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aeco2-2A morte do ministro Teori Zavascki deixou em aberto a vaga que ele ocupava no Supremo Tribunal Federal. O anúncio da possível indicação de Alexandre de Moraes, pelo presidente em exercício, para ocupar o cargo tem sido alvo de inúmeras críticas – e não sem razão. Quando Secretário de Segurança do Estado de São Paulo, uma jovem de 18 foi estuprada durante uma tentativa de roubo em uma estação de metrô da capital e o crime ganhou a atenção da mídia, em 2015. À época, sua declaração sobre o caso foi absolutamente desumana: “Não se consumou o roubo do cofre. É importante que isso seja colocado para mostrar que há segurança onde se guarda os valores no Metrô” – ou seja, para ele, a segurança das mulheres não tem qualquer importância.

A presença de alguém assim no Supremo é um risco. O STF é um órgão vital na manutenção e garantia de direitos do povo e a sua atuação impacta diretamente, inclusive, nos direitos das mulheres. Mas você sabe exatamente como isso acontece? Para efeito de exemplo, considere a seguinte situação: um homem de 19 anos inicia um relacionamento com uma menina de 8 anos de idade. Aos 13, ela o denuncia. O Tribunal de Justiça do estado onde o crime ocorreu absolve o homem sob a alegação de que a vítima tinha “grau de discernimento” e “nunca manteve relação com o acusado sem a sua vontade”.

A constituição brasileira determina como estupro qualquer ato sexual praticado contra menores de 14 anos de idade, mas a condenação do homem só aconteceu após o caso ter chegado ao Supremo Tribunal Federal. A decisão, de 2015, determinou que o sexo ou “qualquer ato libidinoso” envolvendo adultos e menores de 14 anos é considerado estupro de vulnerável, independente do consentimento da vítima.

A partir de então, qualquer caso semelhante deve obedecer à essa interpretação da constituição feita pelo Supremo, que é a última instância do poder judiciário.  Essa é a função do Supremo Tribunal Federal: como guardiões da constituição, suas decisões servem de exemplo para tribunais em todo o país. Formado por 11 ministros (pois indicados pelo Presidente da República) em cargos vitalícios, devem fazer parte do Supremo pessoas capazes de defender a constituição em consonância com os valores da nação – e isso inclui debates modernos como os direitos das pessoas trans, aborto, casamento homoafetivo, entre outros.

Para entendermos melhor o funcionamento desse órgão crucial para a conquista de direitos e salientarmos a importância do envolvimento da população na decisão de quem vai ocupar o cargo deixado por Teori, convidamos três mulheres para responder duas perguntas sobre o STF: Debora Diniz, pesquisadora na Anis – Instituto de Bioética e integrante da Rede Nacional de Especialistas em Zika e Doenças Correlatas, do Ministério da Saúde; Daniela Teixeira, vice-presidente da OAB/DF; e Amarílis Costa, advogada e co-fundadora do projeto Preta e Acadêmica.
STF

O que é o STF e como ele funciona?

Débora – O Supremo Tribunal Federal (STF) é a mais alta corte no país, o que significa no Brasil duas coisas: é o tribunal de última instância, ou seja, que pode decidir os últimos recursos sobre um caso apresentado a outros tribunais, e é ao mesmo tempo o tribunal constitucional, ou seja, aquele que decide os litígios voltados especificamente a questionar leis ou normas que podem estar em conflito com a Constituição Federal. Essas funções são muito importantes porque fazem com que o STF tenha a última palavra em controvérsias surgidas em outras instâncias do poder judiciário brasileiro e ainda seja a corte responsável por interpretar e garantir a aplicação dos direitos fundamentais previstos na Constituição, como direito à igualdade, à não-discriminação e à saúde, por exemplo. É por isso que foi o STF que decidiu casos importantes como o direito à união civil para casais do mesmo sexo, a constitucionalidade das cotas raciais em universidades e o direito ao aborto em casos de anencefalia, todos casos constitucionais.

 

Daniela  O Supremo Tribunal Federal é quem decide todos os direitos que nós temos. Tantos o que estão escritos, quanto os que não estão escritos, como por exemplo a questão de um casamento homoafetivo ser considerado uma família. Foi o Supremo que considerou isso, não foi nenhuma lei. Pelo contrário, a constituição fala que família é a união entre um homem e uma mulher, e foi o Supremo Tribunal Federal que alargou isso com base no princípio da dignidade humana e disse que uma união homoafetiva é uma família. E essa não é uma importância apenas semântica de “Eu apenas quero que a minha família seja chamada de família”. Por exemplo, se a pessoa quisesse um financiamento para construir uma casa, antes o banco poderia negar o valor para um casal homoafetivo alegando que eles não eram uma família. A partir da decisão do supremo, não pode mais. Um cartório poderia se negar a fazer uma união estável entre duas mulheres. A partir da decisão do supremo, não pode mais. Então não são coisas abstratas. O Supremo dita a nossa vida real, lida com o que a gente faz no dia a dia em diversos assuntos, então é muito importante que a sociedade toda se mobilize para saber quem vai sentar nessa cadeira. O que essa pessoa pensa? Está em consonância com o pensamento da sociedade, com o que o Brasil quer, com o que o Brasil precisa? Ou não está? Isso é feito em todos os países do mundo. Quando, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump anunciou o seu candidato a ministro do supremo, no dia seguinte todos os jornais colocaram na capa quem é o candidato, o que ele pensa, o que ele já fez na vida – a  dele é virada do avesso, ele passa por uma sabatina duríssima do senado americano. Esse é o certo. Não podemos achar que a indicação de um ministro do supremo é algo insignificante, que serve de enfeite. É muito importante que as pessoas, e em especial aquelas tem os seus direitos constantemente sob ameaça, como são as mulheres fiquem muito atentas a essa nomeação.

 

Amarílis – O STF é o órgão máximo do poder judiciário. O Supremo fala em nome de todo o judiciário.  Um dos primeiros ensinamentoS que os estudantes de direito recebem sobre o STF é de que ele é o guardião da constituição. Em alguns outros países, essa função é chamada de corte constitucional. O mais importante a se entender sobre o STF é a sua função de intérprete da constituição. No atual contexto, e falando sobre a Constituição de 1988, que é considerada a constituição cidadã do nosso estado democrático de direito. Ela versa sobre vários temas sociais e é o símbolo máximo do alcance da democracia aqui no Brasil. O STF tem a importância de ser o guardião dessa constituição de direitos e, principalmente, um intérprete de todos esses ensinamentos e inspirações para que sejam feitas as outras leis infraconstitucionais.

 

Como o STF pode influenciar nos seus direitos como mulher?

Débora – Justamente por ter essa dupla função, as decisões da corte são muito importantes em matéria de garantia de direitos – e dessas decisões não cabe recurso a nenhuma outra instituição. Foi o STF que decidiu controvérsias sobre a constitucionalidade da Lei Maria da Penha, por exemplo, afirmando a importância e os modos corretos de interpretar a lei que visa a proteger os direitos das mulheres a uma vida sem violência. Tramitam neste momento no STF outros casos importantes, como a ação para proteger os direitos das mulheres e crianças afetadas pelo vírus zika, incluindo o direito ao aborto para as mulheres infectadas e em sofrimento pela epidemia, o direito à alteração de nome e registro civil de sexo em documentos para pessoas transexuais, sem necessidade de comprovação de cirurgia de modificação do corpo, e o direito ao reconhecimento da autoidentificação de gênero. Em todos esses casos o novo ministro indicado poderia atuar e teria participação crucial.

 

Daniela – Completamente. Qualquer direito que você tenha vai ser interpretado. Ou seja, ele poderá ser dado ou tirado de acordo com a intepretação do Supremo Tribunal Federal. Não cabe recurso. A decisão do Supremo se reflete no dia a dia, no direito, na vida das pessoas. É uma decisão que encerra o assunto. É muito importante que a gente saiba quem são as pessoas que estão lá. Não é a lava jato. A lava jato vai passar. Ela é muito importante, está passando o Brasil a limpo, etc, mas ela vai passar e o ministro que for escolhido vai ficar 15, 20 anos lá. Nós temos casos de ministros que estão lá há mais de 25 anos, como o ministro Marco Aurélio. Um dos candidatos tem 36 anos – ele ficaria lá por 40 anos. É mais do que a minha próxima geração. É uma decisão que tem que ser muito debatida pela sociedade. É muito importante debater quem será o próximo ministro do supremo, não pode ser feito em um gabinete, escolhido um amigo do presidente que não tem, de forma nenhuma, um pensamento consonante com a sociedade brasileira.

Amarílis – Para falar como o STF influencia a vida das mulheres a gente precisa pensar nos três poderes, nas três esferas de poder que regem nosso país atualmente. O nosso poder legislativo tem uma característica atual de ultraconservadorismo em algumas pautas sociais, que são necessárias para o debate do direito moderno e para a questão, por exemplo, da liberdade de expressão, questões de gênero, questões relacionadas à existência de cada indivíduo são vistas com influência religiosa, ou trazendo reflexões muito arcaicas que não consideram questões modernas e que são interessantes, alguns debates de fatos sociais mais abrangentes. Então, o que acontece é que a influência do STF para os direitos das mulheres atualmente é exercendo funções atípicas de legislador. Naquelas pautas em que o legislativo ainda é retrógrado, o STF é uma possibilidade de conseguirmos uma ampliação de direitos. Essa prática é chamada de ativismo judiciário. Esse ativismo não é ideal, pois senão não precisaríamos de três esferas autônomas de poder, mas dentro desse ativismo judiciário existiram conquistas muito importantes. A conquista da união estável por pessoas do mesmo sexo, que foi o caminho para a aquisição do direito ao casamento. Em novembro do ano passado, o STF decidiu abrir a discussão sobre a descriminalização do aborto e existem também algumas outras pautas que são validadas pelo STF.  Um exemplo disso foi a questão da lei de cotas. Ela permeou e seguiu todos os processos legislativos por mais de uma década, mas só foi confirmada e o direito só foi alcançado e regido na sua efetividade a partir do momento em que houve um julgamento no supremo. A atuação do STF na questão de direitos é enorme e muda, sim, a vida prática. Há dois anos um casal de mulheres não podia casar, não poderia adquirir uma série de direitos que derivam do casamento, como herança e pensão por morte. Foi uma decisão do STF no bojo de função atípica de legislador permitiu que os nossos atos típicos da vida civil fossem efetivos. A igualdade de direitos também pode ser conquistada através do STF.

Porém, uma coisa que deve ser pontuada em relação ao STF e sua função atípica de legislador é que é uma faca de dois gumes. Ao passo que ele pode, sim, influenciar em correntes modernas, como a questão do aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo, existe também uma atuação do STF relacionada ao direito penal que ultimamente tem sido extremamente retrógrada, que tem sido um veículo de restrição de direitos. E que afeta, sim, as mulheres, porque essa restrição de direitos penais afeta a camada mais pobre da população, que são os negros e as mulheres negras. Um exemplo, é a questão relacionada à presunção de inocência. Então essas discussões nas cortes supremas elas acabam por permear e mudar sim, e muito, a nossa vida prática, o nosso dia a dia.


Arte: Tiffany Mallery

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Se por alguma razão precisássemos de uma única pessoa que simbolizasse as vítimas de estupro no país, ela seria uma menina na puberdade que foi abusada por um parente. Podem aumentar o policiamento, até colocar todo o exército nas ruas, mas isso não vai parar os estupros. Talvez até piorem. Penas mais severas, castração química, o armamento da população… Nada disso terá qualquer efeito enquanto as autoridades simplesmente ignorarem um simples fato: uma legião de crianças e adolescentes está sendo violentada entre quatro paredes e o seu agressor está pedindo segredo.

Perante a ocorrência de um estupro coletivo de uma adolescente que chocou o Brasil e o mundo, fica patente a inabilidade do Estado na condução da investigação sobre esse tipo de crime, sendo até mesmo motivo de críticas da imprensa, nacional e internacional, e da opinião pública pela insinuação latente de responsabilidade da vítima sobre o ocorrido. E a criação, às pressas, pelo governo interino e em resposta à polêmica, de um núcleo de combate à violência contra a mulher, sujeito ao Ministério da Justiça, cuja função é aumentar o policiamento em áreas com alto índice de estupros e violência doméstica, apenas reforça a miopia estatal diante da realidade dos fatos.

A maioria dos estupros, espancamentos e assassinatos de mulheres ocorre dentro dos lares, nas mãos de parentes e parceiros das vítimas. É exatamente por esta razão que o Brasil criou também sua lei de feminicídio. Nos casos de abuso sexual, a maior parte das vítimas ainda é criança. A existência de vínculos emocionais, sanguíneos e até mesmo financeiros tornam mais difícil a possibilidade de fazer uma denúncia. Some-se a isso uma cultura patriarcal, que transfere a culpa de crimes desse tipo para as vítimas e chancela o comportamento animalesco dos agressores (“Se o crime aconteceu, é porque a vítima provocou”), e o número de casos que chegam aos órgãos públicos ficam muito distantes do número de abusos cometidos.

A vítima que decide prestar queixa já é vitoriosa por encontrar dentro de si a coragem de assim assumir-se e buscar justiça pelo o que sofreu. Para chegar a este ponto, é preciso que ela tenha reconhecido que o que sofreu foi um abuso, que a culpa não é dela e que o estado e a justiça, supostamente, estão do seu lado. Mas somente essa consciência já é difícil de ser alcançada, dados os elementos citados no parágrafo anterior. Não devemos esquecer que esse tipo de ataque, seja por conhecidos da vítima ou estranhos, é uma violência, uma dominação por meio de força e/ou ameaça. O medo de uma reação do agressor à denúncia também tem seu papel no silenciamento das vítimas.

Diante deste cenário, mais do que embasado por um sem-número de dados e pesquisas, não é difícil entender onde e quando o estado deve concentrar suas forças para efetivamente combater crimes de estupro e violência contra a mulher no Brasil: no acolhimento adequado das vítimas, na escuta qualificada de seu depoimento e na proteção dessa pessoa que declara ter vivido uma experiência traumática.

O que ocorre é que não existe um procedimento padrão para o acolhimento dessas vítimas quando elas vão à delegacia, mesmo entre as que são menores de idade nas delegacias especializadas ou nas delegacias da mulher. Os denunciantes na maioria dos casos ficam à mercê das crenças pessoais de delegados e investigadores não qualificados para fazer essa escuta. É preciso contar com a sorte, ter uma indicação ou contar com um apadrinhamento para ter um atendimento mais digno.

No ano passado, o jornal Correio realizou uma reportagem completíssima sobre estupros, com foco no Estado da Bahia, que reflete muito bem essa realidade. O hotsite resultante da matéria O Silêncio das Inocentes é uma viagem completa por esse universo – e confirma: o machismo é um escudo protetor de agressores. Em entrevista, o delegado titular da 1ª Delegacia, em Salvador, Adailton Adan, foi categórico: “Vivemos em uma cultura machista muito forte. São muitas nuances que prejudicam a investigação e a identificação do criminoso. Já vi vítima de estupro ser criticada por colegas dentro da delegacia por estar usando um short curto”.

As vítimas estão sujeitas à boa vontade e às crenças pessoais de quem as atende. São obrigadas, ainda, a repetir suas histórias e reviver o seu trauma diversas vezes, sendo constantemente revitimizadas por aqueles que deveriam conceder-lhe amparo. Diante disso, questiona-se se alto número de denúncias em determinada região seja necessariamente um sinal de que ali há mais agressores: pode ser apenas que alguma delegacia esteja realizando um trabalho melhor no acolhimento de denunciantes. A ausência de um padrão no atendimento das vítimas é suficiente para colocar em xeque a validade da incidência de estupros em âmbito regional.

O Estado não deve ser responsável pela extensão do sofrimento das vítimas de violência sexual e/ou doméstica, mas é exatamente isso o que acontece na maioria dos casos. E é na solução desse problema que devem concentrar-se os esforços e recursos governamentais em suas ações de combate ao estupro em curto prazo – não na criação de um enfrentamento ostensivo nos locais onde há mais ocorrências do crime, pois na maior parte das vezes não é nas ruas que ele acontece.

Um atendimento cuidadoso e atento não é apenas a forma mais humana de conduzir a investigação de crimes que violam a intimidade, mas também a mais justa: o tratamento frio, crítico, mecânico e negativo encontrado pelas vítimas que buscam ajuda é responsável por um número desconhecido de denúncias que nunca são realizadas – e, em consequência, pela impunidade dos agressores.

Como solução para um cenário tão complexo e urgente, a ONG Childhood tem trabalhado na adoção pelo judiciário do Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense com Crianças e Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência Sexual para o atendimento de vítimas até 18 anos de idade. O modelo é adaptado do Protocolo de Entrevista Forense do National Children’s Advocacy Center (NCAC), sediado nos Estados Unidos, e foi desenvolvido e testado nos Tribunais de Pernambuco, Rio Grande do Sul e Distrito Federal com sucesso comprovado pelo aumento substancial na responsabilização dos autores dos crimes por meio de oitivas que respeitam o tempo e as condições psicológicas das vítimas.

Para se ter uma ideia, quando o atendimento a uma criança ou adolescente vítima de abuso sexual é realizado dentro do protocolo, a porcentagem de agressores responsabilizados é de 60% a 90% – fora dele, o número cai para 4% e 6%. A Childhood não está sozinha nessa: mais de 50 países têm iniciativas similares para a proteção dessas vítimas de violência sexual, com o objetivo de garantir o artigo 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança, na qual os Estados signatários se comprometem com a garantia da escuta qualificada. E, para garantir esse direito, três conquistas são urgentes, segundo a ONG:

Consolidação de um Projeto de Justiça Amigável para a Infância e Juventude, ampliando o Depoimento Especial para todos Tribunais de Justiça do país, em atendimento a Recomendação 33 / 2010 – do Conselho Nacional de Justiça;

Aprovação do Projeto de Lei 3792/2015 – Da escuta de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência – em tramitação na Câmara dos Deputados, liderado pela Frente Parlamentar de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente;

A urgente estruturação de políticas de Estado para criação de Centros Integrados de Atendimentos para Crianças e Adolescentes vítimas ou testemunhas de violência sexual. Isso significa, na prática, que todos os serviços de atendimento – saúde, polícia, conselho tutelar, assistência social e acompanhamento psicossocial – são estruturados em um único local, evitando que crianças façam um caminho tortuoso para serem atendidas nos diversos serviços e a repetição desnecessária dos fatos ocorridos.

É por isso que, hoje, assinamos junto à Childhood, ao Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes e à aceleradora social Artemis o manifesto A Proteção que Queremos e vamos além, no clamor para que medidas parecidas possam ser estendidas, com as devidas adaptações, a toda e qualquer vítima de violência sexual e doméstica. A conquista desse direito para crianças e adolescente já beneficiará muitas mulheres, pois elas são as principais vítimas, mas aquelas que já não estão nessa faixa etária encontram barreiras muito similares nos órgãos públicos e merecem o mesmo respeito.

Enquanto a preocupação das autoridades estiver focada em uma punição mais severa para os criminosos, os índices de estupro permanecerão os mesmos – o fato do estupro ser um crime hediondo, de pena severa, já se mostrou incapaz de aplacar esse crime. Ele é alimentado pela certeza da impunidade garantida por uma investigação que beneficia o criminoso ao colocar em xeque a palavra da vítima.
A garantia de uma escuta qualificada: essa é a proteção que queremos e que, verdadeiramente, vai beneficiar as vítimas de estupro no Brasil. Para além disso, é preciso desafiar o machismo, a cultura de estupro e a mentalidade preconceituosa que cercam os crimes sexuais, mas, nesse momento, esse é o nosso grito: POR UM ATENDIMENTO INTEGRADO E QUALIFICADO ÀS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL.


Arte: XeiArt

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PARTE I: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

O papel dos veículos de comunicação é fundamental na construção da cultura de um país. O jornalismo, em especial, por sua posição de confiança e virtude informativa, é capaz de legitimar discursos e práticas concomitantemente à transmissão de notícias. É por essa capacidade que salientamos a importância de um jornalismo livre de preconceitos, ainda que aqueles que estão por trás dos furos não o sejam.

Este manual pretende fornecer aos profissionais de comunicação ferramentas básicas para uma redação limpa de sexismo, racismo, homofobia e transfobia, apontando erros de abordagem básicos cometidos na cobertura de crimes de gênero – não apenas pelo dever moral do tratamento humanizado para todos os envolvidos, mas também para que o jornalismo não colabore com a perpetuação de discursos de ódio.

ABORDAGEM DE ESTUPRO

Segundo a lei, é estupro “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.” Caso a vítima tenha entre 14 e 18 anos, a pena é mais severa – abaixo disso, qualquer conjunção carnal é considerada estupro de vulnerável, independente do consentimento da vítima.

O estupro é um dos crimes mais subnotificados, por várias razões. A primeira delas é que, em uma sociedade patriarcal e machista como a brasileira, ao revelar que sofreram essa violência, as mulheres, maioria entre as vítimas de estupro no país (89%, segundo o Ipea), têm grandes chances de ser culpabilizadas pelo fato – sendo que o único responsável pelo crime é o estuprador.

As que têm coragem e força para fazer uma denúncia formal, encontram um poder público tecnicamente ineficaz para lidar com esse tipo de crime, seja por barreiras técnicas (falta de recursos) ou ideológicas (o machismo daqueles que estão realizando o atendimento). Apesar de apresentar mais uma barreira para que a denúncia seja realizada, diminuindo o número de crimes notificados, as denúncias que seguem adiante também não representam grandes chances de vitória para as vítimas.

No Rio de Janeiro, um estado que, entre janeiro e abril de 2016, registrou 13 estupros por dia,   somente 6% dos acusados de estupro foram a julgamento em 2015, segundo dados obtidos pela revista Época. Em São Paulo, o número sobre para 10,9% – ainda baixíssimo e desanimador para quem viveu essa dor e deseja buscar justiça.  

Esses são dados que mostram como o machismo ajuda a tornar o estupro um crime de impunidade quase certa. Se os meios de comunicação colaboram na atenuação de sua reportagem, eles ajudam a alimentar essa realidade. As mudanças aqui sugeridas podem parecer sutis, mas na verdade são cruciais para que esse crime seja descrito noticiosamente de forma mais humana e justa com as vítimas.

 

1 – Não romantizar o ato

G1 - Condenado a 54 anos por estupro faz coletiva e se diz vítima de 'inveja' - notícias em Acre - Google Chrome_2

RJ declaração de amor de aluna à professora indigna mãe - Google Chrome

Quando se tratar de uma notícia sobre estupro, jamais usar o termo “encontros amorosos”. Podem ser encontros, mas não há nada de amoroso em estuprar uma pessoa. São encontros criminosos. Esse é um padrão observável especialmente em notícias referentes à pedofilia, quando os abusos acontecem repetidas vezes, e os encontros são assim denominados. 

 

2 – Estupro NÃO É sexo

Padrasto preso na Serra acusado de obrigar enteada a fazer sexo Folha Vitória - Google Chrome

Estupro não é sexo. Sexo é consensual. “Suavizar” este fato, substituindo estupro por “obrigou a fazer sexo” ou usar o mesmo termo de uma prática consensual, como sexo oral, é diminuir a gravidade do crime. Não é sexo para a vítima. 

 

oito anos

cinco anos

Estupro não é sexo. Sexo oral implica consentimento das duas partes – e meninas de 8 anos e 5 anos, segundo a lei, são incapazes de consentir. Logo, é estupro. 

relação sexual

Ainda que nessa notícia o acusado esteja negando o crime, em nenhum momento a vítima acusou-o de manter relação sexual com ela, mas de tê-la estuprado. Ou seja: é impossível negar uma relação sexual, mas sim um estupro. Usar o termo do acusado é dar à sua versão mais validade que a da vítima – sendo que o crime que está sendo investigado é o de estupro.

Cinco homens são presos por pedofilia em Jacarezinho - Google Chrome

Relações sexuais entre homens e vítimas de 9 a 14 anos não são sexo: são estupros de vulneráveis.

Onda de ataques a mulheres tem assustado população em cidade no interior de Minas Gerais - Google Chrome

Forçar o pênis contra a boca de uma mulher já configura estupro. “Consumou o estupro” provavelmente refere-se à penetração vaginal, mas ainda que esta não tivesse acontecido, o crime já estaria consumado.

Bons exemplos:

Cuiabá garçom é condenado a 54 anos de prisão por estupro de vulnerável - Só Notícias - Google Chrome

ovem é vítima de estupro, cárcere privado e assalto em casa no ES - notícias em Espírito Santo - Google Chrome

Marido é condenado a 9 anos de prisão por estuprar a própria mulher - Notícias - Cotidiano - Google Chrome

 

 

3 – Não desmerecer a vítima

Vítima de estupro por 33 homens, garota tem vida exposta na internet - Jornal do Commercio - Google Chrome

Partindo-se do princípio de que um estupro é uma conjunção carnal involuntária, somente o criminoso pode ser responsabilizado pelo ato. Para proteger a vítima, deve-se abster da divulgação de informações sobre a sua vida pregressa, em geral expostas para desmerecer sua conduta e, de alguma forma, colocar sobre ela algum merecimento sobre o que aconteceu.

 

ABORDAGEM DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FEMINICÍDIO

50,3% dos homicídios de mulheres registrados em 2013 foram cometidos por familiares ou ex-parceiros – quatro em cada sete foram cometidos por pessoas que tiveram ou tinham um relacionamento afetivo com a vítima.

Nos dez primeiros meses de 2015, 86% dos relatos de violência obtidos pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, correspondiam a situações de violência doméstica e familiar contra as mulheres.

Tanto os feminicídios quanto as ocorrências de violência contra a mulher são crimes de gênero e assim devem ser tratados nas abordagens jornalísticas, com a sobriedade necessária e sem romantizar o fato.

 

1 – NÃO ROMANTIZAR OS AGRESSORES E O CRIME

Essa é a principal falha nas matérias jornalísticas que abordam tanto violência doméstica quanto feminicídios. Se por um lado as vítimas de estupro têm sua conduta posta à prova na busca machista por razões que a responsabilizariam pelo crime, agressores e assassinos de mulheres têm o seu passado revirado em busca de bons antecedentes que revelem sua violência como um traço de loucura. O fato é que sua notoriedade se dá pelo crime que cometeram. Por isso, é preciso ter cautela para não minimizar a gravidade dos seus atos.

 

Rodrigo de Pádua docinhos, timidez e os segredos de um caderno VEJA São Paulo - Google Chrome

 

Amor que mata - DM.com.br - Google Chrome

A Lei do Feminicídio existe justamente para mostrar que o assassinato de parceiras é um crime de gênero. Colocar o amor como o motivo de um assassinato é corroborar a mensagem de que essa violência é um fim esperado para esse sentimento. Agressões, ameaças, surras e assassinatos não são gestos de amor.

 

Por ciúmes, homem mata mulher e filho a facadas - Fotos - R7 Cidades - Google Chrome

Sugestão: Homem mata mulher e filho a facadas. Não são ciúmes: é o entendimento machista de que a mulher, sua vida e seu corpo, são de propriedade do homem.

 

2 – NÃO JULGAR AS VÍTIMAS POR SEU COMPORTAMENTO APÓS O CRIME

'Ela voltou na comunidade. Ainda ficou de safadeza', diz suspeito de envolvimento em estupro coletivo - Jornal O Globo - Google Ch

Amber Heard aparece sorridente ao lado de amiga após reunião com advogados  E! Online Brasil - Google Chrome

G1 - 'É armação', diz advogado de delegado suspeito de abusar da neta - notícias em Sorocaba e Jundiaí - Google Chrome

Não importa o que a vítima fez antes ou depois do crime. Se decidiu perdoar o agressor ou se quis ir à uma festa: nada disso anula o que ela sofreu. As mulheres que decidem denunciar a violência que sofreram são colocadas sob um holofote e todos os seus passos são acompanhados na busca de sinais que provem que a sua versão dos fatos é uma mentira. Mas não existe protocolo em relação ao comportamento de uma mulher após sofrer uma violência. A ideia de que ela obrigatoriamente deve agir de maneira triste ou deprimida é, mais uma vez, colocar o foco sobre ela, minimizar a violência sofrida e atenuar a gravidade da agressão.

 

BOAS PRÁTICAS

  • Não ter medo de usar a palavra estupro. Quando a especificação do abuso sexual for absolutamente necessária, utilizar os termos estupro anal, estupro oral e estupro vaginal, abolindo a associação dessas práticas com o sexo consensual via ânus, boca ou vagina. Jovem é estuprada em lote vago na Rua Tomaz de Aquino no bairro Caramuru - Patos Agora - A notícia no seu tempo - Google ChromeCaso o ato seja masturbatório, sempre ressaltar que o ato foi forçado, como no exemplo:
    Bill Cosby admite ter abusado sexualmente de duas adolescentes Viver Diario de Pernambuco - Google Chrome
  • Vale lembrar que o Brasil é signatário da OEA e acolheu em seu sistema jurídico a “Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher – Convenção de Belém”, a qual assume como estupro qualquer ato que cause dano. Em outras palavras, não apenas a conjunção carnal é considerada estupro, mas também o ato de enfiar objetos no ânus, na boca ou na vagina da vítima – o que, ainda que não seja previsto pelo Código Penal, também é considerado estupro por sermos signatários. No Reino Unido, o Sex Acts Offenses prevê esse tipo de violação desde 2013 (Obrigada pela informação, Ivy!).
  • Chame feminicídio pelo nome:
    Homem é preso em flagrante por estupro e tentativa de feminicídio em MS Midiamax - Google Chrome
  • Quando for cabível, divulgar, na matéria, informações de apoio à vitimas e parentes de vítimas de crimes correlatos (como, por exemplo, o Disque 180 da Lei Maria da Penha), para ajudar a disseminar a informação de onde e como buscar ajuda caso alguém se encontre em situação parecida.
  • Aproveitar o espaço para trazer mais informações sobre violência contra a mulher. Uma excelente fonte de informações e especialistas para comentar as notícias é o Dossiê Violência contra as Mulheres, da Agência Patrícia Galvão. Exemplo:G1 - Preso homem acusado de matar a companheira grávida, em Baião - notícias em Pará - Google Chrome

Arte: Jack Vettriano

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Durante a campanha #PrimeiroAssédio, em 2015, a baiana Sofia Costa contou sobre o abuso que sofreu em fevereiro daquele ano, durante o carnaval de Salvador, junto a uma amiga que estava alcoolizada e desacordada.

O agressor é um artista muito conhecido na região. Ele abriu contra Sofia um processo por calúnia e ela, por meio de uma transação penal, atualmente cumpre 7 horas semanais em serviços comunitários, somando um total de 40 horas. Seu abusador teve cobertura da mídia para defender-se das acusações. Sofia não. Confira o relato dela aqui: https://www.facebook.com/sofia.costa.52090/posts/1187383354605906?pnref=story

Sofia não é a primeira e, infelizmente, ainda não será a última mulher a encarar as dificuldades e a incredulidade com que vítimas de crimes sexuais são recebidas pela justiça e pela opinião pública:

– A universitária Júlia Velo foi ao Bar Quitandinha, em São Paulo, com uma amiga, dias antes do carnaval. Lá, foram assediadas e agredidas fisicamente por dois rapazes. A gerência nada fez para defedê-las, tratou os agressores super bem por serem clientes antigos e expulsou as duas garotas por causar confusão. Quando publicou seu depoimento no Facebook, a publicação viralizou e a página do bar recebeu uma enxurrada de críticas. A gerência tentou se desculpar, depois desmentiu, disse ser contra o assédio, mas começou uma campanha contra Júlia, chegando a subir um vídeo no YouTube, editado internamente, para acusá-la de ter inventado a história. Apesar do apoio que recebeu, Júlia também foi vítima de outros ataques, além da gerência do bar (que nunca procurou ouvi-la), de pessoas que não deram crédito à sua história.

– Há mais de 20 anos recaem sobre as costas do comediante Bill Cosby acusações de estupro, mas foi somente em 2014, quando Hannibal Buress citou seu passado criminoso em um show de stand up, que a conversa em torno do assunto ganhou força e, desde então, são mais de 50 as mulheres a acusá-lo do crime. Apesar disso, parte da opinião pública ainda duvida da palavra delas e Cosby está processando sete de suas acusadoras por difamação.

– Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la estuprado na infância. Ainda que, além de sua palavra, existam fortes evidências de que o abuso tenha acontecido, Woody Allen nunca foi condenado judicialmente e permanece um diretor aclamado pela opinião pública.

– Quando o vídeo de Janay Rice sendo nocauteada por seu marido, o jogador de futebol americano Ray Rice, em um elevador foi parar na mídia, ainda que um ato tão grave de violência tenha sido registrado de maneira indiscutível, ainda sobrou espaço para questionamentos sobre a atitude de Janay: por que ela ficou? Por que não se separa dele? Como se a culpa pelo soco fosse dela por não abandonar um relacionamento abusivo. Janay deu uma série de entrevistas explicando sua decisão e o caso gerou importantes discussões online por meio das hashtags #whyIstayed(#porqueeufiquei) e #whyIleft (#porqueEuParti), que jogaram luz sobre a complexidade de relacionamentos que se tornam violentos.

– O cantor Cee-Lo foi absolvido das acusações de ter aplicado o golpe “Boa noite Cinderela” em uma mulher que afirmou que lembrava ter ingerido a bebida e depois estar subitamente nua em sua cama. Autoridades não acreditaram na história dela porque eles já estavam saindo há alguns meses e feito sexo antes.

– O jogador de futebol americano Greg Hardy é um dos muitos a cometer violência contra mulheres. Ele deu uma surra na namorada, fez o que pôde para fazer com que parecesse legítima defesa, mas o caso foi encerrado desfavoravelmente a ele. Apesar disso, ele voltou a jogar e teve a oportunidade de dar uma entrevista à ESPN, um dos maiores canais de esporte do mundo, desmentindo o caso. Sua ex-namorada teve a vida destruída e não consegue arrumar um emprego.

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– Em 1991, o assédio sexual sofrido por Anita Hill em seu ambiente de trabalho por seu então chefe e atual candidato a juiz da suprema corte americana, Clarence Thomas, se tornou um dos principais assuntos do país. O depoimento e questionamento de Anita sobre o caso perante as autoridades foi televisionado, obrigando-a a recontar e reviver seu trauma em rede nacional e diante de seus familiares. Clarence negou as acusações, que se tornou um caso da palavra dela contra a dele, e conseguiu sua nomeação como juiz da Suprema Corte. Apesar dessa derrota para os apoiadores de Anita, seu caso colaborou para um aumento substancial de mulheres na política, já que as americanas perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava as mulheres; milhares de vítimas de assédio vieram à frente para denunciar seus casos e se tornou um marco no combate ao assédio sexual em ambientes de trabalho nos EUA.

– A cantora Kesha pediu a quebra de seu contrato com o produtor Dr. Luke acusando-o de abuso sexual, verbal, físico e emocional. Ela não apenas perdeu o processo como continua sob a obrigação de gravar mais seis álbuns com seu agressor. A juíza do caso ainda disse que “Nem todo estupro é um crime de ódio motivado pelo gênero”. ( E quais seriam???). A gravadora ofereceu a quebra de contrato posteriormente caso ela desmentisse as acusações. Ela se negou.

– Em uma das edições do programa Big Brother Brasil, um dos participantes estuprou uma mulher embriagada o suficiente para não ter condições de consentir. Ela foi interrogada por três horas, ele foi expulso do programa, mas a opinião pública condenou a moça.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 47.646 estupros foram registrados no Brasil em 2014, mas estima-se que apenas 10% dos casos sejam notificados. Ou seja, em média 450 mil mulheres preferem manter o silêncio sobre o crime que sofreram a procurar a justiça.

Não apenas as delegacias (incluindo muitas DEAMs http://lugardemulher.com.br/a-ineficiencia-da-delegacia-da-mulher-parte-i) estão despreparadas para reconhecer o crime e lidar com as vítimas, como o judiciário em si, em toda sua ineficiência, ajuda a prolongar a dor com processos enormes e por vezes inconclusivos.

Existe também o mito das falsas acusações de estupro, sendo que estatisticamente é mais fácil um homem ser estuprado do que ser vítima de uma acusação falsa. Além disso, uma vez que o caso é levado à justiça, cabe às autoridades uma investigação neutra sobre o caso e, caso a acusação seja mentirosa, medidas punitivas serão tomadas contra quem a fez. Quem não deve, não teme – ou, pelo menos, não deveria temer.

Em uma sociedade machista como a nossa, não existem benefícios diretos a uma mulher que se assume vítima de estupro. O bem que isso traz é para as mulheres como um todo. A cada Sofia que levanta sua voz e conta o que passou, muitas Anas, Robertas, Jéssicas, Sheilas e sabe-se lá quantas outras ouvintes saberão que essa dor não é só delas, que não estão sozinhas, que outras sobreviveram, que existe um caminho.

Pode ser que no caminho algumas derrotas sejam inevitáveis, mas o silêncio não nos protege. Oferecemos toda nossa solidariedade e carinho às vítimas que decidem não falar sobre o assunto – continuaremos lutando por elas. E agradecemos a todas que tomaram a decisão de lutar por justiça: obrigada por compartilhar a sua história para tornar o mundo um lugar mais seguro para todas nós.

#ChegadeFiuFiu #FoiEstuproSim#MexeuComUmaMexeuComTodas


Arte: Alex Fine

 

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Passados 20 anos desde a realização em Beijing da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres da ONU, quanto o país avançou em relação à conquista dos direitos das mulheres em sua sociedade? As escalas megalômanas que costumam envolver a China se aplicam também ao universo das violações praticadas contra as mulheres. São altos os índices das agressões domésticas, rapto de jovens ou as taxas de suicídio feminino, uma das maiores do mundo.

Falando sobre morte, vida e estatísticas que envolvem o universo feminino, o anúncio recente sobre o fim da política do filho único, depois de quase quarenta anos de vigência da lei, deve ser celebrado. Mesmo quando o principal motivo por trás da decisão esteja relacionado ao rápido envelhecimento da população antes que o país tenha prosperado, e não necessariamente a vontade de mulheres e casais em relação ao número desejado de filhos. Mas o fato é que, a partir de agora, inúmeros casos traumáticos de abortos forçados já não terão mais razão de ser praticados, já que é possível ter o segundo filho. Melhor ainda, as bebês poderão ter suas vidas poupadas e assim o país caminha na tentativa de reverter o maior problema de desigualdade entre gêneros do mundo.

“Por muito tempo as mulheres enfrentaram sofrimentos terríveis em função da política do filho único e todas as consequências dela decorrentes. O governo chinês apenas se sensibilizou com os resultados negativos desta política quando as pesquisas começaram a apontar a terrível diferença entre os gêneros. O infanticídio feminino nunca foi motivo de preocupação para o governo, mas o fato dos homens não conseguirem encontrar mulheres para casar sim”, Wang Zheng, professora de estudos femininos na Universidade de Michigan.

Uma jornada de mil léguas começa com um simples passo, escreveu o famoso filósofo chinês Lao Zi. Restam outros tantos para que a jornada chinesa consiga equilibrar a bagagem das tradições paternalistas feudais e do código de conduta moral e ético milenar, o confucionismo, que organizam sua sociedade em direção a uma realidade de maior paridade.

O país de dois sistemas que há pouco mais de trinta anos se abriu ao mundo e para as influências ocidentais, criou uma classe de empreendedores que prosperou e enviou seus filhos e filhas para universidades, em especial nos EUA, deve aprender a lidar com o fato de terem formado mulheres independentes, de opinião que voltam para a China aptas a ocuparem espaços no mercado de trabalho e na própria sociedade anteriormente destinado exclusivamente aos homens. Exatamente em função deste conjunto de fatores elas são denominadas como “mulheres refugo”.

Não há homem chinês em toda a China que vislumbre se casar com uma mulher que eventualmente possa ter formação superior a dele, experiência pessoal ou profissional com mais destaque e maior salário, logo as mulheres com este perfil são rejeitadas, viram refugo. De acordo com a professora Wang Zheng, não importa o quão capaz uma mulher seja no subconsciente coletivo da sociedade chinesa nunca será boa o suficiente como um homem.

O matrimônio em geral acontece imediatamente após a graduação, ou seja casam-se muito jovens. Os homens que passam incólumes a esta fase, o fazem ligeiramente mais tarde e preferem o enlace com garotas da mesma idade ou mais novas, dotadas de atributos considerados inferiores, como ser de uma província rural, ocupar um posto de trabalho tido como medíocre, ter se graduado numa universidade privada ou não ter cursado qualquer uma que seja. Para que desta forma a família, que agora poderá ter dois filhos, possa ter início. Providenciarão o quadro a ser pendurado no quarto do casal com a foto dos dois trajando vestes da cerimônia, assim como vem sendo feito desde sabe-se lá qual dinastia. Ao homem paira uma institucionalização estabelecida desde sempre, sobre práticas esperadas e aceitas atribuídas ao sexo masculino. À mulher o status de ser meiga, 可爱- Kěài, a palavra é muito comum e usada para elogiar o estereótipo de mulher chinesa.

Uma mulher meiga sorri timidamente, faz gestos delicados e contidos, não fala muito nem pouco, se veste discretamente, tende a concordar ou se opõe de modo sutil. Uma criatura que não oferece surpresas nem riscos, uma fera domada que nem sequer um dia soube das potencialidades intrínsecas de sua natureza feminina, acostumou-se a ser yin, a passividade. Mas em matéria de China além dos números suntuosos há de se considerar a velocidade com que as transformações, especialmente as sociais, acontecem.

A nova militância das feministas chinesas (nova por voltar a se organizar depois de períodos políticos mais críticos como o da Revolução Cultural), em especial nas cidades de Beijing e Guangzhou, têm promovido questionamentos e ações visando esclarecer e libertar as mulheres de tamanha meiguice. Propõem reflexões por exemplo geradas a partir do texto Monólogos da Vagina, peça encenada pela primeira vez no país em 2009, levantando questões sobre a sexualidade e, mais do que isso, ao falar sobre a vagina, gerar a conscientização em relação ao próprio corpo, suas necessidades, vontades, desejos e regras. Para que a partir do conhecimento e da informação, os grandes índices anuais de aborto, por exemplo possam ser reduzidos. Para especialistas os 13 milhões de abortos praticados em média por ano no país, estes números podem ser ainda maiores considerando os casos realizados em clínicas clandestinas, ocorrem por falta de orientação sexual.

As meninas se organizaram em grupos de trabalhos, em coletivos e também no espaço virtual. Promoveram campanhas, ações, fizeram vídeos, foram entrevistar recrutadores nas empresas considerados machistas, reivindicaram paridade, lutaram pelo fim das violências domésticas praticadas contra as mulheres, pelo direito sobre seu corpo, pelo fim do assédio sexual… Ganharam espaço, notoriedade e começaram a incomodar, causar desconforto.

No dia 8 de março de 2015, após uma marcha realizada no centro de Beijing, foram presas. O caso das cinco jovens, ganhou tanto destaque na mídia internacional e tanta mobilização nas redes que por bem e depois da pressão internacional o governo decidiu soltá-las. Não antes da contradição ao qual o presidente chinês Xi Jinping foi submetido, em setembro daquele ano, durante visita oficial à Casa Branca. Apesar do seu discurso enfatizar a importância sobre a celebração dos vinte anos da Conferência Mundial das Mulheres em Beijing, uma das jovens chinesas militantes continuava presa.
A libertação não necessariamente significou o fim dos problemas, o cerco ao redor das meninas e suas ações passou a ser mais duro, vigiado. Entrou para a lista dos assuntos considerados sensíveis no país. Sensíveis, não meigos!

Li Tingting, uma das ativistas presas por planejar protestos na capital chinesa contra assédio sexual, relata a sensação de medo enfrentado no período que esteve em cárcere, das humilhações sofridas e da calma que aprendeu a desenvolver para manter sua sanidade. Ressalta, porém, que o medo maior surgiu quando foi solta, liberta, porque agora e para sempre não há mais amarras ou maneiras de detê-la, está em liberdade.

Outras pequenas revoluções cotidianas acontecem no aqui e acolá do território chinês, nem sempre planejadas, apenas deflagram. Sheryl Sandeberg, a executiva do Facebook, que o diga. O lançamento de seu livro “Faça Acontecer” na China culminou numa série de palestras, encontros e gerou um movimento de questionamento em relação as diferenças da remuneração e oportunidades entre homens e mulheres no mercado de trabalho no país, repercutindo em especial entre o público das “mulheres refugo”.

A história e as tradições milenares chinesas em contraste com o fato da população urbana do país ter superado a rural há pouco mais de cinco anos; a ascensão de uma classe média que dispõe de um alto poder aquisitivo que tem viajado o mundo todo, consumido e questionado o funcionamento de seu próprio país; a influência ocidental; os esforços imensos que o governo chinês vem concentrando em sua indústria cultural com o intuito de promover sua imagem e conquistar novos adeptos no mundo; tudo isso e uma série de outros elementos precisam ser considerados para poder entender a velocidade, o turbilhão e o potencial para que muitas mudanças aconteçam, e as que já estão em curso.

No caso da luta pelos direitos das mulheres, passados os vinte anos desde a Conferência os avanços não foram muito significativos, mas a recente dinâmica de luta dos coletivos atrelado ao trabalho que já vem sendo desenvolvido, ao foco das atenções e exigências voltados cada vez mais ao país que ocupa, se insere, desponta, participa, atua e dialoga para a construção de muitas das regras que estão sendo acordadas neste novo cenário da nova configuração de poder mundial me parecem propiciar elementos bastante positivos no que tange as lutas todas, e no caso a das feministas já começou. A luta contra o machismo tanto aqui como na China compartilham tolerância cada vez menor.

 


 

Fernanda Ramone morou nove anos em Beijing, é mestranda em gestão da indústria cultural pela Universidade de Beijing. Foi correspondente da BandNews Tv, trabalhou na Rádio Internacional da China e atua como empreendedora cultural. Idealizadora e organizadora do DocBrazil Festival. É professora na Casa do Saber e autora do capítulo ” A produção Cultural na China”, no Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, Edição Sesc SP.

Arte: Hung Liu

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Em uma dessas curiosas coincidências da vida, minha mãe me trouxe um balde de pipoca e um copo de refrigerante enquanto eu escrevia esse texto sobre cinema. A associação desse combo com a experiência de assistir filmes só não é maior que a do assédio com amor nos roteiros para a tela grande. Romance de verdade, de acordo com os filmes, tem muita perseguição, desrespeito à autonomia feminina e até pequenos crimes – tudo porque o verdadeiro amor nunca desiste. Será mesmo?

É importante frisar que me refiro majoritariamente aos filmes Hollywood por ser esta ser a indústria cinematográfica mais influente na cultura nacional, ocupando a maior parte das salas de cinema no Brasil, da programação da tevê fechada e dos catálogos virtuais que têm se tornado uma nova forma de consumo de produções audiovisuais, como NET NOW e Netflix.

Filmes americanos não são a única opção que existe, é verdade, mas pelo gigantismo de seus grandes estúdios, eles sufocam, dificultam e até inviabilizam a chegada de produções independentes em geral e de filmes nacionais e de outros países (especialmente os subdesenvolvidos) ao grande público. A exibição de filmes que estejam fora do eixo hollywoodiano é restrita a poucos títulos a ser encontrados na tevê paga e, quando chega aos cinemas, limita-se a poucas salas do circuito alternativo de grandes cidades, sem dublagem. Ou seja: por meios legais, são de difícil acesso à população em geral. Vale lembrar que os filmes brasileiros de maior orçamento e bilheteria nos últimos tempos têm seguido a cartilha de Hollywood.

Dito isso, o cinema mainstream americano, onipresente em nossos meios de comunicação, colabora – e muito – com a manutenção de estereótipos de gênero. A começar pela forma como os filmes são percebidos de acordo com a sua temática: filmes de guerra, ação, aventura e ficção científica são “de homem”, ao passo que dramas, romances e comédias românticas são “de mulher”. No caso da comédia, elas podem ter um público neutro, como e, por exemplo, o caso de O Mentiroso (1997) que, apesar de ter momentos bem machistas e uma história de amor envolvida, não é direcionado necessariamente a homens ou mulheres. Mas a comédia também pode ser dividida entre aquelas dirigidas ao público masculino, como Se Beber, Não Case! (2009), ou feminino, caso de Missão Madrinha de Casamento (2011) e praticamente todos os títulos classificados como comédias românticas.

E são as tais comédias românticas que mais recebem a pecha de “filmes de mulherzinha”, basicamente por trazerem alguns dos maiores clichês da expectativa social feminina. Ainda que mulheres sejam o público-alvo, o modo americano de fazer cinema é machista, heteronormativo, gordofóbico, capacitista e racista, resultando em roteiros que perpetuam noções limitadas sobre o que é ser uma mulher e o que elas esperam de relacionamentos amorosos.

Estrelados em sua maioria por mulheres brancas, magras e de cabelos lisos, esses filmes passam a impressão de que elas são as únicas dignas de receber amor. Sua beleza é valorizada a cada cena, em close ups e cenas que estão ali para apresentar suas características como objetos de desejo. São elas a receber as mais lindas declarações de amor dos maiores galãs do cinema interpretando os parceiros mais perfeitos possíveis dentro dos ideais do amor romântico, tudo com uma trilha sonora emocionante. Às negras, às gordas e às que de alguma forma são percebidas como menos atraentes restam os papéis de amiga, conselheira, alívio cômico ou até mesmo vilãs. A diversidade de cores e corpos femininos não é celebrada, pelo contrário: a presença de piadas e situações que ridicularizam mulheres gordas, por exemplo, são muito comuns.

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Simplesmente É Amor (2003)

Mas essa heroína-padrão-Hollywood não terá uma necessariamente vida fácil: é bem provável que o seu par, no mundo real, fosse um verdadeiro criminoso. Perseguições, assédio sexual, abusos, falta de respeito à vontade e à autonomia feminina, constrangimentos públicos e outros comportamentos desagradáveis ou até mesmo criminosos são retratados como grandes gestos de amor nas comédias românticas. A insistência masculina é extremamente valorizada e o convencimento da protagonista por aquele que fora inicialmente rejeitado é a espinha dorsal de alguns dos roteiros de maior sucesso do gênero.

Um Amor Para Recordar (2002), Mensagem Para Você (1998), 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999) e A Verdade Nua E Crua (2009) são alguns exemplos dessa vertente. Ainda que jogos de sedução sejam interessantes de assistir, esses filmes ajudam na criação da ideia nem sempre acertada de que “os opostos se atraem”, sendo que o lado masculino é, em geral, um rebelde, um sujeito agressivo e até mulherengo – um péssimo parceiro em potencial. Nesse caso, porém, a protagonista se torna a sua última conquista, aquela que, por ser tãããão especial, conseguiu amansar a fera… O tipo de ilusão que leva inúmeras mulheres a insistir em relacionamentos incompatíveis e a permanecer em relações abusivas no aguardo do final feliz dos filmes, do sossego do príncipe, algo que realisticamente pode até terminar em morte.

Parece exagero, mas não é. É nessa confusão entre gestos de amor e rejeição que comportamentos como o stalking, ou perseguição insistente, passam a ser entendidos como atos românticos. Um estudo realizado pela Universidade de Michigan apontou que a representação desse comportamento na mídia torna as mulheres mais tolerantes à insistência de um homem em persegui-las “romanticamente”. E vale tudo: decorar os horários da rotina da mulher e abordá-la sem aviso, invadir sua casa, deixar mil mensagens no seu telefone, importunar sua família e amigos, enviar centenas de rosas indesejadas. Para quem deseja a vitória sobre a presa a qualquer custo, vencer pelo cansaço é uma estratégia.

Em Quem Vai Ficar Com Mary (1998), a personagem de Cameron Diaz é disputada por quatro homens absolutamente obcecados por ela: um contrata um detetive para descobrir seu paradeiro e muda-se para a sua cidade em busca de uma nova chance, o detetive assume uma nova personalidade para conquista-la, um entregador de pizzas finge-se de amigo e médico para aproximar-se dela e seu ex-marido invade sua casa para roubar-lhe os sapatos.  No final, todos os atos são justificados pelo amor que eles sentem por Mary. Esses comportamentos, que se repetem em diversos outros filmes do gênero (Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo, Amor à Toda Prova, Segundas Intenções), ajudam a tornar a perseguição até mesmo como algo desejável na mente de quem assiste, atando o ato a clichês como “Uau, se ele fez tudo isso, é porque a ama de verdade!” ou “Se o homem realmente gostar de você, vai fazer enormes sacrifícios!”.

Isso quando, é claro, o sacrifício não é exigido delas. Nem sempre com a intenção da conquista, muitas comédias românticas trazem mulheres que só passam a ser percebidas como atraentes após uma transformação completa. É claro que as atrizes já carregam em si todas as características percebidas como atraentes, mas começam o filme com o cabelo volumoso/frisado, usando óculos e aparelho nos dentes, usando roupas fora de moda e outros apetrechos absolutamente comuns que Hollywood ajuda a estigmatizar como feios.

Miss Simpatia (2000), Ela É Demais (1999), Nunca Fui Beijada (1999), Uma Linda Mulher (1990), O Diabo Veste Prada (2006): todos trazem melhoras significativas nas vidas de suas personagens após o alisamento de seus cabelos, o uso de roupas mais reveladoras e maquiagem e a obtenção de uma personalidade mais confiante a partir da adequação aos padrões estéticos vigentes na mídia. Não importa que antes elas fossem as mulheres que sempre quiseram ser, tendo chegado até ali pela trajetória que escolheram para si mesmas em busca da felicidade: algum evento no roteiro vai mostrar que a vida pode ser muito melhor com um pouco de batom, blush e um homem que admira tudo isso ao seu lado.

Hollywood também cumpre seu papel de retratar o amor de uma mulher em um sentimento mágico capaz de tornar a vida de um homem muito mais feliz. Conhecidas como Manic Pixie Dream Girls, existe uma vertente de mocinhas que surgem na vida de um cara já prontas, sem precisar mudar quem são, justamente por já possuírem um seu jeitinho meio doido e um estilo diferenciado que servirão para mostrar ao par romântico uma alegria e um jeito de viver que ele ainda não conhecia, mas que eram exatamente o que lhe faltava.

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Ainda que muitas dessas personagens sejam interessantes e admiradas por muitas mulheres, a sua função no roteiro está intimamente ligada à do homem e em como a sua presença afetará a vida dele. Limitadas e limitantes para mulheres em todo o mundo, as Manic Pixie Dream Girls são um produto de fantasias masculinas que dão a mulheres incríveis a única missão de consertar a vida de um sofrido protagonista masculino.

Não é nenhuma surpresa: ainda que o público-alvo desses filmes seja o feminino, assim como quase todas as indústrias do mundo a de cinema também é controlada por homens – e eles vão colocar nas telas as ideias que eles têm sobre o que as mulheres gostam, querem e pensam. O site Polygraph realizou uma interessante pesquisa baseada no Teste de Bechdel, aquele que só aprova obras de ficção nas quais personagens femininas (com nomes) dialoguem entre si sobre algo que não seja um homem, criado pela cartunista Alison Bechdel, e tornou-se um marco na análise da presença de mulheres no cinema, na televisão e na literatura. O teste tem suas falhas: o filme Legalmente Loira (2001) passa apenas porque em determinado momento Elle Woods e uma amiga falam sobre cachorros, já Gravidade (2013) é protagonizado por uma mulher astronauta e foi reprovado.

Mas, na verdade, o consenso geral é que ele serve apenas para apontar que esse mínimo esperado por mulheres em um filme é surpreendentemente difícil de alcançar. O estudo do Polygraph analisou os 200 filmes de maior bilheteria de 1995 a 2005 e chegou às seguintes conclusões:

– Dos filmes que só tinham roteiristas homens, 53% falharam no teste.

– Dos que contavam com ao menos uma mulher assinando o roteiro, o número caiu para 38%.

– Todos os que tiveram roteiros escritos somente por mulheres passaram no teste.

E, ao analisar todos os 4000 filmes, do mesmo período, presentes no site do teste, o estudo apontou que quando os tomadores de decisão são homens, os filmes têm mais chances de falhar: roteiristas (46%), produtores (43%) e diretores (41%). Os números vão caindo vertiginosamente conforme o número de mulheres envolvidas aumenta.

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Além disso, a proporção entre diretores homens e mulheres na última amostra era de 5:1 e os números não melhoraram com o passar do tempo. Em 1995, 37% dos filmes falharam no teste e 18% tinham mulheres em cargos de decisão. Em 2015, 38% dos filmes não passaram no teste e 17% do total tinham ao menos uma mulher como diretora, produtora ou roteirista.

O fato de que as chances de um filme passar no teste aumentam com a presença de mulheres por trás das câmeras é um indicativo nítido de que a qualidade das personagens femininas e a diversidade nas telas dependem diretamente da diversidade dentro dos estúdios e, principalmente, entre aqueles que decidem o que será produzido e como.

A dificuldade em tornar a indústria de cinema mais inclusiva está no fato de que, até que um filme chegue aos cinemas, desde o roteiro até sua versão final, ele precisa passar pela aprovação de um sem número de pessoas, tornando mais difícil localizar a origem do problema. Não se trata apenas do machismo de diretores, produtores e roteiristas, mas do fato de que são eles os preferidos dos executivos para ocupar esses cargos, de que são os seus filmes a receber recursos e do seu sucesso comprovado nas bilheterias, que lhes garante ainda mais prestígio, só ter sido possível porque, lá atrás, lhes fora concedidas oportunidades que uma mulher negra, ainda que com a mesma formação e capacidade, não teria. É nesse momento em que a visão e a perspectiva dela são apagadas e a deles permanece.

O diretor Spike Lee sugere que Hollywood encontre uma forma de adotar a Regra de Rooney, utilizada pela NFL (Liga Nacional de Futebol Americano, na sigla em inglês), que obriga a Liga a entrevistar minorias para cargos de técnico e gestores dos times. Ele aponta o fato de que não há negros entre as pessoas que decidem o que será produzido ou não.  “Mais do que ter uma pessoa não-branca à frente de um estúdio ou emissora, precisamos estar entre as pessoas que decidem o que será feito e o que não será. A cada mais ou menos quatro meses acontecem essas reuniões nas quais eles se sentam, olham para o orçamento, leem os roteiros, quem está envolvido, e dizem ‘vamos fazer esse filme, mas não vamos fazer aquele’. (…) Não existe uma pessoa não-branca que tenha direito a esse voto [para produções televisivas ou de cinema]”, afirmou ele em seu discurso de agradecimento ao Governors Awards em 2015.

Nos últimos anos, o feminismo e o empoderamento feminino ganharam força no mundo inteiro e Hollywood reagiu a isso com a chegada de “filmes para mulheres” escritos por mulheres que foram verdadeiros sucessos de público e crítica. A Escolha Perfeita (2012), Missão Madrinha de Casamento (2011), Descompensada (2015) e Irmãs (2016) são bons exemplos de histórias que escapam a muitos clichês e trazem protagonistas que, por uma razão ou outra, parecem menos fictícias que as mocinhas clássicas das comédias românticas.

Ainda assim, não é suficiente. Afinal, as protagonistas dos filmes citados, ainda que não sejam necessariamente musas, estão dentro dos padrões do cinema americano, bem como as roteiristas. E um dos romances mais esperados do ano é o filme Como Eu Era Antes de Você, cuja protagonista é uma manic pixie dream girl das mais clássicas:

É bom que a indústria cinematográfica mexa-se rápido para mudar esse cenário, pois já sente os efeitos da feroz concorrência daquela que se tornou sua principal rival: a televisão – ou seria a internet? Estamos vivendo a chamada nova Era de Ouro da televisão, com produções de séries que não devem em nada a filmes de Hollywood ou que, com orçamentos muito mais tímidos, capturam mais espectadores que boa parte dos blockbusters em cartaz. E a Netflix, uma das principais empresas a entrar com o pé na porta na disputa pela audiência, têm feito sucesso com uma fórmula simples: liberdade total de criação para sua diversificada equipe de criadores. Resultado: Master of None, Orange Is The New Black, Sense 8, Narcos – séries absolutamente idolatradas pelo público com negras, mulheres trans*, latinos e indianos entre os personagens principais.

Hollywood também precisa repensar de maneira urgente a percepção de filmes a partir do gênero, algo que tem muito mais sutil e até mesmo imperceptível no mundo das séries, por exemplo. Por mais que, obviamente, todos sejam livres para assistir ao filme que quiserem, essa ideia de “filme de homem” e “filme de mulher” colabora com a manutenção da distinção entre gêneros.

O fato de Star Wars: O Despertar da Força (2016) ter sido protagonizado por uma mulher e um negro foi muito positivo nesse sentido, bem como a presença de Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria (2015): lugar de mulher também é em filmes de ação. Comédias românticas deviam ser filmes para quem gosta de comédia e romance misturados, bem como trazer mais perspectivas masculinas e sexualmente diversas, não sendo taxadas apenas como “filmes pra mulher”. Porque mulheres são apenas pessoas e suas histórias devem ser contadas por elas mesmas e ouvidas por todos.

 


Arte: Sally Nixon e desconhecido

 

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[Situação 1]

A mulher diz: “Deveríamos tentar resolver o bug da forma [insira aqui uma ideia]…”

Ninguém dá bola.

Dois minutos depois:

O homem diz: “E se fizéssmemos [insira aqui a ideia da mulher]?”

Todos respondem: “Ótima ideia! Vamos fazer isso!”

 

[Situação 2]

Colega de trabalho diz: “Você é uma boa programadora, apesar de ser mulher.”

 

[Situação 3]

Recrutador diz: “Obrigado por vir, estamos procurando uma mulher desenvolvedora pois os meninos acham que precisamos “dar uma descontraída”.

 

[Situação 4]

Professor diz: “É bom ter uma mulher na turma de computação. Elas embelezam e perfumam o ambiente. Além do mais, são mais delicadas e atenciosas”.

 

Ser mulher é um desafio imenso. Ser mulher na área de tecnologia traz algumas dificuldades peculiares. Começa com a falta total de incentivo para que as meninas se envolvam com ciência e tecnologia, passa pela hostilidade que as estudantes dos cursos na área da computação encontram nas salas de aula e continua com um ambiente profissional misógino. Alguns números ajudam a entender o quadro atual:

A pesquisa Elephant in the Valley, que retratou o que enfrentam as mulheres no Vale do Silício, também traz números interessantes sobre a realidade das mulheres no maior oásis da tecnologia mundial: 66% das mais de 200 mulheres com mais de 10 anos de experiência no setor disseram já ter se sentindo excluídas de oportunidades por causa de gênero, 88% já enfrentaram situações em que perguntas foram feitas aos seus colegas homens – e não a elas, 60% já foram assediadas e 60% das que foram assediadas e denunciaram, ficaram insatisfeitas com as medidas tomadas.

A PrograMaria, um meta-site sobre mulheres e tecnologia, nasceu da inquietação com dois fatos: a crescente importância da tecnologia em nossas vidas e a falta de de representatividade da mulher na área – no Brasil, as mulheres vêm perdendo representatividade ao longo dos anos.

Muita gente argumenta que os números acima mostram a falta de interesse ou de capacidade das mulheres. Mas é preciso desconstruir a lógica falaciosa do “o cérebro da mulher não é feito para exatas”. Na escola, 74% das meninas demonstram interesse nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, mas na hora de decidir por uma graduação, apenas 0,4% dessas meninas escolhem Ciência da Computação. A pergunta não deve ser “por que devemos incluir as mulheres na tecnologia?” e sim “por que as excluímos?”.

É uma questão simples de igualdade de direitos e oportunidades – quando damos um conjunto de panelas para meninas e bloquinhos de montar para meninos, estamos dando estímulos diferentes, que determinam quais habilidades essas crianças irão desenvolver e, obviamente, isso pode interferir nos caminhos acadêmicos de cada um deles. Recomendo a leitura desta ótima entrevista com o psicólogo americano Andrew Meltzoff, que falou sobre o poder dos estereótipos culturais no aprendizado das crianças. (‘Estereótipo de que ‘matemática é para garotos’ afasta meninas da tecnologia, diz pesquisador”)

A partir de todo esse cenário, decidimos três pilares de atuação para a PrograMaria: inspirar meninas e mulheres a explorar os campos da tecnologia e da programação, fomentar e qualificar o debate sobre a falta de mulheres na área e promover oportunidades de aprendizagem.

Nossa missão é empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia e da programação – e acreditamos nisso por vários motivos:

  1. Faltam profissionais na área. A TI é um mercado em forte desenvolvimento e a demanda por desenvolvedores só irá crescer. Além disso, as empresas já se ligaram que precisam de diversidade no seu quadro de funcionários, afinal, um time diverso produz mais inovação e traz melhores resultados.
  2. As mulheres não precisam necessariamente querer trabalhar como desenvolvedoras para se beneficiarem da programação. Toda empresa hoje precisa de tecnologia. Ter noções básicas do tema facilita o trabalho em equipes multidisciplinares, aumentando a produtividade e melhorando resultados.
  3. Programar é uma ferramenta poderosa de transformação do mundo. Com ela, as mulheres podem dar vida a suas ideias, construir seus projetos e se expressar!

De tanto ouvir que “mulher não dá para exatas”, “mulher não é boa em matemática”, “homens são mais lógicos”, internalizamos essas verdades e passamos a acreditar nelas.

Nos eventos que organizamos e participamos, muitas mulheres contam que simplesmente nunca tentaram aprender porque achavam que programação era muito difícil para elas, que elas não conseguiriam entender e ponto final. Muitas têm ideias incríveis que gostariam de realizar, mas ficam a espera de um amigo desenvolvedor que tope ajudar.

A tecnologia determina a maneira como nos relacionamos, nos comunicamos, consumimos e aprendemos. A sociedade precisa que as mulheres também pensem sobre esses problemas e proponham soluções para eles. Quantas ideias deixam de se tornar projetos, produtos e serviços inovadores por que as mulheres estão à margem da produção de tecnologia?

Em fevereiro a PrograMaria completa um ano. Nesse caminho, encontramos muitas mulheres dispostas e entusiasmadas com a ideia de colaborar. 2016 vai ser um ano muito bom para o tema. Diversos grupos estão surgindo, unindo forças, e se fortalecendo para lutar e promover mudanças!

 

Campanha #SerMulherEmTech

Logo que lançamos nosso site e nossa página no Facebook, começamos a receber diversas mensagens de mulheres que estudavam ou trabalharam no setor, desabafando sobre as dificuldades que enfrentavam diariamente. Situações absurdas como as que você leu no início deste texto. (Tem mais na nossa reportagem especial Mulheres enfrentam preconceito e isolamento em cursos de computacão)

A campanha #SerMulherEmTech foi a maneira que encontramos para dar voz a essas histórias e promover a troca de experiências e de apoio entre essas mulheres. Acreditamos que a informação é o primeiro passo para transformar o que está aí. Queremos abrir espaço para o debate e mostrar que as violências, tão naturalizadas, não devem ser toleradas e precisam ser enfrentadas.


Iana Chan é jornalista e co-fundadora da PrograMaria.

Arte: Alessandra Genualdo

 

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Antes de tudo, esclareço o lugar de que falo, o lugar de Mulher com deficiência e de acadêmica, antropóloga. Desse lugar hibrido é que falo. E falo olhando para a violência que este corpo sofreu, em silêncio, ao longo da história. E do silêncio que foi produzido para que este corpo sofresse ainda mais em silêncio.

Como antropóloga, interessa-me pensar histórica e simbolicamente o corpo da mulher com deficiência e como esse corpo recebeu uma narrativa social, como uma narrativa social foi produzida a respeito desse corpo. Primeiramente, interessa-me o silêncio a que este corpo é imposto. Como foi produzido um silêncio a respeito do corpo da mulher com deficiência e de suas necessidades, especialmente de suas necessidades sexuais e reprodutivas. Um silêncio abusivo, castrador, horrível, aterrorizante.

Pensei em dividir esse bate-papo (quero muito ouvir todas vocês, comentem, escrevam), em três partes: na primeira, vou falar de dados de violência, na segunda vou falar das imagens simbólicas do corpo da mulher com deficiência, ao longo da história na narrativa social judaico cristã (o modelo religioso), e na terceira falar de deficiência e sexualidade.

Comecemos falando de violência. Quando falamos de violência e mulheres com deficiência as pessoas sempre precisam ser recordadas que temos um corpo, inclusive um corpo sexual. A narrativa social construiu um esquecimento acerca do tema, de maneira tão forte, que nosso corpo, esquecido e silenciado, é deixado nas sombras, para que os abusos aconteçam em silêncio. Estou aqui, como mulher com deficiência, disposta a quebrar o silêncio.

Cerca de 10% das mulheres do mundo vivem com uma deficiência, e nos países mais pobres, 75% das pessoas com deficiência são mulheres. No Brasil, de acordo com o Censo de 2010, mais de 25 milhões de mulheres com deficiência e quase um terço das mulheres negras tem uma deficiência.

A violência dirigida às mulheres com deficiência é um problema global. As mulheres com deficiência vivem em condições de maior isolamento social, o que amplia extremamente a possibilidade de violência e abuso. Elas têm menos chances de sucesso educacional, financeiro, profissional e social e isso também dificulta sair da condição de violência e abuso, pois inviabiliza autonomia e contato com redes que poderiam prestar ajuda. Na maioria das vezes o abuso vem de familiares, cuidadores, colegas, e isso torna denúncias um processo muito difícil. Por exemplo eu acompanhei um caso de uma senhora que o único contato com o mundo era o telefone. O cuidador, no caso o marido, desligava o telefone e ela não podia mais falar, nem do abuso que sofria. E quando falava, ela tinha medo, porque “só tinha ele” para cuidar dela.

Mulheres com deficiência sofrem abusos de todos os tipos: sexo forçado com trabalhadores, cuidadores ou outros residentes em instituições, são espancadas, esbofeteadas, ou feridas em crises, sofrem esterilização ou abortos forçados, são trancadas em quartos ou armários sozinhas, são obrigadas a banhos de gelo ou chuveiros frios como punição, são obrigadas a medicação forçada (tranquilizantes), muitas vezes obrigada a ter que se despir ou ficar nua na frente de outras pessoas, como castigo, são amarradas ou colocadas em restrição (contidas).

Numa pesquisa que realizamos em Escolas e Jovens e Adultos, na cidade de Campinas, em 2008, detectamos algumas situações: as mulheres com deficiência, mesmo sendo obrigadas a serem tocadas ou realizarem sexo contra sua vontade não percebem estar sendo abusadas ou violadas, tem grande dificuldade de sair desse processo, mulheres cegas ou com deficiência têm, proporcionalmente, duas vezes mais chances de serem abusadas ou violentadas que as sem deficiências, surdas, cinco vezes mais, e com deficiência mental de oito a nove vezes mais. Muitas famílias retiram as meninas com deficiência das escolas regulares por medo de abuso, mas são abusadas em casa, por funcionários e assistentes.

Na verdade, é preciso criar uma rede de proteção e denúncia estatal específica para a questão, apoio, inclusive de saúde mental para as famílias e medidas penais mais severas para os abusadores. Já encontrei no Facebook uma página, denunciada por mim que falava: estupre uma deficiente mental porque ela não vai saber contar. A gente precisa saber responder: Mas, nós vamos. Todas nós estamos vendo, e vamos fazer um escândalo


Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social (IFCH – UNICAMP), coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Arte: Manjit Thapp

 

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Quando eu tinha 3 anos de idade, minha família foi convidada para a festinha de um ano da minha prima. Há uma divertida fita VHS do evento e, toda vez que assistíamos, minha mãe me contava sobre como eu dei trabalho naquele dia. É que a comemoração ocorreu no salão de festas do play do prédio onde meu tio morava, mas fora daquele ambiente tudo estava escuro e vazio. E eu, sempre que encontrava oportunidade, saía zanzando sozinha a explorar o play inóspito e algum adulto tinha que ir me pegar.

Eu acredito ter alguns flashes de memória dessa ocasião (inclusive de quando descobri o camarim improvisado dos palhaços), mas certeza eu tenho mesmo é de que desde essa época eu já manifestava o gosto por fazer coisas sozinha. Só mais tarde é que entendi que, para muita gente, por incrível que pareça, isso é alguma espécie de defeito em uma mulher.

Ou até de danação. Ficar sozinha depois de certa idade, “para titia”, ainda assombra muitas mulheres pela simples pressão social a que são submetidas por esse motivo. Não importa o quão bem sucedida, feliz ou até mesmo bonita dentro dos padrões vigentes (magra, branca, cabelos lisos, etc) ela seja: se não conseguiu manter um homem ao seu lado, tem alguma coisa de errada com ela. Se tem filhos, nem mãe ela é: é mãe solteira, pois é preciso salientar o fato de que ela está criando o filho sozinha – já o pai, em geral, “tem uma filha de outro relacionamento” quando falam dele, pois ser pai e solteiro não o definem como indivíduo.

Mas o fato de não estar em um relacionamento gera situações em que a única saída possível é fazer algo por si só, ainda que eu nunca tenha dependido particularmente disso para gostar de fazer programas tendo só a mim como companhia. Nem sempre os amigos estão disponíveis também e eu não deixo de fazer o que quero por causa disso. É nesses momentos em que percebo como, em pleno século XXI, o mundo ainda não está totalmente preparado para esse tipo de autonomia feminina.

No início do ano passado, eu decidi que não deixaria para última hora os planos da próxima virada de ano. Rotineiramente, dezembro chegava e eu não fazia ideia de onde ia passar o réveillon. Dessa vez, porém, eu resolvi me organizar e decidi realizar um sonho que nutria há muito tempo: virar o ano em Nova York. Por alguma razão, eu sempre desconfiei que essa seria uma cidade incrível para se estar nesse momento específico do calendário e resolvi tirar a prova (resposta: eu estava certa).

De início, convidei pessoas próximas para me acompanhar, mas ninguém topou. Alguns por falta de grana, outros por medo do frio etc. Apesar disso, eu não ia deixar de fazer a viagem que eu tanto queria só por falta de companhia. Consegui me organizar financeiramente para arcar com os custos sem ter com quem dividí-los e me tornei uma expert na cidade, escolhendo com muito cuidado como gastaria os meus 20 dias e suados dólares (a cada mês mais caros!) que levaria na bagagem.

Depois de ter me decidido, a reação mais comum das pessoas à notícia da minha viagem era, disparado: “Mas você vai sozinha?!”, como se eu estivesse planejando invadir a Rússia no inverno armada apenas com uma faca de passar manteiga. Ir à Nova York está longe de ser uma viagem ousada. Talvez fosse, sim, um grande passo para mim, que não fui o tipo de criança que conheceu a Disney e havia saído do país pela primeira vez no ano anterior. Mas, de toda forma, eu estava falando apenas uma das cidades mais turísticas do mundo, não de ir para a Síria.

Foi necessário certo sangue frio e alguma determinação da minha parte para levar o projeto adiante. Eu sentia como se devesse aos outros os motivos, as razões e os porquês de gastar o meu dinheiro com algo que eu queria fazer. É claro que deixei muita gente no vácuo, mas penso nas mulheres que se deixam levar pela ideia de que não poderiam dar o mesmo passo. Que olham para o mundo como uma peça de museu: você pode admirá-lo, mas jamais poderá colocar as mãos nele, pois não lhe pertence. Somente pessoas autorizadas podem tocar o mundo e mulheres sozinhas não fazem parte desse time.

Não estou falando aqui do aspecto financeiro da questão. Sei bem que, ainda que eu esteja muito longe de ser endinheirada, tive e tenho oportunidades e condições de dedicar boa parte dos meus modestos rendimentos a planos completamente meus. Um número muito grande de mulheres nem mesmo pode sonhar com isso, ainda que tenham o desejo de tomar o mundo com as mãos. Mas o fato é que existem também essas mulheres, e muitas eu conheci ao falar sobre os meus planos, que, ainda que tivessem condições de viajar, não o fariam sozinhas, de jeito nenhum. Por quê?

Pelo mesmo medo que nos faz evitar ruas e avenidas, trocar de roupa e viver sob um toque de recolher informal: o medo do assédio, do abuso, do estupro, da violência contra a mulher. De ataques que homens não sofrem rotineiramente e simplesmente não consideram antes de comprar a passagem. Dependendo do país para onde uma mulher vai, é primordial que ela saiba como é o machismo naquele lugar, que tipo de apuros ela, pelo simples fato de ser mulher, pode passar ao visitar a região. Mulher, estrangeira e sozinha? Presa fácil em quase qualquer lugar. E essa é uma realidade que acomete diversos países.

Ou seja, o nome do nosso carcereiro, mais uma vez, é O Patriarcado. Hoje, de volta ao Brasil após uma viagem muito enriquecedora, sei que a melhor forma de combatê-lo é resistindo aos seus grilhões. Fico pensando nas experiências maravilhosas que eu teria perdido simplesmente por ter medo de viajar sozinha. Se eu me tivesse deixado convencer de que sou dependente, sempre, de outra pessoa, nem que fosse uma outra mulher. Mas sair sozinha? Do país, então? Jamais!

Aprendemos desde muito cedo como devemos agir para nos manter em segurança. Ainda que esse aprendizado não seja justo – são os homens que deviam ser ensinados que o corpo de uma mulher é propriedade dela e somente com o seu consentimento ele tem a liberdade de tecer comentários sobre ele ou tocá-lo. O que quer que passe disso é considerado, para dizer o mínimo, uma inconveniência. E pouco nos importamos com as suas intenções (“Eu só queria elogiar!”).

Mas é nesses momentos que devemos colocar nosso conhecimento em prática. Sabemos muito bem tomar conta de nós mesmas, somos treinadas para isso há anos. E, se mesmo assim sabemos que não há garantia de que estaremos a salvo de sofrer uma violência, não é na hora de viajar que vamos ter medo. Se ser mulher é um risco em quase todo lugar, então vamos explorar o mundo e ao menos ver lugares diferentes. Este artigo da Forbes, escrito por uma mulher que viajou sozinha por Bali durante quatro meses, fala juntamente sobre esse assunto:

“Não estou dizendo para você arrumar a mochila e viajar o mundo como um inocente e ridícula viajante solitária. Aquela que saltita por aí gritando bem alto o número do seu quarto no albergue, que bebe horrores com estranhos nas partes mais perigosas da cidade e anda pelas ruas à noite com fones de ouvido bem alto em ruas escuras. Nada me deixa mais perturbada do que quando essas garotas são atacadas e legiões de pessoas surgem gritando que essas mulheres deveriam fazer, vestir e falar o que elas quisessem.

Em um mundo perfeito, as mulheres deveriam poder fazer tudo isso e muito mais.

Esse mundo perfeito ainda não existe.”

Não vamos aceitar ser tratadas como idiotas, é o que eu quero dizer. Viajar sozinha não é sinônimo de se tornar cega para medidas básicas de segurança – ainda que NADA justifique que sejamos vítimas de qualquer tipo de violência. Não é certo, porém, que a intimidação nos impeça de expandir nossos horizontes. É normal ter medo, sim, temos razão para tal: uma em cada três mulheres já sofreu violência sexual ou física, segundo a ONU. Mas ser mulher, por si só, é viver apesar desse medo. Então vamos viajar apesar dele também.

Eu, eu mesma e Nova York

Apesar de já ter feito muitas viagens de trabalho sozinha, eu não sabia o que me esperava nessa que seria a minha primeira viagem de férias do tipo. Como 2015 foi um ano generoso comigo, ainda tive a oportunidade de ir à cidade antes de dezembro, por quatro dias, para uma conferência. Foi quando comecei a fazer algumas observações sobre como era estar sem mais ninguém naquela cidade, já que, ainda que tivesse compromissos profissionais, estava por minha conta.

Após o primeiro dia de palestras, resolvi ir ao Comedy Cellar, um tradicional clube de stand up comedy novaiorquino, já que eu adoro comédia. Eu fiz reserva com certa antecedência e fiquei feliz de conseguir chegar a tempo. Com o passaporte em mãos para comprovar que tenho idade o suficiente para adentrar o recinto e confirmar meu nome na lista, o segurança da porta me pergunta, com certa condescendência: “É só você?” Sim, sou só eu, reserva para um, obrigada. Ele sorriu com um misto de pena e admiração, como se eu merecesse um prêmio por ter a coragem de fazer algo desacompanhada. Mai um pouco e ele descia as escadas para tirar uma foto minha sozinha na mesa para dois.

Eu me pergunto se ele teria a mesma reação se eu fosse um cara ou se as piadas seriam mais engraçadas se eu soubesse que alguém conhecido as estaria ouvindo comigo. Se uma garota sai para se divertir sozinha e ninguém está lá para fazer-lhe companhia, sua felicidade ainda tem valor?

Quando voltei para lá em dezembro tive bem mais oportunidades de explorar a cidade, é claro. E fazê-lo sozinha foi libertador, divertido e inesquecível, mas em alguns momentos foi impossível não me aborrecer com as limitações que ainda existem para mulheres nessa modalidade de viagem, ainda que eu estivesse lá, em parte, para encará-las de frente.

Certa noite, lá pelas 23h de um domingo, eu estava voltando de metrô para a casa onde fiquei hospedada cheia de fome. Decidi descer na Times Square para comer alguma coisa, pois lá está sempre muito iluminado, tem polícia e onde certamente havia restaurantes abertos. Dito e feito. Depois de comer o que eu queria, fui meio caminhando, meio passeando até a minha estação de metrô. Digam o que quiser, mas aquele lugar é um símbolo da cidade e lá estava eu, sem mais ninguém, com tempo de sobra para apreciar aquela loucura toda. Eu estava bem no meio da praça, olhando para um letreiro, quando um homem se aproximou de mim. Ele parecia ser um cara normal em circunstâncias normais e perguntou se eu era brasileira. Eu disse que sim e ele começou a conversar comigo ali mesmo, em pé no meio de uma Times Square quase deserta (para os padrões normais de lá).

Fui tentando me desvencilhar do assunto quando ele tentou segurar minha mão. Não deixei. Ele insistiu. Tentou me dar o braço, como se fosse meu namorado, e disse que estávamos em um encontro. Eu disse que não, que aquilo não era um encontro, e eu ia embora. Saí andando depressa para o metrô, já com medo de estar sendo seguida. Meu passeio acabou. Depois me dei conta de que ele provavelmente era um desses pick up artists (“artistas da cantada”, homens que possuem técnicas para abordar e conquistar mulheres na rua e em baladas – geralmente sozinhas) tentando a sorte com estrangeiras.

No AirBnb onde fiquei hospedada, descobri que as anfitriãs haviam alugado o quarto ao lado para um cara e simplesmente não avisaram que haveria outro hóspede. Um dia a polícia bateu na porta por causa de uma chamada falsa e eu descobri junto a dois policiais que havia um homem na casa. A partir de então, fiquei preocupada. Sei que há mulheres que não se importam e não têm medo, mas eu havia alugado essa casa justamente por ser de uma mãe e uma filha. Por sorte, eu nunca mais o vi no apartamento e ele foi embora de vez dois dias depois. Na avaliação da hospedagem, perderam uma estrelinha em comunicação.

No geral, eu me sentia muito segura circulando sozinha pela cidade. Mas isso também se deve à minha ignorância em relação à criminalidade por lá. Vira e mexe eu via nos jornais locais notícias de estupro de mulheres em determinados bairros da cidade que eu só frequentei à noite quando acompanhada de amigos que encontrei por lá e, em geral, evitei explorar sozinha, o que é triste.

E foi essa minha falta de conhecimento sobre as regras não ditas da cidade que me surpreendeu quando, numa noite, eu tentava voltar para casa às duas da manhã e só havia homens nas ruas. Acho que vi uma ou duas mulheres em um percurso de quase duas horas em diversas estações de metrô – mas havia muito mais homens, alguns sozinhos, outros em grupos. Senti que não devia estar ali, não naquele horário. Deus sabe como relaxei quando tranquei a porta do apartamento e estava sã e a salvo, ainda que nada demais tenha acontecido no trajeto.

Fora esses incômodos com as amarras do patriarcado, o resto da viagem foi muito bacana. Acho que toda mulher, tendo a oportunidade, deveria fazer uma viagem sozinha, nem que seja só para ver como é. É algo tão simples e tão poderoso. Quem já tem vontade, provavelmente vai amar essa conquista. Quem nunca pensou nisso, pode descobrir que é capaz de muito mais que imagina. E sozinha! Na volta ainda pode se reunir com as amigas para contar causos e comemorar, bem assim como estou fazendo aqui com vocês. 🙂


Arte: Cari Vander Yacht

 

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Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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