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Durante a campanha #PrimeiroAssédio, em 2015, a baiana Sofia Costa contou sobre o abuso que sofreu em fevereiro daquele ano, durante o carnaval de Salvador, junto a uma amiga que estava alcoolizada e desacordada.

O agressor é um artista muito conhecido na região. Ele abriu contra Sofia um processo por calúnia e ela, por meio de uma transação penal, atualmente cumpre 7 horas semanais em serviços comunitários, somando um total de 40 horas. Seu abusador teve cobertura da mídia para defender-se das acusações. Sofia não. Confira o relato dela aqui: https://www.facebook.com/sofia.costa.52090/posts/1187383354605906?pnref=story

Sofia não é a primeira e, infelizmente, ainda não será a última mulher a encarar as dificuldades e a incredulidade com que vítimas de crimes sexuais são recebidas pela justiça e pela opinião pública:

– A universitária Júlia Velo foi ao Bar Quitandinha, em São Paulo, com uma amiga, dias antes do carnaval. Lá, foram assediadas e agredidas fisicamente por dois rapazes. A gerência nada fez para defedê-las, tratou os agressores super bem por serem clientes antigos e expulsou as duas garotas por causar confusão. Quando publicou seu depoimento no Facebook, a publicação viralizou e a página do bar recebeu uma enxurrada de críticas. A gerência tentou se desculpar, depois desmentiu, disse ser contra o assédio, mas começou uma campanha contra Júlia, chegando a subir um vídeo no YouTube, editado internamente, para acusá-la de ter inventado a história. Apesar do apoio que recebeu, Júlia também foi vítima de outros ataques, além da gerência do bar (que nunca procurou ouvi-la), de pessoas que não deram crédito à sua história.

– Há mais de 20 anos recaem sobre as costas do comediante Bill Cosby acusações de estupro, mas foi somente em 2014, quando Hannibal Buress citou seu passado criminoso em um show de stand up, que a conversa em torno do assunto ganhou força e, desde então, são mais de 50 as mulheres a acusá-lo do crime. Apesar disso, parte da opinião pública ainda duvida da palavra delas e Cosby está processando sete de suas acusadoras por difamação.

– Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la estuprado na infância. Ainda que, além de sua palavra, existam fortes evidências de que o abuso tenha acontecido, Woody Allen nunca foi condenado judicialmente e permanece um diretor aclamado pela opinião pública.

– Quando o vídeo de Janay Rice sendo nocauteada por seu marido, o jogador de futebol americano Ray Rice, em um elevador foi parar na mídia, ainda que um ato tão grave de violência tenha sido registrado de maneira indiscutível, ainda sobrou espaço para questionamentos sobre a atitude de Janay: por que ela ficou? Por que não se separa dele? Como se a culpa pelo soco fosse dela por não abandonar um relacionamento abusivo. Janay deu uma série de entrevistas explicando sua decisão e o caso gerou importantes discussões online por meio das hashtags #whyIstayed(#porqueeufiquei) e #whyIleft (#porqueEuParti), que jogaram luz sobre a complexidade de relacionamentos que se tornam violentos.

– O cantor Cee-Lo foi absolvido das acusações de ter aplicado o golpe “Boa noite Cinderela” em uma mulher que afirmou que lembrava ter ingerido a bebida e depois estar subitamente nua em sua cama. Autoridades não acreditaram na história dela porque eles já estavam saindo há alguns meses e feito sexo antes.

– O jogador de futebol americano Greg Hardy é um dos muitos a cometer violência contra mulheres. Ele deu uma surra na namorada, fez o que pôde para fazer com que parecesse legítima defesa, mas o caso foi encerrado desfavoravelmente a ele. Apesar disso, ele voltou a jogar e teve a oportunidade de dar uma entrevista à ESPN, um dos maiores canais de esporte do mundo, desmentindo o caso. Sua ex-namorada teve a vida destruída e não consegue arrumar um emprego.

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– Em 1991, o assédio sexual sofrido por Anita Hill em seu ambiente de trabalho por seu então chefe e atual candidato a juiz da suprema corte americana, Clarence Thomas, se tornou um dos principais assuntos do país. O depoimento e questionamento de Anita sobre o caso perante as autoridades foi televisionado, obrigando-a a recontar e reviver seu trauma em rede nacional e diante de seus familiares. Clarence negou as acusações, que se tornou um caso da palavra dela contra a dele, e conseguiu sua nomeação como juiz da Suprema Corte. Apesar dessa derrota para os apoiadores de Anita, seu caso colaborou para um aumento substancial de mulheres na política, já que as americanas perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava as mulheres; milhares de vítimas de assédio vieram à frente para denunciar seus casos e se tornou um marco no combate ao assédio sexual em ambientes de trabalho nos EUA.

– A cantora Kesha pediu a quebra de seu contrato com o produtor Dr. Luke acusando-o de abuso sexual, verbal, físico e emocional. Ela não apenas perdeu o processo como continua sob a obrigação de gravar mais seis álbuns com seu agressor. A juíza do caso ainda disse que “Nem todo estupro é um crime de ódio motivado pelo gênero”. ( E quais seriam???). A gravadora ofereceu a quebra de contrato posteriormente caso ela desmentisse as acusações. Ela se negou.

– Em uma das edições do programa Big Brother Brasil, um dos participantes estuprou uma mulher embriagada o suficiente para não ter condições de consentir. Ela foi interrogada por três horas, ele foi expulso do programa, mas a opinião pública condenou a moça.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 47.646 estupros foram registrados no Brasil em 2014, mas estima-se que apenas 10% dos casos sejam notificados. Ou seja, em média 450 mil mulheres preferem manter o silêncio sobre o crime que sofreram a procurar a justiça.

Não apenas as delegacias (incluindo muitas DEAMs http://lugardemulher.com.br/a-ineficiencia-da-delegacia-da-mulher-parte-i) estão despreparadas para reconhecer o crime e lidar com as vítimas, como o judiciário em si, em toda sua ineficiência, ajuda a prolongar a dor com processos enormes e por vezes inconclusivos.

Existe também o mito das falsas acusações de estupro, sendo que estatisticamente é mais fácil um homem ser estuprado do que ser vítima de uma acusação falsa. Além disso, uma vez que o caso é levado à justiça, cabe às autoridades uma investigação neutra sobre o caso e, caso a acusação seja mentirosa, medidas punitivas serão tomadas contra quem a fez. Quem não deve, não teme – ou, pelo menos, não deveria temer.

Em uma sociedade machista como a nossa, não existem benefícios diretos a uma mulher que se assume vítima de estupro. O bem que isso traz é para as mulheres como um todo. A cada Sofia que levanta sua voz e conta o que passou, muitas Anas, Robertas, Jéssicas, Sheilas e sabe-se lá quantas outras ouvintes saberão que essa dor não é só delas, que não estão sozinhas, que outras sobreviveram, que existe um caminho.

Pode ser que no caminho algumas derrotas sejam inevitáveis, mas o silêncio não nos protege. Oferecemos toda nossa solidariedade e carinho às vítimas que decidem não falar sobre o assunto – continuaremos lutando por elas. E agradecemos a todas que tomaram a decisão de lutar por justiça: obrigada por compartilhar a sua história para tornar o mundo um lugar mais seguro para todas nós.

#ChegadeFiuFiu #FoiEstuproSim#MexeuComUmaMexeuComTodas


Arte: Alex Fine

 

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“A cor está para o Brasil como o gelo está para a população do Alasca.” – Hélio Santos.

As narrativas de pessoas negras não são as mesmas, mas possuem diversas semelhanças. Não seria diferente no quesito acadêmico e intelectual: crescemos acreditando que não sabemos nada, ou popularmente dizendo, que somos burros. Com essa percepção que baseia nosso intelecto como limitado, somos sabotados muitas vezes por nós mesmos ao acreditarmos que não somos intelectuais, inteligentes ou capazes o suficiente para sermos reconhecidos. Esse sentimento de “autossabotagem” nos espreita, essa sensação foi introjetada por nós negros, seja no inconsciente fruto da inferiorização racista seja na autoestima que se reflete na rotineira insegurança para certas atividades nas quais não costumamos nos ver, essa introjeção nos limita e nos frustra.

Na escola, alunos negros tendem a receber um tratamento diferente dos demais, um descaso velado. Isso já se dá pela seleção feita pelo racismo institucional que priva alunos negros de maioria pobre do acesso a uma educação de qualidade, essa que fica restrita as classes altas. O aluno negro está alheio às condições plenas de desenvolvimento, afastado dos meios que o tornariam qualificado e competitivo. Paralelo a isso o aluno negro mesmo em meios onde a maioria é negra, sofre com ofensas racistas dos coleguinhas, quanto mais escura sua pele e mais evidente são os traços “lidos” como negros, as agressões tendem a ser constantes e ferozes.

“O professor estava corrigindo as tarefas. Ele tinha terminado e falou que a gente podia conversar. A gente foi conversar e eu estava com o colega do lado. Ele chegou e cuspiu em mim”.

Esse é um relato de um jovem de 14 anos, sobre um caso que aconteceu em novembro de 2015. Provando que a violência sistêmica e estrutural que o racismo apresenta no Brasil reflete o ambiente das escolas, até mesmo por partes dos seus professores, inclusive, muitos isentam-se dos esforços na implementação da lei 10.639:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Eu sei que a vida dos professores em escolas públicas é difícil, a profissão é desvalorizada, exaustiva e mal remunerada, estudei nesses locais de estrutura precária minha vida toda até o ensino superior. Porém eu não vou negar que existe racismo por parte de alguns, dos alunos e da direção. Que essa lei não se implementa também por desinteresse e desconhecimento dos próprios agentes da educação sobre o que seria uma educação com foco racial, e quando isso é debatido em reuniões de professores, muitos partem para ignorância e racismo, julgando o contéudo como opcional, secundário e descartável. Já se passaram mais de 10 anos e não temos uma lei que vai impactar a vida principalmente dos alunos negros sendo implementada e efetivamente aplicada e esses alunos negros, portanto, continuam sendo a maioria nos números de baixo desempenho e consequente evasão escolar.

Estima-se que mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos não frequentam a sala de aula, segundo informações do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do UNICEF. O perfil dos adolescentes fora da escola no Brasil englobam em sua maioria adolescentes negros e pobres. Sendo assim, a evasão escolar é mais do que uma questão de classe social, ela envolve raça, a falta de discussões raciais, a distância da realidade dos jovens negros e frequentes violências geram o afastamento desde da vida escolar até a manutenção do lugar negro fora do ambiente acadêmico.

Mesmo quando criança eu já percebia que deveria me esforçar mais que os demais: seja sempre duas vezes melhor.

Meninas aprendem logo cedo que precisam ser melhores que meninos na escola, afinal eles sempre serão “os caras da matématica”, das exatas, do raciocínio lógico e rápido, mesmo que você seja a aluna que tenha passado mais vezes nas Olímpiadas de Matemática da sua escola. A mulher que se destaca em alguns campos acadêmicos não é tomada como exemplo a ser seguido pelas demais, mas como exceção, temos então um grande problema no quesito representatividade. Com o negro não é diferente, a complexidade da forma como o racismo agiu na nossa sociedade nesses quase 400 anos de escravidão, deixa muitas vezes passar que intelectuais como Luiz Gama sofreram o racismo que o impedia de estar como aluno numa sala de aula do Curso de Direito do Largo do São Francisco – hoje denominada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Gama, por conta do racismo era obrigado a escutar as aulas de fora da sala de aula, pois era impedido, por conta de sua cor, de compartilhar aquele ambiente com os demais alunos do seu curso.

A pergunta é: Quantos como Luiz Gama não ficaram da porta pra fora e nunca puderam exercer sua plena capacidade intelectual por isso? Nunca puderam estar [dentro] de forma legítima e presente usufruindo de todas as potencialidades daquele ambiente acadêmico. Não pode haver avaliação justa numa situação desigual em oportunidades e diferenciada em tratamentos.

Precisamos entender tais conceitos de gênero e raça que nos assolam durante os períodos da vida escolar, para compreender como se dá a narrativa da mulher negra no ensino acadêmico e porque os cursos superiores ainda contam com maioria branca. São duas opressões, que se realimentam e se somam criando uma situação onde não devemos ser duas vezes melhor – isso era ingenuidade minha quando criança: temos que ser quatro, dez, mil vezes melhores para possivelmente se destacar, já que nem isso é garantido. O sistema meritocrático que garante para alguns uma rápida ascensão profissional e salarial, não funciona para nós que nascemos negros. Eu fui ensinada a me exigir obsessivamente, pois as barreiras que enfrentaria eram maiores, da mesma forma que fui encorajada a esconder minha inteligência. Eu sofria literalmente por cada erro, provas com notas não tão altas, tarefas com resultado não tão positivo, eu me exigia a perfeição…

Eu não sou o símbolo que vem ao imaginário quando se pensa na boa educação e consequentemente não sou o modelo do que é ser intelectualizado. A permanência universitária se torna difícil não só pelas questões materiais, mas também pelo psicológico fragilizado pela destruição da autoestima de nós negros, não é à toa que desenvolvemos as chamadas crises de ansiedade. Quando se é colocado num ambiente onde as pessoas a sua volta não têm as mesmas preocupações, demandas, dilemas, obstáculos e dificuldades que você, a tendência é que o sujeito se cobre mais para estar no mesmo nível, mesmo que haja uma impossibilidade socio-instrumental desse parâmetro se equalizar. Pois o passado conta, a vida na escola pública pesa, a aula de inglês que não existiu é cobrada, aquela lacuna constante que fazia todo mundo ficar pelo menos uma vez por semana sem aula, a renda no limite, o intercâmbio que sua posição não forneceu, o mercado de trabalho pós cotas, Prouni/Fies é complicado para quem precisa pagar por cursos e especializações caríssimas para se tornar um profissional competitivo.

Então sim, temos alunos negros depressivos, mentalmente fragilizados, com síndrome do pânico e crises de ansiedade além de outras doenças e transtornos psicológicos graves que minam a vida social e reduzem a qualidade de vida do seu portador.

Isso é frescura? Alguns podem achar que sim. Mas me diga como podemos acreditar em nós, quando ninguém mais acredita? Quais os impactos disso sobre nossa mente?

Será que sou capaz? Será que mereço? Será que sou uma farsa?

“A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito.” – Conceição Evaristo.

No imaginário de jovens negros essas perguntas permeiam uma realidade autopunitiva. Algumas pessoas apontarão isso como mera falta de autoestima ou falta de vontade, eu vejo como consequências de um estado racista, que chegou a privar o negro do acesso à educação e ainda hoje faz isso de forma indireta, tanto que precisou de cotas para o nosso ingresso ser “simbólico”. A intelectualidade para o negro ainda é negada ou repleta de ressalvas, pois uma das alcunhas racistas sobre a definição dessa, é que ela é inerente ao ensino acadêmico, não que o branco venha exercendo a intelectualidade. No Brasil, cada vez mais, a pessoa vista como intelectual se mostra alienada ou despreparada para entender questões que envolvem raça, classe e gênero. O intelectual pode não ter o diploma, assim como o diplomado não é necessariamente o intelectual. O exercício da intelectualidade também requer uma nova visão sobre a universidade e como o ensino se mostra ainda retrógrado, elitizado e limitado.

A busca pela academia é uma busca de legitimação, por isso defender a importância do acesso acadêmico para negros no Brasil é também uma questão que envolve garantir a vivência da intelectualidade como algo pleno e fidedigno.

O que esconde esses nomes e suas produções intelectuais é o racismo. Não existe outra justificativa plausível, assim como muitos intelectuais negros para serem aceitos são primeiro embranquecidos. Os que falam diretamente sobre racismo são os que mais tendem a ser “escondidos” dos olhos de todos. Esses que acabam inclusive sendo só fonte de estudos para alunos negros que se mostram interessados em suas narrativas e produções.

 

Indicação de leitura:

http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/10/16465-50747-1-PB.pdf?5adc52

http://www.geledes.org.br/professores-sao-suspeitos-de-cuspir-em-aluno-e-de-racismo-em-escola/


Stephanie Ribeiro é militante do movimento feminista negro e estudante de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Arte: Manjit Thapp

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Passados 20 anos desde a realização em Beijing da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres da ONU, quanto o país avançou em relação à conquista dos direitos das mulheres em sua sociedade? As escalas megalômanas que costumam envolver a China se aplicam também ao universo das violações praticadas contra as mulheres. São altos os índices das agressões domésticas, rapto de jovens ou as taxas de suicídio feminino, uma das maiores do mundo.

Falando sobre morte, vida e estatísticas que envolvem o universo feminino, o anúncio recente sobre o fim da política do filho único, depois de quase quarenta anos de vigência da lei, deve ser celebrado. Mesmo quando o principal motivo por trás da decisão esteja relacionado ao rápido envelhecimento da população antes que o país tenha prosperado, e não necessariamente a vontade de mulheres e casais em relação ao número desejado de filhos. Mas o fato é que, a partir de agora, inúmeros casos traumáticos de abortos forçados já não terão mais razão de ser praticados, já que é possível ter o segundo filho. Melhor ainda, as bebês poderão ter suas vidas poupadas e assim o país caminha na tentativa de reverter o maior problema de desigualdade entre gêneros do mundo.

“Por muito tempo as mulheres enfrentaram sofrimentos terríveis em função da política do filho único e todas as consequências dela decorrentes. O governo chinês apenas se sensibilizou com os resultados negativos desta política quando as pesquisas começaram a apontar a terrível diferença entre os gêneros. O infanticídio feminino nunca foi motivo de preocupação para o governo, mas o fato dos homens não conseguirem encontrar mulheres para casar sim”, Wang Zheng, professora de estudos femininos na Universidade de Michigan.

Uma jornada de mil léguas começa com um simples passo, escreveu o famoso filósofo chinês Lao Zi. Restam outros tantos para que a jornada chinesa consiga equilibrar a bagagem das tradições paternalistas feudais e do código de conduta moral e ético milenar, o confucionismo, que organizam sua sociedade em direção a uma realidade de maior paridade.

O país de dois sistemas que há pouco mais de trinta anos se abriu ao mundo e para as influências ocidentais, criou uma classe de empreendedores que prosperou e enviou seus filhos e filhas para universidades, em especial nos EUA, deve aprender a lidar com o fato de terem formado mulheres independentes, de opinião que voltam para a China aptas a ocuparem espaços no mercado de trabalho e na própria sociedade anteriormente destinado exclusivamente aos homens. Exatamente em função deste conjunto de fatores elas são denominadas como “mulheres refugo”.

Não há homem chinês em toda a China que vislumbre se casar com uma mulher que eventualmente possa ter formação superior a dele, experiência pessoal ou profissional com mais destaque e maior salário, logo as mulheres com este perfil são rejeitadas, viram refugo. De acordo com a professora Wang Zheng, não importa o quão capaz uma mulher seja no subconsciente coletivo da sociedade chinesa nunca será boa o suficiente como um homem.

O matrimônio em geral acontece imediatamente após a graduação, ou seja casam-se muito jovens. Os homens que passam incólumes a esta fase, o fazem ligeiramente mais tarde e preferem o enlace com garotas da mesma idade ou mais novas, dotadas de atributos considerados inferiores, como ser de uma província rural, ocupar um posto de trabalho tido como medíocre, ter se graduado numa universidade privada ou não ter cursado qualquer uma que seja. Para que desta forma a família, que agora poderá ter dois filhos, possa ter início. Providenciarão o quadro a ser pendurado no quarto do casal com a foto dos dois trajando vestes da cerimônia, assim como vem sendo feito desde sabe-se lá qual dinastia. Ao homem paira uma institucionalização estabelecida desde sempre, sobre práticas esperadas e aceitas atribuídas ao sexo masculino. À mulher o status de ser meiga, 可爱- Kěài, a palavra é muito comum e usada para elogiar o estereótipo de mulher chinesa.

Uma mulher meiga sorri timidamente, faz gestos delicados e contidos, não fala muito nem pouco, se veste discretamente, tende a concordar ou se opõe de modo sutil. Uma criatura que não oferece surpresas nem riscos, uma fera domada que nem sequer um dia soube das potencialidades intrínsecas de sua natureza feminina, acostumou-se a ser yin, a passividade. Mas em matéria de China além dos números suntuosos há de se considerar a velocidade com que as transformações, especialmente as sociais, acontecem.

A nova militância das feministas chinesas (nova por voltar a se organizar depois de períodos políticos mais críticos como o da Revolução Cultural), em especial nas cidades de Beijing e Guangzhou, têm promovido questionamentos e ações visando esclarecer e libertar as mulheres de tamanha meiguice. Propõem reflexões por exemplo geradas a partir do texto Monólogos da Vagina, peça encenada pela primeira vez no país em 2009, levantando questões sobre a sexualidade e, mais do que isso, ao falar sobre a vagina, gerar a conscientização em relação ao próprio corpo, suas necessidades, vontades, desejos e regras. Para que a partir do conhecimento e da informação, os grandes índices anuais de aborto, por exemplo possam ser reduzidos. Para especialistas os 13 milhões de abortos praticados em média por ano no país, estes números podem ser ainda maiores considerando os casos realizados em clínicas clandestinas, ocorrem por falta de orientação sexual.

As meninas se organizaram em grupos de trabalhos, em coletivos e também no espaço virtual. Promoveram campanhas, ações, fizeram vídeos, foram entrevistar recrutadores nas empresas considerados machistas, reivindicaram paridade, lutaram pelo fim das violências domésticas praticadas contra as mulheres, pelo direito sobre seu corpo, pelo fim do assédio sexual… Ganharam espaço, notoriedade e começaram a incomodar, causar desconforto.

No dia 8 de março de 2015, após uma marcha realizada no centro de Beijing, foram presas. O caso das cinco jovens, ganhou tanto destaque na mídia internacional e tanta mobilização nas redes que por bem e depois da pressão internacional o governo decidiu soltá-las. Não antes da contradição ao qual o presidente chinês Xi Jinping foi submetido, em setembro daquele ano, durante visita oficial à Casa Branca. Apesar do seu discurso enfatizar a importância sobre a celebração dos vinte anos da Conferência Mundial das Mulheres em Beijing, uma das jovens chinesas militantes continuava presa.
A libertação não necessariamente significou o fim dos problemas, o cerco ao redor das meninas e suas ações passou a ser mais duro, vigiado. Entrou para a lista dos assuntos considerados sensíveis no país. Sensíveis, não meigos!

Li Tingting, uma das ativistas presas por planejar protestos na capital chinesa contra assédio sexual, relata a sensação de medo enfrentado no período que esteve em cárcere, das humilhações sofridas e da calma que aprendeu a desenvolver para manter sua sanidade. Ressalta, porém, que o medo maior surgiu quando foi solta, liberta, porque agora e para sempre não há mais amarras ou maneiras de detê-la, está em liberdade.

Outras pequenas revoluções cotidianas acontecem no aqui e acolá do território chinês, nem sempre planejadas, apenas deflagram. Sheryl Sandeberg, a executiva do Facebook, que o diga. O lançamento de seu livro “Faça Acontecer” na China culminou numa série de palestras, encontros e gerou um movimento de questionamento em relação as diferenças da remuneração e oportunidades entre homens e mulheres no mercado de trabalho no país, repercutindo em especial entre o público das “mulheres refugo”.

A história e as tradições milenares chinesas em contraste com o fato da população urbana do país ter superado a rural há pouco mais de cinco anos; a ascensão de uma classe média que dispõe de um alto poder aquisitivo que tem viajado o mundo todo, consumido e questionado o funcionamento de seu próprio país; a influência ocidental; os esforços imensos que o governo chinês vem concentrando em sua indústria cultural com o intuito de promover sua imagem e conquistar novos adeptos no mundo; tudo isso e uma série de outros elementos precisam ser considerados para poder entender a velocidade, o turbilhão e o potencial para que muitas mudanças aconteçam, e as que já estão em curso.

No caso da luta pelos direitos das mulheres, passados os vinte anos desde a Conferência os avanços não foram muito significativos, mas a recente dinâmica de luta dos coletivos atrelado ao trabalho que já vem sendo desenvolvido, ao foco das atenções e exigências voltados cada vez mais ao país que ocupa, se insere, desponta, participa, atua e dialoga para a construção de muitas das regras que estão sendo acordadas neste novo cenário da nova configuração de poder mundial me parecem propiciar elementos bastante positivos no que tange as lutas todas, e no caso a das feministas já começou. A luta contra o machismo tanto aqui como na China compartilham tolerância cada vez menor.

 


 

Fernanda Ramone morou nove anos em Beijing, é mestranda em gestão da indústria cultural pela Universidade de Beijing. Foi correspondente da BandNews Tv, trabalhou na Rádio Internacional da China e atua como empreendedora cultural. Idealizadora e organizadora do DocBrazil Festival. É professora na Casa do Saber e autora do capítulo ” A produção Cultural na China”, no Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, Edição Sesc SP.

Arte: Hung Liu

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Em uma dessas curiosas coincidências da vida, minha mãe me trouxe um balde de pipoca e um copo de refrigerante enquanto eu escrevia esse texto sobre cinema. A associação desse combo com a experiência de assistir filmes só não é maior que a do assédio com amor nos roteiros para a tela grande. Romance de verdade, de acordo com os filmes, tem muita perseguição, desrespeito à autonomia feminina e até pequenos crimes – tudo porque o verdadeiro amor nunca desiste. Será mesmo?

É importante frisar que me refiro majoritariamente aos filmes Hollywood por ser esta ser a indústria cinematográfica mais influente na cultura nacional, ocupando a maior parte das salas de cinema no Brasil, da programação da tevê fechada e dos catálogos virtuais que têm se tornado uma nova forma de consumo de produções audiovisuais, como NET NOW e Netflix.

Filmes americanos não são a única opção que existe, é verdade, mas pelo gigantismo de seus grandes estúdios, eles sufocam, dificultam e até inviabilizam a chegada de produções independentes em geral e de filmes nacionais e de outros países (especialmente os subdesenvolvidos) ao grande público. A exibição de filmes que estejam fora do eixo hollywoodiano é restrita a poucos títulos a ser encontrados na tevê paga e, quando chega aos cinemas, limita-se a poucas salas do circuito alternativo de grandes cidades, sem dublagem. Ou seja: por meios legais, são de difícil acesso à população em geral. Vale lembrar que os filmes brasileiros de maior orçamento e bilheteria nos últimos tempos têm seguido a cartilha de Hollywood.

Dito isso, o cinema mainstream americano, onipresente em nossos meios de comunicação, colabora – e muito – com a manutenção de estereótipos de gênero. A começar pela forma como os filmes são percebidos de acordo com a sua temática: filmes de guerra, ação, aventura e ficção científica são “de homem”, ao passo que dramas, romances e comédias românticas são “de mulher”. No caso da comédia, elas podem ter um público neutro, como e, por exemplo, o caso de O Mentiroso (1997) que, apesar de ter momentos bem machistas e uma história de amor envolvida, não é direcionado necessariamente a homens ou mulheres. Mas a comédia também pode ser dividida entre aquelas dirigidas ao público masculino, como Se Beber, Não Case! (2009), ou feminino, caso de Missão Madrinha de Casamento (2011) e praticamente todos os títulos classificados como comédias românticas.

E são as tais comédias românticas que mais recebem a pecha de “filmes de mulherzinha”, basicamente por trazerem alguns dos maiores clichês da expectativa social feminina. Ainda que mulheres sejam o público-alvo, o modo americano de fazer cinema é machista, heteronormativo, gordofóbico, capacitista e racista, resultando em roteiros que perpetuam noções limitadas sobre o que é ser uma mulher e o que elas esperam de relacionamentos amorosos.

Estrelados em sua maioria por mulheres brancas, magras e de cabelos lisos, esses filmes passam a impressão de que elas são as únicas dignas de receber amor. Sua beleza é valorizada a cada cena, em close ups e cenas que estão ali para apresentar suas características como objetos de desejo. São elas a receber as mais lindas declarações de amor dos maiores galãs do cinema interpretando os parceiros mais perfeitos possíveis dentro dos ideais do amor romântico, tudo com uma trilha sonora emocionante. Às negras, às gordas e às que de alguma forma são percebidas como menos atraentes restam os papéis de amiga, conselheira, alívio cômico ou até mesmo vilãs. A diversidade de cores e corpos femininos não é celebrada, pelo contrário: a presença de piadas e situações que ridicularizam mulheres gordas, por exemplo, são muito comuns.

Sem título
Simplesmente É Amor (2003)

Mas essa heroína-padrão-Hollywood não terá uma necessariamente vida fácil: é bem provável que o seu par, no mundo real, fosse um verdadeiro criminoso. Perseguições, assédio sexual, abusos, falta de respeito à vontade e à autonomia feminina, constrangimentos públicos e outros comportamentos desagradáveis ou até mesmo criminosos são retratados como grandes gestos de amor nas comédias românticas. A insistência masculina é extremamente valorizada e o convencimento da protagonista por aquele que fora inicialmente rejeitado é a espinha dorsal de alguns dos roteiros de maior sucesso do gênero.

Um Amor Para Recordar (2002), Mensagem Para Você (1998), 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999) e A Verdade Nua E Crua (2009) são alguns exemplos dessa vertente. Ainda que jogos de sedução sejam interessantes de assistir, esses filmes ajudam na criação da ideia nem sempre acertada de que “os opostos se atraem”, sendo que o lado masculino é, em geral, um rebelde, um sujeito agressivo e até mulherengo – um péssimo parceiro em potencial. Nesse caso, porém, a protagonista se torna a sua última conquista, aquela que, por ser tãããão especial, conseguiu amansar a fera… O tipo de ilusão que leva inúmeras mulheres a insistir em relacionamentos incompatíveis e a permanecer em relações abusivas no aguardo do final feliz dos filmes, do sossego do príncipe, algo que realisticamente pode até terminar em morte.

Parece exagero, mas não é. É nessa confusão entre gestos de amor e rejeição que comportamentos como o stalking, ou perseguição insistente, passam a ser entendidos como atos românticos. Um estudo realizado pela Universidade de Michigan apontou que a representação desse comportamento na mídia torna as mulheres mais tolerantes à insistência de um homem em persegui-las “romanticamente”. E vale tudo: decorar os horários da rotina da mulher e abordá-la sem aviso, invadir sua casa, deixar mil mensagens no seu telefone, importunar sua família e amigos, enviar centenas de rosas indesejadas. Para quem deseja a vitória sobre a presa a qualquer custo, vencer pelo cansaço é uma estratégia.

Em Quem Vai Ficar Com Mary (1998), a personagem de Cameron Diaz é disputada por quatro homens absolutamente obcecados por ela: um contrata um detetive para descobrir seu paradeiro e muda-se para a sua cidade em busca de uma nova chance, o detetive assume uma nova personalidade para conquista-la, um entregador de pizzas finge-se de amigo e médico para aproximar-se dela e seu ex-marido invade sua casa para roubar-lhe os sapatos.  No final, todos os atos são justificados pelo amor que eles sentem por Mary. Esses comportamentos, que se repetem em diversos outros filmes do gênero (Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo, Amor à Toda Prova, Segundas Intenções), ajudam a tornar a perseguição até mesmo como algo desejável na mente de quem assiste, atando o ato a clichês como “Uau, se ele fez tudo isso, é porque a ama de verdade!” ou “Se o homem realmente gostar de você, vai fazer enormes sacrifícios!”.

Isso quando, é claro, o sacrifício não é exigido delas. Nem sempre com a intenção da conquista, muitas comédias românticas trazem mulheres que só passam a ser percebidas como atraentes após uma transformação completa. É claro que as atrizes já carregam em si todas as características percebidas como atraentes, mas começam o filme com o cabelo volumoso/frisado, usando óculos e aparelho nos dentes, usando roupas fora de moda e outros apetrechos absolutamente comuns que Hollywood ajuda a estigmatizar como feios.

Miss Simpatia (2000), Ela É Demais (1999), Nunca Fui Beijada (1999), Uma Linda Mulher (1990), O Diabo Veste Prada (2006): todos trazem melhoras significativas nas vidas de suas personagens após o alisamento de seus cabelos, o uso de roupas mais reveladoras e maquiagem e a obtenção de uma personalidade mais confiante a partir da adequação aos padrões estéticos vigentes na mídia. Não importa que antes elas fossem as mulheres que sempre quiseram ser, tendo chegado até ali pela trajetória que escolheram para si mesmas em busca da felicidade: algum evento no roteiro vai mostrar que a vida pode ser muito melhor com um pouco de batom, blush e um homem que admira tudo isso ao seu lado.

Hollywood também cumpre seu papel de retratar o amor de uma mulher em um sentimento mágico capaz de tornar a vida de um homem muito mais feliz. Conhecidas como Manic Pixie Dream Girls, existe uma vertente de mocinhas que surgem na vida de um cara já prontas, sem precisar mudar quem são, justamente por já possuírem um seu jeitinho meio doido e um estilo diferenciado que servirão para mostrar ao par romântico uma alegria e um jeito de viver que ele ainda não conhecia, mas que eram exatamente o que lhe faltava.

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Ainda que muitas dessas personagens sejam interessantes e admiradas por muitas mulheres, a sua função no roteiro está intimamente ligada à do homem e em como a sua presença afetará a vida dele. Limitadas e limitantes para mulheres em todo o mundo, as Manic Pixie Dream Girls são um produto de fantasias masculinas que dão a mulheres incríveis a única missão de consertar a vida de um sofrido protagonista masculino.

Não é nenhuma surpresa: ainda que o público-alvo desses filmes seja o feminino, assim como quase todas as indústrias do mundo a de cinema também é controlada por homens – e eles vão colocar nas telas as ideias que eles têm sobre o que as mulheres gostam, querem e pensam. O site Polygraph realizou uma interessante pesquisa baseada no Teste de Bechdel, aquele que só aprova obras de ficção nas quais personagens femininas (com nomes) dialoguem entre si sobre algo que não seja um homem, criado pela cartunista Alison Bechdel, e tornou-se um marco na análise da presença de mulheres no cinema, na televisão e na literatura. O teste tem suas falhas: o filme Legalmente Loira (2001) passa apenas porque em determinado momento Elle Woods e uma amiga falam sobre cachorros, já Gravidade (2013) é protagonizado por uma mulher astronauta e foi reprovado.

Mas, na verdade, o consenso geral é que ele serve apenas para apontar que esse mínimo esperado por mulheres em um filme é surpreendentemente difícil de alcançar. O estudo do Polygraph analisou os 200 filmes de maior bilheteria de 1995 a 2005 e chegou às seguintes conclusões:

– Dos filmes que só tinham roteiristas homens, 53% falharam no teste.

– Dos que contavam com ao menos uma mulher assinando o roteiro, o número caiu para 38%.

– Todos os que tiveram roteiros escritos somente por mulheres passaram no teste.

E, ao analisar todos os 4000 filmes, do mesmo período, presentes no site do teste, o estudo apontou que quando os tomadores de decisão são homens, os filmes têm mais chances de falhar: roteiristas (46%), produtores (43%) e diretores (41%). Os números vão caindo vertiginosamente conforme o número de mulheres envolvidas aumenta.

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Além disso, a proporção entre diretores homens e mulheres na última amostra era de 5:1 e os números não melhoraram com o passar do tempo. Em 1995, 37% dos filmes falharam no teste e 18% tinham mulheres em cargos de decisão. Em 2015, 38% dos filmes não passaram no teste e 17% do total tinham ao menos uma mulher como diretora, produtora ou roteirista.

O fato de que as chances de um filme passar no teste aumentam com a presença de mulheres por trás das câmeras é um indicativo nítido de que a qualidade das personagens femininas e a diversidade nas telas dependem diretamente da diversidade dentro dos estúdios e, principalmente, entre aqueles que decidem o que será produzido e como.

A dificuldade em tornar a indústria de cinema mais inclusiva está no fato de que, até que um filme chegue aos cinemas, desde o roteiro até sua versão final, ele precisa passar pela aprovação de um sem número de pessoas, tornando mais difícil localizar a origem do problema. Não se trata apenas do machismo de diretores, produtores e roteiristas, mas do fato de que são eles os preferidos dos executivos para ocupar esses cargos, de que são os seus filmes a receber recursos e do seu sucesso comprovado nas bilheterias, que lhes garante ainda mais prestígio, só ter sido possível porque, lá atrás, lhes fora concedidas oportunidades que uma mulher negra, ainda que com a mesma formação e capacidade, não teria. É nesse momento em que a visão e a perspectiva dela são apagadas e a deles permanece.

O diretor Spike Lee sugere que Hollywood encontre uma forma de adotar a Regra de Rooney, utilizada pela NFL (Liga Nacional de Futebol Americano, na sigla em inglês), que obriga a Liga a entrevistar minorias para cargos de técnico e gestores dos times. Ele aponta o fato de que não há negros entre as pessoas que decidem o que será produzido ou não.  “Mais do que ter uma pessoa não-branca à frente de um estúdio ou emissora, precisamos estar entre as pessoas que decidem o que será feito e o que não será. A cada mais ou menos quatro meses acontecem essas reuniões nas quais eles se sentam, olham para o orçamento, leem os roteiros, quem está envolvido, e dizem ‘vamos fazer esse filme, mas não vamos fazer aquele’. (…) Não existe uma pessoa não-branca que tenha direito a esse voto [para produções televisivas ou de cinema]”, afirmou ele em seu discurso de agradecimento ao Governors Awards em 2015.

Nos últimos anos, o feminismo e o empoderamento feminino ganharam força no mundo inteiro e Hollywood reagiu a isso com a chegada de “filmes para mulheres” escritos por mulheres que foram verdadeiros sucessos de público e crítica. A Escolha Perfeita (2012), Missão Madrinha de Casamento (2011), Descompensada (2015) e Irmãs (2016) são bons exemplos de histórias que escapam a muitos clichês e trazem protagonistas que, por uma razão ou outra, parecem menos fictícias que as mocinhas clássicas das comédias românticas.

Ainda assim, não é suficiente. Afinal, as protagonistas dos filmes citados, ainda que não sejam necessariamente musas, estão dentro dos padrões do cinema americano, bem como as roteiristas. E um dos romances mais esperados do ano é o filme Como Eu Era Antes de Você, cuja protagonista é uma manic pixie dream girl das mais clássicas:

É bom que a indústria cinematográfica mexa-se rápido para mudar esse cenário, pois já sente os efeitos da feroz concorrência daquela que se tornou sua principal rival: a televisão – ou seria a internet? Estamos vivendo a chamada nova Era de Ouro da televisão, com produções de séries que não devem em nada a filmes de Hollywood ou que, com orçamentos muito mais tímidos, capturam mais espectadores que boa parte dos blockbusters em cartaz. E a Netflix, uma das principais empresas a entrar com o pé na porta na disputa pela audiência, têm feito sucesso com uma fórmula simples: liberdade total de criação para sua diversificada equipe de criadores. Resultado: Master of None, Orange Is The New Black, Sense 8, Narcos – séries absolutamente idolatradas pelo público com negras, mulheres trans*, latinos e indianos entre os personagens principais.

Hollywood também precisa repensar de maneira urgente a percepção de filmes a partir do gênero, algo que tem muito mais sutil e até mesmo imperceptível no mundo das séries, por exemplo. Por mais que, obviamente, todos sejam livres para assistir ao filme que quiserem, essa ideia de “filme de homem” e “filme de mulher” colabora com a manutenção da distinção entre gêneros.

O fato de Star Wars: O Despertar da Força (2016) ter sido protagonizado por uma mulher e um negro foi muito positivo nesse sentido, bem como a presença de Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria (2015): lugar de mulher também é em filmes de ação. Comédias românticas deviam ser filmes para quem gosta de comédia e romance misturados, bem como trazer mais perspectivas masculinas e sexualmente diversas, não sendo taxadas apenas como “filmes pra mulher”. Porque mulheres são apenas pessoas e suas histórias devem ser contadas por elas mesmas e ouvidas por todos.

 


Arte: Sally Nixon e desconhecido

 

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BadassLadyProtagonists_670

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Empoderamento feminino é uma expressão que, felizmente, está na moda. Virou buzzword, termo inglês que se refere a essas palavras que vira e mexe começam a aparecer em todo lugar. Para nós, aqui na OLGA, o empoderamento das mulheres é muito mais que um desejo ou um conceito, mas uma meta. Hoje somos uma ONG e nosso objetivo é empoderar as mulheres de todas as formas possíveis: em sua relação com seus corpos, seus relacionamentos, sua vida profissional, sua liberdade e seu bolso.

É por isso que anunciamos hoje mais uma parceria que vai levar mulheres de verdade a tirar seus sonhos do papel e vê-los se concretizar. O Mulheres de Impacto é uma consultoria e ativação de rede para projetos de empoderamento feminino e uma iniciativa da Benfeitoria, um site de financiamento coletivo social que nasceu para fomentar uma cultura mais humana, colaborativa e realizadora no Brasil, da Think Olga e da ONU Mulheres.

Como funciona?

Estamos em busca de mulheres com projetos de financiamento coletivo que sejam ferramentas de empoderamento feminino (pessoal ou coletivo) e que resultem em um impacto em sua vida e/ou comunidade.  Vamos receber propostas por meio do site www.benfeitoria.com/canal/mulheresdeimpacto até o dia 6 de maio.

Depois, os projetos selecionados receberão a consultoria especial da Benfeitoria para a elaboração e o acompanhamento da sua campanha de arrecadação via financiamento coletivo (crowdfunding) e nós, responsáveis pelo projeto, vamos  ajudar com divulgação nas nossas redes. A Think Olga também vai oferecer consultoria com foco em negócios e inovação para os projetos que alcançarem suas metas.

Critérios de seleção

Os projetos:

1 – Devem ser liderados por mulheres

2 – Ser ferramentas de empoderamento feminino (pessoal ou coletivo)

3 – Resultar em um impacto na vida da mulher ou da comunidade

4 – Ter uma boa história por trás

5 – Ser implementados em qualquer cidade do Brasil

6 – Ter potencial de arrecadação via crowdfunding (meta compatível com rede)

7 – Ser realizados por mulheres que tenham disponibilidade, energia e brilho no olho para preparar e mobilizar a campanha de arrecadação, que deve ser lançada entre julho e agosto deste ano, com duração de 1 a 3 meses.

8 – Ser implementados até o 1º trimestre de 2017

Vamos nessa? Mais informações e inscrições aqui: https://www.benfeitoria.com/canal/mulheresdeimpacto


Arte: Jenny Zych

 

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[Situação 1]

A mulher diz: “Deveríamos tentar resolver o bug da forma [insira aqui uma ideia]…”

Ninguém dá bola.

Dois minutos depois:

O homem diz: “E se fizéssmemos [insira aqui a ideia da mulher]?”

Todos respondem: “Ótima ideia! Vamos fazer isso!”

 

[Situação 2]

Colega de trabalho diz: “Você é uma boa programadora, apesar de ser mulher.”

 

[Situação 3]

Recrutador diz: “Obrigado por vir, estamos procurando uma mulher desenvolvedora pois os meninos acham que precisamos “dar uma descontraída”.

 

[Situação 4]

Professor diz: “É bom ter uma mulher na turma de computação. Elas embelezam e perfumam o ambiente. Além do mais, são mais delicadas e atenciosas”.

 

Ser mulher é um desafio imenso. Ser mulher na área de tecnologia traz algumas dificuldades peculiares. Começa com a falta total de incentivo para que as meninas se envolvam com ciência e tecnologia, passa pela hostilidade que as estudantes dos cursos na área da computação encontram nas salas de aula e continua com um ambiente profissional misógino. Alguns números ajudam a entender o quadro atual:

A pesquisa Elephant in the Valley, que retratou o que enfrentam as mulheres no Vale do Silício, também traz números interessantes sobre a realidade das mulheres no maior oásis da tecnologia mundial: 66% das mais de 200 mulheres com mais de 10 anos de experiência no setor disseram já ter se sentindo excluídas de oportunidades por causa de gênero, 88% já enfrentaram situações em que perguntas foram feitas aos seus colegas homens – e não a elas, 60% já foram assediadas e 60% das que foram assediadas e denunciaram, ficaram insatisfeitas com as medidas tomadas.

A PrograMaria, um meta-site sobre mulheres e tecnologia, nasceu da inquietação com dois fatos: a crescente importância da tecnologia em nossas vidas e a falta de de representatividade da mulher na área – no Brasil, as mulheres vêm perdendo representatividade ao longo dos anos.

Muita gente argumenta que os números acima mostram a falta de interesse ou de capacidade das mulheres. Mas é preciso desconstruir a lógica falaciosa do “o cérebro da mulher não é feito para exatas”. Na escola, 74% das meninas demonstram interesse nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, mas na hora de decidir por uma graduação, apenas 0,4% dessas meninas escolhem Ciência da Computação. A pergunta não deve ser “por que devemos incluir as mulheres na tecnologia?” e sim “por que as excluímos?”.

É uma questão simples de igualdade de direitos e oportunidades – quando damos um conjunto de panelas para meninas e bloquinhos de montar para meninos, estamos dando estímulos diferentes, que determinam quais habilidades essas crianças irão desenvolver e, obviamente, isso pode interferir nos caminhos acadêmicos de cada um deles. Recomendo a leitura desta ótima entrevista com o psicólogo americano Andrew Meltzoff, que falou sobre o poder dos estereótipos culturais no aprendizado das crianças. (‘Estereótipo de que ‘matemática é para garotos’ afasta meninas da tecnologia, diz pesquisador”)

A partir de todo esse cenário, decidimos três pilares de atuação para a PrograMaria: inspirar meninas e mulheres a explorar os campos da tecnologia e da programação, fomentar e qualificar o debate sobre a falta de mulheres na área e promover oportunidades de aprendizagem.

Nossa missão é empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia e da programação – e acreditamos nisso por vários motivos:

  1. Faltam profissionais na área. A TI é um mercado em forte desenvolvimento e a demanda por desenvolvedores só irá crescer. Além disso, as empresas já se ligaram que precisam de diversidade no seu quadro de funcionários, afinal, um time diverso produz mais inovação e traz melhores resultados.
  2. As mulheres não precisam necessariamente querer trabalhar como desenvolvedoras para se beneficiarem da programação. Toda empresa hoje precisa de tecnologia. Ter noções básicas do tema facilita o trabalho em equipes multidisciplinares, aumentando a produtividade e melhorando resultados.
  3. Programar é uma ferramenta poderosa de transformação do mundo. Com ela, as mulheres podem dar vida a suas ideias, construir seus projetos e se expressar!

De tanto ouvir que “mulher não dá para exatas”, “mulher não é boa em matemática”, “homens são mais lógicos”, internalizamos essas verdades e passamos a acreditar nelas.

Nos eventos que organizamos e participamos, muitas mulheres contam que simplesmente nunca tentaram aprender porque achavam que programação era muito difícil para elas, que elas não conseguiriam entender e ponto final. Muitas têm ideias incríveis que gostariam de realizar, mas ficam a espera de um amigo desenvolvedor que tope ajudar.

A tecnologia determina a maneira como nos relacionamos, nos comunicamos, consumimos e aprendemos. A sociedade precisa que as mulheres também pensem sobre esses problemas e proponham soluções para eles. Quantas ideias deixam de se tornar projetos, produtos e serviços inovadores por que as mulheres estão à margem da produção de tecnologia?

Em fevereiro a PrograMaria completa um ano. Nesse caminho, encontramos muitas mulheres dispostas e entusiasmadas com a ideia de colaborar. 2016 vai ser um ano muito bom para o tema. Diversos grupos estão surgindo, unindo forças, e se fortalecendo para lutar e promover mudanças!

 

Campanha #SerMulherEmTech

Logo que lançamos nosso site e nossa página no Facebook, começamos a receber diversas mensagens de mulheres que estudavam ou trabalharam no setor, desabafando sobre as dificuldades que enfrentavam diariamente. Situações absurdas como as que você leu no início deste texto. (Tem mais na nossa reportagem especial Mulheres enfrentam preconceito e isolamento em cursos de computacão)

A campanha #SerMulherEmTech foi a maneira que encontramos para dar voz a essas histórias e promover a troca de experiências e de apoio entre essas mulheres. Acreditamos que a informação é o primeiro passo para transformar o que está aí. Queremos abrir espaço para o debate e mostrar que as violências, tão naturalizadas, não devem ser toleradas e precisam ser enfrentadas.


Iana Chan é jornalista e co-fundadora da PrograMaria.

Arte: Alessandra Genualdo

 

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Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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Eu cresci sendo aquela única negra da turma. É o que acontece quando você nasce em uma família e mora em bairros classe média, estuda em escolas particulares, faz curso de inglês e uma universidade federal. Passei a infância pedindo (e ganhando) a Barbie, o namorado da Barbie, o carro da Barbie, a casa da Barbie, pro Papai Noel. Na adolescência, a pretexto de diminuir o volume e “soltar” os cachos, por anos fiz relaxamento no cabelo. Em uma das idas ao salão, sofri calada enquanto sentia as queimaduras no meu couro cabeludo, afinal, eu tinha aprendido que pra ficar bonita eu precisava sofrer. E por muito, muito tempo nada disso me pareceu um problema. Ao contrário. Eu me achava privilegiada demais para reivindicar qualquer coisa, inclusive minha identidade negra. Mas o tempo – novamente ele – passou e descobri que ser uma negra de privilégios em ambientes majoritariamente brancos não é fácil e deixou marcas. Minha vida pode ter sido sim mais confortável que a de outros, mas ser uma minoria nos espaços que deveriam ser igualitários também é um tipo de opressão. Especialmente se você é uma mulher negra.

Por mais que eu estivesse entre brancos, nunca fui um deles. E isso ficava claro nos pequenos racismos do dia a dia, nas piadas que atacavam aquilo que eu tinha e tenho de mais característico. Não foram poucas as vezes em que me peguei tendo vergonha do meu cabelo, do meu nariz, desejando ser branca para que os garotos (mais tarde, os empregadores) fossem um pouquinho mais solícitos comigo. Em algum lugar ao longo do caminho eu comecei a acreditar que eu não era boa o suficiente como as outras meninas, o que quer que isso significasse. O racismo, ainda que eu não o enxergasse, me fez desconfortável em torno de meu próprio corpo. Mesmo adulta esse sentimento de inadequação me acompanhava. E até compreender que o problema não era eu, não estava em mim, muito estrago se fez.

Não sei exatamente quando consegui romper com esse ciclo e tomei consciência de como os outros me veem, mas foi de certo um percurso longo, sem direito a atalhos. Nele fui costurando minha identidade, encontrando meus pares, (re)conhecendo minha história e minha ancestralidade, juntando os pedaços da minha autoestima numa trajetória por vezes dolorosa, mas também de liberdade. Só que isso não representa um final feliz. Porque aprendi que ser uma mulher negra é, inevitavelmente, militar todos os dias. Vai ter sempre um incomodado querendo nos anular, mostrar qual é “o nosso lugar”. Basta um vacilo para pôr tudo a perder.

O estereótipo racista
Infelizmente, minha história não é única. De acordo com o IBGE, as mulheres negras representam 25% do total da população brasileira, o que corresponde a cerca de 49 milhões de pessoas. São 49 milhões de histórias diferentes de luta diária pelo resgate da autoestima. Você sabe o que é se olhar no espelho e querer ser outra? Abrir os jornais e perceber que os seus só estampam os cadernos policiais – no máximo os de cultura e entretenimento? O que é ligar a televisão e se enxergar carregada de preconceitos? Não nos vemos representadas num país de quase 53% da população autodeclarada negra. E é nessa ausência e distorção da imagem da mulher negra na mídia que o racismo mais se manifesta porque ela desempenha o papel perverso de perpetuar estereótipos. Somos as vítimas das tragédias; as mães, esposas ou irmãs dos criminosos; as mulatas do carnaval; as domésticas das telenovelas.

De fato, ainda que a desigualdade venha se reduzindo em todo o país, as mulheres negras continuam na base da pirâmide social, política e econômica. Dados do IPEA, de 2014, mostram que, mesmo com qualificação similar, a renda das mulheres negras corresponde a 56% da renda das mulheres brancas; o acesso aos direitos sociais básicos (educação, saúde, habitação) é muito mais precário; os postos de trabalhos são escassos e requerem pouca qualificação – 70% das empregadas domésticas são negras e a maioria ainda sem carteira assinada. E não para por aí: os homicídios contra negras aumentaram 54%, enquanto o de brancas diminuíram 10%, de acordo com o Mapa da Violência 2015.

Isso é resultado do preconceito e discriminação que nos excluem de determinados espaços e nos negam possibilidades por uma dupla opressão: de gênero e racial. Mas não podemos mais permitir que as representações não retratem toda a profundidade de quem somos. Queremos mais. Podemos estar em menor número, mas estamos aí nas engenharias, no jornalismo, na advocacia, no empreendedorismo, na ciência, na academia. Produzindo intelectualmente. E é por isso que representatividade importa, porque empodera. E mulher negra empoderada incomoda. Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para ver que muitas das vítimas dos casos mais recentes de racismo no Brasil foram todas mulheres que ocupam espaços nos quais, normalmente, não se veem representadas, mas que elas podem e devem ocupar. É a jornalista que aparece no principal telejornal do país orgulhosa do seu black power; a atriz protagonista de seriado na Globo; a modelo que ganhou um concurso de beleza; a estudante que cursa Medicina em uma universidade federal.

Em busca do protagonismo
Em um país cuja uma das poucas interações com a realidade e cultura negra se dá através das lentes distorcidas dos meios de comunicação, estes hegemonicamente brancos, o resultado só pode ser a difusão de um discurso fortemente racista e naturalizado. Uma pesquisa sobre a presença dos negros nas agências de publicidade no Brasil mostrou que apenas 0,74% dos cargos de alta direção são ocupados por negros. Dos 404 executivos, apenas 3 são negros. Entre as mulheres é ainda pior: nenhuma negra ocupa um cargo de gestão estratégica. O resultado a gente vê sendo veiculado todos os dias: propagandas que, quando não simplesmente ignoram mulheres e homens negros, são institucionais ou cometem equívocos próprios de quem não faz a menor ideia do que é ser negro nesse país.

O jornalismo não é diferente. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), apenas 23% dos profissionais da área são negros. É uma das profissões com a menor proporção de negros no país. E se a pluralidade não começa dentro do processo não há como encontrá-la no produto final, certo? Não é à toa que, diariamente, vemos na imprensa as demandas específicas de mais da metade da população serem ignoradas, que o termo discriminação ou preconceito são mais usados em vez de racismo, que injúria racial está mais para bullying que para crime. Entre as fontes jornalísticas, ou seja, personagens e profissionais especializadas entrevistadas, como psicólogas, antropólogas, médicas, advogadas, arqueólogas ou engenheiras, por exemplo, também somos minoria, mesmo quando questões raciais estão em pauta.

Pensando nisso, hoje nasce o projeto Entreviste um Negro, inspirado na proposta do Entreviste uma Mulher, da Think Olga: um jornalismo mais plural e que busque um equilíbrio em seus pontos de vista. O banco de fontes é colaborativo e vai aproximar mulheres e homens negros, experts nas mais diversas áreas ou que têm experiências para contar, a jornalistas que procuram fontes especializadas, seja para pautas com recorte étnico-racial ou não.

O funcionamento é básico. Se você é jornalista, é só acessar o banco de fontes e procurar pelo profissional que melhor se encaixa na sua pauta e entrar em contato diretamente com ele. Se você quer ser fonte ou indicar uma, é só mandar para o e-mail entrevisteumnegro@gmail.com nome, uma mini biografia, as áreas de expertise (os assuntos que você pode abordar numa entrevista em formato de palavra-chave), contato (site, portfólio, telefone e/ou e-mail), e cidade onde a entrevista será realizada, caso seja feita pessoalmente. E faça essa rede crescer!

A mudança só virá quando deixarmos de ser objetos e nos tornarmos sujeitos, quando a nossa presença se tornar a norma. E não apenas pela autoestima da mulher negra, mas porque isso normaliza a sua humanidade para os outros. Queremos ser protagonistas das nossas próprias histórias. Deixem que a gente fale por si. Que sejamos nós por nós. Como clama a rapper-musa-preta Tássia Reis, ouça-me.

ACESSE O BANCO DE FONTES ENTREVISTE UM NEGROhttp://bit.ly/EntrevisteUmNegro


Helaine Martins é jornalista freelancer, formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com 11 anos de experiência em assessoria de imprensa e reportagem, e pós-graduanda em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais pela ECA/USP. Fez parte da primeira turma da Olga Mentoring – Escola de Líderes.

Arte: Jeff Ötisberg

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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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O OLGA Mentoring: Escola de Líderes surgiu do desejo de ajudar mulheres a ir além em suas ideias de negócios. O empreendedorismo é uma importante ferramenta para a diminuição da desigualdade de gênero, seja pelo fato de que nesse modelo a mulher é dona do próprio negócio e, assim,  pode eliminar o problema de discriminação dentro da empresa, quanto pelo aumento feminino no número de empresários do país.

Para as mulheres, empreender no Brasil ainda é desafiador: embora estejam à frente de 43% dos negócios, somente 0,2% delas são sócias ou proprietárias de empresas de grande porte, segundo dados de pesquisa divulgada  pelo Experian este ano.

Isso se dá não apenas pela segregação de gênero institucionalizada a que são submetidas no mundo corporativo, permeada por muitos preconceitos inconscientes ou não. A ausência de mulheres nestes cargos também acontece por um traço cultural de muitas empreendedoras brasileiras: o desejo de empreender em busca de qualidade de vida, e não por ganhos financeiros – uma reação direta das mulheres a modelos de negócio despreparados para as particularidades de funcionárias do sexo feminino.

Sendo assim, boa parte das empreendedoras brasileiras preferem abrir pequenos negócios para conciliar vida pessoal e profissional, ficar mais perto de casa, da família, fugir do mundo corporativo e conquistar um novo ganha-pão, mas hesitam na hora de expandir os negócios. Ainda segundo a pesquisa, 73% dos micro ou pequenos empreendimentos são comandados por mulheres, sendo que o número sobre para 98% quando somadas as Micro Empreendedoras Individuais (MEI). Pesa também sobre elas a exclusão sistemática das mulheres à informações sobre negócios, recursos financeiros e uma rede de apoio que as dê suporte para ir adiante.

 

O que é a Escola?

Criado com o objetivo de ajudar mulheres a seguir o caminho do empreendedorismo, o OLGA Mentoring Escola de Líderes tem sua primeira edição em São Paulo com turma de oito alunas com diferentes histórias de vida. Mães, avós, jovens cheias de ideias, elas foram selecionadas entre as mais de 300 candidatas que mostraram interesse pelo curso.

As aulas e workshops abordam temas variados e essenciais para quem deseja dar os primeiros passos no mundo do empreendedorismo: como montar um plano de negócios, noções de marketing, como vender sua ideia, finanças, tendências, etc. São nove encontros presenciais realizados no Aldeia Lisboa Espaço Coletivo.

A Escola é liderada por Nana Lima, publicitária formada pela FAAP com MBA pela ESADE Business School, de Barcelona,  especialização em  Comunicação e Marketing de Moda pelo Istituto Europeo di Design (IED) e experiência em agências de publicidade e na área de marketing de grandes empresas, ela atualmente é empreendedora e sócia da Think Eva, consultoria de negócios para marcas que desejam uma comunicação mais eficiente com o público feminino.

“As mulheres não arriscam tanto ou arriscam menos que os homens porque porque não têm as ferramentas e conhecem menos o conteúdo de negócios. Daí veio a ideia: por que nós não fornecemos isso a elas? E aí juntamos também o desejo de fornecer mentoria e criar uma rede de apoio”, explica Nana. Mais que um local de aprendizado, o OLGA Mentoring busca ser um espaço no qual as participantes possam falar abertamente sobre suas ideias, receber feedbacks construtivos e contar com a experiência de quem já possui mais tempo de mercado – além de aumentar a base de contatos dessas mulheres.

Joana Gabriela Mendes é uma das alunas da primeira turma. “Eu acho a iniciativa ótima. Me inscrevi porque estou cheia de projetos e nem sei como torná-los viáveis. A dificuldade que eu vejo é que é difícil alguém pra te dar a mão e te ajudar,  sabe? E o medo também. De não dar certo, de como fazer e com quem”, afirma. “A seleção de meninas foi incrível, elas são super interessadas e cada uma vem com uma ideia de negócio dentro da sua própria realidade, de seus próprios valores, que estão se encaixando muito bem e estamos aprendendo muito umas com as outras”, elogia Nana.

A primeira edição atraiu interessadas do Brasil inteiro e a vontade de levar a Escola de Líderes para outras regiões do Brasil é enorme. “Nós da Olga também estamos aprendendo muito sobre o formato e descobrindo como podemos empoderar as mulheres por meio desse tipo de iniciativa. Não vejo a hora de descobrirmos, a partir dessa primeira edição, formas expandir o projeto para que possamos absorver mais mulheres e levar o OLGA Mentoring para em outros estados do Brasil além do sudeste”, sonha a líder do projeto.


Arte: Leah Reena Goren

 

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