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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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O que acontece quando duas formas de arte se encontram para um inspirado diálogo? O livro Não conheço ninguém que não seja artista, lançado pela Confeitaria, explora essa possibilidade por meio dos trabalhos da fotógrafa Camila Svenson e da escritora Ana Guadalupe. A obra reúne uma coletânea de 20 poemas e 20 fotografias que conversam entre si. O processo criativo foi dividido em duas etapas: com tema livre, Ana escreveu dez poemas, para os quais Camila se inspirou para fazer dez retratos que os ilustrassem; e depois Camila produziu dez retratos, para os quais Ana escreveu dez poemas. O resultado é um conjunto que relaciona palavra e imagem, alternando o ponto de partida: ora a poesia, ora a fotografia.

A Ana estudou letras na Universidade Estadual de Maringá e hoje mora em São Paulo. Seus poemas já foram publicados no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos, em antologias como “Amor; Pequenas Estórias”, “Otra Línea de Fuego”, “101 Poetas Paranaenses” e “Cityscapes”. Em 2011, publicou o livro “Relógio de Pulso”, pela 7Letras.  Fabiane Secches, editora da Confeitaria, conversou com a Ana sobre o projeto, poesia e o mercado literário no Brasil.

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Como começou a sua relação com a poesia?Mexia em livros de poesia que meus pais tinham em casa quando era criança. Depois, na adolescência, tive uma amiga que escrevia e também me influenciou — mas só percebi essa influência recentemente. Comecei a escrever poemas muito ruins aos 13, 14 anos e fui emprestando livros etc. Durante a faculdade de letras, fiz um estágio de dois anos na Biblioteca Municipal de Maringá e foi nessa época que comecei a ler e escrever mais.Como costuma ser o seu processo criativo? Foi diferente para você no livro novo?

Raramente sinto um “chamado da inspiração” ou uma vontade muito forte de escrever, como se tivesse alguma mensagem pra “colocar pra fora” (invejo), mas às vezes penso numa frase e tento desenvolver a ideia depois. Ou me obrigo a fechar o navegador e escrever alguma coisa. Acho que a internet distrai demais. No “Não conheço ninguém que não seja artista”, foi totalmente diferente: tínhamos prazos, a ideia central do diálogo entre fotos e poemas e minha vontade de escrever sobre temas novos. Esse compromisso e as fotos da Camila Svenson, que são muito boas, ajudaram muito.

Que outras mulheres na literatura encorajam ou encorajaram você a seguir esse caminho?

Como inspiração, muitas encorajam. O que mais gosto de ler é poesia contemporânea e, dentro dela, me inspiro/divirto muito com mulheres. Na “vida real”, a Alice Sant’anna é uma das poetas contemporâneas que admiro muito e que me encorajou bastante.Como você vê o cenário literário no Brasil para as mulheres? E na poesia, que é ainda mais nichado?Vejo que são muitas mulheres talentosas, publicando coisas ótimas, e espero que tenham cada vez mais espaço, mas isso é óbvio. Acho que as dificuldades e preconceitos também ajudaram a formar escritoras mais assertivas, e são elas que vejo levantando questões importantes, usando as redes sociais pra falar de feminismo, literatura, sexo, humor e todas as coisas. Na poesia, acho que as mulheres estão ganhando um destaque bem importante, mas ainda existem coleções de editoras com muito mais homens que mulheres, por exemplo. Acho que também tem um obstáculo estranho na ideia de que poesia é um gênero “feminino”, feito de versinhos de amor e carência, e talvez na ilusão de que o homem escreva poesia de um jeito diferente. Não sei se já fizeram um estudo mostrando textos anônimos pra um grupo de pessoas e trocando os gêneros antes da leitura. Sinto que um poema escrito por uma mulher tem mais chances de ganhar comentários como “fofo”, “doce” (a não ser que fuja disso com todas as forças, pra combater mesmo) e alguém sempre vai inventar uma capa ou layout cor de rosa, enquanto o mesmíssimo poema vinculado ao nome de um homem pode ser considerado uma “porrada na alma”, “cortante”, “poderoso”.

Você também é ótima no Twitter. Acha que a limitação dos 140 caracteres ajuda a exercitar a sua habilidade com poesia? Você sente que a plataforma contribui como “aquecimento” ou inspiração para os seus poemas, que passam por temas tão atuais?

Obrigada! Gosto do muito do Twitter e fico feliz que o mecanismo nunca tenha mudado. Acho que escrever em 140 caracteres ajuda, sim, no exercício de anotar umas coisas sem se prolongar e sem cansar quem está lendo. E de se abrir a devaneios desconexos em público, o que é bem absurdo quando a gente para pra pensar. Nesse livro, cheguei a usar alguns tweets como “ponto de partida”.

O tema de seus poemas costuma variar entre o que é atemporal — no livro novo você fala de amor, saudade, esquecimento e morte — e o que é contemporâneo — redes sociais, seguro fiança, reality show. Sempre foi assim pra você?

Sim. Acho esses temas atemporais perigosos, mas os mais contemporâneos também. Tenho medo de escrever demais sobre a internet e a tecnologia e “errar a mão” nisso. Tenho tentado usar qualquer tema que apareça, ~experimentar novas emoções~.

Neste livro você trabalhou principalmente com outras mulheres. Como foi essa experiência pra você?

Foi muito legal principalmente porque nunca fiz nada em equipe e porque o resultado é diferente do que eu imaginaria e do que acho que as pessoas esperam. As fotos da Camila, a edição da Fabi, nossas opiniões e os temas novos que apareceram quando eu estava escrevendo.


Fabiane Secches é editora e diretora criativa da Confeitaria.

Arte: Chris Silas Neal

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Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

a garota do hímen ½ rompido

 

lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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olga fabi secches

Fabi Secches e Flávia Stefani entraram na nossa lista de mulheres inspiradoras de 2013 pelo trabalho à frente da Confeitaria — coletivo literário que já soma mais de 300 textos publicados. Em fevereiro, a dupla fará o lançamento do primeiro livro do grupo, o Amor | Pequenas Estórias. Ao todo, são 40 histórias de amor (“o mais antigo e o mais atual dos temas”, como diz Fabi) com até 800 caracteres. A publicação contou com a participação de mais de 60 pessoas, entre autores, ilustradores e equipe técnica*. Conversamos com Fabi sobre a experiência em comandar tais projetos e o espaço das mulheres no mercado literário.


capa-confeitaria-amor

O que você descobriu sobre amor ao editar o livro?

Tem uma frase da Emily Dickinson de que eu sempre gostei muito, e que escolhemos para colocar na introdução do livro: “Que o amor é tudo é tudo que sabemos do amor”. Acho que comecei e terminei o livro com essa mesma sensação. E talvez parte do encanto do amor seja exatamente esse. De outro lado, a criação do livro em si foi um processo de amor. A generosidade de todos que participaram: autores, ilustradores, equipe técnica, amigos e parceiros. Foi uma experiência e tanto. Na maior parte do tempo, trabalhei ao lado do Thiago Thomé, que é o editor de arte da Confeitaria (e também do livro) — e com quem divido a casa, as minhas (nossas) gatas e a vida. Foram dias difíceis e felizes, cheios de muito trabalho e de desafios, mas sempre superados com amor. Nesse sentido, termino o livro ainda mais inspirada do que quando comecei.

O que podemos aprender sobre as mulheres ao falar de amor?

Eu tenho muito cuidado em fazer qualquer generalização, porque é fácil a gente reforçar estereótipos. Mas acredito sim que mulheres e homens sejam diferentes, e que há (ou pode haver) beleza nessas diferenças. Inclusive ao falar de amor. Geralmente, as mulheres são mais habilidosas com o tema. Vivenciam com mais entrega, de maneira mais inteira. Culturalmente e historicamente, a mulher transita por esse território com mais familiaridade. Mas existem exceções, claro. No livro, temos textos femininos mais ácidos e textos masculinos mais românticos. Acho que o maior aprendizado, para mim, é que a vivência do amor é tão individual que não pode ser determinada pelo gênero.

Por que criar a Confeitaria?

A Confeitaria nasceu de muitas conversas, quando a Flávia e eu sonhávamos em escrever juntas. A gente queria ter um espaço para fazer isso com liberdade, sem preocupação com formatos ou números. Eram poucos os lugares na internet onde podíamos encontrar textos mais autorais e reflexivos. Reunimos um grupo de amigos — alguns já reconhecidos pelo talento com as palavras, outros tesouros escondidos — e começamos. Foi tudo acontecendo de maneira muito natural para a gente. Com o tempo, o coletivo cresceu e hoje somos em mais de 40 autores.

Qual a linha condutora da Confeitaria?

O mais importante para a gente é que seja um espaço onde as pessoas possam escrever e ler textos autorais, com implicação e alma. Nem o formato, nem o tema importam. Publicamos ficção, não-ficção e agora também começaremos a trazer entrevistas com pessoas que admiramos. Queremos continuar nos transformando para trazer conteúdo sempre relevante. O timing da internet está muito ligado à quantidade e à agilidade. Nós preferimos ir um pouco mais devagar e pedir ao leitor que pare um pouquinho e aproveite a leitura, da mesma forma que a gente aproveita cada colherada de uma boa sobremesa.

olga amor

O que você aprendeu sobre você mesma, como mulher, liderando projetos como a Confeitaria e o livro Amor | Pequenas Estórias?

Vou começar relembrando aquela frase incrível da Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher. Torna-se mulher”. A Confeitaria está caminhando para o seu segundo ano de vida e posso dizer que esse foi o período em que mais aprendi sobre mim mesma, especificamente, como mulher. Ter a oportunidade de ler e me aproximar de mulheres fortes e questionadoras como a Flávia, a Clara Averbuck, a Aline Valek, a Juliana Cunha, a Natacha Cortêz, entre tantas outras autoras maravilhosas que temos a alegria de publicar, fez com que eu me interessasse ainda mais sobre o feminismo e todas as questões tão relevantes que o cercam, e me inserir nesse contexto definitivamente.

Você acha que o mercado literário recebe bem as mulheres, sejam elas escritoras, quanto leitoras?

Acho que ainda existe preconceito de gênero também na literatura, seções de “literatura feminina”, como se essa classificação fizesse sentido. De todo modo, percebo uma evolução, conquistada a duras penas, mas também muito consistente. Historicamente, grandes mulheres fizeram parte de momentos divisores da literatura, como Virginia Woolf. Hoje, nomes como Cheryl Strayed, Elizabeth Gilbert, Gillian Flynn e J. K. Rowling estão nas listas dos livros mais vendidos e premiados. Temos Alice Munro, vencedora do prêmio Nobel de literatura no ano passado, aos 82 anos. Temos Malala Yousafzai, que roubou a cena literária recentemente com “Eu sou Malala”, de apenas 16 anos. Temos Fernanda Torres lançando o ótimo romance “Fim” e se relevando uma grande escritora. E muitos outros movimentos interessantes no cenário da literatura nacional. Quero acreditar que estamos caminhando para um novo momento, muito mais justo com as mulheres, e que embora a distância a percorrer ainda seja longa, já demos os primeiros passos.

Na sua opinião, a internet é receptiva com as autoras? 

Sim. Claro que ainda existem ambientes muito hostis. Acho que a internet é um reflexo do mundo e, infelizmente, vivemos em um mundo machista. Mas, de certa forma, as mulheres conquistaram espaços importantes, que têm modificado, pouco a pouco, essa realidade. Como é o caso do blog “Feminismo Pra Quê?”, na Carta Capital, da Clara Averbuck e da Nádia Lapa. Temos vozes expressivas e respeitadas como Roxane Gay, Aline Valek, Gizelli Souza. A lista é grande e já começo fazendo injustiças, ao mencionar apenas algumas. Sei que ainda existe muita ignorância, preconceito e violência, mas com campanhas esclarecedoras (e transformadoras) como o Chega de Fiu Fiu, do Olga, e outras forças somadas, acredito em um futuro melhor para todas nós.


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Amor | Pequenas Estórias

Ficha técnica:
Coordenação editorial: Fabiane Secches
Edição de arte/projeto gráfico: Thiago Thomé
Capa: Arthur Daraujo + Thiago Thomé
Revisão: Thiago Blumenthal
96 páginas.
Impressão off set e colorida.

* Tive a honra de fazer parte deste grupo. A convite de Fabi, dividi a minha história de amor, com toda a dificuldade de uma tímida incorrigível. O texto será acompanhado de uma ilustração da minha fiel escudeira Gabriela Shigihara.  

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olga scifi
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olga scifi

É de se imaginar que pela riqueza de universos dentro da ficção científica, pela capacidade única de inventar futuros e cenários para a raça humana, mesmo que baseados no nosso mundo, que a mulher já estaria em um nível diferente quando o assunto são os personagens. Existem aquelas que são exemplares, que quebraram estereótipos, mas em algumas questões o assunto precisa evoluir.

O gênero tido como libertário para as mulheres por causa de Ellen Ripley, talvez a mais importante de todas as mulheres da ficção científica, também tem seu viés sexista e machista em muitos enredos. Em alguns, as mulheres são meros bibelôs sexualizados que servem de enfeite para os personagens homens, usando roupas decotadas e tendo papéis acessórios nos enredos. Como bem disse a Feminista Cansada (o mesmo vale para o corpo dos homens):

“Não tenho problemas com o corpo feminino sendo sexualizado, contanto que esta não seja a ÚNICA função do corpo feminino.”

Muitas personagens mulheres estão surgindo hoje em dia em posição de destaque, mas ainda assim vejo que em alguns casos as tais superestimadas fraquezas femininas aparecem, enquanto que com os personagens masculinos eles dificilmente são postos em questão. O homem é em geral branco, definitivamente heterossexual e um lutador incansável e indestrutível. Nos mesmos enredos, as mulheres são coadjuvantes, namorada de alguém, uma médica, uma refugiada, que precisa de proteção. Estas fraquezas sempre são levadas ao máximo quando é uma mulher e são poucos os enredos que abordam isso como se deve. O ser humano tem fraquezas, concordo, mas não é só a mulher. A personagem Kiera Cameron, da série de ficção científica Continuum é um bom exemplo.

olga kiera

Ela é forte, lutadora, uma policial valente, que não pensa duas vezes antes de se pôr em perigo, tendo viajado ao passado na tentativa de prender vários terroristas da sua época. Seria a personagem com menos estereótipos da televisão atualmente se não fosse pela saudade do filho e do marido e as cenas de choro na madrugada. Sei que pode parecer polêmico afirmar isso, mas quem disse que é uma obrigação que toda mulher se case e tenha filhos? Você já viu cenas em que os personagens homens caem no choro de saudades da esposa e dos filhos? Difícil lembrar, não é? São várias cenas dela se maquiando, se perfumando, enquanto seu papel como policial às vezes é deixado de lado. Eu sou vaidosa, adoro maquiagem e perfumes, mas não vejo como apenas isso pode me definir como mulher.

Starbuck, ou Kara “Starbuck” Thrace de Battlestar Galactica é talvez um daqueles personagens odiados e amados da ficção científica. Aliás, a série toda quebrou muitos estereótipos em seus personagens marcantes, inclusive mostrando de maneira muito explícita as fraquezas e os demônios pessoais de todos os personagens. Quem não lembra das cenas do coronel Tigh enchendo a cara por causa da esposa? Starbuck é piloto de Viper, bebe e joga constantemente, sexualmente ativa com muitos parceiros e que não tem papas na língua. Desrespeita oficiais, se mete em brigas de bar e não consegue se amarrar a ninguém. Mesmo as personagens menos intensas, como Laura Roslin, a presidente das colônias, tem força, ela sabe se impôr e às vezes é mais polêmica do que o próprio Bill Adama, como quando sugere que a Almirante Caine seja morta

olga kara

Star Trek inovou nos anos 60 ao colocar uma personagem negra e mulher no elenco fixo de sua série clássica. Uma negra, um oriental, um russo, um alienígena, tudo isso faria da ponte da Enterprise um lugar que demonstrasse a união e a igualdade da raça humana num futuro utópico. Não fosse o fato que o capitão é homem, branco, heterossexual garanhão, indestrutível, o cowboy intergaláctico, a expressão máxima do clichê. Com a Nova Geração a coisa melhorou um pouco, já temos Deanna Troi e a Doutora Beverly Crusher, mas o comando ainda fica com os homens, novamente, brancos e heteros. Em Deep Space 9, uma evolução. O comando é dado a um negro (mas hetero, pai solteiro), com várias mulheres fortes ao redor. Mas é somente com Star Trek Voyager que o comando é entregue à uma mulher, Kathryn Janeway. Curiosamente, os fãs fundamentalistas de Star Trek odeiam a Voyager. Janeway é dura, toma decisões polêmicas, se envolve em missões suicidas para salvar os seus, não recusa uma batalha e ainda assim consegue criar um ambiente próximo ao lar dentro da Voyager. Acho que enfim foi uma personagem digna de quebrar estereótipos dentro do clube do Bolinha que é Star Trek.

olga janeway

O sexismo não fica restrito às séries de TV e aos cinemas. Uma postagem do io9 chamada Women Who Pretended to Be Men to Publish Scifi Books (Mulheres que se passam por homens para publicar livros de ficção científica) mostra o quanto o mercado ainda tem preconceito com a produção cultural feita por mulheres. E um caso curioso, mesmo que pertença à ficção especulativa: um livro escrito por Joanne Rowling não pegaria bem, e o editor sugeriu que a autora usasse apenas as iniciais de seu nome no livro. Como Joanne não tem um nome do meio, ela emprestou o nome da mãe, Kathleen, e ficou eternizada como JK Rowling, a criadora do universo Harry Potter. Quando eu conheci os livros do menino bruxo, achava que era um homem escrevendo, justamente pelas iniciais.

A impressão que passa é que mulher só pode escrever livros de auto-ajuda, culinária ou algo parecido com 50 Tons de Cinza. Não vou criticar o gosto literário de ninguém, mas este é um tipo de livro que não me atrai. Stephanie Meyer, criadora da Saga Crepúsculo, também reforça o estereótipo de que mulheres só escrevem romances colegiais. Eu li Crepúsculo apenas para saber se era tão bom como diziam. E não é. Muita gente sabe que eu escrevo e adoro escrever e quando falo que escrevo sobre ficção científica, muitas disparam: “Nossa, que coisa mais de menino, inusitado né?”. Tá, senta lá

Se mulheres precisam se passar por homens para publicar ficção científica ou especulativa, é sinal de que nem tudo são flores na FC se você for mulher. Se for homem, super sexy hot girls do espaço estarão disponíveis para wallpapers em seu computador. Tente fazer o mesmo se for mulher, procurando por homens para a mesma finalidade. O mercado é sustentado em sua grande maioria por homens, mas não quer dizer que não estejamos aí, consumindo esse material.

Seria ótimo ver mais produção feminina na ficção científica. Gostaria de ver alguma editora nacional trazendo Octavia Butler, uma das maiores escritoras de ficção científica, praticamente uma desconhecida aqui. Gostaria de ver o pessoal lendo A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin, gostaria de ver uma ficção científica menos sexista, que pare de mostrar homens guerreiros, indestrutíveis e mulheres frágeis e desprotegidas. Este é um gênero que busca o futuro, e não quero um futuro de estereótipos que nos marquem tão negativamente.


Lady Sybylla é paulistana de coração, geógrafa e professora de profissão. Leitora compulsiva de ficção científica e fantasia, ela é a autora do blog Momentum Saga, onde este post foi originalmente publicado, em dezembro de 2012.  

De lá para cá, Sybylla transformou sua frustração com o universo machista e estereotipado do scifi em ação. Ao lado da escritora Aline Valek  e outros 8 autores, criou a primeira coletânea de ficção científica brasileira, a Universo Desconstruído. “Sempre criticamos como a mulher é retratada no scifi. No entanto, a crítica pela crítica é uma atitude vazia”, diz Aline. “Agora queremos provar ser possível produzir algo que discuta os gêneros de forma mais igualitária.” A antologia pode ser baixada gratuitamente aqui em formato kobo, kindle ou pdf. Quem preferir a versão em papel, pode adquirir via Clube dos Autores (392 páginas, neste momento em promoção, por R$ 29,37).

olga universo desconstruido

A seguir, um bate-papo com Sybylla e Aline sobre a Universo Desconstruído.

A proposta da Universo Desconstruído

Aline: “A ideia é quebrar o barraco mesmo. Fazer bagunça. Criticar obras machistas que desumanizam as mulheres e deixam o scifi sempre com essa cara de ‘mais do mesmo’. Queremos provar que dá para fazer algo que feminista e que não castre os homens. Queremos quebrar todo tipo de estereótipo, seja de mulher, de homem, de gay, de trans… Ninguém tem a representatividade que merece.”

Reação à coletânia

Aline: “Muita gente encarou a coletânea com preconceito. Existe esse medo de ‘estragarmos’ a ficção científica que eles conhecer. Choveu crítica de quem nem ao menos leu os contos. E teve uma crítica também às personagens negra e trans. Disseram que isso ‘estragou’ a obra. Gosto literário é uma coisa, preconceito é outra.”

Sybylla: “Como mulheres, temos que provar que gostamos de scifi. Estamos sempre sendo testadas pelo nosso conhecimento, como se nunca fôssemos fãs verdadeiras. No meu blog, onde falo sobre ficção científica, já cansei de receber comentários como ‘para uma mulher, você até que escreve bem’. E tem o outro lado também, de feministas criticando a obra. No Twitter, uma menina escreveu que a coletânea deslegitimava o movimento. Isso acontece porque ela acredita que scifi é coisa de criança. É uma pena como essa produção de nicho não seja levada a sério. Ou seja, é uma pessoa que não só subestima o gênero como não entende o que é o feminismo.”

Ficção científica e o feminismo

Aline: “Acho que a coletânea e o scifi colocam o feminismo em uma embalagem mais atraente e transformam o movimento em algo mais acessível. Fiquei sabendo de uma menina que deu a coletânea para a irmã mais nova e meio machistinha. E a tal da irmã devorou os contos. O formato de scifi a encantou e assim conseguimos expor os problemas do machismo em um formato palatável para ela. Ficamos muito felizes com essa história.”

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olga golden boy

olga golden boy

“Por que você não lutou mais?, diz meu cérebro.
Doía muito, eu respondo. 
Sim. E por que você não lutou mais?
Eu não sei. Isso vai soar loucura, mas… Senti como se fosse um direito dele.” 

No recém-lançado Golden BoyAbigail Tarttelin conta a história de Max, o garoto de ouro da sua cidade. Bonito, atlético, inteligente e gentil, o adolescente guarda um segredo. Ele nasceu intersexual, condição em que a pessoa apresenta genitália ambígua. Aos 16 anos, no entanto, um amigo de infância que sabe a verdade trai sua confiança e o estupra. “A partir daí, Max percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção feminina da intimidação sexual”, diz.

Durante a jornada de Max, a escritora britânica de 25 anos faz um debate profundo e delicado sobre gêneros e como eles moldam nossa visão de mundo – assuntos que também permearam nosso bate-papo. Abby ainda falou sobre assédio nas ruas, a falta de liberdade com que as mulheres têm que lidar diariamente e a “ditadura do pênis”.

olga abby

Golden Boy conta a história complexa e dolorida de um adolescente intersexual. Por que decidiu falar sobre um tema tão delicado?

Fiquei mais consciente da intersexualidade e da dificuldade de viver em um corpo sem gênero em um mundo comprometido com a divisão binária de sexos depois de ver o filme argentino XXY, em 2009. Dois anos depois,  li o The Women’s Room, de Marilyn French, durante um verão em Camden [bairro londrino] e me peguei pensando sobre as suposições e expectativas que temos de todas as pessoas – mulheres, homens, transexuais – por causa de seus gêneros.

Um dia, acordei e escrevi um e-mail para mim mesma com uma cena em que Max e Danny [o personagem principal e seu irmão] conversam sobre ter filhos. Rapidamente, a história se formou em minha mente. Conforme pesquisava sobre intersexualidade, percebi que era um tema importante, principalmente no que diz respeito à perda de autonomia das crianças cujos médicos e pais decidem que a cirurgia de redesignação sexual é a solução para seu “problema”.

O livro é bastante informativo, com detalhes sobre a intersexualidade, explicações sobre a condição, cirurgias e outros procedimentos médicos. Como foi seu processo de pesquisa? 

Tive o cuidado de pesquisar o aspecto médico da situação de Max e os tratamentos indicados no Reino Unido naquele momento. As informações foram difíceis de encontrar: elas são muito conflitantes, já que os procedimentos mudaram dramaticamente ao longo dos últimos 15 anos e o apoio à intersexualidade ainda é um movimento em crescimento. No entanto, para o personagem Max, quis ter o mesmo método de construção de identidade que o dos outros personagens, independentemente do gênero, pois não é nosso sexo ou nossos corpos que nos fazem humanos ou passíveis de empatia.

Você disse que, ao escrever Golden Boy, descobriu blogueiros, alguns adolescentes, que estão bravamente subvertendo as velhas ideias de identidade de gênero. Como isso influenciou seu livro? 

Foi a partir da coragem dessas pessoas inspiradoras que tive uma certeza: esse tipo de romance e personagens heroicos são necessários na literatura convencional.

olga golden boy livro

Simone de Beauvoir disse que “não se nasce mulher, torna-se”. Você concorda? E como isso se aplicaria a Max? 

Pelas minhas experiências, acho que essa frase é verdadeira. Uma das realizações percepções que eu tinha antes de escrever Golden Boy é que eu não acreditava – e ainda não acredito – que os sexos são muito diferentes ao nascer. São nossas vivências no mundo, principalmente aquelas que temos enquanto crescemos, as responsáveis por moldar nossa identidade de gênero. 

Particularmente, os anos de intimidação sexual e passividade forçada, devido a normas sociais e anatomia, que as mulheres vivem é uma experiência completamente diferente da de um homem.  A partir dessa leitura, Max não pode ser descrito como uma mulher “feita”, “moldada”. Mas quando ele é violado por um estupro que resulta em uma gravidez indesejada, ele percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E eu pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção femina da intimidação sexual. A compreensão de que seu corpo é pequeno (se comparado a de um homem) e que ela é incapaz de penetrar e de controlar a fertilidade, muda sua visão de mundo

Você fala sobre como os gêneros moldam nossas personalidades e nossas maneiras de ver o mundo. Uma das perguntas que você se faz, em seu site, é: “no geral, mulheres são menores e mais fracas fisicamente do que os homens. Será que convivendo anos com essa vulnerabilidade nos fez mais cautelosas?”. Você tem uma resposta para isso? 

Fiz essa pergunta já sabendo a resposta porque percebi que minhas amigas era mais cuidadosas do que meus amigos. Por exemplo, tenho um grande amigo que fez um passeio, sozinho, com um nativo do Panamá que carregava um facão de mato, em meio à floresta para fotografar espécies raras de sapos. Parece uma aventura maravilhosa, mas se eu tivesse feito exatamente a mesma coisa, soaria como a decisão mais estúpida que alguém poderia tomar. É com essa falta de liberdade que mulheres têm de lidar diariamente- um fator que muda nossas vidas conforme nos tornamos adultas.

Você, que cresceu em uma cidade pequena da Inglaterra, conta que só foi experienciar assédio nas ruas quando se mudou para Londres. Essas situações de intimidação influenciaram sua personalidade de alguma forma?

Essa é, com certeza, uma das maiores influências na construção de Golden Boy. Quando me mudei para Londres, vinda de uma pequena cidade, vivenciei tanta intimidação sexual nas ruas que fiquei deprimida e não queria sair de casa. Saber que os homens podiam me tratar daquele jeito sem que eu desse qualquer tipo de permissão foi minha primeira experiência com esse tipo de agressão e isso me destruiu. No entanto, eu não compreendia direito esses sentimentos até ler The Women’s Room, já um pouco mais velha. Foi aí que eu entendi que a desigualdade de gêneros não se tratava apenas de leis ou grandes movimentos sociais, mas também de ofensas do dia-a-dia que geram tristeza, raiva e vergonha.

Max, um intersexual que vive como menino, vive um estupro, gravidez não-planejada e aborto – problemas que preocupam as mulheres assim que têm a primeira menstruação. Mas como você acha que a jornada de Max vai ressoar aos ouvidos dos homens? 

Minha expectativa era a de que os homens que lessem o livro tirassem algum insight da história de Max. E fico contente em saber que aqueles que leram o livro, gostaram da história e compreendem as questões ali propostas.

Em entrevista à Interview Magazine, você conta que, ao ser abordada por um menino de 12 que disse “eu quero te comer, moça”, teve uma luz e entendeu do que se tratava a “ditadura do pênis”. Conte um pouco.  

Foi um momento decisivo para a minha compreensão do assédio sexual e da cultura do estupro. Simplesmente porque esse rapazinho tem o equipamento para me intimidar, ele se sente no direito de fazê-lo. E eu entendi que o contrário, responder algo como “não, eu que vou te comer!”, não funciona, pois eu não tenho como! Acho que essa pequena diferença na anatomia humana é a maior e mais importante diferença entre homens e mulheres. Mulheres ganham esse papel de vítima passiva por conta do seu próprio corpo e, os homens, o papel ativo. Claro que não tenho a resposta para essa charada ainda, mas sinto que isso é algo que só pode ser resolvido fazendo escolhas como animais civilizados que vão ampliar a natureza das relações entre nós.

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