias”, explica.

Segundo Karina Kufa, advogada especialista em direito eleitoral os partidos dizem que não encontram mulheres com interesse na política. “Em parte, acho que é verdade. Tem mulheres com interesse, outras com medo, receio, falta de interesse. Então é preciso buscar essas mulheres que querem, e essa iniciativa tem que ser dos partidos. Os partidos têm que criar mecanismos para filiar mulheres, apresentar uma plataforma, usar verba do fundo partidário para formar essas mulheres e qualificá-las para a política”, diz Kufa.

Janete Pietá, que está no PT desde sua fundação, sente que a resistência às mulheres tem crescido nos últimos anos. “Eu sou de uma geração que lutou contra a ditadura, que nos anos 1970 fez toda uma movimentação no sentido de buscar nossos próprios caminhos e igualdade de direitos. Eu sinto que hoje existe um conservadorismo muito grande, inclusive no próprio PT, onde existe muita resistência na questão de paridade. Se não mudarmos a concepção de que mulher é um ser de segunda categoria, não adianta. Acho que temos que ampliar as políticas públicas, primeiro mostrar que a responsabilidade do filho não é só da mulher, é do casal. Por que só a mulher leva o filho ao médico? Por que creche só em locais de trabalho em que trabalham mulheres? Temos que avançar muito nas políticas públicas”, afirma a ex-deputada.

Afinal, as cotas de 30% das candidaturas dos partidos para as mulheres, obrigatória segundo uma lei de 1997, dificilmente são preenchidas de maneira honesta. “A saída que os partidos acabaram arranjando: desses 30%, algumas são esposas de candidatos que não têm interesse em se eleger, mas emprestam o nome só para cumprir a cota, outras são conhecidas, funcionários do partido e pior, servidores públicos. Quando vai se candidatar, o servidor pode tirar licença remunerada, então algumas mulheres tiram a licença para se candidatar, mas não se envolve na política, não vai atrás de voto e nem ela mesma vota nela. Esse ponto é preocupante porque isso é uma fraude eleitoral e improbidade administrativa porque você está recebendo dinheiro público sem prestar serviço com a desculpa de que é um benefício que a lei confere”, afirma Kufa.

Aí entra outra cota que foi aprovada com a pressão do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres: 5% do total do fundo dos partidos deve ser investido na formação política da mulher (o pedido inicial era de 30%). Ou seja, esse dinheiro deveria ser investido na capacitação das mulheres que vão compôr os 30% das candidaturas para que a votação nelas seja viável, desde cursos de oratória ou de marketing político, por exemplo. Na prática, isso raramente ocorre, segundo Kufa. “Um partido recebe um valor x de fundo que é do dinheiro público, e 5% do total tem que ser investido em mulher. Vamos supor que um partido tenha 5 mil por mês para gastar com mulher, só que ele não gasta. No ano seguinte, vem a penalidade e ele tem que gastar 7,5 mil para não ter a conta rejeitada. Os partidos estão deixando as contas serem rejeitadas, estão recebendo essa penalidade e ignorando”, afirma.

Ou seja, a política de cotas definitivamente não resolve o problema, com tantos outros obstáculos pela frente. “Você fala com mulheres com nome, credencial referência e pergunta se ela quer ser candidata. Ela fala ‘não quero porque é um filme de terror’. Política de cotas sem condições não leva a nada. Se só está na lei, vemos o resultado, quais são as mulheres nos espaços de poder que discutem a situação das mulheres?”, questiona Muna Zeyn, membro da Rede Feminista e presidente do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres durante o começo dos anos 2000.

 

Pele de rinoceronte

Várias décadas atrás, a antiga primeira-dama dos Estados Unidos disse que “se as mulheres querem estar na política, precisam criar uma pele tão grossa quanto a dos rinocerontes”. Ainda hoje, as mulheres que estão na política sentem a necessidade de se camuflar na pele de rinocerontes, imitando comportamento dos homens – ou aguentando a pressão. Luciana Genro, candidata à presidência em 2014 pelo PSOL, por exemplo, sentiu na pele a jornada tripla de trabalho que a militância política lhe exigiu. “As mulheres ainda são vistas como as maiores responsáveis pelo lar e pelos filhos, o que dificulta muito a participação política da mulher. Não é casual que a maior parte das mulheres que tem algum tipo de sucesso na política têm alguém da família na política porque a nossa cultura é muito machista e é muito difícil o marido aceitar que a mulher saia para uma reunião à noite e ele fica em casa fazendo janta e cuidando dos filhos. É muito difícil conciliar essa tripla jornada, a de trabalho normal que todos têm com a jornada de trabalho doméstico e um terceiro turno da militância política. Isso é um obstáculo muito crítico para as mulheres”, afirma.

A impressão de Genro é sentida por outras políticas também, independentemente do partido político. Mara Gabrilli (PSDB-SP) sente preconceito na Câmara de Deputados, onde atua. “Existe um preconceito muito grande, mesmo na Câmara, com mulheres em cargos de direção. Para mudar isso, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou no mês passado, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição 590/06, que garante a presença de, ao menos, uma mulher nas Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados, do Senado e das comissões de cada Casa. A proposta segue para ser debatida no Senado”, disse.

Para Marcela Trópia,  vice-presidente regional na Juventude do PSDB Minas Gerais, as dificuldades são parecidas com as que as mulheres em geral vivem no mercado de trabalho. “Sua capacidade sempre é questionada, se quer desenvolver algum projeto, só há espaço no segmento de mulheres para que isso ocorra, sua candidatura não terá outra bandeira que não a feminina e a sua presença sempre parece ser lembrada por que falta ‘mulher’ na mesa, em um tom de que falta uma parte bonita na mesa e não de que realmente deveríamos compô-la porque precisamos de representatividade nas decisões”, conta.

É possível entender um pouco melhor os obstáculos das mulheres na política na aba “mulheres do site Meu Congresso Nacional, um site sem fins lucrativos que apresenta dados governamentais em um formato acessível. Ou seja: gráficos. Através deles, vemos que a média de doações totais para candidatos é maior do que para as candidatas, mas a média de doações dos eleitos – de ambos os sexos – é quase igual. “Dado igualdade de financiamento para homens e mulheres, a taxa de eleitos é praticamente a mesma. Mas eu não acredito que o problema principal seja o financiamento de campanha e sim a estrutura da política brasileira, que privilegia a reeleição. Independentemente do gênero, o principal fator para se eleger é ser reeleito”, diz Kellyton Brito, engenheiro de software e criador do Meu Congresso Nacional. De fato, a maioria das deputadas (e dos deputados) eleitas já estavam no Congresso. Mas os homens se reelegem muito mais que as mulheres: quase 60% deles, contra 40% delas.

 

Muitos problemas, poucas soluções

A bancada feminina do Congresso está discutindo meios de colocar a causa da participação política das mulheres na reforma política, segundo Kufa. Se a reforma política vingar e o sistema eleitoral mudar para lista fechada, a movimentação será pela lista com alternância de gênero. Nesse caso, os partidos apresentariam uma lista com ordem de classificação definida internamente com homens e mulheres candidatos para vereadores e deputados estaduais e municipais. Os nomes da lista mais votada seriam eleitos. Há ainda outra proposta, uma reserva de 30% dos cargos em disputa para as mulheres, semelhante ao sistema de cotas das universidades. Ou seja, 70% das vagas é para todos e 30% é só para mulheres, independentemente do número de votos. Isso significa que 30% do Congresso seria representado por mulheres.

Luiz Felipe Miguel, coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades da UnB, vislumbra alternativas interessantes. “Nosso modelo de cotas é muito pouco efetivo, mas isso não quer dizer que podemos abandonar esse modelo. Precisamos aprimorar esse modelo, pensando em propaganda eleitoral, dinheiro para campanha, cotas nas direções partidárias (uma questão complicada porque mexe com autonomia do partido), cotas no poder executivo, na ocupação de primeiro escalão”, disse ele no painel Pequim +20. Miguel lembra que, ao ser eleita, Dilma Rousseff prometeu que um terço dos ministérios seriam chefiados por mulheres, o que não apenas não foi cumprido, como o número de mulheres foi minguando, já que os partidos querem indicar homens, segundo o especialista. De acordo com ele, a capacitação das mulheres não pode ser vista como a grande solução. “Talvez o caminho não seja fazer com que mulheres sejam capazes de mimetizar o comportamento da elite política masculina. É mais interessante se permitir uma mudança do comportamento com novas formas de fazer política”, disse.

Já Karina Kufa acredita no empoderamento como chave para essa mudança, no caso um núcleo de apoio à mulher com um telefone 0800 para dúvidas e atendimento durante a campanha, uma rede além do partido que as oriente sobre como buscar recursos, apresentar plataformas e que explique quais são seus direitos e deveres. “Empoderar as mulheres é o caminho”.

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população”, disse, oito décadas atrás, Bertha Lutz (1894-1976), referência do movimento sufragista brasileiro, uma mulher que lutou pelo direito feminino ao voto. Depois de conquistar o direito ao voto, Lutz se tornou deputada na Câmara Federal e defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e menores de idade – assuntos tão atuais -, propondo a igualdade salarial, uma das várias realidades que não alcançamos ainda hoje. Fingir que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens na política é apenas uma maneira encontrada para negar justiça à metade da população brasileira em pleno século XXI.

 

O que elas têm a dizer

Conheça as experiências com o machismo de sete mulheres que, apesar dele, abraçaram a carreira política.

janete pieta

“Eu fui num evento no Ministério da Justiça. Sempre que tinha eventos assim, ainda no segundo governo Lula, vamos no credenciamento e os deputados têm reserva, um espaço para eles. Aí a moça estava de cabeça baixa escrevendo e eu disse ‘senhora, eu sou deputada federal’. Ela nem levantou a cabeça e falou ‘vai para outra mesa, autoridades é ali”, aí tudo bem, eu estava indo e ela me olhou e disse ‘mas a senhora é deputada federal?’. Eu falei ‘sou, por que, você tem dúvida?’. Ela disse ‘ah, eu nunca lhe vi’, e eu respondi ‘mas é impossível você conhecer os 513 deputados’. Aí ela olhou e disse ‘ah, tá bom, vai vai vai’. Foi horrível porque muitas vezes os deputados vão com os assessores, eles que pegam o crachá no credenciamento e eu não, fui sozinha e quando eu cheguei lá me deparei com isso. Eu sou a primeira deputada eleita pelo PT assumidamente negra, nunca tive um espaço especial no partido por causa disso. Mas sofri vários tipos de preconceito enquanto mulher negra.

O grande problema do racismo é que quem vive, sente, depois quando você conta, as pessoas falam “não é bem assim”. Quando eu tomei posse como deputada federal, eu não sabia que existia elevadores para os parlamentares e elevador do povo, em janeiro de 2007, cheguei no elevador e a ascensorista falou “esse elevador é para parlamentares, a senhora se dirija ao outro elevador por favor”, de uma forma muito agressiva. Aí tudo bem, fui para o outro lado, era parlamentar nova, não tinha boton. Quando eu voltei, com o Vicentinho, ele disse ‘daqui pra frente, Janete, você deve usar esse elevador’ e era a mesma ascensorista. Então ela me falou ‘me desculpe, é que são ordens’, eu disse ‘tudo bem, mas a forma como você me tratou foi muito rude’.

 

luciana genro

Quando cheguei na assembleia legislativa como deputada aos já aos 24 anos filha de um político conhecido, além de ser mulher e jovem, eu ainda era filha do Tarso. Eu sentia uma desconfiança deles no ar de que ‘essa menina só chegou aqui por causa do pai dela’. Tive que trabalhar dobrado pra provar que eu tinha minha própria trajetória e minhas próprias ideias políticas. Eu também sofri muito preconceito por ter tido divergências políticas com meu pai, muitas pessoas me cobravam ‘como tu vai contra o teu pai?’. Como se fosse um crime a filha ter uma divergência com o pai, como se fosse obrigação de toda filha dizer amém para tudo o que o pai pensa. Hoje não mais, mas até alguns anos atrás eu ainda escutava essa frase, que é bem machista e patriarcal, dizendo que uma filha não pode, em hipótese alguma, ter um pensamento independente.

 

marcela tropia

“Para que você, como mulher, tenha se projetado politicamente, todos pensam que você se envolveu intimamente com algum homem poderoso, que seu pai é um homem poderoso ou que você tem muito dinheiro para isso, não parece haver um motivo óbvio para você estar lidando com política. O meio é majoritariamente masculino e extremamente intimidador. Não consigo ir de vestidos às reuniões, a cada amiga ou conhecida que eu levo para participar, após as reuniões, já começa a receber cantadas virtuais e um assédio enorme se inicia.

Aconteceu comigo quando entrei, bem nova, aos 16 anos e eu acabei namorando alguém de dentro do PSDB, ele hoje é deputado, mas sempre me respeitou nas minhas ambições políticas e até terminamos para que cada um seguisse seu caminho público. Se eu tivesse me envolvido com qualquer outro, talvez a história fosse bem diferente, como vi acontecer com várias amigas. Se você se envolve, é uma ‘puta interesseira’, se você não se envolve é ‘sapatão’ ou ‘mal amada’, “bruxa”. Hoje, já não sei qual minha classificação.”

 

patricia bezerra

“Passei por uma situação na Câmara, logo nas primeiras semanas de trabalho. Eu estava chegando, tudo pra mim era novo e estava tentando lidar com o tal ‘regimento interno’ que dita as regras para o funcionamento das sessões e de todas as atividades da casa. Na ocasião estava sendo votado um projeto do qual eu discordava e sempre vi ser praticado um ‘voto contrário’ no plenário.  Por observação, precedência e legitimidade, ao término da votação fui ao microfone e declarei meu voto contrário àquele projeto. Do chão emergiu um vereador que veio ao microfone e contestou minha atitude dizendo que não era ‘regimental’ o meu pedido e emendou: ‘Aí vem a vereadora aqui e nhen nhen nhen…’ Me arremedou sem nenhuma cerimônia!  Fui ao microfone e disse que não admitiria ser arremedada por quem quer que fosse e que naquele espaço eu era tão vereadora e tão parlamentar quanto ele. Nunca mais fui desrespeitada por ele, ao contrário. Infelizmente, por vezes temos de mostrar os dentes.”


ana amelia

“As mulheres estão muito mais fortes em carreiras de estado, como poder judiciário e polícia federal, profissionais liberais também, medicina, direito, engenharia e as empresárias também, há muitas bem sucedidas. Nas áreas em que ela é cobrada pelo seu desempenho ela está indo muito bem, enquanto na política não, porque ela depende de vários fatores.

Em geral, a dificuldade é de acesso a recurso do partido, o espaço dentro do partido, as condições de tratamento privilegiadas porque ela entra em um lugar onde já está ocupado o espaço, tem o vereador, o cara que é prefeito e quer levar um filho, embora no RS isso não seja muito comum, vão se formando feudos e aí fica mais complicado para a mulher. Partido político tem que insistir muito nesses segmentos.”

 

 

mara gabrilli

“Acho que minha maior dificuldade foi iniciar o debate de um tema (da pessoa com deficiência) que era considerado tabu e muito pouco debatido pelo poder público. Meu trabalho foi dar visibilidade às pessoas com deficiência, à importância da acessibilidade e de uma cidade construída para todos. A partir do momento que esses temas passaram a fazer parte da agenda pública, em todas as suas esferas, comecei a ser respeitada, dentro e fora do partido. Afinal, é um tema suprapartidário, que independe de sexo, e que diz respeito a todos nós.”

 

manuela davila

“Eu comecei a fazer política muito jovem, eu agregava as causas de preconceito no nosso país: questões de juventude, de gênero, questão ideológicas, por ser uma mulher de esquerda. Eu sempre fui uma das poucas que não tinha marido, pai ou alguma figura masculina ligadas à política, que desse aquela respeitabilidade que Brasilia esta acostumada . Então, foi um caminho muito difícil , de provar permanentemente a capacidade, as mulheres tem que provar sua capacidade de maneira repetida, muito mais que os homens. Isso foi fazendo que eu adquirisse cada vez mais consciência da desigualdade de gênero. No ambiente da universidade, do movimento estudantil, esta nunca foi uma pauta central da minha atuação. A realidade foi me impondo uma noção cada vez mais profunda de como a gente vive a desigualdade de gênero no nosso país. E foi isso que foi construindo minha militância nesta área.”

 


Arte: Ester Aarts

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Mulheres-na-arte (1)

Instintivamente e de forma quase cíclica, buscamos sempre fazer uma análise ou uma retrospectiva de acontecimentos e experiências que de alguma forma nos marcaram ou nos ensinaram algo novo ou distinto do que estávamos acostumados. Obedecendo a esse impulso e relembrando as exposições de artes plásticas que vi nos últimos tempos, devo confessar que uma das mais belas que visitei foi a da carioca Cristina Canale (1961) na galeria que a representa em São Paulo.

Não foi somente a potência das cores e a combinação de elementos figurativos, usados para representar seres tal como são percebidos por nosso olhar, com elementos abstratos geométricos, usados como recurso para compor a ambientação entorno de tais seres, que me chamaram a atenção nas pinturas mais recentes (2013-1014) de Cristina Canale. Como também a representação predominante de figuras femininas que caracterizaram sua última mostra individual no Brasil, “Entre o ser e as coisas”,  e cujos quadros foram trazidos especialmente de seu atelier em Berlim – cidade onde reside e produz há mais de vinte anos.

Anjo

Imagem: Anjo, 2004.

Técnica: óleo sobre tela, 200 x 300 cm

 

Cristina Canale, que se firmou no cenário artístico brasileiro juntamente com outros artistas jovens de sua geração (como Leda Catunda, Beatriz Milhares, Adriana Varejão, Daniel Senise ao compor o grupo “Geração 80” cuja proposta era uma nova arte em oposição à racionalidade conceitual das artes plásticas dos anos 1970 no país), encontrou em sua mudança para a capital alemã em 1993 condições perfeitas para a firmação de um estilo singular de pintura que ilustra uma tensão entre o ser e as coisas, entre a cultura e a natureza. Em sua página web (www.cristinacanale.com), podemos observar com muita clareza esse câmbio em sua produção entre os anos de 1980 e 1990. Contudo, a própria artista afirma que em todo o seu fazer artístico sempre teve como carro-chefe o elemento da contradição: a contradição da mescla de elementos abstratos com figurativos e que provoca uma certa tensão, um estranhamento inicial no olhar do observador. Esse estranhamento surge do fato de que o observador não logra classificar as pinturas da artista como arte puramente abstrata nem estritamente figurativa. Com isso, Canale o leva a perder seus estigmas, suas certezas, seu costume de classificar o mundo no campo da subtração, do “isso ou é x ou y”. As obras da artista conduzem o observador ao campo da adição, do “isso é x e também é y”, e, com isso, desestabiliza o que ele considerava essencial e necessário para entender de forma taxativa a arte.

Esse gesto de desestabilizar o que consideramos necessário e essencial para entendermos o mundo ao nosso entorno nos obriga a exercitar (ou despertar) nossa capacidade de readaptação e autocrítica diante de algo inesperado que coloca em xeque-mate aquilo que antes considerávamos como essencial ou como nossa zona de conforto. Nesse aspecto, podemos citar um trecho do romance A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector que combina perfeitamente com essa ideia/necessidade de readaptação/mudança de parâmetros causada pelo surgimento de uma situação nova e surpreendente: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.

Menina e vento

Imagem: Menina e vento, 2013.
Técnica mista, 200 x 200 cm

 

Cristina Canale não somente desarma o “tripé estável” do observador com suas pinturas, como também o conduz a um campo intermediário, um espaço “entre” elementos figurativos femininos e espaços geométricos, entre o mundo inteligível das ideias e o mundo material sensível. Captados pelas potentes e intensas cores da paleta da artista, figuras e rostos femininos em primeiro plano fundem-se sutilmente às formas geométricas no fundo das telas através de uma organicidade simétrica. Com isso, uma delicada e inebriante trama, cuja temática remete diretamente ao universo feminino, encontra-se retratada em enormes quadros onde a potencialidade das cores abriga uma dinâmica e híbrida justaposição entre o figurativo e abstrato, entre o uso de motivos tradicionais da pintura, como retratos de mulheres e anjos, e a fragmentada linguagem pictórica própria de Canale que nos remete a mestres da pintura impressionista como Henri Matisse e Gustav Klimt.

 Damas

Imagem: Damas, 2013.

Técnica: acrílica sobre tela, 140 x 165 cm

 

Na obra acima encontramos um elemento constante na produção dos últimos vinte anos de Cristina Canale: rostos femininos. Porém, esses rostos não estão pintados detalhadamente ao ponto de nos facilitar o reconhecimento da singularidade ou da identidade das mulheres retratadas. As figuras femininas têm rostos aparentemente mal  acabados, como se estivessem recém-esboçados, esfumaçados apenas; mas isso é um ato consciente da artista que prefere que suas mulheres não sejam reconhecidas ou definidas por um aspecto em particular. Essas mulheres levam no lugar do rosto uma espécie de “máscara”, e assim como a palavra “máscara” deu origem ao significado de “persona”, elas passam a representar em si pessoas femininas em sua totalidade.

Sendo assim, não poderíamos interpretar esses rostos propositalmente “não-reconhecíveis” e, aparentemente, sem uma identidade particular como máscaras que comportam de forma universal o retrato de múltiplas mulheres, de todo um gênero? Essas máscaras-rostos não poderiam ser analizadas como retrato do gênero feminino em sua essência e, em uma potência maior, capaz de alcançar e retratar a todas nós simultaneamente e sob uma só forma? E não seria essa a nossa busca atual: que as lutas e as conquistas de todo gênero feminino sejam retratadas e gozadas individualmente por cada mulher e vice-versa?

Segundo a própria artista, sua intenção ao retratar rostos sem traços distintivos seria de permitir que o observador preenchesse as difusas faces com os rostos femininos que preferisse e tivesse em sua mente. Uma vez mais, Cristina Canale tem a habilidade de desestabilizar o olhar de seu observador, de quitar-lhe a terceira perna do tripé estável de seu comodismo ou de sua zona de conformo, e de levá-lo a um espaço intermediário, um espaço entre o que está realmente retratado pela pintura e o que ele, com sua percepção e experiências próprias, enxerga nelas. A artista abala suas certezas através de sua sutil e delicada subversiva tensão entre o figurativo e o abstrato, entre o ser e as coisas.

Medusa

Imagem: Medusa, 2013.

Técnica: óleo sobre tela, 90 x 100 cm

 

 


Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens deste texto foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara.

Para mais informações sobre a artista e suas obras: www.cristinacanale.com

Na página web da Galeria Nara Roesler tanto imagens da exposição “Entre o ser e as coisas” quanto seu catálogo podem ser visualizados:

www.nararoesler.com.br/exhibitions/34/

A citação do romance “A paixão segundo G.H.” provem da edição de 2009 da Editora Rocco, páginas. 9-10.

 

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