olga lulu

olga lulu

Ontem, na mesa do bar, no meio de um papo sobre o Tinder, alguém apresentou o Lulu às mulheres da mesa, o aplicativo que permite que mulheres façam avaliações anônimas de homens – qualquer homem, desde que ele esteja no Facebook, e sem que ele sequer saiba disso – usando hashtags engraçadinhas pra caracterizar defeitos e qualidades e se classificando como amiga, namorada, “já fiquei”, “quero ficar”, entre outros status.

Em resumo, é um app de objetificação do homem pela mulher, o que provocou na minha cabeça uma daquelas discussões que a gente tem consigo mesma (espero que isso aconteça com vocês também), quando é impossível concordar consigo mesma porque você sempre ter argumentos melhores que… você mesma? Bom, tá aqui meu diálogo comigo mesma:

Eu: “O app empodera. Me fez experimentar algo que eu não me lembro de ter sentido antes, um poder curioso, uma sensação de ‘topo de cadeia alimentar’ que era inédita – eu avaliando homens com critérios rasos, rótulos limitantes, colocando eles dentro de etiquetas de maneira superficial só pela piada não é algo que eu tô acostumada a fazer, mas eu me senti relativamente bem fazendo isso.”

Eu também: “É engraçado! É uma brincadeira, né? Não passa de uma brincadeira. Não pode ser levado a sério, nem por mulheres que avaliam homens, nem por homens avaliados.”

Eu, de novo: “Não, péra, é babaca. Isso é babaca. Feministas estariam queimando a Bastilha se isso fosse com mulheres.”

Eu: “Não, péra. É um pouco babaca, mas ainda é uma piada engraçada porque não é sistemática. Se fosse, como é com as mulheres – que são objetificadas o tempo todo, sistematicamente, desde sempre – aí seria uma piada de mau gosto. O peso é outro, é mais leve, porque é só um mecanismo que tenta fazer mulheres conquistarem o que homens já têm: o privilégio de avaliar, rotular, limitar, objetificar mulheres.”

Eu, de novo: “Não, péra de novo. A piada só é engraçada porque não é com você. Um erro não pode justificar o outro!”

Eu também: “Mas não é bom fazer os homens se sentirem por um dia na pele das mulheres? Será que isso não pode fazê-los refletir sobre defender coisas tipo o assédio e a objetificação, porque eles vão sentir na pele?”

E assim eu fiquei, infinitamente. Aliás, diria que ainda estou.

É ingênuo, até meio burro, ignorar o significado do surgimento de um app como esse agora. É um sinal do zeitgeist, de maneira geral. Um aplicativo que coloca, por um dia, o homem no lugar da mulher, só poderia surgir em um momento de profunda discussão dos papéis de gênero e da opressão que os dois gêneros sofrem por conta do machismo enraigado.

Isso não significa que todo revanchismo seja válido. Fazer com que os homens sintam na pele quão doloroso e humilhante é ter alguém, em público, dando uma opinião sobre você que você não pediu, pode de fato fazer com que eles se questionem sobre o assédio e a opressão que, de maneira automática, exercem diariamente sobre as moças, ou só vai fazer todo mundo achar que isso é um caso de NÓS contra ELES?

Nos espaços de discussão nas redes sociais, mulheres berram CALMA, CARAS, VOCÊS ESTÃO LEVANDO ISSO MUITO A SÉRIO, É SÓ UMA BRINCADEIRA!, enquanto homens bradam QUE NOJO, ISSO É UM ABSURDO, SOU MUITO MAIS DO QUE UMA DÚZIA DE HASHTAGS DÃO CONTA, ISSO É OBJETIFICAÇÃO!

Acho que você já leu isso antes, né, mas os papéis costumam ser meio invertidos.

A pergunta final, essa pra todo mundo, faz refletir sobre o mundo em que nós queremos viver no futuro: você quer um feminismo que quer que a mulher tenha todos os direitos do homem, tipo objetificar e assediar caras na rua (ou seja: ser babaca!), ou você quer um que acabe com qualquer objetificação e assédio?

Pessoalmente, eu prefiro o segundo.

E, por fim, aos homens que estão se sentindo indignados de serem expostos, qualidades e defeitos, por mulheres que ele não faz ideia de quem sejam…:

HOW DOES IT FEEL NOW, HUH? Ruim, né? Exatamente.


Ana Freitas é jornalista. Escreve pra revista Galileu, é dona do Olhômetro e usa o Facebook para fazer pesquisas informais sobre sexualidade feminina, postar fotos de papagaios que usam moletom, entre outras coisas.

Compartilhar