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Durante a campanha #PrimeiroAssédio, em 2015, a baiana Sofia Costa contou sobre o abuso que sofreu em fevereiro daquele ano, durante o carnaval de Salvador, junto a uma amiga que estava alcoolizada e desacordada.

O agressor é um artista muito conhecido na região. Ele abriu contra Sofia um processo por calúnia e ela, por meio de uma transação penal, atualmente cumpre 7 horas semanais em serviços comunitários, somando um total de 40 horas. Seu abusador teve cobertura da mídia para defender-se das acusações. Sofia não. Confira o relato dela aqui: https://www.facebook.com/sofia.costa.52090/posts/1187383354605906?pnref=story

Sofia não é a primeira e, infelizmente, ainda não será a última mulher a encarar as dificuldades e a incredulidade com que vítimas de crimes sexuais são recebidas pela justiça e pela opinião pública:

– A universitária Júlia Velo foi ao Bar Quitandinha, em São Paulo, com uma amiga, dias antes do carnaval. Lá, foram assediadas e agredidas fisicamente por dois rapazes. A gerência nada fez para defedê-las, tratou os agressores super bem por serem clientes antigos e expulsou as duas garotas por causar confusão. Quando publicou seu depoimento no Facebook, a publicação viralizou e a página do bar recebeu uma enxurrada de críticas. A gerência tentou se desculpar, depois desmentiu, disse ser contra o assédio, mas começou uma campanha contra Júlia, chegando a subir um vídeo no YouTube, editado internamente, para acusá-la de ter inventado a história. Apesar do apoio que recebeu, Júlia também foi vítima de outros ataques, além da gerência do bar (que nunca procurou ouvi-la), de pessoas que não deram crédito à sua história.

– Há mais de 20 anos recaem sobre as costas do comediante Bill Cosby acusações de estupro, mas foi somente em 2014, quando Hannibal Buress citou seu passado criminoso em um show de stand up, que a conversa em torno do assunto ganhou força e, desde então, são mais de 50 as mulheres a acusá-lo do crime. Apesar disso, parte da opinião pública ainda duvida da palavra delas e Cosby está processando sete de suas acusadoras por difamação.

– Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la estuprado na infância. Ainda que, além de sua palavra, existam fortes evidências de que o abuso tenha acontecido, Woody Allen nunca foi condenado judicialmente e permanece um diretor aclamado pela opinião pública.

– Quando o vídeo de Janay Rice sendo nocauteada por seu marido, o jogador de futebol americano Ray Rice, em um elevador foi parar na mídia, ainda que um ato tão grave de violência tenha sido registrado de maneira indiscutível, ainda sobrou espaço para questionamentos sobre a atitude de Janay: por que ela ficou? Por que não se separa dele? Como se a culpa pelo soco fosse dela por não abandonar um relacionamento abusivo. Janay deu uma série de entrevistas explicando sua decisão e o caso gerou importantes discussões online por meio das hashtags #whyIstayed(#porqueeufiquei) e #whyIleft (#porqueEuParti), que jogaram luz sobre a complexidade de relacionamentos que se tornam violentos.

– O cantor Cee-Lo foi absolvido das acusações de ter aplicado o golpe “Boa noite Cinderela” em uma mulher que afirmou que lembrava ter ingerido a bebida e depois estar subitamente nua em sua cama. Autoridades não acreditaram na história dela porque eles já estavam saindo há alguns meses e feito sexo antes.

– O jogador de futebol americano Greg Hardy é um dos muitos a cometer violência contra mulheres. Ele deu uma surra na namorada, fez o que pôde para fazer com que parecesse legítima defesa, mas o caso foi encerrado desfavoravelmente a ele. Apesar disso, ele voltou a jogar e teve a oportunidade de dar uma entrevista à ESPN, um dos maiores canais de esporte do mundo, desmentindo o caso. Sua ex-namorada teve a vida destruída e não consegue arrumar um emprego.

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– Em 1991, o assédio sexual sofrido por Anita Hill em seu ambiente de trabalho por seu então chefe e atual candidato a juiz da suprema corte americana, Clarence Thomas, se tornou um dos principais assuntos do país. O depoimento e questionamento de Anita sobre o caso perante as autoridades foi televisionado, obrigando-a a recontar e reviver seu trauma em rede nacional e diante de seus familiares. Clarence negou as acusações, que se tornou um caso da palavra dela contra a dele, e conseguiu sua nomeação como juiz da Suprema Corte. Apesar dessa derrota para os apoiadores de Anita, seu caso colaborou para um aumento substancial de mulheres na política, já que as americanas perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava as mulheres; milhares de vítimas de assédio vieram à frente para denunciar seus casos e se tornou um marco no combate ao assédio sexual em ambientes de trabalho nos EUA.

– A cantora Kesha pediu a quebra de seu contrato com o produtor Dr. Luke acusando-o de abuso sexual, verbal, físico e emocional. Ela não apenas perdeu o processo como continua sob a obrigação de gravar mais seis álbuns com seu agressor. A juíza do caso ainda disse que “Nem todo estupro é um crime de ódio motivado pelo gênero”. ( E quais seriam???). A gravadora ofereceu a quebra de contrato posteriormente caso ela desmentisse as acusações. Ela se negou.

– Em uma das edições do programa Big Brother Brasil, um dos participantes estuprou uma mulher embriagada o suficiente para não ter condições de consentir. Ela foi interrogada por três horas, ele foi expulso do programa, mas a opinião pública condenou a moça.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 47.646 estupros foram registrados no Brasil em 2014, mas estima-se que apenas 10% dos casos sejam notificados. Ou seja, em média 450 mil mulheres preferem manter o silêncio sobre o crime que sofreram a procurar a justiça.

Não apenas as delegacias (incluindo muitas DEAMs http://lugardemulher.com.br/a-ineficiencia-da-delegacia-da-mulher-parte-i) estão despreparadas para reconhecer o crime e lidar com as vítimas, como o judiciário em si, em toda sua ineficiência, ajuda a prolongar a dor com processos enormes e por vezes inconclusivos.

Existe também o mito das falsas acusações de estupro, sendo que estatisticamente é mais fácil um homem ser estuprado do que ser vítima de uma acusação falsa. Além disso, uma vez que o caso é levado à justiça, cabe às autoridades uma investigação neutra sobre o caso e, caso a acusação seja mentirosa, medidas punitivas serão tomadas contra quem a fez. Quem não deve, não teme – ou, pelo menos, não deveria temer.

Em uma sociedade machista como a nossa, não existem benefícios diretos a uma mulher que se assume vítima de estupro. O bem que isso traz é para as mulheres como um todo. A cada Sofia que levanta sua voz e conta o que passou, muitas Anas, Robertas, Jéssicas, Sheilas e sabe-se lá quantas outras ouvintes saberão que essa dor não é só delas, que não estão sozinhas, que outras sobreviveram, que existe um caminho.

Pode ser que no caminho algumas derrotas sejam inevitáveis, mas o silêncio não nos protege. Oferecemos toda nossa solidariedade e carinho às vítimas que decidem não falar sobre o assunto – continuaremos lutando por elas. E agradecemos a todas que tomaram a decisão de lutar por justiça: obrigada por compartilhar a sua história para tornar o mundo um lugar mais seguro para todas nós.

#ChegadeFiuFiu #FoiEstuproSim#MexeuComUmaMexeuComTodas


Arte: Alex Fine

 

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Passados 20 anos desde a realização em Beijing da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres da ONU, quanto o país avançou em relação à conquista dos direitos das mulheres em sua sociedade? As escalas megalômanas que costumam envolver a China se aplicam também ao universo das violações praticadas contra as mulheres. São altos os índices das agressões domésticas, rapto de jovens ou as taxas de suicídio feminino, uma das maiores do mundo.

Falando sobre morte, vida e estatísticas que envolvem o universo feminino, o anúncio recente sobre o fim da política do filho único, depois de quase quarenta anos de vigência da lei, deve ser celebrado. Mesmo quando o principal motivo por trás da decisão esteja relacionado ao rápido envelhecimento da população antes que o país tenha prosperado, e não necessariamente a vontade de mulheres e casais em relação ao número desejado de filhos. Mas o fato é que, a partir de agora, inúmeros casos traumáticos de abortos forçados já não terão mais razão de ser praticados, já que é possível ter o segundo filho. Melhor ainda, as bebês poderão ter suas vidas poupadas e assim o país caminha na tentativa de reverter o maior problema de desigualdade entre gêneros do mundo.

“Por muito tempo as mulheres enfrentaram sofrimentos terríveis em função da política do filho único e todas as consequências dela decorrentes. O governo chinês apenas se sensibilizou com os resultados negativos desta política quando as pesquisas começaram a apontar a terrível diferença entre os gêneros. O infanticídio feminino nunca foi motivo de preocupação para o governo, mas o fato dos homens não conseguirem encontrar mulheres para casar sim”, Wang Zheng, professora de estudos femininos na Universidade de Michigan.

Uma jornada de mil léguas começa com um simples passo, escreveu o famoso filósofo chinês Lao Zi. Restam outros tantos para que a jornada chinesa consiga equilibrar a bagagem das tradições paternalistas feudais e do código de conduta moral e ético milenar, o confucionismo, que organizam sua sociedade em direção a uma realidade de maior paridade.

O país de dois sistemas que há pouco mais de trinta anos se abriu ao mundo e para as influências ocidentais, criou uma classe de empreendedores que prosperou e enviou seus filhos e filhas para universidades, em especial nos EUA, deve aprender a lidar com o fato de terem formado mulheres independentes, de opinião que voltam para a China aptas a ocuparem espaços no mercado de trabalho e na própria sociedade anteriormente destinado exclusivamente aos homens. Exatamente em função deste conjunto de fatores elas são denominadas como “mulheres refugo”.

Não há homem chinês em toda a China que vislumbre se casar com uma mulher que eventualmente possa ter formação superior a dele, experiência pessoal ou profissional com mais destaque e maior salário, logo as mulheres com este perfil são rejeitadas, viram refugo. De acordo com a professora Wang Zheng, não importa o quão capaz uma mulher seja no subconsciente coletivo da sociedade chinesa nunca será boa o suficiente como um homem.

O matrimônio em geral acontece imediatamente após a graduação, ou seja casam-se muito jovens. Os homens que passam incólumes a esta fase, o fazem ligeiramente mais tarde e preferem o enlace com garotas da mesma idade ou mais novas, dotadas de atributos considerados inferiores, como ser de uma província rural, ocupar um posto de trabalho tido como medíocre, ter se graduado numa universidade privada ou não ter cursado qualquer uma que seja. Para que desta forma a família, que agora poderá ter dois filhos, possa ter início. Providenciarão o quadro a ser pendurado no quarto do casal com a foto dos dois trajando vestes da cerimônia, assim como vem sendo feito desde sabe-se lá qual dinastia. Ao homem paira uma institucionalização estabelecida desde sempre, sobre práticas esperadas e aceitas atribuídas ao sexo masculino. À mulher o status de ser meiga, 可爱- Kěài, a palavra é muito comum e usada para elogiar o estereótipo de mulher chinesa.

Uma mulher meiga sorri timidamente, faz gestos delicados e contidos, não fala muito nem pouco, se veste discretamente, tende a concordar ou se opõe de modo sutil. Uma criatura que não oferece surpresas nem riscos, uma fera domada que nem sequer um dia soube das potencialidades intrínsecas de sua natureza feminina, acostumou-se a ser yin, a passividade. Mas em matéria de China além dos números suntuosos há de se considerar a velocidade com que as transformações, especialmente as sociais, acontecem.

A nova militância das feministas chinesas (nova por voltar a se organizar depois de períodos políticos mais críticos como o da Revolução Cultural), em especial nas cidades de Beijing e Guangzhou, têm promovido questionamentos e ações visando esclarecer e libertar as mulheres de tamanha meiguice. Propõem reflexões por exemplo geradas a partir do texto Monólogos da Vagina, peça encenada pela primeira vez no país em 2009, levantando questões sobre a sexualidade e, mais do que isso, ao falar sobre a vagina, gerar a conscientização em relação ao próprio corpo, suas necessidades, vontades, desejos e regras. Para que a partir do conhecimento e da informação, os grandes índices anuais de aborto, por exemplo possam ser reduzidos. Para especialistas os 13 milhões de abortos praticados em média por ano no país, estes números podem ser ainda maiores considerando os casos realizados em clínicas clandestinas, ocorrem por falta de orientação sexual.

As meninas se organizaram em grupos de trabalhos, em coletivos e também no espaço virtual. Promoveram campanhas, ações, fizeram vídeos, foram entrevistar recrutadores nas empresas considerados machistas, reivindicaram paridade, lutaram pelo fim das violências domésticas praticadas contra as mulheres, pelo direito sobre seu corpo, pelo fim do assédio sexual… Ganharam espaço, notoriedade e começaram a incomodar, causar desconforto.

No dia 8 de março de 2015, após uma marcha realizada no centro de Beijing, foram presas. O caso das cinco jovens, ganhou tanto destaque na mídia internacional e tanta mobilização nas redes que por bem e depois da pressão internacional o governo decidiu soltá-las. Não antes da contradição ao qual o presidente chinês Xi Jinping foi submetido, em setembro daquele ano, durante visita oficial à Casa Branca. Apesar do seu discurso enfatizar a importância sobre a celebração dos vinte anos da Conferência Mundial das Mulheres em Beijing, uma das jovens chinesas militantes continuava presa.
A libertação não necessariamente significou o fim dos problemas, o cerco ao redor das meninas e suas ações passou a ser mais duro, vigiado. Entrou para a lista dos assuntos considerados sensíveis no país. Sensíveis, não meigos!

Li Tingting, uma das ativistas presas por planejar protestos na capital chinesa contra assédio sexual, relata a sensação de medo enfrentado no período que esteve em cárcere, das humilhações sofridas e da calma que aprendeu a desenvolver para manter sua sanidade. Ressalta, porém, que o medo maior surgiu quando foi solta, liberta, porque agora e para sempre não há mais amarras ou maneiras de detê-la, está em liberdade.

Outras pequenas revoluções cotidianas acontecem no aqui e acolá do território chinês, nem sempre planejadas, apenas deflagram. Sheryl Sandeberg, a executiva do Facebook, que o diga. O lançamento de seu livro “Faça Acontecer” na China culminou numa série de palestras, encontros e gerou um movimento de questionamento em relação as diferenças da remuneração e oportunidades entre homens e mulheres no mercado de trabalho no país, repercutindo em especial entre o público das “mulheres refugo”.

A história e as tradições milenares chinesas em contraste com o fato da população urbana do país ter superado a rural há pouco mais de cinco anos; a ascensão de uma classe média que dispõe de um alto poder aquisitivo que tem viajado o mundo todo, consumido e questionado o funcionamento de seu próprio país; a influência ocidental; os esforços imensos que o governo chinês vem concentrando em sua indústria cultural com o intuito de promover sua imagem e conquistar novos adeptos no mundo; tudo isso e uma série de outros elementos precisam ser considerados para poder entender a velocidade, o turbilhão e o potencial para que muitas mudanças aconteçam, e as que já estão em curso.

No caso da luta pelos direitos das mulheres, passados os vinte anos desde a Conferência os avanços não foram muito significativos, mas a recente dinâmica de luta dos coletivos atrelado ao trabalho que já vem sendo desenvolvido, ao foco das atenções e exigências voltados cada vez mais ao país que ocupa, se insere, desponta, participa, atua e dialoga para a construção de muitas das regras que estão sendo acordadas neste novo cenário da nova configuração de poder mundial me parecem propiciar elementos bastante positivos no que tange as lutas todas, e no caso a das feministas já começou. A luta contra o machismo tanto aqui como na China compartilham tolerância cada vez menor.

 


 

Fernanda Ramone morou nove anos em Beijing, é mestranda em gestão da indústria cultural pela Universidade de Beijing. Foi correspondente da BandNews Tv, trabalhou na Rádio Internacional da China e atua como empreendedora cultural. Idealizadora e organizadora do DocBrazil Festival. É professora na Casa do Saber e autora do capítulo ” A produção Cultural na China”, no Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, Edição Sesc SP.

Arte: Hung Liu

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Empoderamento feminino é uma expressão que, felizmente, está na moda. Virou buzzword, termo inglês que se refere a essas palavras que vira e mexe começam a aparecer em todo lugar. Para nós, aqui na OLGA, o empoderamento das mulheres é muito mais que um desejo ou um conceito, mas uma meta. Hoje somos uma ONG e nosso objetivo é empoderar as mulheres de todas as formas possíveis: em sua relação com seus corpos, seus relacionamentos, sua vida profissional, sua liberdade e seu bolso.

É por isso que anunciamos hoje mais uma parceria que vai levar mulheres de verdade a tirar seus sonhos do papel e vê-los se concretizar. O Mulheres de Impacto é uma consultoria e ativação de rede para projetos de empoderamento feminino e uma iniciativa da Benfeitoria, um site de financiamento coletivo social que nasceu para fomentar uma cultura mais humana, colaborativa e realizadora no Brasil, da Think Olga e da ONU Mulheres.

Como funciona?

Estamos em busca de mulheres com projetos de financiamento coletivo que sejam ferramentas de empoderamento feminino (pessoal ou coletivo) e que resultem em um impacto em sua vida e/ou comunidade.  Vamos receber propostas por meio do site www.benfeitoria.com/canal/mulheresdeimpacto até o dia 6 de maio.

Depois, os projetos selecionados receberão a consultoria especial da Benfeitoria para a elaboração e o acompanhamento da sua campanha de arrecadação via financiamento coletivo (crowdfunding) e nós, responsáveis pelo projeto, vamos  ajudar com divulgação nas nossas redes. A Think Olga também vai oferecer consultoria com foco em negócios e inovação para os projetos que alcançarem suas metas.

Critérios de seleção

Os projetos:

1 – Devem ser liderados por mulheres

2 – Ser ferramentas de empoderamento feminino (pessoal ou coletivo)

3 – Resultar em um impacto na vida da mulher ou da comunidade

4 – Ter uma boa história por trás

5 – Ser implementados em qualquer cidade do Brasil

6 – Ter potencial de arrecadação via crowdfunding (meta compatível com rede)

7 – Ser realizados por mulheres que tenham disponibilidade, energia e brilho no olho para preparar e mobilizar a campanha de arrecadação, que deve ser lançada entre julho e agosto deste ano, com duração de 1 a 3 meses.

8 – Ser implementados até o 1º trimestre de 2017

Vamos nessa? Mais informações e inscrições aqui: https://www.benfeitoria.com/canal/mulheresdeimpacto


Arte: Jenny Zych

 

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Esses dias eu descobri uma dessas novas dietas-desafio. Eu sou nutricionista, e perdão tribunal do mundo… Eu não conhecia essa. Era uma proposta de alimentação muito restritiva e que me parece insustentável de seguir pelo resto da vida. É um programa de mudança radical na alimentação que promete um organismo limpo, livre de “inflamação” e toxinas. Vocês podem buscar. Não vou explicar em minúcias porque não estou aqui para promover o programa alimentar “clean” dos outros.

Isso me fez pensar em algumas coisas. Uma delas é o quanto se fala em “saúde” atualmente. Eu diria que a Era da aeróbica, das fitas VHS da Jane Fonda, das refeições congeladas diet, chás e shakes de emagrecimento está ficando para trás num passado nebuloso.

Nas últimas décadas do século XX, o sofrimento primordial de milhões de mulheres era manter-se magra. Mas valia tudo. Cigarro, Coca Diet, “boletas” para emagrecer, volumes ridículos de comida. Atualmente, não vale tudo. Somos a “geração saúde” e nunca soubemos tanto sobre nutrição, dietas, alimentos que “fazem mal”, são “venenos” e deixam a população irremediavelmente doente por causa do seu amplo consumo. Nunca falou-se TANTO em alimentação saudável, no entanto, nunca tivemos números tão expressivos de obesidade ao redor do globo. Irônico.

Enfim… Ser magra é out. Esbanjar saúde é in.

Ocorreu a troca do “ser macérrima” por “ter saúde”, mas isso não significa que não exista oportunismo mercadológico fazendo lavagem cerebral nas pessoas. Antes bastava fazer aeróbica e comer refeições “diet” (e vomitar, tomar anfetaminas, fumar 4 carteiras de cigarro por dia… mas disso a gente não fala). Atualmente existe um tremendo terrorismo nutricional, alegações de que determinados grupos de alimentos são “inflamatórios”, causam câncer, causam todos os males da humanidade… Fujam.

Substâncias e práticas que supostamente limpam e curam o organismo estão sendo proclamadas como SAUDÁVEIS, como a dieta cetogênica (“paleo”), produtos DETOX, papos estranhos holísticos e jejuns. Se anteriormente tínhamos um forte encorajamento do desenvolvimento da anorexia/bulimia, neste começo de século fomos “presenteados” com mais dois novos tipos de transtornos: ortorexia e vigorexia.

Ortorexia é uma obsessão por “comer certo”. Comer “limpo”. É um transtorno alimentar que se relaciona pouco com a imagem corporal, mas é um dos mais torturantes e estressantes que existem. Não chega a ser hipocondria, mas é uma extravagância preventiva. A pessoa tem uma lista quilométrica de alimentos ‘proibidos’, lê rótulos obsessivamente, perde a vida social e fica com severa deficiência de nutrientes. A vigorexia cresce em ritmo recorde porque as pessoas estão confundindo “ter saúde” com ter baixo índice de gordura corporal.

Mas a gordura corporal não é uma inimiga. Ela está presente no nosso corpo, faz parte da nossa fisiologia e existe por diversos motivos (a gordura protege o corpo contra choques mecânicos, regula a temperatura corporal, é veículo de absorção das vitaminas A, D, E e K. E recentemente descobriu-se que o tecido adiposo tem funções endócrinas específicas e que até participa da regulação da fome e da saciedade.)

A indústria das DIETAS (kits, comidas congeladas, chás, shakes) deu lugar à Indústria Fitness e dos alimentos “””saudáveis””””… A coisa toda foi repaginada, mas seguimos sendo explorados por uma indústria que simplesmente se adaptou para nos vender um novo discurso: quem come “certo” é um vencedor e tem sucesso. Quem não se controla e “jaca” (como se diz no Brasil) é um derrotado, que não tem vergonha na cara. Ser gordo? Reprovação social plena!

Mas até que ponto essas práticas ‘saudáveis’ são verdadeiramente saudáveis? Alimentação e atividade física compõem uma vida sadia, é evidente. Mas não é SÓ isso. Será que estamos verdadeiramente vivendo de maneira saudável se seguirmos todas as regras higienistas da manutenção do corpo, mas submetidos a um imenso estresse mental?

Almoçar arroz integral, uma carne magra grelhada (ou uma substituição se você for vegetariano), salada e um copo d’água é uma opção saudável. Comer bolo floresta negra e brigadeiro em uma festa de aniversário TAMBÉM é saudável. O brigadeiro não é FUNCIONAL nem utilitário. No entanto, é afetivamente, mentalmente, socialmente e culturalmente saudável que as duas realidades se permeiem. A gente come de tudo um pouco. É normal.

Um tremendo esforço para manter uma alimentação SAUDÁVEL, mesmo que seja saudável, não é saudável. Da mesma maneira que nós não aceitamos mais a dieta dos pontos, as normas dos Vigilantes do Peso e os kits de shakes emagrecedores, chás e refeições ‘light’ congeladas… Nós também não aceitamos um referencial de beleza estupidamente magro. Acabaram-se os dias do “Heroin Chic”.

O advento da internet tem forte papel nessa mudança de mentalidade. Atualmente temos mídias alternativas (Blogs, Sites, canais no Youtube) que transmitem mensagens que não são veiculadas pelos meios de comunicação da mídia tradicional.

A mulher passou a perceber que ela não precisa emagrecer para frequentar a praia. Emagrecer para casar. Emagrecer porque é o seu dever existencial (porque mulheres devem ser bonitas, portanto magras).

Começou o movimento de aceitação. Porque tudo o que é muito represado, eventualmente extravasa. Porque quanto maior é a altura, maior é a queda. E se frequentamos as nossas aulas de história direitinho, já sabemos que todos os Impérios eventualmente acabam. Nós NÃO ENGOLIMOS mais a magreza surreal que nos foi socada goela abaixo ao longo de décadas.

Ok, mas e o homem? Ele nunca precisou se preocupar muito com isso porque ele é imagem e semelhança de Deus. É até bonito que ele fique grisalho, careca, barrigudinho… “quanto mais antiga a safra, melhor o vinho”, certo?

Entretanto,as coisas estão ficando apertadas para eles também. A febre fitness demanda corpos cada vez mais definidos, grandes, musculosos… E para sustentar as demonstrações corporais de potência e virilidade, MUITOS suplementos precisam ser consumidos e MUITO ferro precisa ser puxado. Foco. Força. Fé. E o seu dinheiro aplicado em potes cintilantes de Whey Protein.

~~Apenas uma curiosidade:

Quando o leite é entregue à indústria de laticínios, ele é aproveitado de diversas maneiras: leite integral, semidesnatado, desnatado. Manteiga, ricota, iogurte, creme de leite. TUDO é devidamente extraído e transformado para ser comercializado. Anteriormente, havia uma coisa que sobrava: o SORO do leite. E ele era sumariamente descartado. Eis a sacada de Midas: mas por que não LUCRAR com o descarte? Basta começar a vender a proteína isolada do soro do leite alegando ser o alimento mais completo do mundo. Tcha-nã: você comprou o lixo da indústria por quatrocentos reais.~~

Só que a situação não é TÃO ruim para os homens, já que eles podem conquistar aceitabilidade social e status através de dinheiro, poder, bens materiais, altas posições no mundo corporativo, intelectualidade… Há mais chances de ser reconhecido, certo?

Já as mulheres SÓ têm a beleza como moeda de valor. Então a manutenção dos atributos físicos é uma prática fundamental. É questão de sobrevivência e, com o movimento de aceitação, os limites da denifição de “beleza” se tornaram um pouco mais amplos. Um pouco. O ideal de beleza se encontra, de fato, um pouco menos restrito

Nós clamamos para que aceitassem os nossos diferentes corpos, pesos, alturas, cores, cabelos… E as indústrias da moda, dos cosméticos, da estética, da vida Fitness cederam… mas também não permitem que a coisa vá TÃO longe.

Temos top models Plus Size? Sim, nós temos! Mas é um corpo Plus Size “tolerável”. A gorda aceitável veste 44. Ou 46 (o que é muito avanço, se fizermos um comparativo com a ditadura do 34/36). A gorda aceitável também tem cintura fina. Bem fina. Ela é CAUCASIANA. Ela tem corpo de ampulheta e All the right junk in all the right places (Meghan Trainor – “All About That Bass”). E é primordial que a gorda aceitável declare, sempre, que ela é tonificada, come “certo” e faz bastante atividade física.

Aí que o tsunami da SAÚDE mescla com a (relativa) democratização dos corpos: “Nós permitimos que você não vista 36. Mas você não pode ser uma maldita gorda sedentária e sem vergonha. Porque nós temos uma genuína, grande, sincera preocupação com a sua SAÚDE… Então compre nossas marmitas fit, nossas receitas com Whey, nossos sucos detox, nosso programa de dieta Paleo, nossa linha sem glúten, nossos pudins 0% lactose!”

Nós não somos a geração saúde. Nós não estamos cultivando o bem estar. Nós não temos corpos livres. Nós não somos livres… Tudo isso é apenas uma NOVA maneira de mercantilizar a nossa vida. É preciso estar atentas para as novas armadilhas e lutar por uma liberdade que em nada nos limite.


Paola Altheia é nutricionista formada pela UFPR e criadora do projeto Não Sou Exposição.

Arte: Kelly Bastow, aka Moosekleenex

 …

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[Situação 1]

A mulher diz: “Deveríamos tentar resolver o bug da forma [insira aqui uma ideia]…”

Ninguém dá bola.

Dois minutos depois:

O homem diz: “E se fizéssmemos [insira aqui a ideia da mulher]?”

Todos respondem: “Ótima ideia! Vamos fazer isso!”

 

[Situação 2]

Colega de trabalho diz: “Você é uma boa programadora, apesar de ser mulher.”

 

[Situação 3]

Recrutador diz: “Obrigado por vir, estamos procurando uma mulher desenvolvedora pois os meninos acham que precisamos “dar uma descontraída”.

 

[Situação 4]

Professor diz: “É bom ter uma mulher na turma de computação. Elas embelezam e perfumam o ambiente. Além do mais, são mais delicadas e atenciosas”.

 

Ser mulher é um desafio imenso. Ser mulher na área de tecnologia traz algumas dificuldades peculiares. Começa com a falta total de incentivo para que as meninas se envolvam com ciência e tecnologia, passa pela hostilidade que as estudantes dos cursos na área da computação encontram nas salas de aula e continua com um ambiente profissional misógino. Alguns números ajudam a entender o quadro atual:

A pesquisa Elephant in the Valley, que retratou o que enfrentam as mulheres no Vale do Silício, também traz números interessantes sobre a realidade das mulheres no maior oásis da tecnologia mundial: 66% das mais de 200 mulheres com mais de 10 anos de experiência no setor disseram já ter se sentindo excluídas de oportunidades por causa de gênero, 88% já enfrentaram situações em que perguntas foram feitas aos seus colegas homens – e não a elas, 60% já foram assediadas e 60% das que foram assediadas e denunciaram, ficaram insatisfeitas com as medidas tomadas.

A PrograMaria, um meta-site sobre mulheres e tecnologia, nasceu da inquietação com dois fatos: a crescente importância da tecnologia em nossas vidas e a falta de de representatividade da mulher na área – no Brasil, as mulheres vêm perdendo representatividade ao longo dos anos.

Muita gente argumenta que os números acima mostram a falta de interesse ou de capacidade das mulheres. Mas é preciso desconstruir a lógica falaciosa do “o cérebro da mulher não é feito para exatas”. Na escola, 74% das meninas demonstram interesse nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, mas na hora de decidir por uma graduação, apenas 0,4% dessas meninas escolhem Ciência da Computação. A pergunta não deve ser “por que devemos incluir as mulheres na tecnologia?” e sim “por que as excluímos?”.

É uma questão simples de igualdade de direitos e oportunidades – quando damos um conjunto de panelas para meninas e bloquinhos de montar para meninos, estamos dando estímulos diferentes, que determinam quais habilidades essas crianças irão desenvolver e, obviamente, isso pode interferir nos caminhos acadêmicos de cada um deles. Recomendo a leitura desta ótima entrevista com o psicólogo americano Andrew Meltzoff, que falou sobre o poder dos estereótipos culturais no aprendizado das crianças. (‘Estereótipo de que ‘matemática é para garotos’ afasta meninas da tecnologia, diz pesquisador”)

A partir de todo esse cenário, decidimos três pilares de atuação para a PrograMaria: inspirar meninas e mulheres a explorar os campos da tecnologia e da programação, fomentar e qualificar o debate sobre a falta de mulheres na área e promover oportunidades de aprendizagem.

Nossa missão é empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia e da programação – e acreditamos nisso por vários motivos:

  1. Faltam profissionais na área. A TI é um mercado em forte desenvolvimento e a demanda por desenvolvedores só irá crescer. Além disso, as empresas já se ligaram que precisam de diversidade no seu quadro de funcionários, afinal, um time diverso produz mais inovação e traz melhores resultados.
  2. As mulheres não precisam necessariamente querer trabalhar como desenvolvedoras para se beneficiarem da programação. Toda empresa hoje precisa de tecnologia. Ter noções básicas do tema facilita o trabalho em equipes multidisciplinares, aumentando a produtividade e melhorando resultados.
  3. Programar é uma ferramenta poderosa de transformação do mundo. Com ela, as mulheres podem dar vida a suas ideias, construir seus projetos e se expressar!

De tanto ouvir que “mulher não dá para exatas”, “mulher não é boa em matemática”, “homens são mais lógicos”, internalizamos essas verdades e passamos a acreditar nelas.

Nos eventos que organizamos e participamos, muitas mulheres contam que simplesmente nunca tentaram aprender porque achavam que programação era muito difícil para elas, que elas não conseguiriam entender e ponto final. Muitas têm ideias incríveis que gostariam de realizar, mas ficam a espera de um amigo desenvolvedor que tope ajudar.

A tecnologia determina a maneira como nos relacionamos, nos comunicamos, consumimos e aprendemos. A sociedade precisa que as mulheres também pensem sobre esses problemas e proponham soluções para eles. Quantas ideias deixam de se tornar projetos, produtos e serviços inovadores por que as mulheres estão à margem da produção de tecnologia?

Em fevereiro a PrograMaria completa um ano. Nesse caminho, encontramos muitas mulheres dispostas e entusiasmadas com a ideia de colaborar. 2016 vai ser um ano muito bom para o tema. Diversos grupos estão surgindo, unindo forças, e se fortalecendo para lutar e promover mudanças!

 

Campanha #SerMulherEmTech

Logo que lançamos nosso site e nossa página no Facebook, começamos a receber diversas mensagens de mulheres que estudavam ou trabalharam no setor, desabafando sobre as dificuldades que enfrentavam diariamente. Situações absurdas como as que você leu no início deste texto. (Tem mais na nossa reportagem especial Mulheres enfrentam preconceito e isolamento em cursos de computacão)

A campanha #SerMulherEmTech foi a maneira que encontramos para dar voz a essas histórias e promover a troca de experiências e de apoio entre essas mulheres. Acreditamos que a informação é o primeiro passo para transformar o que está aí. Queremos abrir espaço para o debate e mostrar que as violências, tão naturalizadas, não devem ser toleradas e precisam ser enfrentadas.


Iana Chan é jornalista e co-fundadora da PrograMaria.

Arte: Alessandra Genualdo

 

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Antes de tudo, esclareço o lugar de que falo, o lugar de Mulher com deficiência e de acadêmica, antropóloga. Desse lugar hibrido é que falo. E falo olhando para a violência que este corpo sofreu, em silêncio, ao longo da história. E do silêncio que foi produzido para que este corpo sofresse ainda mais em silêncio.

Como antropóloga, interessa-me pensar histórica e simbolicamente o corpo da mulher com deficiência e como esse corpo recebeu uma narrativa social, como uma narrativa social foi produzida a respeito desse corpo. Primeiramente, interessa-me o silêncio a que este corpo é imposto. Como foi produzido um silêncio a respeito do corpo da mulher com deficiência e de suas necessidades, especialmente de suas necessidades sexuais e reprodutivas. Um silêncio abusivo, castrador, horrível, aterrorizante.

Pensei em dividir esse bate-papo (quero muito ouvir todas vocês, comentem, escrevam), em três partes: na primeira, vou falar de dados de violência, na segunda vou falar das imagens simbólicas do corpo da mulher com deficiência, ao longo da história na narrativa social judaico cristã (o modelo religioso), e na terceira falar de deficiência e sexualidade.

Comecemos falando de violência. Quando falamos de violência e mulheres com deficiência as pessoas sempre precisam ser recordadas que temos um corpo, inclusive um corpo sexual. A narrativa social construiu um esquecimento acerca do tema, de maneira tão forte, que nosso corpo, esquecido e silenciado, é deixado nas sombras, para que os abusos aconteçam em silêncio. Estou aqui, como mulher com deficiência, disposta a quebrar o silêncio.

Cerca de 10% das mulheres do mundo vivem com uma deficiência, e nos países mais pobres, 75% das pessoas com deficiência são mulheres. No Brasil, de acordo com o Censo de 2010, mais de 25 milhões de mulheres com deficiência e quase um terço das mulheres negras tem uma deficiência.

A violência dirigida às mulheres com deficiência é um problema global. As mulheres com deficiência vivem em condições de maior isolamento social, o que amplia extremamente a possibilidade de violência e abuso. Elas têm menos chances de sucesso educacional, financeiro, profissional e social e isso também dificulta sair da condição de violência e abuso, pois inviabiliza autonomia e contato com redes que poderiam prestar ajuda. Na maioria das vezes o abuso vem de familiares, cuidadores, colegas, e isso torna denúncias um processo muito difícil. Por exemplo eu acompanhei um caso de uma senhora que o único contato com o mundo era o telefone. O cuidador, no caso o marido, desligava o telefone e ela não podia mais falar, nem do abuso que sofria. E quando falava, ela tinha medo, porque “só tinha ele” para cuidar dela.

Mulheres com deficiência sofrem abusos de todos os tipos: sexo forçado com trabalhadores, cuidadores ou outros residentes em instituições, são espancadas, esbofeteadas, ou feridas em crises, sofrem esterilização ou abortos forçados, são trancadas em quartos ou armários sozinhas, são obrigadas a banhos de gelo ou chuveiros frios como punição, são obrigadas a medicação forçada (tranquilizantes), muitas vezes obrigada a ter que se despir ou ficar nua na frente de outras pessoas, como castigo, são amarradas ou colocadas em restrição (contidas).

Numa pesquisa que realizamos em Escolas e Jovens e Adultos, na cidade de Campinas, em 2008, detectamos algumas situações: as mulheres com deficiência, mesmo sendo obrigadas a serem tocadas ou realizarem sexo contra sua vontade não percebem estar sendo abusadas ou violadas, tem grande dificuldade de sair desse processo, mulheres cegas ou com deficiência têm, proporcionalmente, duas vezes mais chances de serem abusadas ou violentadas que as sem deficiências, surdas, cinco vezes mais, e com deficiência mental de oito a nove vezes mais. Muitas famílias retiram as meninas com deficiência das escolas regulares por medo de abuso, mas são abusadas em casa, por funcionários e assistentes.

Na verdade, é preciso criar uma rede de proteção e denúncia estatal específica para a questão, apoio, inclusive de saúde mental para as famílias e medidas penais mais severas para os abusadores. Já encontrei no Facebook uma página, denunciada por mim que falava: estupre uma deficiente mental porque ela não vai saber contar. A gente precisa saber responder: Mas, nós vamos. Todas nós estamos vendo, e vamos fazer um escândalo


Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social (IFCH – UNICAMP), coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Arte: Manjit Thapp

 

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Quando eu tinha 3 anos de idade, minha família foi convidada para a festinha de um ano da minha prima. Há uma divertida fita VHS do evento e, toda vez que assistíamos, minha mãe me contava sobre como eu dei trabalho naquele dia. É que a comemoração ocorreu no salão de festas do play do prédio onde meu tio morava, mas fora daquele ambiente tudo estava escuro e vazio. E eu, sempre que encontrava oportunidade, saía zanzando sozinha a explorar o play inóspito e algum adulto tinha que ir me pegar.

Eu acredito ter alguns flashes de memória dessa ocasião (inclusive de quando descobri o camarim improvisado dos palhaços), mas certeza eu tenho mesmo é de que desde essa época eu já manifestava o gosto por fazer coisas sozinha. Só mais tarde é que entendi que, para muita gente, por incrível que pareça, isso é alguma espécie de defeito em uma mulher.

Ou até de danação. Ficar sozinha depois de certa idade, “para titia”, ainda assombra muitas mulheres pela simples pressão social a que são submetidas por esse motivo. Não importa o quão bem sucedida, feliz ou até mesmo bonita dentro dos padrões vigentes (magra, branca, cabelos lisos, etc) ela seja: se não conseguiu manter um homem ao seu lado, tem alguma coisa de errada com ela. Se tem filhos, nem mãe ela é: é mãe solteira, pois é preciso salientar o fato de que ela está criando o filho sozinha – já o pai, em geral, “tem uma filha de outro relacionamento” quando falam dele, pois ser pai e solteiro não o definem como indivíduo.

Mas o fato de não estar em um relacionamento gera situações em que a única saída possível é fazer algo por si só, ainda que eu nunca tenha dependido particularmente disso para gostar de fazer programas tendo só a mim como companhia. Nem sempre os amigos estão disponíveis também e eu não deixo de fazer o que quero por causa disso. É nesses momentos em que percebo como, em pleno século XXI, o mundo ainda não está totalmente preparado para esse tipo de autonomia feminina.

No início do ano passado, eu decidi que não deixaria para última hora os planos da próxima virada de ano. Rotineiramente, dezembro chegava e eu não fazia ideia de onde ia passar o réveillon. Dessa vez, porém, eu resolvi me organizar e decidi realizar um sonho que nutria há muito tempo: virar o ano em Nova York. Por alguma razão, eu sempre desconfiei que essa seria uma cidade incrível para se estar nesse momento específico do calendário e resolvi tirar a prova (resposta: eu estava certa).

De início, convidei pessoas próximas para me acompanhar, mas ninguém topou. Alguns por falta de grana, outros por medo do frio etc. Apesar disso, eu não ia deixar de fazer a viagem que eu tanto queria só por falta de companhia. Consegui me organizar financeiramente para arcar com os custos sem ter com quem dividí-los e me tornei uma expert na cidade, escolhendo com muito cuidado como gastaria os meus 20 dias e suados dólares (a cada mês mais caros!) que levaria na bagagem.

Depois de ter me decidido, a reação mais comum das pessoas à notícia da minha viagem era, disparado: “Mas você vai sozinha?!”, como se eu estivesse planejando invadir a Rússia no inverno armada apenas com uma faca de passar manteiga. Ir à Nova York está longe de ser uma viagem ousada. Talvez fosse, sim, um grande passo para mim, que não fui o tipo de criança que conheceu a Disney e havia saído do país pela primeira vez no ano anterior. Mas, de toda forma, eu estava falando apenas uma das cidades mais turísticas do mundo, não de ir para a Síria.

Foi necessário certo sangue frio e alguma determinação da minha parte para levar o projeto adiante. Eu sentia como se devesse aos outros os motivos, as razões e os porquês de gastar o meu dinheiro com algo que eu queria fazer. É claro que deixei muita gente no vácuo, mas penso nas mulheres que se deixam levar pela ideia de que não poderiam dar o mesmo passo. Que olham para o mundo como uma peça de museu: você pode admirá-lo, mas jamais poderá colocar as mãos nele, pois não lhe pertence. Somente pessoas autorizadas podem tocar o mundo e mulheres sozinhas não fazem parte desse time.

Não estou falando aqui do aspecto financeiro da questão. Sei bem que, ainda que eu esteja muito longe de ser endinheirada, tive e tenho oportunidades e condições de dedicar boa parte dos meus modestos rendimentos a planos completamente meus. Um número muito grande de mulheres nem mesmo pode sonhar com isso, ainda que tenham o desejo de tomar o mundo com as mãos. Mas o fato é que existem também essas mulheres, e muitas eu conheci ao falar sobre os meus planos, que, ainda que tivessem condições de viajar, não o fariam sozinhas, de jeito nenhum. Por quê?

Pelo mesmo medo que nos faz evitar ruas e avenidas, trocar de roupa e viver sob um toque de recolher informal: o medo do assédio, do abuso, do estupro, da violência contra a mulher. De ataques que homens não sofrem rotineiramente e simplesmente não consideram antes de comprar a passagem. Dependendo do país para onde uma mulher vai, é primordial que ela saiba como é o machismo naquele lugar, que tipo de apuros ela, pelo simples fato de ser mulher, pode passar ao visitar a região. Mulher, estrangeira e sozinha? Presa fácil em quase qualquer lugar. E essa é uma realidade que acomete diversos países.

Ou seja, o nome do nosso carcereiro, mais uma vez, é O Patriarcado. Hoje, de volta ao Brasil após uma viagem muito enriquecedora, sei que a melhor forma de combatê-lo é resistindo aos seus grilhões. Fico pensando nas experiências maravilhosas que eu teria perdido simplesmente por ter medo de viajar sozinha. Se eu me tivesse deixado convencer de que sou dependente, sempre, de outra pessoa, nem que fosse uma outra mulher. Mas sair sozinha? Do país, então? Jamais!

Aprendemos desde muito cedo como devemos agir para nos manter em segurança. Ainda que esse aprendizado não seja justo – são os homens que deviam ser ensinados que o corpo de uma mulher é propriedade dela e somente com o seu consentimento ele tem a liberdade de tecer comentários sobre ele ou tocá-lo. O que quer que passe disso é considerado, para dizer o mínimo, uma inconveniência. E pouco nos importamos com as suas intenções (“Eu só queria elogiar!”).

Mas é nesses momentos que devemos colocar nosso conhecimento em prática. Sabemos muito bem tomar conta de nós mesmas, somos treinadas para isso há anos. E, se mesmo assim sabemos que não há garantia de que estaremos a salvo de sofrer uma violência, não é na hora de viajar que vamos ter medo. Se ser mulher é um risco em quase todo lugar, então vamos explorar o mundo e ao menos ver lugares diferentes. Este artigo da Forbes, escrito por uma mulher que viajou sozinha por Bali durante quatro meses, fala juntamente sobre esse assunto:

“Não estou dizendo para você arrumar a mochila e viajar o mundo como um inocente e ridícula viajante solitária. Aquela que saltita por aí gritando bem alto o número do seu quarto no albergue, que bebe horrores com estranhos nas partes mais perigosas da cidade e anda pelas ruas à noite com fones de ouvido bem alto em ruas escuras. Nada me deixa mais perturbada do que quando essas garotas são atacadas e legiões de pessoas surgem gritando que essas mulheres deveriam fazer, vestir e falar o que elas quisessem.

Em um mundo perfeito, as mulheres deveriam poder fazer tudo isso e muito mais.

Esse mundo perfeito ainda não existe.”

Não vamos aceitar ser tratadas como idiotas, é o que eu quero dizer. Viajar sozinha não é sinônimo de se tornar cega para medidas básicas de segurança – ainda que NADA justifique que sejamos vítimas de qualquer tipo de violência. Não é certo, porém, que a intimidação nos impeça de expandir nossos horizontes. É normal ter medo, sim, temos razão para tal: uma em cada três mulheres já sofreu violência sexual ou física, segundo a ONU. Mas ser mulher, por si só, é viver apesar desse medo. Então vamos viajar apesar dele também.

Eu, eu mesma e Nova York

Apesar de já ter feito muitas viagens de trabalho sozinha, eu não sabia o que me esperava nessa que seria a minha primeira viagem de férias do tipo. Como 2015 foi um ano generoso comigo, ainda tive a oportunidade de ir à cidade antes de dezembro, por quatro dias, para uma conferência. Foi quando comecei a fazer algumas observações sobre como era estar sem mais ninguém naquela cidade, já que, ainda que tivesse compromissos profissionais, estava por minha conta.

Após o primeiro dia de palestras, resolvi ir ao Comedy Cellar, um tradicional clube de stand up comedy novaiorquino, já que eu adoro comédia. Eu fiz reserva com certa antecedência e fiquei feliz de conseguir chegar a tempo. Com o passaporte em mãos para comprovar que tenho idade o suficiente para adentrar o recinto e confirmar meu nome na lista, o segurança da porta me pergunta, com certa condescendência: “É só você?” Sim, sou só eu, reserva para um, obrigada. Ele sorriu com um misto de pena e admiração, como se eu merecesse um prêmio por ter a coragem de fazer algo desacompanhada. Mai um pouco e ele descia as escadas para tirar uma foto minha sozinha na mesa para dois.

Eu me pergunto se ele teria a mesma reação se eu fosse um cara ou se as piadas seriam mais engraçadas se eu soubesse que alguém conhecido as estaria ouvindo comigo. Se uma garota sai para se divertir sozinha e ninguém está lá para fazer-lhe companhia, sua felicidade ainda tem valor?

Quando voltei para lá em dezembro tive bem mais oportunidades de explorar a cidade, é claro. E fazê-lo sozinha foi libertador, divertido e inesquecível, mas em alguns momentos foi impossível não me aborrecer com as limitações que ainda existem para mulheres nessa modalidade de viagem, ainda que eu estivesse lá, em parte, para encará-las de frente.

Certa noite, lá pelas 23h de um domingo, eu estava voltando de metrô para a casa onde fiquei hospedada cheia de fome. Decidi descer na Times Square para comer alguma coisa, pois lá está sempre muito iluminado, tem polícia e onde certamente havia restaurantes abertos. Dito e feito. Depois de comer o que eu queria, fui meio caminhando, meio passeando até a minha estação de metrô. Digam o que quiser, mas aquele lugar é um símbolo da cidade e lá estava eu, sem mais ninguém, com tempo de sobra para apreciar aquela loucura toda. Eu estava bem no meio da praça, olhando para um letreiro, quando um homem se aproximou de mim. Ele parecia ser um cara normal em circunstâncias normais e perguntou se eu era brasileira. Eu disse que sim e ele começou a conversar comigo ali mesmo, em pé no meio de uma Times Square quase deserta (para os padrões normais de lá).

Fui tentando me desvencilhar do assunto quando ele tentou segurar minha mão. Não deixei. Ele insistiu. Tentou me dar o braço, como se fosse meu namorado, e disse que estávamos em um encontro. Eu disse que não, que aquilo não era um encontro, e eu ia embora. Saí andando depressa para o metrô, já com medo de estar sendo seguida. Meu passeio acabou. Depois me dei conta de que ele provavelmente era um desses pick up artists (“artistas da cantada”, homens que possuem técnicas para abordar e conquistar mulheres na rua e em baladas – geralmente sozinhas) tentando a sorte com estrangeiras.

No AirBnb onde fiquei hospedada, descobri que as anfitriãs haviam alugado o quarto ao lado para um cara e simplesmente não avisaram que haveria outro hóspede. Um dia a polícia bateu na porta por causa de uma chamada falsa e eu descobri junto a dois policiais que havia um homem na casa. A partir de então, fiquei preocupada. Sei que há mulheres que não se importam e não têm medo, mas eu havia alugado essa casa justamente por ser de uma mãe e uma filha. Por sorte, eu nunca mais o vi no apartamento e ele foi embora de vez dois dias depois. Na avaliação da hospedagem, perderam uma estrelinha em comunicação.

No geral, eu me sentia muito segura circulando sozinha pela cidade. Mas isso também se deve à minha ignorância em relação à criminalidade por lá. Vira e mexe eu via nos jornais locais notícias de estupro de mulheres em determinados bairros da cidade que eu só frequentei à noite quando acompanhada de amigos que encontrei por lá e, em geral, evitei explorar sozinha, o que é triste.

E foi essa minha falta de conhecimento sobre as regras não ditas da cidade que me surpreendeu quando, numa noite, eu tentava voltar para casa às duas da manhã e só havia homens nas ruas. Acho que vi uma ou duas mulheres em um percurso de quase duas horas em diversas estações de metrô – mas havia muito mais homens, alguns sozinhos, outros em grupos. Senti que não devia estar ali, não naquele horário. Deus sabe como relaxei quando tranquei a porta do apartamento e estava sã e a salvo, ainda que nada demais tenha acontecido no trajeto.

Fora esses incômodos com as amarras do patriarcado, o resto da viagem foi muito bacana. Acho que toda mulher, tendo a oportunidade, deveria fazer uma viagem sozinha, nem que seja só para ver como é. É algo tão simples e tão poderoso. Quem já tem vontade, provavelmente vai amar essa conquista. Quem nunca pensou nisso, pode descobrir que é capaz de muito mais que imagina. E sozinha! Na volta ainda pode se reunir com as amigas para contar causos e comemorar, bem assim como estou fazendo aqui com vocês. 🙂


Arte: Cari Vander Yacht

 

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Muitas foram as pautas que passaram pela minha cabeça quando fui convidada a escrever para a Think Olga. Mas para começar resolvi me apresentar de alguma forma, falar de mim e da minha vivência. Por acreditar que é uma forma de me aproximar de vocês e de mim mesma.

Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. – Gloria Anzaldua

Passei anos da minha vida acreditando ser atraída por homens. Sendo violentada por uma sociedade que não me deixava amar as mulheres. Sendo martirizada por uma hierarquia que parece invisível e que é silenciadora. Passei anos da minha vida acreditando que só existia uma orientação sexual: a heterossexual. Que no final, ali, nas convenções que somos obrigadas a celebrar, eu deveria me submeter a ficar e estar com um homem: mesmo se eu não quisesse, mesmo se eu não desejasse.

Entre abusos, agressões físicas e psicológicas é que se deu o meu despertar . E não foi nada fácil contextualizar as relações em que eu estava inserida. Era como estar, literalmente, presa ao meu opressor. Doía muito, muito. Mas quanto mais eu sabia de mim, mais eu me fortalecia e me desmembrava da alienação ao qual me enquadravam.

Eu descobri que existe amor de verdade quando me amei, amei e fui amada por outra mulher. Eu descobri as possibilidades do meu corpo quando me amei, amei e fui amada por outra mulher. Eu me sinto um ser potencialmente mais político me assumindo lésbica.

Sou uma mulher negra e lésbica.

Ser uma mulher negra e lésbica me torna cada vez mais combativa.

Luto diariamente para viver minha identidade. Me vejo diariamente abominando a coisificação, a objetificação e a erotização que fazem dos nossos corpos. Me vejo diariamente tendo que arrombar a porta para ocupar espaços que deveriam ser meus e de minhas irmãs por direito.

Ser mulher negra e lésbica me coloca num lugar de poucos privilégios.  Sou rejeitada e invisibilizada por uma sociedade branca e heteronormativa. Sou tudo que o patriarcado enoja. Tenho medo de ver verter meu sangue nas mãos de homens que querem me transformar em “mulher de verdade.” Tenho medo de virar estatística.  Por isso denuncio: a nossa voz precisa ecoar contra o machismo, o racismo e a lesbofobia. Contra as opressões que querem nos desestabilizar.

Tenho o direito de existir. Temos. 

Somos muitas com nossas múltiplas identidades.

Sou orgulhosa de ser quem eu sou.

Sou uma mulher negra e lésbica.

“Sermos mulheres juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos garotas lésbicas juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos negras juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos mulheres negras juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos lésbicas negras juntas não era suficiente

Nós éramos diferentes.

Demorou algum tempo até percebermos que nosso lugar

Era a casa da diferença ela mesma,

Ao invés da segurança de qualquer diferença em particular”

Audre Lorde


Dayana Pinto é educadora e Co-administradora da Arquivos Feministas.

Arte: Taj Francis

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Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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