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A primeira edição dos Jogos Olímpicos que deu origem ao que conhecemos hoje data do ano de 1896, mas sua história começou bem antes, na Grécia, em 776 a.C. Ao longo do tempo, a participação das mulheres na competição teve períodos conturbados: ainda na Antiguidade, elas eram proibidas de assistir os jogos sob pena de morte e na primeira edição oficialmente aberta ao público feminino em 1900, em Paris, somente 22 do total de 997 atletas eram mulheres, competindo em apenas cinco esportes.

A conquista de um total de 44% de participação feminina na última edição dos jogos em Londres, no ano de 2012, com a participação delas em todas as modalidades pela primeira vez na história, não foi sem o esforço e a luta de milhares de esportistas que não se curvaram diante das adversidades causadas pelo sexismo.

É de mulheres assim que são feitas as Olimpíadas:  guerreiras que trazem dentro de si a chama da transformação. Elas fazem história ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos dos quais eram excluídas ao provar que têm garra, talento e capacidade para brilhar nos esportes.

Mulheres como Neide Santos, ou Neide Vida Corrida, como ficou conhecida ao adotar como sobrenome o nome do projeto que criou no Capão Redondo, e que já transformou a vida de milhares de pessoas por meio da prática de corrida.

Na trilha de um sonho

Atleta desde os 14 anos, Neide teve sua carreira interrompida por revezes que a vida pôs em seu caminho. Primeiro, foi obrigada a mudar-se ainda menina para São Paulo, onde foi adotada por uma família que lhe deu educação, mas também a cruel responsabilidade de trabalhar como empregada doméstica ainda criança.  Trouxe sua família biológica para a cidade, mas só depois de adulta, onde ainda passou por muita pobreza e dificuldade.

Quando se casou, viu sua vida entrar um pouco nos trilhos e vislumbrava um futuro melhor, mas seu esposo foi assassinado por policiais no Capão Redondo, comunidade da periferia da cidade de São Paulo, onde moravam, deixando-a sozinha com um bebê recém-nascido e sonhos partidos.

Apesar das dificuldades que teve a partir de então como mãe solteira, Neide não abandonou sua paixão pela corrida e continuava a praticar o esporte amadoramente, participando de maratonas onde encontrava amigos da comunidade. Era a única mulher entre eles. Com o tempo, um pequeno grupo de mulheres de seu bairro a procurou pedindo que Neide as ensinasse a correr também. Elas queriam se movimentar tanto pelo lazer da atividade, quanto pela oportunidade de praticar um esporte, um privilégio geralmente reservado somente aos homens daquele local.

Em 1999, Neide se propôs a ensinar um grupo de seis mulheres do Capão Redondo a correr durante as duas semanas em que estava de férias no trabalho – e, desde então, esse voluntariado nunca mais parou. Assim, começava a história do projeto Vida Corrida. Mas a essência da iniciativa iria mudar drasticamente quando seu filho também teve a vida ceifada pela violência em um assalto no ano 2000, pelo disparo de um revólver empunhado por uma criança de 11 anos.

Neide quase desistiu de tudo, mas foi lembrando do desejo de seu filho de que ela incluísse crianças em seu projeto, para incentivá-las a trilhar o caminho do bem em uma comunidade refém de forças do mal, que ela decidiu não apenas continuar a transformar vidas por meio da corrida, mas ir além e estender esse benefício a meninos e meninas da comunidade.

 

Quando o impossível não existe

Hoje, o Vida Corrida, com mais de 350 participantes, atende 150 crianças do Capão Redondo e pretende expandir esse número em 2016. O projeto conta com o patrocínio de grandes empresas para a aquisição de equipamentos e estrutura para realização das atividades, mas principalmente com a dedicação de voluntários apaixonados pelo esporte.

O sucesso do Vida Corrida é motivo de orgulho para Neide e para todas nós que, conhecendo sua história, contemplam a capacidade de realização dessa mulher inspiradora. Com amor e entrega, criou uma onda de solidariedade, empoderamento e oportunidades que mudaram e inspiram a vida de tantas pessoas, como nós, aqui do Think Olga.

A Neide tem mais um grande sonho: carregar a Tocha Olímpica no Capão Redondo. Ver, na comunidade onde viu sua família ser vítima da violência, brilhar uma chama de esperança, a mesma que a leva todos os dias a continuar lutando pelo Vida Corrida. Ela quer mostrar para as crianças da comunidade, que aprenderam com ela a correr brincando, que nada é impossível.

Ano que vem, os Jogos Olímpicos serão realizados pela primeira vez no Brasil e o Comitê Olímpico Internacional tem um compromisso sério com a participação das mulheres no esporte. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, criou uma plataforma onde todos podemos indicar pessoas para conduzir a Tocha Olímpica Rio 2016. Por meio do site www.brades.co/thinkolgaindica, qualquer pessoa pode indicar alguém que faz a diferença na vida de outras pessoas para ter essa grande honra. Para a candidatura ser válida, é imprescindível o candidato fazer a confirmação por email ou ele será desconsiderado. Sugestão Think Olga: indique mulheres e ajude a aumentar a representatividade delas nos Jogos Olímpicos! Quem você conhece que tem uma #chamaquetransforma?

Nós acreditamos no sonho da Neide e vamos indicá-la não apenas porque acreditamos na importância da representatividade feminina nessa tradição tão importante dos Jogos Olímpicos, mas porque ela verdadeiramente transformou e transforma a vida de muitas pessoas com o seu projeto.

Tivemos a honra de conversar com a Neide sobre sua vida, sonhos e planos para o futuro. Conheça um pouco mais sobre a história dessa mulher inspiradora em suas próprias palavras:

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Como você se apaixonou pela corrida?

Aos 14 anos, eu fui a uma pista de atletismo e tinha um campeonato escolar, mas fui para jogar handebol. Só que, no revezamento 4×100, faltou uma menina. O professor de educação física olhou para um lado, para o outro, olhou para mim e falou: “Vai você mesmo!”.  E me mandou correr. Eu disse que nunca havia treinado, mas ele disse que eu corria muito e já treinava handebol – tudo o que eu precisava fazer era ser a última a pegar o bastão e correr o mais rápido que eu pudesse. Foi o que eu fiz: peguei o bastão , corri o mais rápido que eu pude e naquele dia eu me apaixonei pela corrida porque eu nunca tinha ganhado uma medalha para eu levar para casa. Quando a gente ganhava alguma coisa no handebol, ganhava um troféu que ficava na escola, mas naquele dia eu ganhei minha primeira medalha e eu gostei tanto daquilo que eu falei: “Não, agora eu não vou mais jogar handebol, não, vou começar a correr!”. E foi assim que a corrida entrou na minha vida e eu corro até hoje. Vai fazer 42 anos que eu corro.

 

O que a corrida representa hoje na sua vida? 

Hoje, para mim, a corrida é uma ferramenta de transformação social, porque através da dela eu consegui mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

 

E o que o futuro reserva para você e para o Vida Corrida?

Ontem mesmo eu fiquei até tarde trabalhando e planejando porque no ano que vem vou atender mais 250 crianças – nós atendíamos 150, mas agora teremos mais verba para atender mais. Sem contar as mulheres: hoje nós temos 200 e acredito que no ano que vem vamos receber mais. Também tenho planos de construir nossa casa, a Casa Vida Corrida, mas o meu maior sonho, acima de tudo, um sonho de criança, é de um dia estar nos Jogos Olímpicos. Outro sonho olímpico também é ver o Jonathan Santos, que eu ensinei a brincar de correr, nos Jogos Olímpicos de 2020.

 

Muitas das mulheres da comunidade têm jornada tripla e quase não sobra tempo ou dinheiro para lazer e atividades pessoais, para cuidar de si mesmas. Como a corrida e o projeto as ajudam?

Vou falar para você o que eu ouço delas. Um dia uma chegou para mim e falou que o projeto deu autoestima pra ela. Ela falou que o projeto a levou a lugares que ela jamais imaginaria ir. Outra disse que a vida corrida uniu a família dela, que elas não tinham uma vida social, mas que através da corrida elas entraram nas redes sociais, mostraram para as pessoas o que elas fazem. Teve uma menina que veio do Piauí que foi escolhida para ser entrevistada no programa Como Será, e aí ela me disse “Neide, minha família no Piauí está em festa, eles me viram na televisão, eles me viram correr!”. Tem mulheres no projeto que voltaram a estudar, algumas fazem faculdade para um dia trabalhar no Vida Corrida. Tem mulheres que nunca tinham conhecido pessoas que não fossem da comunidade.  O projeto as leva para outros lugares.

 

 

 

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Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.

A ONU Mulheres e o Governo da China promoveram neste domingo, na sede da ONU, um evento sobre igualdade de gênero e autonomia feminina. O secretário-geral declarou que os novos Objetivos Globais não podem ser alcançados “sem direitos iguais, na lei e na prática, para metade da população mundial”.

Ban Ki-moon destacou que no fórum, os líderes mundiais estavam “sinalando sua responsabilidade pessoal para a igualdade de gênero”. Apesar de progressos recentes, o chefe da ONU destacou que ainda há um longo caminho a percorrer.

Exclusão

Ele explicou que “muitas meninas e mulheres continuam sofrendo discriminação, estão sujeitas à violência, têm negadas oportunidades iguais em educação e emprego e são excluídas de posições de liderança”.

Segundo Ban Ki-moon, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável não pode ser alcançada sem direitos iguais para as mulheres.

Ban destacou que garantir a proteção de mulheres e meninas e priorizar suas necessidades também é essencial na hora de resolver emergências humanitárias.

Salários

O chefe da ONU pediu aos líderes mundiais mais compromisso para garantir de verdade a igualdade de gênero. Ban explicou que é preciso tratar com urgência de algumas barreiras, como as diferenças salariais entre homens e mulheres.

O secretário-geral também defende que seja reconhecido o “direito de meninas  e mulheres governarem sua saúde sexual e reprodutiva, acabar com a violência e garantir a participação feminina na arena política, na resolução de conflitos e em processos de paz”.

Investimento Chinês

Ban Ki-moon explicou que até 2030, o planeta precisa ser “50:50”, ou seja, com direitos iguais para homens e mulheres. O chefe da ONU disse que o evento de alto nível pode ser um marco para a o alcance completo da igualdade de gênero.

O presidente da China, Xi Jinping, anunciou que o país vai contribuir com US$ 10 milhões em apoio ao desenvolvimento das mulheres no mundo. O líder chinês também garantiu que irá ajudar outros países em desenvolvimento a fornecer cuidados de saúde e treinamento vocacional para mulheres e meninas.

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Esse post faz parte de uma parceria entre Think Olga e a Rádio ONU em Português para a divulgação de conteúdo relacionado a gênero.

Arte: Laura Liedo

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Leda Letra, da Rádio ONU em Português, em Nova York.

 

O Conselho de Direitos Humanos da ONU promoveu esta terça-feira, em Genebra, uma sessão sobre igualdade de gênero. O presidente do órgão notou que as mulheres formam mais de 50% da população mundial, ou 3,5 bilhões de cidadãs.

Apesar dos números, Joachim Rücker lamentou o fato de que em muitos países as mulheres enfrentam restrições para poder participar da vida pública, política e econômica.

Diferença

Já o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos informou que nenhum país do mundo “alcançou totalmente a igualdade de gênero”. Zeid Al Hussein pediu aos 47 países que integram o órgão para “fazer a real diferença” neste sentindo.

Segundo ele, as mulheres são vistas com muita frequência participando de paineis sobre questões relacionadas aos direitos da criança e ao universo feminino. Mas nas discussões sobre conflitos armados, combate ao terrorismo, pena de morte e sanções, os homens formam a maioria.

Zeid também considera que existe falta de igualdade de gênero até mesmo em organismos da ONU ligados aos direitos humanos, o que segundo ele pode ser um sintoma da baixa representação feminina nos Estados-membros.

Exemplos

O alto comissário acredita que muitas meninas podem ficar longe das tecnologias da computação ou da engenharia “porque ser melhor que os meninos em matemática pode não parecer feminino”.

Zeid Al Hussein afirmou que as garotas que crescem vendo apenas “presidentes ou embaixadores homens podem desenvolver a crença de que o poder é essencialmente masculino”.

Mudanças

O alto comissário destacou que todos têm a responsabilidade e o poder de promover a igualdade de gênero e fez um apelo por mais ação para tratar a discriminação e combater estereótipos.

Zeid elogiou “cotas e outros esforços temporários, que podem ajudar as mulheres a ter voz em sistemas políticos e legais”. Mas pediu que a igualdade deixe de ser encarada como um “exercício”, porque a representação igual de homens e mulheres constrói sociedades mais justas”.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos prometeu que não irá participar de nenhum painel de discussão que não incluir mulheres especialistas no tópico e  afirmou que vai trabalhar para melhorar a igualdade de gênero no seu próprio escritório.

Escute a entrevista AQUI.

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Esse post faz parte de uma parceria entre Think Olga e a Rádio ONU em Português para a divulgação de conteúdo relacionado a gênero.

Arte: Laura Wilson

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Ser mulher neste mundo pode ser uma experiência muito solitária. Em todos os lugares, deparamos com situações que alimentam, lá dentro, os sentimentos de inadequação e impotência. Sabe as “cantadas” que você recebe de estranhos, ou aqueles “recados” inconvenientes sobre a sua aparência? Por mais que essas posturas incomodem, é relativamente fácil de acreditar que elas são naturais e que não precisa ser diferente. A julgar pela opinião da maioria, parece que o problema é só seu ‒ quando não é você mesma.

Às vezes, porém, vozes igualmente aborrecidas lhe surpreendem e insinuam a causa e o efeito de tanto isolamento. Desde muito tempo atrás, milhares de mulheres enfrentam as mesmas dificuldades sem ter noção do quanto suas vivências são semelhantes ‒ em muito, porque somos desencorajadas de externar o que pensamos e sentimos. O que aconteceria se essa multidão silenciosa descobrisse a dimensão coletiva de suas angústias? Uma vez arranjada, poderia ela formar uma frente consistente de mudança?

Essas são as perguntas fundadoras de vários projetos colaborativos que estão alcançando, em tempo recorde, enorme adesão no meio online. Idealizados por mulheres na faixa dos 20 e 30 anos, com perfis pessoais e profissionais diversos, eles apostam no potencial da rede para aplacar problemas cotidianos, mas de grande relevância política. O caráter voluntário e inclusivo ‒ nenhum deles possui fins lucrativos ou restrições de público ‒ deriva de um denominador comum importante: o apelo afetivo. Criadoras e apoiadoras abraçam as iniciativas pelo desejo de sintonizar seus valores com sua ação social, além da vontade de se conectar a outras mulheres identificadas com uma causa.

Conversamos com representantes de seis movimentos de empoderamento e mobilização feminina para saber o que anda engajando tantas usuárias na web em 2015. Confira abaixo os temas e os links para acompanhar o trabalho de cada projeto.

 

Mulheres no espelho: fortalecendo a autoimagem

Talvez poucas crises femininas simbolizem melhor os efeitos da violência de gênero do que a relação conflituosa com o próprio corpo. Praticamente o tempo inteiro, a luta contra o machismo e a misoginia é travada nessa arena privada ‒ e como é difícil resisti-los. Há sempre um ou dez quilos a perder. A pele tem manchas ‒ ou não tem o tom “certo”. O cabelo não esvoaça ou não brilha. Os seios são muito pequenos e o bumbum é muito chato. Conforme as meninas crescem, a existência em um corpo confortável parece se tornar impossível: inicia-se uma guerra contra si mesma para aniquilar a mulher real em função de um modelo inatingível que a mídia bombardeia contra todas. Quando se admite a derrota anunciada, corpo e alma estão em pedaços e nem sempre há apoio para reconstituí-los.

A publicitária baiana Teresa Rocha conhece essa narrativa. Negra e crespa, ela via, na infância, uma semelhança entre todas as figuras célebres das propagandas: o físico branco, magro e liso, bastante diferente do seu. Ter chances de sucesso passou a implicar um tempo diário para o alisamento dos cabelos. “Foi na adolescência que percebi o quanto ter autoestima impacta de forma positiva em todos os campos da vida, e que receber críticas e cobranças sobre a aparência é cruel e injusto. Desde então, tenho vontade de fazer algo a respeito”, conta. Quando encontrou ícones femininos que assumiam os cachos, motivou-se a libertar os seus ‒ e hoje, pelo Bonita Também, quer divulgar mensagens de aceitação e amor próprio a muitas outras mulheres.

“O Bonita Também quer reforçar a importância de se sentir bem e abraçar a diversidade. O que importa é ser feliz, mas se isso for fora do padrão social que tanto nos exclui, melhor ainda, porque vai gerar referência para as meninas que estão crescendo. E a gente bem sabe que mulher precisa disso”, explica Teresa. Ela gerencia um Tumblr colaborativo com histórias de mulheres que também aprenderam a amar seus corpos como são e, na página da iniciativa no Facebook, posta mensagens inspiradoras e cards ilustrando diversos tipos de beleza. “O projeto não se faz sozinho, entende?”, diz ela. “Cada pessoa que interage com um clique ajuda a fazê-lo!”. É esse pensamento que a relaxa em relação às estatísticas da rede social. Criada em dezembro de 2014, a página do Bonita Também chegou às mil curtidas orgânicas em junho deste ano. Por trás de cada uma, Teresa enxerga uma mulher celebrando a autoestima feminina e buscando o incentivo a se mostrar como é. Ela já recebe mensagens de seguidoras falando do impacto positivo da página sobre elas. “O crescimento é gradativo e devagar, mas muito válido”, afirma.

Os depoimentos do Tumblr, que revelam o peso como uma preocupação muito forte, são enviados por e-mail e ficam disponíveis para receber comentários de outras visitantes. Focada em corrigir os vácuos de representatividade, a publicitária também está atenta ao risco de endossar novas padronizações e tenta equilibrar na comunicação do projeto múltiplas variações de raça, biotipo, cabelo e outras características. A crença no potencial transformador da imagem embasa os sonhos de desenvolvimento da iniciativa. “Eu desejo que todo o material que está sendo recolhido possa tomar formato de um documentário um dia e fazer a diferença para mulheres de idades variadas, principalmente para quem está se tornando mulher agora”, conta Teresa.

 

Mulheres em trânsito: a luta pelo espaço público

A participação efetiva das mulheres na vida pública é uma das reivindicações mais antigas do feminismo. Contudo, em pleno século 21, a pauta se mantém atual pelos mecanismos que constrangem a ocupação feminina dessa esfera. Comecemos pelos obstáculos à apropriação do espaço. Laura Krebs, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que as teorias urbanistas de viés mais sociológico, com inclinação marxista, pensam a cidade como um campo de reprodução dos valores e relações da sociedade que a habita. “Assim, é inevitável entender a urbe como um ambiente machista, em que a mulher é considerada mais frágil e onde uma série de abusos ‒ verbais e/ou físicos ‒ e opressões de gênero se repetem”, afirma.

Laura é uma das idealizadoras do coletivo se essa rua fosse nossa, criado em março para denunciar a violência contra a mulher no espaço urbano e mapear o sentimento delas nas ruas. O movimento começou como uma intervenção gráfica planejada para o Dia Internacional da Mulher. Em parceria com uma colega de curso, Laura pretendia coletar relatos sobre o assunto e espalhá-los por Porto Alegre, mas logo surgiu a ideia de produzir algum material audiovisual sobre o tema. “Fomos atrás de amigas capacitadas e acabamos formando uma rede incrível de mais de 80 gurias, transformando uma ação pontual em vontade de ter um trabalho contínuo de questionamento sobre um problema tão presente”, conta.

Os depoimentos reunidos em áudio e vídeo dão conta de um transtorno que interfere na escolha das roupas para sair e até no simples ato de andar a pé. As integrantes do coletivo se reúnem quinzenalmente e sentem necessidade de criar um grupo de estudos sobre feminismo. Para o segundo semestre de 2015, elas preveem uma nova série de vídeos e a expansão de suas ações virtuais. No Facebook, o se essa rua fosse nossa disponibiliza o endereço de um formulário anônimo para o compartilhamento de casos de agressão machista em locais públicos. Mais de 26 mil pessoas acompanham a página do projeto, que acumulou mil curtidas no dia em que foi criada.

A página se popularizou ao divulgar o relato, narrado pela própria vítima, de um estupro ocorrido por volta do meio dia na região central de Porto Alegre. Segundo os dados do Facebook, a postagem alcançou mais de um milhão de usuários da rede. A repercussão da história levou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Vereadores a vistoriar toda a Rede de Proteção às Mulheres da capital gaúcha e apresentar um relatório com as constatações oficiais em maio. Para Laura, esse feito é um exemplo de empoderamento feminino e comunitário, que desafia a ideia das instituições públicas como excessivamente burocráticas e distantes da população. “Tínhamos voz e geramos resultados a partir de uma indignação coletiva e quase sempre banalizada”, diz ela.

A força da ação conjunta e cidadã é também o que inspira a jornalista Babi Souza, outra gaúcha. Afetada pelas leituras sobre colaborativismo e empreendedorismo social, foi cruzando pelo centro de Porto Alegre à noite que ela refletiu sobre o medo de circular sozinha ‒ e concebeu o Vamos juntas?, um fenômeno instantâneo no Facebook desde o dia 30 de julho. Reconhecendo a aflição peculiar das mulheres ao transitar no dia a dia, a iniciativa quer trazer mais segurança incentivando a parceria casual ou regular entre elas. Diante de situações de risco, o movimento convida cada uma a se unir com a próxima, intimidando potenciais agressores e, quem sabe, fazendo novas amizades.

A ideia de Babi foi ilustrada pela designer Vika Schmitz e postada no perfil pessoal da jornalista. Menos de duas horas depois, pessoas fora do seu círculo de amizade estavam compartilhando a imagem e buscando a página do movimento, que foi imediatamente criada. Foram cinco mil curtidas em 24 horas, e até o fechamento desta matéria, mais de 135 mil seguidores reunidos. Durante o mês de agosto, a equipe somou a social media Stephanie Evaldt começou a estudar formas de aproximar cada vez mais suas apoiadoras. Foram criados grupos por região do Brasil no Facebook e iniciado o projeto de um aplicativo para que elas possam se encontrar nas ruas.

Animada com o retorno das adeptas, Babi espera que as mais novas também sejam impactadas pela ideia do movimento. Um caso que a emociona é o de uma jovem que imprimiu cards da página e colou nas dependências da escola onde estuda. Quando encontrou um deles rasgado no lixo, fixou-o novamente e enviou-lhe a foto do cartaz. “Acho que se as meninas da idade dela entrarem em contato com a sororidade e com a ideia de amar ao próximo (aí independentemente do sexo), o futuro será muito melhor”, afirma. A jornalista acredita que as mulheres adultas não costumam “ir juntas” por medo e, principalmente, por serem ensinadas desde muito cedo a competir entre si e não confiar umas nas outras.

Babi anda com a agenda cheia divulgando o Vamos juntas? na mídia, mas concorda que em algumas entrevistas, a proposta parece se diluir em um problema mais amplo de segurança pública. Ela faz questão de ressaltar que o movimento pretende, sobretudo, estimular a associação entre mulheres. “Além disso, sinto que estamos tendo um papel importante no sentido de mostrar aos homens como é ser mulher, como não é fácil ser assediada e se sentir insegura”, pontua. As muitas mensagens que a equipe recebe deles oscilam entre gratidão e estranhamento, mostrando que boa parte da população masculina ainda não compreende as nuances de violência criadas pelo gênero. Por ora, parece mesmo mais proveitoso investir na comunicação com elas ‒ e crer que a ação suscitada será eloquente o bastante.

 

Mulheres em debate: pluralizando o diálogo

Por outro lado, a limitação espacial não se impõe somente na via pública. As mulheres também enfrentam barreiras para participar e protagonizar eventos profissionais e mesas de debate. Ainda hoje, por mais qualificadas que sejam, elas são completamente excluídas de alguns encontros. Quando questionados a respeito, os organizadores tendem a justificar a escolha dos convidados pela competência, experiência e destaque na área em que atuam. Mas será que existem tão poucas experts à disposição? Em uma sociedade desigual como a nossa, a quem serve o critério meritocrático ‒ e até que ponto ele não contribui para a permanência desse cenário?

“Quem já é privilegiado entra no ciclo vicioso da manutenção de seus privilégios sociais. Por ter mais oportunidades de praticar algo, fará aquilo melhor e mais oportunidades aparecerão”, afirma a designer e comunicadora Gabi Juns, cofundadora da Escola de Ativismo. A marginalização feminina nas rodas de conversa é um fato familiar a ela e às amigas Daniela Silva, Daniela Teixeira, Manoela Miklos e Fer Shira. Todas envolvidas em projetos de mobilização social ou ativismo online, elas perceberam que os colegas homens geralmente serviam como portavozes dos trabalhos desenvolvidos coletivamente. Talvez por isso a iniciativa Stop Man Panels, lançada em maio de 2014 à época da Convenção sobre Armas Convencionais da Organização das Nações Unidas (ONU), tenha impactado tanto o grupo: no compromisso, 79 especialistas sobre o tema da reunião se recusavam a participar de paineis que não incluíssem mulheres. “A ação dos homens teve sucesso no evento. Então pensamos, ‘por que não para todos os eventos?'”, conta Gabi.

Dessa inquietação, com o apoio conceitual e criativo de muitas outras pessoas, surgiu o compromisso #nãotemconversa. O princípio de base do movimento é a conscientização dos homens ‒ em especial os cisgêneros, heterossexuais, de classes mais altas e sem deficiências aparentes ‒ do lugar favorecido que ocupam na hierarquia social. A partir disso, eles são interpelados a promover a integração de vozes femininas aos debates por meio de um pacto solidário. “Achamos que eles também têm um papel na desconstrução do machismo. Abrir mão de privilégios de fala é algo que podem fazer”, diz Gabi. Ela e as demais criadoras do #nãotemconversa acreditam que a visão de mundo de uma mulher é indissociável de sua vivência, e, por isso, elas têm potencial para enriquecer as discussões. “Meu gênero é parte da minha construção como indivíduo, e essa construção me dá uma perspectiva única”, defende Gabi.

Já no lançamento, em 24 de junho, o compromisso foi assinado por mais de 300 pessoas e a inbox de Gabi no Facebook se encheu de mensagens de homens curiosos sobre os próximos passos. Um dos apoiadores chegou a negar participação em um programa de TV ‒ algo que as criadoras só souberam quando a apresentadora reclamou na página da campanha na rede social. O retorno surpreendeu tanto que as idealizadoras do compromisso ainda não conseguiram sistematizar e responder todas as dúvidas recebidas. Apesar de colaborarem entre si, elas não se reconhecem como equipe. “Entendemos que tivemos uma ideia, colocamos para rodar e não seremos capazes, sozinhas, de dar a continuidade necessária”, explica Gabi. Devido a isso, elas criaram o #temconversa, um grupo exclusivamente feminino no Facebook dedicado à construção coletiva do projeto e à discussão de assuntos afins. O espaço é aberto a quem quiser participar.

Contando cerca de 10 mil curtidas na rede social, o #nãotemconversa pretende agora apurar os desdobramentos do compromisso assumido na vida dos homens e na organização dos eventos. As criadoras também comemoram a replicação da campanha no combate a outras formas de opressão. No dia seguinte à criação da página no Facebook, surgiu o compromisso-irmão #nemtentaargumentar, ao qual mais de 3,5 mil pessoas já aderiram. A iniciativa partiu do Coletivo Enegrecer, ligado à militância estudantil, e convida os usuários a demandar representatividade negra, feminina e masculina, nas rodas de debate. “Um olhar negro nos apresenta a perspectiva daqueles que vêm de baixo e qualifica as elaborações a serem desenvolvidas”, afirma Moara Correa, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e uma das idealizadoras do compromisso. Ela cuida do projeto em parceria com Cledisson Júnior, que já foi diretor de combate ao racismo da UNE e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).

O #nemtentaargumentar está em contato com as criadoras do #nãotemconversa para compartilhar tecnologia e desenvolver o próprio site para a coleta de assinaturas. Enquanto isso, no Facebook, a campanha busca denunciar o racismo institucionalizado e chamar a atenção de organizações e entidades para a ausência de palestrantes negros em seus eventos. Apesar das inúmeras reprimendas à iniciativa, Moara crê no aspecto político e construtivo do constrangimento e se diz pouco impressionada. “Há anos lidamos com a reação de conservadores que militam contra as cotas raciais no ensino superior e nos concursos públicos. Estamos vacinados”, afirma. A intenção da dupla idealizadora é ampliar o alcance do compromisso e seguir revelando a branquitude como um vetor de desigualdade social no Brasil ‒ inclusive nas intersecções entre gênero e raça. “Nosso grande desafio ‒ e aí falo enquanto mulher negra ‒ é de convencer as nossas companheiras brancas de que construir a solidariedade entre as mulheres significa, também, ceder espaços e desconstruir privilégios”, explica Moara.

 

Mulheres em gestação: a maternidade que existe

Quando a empreendedora Thais Cimino se olhou no espelho no dia seguinte ao parto de Vida, hoje com um ano e meio, assustou-se com o tamanho de seu peito. Tendo sofrido com a intensa sensibilidade nos seios durante a gravidez, ela não imaginava que sentiria tanta dor para amamentar a filha, apesar de toda a vontade e preparação. Em tese, estava tudo em ordem: a pega, a alimentação, o sono, o bebê mamava à livre demanda… Mas o desconforto piorava e Thais se sentia cada vez mais insegura. Foram muitas visitas à emergência da maternidade e à enfermeira obstetra até que ela fosse diagnosticada com um abcesso mamário, removido em uma cirurgia com anestesia geral e pós-operatório de cerca de um mês. Finalmente, Thais entendeu que não estava “fraquejando” no trabalho materno ‒ mas ainda assim, chorou por meses a fio por causa desse período.

Ela não compreendia como um processo natural como a amamentação podia ser tão desgastante, nem como poderia ser necessário um esforço sobre-humano para criar vínculo afetivo com a filha. No meio de toda a situação, estava o companheiro, com quem Thais vive na França. Atordoado com a nova condição de pai e inseguro à sua maneira, ele apoiou a parceira como pode ‒ o que para ela, infelizmente, não foi suficiente. Quando pesquisou sobre depressão pós-parto, Thais se deu conta de que muitas outras mulheres também embarcam nessa jornada sem conhecer o “lado B” da maternidade, e de que o silêncio sobre essas provações tornava o percurso ainda mais penoso. Entretanto, como admitir dor, medo ou tristeza no que deveria ser um momento de absoluta felicidade? Como arcar com o julgamento alheio ‒ e administrar a culpa por não ser a mãe perfeita?

Antes de qualquer coisa, é necessário verbalizar o que a pressão externa encerra dentro de cada uma. “A maternidade não é um conto de fadas! Ela pode ser linda, transformadora, mas para isso, as mulheres e os bebês precisam que todo o ambiente ampare esta relação e que haja dispositivos sociais e públicos que deem conta desta questão”, afirma Thais. A partir disso, ela fundou o projeto Temos que falar sobre isso, uma plataforma de desabafos anônimos em que as mães podem compartilhar suas angústias e proporcionar conforto e acolhimento a outras famílias. O objetivo é fortalecer a ideia de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um caminho para humanizar a vida materna e resgatar dentro de si a confiança na própria capacidade. Coordenado por Thais e pela terapeuta ocupacional Bruna Taño, o site também é atualizado com textos sobre temas variados, como sofrimento psicológico, dificuldades no período gravídico-puerperal e violência obstétrica.

Além da solidão e da preocupação das mães em relação a sentimentos ambivalentes, como a ausência de um amor imediato pelos filhos, os relatos enviados frequentemente abordam a violência institucional por parte de órgãos e profissionais de saúde e a dificuldade de adaptação do casal à nova vida. As postagens relacionadas à implicação paterna no cuidado também têm repercutido. Criado em maio, o projeto ainda está “vivendo o puerpério”, mas superou as expectativas de Thais ultrapassando as 250 mil visualizações no blog e os 11 mil seguidores no Facebook. O espaço de desabafos cresceu a tal ponto que profissionais de diversos ramos passaram a procurá-la para colaborar com conhecimento especializado. Hoje, catorze deles contribuem regularmente com material informativo e o projeto mantém uma parceria com o grupo carioca Do Luto à Luta, de apoio à perda gestacional. Com a colaboração do Ministério da Saúde, o Temos que falar sobre isso também disponibiliza a listagem dos Centros de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (CAPS/SUS) e fornece assistência sobre centros, grupos ou profissionais de apoio próximos às visitantes do site.

Embora a internet facilite o anonimato e a participação de mães “recém nascidas” ou com dificuldades para sair de casa, Thais reconhece a importância do contato presencial e quer alcançar as mulheres que não estão na web. Cheia de sonhos e dedicando-se exclusivamente ao projeto, ela se mostra determinada a ampliá-lo, online e offline, e busca parcerias que possam apoiar arranjos mais complexos. “Almejamos promover uma mudança de atitude e a implementação de leis que protejam à mulher de todos os tipos de violência (obstétrica, física, psicológica e institucional) durante a gravidez, o parto e o puerpério”, afirma. Quem deseja integrar a equipe de colaboradores do Temos que falar sobre isso ou ajudar no gerenciamento da iniciativa pode contatá-la pelo e-mail do site.


Stefanie Cirne é feminista de todas as horas e jornalista de ocasião formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Arte: Elizabeth Catlett

 

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Fuck YOu Marion Peck

 

A modelo, atriz e inspiração para todas nós por sua autenticidade no mundo quadrado em que vivemos, Cara Delevingne foi entrevistada por um programa matinal da cidade de Sacramento, na Califórnia. Tudo normal, exceto pelo fato dessa entrevista ter se tornado um monumento à vergonha alheia de tão desastrosa que foi. Estabeleceu-se um ambiente passivo-agressivo que, em seguida, tornou-se apenas agressivo. Quando o link de Cara é cortado, os três apresentadores começam a falar mal do comportamento da moça. Mas… o que eles esperavam?

Cara estava disposta e disponível para falar sobre o seu trabalho. Em suas redes sociais e alguns trabalhos de moda, costuma demonstrar um lado divertido e brincalhão. Como modelo, isso é lucrativo por ser diferente e ousado, e não há dúvidas de que Cara fatura com a construção dessa imagem. Se é autêntica ou inventada, nunca saberemos, mas no momento da entrevista ela não estava ali para entreter ninguém com seu jeito carismático ou agradar a audiência com brincadeiras e sorrisos. Ela é uma atriz que foi convidada para falar sobre um filme que fez. Lá, encontra apresentadores que erram seu nome e insultam sua inteligência ao perguntar se ela ao menos leu o livro que inspirou o longa. Ao se deparar com uma entrevista morna e pouco elaborada, Cara deu respostas mornas e pouco elaboradas, porém foi ela quem levou a fama de rude por não demonstrar uma animação nítida de estar ali. O terceiro apresentador chega a dizer que, ganhando o que ganha, ela tinha o dever de sorrir.

Não é de hoje, porém, que sorrisos e afetações são o mínimo esperado das mulheres, especialmente na mídia. As negras, então, sofrem ainda mais com essa pressão pois qualquer tom menos agradável e elas já caem rapidamente no estereótipo da “negra barraqueira”. Se fala com mais autoridade ou aumenta o tom de voz, “perdeu a razão”. Controlar a postura da mulher é uma sutil, porém eficaz forma de silenciamento que limita a liberdade de expressão, tolhendo emoções e adequando-as aos rígidos padrões do que é considerado feminino e masculino socialmente. Um homem que é assertivo e expressa suas opiniões com dureza sem pedir desculpas por seu comportamento, é másculo, viril, poderoso. A mulher que faz o mesmo é grosseira, machona, bruta ou descontrolada.

Dois pesos, duas medidas
O curioso é que, para sobreviver profissionalmente no mundo corporativo, a mulher ” tem que ter culhão” e “botar o pau na mesa”, expressões machistas que são sinônimos de assertividade, coragem, opinião forte, ambição, garra e outras características geralmente associadas ao sexo masculino. Elas são valorizadas no mundo do trabalho que, é óbvio, ainda não conseguiu se desvencilhar de suas raízes patriarcais. Apesar disso, toda a masculinização necessária para que uma mulher sobreviva e tenha chances de subir degraus na carreira passa a ser desvalorizada no momento em que ela os abraça. Ellen Pao, executiva do Vale do Silício cujo processo contra o machismo corporativo a alçou a manchetes no mundo inteiro, estava à frente do reddit como CEO quando a rede social passou por uma limpeza que excluiu subfóruns misóginos e racistas.

Ellen, que não se deixou intimidar ao dar esse passo contra um público cada vez mais conhecido por seu ódio ao sexo feminino, os nerds, passou então a ser retratada como uma ditadora em charges à frente de paradas militares, em cima de tanques de guerra e com suásticas começaram a pipocar pela internet. Ou seja, uma instituição masculina em essência, o exército, cujas características intrínsecas  são disciplina, rigidez, hierarquia e uso da força, torna-se absolutamente condenável quando associada à ousadia de uma mulher. Ataques sem misericórdia e sem pedidos desculpas em seguida são falhas graves na personalidade de uma mulher. Após outras crises no comando da rede social, Pao foi substituída sob diversas acusações que, semanas depois, mostraram-se falsas.

Estímulos opostos fazem parte do crescimento da maioria das mulheres – e descobrir quem realmente somos no espectro das possibilidades é uma jornada para a vida inteira. Mas, no que se refere ao comportamento, o que se espera de uma mulher, quase sempre, são simpatia e cordialidade. Do contrário, são vistas como rabugentas, metidas ou de TPM. Em um mundo de homens, a presença da mulher tem um quê de favor que jamais poderá ser pago e uma subserviência que é o mínimo esperado. A aceitação parece depender da adequação a um limitado espaço determinado e a um padrão de comportamento dócil, e qualquer passo fora da linha são lidos como sinais de rebeldia e ingratidão.

Talvez seja por isso que as mulheres tenham uma tendência muito maior a pedir desculpas do que os homens.  Mesmo quando estão certas ou em seu direito, é comum que peçam desculpas quase como um reflexo ou adotam uma postura passiva e cordial diante de acontecimentos em que um posicionamento mais firme seria adequado. A Pantene lançou uma campanha endereçada justamente a esse comportamento chamada “Not Sorry” (algo como “Sem desculpas”, em tradução livre), na qual são exibidos diversos exemplos de momentos em que as mulheres se desculpam sem necessidade.

  Um estudo americano realizado em 2010 aponta que o excesso de desculpas das mulheres se dá pelo fato de que os homens têm uma tolerância maior à agressividade do que elas – ou seja, por serem mais sensíveis, elas pensam em como a própria dureza pode afetar o próximo e se desculpam com antecedência para amenizar o incômodo. Mas até que ponto a exposição dos homens a modelos de comportamento mais agressivos e um incentivo muito maior às emoções duras, socialmente masculinizadas, influenciam nesse resultado?

Afinal, desde a infância as mulheres são apresentadas à candura como um ideal a ser alcançado. Brigar, bater, apanhar e continuar brincando não são coisas de menina, mas garotos fazem isso o tempo todo. É mais difícil criar uma carapaça quando um pesado escudo social nos é imposto para nos proteger desde cedo. Princesas fazem parte do imaginário infantil das meninas pois reúnem todas as qualidades tidas como positivas em uma mulher: são bonitas, educadas, falam baixo e cumprem seu papel social com graça e carisma. Você não imagina uma princesa falando firme com um gerente pois o seu pedido veio errado – ela provavelmente diria, sorrindo, que “deve ter havido algum engano” ou, pior ainda, mandaria o príncipe ou um criado ir resolver. Para um homem, exigir seus direitos com firmeza em uma situação dessas é algo normal, sem qualquer necessidade de colocar açúcar para não causar desconforto. Já a mulher que vive essa situação ou abraça a possibilidade de ser vista como barraqueira ou abdica de suas emoções para vestir o cabresto emocional que nos mantém na linha.

Esse comportamento possui consequências que mantêm as mulheres no atraso. A sensação de inadequação as acompanha até no mercado de trabalho. Além de estarem em menor número e ganhando salários menores que os homens, ou talvez por isso mesmo, elas sentem uma angústia muito maior na hora de lutar por cargos e salário. A professora de economia Linda Babcook, da Carnegie Mellon University, publicou em 2003 o livro Women Don’t Ask: Negotiation and the Gender Divide, no qual investigou a atitude das mulheres em relação a salários e promoções. Ela descobriu que mulheres sentem mais ansiedade na hora de pedir por promoções e mais pagamento por seu trabalho. Em seu estudo, ela descobriu que 57% dos homens que se formaram na escola de negócios da universidade negociaram seus salários iniciais, mas apenas 7% das mulheres fizeram o mesmo. Em um artigo de 2005, ela e outros dois co-autores descobriram também que mulheres que tentaram negociar com chefes homens por maiores compensações foram mais rejeitadas que homens na mesma posição – sendo que quando homens e mulheres negociavam com chefes do sexo feminino, o gênero do empregado não interferiu na reação ao pedido de aumento.

Ellen Pao, quando ainda estava no comando do reddit, tomou providências para tentar resolver esse problema. Ela instituiu um salário fixo para novos contratados. “Os homens negociam mais duramente que as mulheres e às vezes as mulheres são penalizadas por negociar”, disse Pao ao Wall Street Journal.  Sendo assim, ela concluiu que, já que os homens se dão melhor na hora de negociar salários ao entrar nas empresas, as mulheres não devem ser punidas recebendo menos simplesmente por não ter a mesma habilidade, embora sejam contratadas para executar o mesmo trabalho. A ideia possui opositores, mas é um sinal de que essa discussão está ganhando adeptos dentro das grandes empresas.

 

O perigo de ser gentil
É preciso desestigmatizar a assertividade e o desagrado feminino, inclusive, pela vulnerabilidade que eles geram também fora do âmbito profissional. Dizer “não” a um homem é uma tarefa dificílima para a mulher. Não apenas por serem programadas desde a infância a agradá-los e a satisfazer seus desejos, mas também pelo medo de parecerem rudes (característica que não é vista como atraente para o sexo feminino) e, principalmente, porque eles não estão prontos para isso. Se por um lado os homens são mais resistentes à agressividade, por outro são extremamente sensíveis à rejeição – o que piora o trabalho delas de se desvencilhar de investidas masculinas e ainda sobra muita culpa de brinde.  Some-se a isso a noção de que os corpos femininos são públicos e o mito de que as mulheres precisam de um homem para ser completas e o que sem tem é a normalização não apenas do assédio, mas também da violência que se segue em caso de negativa. Afinal, quem mandou provocar?

Um exemplo é o que aconteceu com uma redatora do Buzzfeed, Grace Spelman. Após recentemente ser citada em uma lista de mulheres mais engraçadas do Twitter, eis que surge Benjamin Schoen, apresentador de um podcast sobre Harry Potter que ela havia adicionado no Facebook aos 14 anos por ser fã dos livros de J.K. Rowling. No início de agosto, Benjamin enviou um tweet para Grace dizendo-se surpreso de saber que eles já eram amigos no Facebook – e ela educadamente favoritou a postagem, mas não respondeu. Em seguida, ele enviou mais algumas mensagens que ela nunca retornou. Querendo chamar a atenção dela, resolveu entrar em contato via inbox no Facebook:

Grace você faz um ótimo trabalho ao deixar a luz da sua personalidade brilhar online. É hiperativamente lindo. E você parece ser bem introspectiva. Então o que eu quero saber é se você quer casar comigo em um desses lugares tipo drive thru. Se você não suportar toda essa espontaneidade eu entendo que posso estar me adiantando

Estou lançando um novo podcast e adoraria que você ouvisse e, se você gostar, eu amaria que participasse de um episódio

Você me ganhou quando postou aquele vídeo do kendrick lamar

Foi quando me dei conta de que você provavelmente é definitivamente uma alma especial (ou seja “a pessoa certa”) 🙂

Esse smile foi acidentalmente assustador

Grace, que nunca havia feito mais que curtir o primeiro tweet que ele enviou, e até então esse havia sido o único contato correspondido, respondeu com um simples e direto: “Oi Ben! Obrigada pelas palavras gentis, mas na verdade eu já tenho namorado. Espero que fique bem!”. Sentindo-se desconfortável com a insistência dele, ela bloqueou Ben nas duas redes sociais. Foi o suficiente para que ele se revoltasse e enviasse o seguinte email para sua caixa de entrada:

Grace,

Quando você me excluiu do Facebook tão sorrateiramente eu fiquei tão irritado e ofendido que escrevi um texto de 1500 palavras “te colocando no seu lugar”. Mas ao invés de enviar eu salvei como rascunho, já que é minha política não enviar emails quando estou me sentindo irritado, triste ou ferido. Eu quero saber porque você fez isso comigo. Você me parece uma pessoa bem esperta e divertida e as mensagens que eu te enviei foram uma tentativa de fingir ser seu fãzinho. Eu entendo como você pode ter achado que eu estava dando em cima de você. Eu lamento que tenha ficado essa impressão. A última coisa que eu queria era deixá-la desconfortável.Eu só queria quebrar o gelo porque te acho imensamente talentosa e acho que está sendo mal utilizada no seu emprego atual. Sou um escritor, programador e empreendedor. Estava tentando ser seu amigo pois acredito que poderia ajudá-la a avançar na sua carreira. Ao publicar seu trabalho eu melhoraria meus produtos com conteúdo de qualidade.

Essas portas não estão fechadas. Se você não está interessada em trabalhar comigo e se existe alguma outra razão além de você estar ocupada, eu gostaria de saber o porquê. Eu escrevi para você no Twitter para expressar minha genuína admiração e a maneira como você me mandou ir me foder genuinamente me magoou.

Eu queria ver se podia ajudar no seu futuro, já que você havia acabado de twittar que se sentira insegura sobre ele.

Espero que me dê uma segunda chance e possa ver que posso ser útil para você.

Mais uma vez me desculpe se te deixei desconfortável. Eu te admiro Grace e honestamente tenho tido dificuldades para dormir porque não sei o que fiz para te aborrecer tanto.

Espero sinceramente que você me responda.

Quando Grace decidiu expôr a história em seu perfil no Twitter, Ben tornou-se abertamente agressivo e chegou a afimar que Grace estava “naqueles dias”.  Tudo o que ela fez foi desvencilhar-se de um completo desconhecido fazendo uso de dispositivos que existem justamente para afastar pessoas que não desejamos ver em nossas redes sociais. A dificuldade em entender a rejeição e a perseguição que isso gerou fazem parte do pesadelo que uma mulher pode viver ao rejeitar um homem. É desse suposto direito sobre a mulher escolhida que nascem fantasias como a friendzone, uma espécie de purgatório para onde vão os “caras legais” que foram rejeitados por mulheres que – oh, a crueldade! – não queriam nada além da amizade deles.

A zona da amizade realmente existe, mas não há nada de errado em ter só a amizade de uma mulher. Não devemos sexo em troca de uma paixão que não desejamos viver. E, ainda que toda essa fantasia romântica tenha partido da cabeça do homem, as mulheres é que são vistas como malvadas por colocá-los na friendzone. Dizer não, ter uma opinião contrária, mais uma vez faz das mulheres as vilãs da história. No caso da Grace, ela ainda citou o fato de ter um namorado – uma manobra básica para tentar amenizar a decepção do homem, sendo uma desculpa para o fato de não poderem ficar juntos, mas também uma das únicas formas de conseguir o respeito instantâneo deles: associando-se a outro homem já que, se estamos sozinhas, nenhuma razão parece ser suficiente para dispensar o afeto masculino.

Perto dos muitos casos de violência contra mulheres que tentaram sair de relacionamentos, a história de Grace parece simples, mas ela apenas salienta o fato de que esse sentimento de direito dos homens sobre as mulheres permeia até as interações mais superficiais. Por baixo do receio que a mulher sente ao rejeitar as investidas de um homem, está o pavor de uma violência física, uma violação sexual, do uso da força como meio para ele conseguir o que deseja. Pode parecer exagero, mas é autopreservação. E, na manifestação do pior cenário possível, é a falta de cautela da mulher é que vai para o banco dos réus.

 

Virando o jogo
Para Sheryl Sandberg, COO do Facebook, autora do livro e fundadora do movimento Lean In, as mulheres não devem se envergonhar de ter ambição e assumir posições de liderança com assertividade e firmeza. Para ela, não apenas as pessoas devem se adaptar a ver mulheres líderes, mas as próprias mulheres devem se acostumar com essa posição. Ela não acredita que os homens sejam confiantes demais, apenas que as mulheres são confiantes de menos. No livro, ela conta sua trajetória em busca dessa confiança. Mesmo quando foi considerada a quinta mulher mais poderosa do planeta pela revista Forbes, ela ainda pedia desculpas pelo próprio sucesso e sentia uma forte necessidade de agradar os outros. Com tantos estímulos conflitantes durante toda a vida, essa não é uma conclusão a que se chegue facilmente. Por isso, além do livro, o site LeanIn.org incentiva as mulheres a se reunir, se educar e estabelecer uma rede de contatos que as fortaleça profissionalmente.

Particularmente, encontrar a própria voz, se fazer ouvir e não se deixar envergonhar pela própria opinião ou pelo espaço que ocupa no mundo são passos essenciais para o empoderamento feminino. Não é uma tarefa fácil. Afinal, trata-se de uma luta contra séculos de uma socialização que limita e silencia as mulheres. O resultado, porém, pode ser magnífico e recompensador. Nas palavras de Chimamanda Ngozi Adichie, em seu discurso na faculdade de Wellesley este ano:

“No mundo inteiro, as meninas são ensinadas a serem agradáveis, a se moldarem em formas que agradem outras pessoas. Por favor, não se modifiquem para agradar outras pessoas. Não façam isso. Se alguém gosta dessa versão sua que é falsa e te diminui, essas pessoas gostam de uma forma vazia e não de você. E o mundo é tão gloriosamente vasto, multifacetado e diverso que certamente existem pessoas no mundo que vão gostar de você como você é.

 

(…) Uma última coisa sobre minha mãe. Eu e minha mãe discordamos sobre muitas coisas quando o assunto é gênero. Existem algumas coisas que minha mãe acredita que uma pessoa deve fazer apenas “por ser mulher”. Como ocasionalmente acenar e sorrir, mesmo que sorrir seja a última coisa que se queira fazer. Como estrategicamente deixar de argumentar apenas porque a outra pessoa com quem se está discutindo não é uma mulher. Como casar e ter filhos. Eu penso que tudo isso pode ser feito por algumas boas razões, mas “porque você é uma mulher” não é uma delas. Então, Turma de 2015, nunca aceitem o “porque você é uma mulher” como uma razão para fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa.”

Felizmente, mulheres como a Cara, citada lá no início do texto, já aprenderam essa lição e não se curvam mais diante das expectativas alheias sobre o comportamento feminino. Ela é divertida quando se sente divertida e foi séria quando quis ser levada a sério. Aos pouquinhos, exemplos como o dela vão mostrando para o mundo que o valor de uma mulher não se perde quando ela é agressiva, tampouco reside apenas em seu sorriso. Seu conteúdo é o mesmo e merece respeito independente da forma como é expressado. As emoções femininas dispensam juízo de valor e cabresto. Nós somos muito mais que isso.


Arte: Marion Peck

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Quem não teria curiosidade em saber quem foi a mulher considerada “a dama das artes plásticas brasileiras”? E para nos instigar ainda mais, outros fatores de sua biografia que a fizeram/fazem uma mulher inspiradora para todas nós: chegando ao Brasil aos 23 anos, ela não deixou que sua condição de estrangeira a limitasse ou a impedisse de traçar o caminho que desejou; e, recém aos 40 anos, essa “imigrante comum” iniciou-se no mundo das artes plásticas contrariando clichês que, lamentavelmente ainda hoje existem em torno de nós mulheres: de ser estrangeira/imigrante/migrante em um país ou cidade novos e de quase não ter o “direito” de começar uma nova profissão/carreira após os quarenta anos de idade por ser considerada “velha” para o mercado de trabalho. Essa mulher tem um nome: Tomie Ohtake, a artista plástica nipo-brasileira que personificou muitas das reivindicações femininas (ainda atuais) como sua inserção e a conquista de respeito e reconhecimento por seu trabalho num campo laboral antigamente praticamente dominado por homens – é de se lembrar que Tomie Ohtake começou sua produção artística em 1952 em São Paulo. E ela soube conquistar e defender seu espaço e presença nesse ambiente através de suas obras escultóricas gigantestas, com proporções monumentais que desafiam a estaticidade elástica desses corpos, e sua contínua pesquisa com cores e texturas em suas telas, produzidos ainda quando ela cumprira seu centenário de vida.

Tomie Ohtake é/foi uma mulher inspiradora porque combateu com seu trabalho, e em proporções colossais, todos os fatores sociais e culturais que poderiam vir “contra” si e fez isso deixando muito bem marcada sua presença no cotidiano de milhares de brasileiros através de 27 obras públicas espalhadas por algumas cidades brasileiras. Milhões de pessoas passam ou veem diariamente as obras de Tomie, e inclusive as têm incorporada a sua paisagem urbana, sem se darem conta disso. E como não entender essa inserção discreta e definitiva da presença da artista em nosso cotidiano se não como uma forma de resistência permanente e provocativamente silenciosa aos “nãos” que uma cultura conservadora e machista procura nos obrigar a aceitar como regra? As obras de Tomie Ohtake protestam pela excepção a essa regra, à regra da convencionalidade, da estaticidade dos objetos e ordens naturais, do conforto e funcionalidade imediata das coisas ao nosso redor.

Quando um está chegando ou partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (São Paulo), exatamente no meio de um campo ao céu aberto encontra-se instalada uma enorme escultura em forma circular. Porém,  a escultura circular de Tomie Ohtake foge à regra geométrica de uma esfera que esperamos e conhecemos. A sua esfera nos seduz quer por seu vermelho intenso quer por suas dimensões inexatas, desproporcionadas, como se fosse um corpo celular disforme viesse ao nosso encontro, procurando nos atrair, capturar e tragar para dentro de uma dimensão determinada e conhecida somente por Tomie.

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Imagem: Escultura no Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo, 2008.

Essa poderia ser a primeira experiência de um observador distraído com as obras de Tomie Ohtake. Mas, passeando pela capital paulista, mais exatamente pela estação do Metrô Consolação ou passando pela Avenida 23 de maio, nos damos conta que a presença da artista está fortemente demarcada e compõe a paisagem urbana do cotidiano de milhares de pessoas, mesmo que essas não saibam ou ignorem a autoria das obras. O fato é que: Tomie está ali – e de forma colossal e permanente.

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Imagem: Estação do Metrô Consolação (São Paulo), 1991.

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Imagem: Escultura na Avenida 23 de maio (São Paulo), 1988.

Na cidade de Santos, litoral paulista, encontra-se no Parque Municipal Roberto Mário Santini outro exemplo da liberdade de criação da artista que impressiona o visitante pela leveza e movimento das placas metálicas que compõem a obra. Uma vez mais, suas esculturas (consciente e meticulosamente arquitetadas) brincam e põem em questão a massa, o volume, o peso, o tamanho, a forma e a cor das obras que cria. É como se as coisas que criava não tivessem paz – assim como na música homônima de Arnaldo Antunes “As coisas” – pois elas se encontram em um contraditório território de imobilidade elástica, em permanente movimento que, muitas vezes, parece nos buscar, nos envolver para dentro de si entre seus tentáculos.

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Imagem: Escultura no Parque Municipal Roberto Mário Santini (Santos, Estado de São Paulo).

 

ibirapuera - Visualizador de Fotos do Windows

Imagem: Escultura na entrada do teatro do Parque do Ibirapuera, São Paulo, XX

Ao cumprir seu centenário em 2013 e em plena fase de produção, Tomie Ohtake inaugurou três exposições organizadas pelo Instituto Tomie Ohtake (www.institutotomieohtake.org.br), inaugurado em 2000 na capital paulista. Em uma delas, numa galeria de arte desta cidade, cerca de vinte quadros e esculturas inéditos produzidos pela artista entre 2011 e 2012 foram expostos e transmitiam ao observador uma impactante energia e vitalidade criativa da artista. A conhecida leveza e delicadeza de seu gesto e a mobilidade estática de suas esculturas voltaram a ser exibidas, como na obra abaixo (semelhante escultura também pode ser encontrada instalada em frente ao Museu de Arte Contemporânea da Cidade Universitária de São Paulo):

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Imagem: Escultura instalada na Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2013.

Suas telas comportam uma explosão de cores, de texturas, de gestos/pinceladas sobrepostos – resultado de uma constante investigação durante toda sua trajetória artística. Dependendo da proximidade ou da distância frente a suas telas, o observador é brindado com a visão de novas formas, temas e tramas tridimensionais que se mesclam simultanea e harmonicamente. Formas circulares, recorrentes na produção de Tomie Ohtake desde os anos de 1950, reincidiram em seus últimos trabalhos – numa espécie de encerramento do ciclo de um trabalho claramente projetado e investigado durante toda uma vida.

acrilico azul

Imagem: Quadro azul, acrílico sobre tela, 2012.

Assim como suas esculturas são caracterizadas por uma ação gestual linear muito bem marcada, suas telas demonstram uma exploração em limite máximo da potência das cores que cria uma textura particular, lograda através de diversas capas de acrílico sobrepostas. Essa materialidade possibilita a formação de imagens abstratas em permanente movimento, como se, assim como suas esculturas colossais, também buscassem capturar o observador para dentro de si. Novas formas (como círculos, arcos, elipses), novos planos, ondas tridimensionais, em uma organicidade quase selvática, saltam ao olhar do observador a cada nova mirada e somente possível através da potência e das gradações das cores primárias e secundárias.

acrilico verde

Imagem: Quadro verde, acrílico sobre tela, 2012.

Ao largo de sua produção, Tomie Ohtake revelou um permanente e meticuloso compromisso com a busca pelas propriedades cromáticas da veladura, transparência, irradiação e retração, assim como com a particular e harmonica tensão entre o gesto livre, o movimento delicado, a leveza linear e suas impactantes, imponentes e massissas esculturas em dimensões megalomaníacas. Através de suas pinceladas, ora carregadas de tinta ora trabalhadas na transparência, a artista não limitou o uso espacial de suas telas. Ao contrário, ela as utilizou bem mais como metáforas do que “ainda está por vir”, já que oferecem ao observador uma leitura aberta que, a cada nova mirada, descobre novas formas e imagens no emaranhado abstrato fomentado pela potência de suas cores. Através de suas obras, Tomie Ohtake nos inspira porque são uma resposta inconvencional, sensata e sensível às convencionalidades clássicas que estamos acostumados e esperamos de esculturas e pinturas. Como mulher, Tomie segue nos inspirando, ainda que tenha partido no dia 12 de fevereiro, porque concretizou em si a quebra de paradigmas sociais que poderiam tê-la reprimido a realizar seus desejos e projetos; porque sua resposta às convencionalidades sociais foi trabalhada metaforicamente de forma contínua ao largo de mais de sessenta anos de produção e em formatos colossais, para que aqueles que buscam justificá-las ou defendê-las não possam ignorar por completo a delicada, massissa e monumental resistência que essa mulher inseriu em seus cotidianos através de suas esculturas nada convencionais.

 


 

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens exibidas neste artigo foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake (esculturas públicas) e pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara (quadros azul e verde de 2012). A imagem da escultura linear fotografada num espaço interior pertence à autora do texto.

 

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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Zara, Marisa, Pernambucanas, Sete Sete Cinco, Renner, M. Officer, Le Lis Blanc, Bo.Bô. Infelizmente, a lista de empresas da moda que usaram trabalho escravo nos últimos anos no Brasil poderia encher um artigo inteiro. Saber o que a maioria delas têm em comum, porém, pode nos ajudar a combater o problema com mais eficiência: sua clientela principal está entre as mulheres.

Ou seja: é justo dizer que, hoje, as mulheres estão entre as mais fiéis patrocinadoras de trabalhos análogos à escravidão no Brasil e no mundo. Contudo, demonizá-las seria um erro. As mulheres são, por sua vez, vítimas de uma publicidade violenta e de revistas femininas que estimulam um consumismo desenfreado e irresponsável. Pouco se fala da linha de produção a não ser para consagrar designers ou enriquecer grifes anunciantes. As revistas femininas de hoje se comportam como se suas leitoras não tivessem consciência.

Estudos comprovaram, ainda por cima, que o consumidor brasileiro interiorizou essa imagem e aderiu a este padrão de comportamento. Pesquisadores da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Federal de Uberlândia (MG) analisaram a repercussão do caso Zara, em 2011, quando foi revelado que a marca pagava R$ 2 por peça aos costureiros em São Paulo. A conclusão foi triste: consumidores não só acreditavam que este tipo de crime compensava financeiramente como não estavam dispostos a deixar de comprar produtos da marca em retaliação.

Prova isso o crescimento do mercado da moda, que não se deixa arranhar por denúncias do Ministério Público. Nos últimos dez anos, seu faturamento quadruplicou, alcançando 140 bilhões de reais, segundo a consultoria Euromonitor. O Brasil pulou de 14o. para 8o. do mundo no setor. Os lucros são inflados por salários baixíssimos e condições degradantes de empregados.

Nós, fundadoras da Revista AzMina – para mulheres de A a Z, acreditamos que é possível fazer um jornalismo especializado para mulheres que quebre esse ciclo destrutivo. Concebemos uma revista que, além de acreditar em todos os tipos de beleza, falará de ética toda vez que pensar em moda. Em nossos ensaios de moda, marcas transgressoras estão fora. Vamos visitar fábricas nas periferias do mundo fashion, como China e Bangladesh, e investir em um jornalismo investigativo que não trate as leitoras com condescendência e denuncie redes e lojas que façam uso de trabalho escravo. Nosso plano é colocar a consumidora cara a cara com a boliviana ou chinesa que passou noites em pouca luz costurando os botões daquela camisa em promoção. É fazê-la questionar fundo cada ato de consumo muito além das capacidades de sua conta bancária. É provocar uma mudança cultural e de coração.

Mas o que nos fará diferente das demais revistas e como conseguiremos fazer isso? A resposta a esse questionamento não está apenas no jornalismo, mas na concepção de todo um modelo de negócios. As revistas femininas não questionam o mundo fashion pois ele é seu verdadeiro cliente. São grandes marcas que pagam a conta dessas publicações e garantem seus lucros, não as leitoras. Nós apostamos em uma inversão desse sistema. AzMina está nascendo a partir de financiamento coletivo e assim pretende pagar a maior parte de seus custos. Anunciantes são parte complementar do processo e, como não temos fins lucrativos, podemos dispensar um ou outro baseadas em critérios éticos.

Criamos o conceito de publicidade responsável ou women-friendly. Isso significa que só poderão anunciar conosco marcas que não estejam no radar recente da Repórter Brasil de uso de trabalho análogo à escravidão. Significa também que vamos editorializar nosso conteúdo publicitário com tanto carinho quanto pensarmos nossas reportagens. O intuito, mais do que angariar verbas, é estimular uma mudança profunda no jeito com que fazemos propaganda para mulheres no Brasil.

É uma ideia ambiciosa, mas realista. Para existir, porém, precisamos da ajuda de quem acredita nesse ideal junto conosco. A vaquinha on-line que garantirá que a Revista AzMina saia do papel termina em menos de um mês. O jornalismo independente é capaz de quebrar padrões sociais destrutivos, e um investimento que vale a pena para os leitores. As grandes marcas estarão sempre dispostas a assumir os custos, mas, ao nos mobilizarmos, não vamos assumimos o prejuízo da perda de nossos valores.

 


 

Nana Queiroz é diretora executiva da Revista AzMina, e criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. É jornalista pela USP, especialista em Relações Internacionais pela UnB e está cursando o mestrado em Estudos de Gênero na George Washington University. Artigo via Repórter Brasil.

Arte: Ada Buchholc

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politicas

Janete Rocha Pietá, 68 anos, conheceu seu marido, Elói Pietá, na política. Juntos, eles lutaram contra a ditadura e ajudaram a formar o Partido dos Trabalhadores (PT). Certa vez, nos anos 1980, Janete era presidente do PT em Guarulhos e tinha como missão articular o partido e a bancada, enquanto seu marido era vereador. Só que quando outros políticos do partido ligavam para os Pietá para discutir a articulação, poucos procuravam Janete. Mesmo que não fosse a responsabilidade de Elói, eles procuravam o homem da casa para discutir política. Essa história de Janete, além de outras que mostram o preconceito que sofreu por ser, além de mulher, negra, é um pequeno exemplo da tradição política brasileira de segregação. Ainda hoje, mais de 80 anos depois da conquista do voto feminino, as mulheres são minoria nas esferas de poder e impera o pensamento de que elas não pertencem à política. Enquanto isso, as que fazem questão de pertencer enfrentam preconceito, assédio, exclusão dos grupos de decisão e do financiamento de suas campanhas, além de uma inclusão de fachada movida por oportunismo.

Mas por que, mesmo, as mulheres precisam estar no poder? Um motivo é representatividade, importante porque as mulheres são 52% dos eleitores brasileiros, ou 74 milhões de eleitoras que vão eleger um congresso praticamente 90% masculino, com poucas opções de candidatas em relação a candidatos. Em segundo lugar, as brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932, mas este não é o único direito político das mulheres – acesso a cargos políticos também o é.

Em terceiro lugar, ter mais mulheres no poder não significa necessariamente mais propostas  feministas, mas certamente há uma probabilidade maior da situação das brasileiras entrar em pauta. Mas tomemos o exemplo do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para despenalização do aborto, um problema de saúde para cerca de um milhão de mulheres que abortam anualmente no Brasil. O projeto está em votação pública e online no site Vote na Web, e o resultado até o fechamento desta reportagem mostra 57% de aprovação geral, com 71% de aprovação feminina e apenas 40% de aprovação masculina. Se os brasileiros em geral tivessem o poder de decidir através de uma votação online se o aborto deve ser crime ou não, já temos a resposta. Se as mulheres pudessem decidir sobre seu próprio corpo então, nem se fala. No entanto, vivemos em uma democracia representativa, em que nossos representantes decidem as leis por nós. Só que 90% desses representantes são homens brancos, muitos deles empresários. E eles não querem largar o osso.

Internacionalmente, o Brasil é aclamado por ter uma presidente mulher, enquanto tantos países de tradição democrática, como Estados Unidos e França, por exemplo, nunca tiveram uma. Na prática, ter uma presidenta reeleita tem efeitos meramente simbólicos, já que as mulheres são minorias em todas as instâncias políticas, mesmo compondo 51% da população. Na Câmara de Deputados, elas representam 8,8% das cadeiras; no Senado, 9,9%; nas Prefeituras, 12% e nos governos estaduais, 3,7% (na verdade, apenas uma mulher foi eleita dos 27 estados brasileiros). Esses números constrangedores colocam o Brasil em 120º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) que mede o índice de mulheres nos parlamentos, perdendo até para países islâmicos.

Há uma série de fatores para uma participação feminina tão limitada, que vão desde o conceito de que a responsabilidade do lar e dos filhos é da mulher até a falta de investimento financeiro. Mas uma das mais citadas entre especialistas é a resistência dentro dos partidos políticos – absolutamente todos eles. “Nas direções nacionais não temos nenhuma mulher presidente de nenhum partido. Quem decide quem vai ser candidato? Nos últimos anos, as mulheres têm representado 64% das pessoas que se filiam a partidos. O que não há é tradição e cultura de que as mulheres devem ocupar esses espaços. Não basta ser filiada, não basta ser candidata, é preciso estar dentro do poder de decisão”, disse Rose Scalabrin, Secretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, no painel Pequim +20, uma série de debates realizados em 14 de abril deste ano sobre a participação feminina na política 20 anos depois da IV Conferência sobre as Mulheres, realizada na capital chinesa.

 

Filme de terror

Em sua fala, Scalabrin disse que o sistema brasileiro de cotas se mostrou ineficiente nessas últimas duas décadas e que a reforma política, para ser eficaz, precisa englobar os partidos, para que a forma como as decisões são tomadas e os recursos são geridos seja transformada. “Muitas mulheres saem literalmente traumatizadas de uma campanha eleitoral, saem tão fragilizadas que não querem nem saber de partido político. E justamente por estarem em baixíssimos numeros em outros lugares que geram capital politico, como ministérios e secretarias, elas dificilmente têm uma base para começar. Elas têm medo de se envolver nesse jogo do financiamento, as empresas não confiam nelas porque geralmente os caciques que vão resolver as questões e elas não são recomendadas pelos partidos como candidaturas prioritárias”, explica.

Segundo Karina Kufa, advogada especialista em direito eleitoral os partidos dizem que não encontram mulheres com interesse na política. “Em parte, acho que é verdade. Tem mulheres com interesse, outras com medo, receio, falta de interesse. Então é preciso buscar essas mulheres que querem, e essa iniciativa tem que ser dos partidos. Os partidos têm que criar mecanismos para filiar mulheres, apresentar uma plataforma, usar verba do fundo partidário para formar essas mulheres e qualificá-las para a política”, diz Kufa.

Janete Pietá, que está no PT desde sua fundação, sente que a resistência às mulheres tem crescido nos últimos anos. “Eu sou de uma geração que lutou contra a ditadura, que nos anos 1970 fez toda uma movimentação no sentido de buscar nossos próprios caminhos e igualdade de direitos. Eu sinto que hoje existe um conservadorismo muito grande, inclusive no próprio PT, onde existe muita resistência na questão de paridade. Se não mudarmos a concepção de que mulher é um ser de segunda categoria, não adianta. Acho que temos que ampliar as políticas públicas, primeiro mostrar que a responsabilidade do filho não é só da mulher, é do casal. Por que só a mulher leva o filho ao médico? Por que creche só em locais de trabalho em que trabalham mulheres? Temos que avançar muito nas políticas públicas”, afirma a ex-deputada.

Afinal, as cotas de 30% das candidaturas dos partidos para as mulheres, obrigatória segundo uma lei de 1997, dificilmente são preenchidas de maneira honesta. “A saída que os partidos acabaram arranjando: desses 30%, algumas são esposas de candidatos que não têm interesse em se eleger, mas emprestam o nome só para cumprir a cota, outras são conhecidas, funcionários do partido e pior, servidores públicos. Quando vai se candidatar, o servidor pode tirar licença remunerada, então algumas mulheres tiram a licença para se candidatar, mas não se envolve na política, não vai atrás de voto e nem ela mesma vota nela. Esse ponto é preocupante porque isso é uma fraude eleitoral e improbidade administrativa porque você está recebendo dinheiro público sem prestar serviço com a desculpa de que é um benefício que a lei confere”, afirma Kufa.

Aí entra outra cota que foi aprovada com a pressão do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres: 5% do total do fundo dos partidos deve ser investido na formação política da mulher (o pedido inicial era de 30%). Ou seja, esse dinheiro deveria ser investido na capacitação das mulheres que vão compôr os 30% das candidaturas para que a votação nelas seja viável, desde cursos de oratória ou de marketing político, por exemplo. Na prática, isso raramente ocorre, segundo Kufa. “Um partido recebe um valor x de fundo que é do dinheiro público, e 5% do total tem que ser investido em mulher. Vamos supor que um partido tenha 5 mil por mês para gastar com mulher, só que ele não gasta. No ano seguinte, vem a penalidade e ele tem que gastar 7,5 mil para não ter a conta rejeitada. Os partidos estão deixando as contas serem rejeitadas, estão recebendo essa penalidade e ignorando”, afirma.

Ou seja, a política de cotas definitivamente não resolve o problema, com tantos outros obstáculos pela frente. “Você fala com mulheres com nome, credencial referência e pergunta se ela quer ser candidata. Ela fala ‘não quero porque é um filme de terror’. Política de cotas sem condições não leva a nada. Se só está na lei, vemos o resultado, quais são as mulheres nos espaços de poder que discutem a situação das mulheres?”, questiona Muna Zeyn, membro da Rede Feminista e presidente do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres durante o começo dos anos 2000.

 

Pele de rinoceronte

Várias décadas atrás, a antiga primeira-dama dos Estados Unidos disse que “se as mulheres querem estar na política, precisam criar uma pele tão grossa quanto a dos rinocerontes”. Ainda hoje, as mulheres que estão na política sentem a necessidade de se camuflar na pele de rinocerontes, imitando comportamento dos homens – ou aguentando a pressão. Luciana Genro, candidata à presidência em 2014 pelo PSOL, por exemplo, sentiu na pele a jornada tripla de trabalho que a militância política lhe exigiu. “As mulheres ainda são vistas como as maiores responsáveis pelo lar e pelos filhos, o que dificulta muito a participação política da mulher. Não é casual que a maior parte das mulheres que tem algum tipo de sucesso na política têm alguém da família na política porque a nossa cultura é muito machista e é muito difícil o marido aceitar que a mulher saia para uma reunião à noite e ele fica em casa fazendo janta e cuidando dos filhos. É muito difícil conciliar essa tripla jornada, a de trabalho normal que todos têm com a jornada de trabalho doméstico e um terceiro turno da militância política. Isso é um obstáculo muito crítico para as mulheres”, afirma.

A impressão de Genro é sentida por outras políticas também, independentemente do partido político. Mara Gabrilli (PSDB-SP) sente preconceito na Câmara de Deputados, onde atua. “Existe um preconceito muito grande, mesmo na Câmara, com mulheres em cargos de direção. Para mudar isso, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou no mês passado, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição 590/06, que garante a presença de, ao menos, uma mulher nas Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados, do Senado e das comissões de cada Casa. A proposta segue para ser debatida no Senado”, disse.

Para Marcela Trópia,  vice-presidente regional na Juventude do PSDB Minas Gerais, as dificuldades são parecidas com as que as mulheres em geral vivem no mercado de trabalho. “Sua capacidade sempre é questionada, se quer desenvolver algum projeto, só há espaço no segmento de mulheres para que isso ocorra, sua candidatura não terá outra bandeira que não a feminina e a sua presença sempre parece ser lembrada por que falta ‘mulher’ na mesa, em um tom de que falta uma parte bonita na mesa e não de que realmente deveríamos compô-la porque precisamos de representatividade nas decisões”, conta.

É possível entender um pouco melhor os obstáculos das mulheres na política na aba “mulheres do site Meu Congresso Nacional, um site sem fins lucrativos que apresenta dados governamentais em um formato acessível. Ou seja: gráficos. Através deles, vemos que a média de doações totais para candidatos é maior do que para as candidatas, mas a média de doações dos eleitos – de ambos os sexos – é quase igual. “Dado igualdade de financiamento para homens e mulheres, a taxa de eleitos é praticamente a mesma. Mas eu não acredito que o problema principal seja o financiamento de campanha e sim a estrutura da política brasileira, que privilegia a reeleição. Independentemente do gênero, o principal fator para se eleger é ser reeleito”, diz Kellyton Brito, engenheiro de software e criador do Meu Congresso Nacional. De fato, a maioria das deputadas (e dos deputados) eleitas já estavam no Congresso. Mas os homens se reelegem muito mais que as mulheres: quase 60% deles, contra 40% delas.

 

Muitos problemas, poucas soluções

A bancada feminina do Congresso está discutindo meios de colocar a causa da participação política das mulheres na reforma política, segundo Kufa. Se a reforma política vingar e o sistema eleitoral mudar para lista fechada, a movimentação será pela lista com alternância de gênero. Nesse caso, os partidos apresentariam uma lista com ordem de classificação definida internamente com homens e mulheres candidatos para vereadores e deputados estaduais e municipais. Os nomes da lista mais votada seriam eleitos. Há ainda outra proposta, uma reserva de 30% dos cargos em disputa para as mulheres, semelhante ao sistema de cotas das universidades. Ou seja, 70% das vagas é para todos e 30% é só para mulheres, independentemente do número de votos. Isso significa que 30% do Congresso seria representado por mulheres.

Luiz Felipe Miguel, coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades da UnB, vislumbra alternativas interessantes. “Nosso modelo de cotas é muito pouco efetivo, mas isso não quer dizer que podemos abandonar esse modelo. Precisamos aprimorar esse modelo, pensando em propaganda eleitoral, dinheiro para campanha, cotas nas direções partidárias (uma questão complicada porque mexe com autonomia do partido), cotas no poder executivo, na ocupação de primeiro escalão”, disse ele no painel Pequim +20. Miguel lembra que, ao ser eleita, Dilma Rousseff prometeu que um terço dos ministérios seriam chefiados por mulheres, o que não apenas não foi cumprido, como o número de mulheres foi minguando, já que os partidos querem indicar homens, segundo o especialista. De acordo com ele, a capacitação das mulheres não pode ser vista como a grande solução. “Talvez o caminho não seja fazer com que mulheres sejam capazes de mimetizar o comportamento da elite política masculina. É mais interessante se permitir uma mudança do comportamento com novas formas de fazer política”, disse.

Já Karina Kufa acredita no empoderamento como chave para essa mudança, no caso um núcleo de apoio à mulher com um telefone 0800 para dúvidas e atendimento durante a campanha, uma rede além do partido que as oriente sobre como buscar recursos, apresentar plataformas e que explique quais são seus direitos e deveres. “Empoderar as mulheres é o caminho”.

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população”, disse, oito décadas atrás, Bertha Lutz (1894-1976), referência do movimento sufragista brasileiro, uma mulher que lutou pelo direito feminino ao voto. Depois de conquistar o direito ao voto, Lutz se tornou deputada na Câmara Federal e defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e menores de idade – assuntos tão atuais -, propondo a igualdade salarial, uma das várias realidades que não alcançamos ainda hoje. Fingir que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens na política é apenas uma maneira encontrada para negar justiça à metade da população brasileira em pleno século XXI.

 

O que elas têm a dizer

Conheça as experiências com o machismo de sete mulheres que, apesar dele, abraçaram a carreira política.

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“Eu fui num evento no Ministério da Justiça. Sempre que tinha eventos assim, ainda no segundo governo Lula, vamos no credenciamento e os deputados têm reserva, um espaço para eles. Aí a moça estava de cabeça baixa escrevendo e eu disse ‘senhora, eu sou deputada federal’. Ela nem levantou a cabeça e falou ‘vai para outra mesa, autoridades é ali”, aí tudo bem, eu estava indo e ela me olhou e disse ‘mas a senhora é deputada federal?’. Eu falei ‘sou, por que, você tem dúvida?’. Ela disse ‘ah, eu nunca lhe vi’, e eu respondi ‘mas é impossível você conhecer os 513 deputados’. Aí ela olhou e disse ‘ah, tá bom, vai vai vai’. Foi horrível porque muitas vezes os deputados vão com os assessores, eles que pegam o crachá no credenciamento e eu não, fui sozinha e quando eu cheguei lá me deparei com isso. Eu sou a primeira deputada eleita pelo PT assumidamente negra, nunca tive um espaço especial no partido por causa disso. Mas sofri vários tipos de preconceito enquanto mulher negra.

O grande problema do racismo é que quem vive, sente, depois quando você conta, as pessoas falam “não é bem assim”. Quando eu tomei posse como deputada federal, eu não sabia que existia elevadores para os parlamentares e elevador do povo, em janeiro de 2007, cheguei no elevador e a ascensorista falou “esse elevador é para parlamentares, a senhora se dirija ao outro elevador por favor”, de uma forma muito agressiva. Aí tudo bem, fui para o outro lado, era parlamentar nova, não tinha boton. Quando eu voltei, com o Vicentinho, ele disse ‘daqui pra frente, Janete, você deve usar esse elevador’ e era a mesma ascensorista. Então ela me falou ‘me desculpe, é que são ordens’, eu disse ‘tudo bem, mas a forma como você me tratou foi muito rude’.

 

luciana genro

Quando cheguei na assembleia legislativa como deputada aos já aos 24 anos filha de um político conhecido, além de ser mulher e jovem, eu ainda era filha do Tarso. Eu sentia uma desconfiança deles no ar de que ‘essa menina só chegou aqui por causa do pai dela’. Tive que trabalhar dobrado pra provar que eu tinha minha própria trajetória e minhas próprias ideias políticas. Eu também sofri muito preconceito por ter tido divergências políticas com meu pai, muitas pessoas me cobravam ‘como tu vai contra o teu pai?’. Como se fosse um crime a filha ter uma divergência com o pai, como se fosse obrigação de toda filha dizer amém para tudo o que o pai pensa. Hoje não mais, mas até alguns anos atrás eu ainda escutava essa frase, que é bem machista e patriarcal, dizendo que uma filha não pode, em hipótese alguma, ter um pensamento independente.

 

marcela tropia

“Para que você, como mulher, tenha se projetado politicamente, todos pensam que você se envolveu intimamente com algum homem poderoso, que seu pai é um homem poderoso ou que você tem muito dinheiro para isso, não parece haver um motivo óbvio para você estar lidando com política. O meio é majoritariamente masculino e extremamente intimidador. Não consigo ir de vestidos às reuniões, a cada amiga ou conhecida que eu levo para participar, após as reuniões, já começa a receber cantadas virtuais e um assédio enorme se inicia.

Aconteceu comigo quando entrei, bem nova, aos 16 anos e eu acabei namorando alguém de dentro do PSDB, ele hoje é deputado, mas sempre me respeitou nas minhas ambições políticas e até terminamos para que cada um seguisse seu caminho público. Se eu tivesse me envolvido com qualquer outro, talvez a história fosse bem diferente, como vi acontecer com várias amigas. Se você se envolve, é uma ‘puta interesseira’, se você não se envolve é ‘sapatão’ ou ‘mal amada’, “bruxa”. Hoje, já não sei qual minha classificação.”

 

patricia bezerra

“Passei por uma situação na Câmara, logo nas primeiras semanas de trabalho. Eu estava chegando, tudo pra mim era novo e estava tentando lidar com o tal ‘regimento interno’ que dita as regras para o funcionamento das sessões e de todas as atividades da casa. Na ocasião estava sendo votado um projeto do qual eu discordava e sempre vi ser praticado um ‘voto contrário’ no plenário.  Por observação, precedência e legitimidade, ao término da votação fui ao microfone e declarei meu voto contrário àquele projeto. Do chão emergiu um vereador que veio ao microfone e contestou minha atitude dizendo que não era ‘regimental’ o meu pedido e emendou: ‘Aí vem a vereadora aqui e nhen nhen nhen…’ Me arremedou sem nenhuma cerimônia!  Fui ao microfone e disse que não admitiria ser arremedada por quem quer que fosse e que naquele espaço eu era tão vereadora e tão parlamentar quanto ele. Nunca mais fui desrespeitada por ele, ao contrário. Infelizmente, por vezes temos de mostrar os dentes.”


ana amelia

“As mulheres estão muito mais fortes em carreiras de estado, como poder judiciário e polícia federal, profissionais liberais também, medicina, direito, engenharia e as empresárias também, há muitas bem sucedidas. Nas áreas em que ela é cobrada pelo seu desempenho ela está indo muito bem, enquanto na política não, porque ela depende de vários fatores.

Em geral, a dificuldade é de acesso a recurso do partido, o espaço dentro do partido, as condições de tratamento privilegiadas porque ela entra em um lugar onde já está ocupado o espaço, tem o vereador, o cara que é prefeito e quer levar um filho, embora no RS isso não seja muito comum, vão se formando feudos e aí fica mais complicado para a mulher. Partido político tem que insistir muito nesses segmentos.”

 

 

mara gabrilli

“Acho que minha maior dificuldade foi iniciar o debate de um tema (da pessoa com deficiência) que era considerado tabu e muito pouco debatido pelo poder público. Meu trabalho foi dar visibilidade às pessoas com deficiência, à importância da acessibilidade e de uma cidade construída para todos. A partir do momento que esses temas passaram a fazer parte da agenda pública, em todas as suas esferas, comecei a ser respeitada, dentro e fora do partido. Afinal, é um tema suprapartidário, que independe de sexo, e que diz respeito a todos nós.”

 

manuela davila

“Eu comecei a fazer política muito jovem, eu agregava as causas de preconceito no nosso país: questões de juventude, de gênero, questão ideológicas, por ser uma mulher de esquerda. Eu sempre fui uma das poucas que não tinha marido, pai ou alguma figura masculina ligadas à política, que desse aquela respeitabilidade que Brasilia esta acostumada . Então, foi um caminho muito difícil , de provar permanentemente a capacidade, as mulheres tem que provar sua capacidade de maneira repetida, muito mais que os homens. Isso foi fazendo que eu adquirisse cada vez mais consciência da desigualdade de gênero. No ambiente da universidade, do movimento estudantil, esta nunca foi uma pauta central da minha atuação. A realidade foi me impondo uma noção cada vez mais profunda de como a gente vive a desigualdade de gênero no nosso país. E foi isso que foi construindo minha militância nesta área.”

 


Arte: Ester Aarts

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