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Ser mulher neste mundo pode ser uma experiência muito solitária. Em todos os lugares, deparamos com situações que alimentam, lá dentro, os sentimentos de inadequação e impotência. Sabe as “cantadas” que você recebe de estranhos, ou aqueles “recados” inconvenientes sobre a sua aparência? Por mais que essas posturas incomodem, é relativamente fácil de acreditar que elas são naturais e que não precisa ser diferente. A julgar pela opinião da maioria, parece que o problema é só seu ‒ quando não é você mesma.

Às vezes, porém, vozes igualmente aborrecidas lhe surpreendem e insinuam a causa e o efeito de tanto isolamento. Desde muito tempo atrás, milhares de mulheres enfrentam as mesmas dificuldades sem ter noção do quanto suas vivências são semelhantes ‒ em muito, porque somos desencorajadas de externar o que pensamos e sentimos. O que aconteceria se essa multidão silenciosa descobrisse a dimensão coletiva de suas angústias? Uma vez arranjada, poderia ela formar uma frente consistente de mudança?

Essas são as perguntas fundadoras de vários projetos colaborativos que estão alcançando, em tempo recorde, enorme adesão no meio online. Idealizados por mulheres na faixa dos 20 e 30 anos, com perfis pessoais e profissionais diversos, eles apostam no potencial da rede para aplacar problemas cotidianos, mas de grande relevância política. O caráter voluntário e inclusivo ‒ nenhum deles possui fins lucrativos ou restrições de público ‒ deriva de um denominador comum importante: o apelo afetivo. Criadoras e apoiadoras abraçam as iniciativas pelo desejo de sintonizar seus valores com sua ação social, além da vontade de se conectar a outras mulheres identificadas com uma causa.

Conversamos com representantes de seis movimentos de empoderamento e mobilização feminina para saber o que anda engajando tantas usuárias na web em 2015. Confira abaixo os temas e os links para acompanhar o trabalho de cada projeto.

 

Mulheres no espelho: fortalecendo a autoimagem

Talvez poucas crises femininas simbolizem melhor os efeitos da violência de gênero do que a relação conflituosa com o próprio corpo. Praticamente o tempo inteiro, a luta contra o machismo e a misoginia é travada nessa arena privada ‒ e como é difícil resisti-los. Há sempre um ou dez quilos a perder. A pele tem manchas ‒ ou não tem o tom “certo”. O cabelo não esvoaça ou não brilha. Os seios são muito pequenos e o bumbum é muito chato. Conforme as meninas crescem, a existência em um corpo confortável parece se tornar impossível: inicia-se uma guerra contra si mesma para aniquilar a mulher real em função de um modelo inatingível que a mídia bombardeia contra todas. Quando se admite a derrota anunciada, corpo e alma estão em pedaços e nem sempre há apoio para reconstituí-los.

A publicitária baiana Teresa Rocha conhece essa narrativa. Negra e crespa, ela via, na infância, uma semelhança entre todas as figuras célebres das propagandas: o físico branco, magro e liso, bastante diferente do seu. Ter chances de sucesso passou a implicar um tempo diário para o alisamento dos cabelos. “Foi na adolescência que percebi o quanto ter autoestima impacta de forma positiva em todos os campos da vida, e que receber críticas e cobranças sobre a aparência é cruel e injusto. Desde então, tenho vontade de fazer algo a respeito”, conta. Quando encontrou ícones femininos que assumiam os cachos, motivou-se a libertar os seus ‒ e hoje, pelo Bonita Também, quer divulgar mensagens de aceitação e amor próprio a muitas outras mulheres.

“O Bonita Também quer reforçar a importância de se sentir bem e abraçar a diversidade. O que importa é ser feliz, mas se isso for fora do padrão social que tanto nos exclui, melhor ainda, porque vai gerar referência para as meninas que estão crescendo. E a gente bem sabe que mulher precisa disso”, explica Teresa. Ela gerencia um Tumblr colaborativo com histórias de mulheres que também aprenderam a amar seus corpos como são e, na página da iniciativa no Facebook, posta mensagens inspiradoras e cards ilustrando diversos tipos de beleza. “O projeto não se faz sozinho, entende?”, diz ela. “Cada pessoa que interage com um clique ajuda a fazê-lo!”. É esse pensamento que a relaxa em relação às estatísticas da rede social. Criada em dezembro de 2014, a página do Bonita Também chegou às mil curtidas orgânicas em junho deste ano. Por trás de cada uma, Teresa enxerga uma mulher celebrando a autoestima feminina e buscando o incentivo a se mostrar como é. Ela já recebe mensagens de seguidoras falando do impacto positivo da página sobre elas. “O crescimento é gradativo e devagar, mas muito válido”, afirma.

Os depoimentos do Tumblr, que revelam o peso como uma preocupação muito forte, são enviados por e-mail e ficam disponíveis para receber comentários de outras visitantes. Focada em corrigir os vácuos de representatividade, a publicitária também está atenta ao risco de endossar novas padronizações e tenta equilibrar na comunicação do projeto múltiplas variações de raça, biotipo, cabelo e outras características. A crença no potencial transformador da imagem embasa os sonhos de desenvolvimento da iniciativa. “Eu desejo que todo o material que está sendo recolhido possa tomar formato de um documentário um dia e fazer a diferença para mulheres de idades variadas, principalmente para quem está se tornando mulher agora”, conta Teresa.

 

Mulheres em trânsito: a luta pelo espaço público

A participação efetiva das mulheres na vida pública é uma das reivindicações mais antigas do feminismo. Contudo, em pleno século 21, a pauta se mantém atual pelos mecanismos que constrangem a ocupação feminina dessa esfera. Comecemos pelos obstáculos à apropriação do espaço. Laura Krebs, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que as teorias urbanistas de viés mais sociológico, com inclinação marxista, pensam a cidade como um campo de reprodução dos valores e relações da sociedade que a habita. “Assim, é inevitável entender a urbe como um ambiente machista, em que a mulher é considerada mais frágil e onde uma série de abusos ‒ verbais e/ou físicos ‒ e opressões de gênero se repetem”, afirma.

Laura é uma das idealizadoras do coletivo se essa rua fosse nossa, criado em março para denunciar a violência contra a mulher no espaço urbano e mapear o sentimento delas nas ruas. O movimento começou como uma intervenção gráfica planejada para o Dia Internacional da Mulher. Em parceria com uma colega de curso, Laura pretendia coletar relatos sobre o assunto e espalhá-los por Porto Alegre, mas logo surgiu a ideia de produzir algum material audiovisual sobre o tema. “Fomos atrás de amigas capacitadas e acabamos formando uma rede incrível de mais de 80 gurias, transformando uma ação pontual em vontade de ter um trabalho contínuo de questionamento sobre um problema tão presente”, conta.

Os depoimentos reunidos em áudio e vídeo dão conta de um transtorno que interfere na escolha das roupas para sair e até no simples ato de andar a pé. As integrantes do coletivo se reúnem quinzenalmente e sentem necessidade de criar um grupo de estudos sobre feminismo. Para o segundo semestre de 2015, elas preveem uma nova série de vídeos e a expansão de suas ações virtuais. No Facebook, o se essa rua fosse nossa disponibiliza o endereço de um formulário anônimo para o compartilhamento de casos de agressão machista em locais públicos. Mais de 26 mil pessoas acompanham a página do projeto, que acumulou mil curtidas no dia em que foi criada.

A página se popularizou ao divulgar o relato, narrado pela própria vítima, de um estupro ocorrido por volta do meio dia na região central de Porto Alegre. Segundo os dados do Facebook, a postagem alcançou mais de um milhão de usuários da rede. A repercussão da história levou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Vereadores a vistoriar toda a Rede de Proteção às Mulheres da capital gaúcha e apresentar um relatório com as constatações oficiais em maio. Para Laura, esse feito é um exemplo de empoderamento feminino e comunitário, que desafia a ideia das instituições públicas como excessivamente burocráticas e distantes da população. “Tínhamos voz e geramos resultados a partir de uma indignação coletiva e quase sempre banalizada”, diz ela.

A força da ação conjunta e cidadã é também o que inspira a jornalista Babi Souza, outra gaúcha. Afetada pelas leituras sobre colaborativismo e empreendedorismo social, foi cruzando pelo centro de Porto Alegre à noite que ela refletiu sobre o medo de circular sozinha ‒ e concebeu o Vamos juntas?, um fenômeno instantâneo no Facebook desde o dia 30 de julho. Reconhecendo a aflição peculiar das mulheres ao transitar no dia a dia, a iniciativa quer trazer mais segurança incentivando a parceria casual ou regular entre elas. Diante de situações de risco, o movimento convida cada uma a se unir com a próxima, intimidando potenciais agressores e, quem sabe, fazendo novas amizades.

A ideia de Babi foi ilustrada pela designer Vika Schmitz e postada no perfil pessoal da jornalista. Menos de duas horas depois, pessoas fora do seu círculo de amizade estavam compartilhando a imagem e buscando a página do movimento, que foi imediatamente criada. Foram cinco mil curtidas em 24 horas, e até o fechamento desta matéria, mais de 135 mil seguidores reunidos. Durante o mês de agosto, a equipe somou a social media Stephanie Evaldt começou a estudar formas de aproximar cada vez mais suas apoiadoras. Foram criados grupos por região do Brasil no Facebook e iniciado o projeto de um aplicativo para que elas possam se encontrar nas ruas.

Animada com o retorno das adeptas, Babi espera que as mais novas também sejam impactadas pela ideia do movimento. Um caso que a emociona é o de uma jovem que imprimiu cards da página e colou nas dependências da escola onde estuda. Quando encontrou um deles rasgado no lixo, fixou-o novamente e enviou-lhe a foto do cartaz. “Acho que se as meninas da idade dela entrarem em contato com a sororidade e com a ideia de amar ao próximo (aí independentemente do sexo), o futuro será muito melhor”, afirma. A jornalista acredita que as mulheres adultas não costumam “ir juntas” por medo e, principalmente, por serem ensinadas desde muito cedo a competir entre si e não confiar umas nas outras.

Babi anda com a agenda cheia divulgando o Vamos juntas? na mídia, mas concorda que em algumas entrevistas, a proposta parece se diluir em um problema mais amplo de segurança pública. Ela faz questão de ressaltar que o movimento pretende, sobretudo, estimular a associação entre mulheres. “Além disso, sinto que estamos tendo um papel importante no sentido de mostrar aos homens como é ser mulher, como não é fácil ser assediada e se sentir insegura”, pontua. As muitas mensagens que a equipe recebe deles oscilam entre gratidão e estranhamento, mostrando que boa parte da população masculina ainda não compreende as nuances de violência criadas pelo gênero. Por ora, parece mesmo mais proveitoso investir na comunicação com elas ‒ e crer que a ação suscitada será eloquente o bastante.

 

Mulheres em debate: pluralizando o diálogo

Por outro lado, a limitação espacial não se impõe somente na via pública. As mulheres também enfrentam barreiras para participar e protagonizar eventos profissionais e mesas de debate. Ainda hoje, por mais qualificadas que sejam, elas são completamente excluídas de alguns encontros. Quando questionados a respeito, os organizadores tendem a justificar a escolha dos convidados pela competência, experiência e destaque na área em que atuam. Mas será que existem tão poucas experts à disposição? Em uma sociedade desigual como a nossa, a quem serve o critério meritocrático ‒ e até que ponto ele não contribui para a permanência desse cenário?

“Quem já é privilegiado entra no ciclo vicioso da manutenção de seus privilégios sociais. Por ter mais oportunidades de praticar algo, fará aquilo melhor e mais oportunidades aparecerão”, afirma a designer e comunicadora Gabi Juns, cofundadora da Escola de Ativismo. A marginalização feminina nas rodas de conversa é um fato familiar a ela e às amigas Daniela Silva, Daniela Teixeira, Manoela Miklos e Fer Shira. Todas envolvidas em projetos de mobilização social ou ativismo online, elas perceberam que os colegas homens geralmente serviam como portavozes dos trabalhos desenvolvidos coletivamente. Talvez por isso a iniciativa Stop Man Panels, lançada em maio de 2014 à época da Convenção sobre Armas Convencionais da Organização das Nações Unidas (ONU), tenha impactado tanto o grupo: no compromisso, 79 especialistas sobre o tema da reunião se recusavam a participar de paineis que não incluíssem mulheres. “A ação dos homens teve sucesso no evento. Então pensamos, ‘por que não para todos os eventos?'”, conta Gabi.

Dessa inquietação, com o apoio conceitual e criativo de muitas outras pessoas, surgiu o compromisso #nãotemconversa. O princípio de base do movimento é a conscientização dos homens ‒ em especial os cisgêneros, heterossexuais, de classes mais altas e sem deficiências aparentes ‒ do lugar favorecido que ocupam na hierarquia social. A partir disso, eles são interpelados a promover a integração de vozes femininas aos debates por meio de um pacto solidário. “Achamos que eles também têm um papel na desconstrução do machismo. Abrir mão de privilégios de fala é algo que podem fazer”, diz Gabi. Ela e as demais criadoras do #nãotemconversa acreditam que a visão de mundo de uma mulher é indissociável de sua vivência, e, por isso, elas têm potencial para enriquecer as discussões. “Meu gênero é parte da minha construção como indivíduo, e essa construção me dá uma perspectiva única”, defende Gabi.

Já no lançamento, em 24 de junho, o compromisso foi assinado por mais de 300 pessoas e a inbox de Gabi no Facebook se encheu de mensagens de homens curiosos sobre os próximos passos. Um dos apoiadores chegou a negar participação em um programa de TV ‒ algo que as criadoras só souberam quando a apresentadora reclamou na página da campanha na rede social. O retorno surpreendeu tanto que as idealizadoras do compromisso ainda não conseguiram sistematizar e responder todas as dúvidas recebidas. Apesar de colaborarem entre si, elas não se reconhecem como equipe. “Entendemos que tivemos uma ideia, colocamos para rodar e não seremos capazes, sozinhas, de dar a continuidade necessária”, explica Gabi. Devido a isso, elas criaram o #temconversa, um grupo exclusivamente feminino no Facebook dedicado à construção coletiva do projeto e à discussão de assuntos afins. O espaço é aberto a quem quiser participar.

Contando cerca de 10 mil curtidas na rede social, o #nãotemconversa pretende agora apurar os desdobramentos do compromisso assumido na vida dos homens e na organização dos eventos. As criadoras também comemoram a replicação da campanha no combate a outras formas de opressão. No dia seguinte à criação da página no Facebook, surgiu o compromisso-irmão #nemtentaargumentar, ao qual mais de 3,5 mil pessoas já aderiram. A iniciativa partiu do Coletivo Enegrecer, ligado à militância estudantil, e convida os usuários a demandar representatividade negra, feminina e masculina, nas rodas de debate. “Um olhar negro nos apresenta a perspectiva daqueles que vêm de baixo e qualifica as elaborações a serem desenvolvidas”, afirma Moara Correa, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e uma das idealizadoras do compromisso. Ela cuida do projeto em parceria com Cledisson Júnior, que já foi diretor de combate ao racismo da UNE e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).

O #nemtentaargumentar está em contato com as criadoras do #nãotemconversa para compartilhar tecnologia e desenvolver o próprio site para a coleta de assinaturas. Enquanto isso, no Facebook, a campanha busca denunciar o racismo institucionalizado e chamar a atenção de organizações e entidades para a ausência de palestrantes negros em seus eventos. Apesar das inúmeras reprimendas à iniciativa, Moara crê no aspecto político e construtivo do constrangimento e se diz pouco impressionada. “Há anos lidamos com a reação de conservadores que militam contra as cotas raciais no ensino superior e nos concursos públicos. Estamos vacinados”, afirma. A intenção da dupla idealizadora é ampliar o alcance do compromisso e seguir revelando a branquitude como um vetor de desigualdade social no Brasil ‒ inclusive nas intersecções entre gênero e raça. “Nosso grande desafio ‒ e aí falo enquanto mulher negra ‒ é de convencer as nossas companheiras brancas de que construir a solidariedade entre as mulheres significa, também, ceder espaços e desconstruir privilégios”, explica Moara.

 

Mulheres em gestação: a maternidade que existe

Quando a empreendedora Thais Cimino se olhou no espelho no dia seguinte ao parto de Vida, hoje com um ano e meio, assustou-se com o tamanho de seu peito. Tendo sofrido com a intensa sensibilidade nos seios durante a gravidez, ela não imaginava que sentiria tanta dor para amamentar a filha, apesar de toda a vontade e preparação. Em tese, estava tudo em ordem: a pega, a alimentação, o sono, o bebê mamava à livre demanda… Mas o desconforto piorava e Thais se sentia cada vez mais insegura. Foram muitas visitas à emergência da maternidade e à enfermeira obstetra até que ela fosse diagnosticada com um abcesso mamário, removido em uma cirurgia com anestesia geral e pós-operatório de cerca de um mês. Finalmente, Thais entendeu que não estava “fraquejando” no trabalho materno ‒ mas ainda assim, chorou por meses a fio por causa desse período.

Ela não compreendia como um processo natural como a amamentação podia ser tão desgastante, nem como poderia ser necessário um esforço sobre-humano para criar vínculo afetivo com a filha. No meio de toda a situação, estava o companheiro, com quem Thais vive na França. Atordoado com a nova condição de pai e inseguro à sua maneira, ele apoiou a parceira como pode ‒ o que para ela, infelizmente, não foi suficiente. Quando pesquisou sobre depressão pós-parto, Thais se deu conta de que muitas outras mulheres também embarcam nessa jornada sem conhecer o “lado B” da maternidade, e de que o silêncio sobre essas provações tornava o percurso ainda mais penoso. Entretanto, como admitir dor, medo ou tristeza no que deveria ser um momento de absoluta felicidade? Como arcar com o julgamento alheio ‒ e administrar a culpa por não ser a mãe perfeita?

Antes de qualquer coisa, é necessário verbalizar o que a pressão externa encerra dentro de cada uma. “A maternidade não é um conto de fadas! Ela pode ser linda, transformadora, mas para isso, as mulheres e os bebês precisam que todo o ambiente ampare esta relação e que haja dispositivos sociais e públicos que deem conta desta questão”, afirma Thais. A partir disso, ela fundou o projeto Temos que falar sobre isso, uma plataforma de desabafos anônimos em que as mães podem compartilhar suas angústias e proporcionar conforto e acolhimento a outras famílias. O objetivo é fortalecer a ideia de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um caminho para humanizar a vida materna e resgatar dentro de si a confiança na própria capacidade. Coordenado por Thais e pela terapeuta ocupacional Bruna Taño, o site também é atualizado com textos sobre temas variados, como sofrimento psicológico, dificuldades no período gravídico-puerperal e violência obstétrica.

Além da solidão e da preocupação das mães em relação a sentimentos ambivalentes, como a ausência de um amor imediato pelos filhos, os relatos enviados frequentemente abordam a violência institucional por parte de órgãos e profissionais de saúde e a dificuldade de adaptação do casal à nova vida. As postagens relacionadas à implicação paterna no cuidado também têm repercutido. Criado em maio, o projeto ainda está “vivendo o puerpério”, mas superou as expectativas de Thais ultrapassando as 250 mil visualizações no blog e os 11 mil seguidores no Facebook. O espaço de desabafos cresceu a tal ponto que profissionais de diversos ramos passaram a procurá-la para colaborar com conhecimento especializado. Hoje, catorze deles contribuem regularmente com material informativo e o projeto mantém uma parceria com o grupo carioca Do Luto à Luta, de apoio à perda gestacional. Com a colaboração do Ministério da Saúde, o Temos que falar sobre isso também disponibiliza a listagem dos Centros de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (CAPS/SUS) e fornece assistência sobre centros, grupos ou profissionais de apoio próximos às visitantes do site.

Embora a internet facilite o anonimato e a participação de mães “recém nascidas” ou com dificuldades para sair de casa, Thais reconhece a importância do contato presencial e quer alcançar as mulheres que não estão na web. Cheia de sonhos e dedicando-se exclusivamente ao projeto, ela se mostra determinada a ampliá-lo, online e offline, e busca parcerias que possam apoiar arranjos mais complexos. “Almejamos promover uma mudança de atitude e a implementação de leis que protejam à mulher de todos os tipos de violência (obstétrica, física, psicológica e institucional) durante a gravidez, o parto e o puerpério”, afirma. Quem deseja integrar a equipe de colaboradores do Temos que falar sobre isso ou ajudar no gerenciamento da iniciativa pode contatá-la pelo e-mail do site.


Stefanie Cirne é feminista de todas as horas e jornalista de ocasião formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Arte: Elizabeth Catlett

 

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Fuck YOu Marion Peck

 

A modelo, atriz e inspiração para todas nós por sua autenticidade no mundo quadrado em que vivemos, Cara Delevingne foi entrevistada por um programa matinal da cidade de Sacramento, na Califórnia. Tudo normal, exceto pelo fato dessa entrevista ter se tornado um monumento à vergonha alheia de tão desastrosa que foi. Estabeleceu-se um ambiente passivo-agressivo que, em seguida, tornou-se apenas agressivo. Quando o link de Cara é cortado, os três apresentadores começam a falar mal do comportamento da moça. Mas… o que eles esperavam?

Cara estava disposta e disponível para falar sobre o seu trabalho. Em suas redes sociais e alguns trabalhos de moda, costuma demonstrar um lado divertido e brincalhão. Como modelo, isso é lucrativo por ser diferente e ousado, e não há dúvidas de que Cara fatura com a construção dessa imagem. Se é autêntica ou inventada, nunca saberemos, mas no momento da entrevista ela não estava ali para entreter ninguém com seu jeito carismático ou agradar a audiência com brincadeiras e sorrisos. Ela é uma atriz que foi convidada para falar sobre um filme que fez. Lá, encontra apresentadores que erram seu nome e insultam sua inteligência ao perguntar se ela ao menos leu o livro que inspirou o longa. Ao se deparar com uma entrevista morna e pouco elaborada, Cara deu respostas mornas e pouco elaboradas, porém foi ela quem levou a fama de rude por não demonstrar uma animação nítida de estar ali. O terceiro apresentador chega a dizer que, ganhando o que ganha, ela tinha o dever de sorrir.

Não é de hoje, porém, que sorrisos e afetações são o mínimo esperado das mulheres, especialmente na mídia. As negras, então, sofrem ainda mais com essa pressão pois qualquer tom menos agradável e elas já caem rapidamente no estereótipo da “negra barraqueira”. Se fala com mais autoridade ou aumenta o tom de voz, “perdeu a razão”. Controlar a postura da mulher é uma sutil, porém eficaz forma de silenciamento que limita a liberdade de expressão, tolhendo emoções e adequando-as aos rígidos padrões do que é considerado feminino e masculino socialmente. Um homem que é assertivo e expressa suas opiniões com dureza sem pedir desculpas por seu comportamento, é másculo, viril, poderoso. A mulher que faz o mesmo é grosseira, machona, bruta ou descontrolada.

Dois pesos, duas medidas
O curioso é que, para sobreviver profissionalmente no mundo corporativo, a mulher ” tem que ter culhão” e “botar o pau na mesa”, expressões machistas que são sinônimos de assertividade, coragem, opinião forte, ambição, garra e outras características geralmente associadas ao sexo masculino. Elas são valorizadas no mundo do trabalho que, é óbvio, ainda não conseguiu se desvencilhar de suas raízes patriarcais. Apesar disso, toda a masculinização necessária para que uma mulher sobreviva e tenha chances de subir degraus na carreira passa a ser desvalorizada no momento em que ela os abraça. Ellen Pao, executiva do Vale do Silício cujo processo contra o machismo corporativo a alçou a manchetes no mundo inteiro, estava à frente do reddit como CEO quando a rede social passou por uma limpeza que excluiu subfóruns misóginos e racistas.

Ellen, que não se deixou intimidar ao dar esse passo contra um público cada vez mais conhecido por seu ódio ao sexo feminino, os nerds, passou então a ser retratada como uma ditadora em charges à frente de paradas militares, em cima de tanques de guerra e com suásticas começaram a pipocar pela internet. Ou seja, uma instituição masculina em essência, o exército, cujas características intrínsecas  são disciplina, rigidez, hierarquia e uso da força, torna-se absolutamente condenável quando associada à ousadia de uma mulher. Ataques sem misericórdia e sem pedidos desculpas em seguida são falhas graves na personalidade de uma mulher. Após outras crises no comando da rede social, Pao foi substituída sob diversas acusações que, semanas depois, mostraram-se falsas.

Estímulos opostos fazem parte do crescimento da maioria das mulheres – e descobrir quem realmente somos no espectro das possibilidades é uma jornada para a vida inteira. Mas, no que se refere ao comportamento, o que se espera de uma mulher, quase sempre, são simpatia e cordialidade. Do contrário, são vistas como rabugentas, metidas ou de TPM. Em um mundo de homens, a presença da mulher tem um quê de favor que jamais poderá ser pago e uma subserviência que é o mínimo esperado. A aceitação parece depender da adequação a um limitado espaço determinado e a um padrão de comportamento dócil, e qualquer passo fora da linha são lidos como sinais de rebeldia e ingratidão.

Talvez seja por isso que as mulheres tenham uma tendência muito maior a pedir desculpas do que os homens.  Mesmo quando estão certas ou em seu direito, é comum que peçam desculpas quase como um reflexo ou adotam uma postura passiva e cordial diante de acontecimentos em que um posicionamento mais firme seria adequado. A Pantene lançou uma campanha endereçada justamente a esse comportamento chamada “Not Sorry” (algo como “Sem desculpas”, em tradução livre), na qual são exibidos diversos exemplos de momentos em que as mulheres se desculpam sem necessidade.

  Um estudo americano realizado em 2010 aponta que o excesso de desculpas das mulheres se dá pelo fato de que os homens têm uma tolerância maior à agressividade do que elas – ou seja, por serem mais sensíveis, elas pensam em como a própria dureza pode afetar o próximo e se desculpam com antecedência para amenizar o incômodo. Mas até que ponto a exposição dos homens a modelos de comportamento mais agressivos e um incentivo muito maior às emoções duras, socialmente masculinizadas, influenciam nesse resultado?

Afinal, desde a infância as mulheres são apresentadas à candura como um ideal a ser alcançado. Brigar, bater, apanhar e continuar brincando não são coisas de menina, mas garotos fazem isso o tempo todo. É mais difícil criar uma carapaça quando um pesado escudo social nos é imposto para nos proteger desde cedo. Princesas fazem parte do imaginário infantil das meninas pois reúnem todas as qualidades tidas como positivas em uma mulher: são bonitas, educadas, falam baixo e cumprem seu papel social com graça e carisma. Você não imagina uma princesa falando firme com um gerente pois o seu pedido veio errado – ela provavelmente diria, sorrindo, que “deve ter havido algum engano” ou, pior ainda, mandaria o príncipe ou um criado ir resolver. Para um homem, exigir seus direitos com firmeza em uma situação dessas é algo normal, sem qualquer necessidade de colocar açúcar para não causar desconforto. Já a mulher que vive essa situação ou abraça a possibilidade de ser vista como barraqueira ou abdica de suas emoções para vestir o cabresto emocional que nos mantém na linha.

Esse comportamento possui consequências que mantêm as mulheres no atraso. A sensação de inadequação as acompanha até no mercado de trabalho. Além de estarem em menor número e ganhando salários menores que os homens, ou talvez por isso mesmo, elas sentem uma angústia muito maior na hora de lutar por cargos e salário. A professora de economia Linda Babcook, da Carnegie Mellon University, publicou em 2003 o livro Women Don’t Ask: Negotiation and the Gender Divide, no qual investigou a atitude das mulheres em relação a salários e promoções. Ela descobriu que mulheres sentem mais ansiedade na hora de pedir por promoções e mais pagamento por seu trabalho. Em seu estudo, ela descobriu que 57% dos homens que se formaram na escola de negócios da universidade negociaram seus salários iniciais, mas apenas 7% das mulheres fizeram o mesmo. Em um artigo de 2005, ela e outros dois co-autores descobriram também que mulheres que tentaram negociar com chefes homens por maiores compensações foram mais rejeitadas que homens na mesma posição – sendo que quando homens e mulheres negociavam com chefes do sexo feminino, o gênero do empregado não interferiu na reação ao pedido de aumento.

Ellen Pao, quando ainda estava no comando do reddit, tomou providências para tentar resolver esse problema. Ela instituiu um salário fixo para novos contratados. “Os homens negociam mais duramente que as mulheres e às vezes as mulheres são penalizadas por negociar”, disse Pao ao Wall Street Journal.  Sendo assim, ela concluiu que, já que os homens se dão melhor na hora de negociar salários ao entrar nas empresas, as mulheres não devem ser punidas recebendo menos simplesmente por não ter a mesma habilidade, embora sejam contratadas para executar o mesmo trabalho. A ideia possui opositores, mas é um sinal de que essa discussão está ganhando adeptos dentro das grandes empresas.

 

O perigo de ser gentil
É preciso desestigmatizar a assertividade e o desagrado feminino, inclusive, pela vulnerabilidade que eles geram também fora do âmbito profissional. Dizer “não” a um homem é uma tarefa dificílima para a mulher. Não apenas por serem programadas desde a infância a agradá-los e a satisfazer seus desejos, mas também pelo medo de parecerem rudes (característica que não é vista como atraente para o sexo feminino) e, principalmente, porque eles não estão prontos para isso. Se por um lado os homens são mais resistentes à agressividade, por outro são extremamente sensíveis à rejeição – o que piora o trabalho delas de se desvencilhar de investidas masculinas e ainda sobra muita culpa de brinde.  Some-se a isso a noção de que os corpos femininos são públicos e o mito de que as mulheres precisam de um homem para ser completas e o que sem tem é a normalização não apenas do assédio, mas também da violência que se segue em caso de negativa. Afinal, quem mandou provocar?

Um exemplo é o que aconteceu com uma redatora do Buzzfeed, Grace Spelman. Após recentemente ser citada em uma lista de mulheres mais engraçadas do Twitter, eis que surge Benjamin Schoen, apresentador de um podcast sobre Harry Potter que ela havia adicionado no Facebook aos 14 anos por ser fã dos livros de J.K. Rowling. No início de agosto, Benjamin enviou um tweet para Grace dizendo-se surpreso de saber que eles já eram amigos no Facebook – e ela educadamente favoritou a postagem, mas não respondeu. Em seguida, ele enviou mais algumas mensagens que ela nunca retornou. Querendo chamar a atenção dela, resolveu entrar em contato via inbox no Facebook:

Grace você faz um ótimo trabalho ao deixar a luz da sua personalidade brilhar online. É hiperativamente lindo. E você parece ser bem introspectiva. Então o que eu quero saber é se você quer casar comigo em um desses lugares tipo drive thru. Se você não suportar toda essa espontaneidade eu entendo que posso estar me adiantando

Estou lançando um novo podcast e adoraria que você ouvisse e, se você gostar, eu amaria que participasse de um episódio

Você me ganhou quando postou aquele vídeo do kendrick lamar

Foi quando me dei conta de que você provavelmente é definitivamente uma alma especial (ou seja “a pessoa certa”) 🙂

Esse smile foi acidentalmente assustador

Grace, que nunca havia feito mais que curtir o primeiro tweet que ele enviou, e até então esse havia sido o único contato correspondido, respondeu com um simples e direto: “Oi Ben! Obrigada pelas palavras gentis, mas na verdade eu já tenho namorado. Espero que fique bem!”. Sentindo-se desconfortável com a insistência dele, ela bloqueou Ben nas duas redes sociais. Foi o suficiente para que ele se revoltasse e enviasse o seguinte email para sua caixa de entrada:

Grace,

Quando você me excluiu do Facebook tão sorrateiramente eu fiquei tão irritado e ofendido que escrevi um texto de 1500 palavras “te colocando no seu lugar”. Mas ao invés de enviar eu salvei como rascunho, já que é minha política não enviar emails quando estou me sentindo irritado, triste ou ferido. Eu quero saber porque você fez isso comigo. Você me parece uma pessoa bem esperta e divertida e as mensagens que eu te enviei foram uma tentativa de fingir ser seu fãzinho. Eu entendo como você pode ter achado que eu estava dando em cima de você. Eu lamento que tenha ficado essa impressão. A última coisa que eu queria era deixá-la desconfortável.Eu só queria quebrar o gelo porque te acho imensamente talentosa e acho que está sendo mal utilizada no seu emprego atual. Sou um escritor, programador e empreendedor. Estava tentando ser seu amigo pois acredito que poderia ajudá-la a avançar na sua carreira. Ao publicar seu trabalho eu melhoraria meus produtos com conteúdo de qualidade.

Essas portas não estão fechadas. Se você não está interessada em trabalhar comigo e se existe alguma outra razão além de você estar ocupada, eu gostaria de saber o porquê. Eu escrevi para você no Twitter para expressar minha genuína admiração e a maneira como você me mandou ir me foder genuinamente me magoou.

Eu queria ver se podia ajudar no seu futuro, já que você havia acabado de twittar que se sentira insegura sobre ele.

Espero que me dê uma segunda chance e possa ver que posso ser útil para você.

Mais uma vez me desculpe se te deixei desconfortável. Eu te admiro Grace e honestamente tenho tido dificuldades para dormir porque não sei o que fiz para te aborrecer tanto.

Espero sinceramente que você me responda.

Quando Grace decidiu expôr a história em seu perfil no Twitter, Ben tornou-se abertamente agressivo e chegou a afimar que Grace estava “naqueles dias”.  Tudo o que ela fez foi desvencilhar-se de um completo desconhecido fazendo uso de dispositivos que existem justamente para afastar pessoas que não desejamos ver em nossas redes sociais. A dificuldade em entender a rejeição e a perseguição que isso gerou fazem parte do pesadelo que uma mulher pode viver ao rejeitar um homem. É desse suposto direito sobre a mulher escolhida que nascem fantasias como a friendzone, uma espécie de purgatório para onde vão os “caras legais” que foram rejeitados por mulheres que – oh, a crueldade! – não queriam nada além da amizade deles.

A zona da amizade realmente existe, mas não há nada de errado em ter só a amizade de uma mulher. Não devemos sexo em troca de uma paixão que não desejamos viver. E, ainda que toda essa fantasia romântica tenha partido da cabeça do homem, as mulheres é que são vistas como malvadas por colocá-los na friendzone. Dizer não, ter uma opinião contrária, mais uma vez faz das mulheres as vilãs da história. No caso da Grace, ela ainda citou o fato de ter um namorado – uma manobra básica para tentar amenizar a decepção do homem, sendo uma desculpa para o fato de não poderem ficar juntos, mas também uma das únicas formas de conseguir o respeito instantâneo deles: associando-se a outro homem já que, se estamos sozinhas, nenhuma razão parece ser suficiente para dispensar o afeto masculino.

Perto dos muitos casos de violência contra mulheres que tentaram sair de relacionamentos, a história de Grace parece simples, mas ela apenas salienta o fato de que esse sentimento de direito dos homens sobre as mulheres permeia até as interações mais superficiais. Por baixo do receio que a mulher sente ao rejeitar as investidas de um homem, está o pavor de uma violência física, uma violação sexual, do uso da força como meio para ele conseguir o que deseja. Pode parecer exagero, mas é autopreservação. E, na manifestação do pior cenário possível, é a falta de cautela da mulher é que vai para o banco dos réus.

 

Virando o jogo
Para Sheryl Sandberg, COO do Facebook, autora do livro e fundadora do movimento Lean In, as mulheres não devem se envergonhar de ter ambição e assumir posições de liderança com assertividade e firmeza. Para ela, não apenas as pessoas devem se adaptar a ver mulheres líderes, mas as próprias mulheres devem se acostumar com essa posição. Ela não acredita que os homens sejam confiantes demais, apenas que as mulheres são confiantes de menos. No livro, ela conta sua trajetória em busca dessa confiança. Mesmo quando foi considerada a quinta mulher mais poderosa do planeta pela revista Forbes, ela ainda pedia desculpas pelo próprio sucesso e sentia uma forte necessidade de agradar os outros. Com tantos estímulos conflitantes durante toda a vida, essa não é uma conclusão a que se chegue facilmente. Por isso, além do livro, o site LeanIn.org incentiva as mulheres a se reunir, se educar e estabelecer uma rede de contatos que as fortaleça profissionalmente.

Particularmente, encontrar a própria voz, se fazer ouvir e não se deixar envergonhar pela própria opinião ou pelo espaço que ocupa no mundo são passos essenciais para o empoderamento feminino. Não é uma tarefa fácil. Afinal, trata-se de uma luta contra séculos de uma socialização que limita e silencia as mulheres. O resultado, porém, pode ser magnífico e recompensador. Nas palavras de Chimamanda Ngozi Adichie, em seu discurso na faculdade de Wellesley este ano:

“No mundo inteiro, as meninas são ensinadas a serem agradáveis, a se moldarem em formas que agradem outras pessoas. Por favor, não se modifiquem para agradar outras pessoas. Não façam isso. Se alguém gosta dessa versão sua que é falsa e te diminui, essas pessoas gostam de uma forma vazia e não de você. E o mundo é tão gloriosamente vasto, multifacetado e diverso que certamente existem pessoas no mundo que vão gostar de você como você é.

 

(…) Uma última coisa sobre minha mãe. Eu e minha mãe discordamos sobre muitas coisas quando o assunto é gênero. Existem algumas coisas que minha mãe acredita que uma pessoa deve fazer apenas “por ser mulher”. Como ocasionalmente acenar e sorrir, mesmo que sorrir seja a última coisa que se queira fazer. Como estrategicamente deixar de argumentar apenas porque a outra pessoa com quem se está discutindo não é uma mulher. Como casar e ter filhos. Eu penso que tudo isso pode ser feito por algumas boas razões, mas “porque você é uma mulher” não é uma delas. Então, Turma de 2015, nunca aceitem o “porque você é uma mulher” como uma razão para fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa.”

Felizmente, mulheres como a Cara, citada lá no início do texto, já aprenderam essa lição e não se curvam mais diante das expectativas alheias sobre o comportamento feminino. Ela é divertida quando se sente divertida e foi séria quando quis ser levada a sério. Aos pouquinhos, exemplos como o dela vão mostrando para o mundo que o valor de uma mulher não se perde quando ela é agressiva, tampouco reside apenas em seu sorriso. Seu conteúdo é o mesmo e merece respeito independente da forma como é expressado. As emoções femininas dispensam juízo de valor e cabresto. Nós somos muito mais que isso.


Arte: Marion Peck

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Quem não teria curiosidade em saber quem foi a mulher considerada “a dama das artes plásticas brasileiras”? E para nos instigar ainda mais, outros fatores de sua biografia que a fizeram/fazem uma mulher inspiradora para todas nós: chegando ao Brasil aos 23 anos, ela não deixou que sua condição de estrangeira a limitasse ou a impedisse de traçar o caminho que desejou; e, recém aos 40 anos, essa “imigrante comum” iniciou-se no mundo das artes plásticas contrariando clichês que, lamentavelmente ainda hoje existem em torno de nós mulheres: de ser estrangeira/imigrante/migrante em um país ou cidade novos e de quase não ter o “direito” de começar uma nova profissão/carreira após os quarenta anos de idade por ser considerada “velha” para o mercado de trabalho. Essa mulher tem um nome: Tomie Ohtake, a artista plástica nipo-brasileira que personificou muitas das reivindicações femininas (ainda atuais) como sua inserção e a conquista de respeito e reconhecimento por seu trabalho num campo laboral antigamente praticamente dominado por homens – é de se lembrar que Tomie Ohtake começou sua produção artística em 1952 em São Paulo. E ela soube conquistar e defender seu espaço e presença nesse ambiente através de suas obras escultóricas gigantestas, com proporções monumentais que desafiam a estaticidade elástica desses corpos, e sua contínua pesquisa com cores e texturas em suas telas, produzidos ainda quando ela cumprira seu centenário de vida.

Tomie Ohtake é/foi uma mulher inspiradora porque combateu com seu trabalho, e em proporções colossais, todos os fatores sociais e culturais que poderiam vir “contra” si e fez isso deixando muito bem marcada sua presença no cotidiano de milhares de brasileiros através de 27 obras públicas espalhadas por algumas cidades brasileiras. Milhões de pessoas passam ou veem diariamente as obras de Tomie, e inclusive as têm incorporada a sua paisagem urbana, sem se darem conta disso. E como não entender essa inserção discreta e definitiva da presença da artista em nosso cotidiano se não como uma forma de resistência permanente e provocativamente silenciosa aos “nãos” que uma cultura conservadora e machista procura nos obrigar a aceitar como regra? As obras de Tomie Ohtake protestam pela excepção a essa regra, à regra da convencionalidade, da estaticidade dos objetos e ordens naturais, do conforto e funcionalidade imediata das coisas ao nosso redor.

Quando um está chegando ou partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (São Paulo), exatamente no meio de um campo ao céu aberto encontra-se instalada uma enorme escultura em forma circular. Porém,  a escultura circular de Tomie Ohtake foge à regra geométrica de uma esfera que esperamos e conhecemos. A sua esfera nos seduz quer por seu vermelho intenso quer por suas dimensões inexatas, desproporcionadas, como se fosse um corpo celular disforme viesse ao nosso encontro, procurando nos atrair, capturar e tragar para dentro de uma dimensão determinada e conhecida somente por Tomie.

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Imagem: Escultura no Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo, 2008.

Essa poderia ser a primeira experiência de um observador distraído com as obras de Tomie Ohtake. Mas, passeando pela capital paulista, mais exatamente pela estação do Metrô Consolação ou passando pela Avenida 23 de maio, nos damos conta que a presença da artista está fortemente demarcada e compõe a paisagem urbana do cotidiano de milhares de pessoas, mesmo que essas não saibam ou ignorem a autoria das obras. O fato é que: Tomie está ali – e de forma colossal e permanente.

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Imagem: Estação do Metrô Consolação (São Paulo), 1991.

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Imagem: Escultura na Avenida 23 de maio (São Paulo), 1988.

Na cidade de Santos, litoral paulista, encontra-se no Parque Municipal Roberto Mário Santini outro exemplo da liberdade de criação da artista que impressiona o visitante pela leveza e movimento das placas metálicas que compõem a obra. Uma vez mais, suas esculturas (consciente e meticulosamente arquitetadas) brincam e põem em questão a massa, o volume, o peso, o tamanho, a forma e a cor das obras que cria. É como se as coisas que criava não tivessem paz – assim como na música homônima de Arnaldo Antunes “As coisas” – pois elas se encontram em um contraditório território de imobilidade elástica, em permanente movimento que, muitas vezes, parece nos buscar, nos envolver para dentro de si entre seus tentáculos.

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Imagem: Escultura no Parque Municipal Roberto Mário Santini (Santos, Estado de São Paulo).

 

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Imagem: Escultura na entrada do teatro do Parque do Ibirapuera, São Paulo, XX

Ao cumprir seu centenário em 2013 e em plena fase de produção, Tomie Ohtake inaugurou três exposições organizadas pelo Instituto Tomie Ohtake (www.institutotomieohtake.org.br), inaugurado em 2000 na capital paulista. Em uma delas, numa galeria de arte desta cidade, cerca de vinte quadros e esculturas inéditos produzidos pela artista entre 2011 e 2012 foram expostos e transmitiam ao observador uma impactante energia e vitalidade criativa da artista. A conhecida leveza e delicadeza de seu gesto e a mobilidade estática de suas esculturas voltaram a ser exibidas, como na obra abaixo (semelhante escultura também pode ser encontrada instalada em frente ao Museu de Arte Contemporânea da Cidade Universitária de São Paulo):

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Imagem: Escultura instalada na Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2013.

Suas telas comportam uma explosão de cores, de texturas, de gestos/pinceladas sobrepostos – resultado de uma constante investigação durante toda sua trajetória artística. Dependendo da proximidade ou da distância frente a suas telas, o observador é brindado com a visão de novas formas, temas e tramas tridimensionais que se mesclam simultanea e harmonicamente. Formas circulares, recorrentes na produção de Tomie Ohtake desde os anos de 1950, reincidiram em seus últimos trabalhos – numa espécie de encerramento do ciclo de um trabalho claramente projetado e investigado durante toda uma vida.

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Imagem: Quadro azul, acrílico sobre tela, 2012.

Assim como suas esculturas são caracterizadas por uma ação gestual linear muito bem marcada, suas telas demonstram uma exploração em limite máximo da potência das cores que cria uma textura particular, lograda através de diversas capas de acrílico sobrepostas. Essa materialidade possibilita a formação de imagens abstratas em permanente movimento, como se, assim como suas esculturas colossais, também buscassem capturar o observador para dentro de si. Novas formas (como círculos, arcos, elipses), novos planos, ondas tridimensionais, em uma organicidade quase selvática, saltam ao olhar do observador a cada nova mirada e somente possível através da potência e das gradações das cores primárias e secundárias.

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Imagem: Quadro verde, acrílico sobre tela, 2012.

Ao largo de sua produção, Tomie Ohtake revelou um permanente e meticuloso compromisso com a busca pelas propriedades cromáticas da veladura, transparência, irradiação e retração, assim como com a particular e harmonica tensão entre o gesto livre, o movimento delicado, a leveza linear e suas impactantes, imponentes e massissas esculturas em dimensões megalomaníacas. Através de suas pinceladas, ora carregadas de tinta ora trabalhadas na transparência, a artista não limitou o uso espacial de suas telas. Ao contrário, ela as utilizou bem mais como metáforas do que “ainda está por vir”, já que oferecem ao observador uma leitura aberta que, a cada nova mirada, descobre novas formas e imagens no emaranhado abstrato fomentado pela potência de suas cores. Através de suas obras, Tomie Ohtake nos inspira porque são uma resposta inconvencional, sensata e sensível às convencionalidades clássicas que estamos acostumados e esperamos de esculturas e pinturas. Como mulher, Tomie segue nos inspirando, ainda que tenha partido no dia 12 de fevereiro, porque concretizou em si a quebra de paradigmas sociais que poderiam tê-la reprimido a realizar seus desejos e projetos; porque sua resposta às convencionalidades sociais foi trabalhada metaforicamente de forma contínua ao largo de mais de sessenta anos de produção e em formatos colossais, para que aqueles que buscam justificá-las ou defendê-las não possam ignorar por completo a delicada, massissa e monumental resistência que essa mulher inseriu em seus cotidianos através de suas esculturas nada convencionais.

 


 

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens exibidas neste artigo foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake (esculturas públicas) e pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara (quadros azul e verde de 2012). A imagem da escultura linear fotografada num espaço interior pertence à autora do texto.

 

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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politicas

Janete Rocha Pietá, 68 anos, conheceu seu marido, Elói Pietá, na política. Juntos, eles lutaram contra a ditadura e ajudaram a formar o Partido dos Trabalhadores (PT). Certa vez, nos anos 1980, Janete era presidente do PT em Guarulhos e tinha como missão articular o partido e a bancada, enquanto seu marido era vereador. Só que quando outros políticos do partido ligavam para os Pietá para discutir a articulação, poucos procuravam Janete. Mesmo que não fosse a responsabilidade de Elói, eles procuravam o homem da casa para discutir política. Essa história de Janete, além de outras que mostram o preconceito que sofreu por ser, além de mulher, negra, é um pequeno exemplo da tradição política brasileira de segregação. Ainda hoje, mais de 80 anos depois da conquista do voto feminino, as mulheres são minoria nas esferas de poder e impera o pensamento de que elas não pertencem à política. Enquanto isso, as que fazem questão de pertencer enfrentam preconceito, assédio, exclusão dos grupos de decisão e do financiamento de suas campanhas, além de uma inclusão de fachada movida por oportunismo.

Mas por que, mesmo, as mulheres precisam estar no poder? Um motivo é representatividade, importante porque as mulheres são 52% dos eleitores brasileiros, ou 74 milhões de eleitoras que vão eleger um congresso praticamente 90% masculino, com poucas opções de candidatas em relação a candidatos. Em segundo lugar, as brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932, mas este não é o único direito político das mulheres – acesso a cargos políticos também o é.

Em terceiro lugar, ter mais mulheres no poder não significa necessariamente mais propostas  feministas, mas certamente há uma probabilidade maior da situação das brasileiras entrar em pauta. Mas tomemos o exemplo do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para despenalização do aborto, um problema de saúde para cerca de um milhão de mulheres que abortam anualmente no Brasil. O projeto está em votação pública e online no site Vote na Web, e o resultado até o fechamento desta reportagem mostra 57% de aprovação geral, com 71% de aprovação feminina e apenas 40% de aprovação masculina. Se os brasileiros em geral tivessem o poder de decidir através de uma votação online se o aborto deve ser crime ou não, já temos a resposta. Se as mulheres pudessem decidir sobre seu próprio corpo então, nem se fala. No entanto, vivemos em uma democracia representativa, em que nossos representantes decidem as leis por nós. Só que 90% desses representantes são homens brancos, muitos deles empresários. E eles não querem largar o osso.

Internacionalmente, o Brasil é aclamado por ter uma presidente mulher, enquanto tantos países de tradição democrática, como Estados Unidos e França, por exemplo, nunca tiveram uma. Na prática, ter uma presidenta reeleita tem efeitos meramente simbólicos, já que as mulheres são minorias em todas as instâncias políticas, mesmo compondo 51% da população. Na Câmara de Deputados, elas representam 8,8% das cadeiras; no Senado, 9,9%; nas Prefeituras, 12% e nos governos estaduais, 3,7% (na verdade, apenas uma mulher foi eleita dos 27 estados brasileiros). Esses números constrangedores colocam o Brasil em 120º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) que mede o índice de mulheres nos parlamentos, perdendo até para países islâmicos.

Há uma série de fatores para uma participação feminina tão limitada, que vão desde o conceito de que a responsabilidade do lar e dos filhos é da mulher até a falta de investimento financeiro. Mas uma das mais citadas entre especialistas é a resistência dentro dos partidos políticos – absolutamente todos eles. “Nas direções nacionais não temos nenhuma mulher presidente de nenhum partido. Quem decide quem vai ser candidato? Nos últimos anos, as mulheres têm representado 64% das pessoas que se filiam a partidos. O que não há é tradição e cultura de que as mulheres devem ocupar esses espaços. Não basta ser filiada, não basta ser candidata, é preciso estar dentro do poder de decisão”, disse Rose Scalabrin, Secretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, no painel Pequim +20, uma série de debates realizados em 14 de abril deste ano sobre a participação feminina na política 20 anos depois da IV Conferência sobre as Mulheres, realizada na capital chinesa.

 

Filme de terror

Em sua fala, Scalabrin disse que o sistema brasileiro de cotas se mostrou ineficiente nessas últimas duas décadas e que a reforma política, para ser eficaz, precisa englobar os partidos, para que a forma como as decisões são tomadas e os recursos são geridos seja transformada. “Muitas mulheres saem literalmente traumatizadas de uma campanha eleitoral, saem tão fragilizadas que não querem nem saber de partido político. E justamente por estarem em baixíssimos numeros em outros lugares que geram capital politico, como ministérios e secretarias, elas dificilmente têm uma base para começar. Elas têm medo de se envolver nesse jogo do financiamento, as empresas não confiam nelas porque geralmente os caciques que vão resolver as questões e elas não são recomendadas pelos partidos como candidaturas prioritárias”, explica.

Segundo Karina Kufa, advogada especialista em direito eleitoral os partidos dizem que não encontram mulheres com interesse na política. “Em parte, acho que é verdade. Tem mulheres com interesse, outras com medo, receio, falta de interesse. Então é preciso buscar essas mulheres que querem, e essa iniciativa tem que ser dos partidos. Os partidos têm que criar mecanismos para filiar mulheres, apresentar uma plataforma, usar verba do fundo partidário para formar essas mulheres e qualificá-las para a política”, diz Kufa.

Janete Pietá, que está no PT desde sua fundação, sente que a resistência às mulheres tem crescido nos últimos anos. “Eu sou de uma geração que lutou contra a ditadura, que nos anos 1970 fez toda uma movimentação no sentido de buscar nossos próprios caminhos e igualdade de direitos. Eu sinto que hoje existe um conservadorismo muito grande, inclusive no próprio PT, onde existe muita resistência na questão de paridade. Se não mudarmos a concepção de que mulher é um ser de segunda categoria, não adianta. Acho que temos que ampliar as políticas públicas, primeiro mostrar que a responsabilidade do filho não é só da mulher, é do casal. Por que só a mulher leva o filho ao médico? Por que creche só em locais de trabalho em que trabalham mulheres? Temos que avançar muito nas políticas públicas”, afirma a ex-deputada.

Afinal, as cotas de 30% das candidaturas dos partidos para as mulheres, obrigatória segundo uma lei de 1997, dificilmente são preenchidas de maneira honesta. “A saída que os partidos acabaram arranjando: desses 30%, algumas são esposas de candidatos que não têm interesse em se eleger, mas emprestam o nome só para cumprir a cota, outras são conhecidas, funcionários do partido e pior, servidores públicos. Quando vai se candidatar, o servidor pode tirar licença remunerada, então algumas mulheres tiram a licença para se candidatar, mas não se envolve na política, não vai atrás de voto e nem ela mesma vota nela. Esse ponto é preocupante porque isso é uma fraude eleitoral e improbidade administrativa porque você está recebendo dinheiro público sem prestar serviço com a desculpa de que é um benefício que a lei confere”, afirma Kufa.

Aí entra outra cota que foi aprovada com a pressão do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres: 5% do total do fundo dos partidos deve ser investido na formação política da mulher (o pedido inicial era de 30%). Ou seja, esse dinheiro deveria ser investido na capacitação das mulheres que vão compôr os 30% das candidaturas para que a votação nelas seja viável, desde cursos de oratória ou de marketing político, por exemplo. Na prática, isso raramente ocorre, segundo Kufa. “Um partido recebe um valor x de fundo que é do dinheiro público, e 5% do total tem que ser investido em mulher. Vamos supor que um partido tenha 5 mil por mês para gastar com mulher, só que ele não gasta. No ano seguinte, vem a penalidade e ele tem que gastar 7,5 mil para não ter a conta rejeitada. Os partidos estão deixando as contas serem rejeitadas, estão recebendo essa penalidade e ignorando”, afirma.

Ou seja, a política de cotas definitivamente não resolve o problema, com tantos outros obstáculos pela frente. “Você fala com mulheres com nome, credencial referência e pergunta se ela quer ser candidata. Ela fala ‘não quero porque é um filme de terror’. Política de cotas sem condições não leva a nada. Se só está na lei, vemos o resultado, quais são as mulheres nos espaços de poder que discutem a situação das mulheres?”, questiona Muna Zeyn, membro da Rede Feminista e presidente do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres durante o começo dos anos 2000.

 

Pele de rinoceronte

Várias décadas atrás, a antiga primeira-dama dos Estados Unidos disse que “se as mulheres querem estar na política, precisam criar uma pele tão grossa quanto a dos rinocerontes”. Ainda hoje, as mulheres que estão na política sentem a necessidade de se camuflar na pele de rinocerontes, imitando comportamento dos homens – ou aguentando a pressão. Luciana Genro, candidata à presidência em 2014 pelo PSOL, por exemplo, sentiu na pele a jornada tripla de trabalho que a militância política lhe exigiu. “As mulheres ainda são vistas como as maiores responsáveis pelo lar e pelos filhos, o que dificulta muito a participação política da mulher. Não é casual que a maior parte das mulheres que tem algum tipo de sucesso na política têm alguém da família na política porque a nossa cultura é muito machista e é muito difícil o marido aceitar que a mulher saia para uma reunião à noite e ele fica em casa fazendo janta e cuidando dos filhos. É muito difícil conciliar essa tripla jornada, a de trabalho normal que todos têm com a jornada de trabalho doméstico e um terceiro turno da militância política. Isso é um obstáculo muito crítico para as mulheres”, afirma.

A impressão de Genro é sentida por outras políticas também, independentemente do partido político. Mara Gabrilli (PSDB-SP) sente preconceito na Câmara de Deputados, onde atua. “Existe um preconceito muito grande, mesmo na Câmara, com mulheres em cargos de direção. Para mudar isso, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou no mês passado, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição 590/06, que garante a presença de, ao menos, uma mulher nas Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados, do Senado e das comissões de cada Casa. A proposta segue para ser debatida no Senado”, disse.

Para Marcela Trópia,  vice-presidente regional na Juventude do PSDB Minas Gerais, as dificuldades são parecidas com as que as mulheres em geral vivem no mercado de trabalho. “Sua capacidade sempre é questionada, se quer desenvolver algum projeto, só há espaço no segmento de mulheres para que isso ocorra, sua candidatura não terá outra bandeira que não a feminina e a sua presença sempre parece ser lembrada por que falta ‘mulher’ na mesa, em um tom de que falta uma parte bonita na mesa e não de que realmente deveríamos compô-la porque precisamos de representatividade nas decisões”, conta.

É possível entender um pouco melhor os obstáculos das mulheres na política na aba “mulheres do site Meu Congresso Nacional, um site sem fins lucrativos que apresenta dados governamentais em um formato acessível. Ou seja: gráficos. Através deles, vemos que a média de doações totais para candidatos é maior do que para as candidatas, mas a média de doações dos eleitos – de ambos os sexos – é quase igual. “Dado igualdade de financiamento para homens e mulheres, a taxa de eleitos é praticamente a mesma. Mas eu não acredito que o problema principal seja o financiamento de campanha e sim a estrutura da política brasileira, que privilegia a reeleição. Independentemente do gênero, o principal fator para se eleger é ser reeleito”, diz Kellyton Brito, engenheiro de software e criador do Meu Congresso Nacional. De fato, a maioria das deputadas (e dos deputados) eleitas já estavam no Congresso. Mas os homens se reelegem muito mais que as mulheres: quase 60% deles, contra 40% delas.

 

Muitos problemas, poucas soluções

A bancada feminina do Congresso está discutindo meios de colocar a causa da participação política das mulheres na reforma política, segundo Kufa. Se a reforma política vingar e o sistema eleitoral mudar para lista fechada, a movimentação será pela lista com alternância de gênero. Nesse caso, os partidos apresentariam uma lista com ordem de classificação definida internamente com homens e mulheres candidatos para vereadores e deputados estaduais e municipais. Os nomes da lista mais votada seriam eleitos. Há ainda outra proposta, uma reserva de 30% dos cargos em disputa para as mulheres, semelhante ao sistema de cotas das universidades. Ou seja, 70% das vagas é para todos e 30% é só para mulheres, independentemente do número de votos. Isso significa que 30% do Congresso seria representado por mulheres.

Luiz Felipe Miguel, coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades da UnB, vislumbra alternativas interessantes. “Nosso modelo de cotas é muito pouco efetivo, mas isso não quer dizer que podemos abandonar esse modelo. Precisamos aprimorar esse modelo, pensando em propaganda eleitoral, dinheiro para campanha, cotas nas direções partidárias (uma questão complicada porque mexe com autonomia do partido), cotas no poder executivo, na ocupação de primeiro escalão”, disse ele no painel Pequim +20. Miguel lembra que, ao ser eleita, Dilma Rousseff prometeu que um terço dos ministérios seriam chefiados por mulheres, o que não apenas não foi cumprido, como o número de mulheres foi minguando, já que os partidos querem indicar homens, segundo o especialista. De acordo com ele, a capacitação das mulheres não pode ser vista como a grande solução. “Talvez o caminho não seja fazer com que mulheres sejam capazes de mimetizar o comportamento da elite política masculina. É mais interessante se permitir uma mudança do comportamento com novas formas de fazer política”, disse.

Já Karina Kufa acredita no empoderamento como chave para essa mudança, no caso um núcleo de apoio à mulher com um telefone 0800 para dúvidas e atendimento durante a campanha, uma rede além do partido que as oriente sobre como buscar recursos, apresentar plataformas e que explique quais são seus direitos e deveres. “Empoderar as mulheres é o caminho”.

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população”, disse, oito décadas atrás, Bertha Lutz (1894-1976), referência do movimento sufragista brasileiro, uma mulher que lutou pelo direito feminino ao voto. Depois de conquistar o direito ao voto, Lutz se tornou deputada na Câmara Federal e defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e menores de idade – assuntos tão atuais -, propondo a igualdade salarial, uma das várias realidades que não alcançamos ainda hoje. Fingir que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens na política é apenas uma maneira encontrada para negar justiça à metade da população brasileira em pleno século XXI.

 

O que elas têm a dizer

Conheça as experiências com o machismo de sete mulheres que, apesar dele, abraçaram a carreira política.

janete pieta

“Eu fui num evento no Ministério da Justiça. Sempre que tinha eventos assim, ainda no segundo governo Lula, vamos no credenciamento e os deputados têm reserva, um espaço para eles. Aí a moça estava de cabeça baixa escrevendo e eu disse ‘senhora, eu sou deputada federal’. Ela nem levantou a cabeça e falou ‘vai para outra mesa, autoridades é ali”, aí tudo bem, eu estava indo e ela me olhou e disse ‘mas a senhora é deputada federal?’. Eu falei ‘sou, por que, você tem dúvida?’. Ela disse ‘ah, eu nunca lhe vi’, e eu respondi ‘mas é impossível você conhecer os 513 deputados’. Aí ela olhou e disse ‘ah, tá bom, vai vai vai’. Foi horrível porque muitas vezes os deputados vão com os assessores, eles que pegam o crachá no credenciamento e eu não, fui sozinha e quando eu cheguei lá me deparei com isso. Eu sou a primeira deputada eleita pelo PT assumidamente negra, nunca tive um espaço especial no partido por causa disso. Mas sofri vários tipos de preconceito enquanto mulher negra.

O grande problema do racismo é que quem vive, sente, depois quando você conta, as pessoas falam “não é bem assim”. Quando eu tomei posse como deputada federal, eu não sabia que existia elevadores para os parlamentares e elevador do povo, em janeiro de 2007, cheguei no elevador e a ascensorista falou “esse elevador é para parlamentares, a senhora se dirija ao outro elevador por favor”, de uma forma muito agressiva. Aí tudo bem, fui para o outro lado, era parlamentar nova, não tinha boton. Quando eu voltei, com o Vicentinho, ele disse ‘daqui pra frente, Janete, você deve usar esse elevador’ e era a mesma ascensorista. Então ela me falou ‘me desculpe, é que são ordens’, eu disse ‘tudo bem, mas a forma como você me tratou foi muito rude’.

 

luciana genro

Quando cheguei na assembleia legislativa como deputada aos já aos 24 anos filha de um político conhecido, além de ser mulher e jovem, eu ainda era filha do Tarso. Eu sentia uma desconfiança deles no ar de que ‘essa menina só chegou aqui por causa do pai dela’. Tive que trabalhar dobrado pra provar que eu tinha minha própria trajetória e minhas próprias ideias políticas. Eu também sofri muito preconceito por ter tido divergências políticas com meu pai, muitas pessoas me cobravam ‘como tu vai contra o teu pai?’. Como se fosse um crime a filha ter uma divergência com o pai, como se fosse obrigação de toda filha dizer amém para tudo o que o pai pensa. Hoje não mais, mas até alguns anos atrás eu ainda escutava essa frase, que é bem machista e patriarcal, dizendo que uma filha não pode, em hipótese alguma, ter um pensamento independente.

 

marcela tropia

“Para que você, como mulher, tenha se projetado politicamente, todos pensam que você se envolveu intimamente com algum homem poderoso, que seu pai é um homem poderoso ou que você tem muito dinheiro para isso, não parece haver um motivo óbvio para você estar lidando com política. O meio é majoritariamente masculino e extremamente intimidador. Não consigo ir de vestidos às reuniões, a cada amiga ou conhecida que eu levo para participar, após as reuniões, já começa a receber cantadas virtuais e um assédio enorme se inicia.

Aconteceu comigo quando entrei, bem nova, aos 16 anos e eu acabei namorando alguém de dentro do PSDB, ele hoje é deputado, mas sempre me respeitou nas minhas ambições políticas e até terminamos para que cada um seguisse seu caminho público. Se eu tivesse me envolvido com qualquer outro, talvez a história fosse bem diferente, como vi acontecer com várias amigas. Se você se envolve, é uma ‘puta interesseira’, se você não se envolve é ‘sapatão’ ou ‘mal amada’, “bruxa”. Hoje, já não sei qual minha classificação.”

 

patricia bezerra

“Passei por uma situação na Câmara, logo nas primeiras semanas de trabalho. Eu estava chegando, tudo pra mim era novo e estava tentando lidar com o tal ‘regimento interno’ que dita as regras para o funcionamento das sessões e de todas as atividades da casa. Na ocasião estava sendo votado um projeto do qual eu discordava e sempre vi ser praticado um ‘voto contrário’ no plenário.  Por observação, precedência e legitimidade, ao término da votação fui ao microfone e declarei meu voto contrário àquele projeto. Do chão emergiu um vereador que veio ao microfone e contestou minha atitude dizendo que não era ‘regimental’ o meu pedido e emendou: ‘Aí vem a vereadora aqui e nhen nhen nhen…’ Me arremedou sem nenhuma cerimônia!  Fui ao microfone e disse que não admitiria ser arremedada por quem quer que fosse e que naquele espaço eu era tão vereadora e tão parlamentar quanto ele. Nunca mais fui desrespeitada por ele, ao contrário. Infelizmente, por vezes temos de mostrar os dentes.”


ana amelia

“As mulheres estão muito mais fortes em carreiras de estado, como poder judiciário e polícia federal, profissionais liberais também, medicina, direito, engenharia e as empresárias também, há muitas bem sucedidas. Nas áreas em que ela é cobrada pelo seu desempenho ela está indo muito bem, enquanto na política não, porque ela depende de vários fatores.

Em geral, a dificuldade é de acesso a recurso do partido, o espaço dentro do partido, as condições de tratamento privilegiadas porque ela entra em um lugar onde já está ocupado o espaço, tem o vereador, o cara que é prefeito e quer levar um filho, embora no RS isso não seja muito comum, vão se formando feudos e aí fica mais complicado para a mulher. Partido político tem que insistir muito nesses segmentos.”

 

 

mara gabrilli

“Acho que minha maior dificuldade foi iniciar o debate de um tema (da pessoa com deficiência) que era considerado tabu e muito pouco debatido pelo poder público. Meu trabalho foi dar visibilidade às pessoas com deficiência, à importância da acessibilidade e de uma cidade construída para todos. A partir do momento que esses temas passaram a fazer parte da agenda pública, em todas as suas esferas, comecei a ser respeitada, dentro e fora do partido. Afinal, é um tema suprapartidário, que independe de sexo, e que diz respeito a todos nós.”

 

manuela davila

“Eu comecei a fazer política muito jovem, eu agregava as causas de preconceito no nosso país: questões de juventude, de gênero, questão ideológicas, por ser uma mulher de esquerda. Eu sempre fui uma das poucas que não tinha marido, pai ou alguma figura masculina ligadas à política, que desse aquela respeitabilidade que Brasilia esta acostumada . Então, foi um caminho muito difícil , de provar permanentemente a capacidade, as mulheres tem que provar sua capacidade de maneira repetida, muito mais que os homens. Isso foi fazendo que eu adquirisse cada vez mais consciência da desigualdade de gênero. No ambiente da universidade, do movimento estudantil, esta nunca foi uma pauta central da minha atuação. A realidade foi me impondo uma noção cada vez mais profunda de como a gente vive a desigualdade de gênero no nosso país. E foi isso que foi construindo minha militância nesta área.”

 


Arte: Ester Aarts

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Instintivamente e de forma quase cíclica, buscamos sempre fazer uma análise ou uma retrospectiva de acontecimentos e experiências que de alguma forma nos marcaram ou nos ensinaram algo novo ou distinto do que estávamos acostumados. Obedecendo a esse impulso e relembrando as exposições de artes plásticas que vi nos últimos tempos, devo confessar que uma das mais belas que visitei foi a da carioca Cristina Canale (1961) na galeria que a representa em São Paulo.

Não foi somente a potência das cores e a combinação de elementos figurativos, usados para representar seres tal como são percebidos por nosso olhar, com elementos abstratos geométricos, usados como recurso para compor a ambientação entorno de tais seres, que me chamaram a atenção nas pinturas mais recentes (2013-1014) de Cristina Canale. Como também a representação predominante de figuras femininas que caracterizaram sua última mostra individual no Brasil, “Entre o ser e as coisas”,  e cujos quadros foram trazidos especialmente de seu atelier em Berlim – cidade onde reside e produz há mais de vinte anos.

Anjo

Imagem: Anjo, 2004.

Técnica: óleo sobre tela, 200 x 300 cm

 

Cristina Canale, que se firmou no cenário artístico brasileiro juntamente com outros artistas jovens de sua geração (como Leda Catunda, Beatriz Milhares, Adriana Varejão, Daniel Senise ao compor o grupo “Geração 80” cuja proposta era uma nova arte em oposição à racionalidade conceitual das artes plásticas dos anos 1970 no país), encontrou em sua mudança para a capital alemã em 1993 condições perfeitas para a firmação de um estilo singular de pintura que ilustra uma tensão entre o ser e as coisas, entre a cultura e a natureza. Em sua página web (www.cristinacanale.com), podemos observar com muita clareza esse câmbio em sua produção entre os anos de 1980 e 1990. Contudo, a própria artista afirma que em todo o seu fazer artístico sempre teve como carro-chefe o elemento da contradição: a contradição da mescla de elementos abstratos com figurativos e que provoca uma certa tensão, um estranhamento inicial no olhar do observador. Esse estranhamento surge do fato de que o observador não logra classificar as pinturas da artista como arte puramente abstrata nem estritamente figurativa. Com isso, Canale o leva a perder seus estigmas, suas certezas, seu costume de classificar o mundo no campo da subtração, do “isso ou é x ou y”. As obras da artista conduzem o observador ao campo da adição, do “isso é x e também é y”, e, com isso, desestabiliza o que ele considerava essencial e necessário para entender de forma taxativa a arte.

Esse gesto de desestabilizar o que consideramos necessário e essencial para entendermos o mundo ao nosso entorno nos obriga a exercitar (ou despertar) nossa capacidade de readaptação e autocrítica diante de algo inesperado que coloca em xeque-mate aquilo que antes considerávamos como essencial ou como nossa zona de conforto. Nesse aspecto, podemos citar um trecho do romance A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector que combina perfeitamente com essa ideia/necessidade de readaptação/mudança de parâmetros causada pelo surgimento de uma situação nova e surpreendente: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.

Menina e vento

Imagem: Menina e vento, 2013.
Técnica mista, 200 x 200 cm

 

Cristina Canale não somente desarma o “tripé estável” do observador com suas pinturas, como também o conduz a um campo intermediário, um espaço “entre” elementos figurativos femininos e espaços geométricos, entre o mundo inteligível das ideias e o mundo material sensível. Captados pelas potentes e intensas cores da paleta da artista, figuras e rostos femininos em primeiro plano fundem-se sutilmente às formas geométricas no fundo das telas através de uma organicidade simétrica. Com isso, uma delicada e inebriante trama, cuja temática remete diretamente ao universo feminino, encontra-se retratada em enormes quadros onde a potencialidade das cores abriga uma dinâmica e híbrida justaposição entre o figurativo e abstrato, entre o uso de motivos tradicionais da pintura, como retratos de mulheres e anjos, e a fragmentada linguagem pictórica própria de Canale que nos remete a mestres da pintura impressionista como Henri Matisse e Gustav Klimt.

 Damas

Imagem: Damas, 2013.

Técnica: acrílica sobre tela, 140 x 165 cm

 

Na obra acima encontramos um elemento constante na produção dos últimos vinte anos de Cristina Canale: rostos femininos. Porém, esses rostos não estão pintados detalhadamente ao ponto de nos facilitar o reconhecimento da singularidade ou da identidade das mulheres retratadas. As figuras femininas têm rostos aparentemente mal  acabados, como se estivessem recém-esboçados, esfumaçados apenas; mas isso é um ato consciente da artista que prefere que suas mulheres não sejam reconhecidas ou definidas por um aspecto em particular. Essas mulheres levam no lugar do rosto uma espécie de “máscara”, e assim como a palavra “máscara” deu origem ao significado de “persona”, elas passam a representar em si pessoas femininas em sua totalidade.

Sendo assim, não poderíamos interpretar esses rostos propositalmente “não-reconhecíveis” e, aparentemente, sem uma identidade particular como máscaras que comportam de forma universal o retrato de múltiplas mulheres, de todo um gênero? Essas máscaras-rostos não poderiam ser analizadas como retrato do gênero feminino em sua essência e, em uma potência maior, capaz de alcançar e retratar a todas nós simultaneamente e sob uma só forma? E não seria essa a nossa busca atual: que as lutas e as conquistas de todo gênero feminino sejam retratadas e gozadas individualmente por cada mulher e vice-versa?

Segundo a própria artista, sua intenção ao retratar rostos sem traços distintivos seria de permitir que o observador preenchesse as difusas faces com os rostos femininos que preferisse e tivesse em sua mente. Uma vez mais, Cristina Canale tem a habilidade de desestabilizar o olhar de seu observador, de quitar-lhe a terceira perna do tripé estável de seu comodismo ou de sua zona de conformo, e de levá-lo a um espaço intermediário, um espaço entre o que está realmente retratado pela pintura e o que ele, com sua percepção e experiências próprias, enxerga nelas. A artista abala suas certezas através de sua sutil e delicada subversiva tensão entre o figurativo e o abstrato, entre o ser e as coisas.

Medusa

Imagem: Medusa, 2013.

Técnica: óleo sobre tela, 90 x 100 cm

 

 


Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens deste texto foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara.

Para mais informações sobre a artista e suas obras: www.cristinacanale.com

Na página web da Galeria Nara Roesler tanto imagens da exposição “Entre o ser e as coisas” quanto seu catálogo podem ser visualizados:

www.nararoesler.com.br/exhibitions/34/

A citação do romance “A paixão segundo G.H.” provem da edição de 2009 da Editora Rocco, páginas. 9-10.

 

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Uma das grandes frustrações de boa parte das mulheres é lidar com tanto machismo nos meios de comunicação. Filmes, séries, livros, jornais e tantos outros produtos midiáticos colaboram na reprodução de discursos degradantes para as mulheres – e, infelizmente, em grande parte pela falta de mulheres em posições de poder na indústria do entretenimento, os maus exemplos ainda são maioria.

Para mudar essa realidade, algumas mulheres colocam mão na massa e se tornam, elas mesmas, produtoras de conteúdo de qualidade para o gênero feminino. Erika Lust estava na faculdade de ciências políticas quando assistiu a um filme pornô pela segunda vez na vida, com seu namorado, e não gostou do que viu – mulheres com corpos irreais, subjugadas a fantasias masculinas em roteiros estapafúrdios. Tudo muito fake e, na sua opinião, nem um pouco excitante. Foi quando ela decidiu trocar sua carreira de cientista política para se tornar diretora de filmes pornôs feministas.

Erika lançou seu primeiro filme, The Good Girl, em 2004, como parte de uma antologia de cinco curtas que ganharam diversos prêmios internacionais. Com o sucesso de sua empreitada, ela pôde fundar a Lust Films, uma produtora pornô dedicada a produzir filmes de alta qualidade. Atualmente, ela se dedica ao projeto XConfessions, no qual coleta fantasias enviadas anonimamente para o site do projeto e as transforma em pequenos filmes eróticos. Ela já lançou livros sobre o tema e acredita que o cinema pornô também é um espaço de empoderamento feminino, já que esses filmes representam, para ela, a educação sexual contemporânea.

Erika Camera Balcony

A que você credita o fato da pornografia feminista ser tão pouco conhecida e frequentemente tratada como uma novidade? Como tornar esse gênero mais popular? E como você acha que essa popularidade ajuda a mudar o momento social que estamos vivendo atualmente?

Eu diria que o erotismo feminista é um gênero que está crescendo em uma indústria dominada por homens. Hoje em dia a internet permite que projetos indie ganhem popularidade de maneiras que inimigináveis no passado. Ao mudarmos a imagem da pornografia, recuperando a sexualidade feminina como expressão artística, a maneira como as pessoas percebem as formas femininas na mídia também muda, criando assim uma imagem mais honesta e moderna das mulheres. Há vários grupos trabalhando pelo direito das mulheres de se expressar da maneira como elas quiserem.

 

Recentemente o Reino Unido baniu uma série de atividades sexuais em filmes pornográficos por serem considerados perigosos. Não apenas a censura do banimento é problemática, mas também o fato de que a maior parte dos atos proibidos eram mais prazerosos para a mulher do que para o homem. Por outro lado, a competitividade da indústria pornográfica tem desafiado os limites ao exibir cenas cada vez mais extremas, como gang bangs (tipo de orgia na qual uma mulher é o foco de vários homens) com centenas de participantes e prolapso retal (quando as paredes internas do reto entram em colapso e escorregam para fora do ânus após práticas extremas de sexo anal). Nesse cenário, onde fica o limite entre censura, liberdade e fantasia em filmes adultos?

A censura faz sentido se você está exibindo material muito forte e sensível. Eu acredito que a censura é muito útil quando o que vemos é violência, discriminação, maus tratos, machismo, abuso, ofensas contra a humanidade exibidas de maneira lúdica com propósitos comerciais. Eu não acho que o sexo e a sexualidade humana se enquadrem em nenhuma dessas categorias. Se o ato sexual hoje em dia é considerado pior que intensa violência gráfica e explícita, então tem algo de errado com o sistema de educação sexual, a mídia e o mundo.

 

Na sua palestra “It’s time for porn to change” (Tá na hora do pornô mudar) no TED, você fala sobre como a pornografia é a atual educação sexual e que “o sexo pode ser sujo, mas os valores devem ser limpos”. Como você acredita que a pornografia pode ajudar a construir esses valores sob uma luz positiva? Isso tem alguma coisa a ver com a sua decisão de não filmar cenas de anal?

Eu acredito firmemente que a pornografia pode ser uma ferramenta educacional. Hoje em dia o acesso à internet e à imagens explícitas são a primeira e principal fonte de informação dos adolescentes sobre sexo, antes mesmo que eles o tenham praticado. Não podemos evitar isso, está acontecendo. E proibindo, envergonhando e marginalizando a ideia de imagens explícitas sobre sexo só piora tudo. Nós temos que mudar a qualidade da pornografia, os valores por trás dela, para que os jovens não aprendam ideias de objetificação, derespeito e violência dela. O sexo dos filmes pornô tradicionais está longe da realidade, mas as crianças começam a acreditar que é assim que se faz sexo: que as mulheres atingem o orgasmo em qualquer posição que você quiser, estão sempre prontas para fazer sexo anal e absolutamente encantadas pela ideia do cara ejacular na cara delas.

A verdade é que mulheres gostam de sexo tanto quanto homens. Sexo é sobre experimentação, diversão e sacanagem! Isso não precisa mudar, o que precisamos é compatibilizar a sacanagem exibida nos filmes com respeito próprio, poder de decisão, consciência, intimidade e valores.

 

Como é para você, rotineiramente, reinventar um novo olhar sobre esse gênero? Você sente que deve estar sempre atenta para não cair de novo na abordagem tradicional, hábitos a evitar, ou isso é natural para você? Uma mulher dirigindo ou produzindo um filme pornô é suficiente para quebrar o paradigma? Por quê?

Os filmes adultos que faço têm uma pegada mais cinematográfica, e pelo aumento da qualidade da produção, o produto final se torna mais que um filme pornô padrão, ele se torna arte. Eu faço erotismo indie. Para quebrar os paradigmas da indústria pornô precisamos de mais mulheres escrevendo, dirigindo e produzindo. Precisamos incrementar os valores que defendem o empoderamento feminino e tomar de volta o controle do que queremos que seja feito com nossas fantasias e desejos.

 

Ativistas anti-pornografia como Shelley Lubben, da Pink Foundation, criticam as condições de trabalho dos atores, especialmente as atrizes. Em uma indústria tão machista, pouco regulada e por vezes despreocupada com questões de saúde, quais são as preocupações da Lust Filmes com a saúde e bem estar dos seus atores?

Aqui na Lust Films colocamos a segurança em primeiro lugar, trabalhamos com profissionais. Nós providenciamos que todos os nossos atores e atrizes façam um check up médico completo. Trabalhos com escalas que funcionam para ambos, e garantimos que todas as condições estejam favoráveis para quem está filmando pela primeira vez e para que os mais experientes se sintam confortáveis e também se divirtam.

 

Como você acredita que assistir pornografia, sozinho ou acompanhado, pode ser empoderador? Você tem algum exemplo de como esse empoderamento foi alcançado por meio desse tipo de intimidade?

Eu acho que filmes pornô podem ser aproveitados tanto juntos quanto separados, já que ajuda na criatividade e renova o desejo sexual. Se feita corretamente,  a pornografia pode ser uma declaração sobre prazer e sexualidade femininas. Pode melhorar o desejo sexual entre os casais e mostrar para as mulheres que é OK gostar de sexo, saber do que gosta e pedir por isso. Assim como a se darem conta de que elas são donas dos seus corpos e, sendo assim, de sua sexualidade. E que tudo bem sentir, gostar e fazer seja lá o que você queira sem ser julgada.

 

No projeto XConfessions, usuários escrevem e enviam suas fantasias anonimamente para você escolher duas por mês e transformá-las em belos curtas eróticos. Com três filmes produzidos e muito mais por vir, que coisas novas e surpreendentes você aprendeu com esse processo de criatividade coletiva?

O XConfessions é completamente coletivo, é um projeto novo de crowdsourcind que colhe os benefícios da originalidade das perversões do público e sua imaginação selvagem. Estamos vendo o prazer real e o que excita pessoas como eu e você serem transportados para as telas em lindos e pequenos curta-metragens. Para mim, é o melhor tipo de erotismo que há! A beleza dele é que realmente mostra o quão fascinante e incrivelmente diversa é a sexualidade humana!

 


Com Nina Neves

Arte: Mundobrel

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Björk, uma das cantoras mais famosas do mundo, falou recentemente em uma entrevista sobre o machismo que enfrenta no mundo da música. Com 30 anos na indústria, milhões de álbuns vendidos e aclamada pela crítica, ainda assim ela revelou usar de artifícios para escapar da discriminação no meio musical. Um, em particular, é de partir o coração: para ter suas ideias ouvidas, ela dava um jeito de fazer com que parecesse que tivessem partido de um homem. “Finjo que sou boba e dispenso cinco vezes mais energia do que seria necessário para fazer qualquer coisa, e aí elas acontecem”, disse ela.

Esse triste relato assinala a importância vital das mulheres conquistarem mais respeito também no mundo da música. Certas iniciativas têm se esforçado nesse sentido, como o Sofar Sounds, comunidade global que promove mini shows secretos ao redor do mundo em ambientes intimidas. Em comemoração ao Dia da Mulher, no último dia 8 de março, o festival realizou uma edição simultânea em 35 cidades ao redor do mundo para mostrar a força e o poder das mulheres na música, com atrações exclusivamente femininas.

No Brasil, o evento foi realizado na Casa de Lua, ONG feminista que serve de espaço para diversas oficinas, debates e cursos voltados para as mulheres, tornando a edição brasileira ainda mais significativa. Marcamos presença com objetivo de não só prestigiar as atrações, como mostrar parte dos desafios de ser mulher e dar espaço para o trabalho dessas artistas incríveis aqui no Think Olga.

 

DOLORES 602

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Quarteto de BH, formado apenas por mulheres, a banda acabou de lançar seu primeiro EP com 5 músicas, produzido, gravado, por elas mesmas, que também são responsáveis por todos arranjos, direção musical e criações do grupo que, devido `as diversas influências musicais de cada integrante (que vão do rock alternativo `a viola caipira), tornam sua sonoridade rica e única, sendo difícil encontrar um gênero que se encaixe no tamanho da banda.

A formação exclusivamente feminina não foi uma escolha inicial da banda, e sim uma questão de afinidade musical. Mas com o passar do tempo, o peso e a influência que exercem apenas pelo fato de serem garotas tocando instrumentos começou a aparecer. Desde o clássico olhar curioso e por vezes desconfiado dos técnicos durante a passagem de som, até o crescente número de meninas e até crianças depois de assistirem uma apresentação procurando pelas integrantes para conversar e compartilharem a vontade de tocar guitarra, fazer aulas e ter um instrumento. Elas apontam como é gratificante ver a mudança acontecendo, mesmo que aos poucos, e poderem fazer parte dessa influência e representatividade para garotas que estão em processo de formação.

Por ainda estarem no começo da carreira, especialmente no meio autoral, numa cena muito fechada com poucas oportunidades no mercado, elas acreditam que tanto a questão diferença de cachês e correria seja igual a de uma banda formada por homens, uma vez que este é um cenário em que todos ralam muito e ganham quase nada.

Durante as apresentações, as integrantes acham difícil distinguir até onde um acontecimento (como um fã mais inflamado invadindo o palco para dar um beijo na vocalista) é uma “situação de show” em que qualquer artista está sujeito, ou quando chega a ser de fato um assédio.

Mas apesar do pouco tempo de estrada, as garotas já vivenciaram uma boa dose de machismos, desde os mais velados como serem taxadas de “Clube da Luluzinha” em um título de uma matéria sobre seu trabalho, como mais absurdos como da vez em que uma das integrantes ao tentar vender o EP a um homem, foi surpreendida (e nós também) pela pergunta “mas quem tocou no disco?”.

 

LOUISE WOOLEY

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Filha de um baixista de jazz da noite, Louise cresceu entre ensaios, instrumentos e discos, iniciando sua relação com a música em casa, desde muito cedo. Sempre contando com o apoio da família, começou a tocar com o pai, fez aulas desde pequena, e aos 18 começou a se apresentar na noite, entrando na profissão com espaço e aceitação tanto na família, como no círculo de amigos músicos.

Dona de suas composições, a pianista aponta que a cena da música instrumental no Brasil já é pequena por si só, e as poucas mulheres nela inseridas são, em geral, cantoras. Fato que contribui para que Louise tenha que passar pelos clichês clássicos do preconceito da música como, ao chegar no local da apresentação, presumirem que ela é a cantora partindo da premissa de que mulher não é capaz de tocar um instrumento profissionalmente nessa área, fazendo com que ela tenha que não só fazer o seu trabalho, como provar o seu valor a cada apresentação, pelo simples fato de ser mulher.

Outro machismo que já ouviu, é insinuarem que é mais fácil chamarem-na para tocar em festivais justamente por ser mulher, sugerindo que ela fosse um objeto ou algo engraçadinho e assim, novamente, diminuindo sua competência.

 

ZÁ COELHO

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Entrando na música quase por acaso (foi sua mãe que a colocou em aulas de canto por achar que a menina levava jeito para coisa), Zá Coelho só foi se dar conta que seu negócio era cantar depois de 3 anos encarando as aulas como um hobby.

Com um disco já lançado em 2011 disponível para download, hoje Zá lança suas próprias canções, mais autorais de um jeito mais leve, soltando esporadicamente na internet. Feminista assumida e admiradora da Valesca Popozuda, em suas músicas a cantora acaba sempre abordando temas ainda polêmicos como na faixa “Tanto Barulho”, em que fala abertamente sobre sexo.

Marcada por uma fofoca machista que sofreu na adolescência, desde então começou a questionar não só o papel da mulher, mas como ela é tratada na sociedade, aceitando (e muitas vezes aplaudindo) comportamentos misóginos, machistas e sexistas. O fruto desse constante e crescente questionamento é hoje seu engajamento no feminismo, que reflete diretamente tanto no palco como em suas atitudes no dia a dia.

Solta, e sem medo de se expressar enquanto interpreta suas canções, Zá tem ciência que a mulher que se posiciona de um jeito mais seguro, sem medo de se expor, principalmente no palco, não só assusta como geralmente são interpretadas de um jeito equivocado, como se estivessem `a disposição e “asking for it”.

Por ser a única garota do palco, o centro das atenções da banda, a cantora está acostumada a lidar com todo tipo de agressão, desde ofensas disfarçadas de elogios aos gritos durante os shows, até abordagens (em formato de cantadas, assédio) ao sair de cena. Nesses casos, Zá puxa para si a responsabilidade e se posiciona de uma forma firme e tranquila, cortando o comportamento pela raiz, desmonstrando que a pessoa está sendo desrespeitosa, chegando a enfrentar o agressor, questionando quem deu-lhe o direito de tomar tal tipo de atitude.

Mesmo com tal posicionamento, a cantora não esconde como esse tipo de agressão a atinge, entristece e magoa, especialmente quando era mais nova. Para lidar com a dor, Zá optou por fazer parte da transformação, lutando diariamente contra esse pensamento de que a mulher não tem direito de ocupar o lugar que deseja, em debates, conversas, e puxões de orelha em seu próprio cículo de amigos.

Além de lidar com o preconceito de ser cantora e não tocar nenhum instrumento, como se isso diminuísse o valor de seu trabalho e talento, Zá sente que, por ser uma cantora solo e possuir apenas uma banda de apoio, na hora de negociar e fechar um show não é levada a sério como um homem seria na mesma situação. Ao ter seu trabalho tratado como uma brincadeirinha mais uma vez sua arte é diminuir e desprestigiada antes mesmo de cantar a primeira nota.

 

NANÁ RIZZINI

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Filha de um percussionista de samba que lhe ensinou a tocar pandeiro, Naná Rizzini cresceu no meio da música, pulou para a bateria, fez cursos, faculdade, e começou a cantar para se aperfeiçoar na hora de compor.

No começo não contou com o apoio da família por não enxergarem possibilidades na carreira musical, preferindo que a filha optasse por uma profissão mais convencional. Foi quando viram que nada poderia parar os passos de Naná, que hoje já possui um EP e dois discos lançados, que o apoio veio por completo.

Durante a faculdade, Naná percebeu que no exterior não há diferença de tratamento entre alunos homens e mulheres porém, em seus estudos no Brasil, sentiu que o machismo é perpetuado nas atitudes de alguns professores.

A baterista relata ainda episódios de resistência da parte dos próprios músicos que ocasionalmente dividiu o palco, como casos em que é contratada para uma turnê de um artista e precisa tirar as músicas de um dia para o outro, e há aquela falta de suporte dos outros integrantes já familiarizados com o set que, ao invés de darem um apoio no palco que faria toda a diferença, preferem ignorar, chegando a causar um certo mal estar na banda. Porém é sempre algo inicial que depois passa naturalmente, garante Naná.

Naná confessa que no começo se chateava por dentro sim, e acredita que a partir do momento em que as pessoas estiverem abertas a darem chances uma `as outras, já será um passo para o processo de desconstrução, uma vez que o machismo não acabará do dia para noite.

Hoje, a artista já criou um escudo protetor para não se deixar desestabilizar com esse tipo de atitude, e a confiar no seu trabalho, sem ter que provar nada a ninguém. Ela aponta que na verdade o problema está em quem tem o preconceito, e cabe a ela seguir em frente ignorando tais atitudes.

Quanto ao assédio no palco, pela sua própria natureza mais rock and roll, Naná acaba resolvendo “na bica”. Porém, por ser mulher e tocar “na noite”, já sofreu preconceito moral em lugares mais conservadores e limitados, como no Jockey, onde as pessoas se aproximavam de uma forma mais estranha. Nesses casos a baterista acredita que para se evitar esse tipo de situação, é necessário ter uma atitude ainda mais profissional, como além de impor limites, não dar abertura para nenhum contato indesejado.


 

Débora Cassolatto é redatora, curadora musical e DJ há mais de 10 anos nas casas rockers do baixo Augusta. Criadora do tumblr parceiro da MTV Brasil Ouvindo Antes de Morrer onde ouve, posta e compartilha impressões sobre todas as músicas do livro “1001 songs you must hear before you die”, entre outros conteúdos sobre música. Também fundou o blog Música de Menina, espaço que subverte a questão de gênero e música.

Arte: Alessandro Gottardo

 

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O que acontece quando duas formas de arte se encontram para um inspirado diálogo? O livro Não conheço ninguém que não seja artista, lançado pela Confeitaria, explora essa possibilidade por meio dos trabalhos da fotógrafa Camila Svenson e da escritora Ana Guadalupe. A obra reúne uma coletânea de 20 poemas e 20 fotografias que conversam entre si. O processo criativo foi dividido em duas etapas: com tema livre, Ana escreveu dez poemas, para os quais Camila se inspirou para fazer dez retratos que os ilustrassem; e depois Camila produziu dez retratos, para os quais Ana escreveu dez poemas. O resultado é um conjunto que relaciona palavra e imagem, alternando o ponto de partida: ora a poesia, ora a fotografia.

A Ana estudou letras na Universidade Estadual de Maringá e hoje mora em São Paulo. Seus poemas já foram publicados no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos, em antologias como “Amor; Pequenas Estórias”, “Otra Línea de Fuego”, “101 Poetas Paranaenses” e “Cityscapes”. Em 2011, publicou o livro “Relógio de Pulso”, pela 7Letras.  Fabiane Secches, editora da Confeitaria, conversou com a Ana sobre o projeto, poesia e o mercado literário no Brasil.

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Como começou a sua relação com a poesia?Mexia em livros de poesia que meus pais tinham em casa quando era criança. Depois, na adolescência, tive uma amiga que escrevia e também me influenciou — mas só percebi essa influência recentemente. Comecei a escrever poemas muito ruins aos 13, 14 anos e fui emprestando livros etc. Durante a faculdade de letras, fiz um estágio de dois anos na Biblioteca Municipal de Maringá e foi nessa época que comecei a ler e escrever mais.Como costuma ser o seu processo criativo? Foi diferente para você no livro novo?

Raramente sinto um “chamado da inspiração” ou uma vontade muito forte de escrever, como se tivesse alguma mensagem pra “colocar pra fora” (invejo), mas às vezes penso numa frase e tento desenvolver a ideia depois. Ou me obrigo a fechar o navegador e escrever alguma coisa. Acho que a internet distrai demais. No “Não conheço ninguém que não seja artista”, foi totalmente diferente: tínhamos prazos, a ideia central do diálogo entre fotos e poemas e minha vontade de escrever sobre temas novos. Esse compromisso e as fotos da Camila Svenson, que são muito boas, ajudaram muito.

Que outras mulheres na literatura encorajam ou encorajaram você a seguir esse caminho?

Como inspiração, muitas encorajam. O que mais gosto de ler é poesia contemporânea e, dentro dela, me inspiro/divirto muito com mulheres. Na “vida real”, a Alice Sant’anna é uma das poetas contemporâneas que admiro muito e que me encorajou bastante.Como você vê o cenário literário no Brasil para as mulheres? E na poesia, que é ainda mais nichado?Vejo que são muitas mulheres talentosas, publicando coisas ótimas, e espero que tenham cada vez mais espaço, mas isso é óbvio. Acho que as dificuldades e preconceitos também ajudaram a formar escritoras mais assertivas, e são elas que vejo levantando questões importantes, usando as redes sociais pra falar de feminismo, literatura, sexo, humor e todas as coisas. Na poesia, acho que as mulheres estão ganhando um destaque bem importante, mas ainda existem coleções de editoras com muito mais homens que mulheres, por exemplo. Acho que também tem um obstáculo estranho na ideia de que poesia é um gênero “feminino”, feito de versinhos de amor e carência, e talvez na ilusão de que o homem escreva poesia de um jeito diferente. Não sei se já fizeram um estudo mostrando textos anônimos pra um grupo de pessoas e trocando os gêneros antes da leitura. Sinto que um poema escrito por uma mulher tem mais chances de ganhar comentários como “fofo”, “doce” (a não ser que fuja disso com todas as forças, pra combater mesmo) e alguém sempre vai inventar uma capa ou layout cor de rosa, enquanto o mesmíssimo poema vinculado ao nome de um homem pode ser considerado uma “porrada na alma”, “cortante”, “poderoso”.

Você também é ótima no Twitter. Acha que a limitação dos 140 caracteres ajuda a exercitar a sua habilidade com poesia? Você sente que a plataforma contribui como “aquecimento” ou inspiração para os seus poemas, que passam por temas tão atuais?

Obrigada! Gosto do muito do Twitter e fico feliz que o mecanismo nunca tenha mudado. Acho que escrever em 140 caracteres ajuda, sim, no exercício de anotar umas coisas sem se prolongar e sem cansar quem está lendo. E de se abrir a devaneios desconexos em público, o que é bem absurdo quando a gente para pra pensar. Nesse livro, cheguei a usar alguns tweets como “ponto de partida”.

O tema de seus poemas costuma variar entre o que é atemporal — no livro novo você fala de amor, saudade, esquecimento e morte — e o que é contemporâneo — redes sociais, seguro fiança, reality show. Sempre foi assim pra você?

Sim. Acho esses temas atemporais perigosos, mas os mais contemporâneos também. Tenho medo de escrever demais sobre a internet e a tecnologia e “errar a mão” nisso. Tenho tentado usar qualquer tema que apareça, ~experimentar novas emoções~.

Neste livro você trabalhou principalmente com outras mulheres. Como foi essa experiência pra você?

Foi muito legal principalmente porque nunca fiz nada em equipe e porque o resultado é diferente do que eu imaginaria e do que acho que as pessoas esperam. As fotos da Camila, a edição da Fabi, nossas opiniões e os temas novos que apareceram quando eu estava escrevendo.


Fabiane Secches é editora e diretora criativa da Confeitaria.

Arte: Chris Silas Neal

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O Brasil é o país com o maior número de domésticas do mundo. Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Trabalho, são 6,7 milhões de mulheres na função, representando 17% das trabalhadoras do país. É para ouvir a voz dessas mulheres, que o coletivo Nós, Madalenas lança hoje o documentário Mucamas, com sessão gratuita na Casa de Lua. Com duração de quinze minutos, o filme joga luz sobre mulheres que dedicam suas vidas à vida de outras famílias. O que torna o projeto ainda mais especial é que as entrevistadas são mães de cinco integrantes do coletivo.

Ambientado na maior cidade do país, São Paulo serve de pano de fundo para relatos intimistas que revelam a necessidade de repensarmos o papel dessas profissionais no mundo em que vivemos. Conversamos com a Ione Gonçalves, estudante de Artes Visuais e editora do documentário, que nos contou mais o coletivo e o projeto do documentário.

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Como o coletivo Nós,Madalenas começou e qual é a proposta dele?

O coletivo começou com a ideia de desenvolver um longa-metragem para um primeiro edital, não foi esse que ganhamos, foi antes disso. Mas desde o começo com a mesma essência, de defender o “papel” da mulher na sociedade. E levamos esse propósito como objetivo principal pro filme “Mucamas” também, por meio dessa questão do trabalho doméstico.

 

O Nós,Madalenas é formado por mulheres e em formato de coletivo, ou seja, sem hierarquia, como foi produzir nesse ambiente criativo?

Para respeitar todas as opiniões da equipe e para que todas tivessem um peso igual na tomada de decisão, percebemos que o “coletivo” era o melhor caminho para estruturar nossa relação de trabalho, ou seja, uma relação sem hierarquia.

Chega a ser confuso explicar nosso processo de criação dentro dessa relação horizontal e intensa, mas foi a forma mais gostosa que o projeto pode se realizar. Tivemos a oportunidade de acolher o projeto de coração cheio, todas nós nos sentimos essenciais e carregamos o mesmo sentimento de realização e doação.

 

Como surgiu a ideia do documentário ‘Mucamas”?

O documentário surgiu da forma mais espontânea possível. Tínhamos um prazo para viabilizar nossa inscrição em um edital e precisávamos de uma ideia para desenvolver o filme. Estávamos todas aflitas, pois nosso primeiro roteiro não se encaixava nas premissas do edital que íamos nos inscrever. Foi a epifania da última hora mesmo. Acho que a gente trabalha bem sob pressão.

 

O que motivou o coletivo a fazer um filme sobre o trabalho doméstico? E o que te motivou a querer abordar o assunto?

A questão do trabalho doméstico surgiu naturalmente. Sempre soubemos que tínhamos muito em comum, mas a questão que surgiu nessa última hora foi uma surpresa! A profissão das nossas mães era a mesma. Carregamos o mesmo sentimento pela profissão e quando notamos — depois de uma pesquisa sobre produções de cinema com esse tema do trabalho doméstico — o quão precioso era contar essas histórias do nosso ponto de vista, fechamos a essência do filme e foi isso que mais motivou o coletivo a desenvolver o doc.

O que me motivou a fazer o filme foi ter a oportunidade de contar a história das nossas mães com um olhar mais humano. Isso faz parte da minha realidade e foi o que mais me deu vontade de fazer esse projeto acontecer.

 

Você já teve algum tipo de conflito com a profissão da sua mãe, quando ela era empregada doméstica?

Eu nunca tive nenhum tipo de conflito direto com a profissão da minha mãe. Se isso acontecesse, jamais seria pela profissão em si, mas sim como ela é considerada

 

Como foi a reação da sua mãe quando você a convidou para contar sua história e trajetória profissional para um filme?

Minha mãe ficou encabulada quando soube da realização do documentário. Me entregou a seguinte fala “Tanta coisa legal pra vocês falarem. Por que a minha história? Isso é tão normal…”. Ela ficou tímida

 

Ela já viu o assistiu ao filme? O que ela achou?

Ela ainda não assistiu o documentário completo, confesso estar guardando surpresa. Quando iniciei a montagem, decidi mostrar os 5 primeiros minutos pra ela. A história ‘tão normal’ dita por ela transparece tanta potência! Ela ficou bem emocionada.

 

Você acha que participar do filme teve algum impacto na vida nela? E na relação de vocês duas?

Essa minha participação de contar a história dela nos acrescentou acima de tudo o reconhecimento. Minha mãe nunca me deixou pensar na possibilidade de ser doméstica, até então eu não sabia dos detalhes sofridos que ela passou. Há uma relação mais humana e um olhar mais respeitoso depois dessa experiência.

 

O que você sentiu trabalhando nas filmagens onde sua mãe estava sendo entrevistada para o filme?

Durante as gravações eu sentia estar contando a história da mulher mais guerreira que conheci. Nossa principal ideia com o filme é humanizar o olhar das pessoas com a profissão, trazer esse debate à tona por meio de histórias de mulheres fortes. E me enche o coração ver que que até a minha mãe se permitiu esse olhar, esse ressiginificado. Achei incrível!

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Muitos filmes que tiveram o trabalho doméstico como tema foram produzidos por equipes de classes sociais diferentes das personagens. Você acha que o fato das filhas das entrevistadas estarem envolvidas no processo criativo e na equipe de filmagem influenciou no resultado do filme? de que forma?

Pra mim o que o documentário tem de mais precioso é o fato das filhas contarem a história das próprias mães. Acho que esse é o diferencial, nós sabemos como a profissão é encarada desde sempre, está na nossa história. O filme possui cinco histórias fortes e que carregam semelhanças entre si apesar dos caminhos de cada uma serem bem diferentes.

 

Você tem ou já teve uma empregada doméstica em casa? Caso não, você teria uma empregada?

Nunca tivemos empregada doméstica em casa e se um dia for necessário não vejo problemas. Mas se for necessário MESMO!

 

O documentário tem uma pergunta muito simples e também muito forte, que gerou respostas emocionantes e que, agora, gostaríamos de saber a sua resposta: pra você o que é ser mulher?

É viver várias vezes numa vida só. Ao mesmo tempo carregamos as maiores vitórias.

 


Natália Fava é publicitária e faz parte do coletivo feminino de audiovisual “Nós, Madalenas”, que produziu o documentário “Mucamas”.

Arte:

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