Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

a garota do hímen ½ rompido

 

lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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Se eu te dissesse que amanhã você vai receber na sua casa, como visita, uma mulher que virá de longe, sem mala, sem absolutamente nada, quais são as primeiras coisas que você compraria para ela no supermercado? Se algum de vocês incluiu “absorventes íntimos” na sua lista, parabéns, você é mais inteligente do que muitos dos gestores das penitenciárias e demais carceragens femininas do Brasil.

Parece tão óbvia a associação mulher = menstruação que é difícil acreditar que o Estado esqueça de algo tão básico. Mas isso ocorre. Nos quase quatro anos em que pesquiso o sistema carcerário feminino, já ouvi histórias de mulheres que usavam papel higiênico, jornal e até miolo de pão para contornar o problema.

Depois de muita reflexão, cheguei à conclusão de que só há uma explicação para que isso ocorra: as presas acumulam duas características que as tornam socialmente invisíveis.

São elas:

1) cometeram crimes.
2) são mulheres.

Sobre a característica de número um, sinto que não preciso argumentar muito. Se você não acha que “bandido bom é bandido morto” aposto que tem ao menos um amigo que defenda essa máxima. Não tenho ambições de esgotar aqui essa polêmica, que talvez tenha nascido quando o ser humano decidiu se organizar em sociedade. Só deixo uma reflexão: será que esse argumento faz sentido em um país cuja Constituição garante a inerente dignidade da pessoa humana? Além disso, há um doce risco em perseguir esse princípio. Quando entramos em contato com a humanidade de nossos infratores, podemos encontrar, no caminho, a nossa própria humanidade.

Acerca do segundo item, há quem acredite que não faz diferença. Afinal, uma prisão que recebe bem um homem não poderia receber uma mulher com dignidade? A resposta é: de maneira alguma.

Por quê? Cabe lembrar aqui de outras especificidades das mulheres: elas têm câncer de mama, doenças sexualmente transmissíveis que exigem prevenção contínua e específica, engravidam, dão à luz e amamentam. Peraí… amamentam?! Exatamente, meu caro adepto do “bandido bom é bandido morto”, os filhos das presas não cometeram nenhum crime e, assim mesmo, pagam a pena com elas.

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Até pouco tempo atrás, a lei brasileira nem sequer obrigava as penitenciárias a permitir o aleitamento materno. Esses bebês nasciam com suas mães algemadas a macas, eram retirados como um apêndice que estuporou e, sem que as mães pudessem sequer conferir se eles tinham todos os dedos das mãos, eram levados para parentes e instituições. Em 2010, uma lei deu a essas crianças o direito de mamar e usufruir do convívio da mãe por seis meses – mas isso é raramente respeitado.

Não precisa ter muita imaginação (nem sensibilidade) para vislumbrar que tipo de consequências isso pode ter. Uma das mulheres que entrevistei, a quem chamo de Gardênia, deu à luz exatamente como descrevi acima. Só dias após o parto ela pôde conhecer o rosto da filha. Nem o nome da bebê ela escolheu. Virou Ketelyn porque algum parente entendeu que assim combinaria com o nome da outra irmã, Karen. Hoje, essa garota tem 18 anos e uma maneira bem peculiar de adormecer: ela bate a cabeça na parede até mergulhar no sono. Olha que impressionante: as detentas não são apenas “presos que menstruam”. Elas são mães.

Aliás, a maternidade é uma das razões pelas quais elas violam a lei. Explico: a maioria dos crimes cometidos por mulheres, hoje, serviria como complemento de renda em uma família monoparental. São delitos como tráfico de drogas, roubo, furto e outros crimes contra o patrimônio. Há uma tese vigente entre ativistas da área de que, depois que as mulheres assumiram a liderança da casa, elas se sentiram pressionadas a recorrer ao crime como uma maneira de melhorar o nível de vida de seus filhos. Afinal, mulheres ganham menos que os homens no Brasil, principalmente aquelas sem escolaridade.Uma das detentas que conheci, a Cristal, personalizava este caso. Ela havia começado a roubar porque os filhos passavam fome. Com o tempo, convenceu-se de que valia mais a pena sair para dois assaltos no mês e sustentar seus meninos do que gastar 12 horas por dia embrulhando compras no supermercado e vê-los chorar de fome ao fim do mês.

Outro surpreendente atrativo para o crime é o amor. Levantamentos da Pastoral Carcerária mostram que a mulher raramente é a protagonista dos delitos, adota mais o papel de cúmplice. Muitas delas relatam ter se envolvido com a criminalidade por influência de maridos, filhos e namorados. A maioria (que surpresa!) é abandonada pelo parceiro assim que é presa. Por último, quero lembrar das presas que têm não dois, mas três “problemas”. Além de terem o azar de nascerem mulheres e terem optado por desobedecer a lei, há aquelas que incorrem no “defeito” de serem gays. A essas não é dado o direito à visita íntima e, mais, se são pegas em trocas físicas de afeto com suas parceiras, recebem castigos.

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‘Orange is The New Black’ brasileira

O sistema carcerário feminino tem ganhado mais atenção desde o surgimento da série Orange is The New Black, do Netflix. Muitas pessoas têm me perguntado se o que a série mostra tem alguma conexão com a realidade brasileira. Ao que eu, normalmente, respondo: “Se fosse sobre o nosso sistema, seria bem, bem mais obscuro.”

As presas brasileiras têm mais acesso a drogas dentro do sistema carcerário. Elas não dormem naquelas caminhas ajeitadas de concreto com colchões por cima, mas no chão, em muitos casos – e, às vezes, acompanhadas de bebês recém-nascidos. Elas não podem fazer ligações para seus familiares com a facilidade das presas norte-americanas e nem têm tratamento médico da mesma qualidade. Em vez de banheiros sem porta, algumas frequentam banheiros sem descarga.

No lugar de paredes de cores pastel, paredes cobertas de musgo e mofo. Um ambiente escuro em que o preconceito da sociedade brasileira é visível e gritante: há muito mais negras e mulatas do que brancas presas no Brasil. Talvez sua realidade esteja mais próxima das séries de terror, na verdade, algo como uma Brazilian Horror Story. Eu não passei nenhum tempo detida como a autora da série, mas sou filha de uma advogada que ainda acredita em uma ideia ousada: a maneira como tratamos os nossos infratores diz muito mais sobre nós do que sobre eles.


Nana Queiroz se formou em jornalismo pela ECA/USP em 2010. É especialista em Relações Internacionais, com ênfase em direitos humanos, pela UnB. Estudou R.I. também em Nova York e na Finlândia. Trabalhou nas revistas Época, Galileu e Veja e no Jornal Correio Braziliense. Hoje, é editora de cultura do Jornal Metro de Brasília e trabalha no livro Presos que Menstruam, que será lançado pela editora Record no próximo ano.

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Em francês “petit mort” é a expressão utilizada para orgasmo. Ainda que o biquinho da pronúncia francesa deixe tudo mais charmoso, há um quê sombrio ao denominar o auge do prazer sexual “pequena morte”. Pois, é.

Dividindo seu tempo entre Buenos Aires e Nova York a premiada ilustradora argentina Fernanda Cohen, 33, é a autora de Guía Ilustrada del Orgasmo Femenino (Ed. Livros del Zorzal, ainda sem tradução para o português). A ideia do livro, publicado em 2012, foi impulsionada durante um cruzeiro sem grandes emoções com seu ex-marido, mas principalmente por sua percepção em relação às enormes questões, culpas e tabus existentes em relação a sexualidade humana, e principalmente, no que toca ao prazer feminino.

Fernanda Cohen criou “Melba” uma menina-mulher que usa vestido vermelho, cinta-liga e penteado volumoso. Ela encena de um jeito delicado e didático as nuances do prazer feminino ao longo das 110 páginas da publicação. Aliás, a versão francesa do livro foi chamada de Le petit Guide Malicieux du Plasir Féminin (Guia Malicioso do Prazer Feminino). “O Guia da Pequena Morte” ia ficar pesado, né?

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Por e-mail, desde Buenos Aires, ela respondeu a entrevista a seguir:

Foi seu primeiro trabalho com um tema ligado a sexualidade feminina?
Grande parte do meu trabalho tem uma carga de sensualidade. É inerente ao meu estilo. A série autoral El água me moja (“A água me molha”) é onde tal característica ficou mais evidente.

E como surgiu a ideia do livro?
Em parte, surgiu com o despertar natural da minha sexualidade aos meus 20 e poucos anos, e o tédio em um cruzeiro com o meu ex-marido, em 2009, contribuiu. Assim nasceram as primeiras vinte páginas, as quais com a ajuda de Daniel Divinsky (o editor do célebre quadrinho da Mafalda) se extenderam para 110 páginas, ganharam o prólogo do sexólogo Juan Carlos Kusnetzoff e chegaram ao público graças editor Leopoldo Kulesz da Libros del Zorzal.

E por que optou pela abordagem do orgasmo feminino com esse viés mais didático?
Porque é um tema universal e atemporal. A sexualidade humana é algo muito íntimo e intangível. É uma temática que sempre seguirá sendo delicada. Em sua vertente médica é levada a sério demais, e em geral é tratada como brincadeira, vulgarizada. Me intrigava tratar o tema de maneira séria, contudo, com abordagem leve e elegante, na qual algo tão intagível como o orgasmo pudesse ser visto pelo ângulo mais didático possível.

Você fez uma pesquisa científica sobre o orgasmo feminino para escrever o livro?
Trabalhei as minhas próprias noções do tema, que foram validadas pelo prólogo do Dr. Kusnetzoff para que o livro tivesse a informação 100% confiável. Comecei elencando os diferentes tipos de fantasias sexuais que nós mulheres costumamos ter e depois os coloquei em ordem cronológica para que o orgasmo feminino pudesse ser entendido do princípio ao fim.

Como criou a roupa e o penteado da protagonista do livro?
A Melba nasceu espontaneamente nesse cruzeiro que falei antes. Foi institivo, mas se paro para analisá-la creio que quis expressar algo inofensivo: uma menina, mas que por sua vez tivesse a malícia, expressa pela cinta-liga.

Você viveu em Buenos Aires e em Nova York. Consegue comparar a postura das mulheres e dos homens frente ao tema “orgasmo” nas duas sociedades?
Viva onde viva, eu sempre serei uma mulher argentina. Minha percepção diz que a mulher latino-americana, falando de modo geral, está menos estruturada com a sua sexualidade do que a estadounidense. Por outro lado, há uma obsessão pela mulher latina, a qual se vê nos filmes estrelados pela Salma Hayek, por exemplo. E o homem norte-americano, pela minha experiência, é mais tímido que o o argentino.

Como os leitores receberam o trabalho?
Há pouco tempo recebi um e-mail de um suiço que leu a edição francesa do livro e me agradeceu por fazê-lo entender mais a respeito da sexualidade feminina. Ele disse que se perguntou por que ninguém havia contado para ele antes. Assim poderia ter tido outro comportamento com as mulheres. Achei divertido.


Falando no fetiche pela mulher latina, é importante lembrar que os casos feminicídios no continente são persistentes e alarmantes, e o estímulo da tara clichê pela mulher supostamente “caliente” não ajuda em nada.


Laura Artigas é jornalista, roteirista e autora do blog moda pra ler.

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olga malala 02
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Em 2010, quando fazia uma espécie de pós-graduação na Universidade de Nova York, escrevi um trabalho sobre um projeto da Unesco que alfabetizava meninas e mulheres do Paquistão por meio do telefone celular.

Por serem mulheres, elas não tiveram a chance de ir à escola. Não sabiam ler ou escrever. A iniciativa funcionava assim: elas tinham aula com uma professora algumas vezes por mês em uma sala de aula, mas os exercícios eram enviados por mensagens de texto e as garotas precisavam responder também por mensagem para serem avaliadas. Uma ideia interessante, para estimular e facilitar o aprendizado.

Com a ajuda da Unesco, várias das alunas responderam ao questionário preparado por mim. Eu queria somente saber a opinião delas sobre o projeto. As respostas me surpreenderam: uma contava que o marido não aceitava que ela finalmente estava sendo alfabetizada e aquilo foi motivo de briga entre o casal. Outra dizia que vivia mais tranquila, porque finalmente conseguia ler as manchetes dos jornais e os anúncios da televisão. Para uma outra paquistanesa, que era mãe, a alegria estava em finalmente poder ajudar os filhos com os deveres da escola.

Dois anos depois, ficamos sabendo da existência da pequena Malala Yousafzai, de 16 anos. Ela corria risco de morte, após levar um tiro na cabeça, ação do grupo Talebã. O motivo: Malala frequentava a escola e tinha uma opinião sobre a condição dela e de tantas meninas paquistanesas.

Quantas vezes, na infância ou adolescência, reclamamos por ter de fazer a tabuada, estudar para uma prova, fazer lição de casa? Malala quase foi assassinada por buscar esse conhecimento que para muitos de nós parece ser óbvio.

Mas Malala foi forte, sobreviveu. Talvez por conhecer um pouquinho sobre a condição das estudantes do Paquistão, tomei um carinho especial por Malala.

olga malala

Há duas semanas, a vi de perto. Acompanhei sua chegada nas Nações Unidas e a foto oficial com o Secretário-Geral, Ban Ki-moon. Era 12 de julho. Malala fazia 16 anos e era sua primeira aparição pública desde o ataque. Me pareceu humilde e um pouco tímida. Seguiu para a sala do Conselho de Tutela. A reunião era mais que especial: a entrada estava autorizada apenas para centenas de adolescentes do mundo todo, escolhidos para acompanhar de pertinho o discurso da jovem.

Corri para ver ao vivo, da nossa TV interna. Malala começou o discurso quase que pedindo desculpas por não saber muito bem o que as pessoas esperavam da fala dela… E, de repente, aquela menina começou a ganhar força. Sua eloquência, a precisão com que discursava e o tom de suas palavras me arrepiaram.

Malala relembrou o ataque que quase a matou. Disse que naquele momento, morreram nela o medo e a fraqueza, enquanto nasceram a força, a coragem, o poder. Ela explicou que perdoou os talebãs que a atacaram e que deseja que todas as crianças do mundo tenham acesso à escola, inclusive os filhos dos talebãs. Malala lamentou que os extremistas temam o poder dos livros e do ensino, segundo ela, exatamente porque eles não sabem ler ou escrever.

Durante todo o discurso de Malala, de quase 18 minutos, só conseguia pensar em uma coisa: o mundo precisava conhecer Malala Yousafzai. Infelizmente, ficamos sabendo de sua existência após uma ação terrorista. Mas torcemos, rezamos, e Malala sobreviveu.

E ali, na ONU, discursando em público pela primeira vez, Malala mostrou ser mesmo especial. A garota falava como uma mulher e provou já saber lutar pelos seus direitos.

Malala ensinou muita coisa ao mundo naqueles 18 minutos. Ensinou sobre condições de educação no Paquistão, sobre terrorismo, sobre fé, sobre perdão, sobre empoderamento feminino, sobre educação igualitária. Ela é única e por isso, renova a esperança em um futuro melhor para tantas Malalas, espalhadas por esse mundo.

“Numa noite de outubro, em 2012, o Talebã atirou no lado esquerdo da minha testa. Eles atiraram nas minhas amigas também. Eles acharam que a bala iria nos silenciar. Mas eles falharam. E do silêncio deles surgiu milhares de vozes. Os terroristas acreditaram que eles mudariam meus objetivos e brecariam minhas ambições, mas nada mudou em minha vida, com exceção disso: a fraqueza, o medo e a falta de esperança morreram. Força, poder e coragem nasceram.” Veja o discurso completo aqui:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=QRh_30C8l6Y&w=560&h=315]

No dia seguinte ao discurso de Malala, na ONU, o Talebã divulgou uma carta aberta à jovem, explicando o motivo que levou ao atentado: ” Não vou argumentar se foi correto ou não, se você merecia ser morta ou não. Você disse, em seu discurso, que a caneta é mais poderosa do que a espada. E eles te atacaram pela sua ‘espada’ e não por seus livros e a escola”.


Leda Letra é jornalista da Rádio ONU. Seu depoimento é pessoal e não representa a opinião das Nações Unidas.

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olga golden boy

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“Por que você não lutou mais?, diz meu cérebro.
Doía muito, eu respondo. 
Sim. E por que você não lutou mais?
Eu não sei. Isso vai soar loucura, mas… Senti como se fosse um direito dele.” 

No recém-lançado Golden BoyAbigail Tarttelin conta a história de Max, o garoto de ouro da sua cidade. Bonito, atlético, inteligente e gentil, o adolescente guarda um segredo. Ele nasceu intersexual, condição em que a pessoa apresenta genitália ambígua. Aos 16 anos, no entanto, um amigo de infância que sabe a verdade trai sua confiança e o estupra. “A partir daí, Max percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção feminina da intimidação sexual”, diz.

Durante a jornada de Max, a escritora britânica de 25 anos faz um debate profundo e delicado sobre gêneros e como eles moldam nossa visão de mundo – assuntos que também permearam nosso bate-papo. Abby ainda falou sobre assédio nas ruas, a falta de liberdade com que as mulheres têm que lidar diariamente e a “ditadura do pênis”.

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Golden Boy conta a história complexa e dolorida de um adolescente intersexual. Por que decidiu falar sobre um tema tão delicado?

Fiquei mais consciente da intersexualidade e da dificuldade de viver em um corpo sem gênero em um mundo comprometido com a divisão binária de sexos depois de ver o filme argentino XXY, em 2009. Dois anos depois,  li o The Women’s Room, de Marilyn French, durante um verão em Camden [bairro londrino] e me peguei pensando sobre as suposições e expectativas que temos de todas as pessoas – mulheres, homens, transexuais – por causa de seus gêneros.

Um dia, acordei e escrevi um e-mail para mim mesma com uma cena em que Max e Danny [o personagem principal e seu irmão] conversam sobre ter filhos. Rapidamente, a história se formou em minha mente. Conforme pesquisava sobre intersexualidade, percebi que era um tema importante, principalmente no que diz respeito à perda de autonomia das crianças cujos médicos e pais decidem que a cirurgia de redesignação sexual é a solução para seu “problema”.

O livro é bastante informativo, com detalhes sobre a intersexualidade, explicações sobre a condição, cirurgias e outros procedimentos médicos. Como foi seu processo de pesquisa? 

Tive o cuidado de pesquisar o aspecto médico da situação de Max e os tratamentos indicados no Reino Unido naquele momento. As informações foram difíceis de encontrar: elas são muito conflitantes, já que os procedimentos mudaram dramaticamente ao longo dos últimos 15 anos e o apoio à intersexualidade ainda é um movimento em crescimento. No entanto, para o personagem Max, quis ter o mesmo método de construção de identidade que o dos outros personagens, independentemente do gênero, pois não é nosso sexo ou nossos corpos que nos fazem humanos ou passíveis de empatia.

Você disse que, ao escrever Golden Boy, descobriu blogueiros, alguns adolescentes, que estão bravamente subvertendo as velhas ideias de identidade de gênero. Como isso influenciou seu livro? 

Foi a partir da coragem dessas pessoas inspiradoras que tive uma certeza: esse tipo de romance e personagens heroicos são necessários na literatura convencional.

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Simone de Beauvoir disse que “não se nasce mulher, torna-se”. Você concorda? E como isso se aplicaria a Max? 

Pelas minhas experiências, acho que essa frase é verdadeira. Uma das realizações percepções que eu tinha antes de escrever Golden Boy é que eu não acreditava – e ainda não acredito – que os sexos são muito diferentes ao nascer. São nossas vivências no mundo, principalmente aquelas que temos enquanto crescemos, as responsáveis por moldar nossa identidade de gênero. 

Particularmente, os anos de intimidação sexual e passividade forçada, devido a normas sociais e anatomia, que as mulheres vivem é uma experiência completamente diferente da de um homem.  A partir dessa leitura, Max não pode ser descrito como uma mulher “feita”, “moldada”. Mas quando ele é violado por um estupro que resulta em uma gravidez indesejada, ele percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E eu pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção femina da intimidação sexual. A compreensão de que seu corpo é pequeno (se comparado a de um homem) e que ela é incapaz de penetrar e de controlar a fertilidade, muda sua visão de mundo

Você fala sobre como os gêneros moldam nossas personalidades e nossas maneiras de ver o mundo. Uma das perguntas que você se faz, em seu site, é: “no geral, mulheres são menores e mais fracas fisicamente do que os homens. Será que convivendo anos com essa vulnerabilidade nos fez mais cautelosas?”. Você tem uma resposta para isso? 

Fiz essa pergunta já sabendo a resposta porque percebi que minhas amigas era mais cuidadosas do que meus amigos. Por exemplo, tenho um grande amigo que fez um passeio, sozinho, com um nativo do Panamá que carregava um facão de mato, em meio à floresta para fotografar espécies raras de sapos. Parece uma aventura maravilhosa, mas se eu tivesse feito exatamente a mesma coisa, soaria como a decisão mais estúpida que alguém poderia tomar. É com essa falta de liberdade que mulheres têm de lidar diariamente- um fator que muda nossas vidas conforme nos tornamos adultas.

Você, que cresceu em uma cidade pequena da Inglaterra, conta que só foi experienciar assédio nas ruas quando se mudou para Londres. Essas situações de intimidação influenciaram sua personalidade de alguma forma?

Essa é, com certeza, uma das maiores influências na construção de Golden Boy. Quando me mudei para Londres, vinda de uma pequena cidade, vivenciei tanta intimidação sexual nas ruas que fiquei deprimida e não queria sair de casa. Saber que os homens podiam me tratar daquele jeito sem que eu desse qualquer tipo de permissão foi minha primeira experiência com esse tipo de agressão e isso me destruiu. No entanto, eu não compreendia direito esses sentimentos até ler The Women’s Room, já um pouco mais velha. Foi aí que eu entendi que a desigualdade de gêneros não se tratava apenas de leis ou grandes movimentos sociais, mas também de ofensas do dia-a-dia que geram tristeza, raiva e vergonha.

Max, um intersexual que vive como menino, vive um estupro, gravidez não-planejada e aborto – problemas que preocupam as mulheres assim que têm a primeira menstruação. Mas como você acha que a jornada de Max vai ressoar aos ouvidos dos homens? 

Minha expectativa era a de que os homens que lessem o livro tirassem algum insight da história de Max. E fico contente em saber que aqueles que leram o livro, gostaram da história e compreendem as questões ali propostas.

Em entrevista à Interview Magazine, você conta que, ao ser abordada por um menino de 12 que disse “eu quero te comer, moça”, teve uma luz e entendeu do que se tratava a “ditadura do pênis”. Conte um pouco.  

Foi um momento decisivo para a minha compreensão do assédio sexual e da cultura do estupro. Simplesmente porque esse rapazinho tem o equipamento para me intimidar, ele se sente no direito de fazê-lo. E eu entendi que o contrário, responder algo como “não, eu que vou te comer!”, não funciona, pois eu não tenho como! Acho que essa pequena diferença na anatomia humana é a maior e mais importante diferença entre homens e mulheres. Mulheres ganham esse papel de vítima passiva por conta do seu próprio corpo e, os homens, o papel ativo. Claro que não tenho a resposta para essa charada ainda, mas sinto que isso é algo que só pode ser resolvido fazendo escolhas como animais civilizados que vão ampliar a natureza das relações entre nós.

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olga livros

olga livros

Fiquei um tempão pensando em que tipo de recorte eu daria para essa lista, mas no fim resolvi escrever sobre livros que, mesmo de forma indireta, me fizeram pensar no que significa ser mulher. Ironicamente, todos foram escritos por homens, mas acho que isso tem menos a ver com mulheres escritoras do que com as minhas escolhas de leitura – mesmo que inconscientemente.

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Casa de bonecas, Henrik Ibsen

Como tantas outras obras do século 19, esta também é protagonizada por uma heroína meio fútil, em crise com seu casamento, esposa de um marido bem sucedido, com três filhos para criar. Mas, ao contrário das outras obras do século 19, nesta, a protagonista não trai o homem e acaba morta e humilhada. Nesta, Nora decide largar tudo – o marido, a casa, os filhos – para (o horror, o horror!) tentar ser feliz. E traz o seguinte diálogo:

Helmer: Você seria capaz de negar a tal ponto seus deveres mais sagrados?
Nora: E quais são meus deveres mais sagrados, no seu parecer?
Helmer: E sou eu quem precisa dizer isso? Não serão os que você tem para com seu marido e seus filhos?
Nora: Tenho outros tão sagrados como esses.
Helmer: Não tem. Quais poderiam ser?
Nora: Meus deveres para comigo mesma. (…) Creio que antes de mais nada, sou um ser humano tanto quanto você…

E Nora sai para nunca mais voltar. Um ano antes da publicação da peça, em 1878, Ibsen havia escrito que “uma mulher não pode ser ela mesma na sociedade contemporânea. A sociedade é masculina, com leis escritas por homens e com tribunais e juízes que julgam as mulheres a partir de um ponto de vista masculino”. Se você, mulher moderna do século 21, nunca sentiu isso na pele, considere-se sortuda. Fica difícil ser mais atual do que Ibsen.

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A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro

O enredo é famoso: são as memórias sexuais de uma senhora baiana de 68 anos, narrados em forma de conversa. Masturbação, sexo anal, relações com mulheres, estupro (que ela cometeu), incesto (com o irmão dela) y otras cositas más: não há nada que você possa imaginar que essa protagonista não fez – duas vezes. O tema recorrente são as possibilidades da sexualidade feminina: parecem maiores, são mais sutis – são mais buracos, afinal. E ainda traz uma pensata: “não se pode querer ver a afirmação da mulher como uma vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é a nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, (…) O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não broxar, não afrouxar, não pedir penico.” É bom para checar como anda o machismo dentro de cada uma de nós: se você acha que homem não chora, não broxa, tem que pagar a conta no primeiro encontro, além da do motel, e ainda segurar a porta para você entrar, então é triste dizer, mas moças, somos machistas também.

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O poder do mito, Joseph Campbell

O livro é uma longa entrevista com Joseph Campbell, professor de literatura&mitologia&religião americano, conduzido pelo jornalista Bill Moyers. Vida, morte, felicidade, o sentido das coisas: tudo é tratado em suas 295 páginas. Moyers insiste nas perguntas de gênero (por que é a mulher a culpada pelo pecado original? qual é o papel dela nas religiões orientais? por que a reza começa com “pai nosso que está no céu” e não “mãe nossa que esta no céu?”) e Campbell não parece muito preocupado com o assunto, responde tudo rapidamente. Ainda assim, o que ele fala é valioso. Para todas as culturas, das tribos norte-americanas às comunidades indianas, o poder da mulher é o da vida – ela que gera e traz à luz todos os seres vivos, e é responsável também pela fertilidade: a dela mesma e a da Terra. Para os homens, sobram os poderes restantes: a guerra, o sacrifício, a transformação. Mas não a vida. Para nós, mulheres modernas preocupadas com a carreira, os impostos, um mundo melhor, é algo que às vezes esquecemos. Mas que não deveríamos. Poder gerar uma vida é incrível. Não há nada mais feminino – e feminista – do que isso.


Karin Hueck é uma das autoras do blog 3 Livros Sobre e editora da revista Superinteressante, onde resenha mais livros, escreve sobre cultura e edita infográficos.

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