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Quem não teria curiosidade em saber quem foi a mulher considerada “a dama das artes plásticas brasileiras”? E para nos instigar ainda mais, outros fatores de sua biografia que a fizeram/fazem uma mulher inspiradora para todas nós: chegando ao Brasil aos 23 anos, ela não deixou que sua condição de estrangeira a limitasse ou a impedisse de traçar o caminho que desejou; e, recém aos 40 anos, essa “imigrante comum” iniciou-se no mundo das artes plásticas contrariando clichês que, lamentavelmente ainda hoje existem em torno de nós mulheres: de ser estrangeira/imigrante/migrante em um país ou cidade novos e de quase não ter o “direito” de começar uma nova profissão/carreira após os quarenta anos de idade por ser considerada “velha” para o mercado de trabalho. Essa mulher tem um nome: Tomie Ohtake, a artista plástica nipo-brasileira que personificou muitas das reivindicações femininas (ainda atuais) como sua inserção e a conquista de respeito e reconhecimento por seu trabalho num campo laboral antigamente praticamente dominado por homens – é de se lembrar que Tomie Ohtake começou sua produção artística em 1952 em São Paulo. E ela soube conquistar e defender seu espaço e presença nesse ambiente através de suas obras escultóricas gigantestas, com proporções monumentais que desafiam a estaticidade elástica desses corpos, e sua contínua pesquisa com cores e texturas em suas telas, produzidos ainda quando ela cumprira seu centenário de vida.

Tomie Ohtake é/foi uma mulher inspiradora porque combateu com seu trabalho, e em proporções colossais, todos os fatores sociais e culturais que poderiam vir “contra” si e fez isso deixando muito bem marcada sua presença no cotidiano de milhares de brasileiros através de 27 obras públicas espalhadas por algumas cidades brasileiras. Milhões de pessoas passam ou veem diariamente as obras de Tomie, e inclusive as têm incorporada a sua paisagem urbana, sem se darem conta disso. E como não entender essa inserção discreta e definitiva da presença da artista em nosso cotidiano se não como uma forma de resistência permanente e provocativamente silenciosa aos “nãos” que uma cultura conservadora e machista procura nos obrigar a aceitar como regra? As obras de Tomie Ohtake protestam pela excepção a essa regra, à regra da convencionalidade, da estaticidade dos objetos e ordens naturais, do conforto e funcionalidade imediata das coisas ao nosso redor.

Quando um está chegando ou partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (São Paulo), exatamente no meio de um campo ao céu aberto encontra-se instalada uma enorme escultura em forma circular. Porém,  a escultura circular de Tomie Ohtake foge à regra geométrica de uma esfera que esperamos e conhecemos. A sua esfera nos seduz quer por seu vermelho intenso quer por suas dimensões inexatas, desproporcionadas, como se fosse um corpo celular disforme viesse ao nosso encontro, procurando nos atrair, capturar e tragar para dentro de uma dimensão determinada e conhecida somente por Tomie.

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Imagem: Escultura no Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo, 2008.

Essa poderia ser a primeira experiência de um observador distraído com as obras de Tomie Ohtake. Mas, passeando pela capital paulista, mais exatamente pela estação do Metrô Consolação ou passando pela Avenida 23 de maio, nos damos conta que a presença da artista está fortemente demarcada e compõe a paisagem urbana do cotidiano de milhares de pessoas, mesmo que essas não saibam ou ignorem a autoria das obras. O fato é que: Tomie está ali – e de forma colossal e permanente.

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Imagem: Estação do Metrô Consolação (São Paulo), 1991.

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Imagem: Escultura na Avenida 23 de maio (São Paulo), 1988.

Na cidade de Santos, litoral paulista, encontra-se no Parque Municipal Roberto Mário Santini outro exemplo da liberdade de criação da artista que impressiona o visitante pela leveza e movimento das placas metálicas que compõem a obra. Uma vez mais, suas esculturas (consciente e meticulosamente arquitetadas) brincam e põem em questão a massa, o volume, o peso, o tamanho, a forma e a cor das obras que cria. É como se as coisas que criava não tivessem paz – assim como na música homônima de Arnaldo Antunes “As coisas” – pois elas se encontram em um contraditório território de imobilidade elástica, em permanente movimento que, muitas vezes, parece nos buscar, nos envolver para dentro de si entre seus tentáculos.

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Imagem: Escultura no Parque Municipal Roberto Mário Santini (Santos, Estado de São Paulo).

 

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Imagem: Escultura na entrada do teatro do Parque do Ibirapuera, São Paulo, XX

Ao cumprir seu centenário em 2013 e em plena fase de produção, Tomie Ohtake inaugurou três exposições organizadas pelo Instituto Tomie Ohtake (www.institutotomieohtake.org.br), inaugurado em 2000 na capital paulista. Em uma delas, numa galeria de arte desta cidade, cerca de vinte quadros e esculturas inéditos produzidos pela artista entre 2011 e 2012 foram expostos e transmitiam ao observador uma impactante energia e vitalidade criativa da artista. A conhecida leveza e delicadeza de seu gesto e a mobilidade estática de suas esculturas voltaram a ser exibidas, como na obra abaixo (semelhante escultura também pode ser encontrada instalada em frente ao Museu de Arte Contemporânea da Cidade Universitária de São Paulo):

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Imagem: Escultura instalada na Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2013.

Suas telas comportam uma explosão de cores, de texturas, de gestos/pinceladas sobrepostos – resultado de uma constante investigação durante toda sua trajetória artística. Dependendo da proximidade ou da distância frente a suas telas, o observador é brindado com a visão de novas formas, temas e tramas tridimensionais que se mesclam simultanea e harmonicamente. Formas circulares, recorrentes na produção de Tomie Ohtake desde os anos de 1950, reincidiram em seus últimos trabalhos – numa espécie de encerramento do ciclo de um trabalho claramente projetado e investigado durante toda uma vida.

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Imagem: Quadro azul, acrílico sobre tela, 2012.

Assim como suas esculturas são caracterizadas por uma ação gestual linear muito bem marcada, suas telas demonstram uma exploração em limite máximo da potência das cores que cria uma textura particular, lograda através de diversas capas de acrílico sobrepostas. Essa materialidade possibilita a formação de imagens abstratas em permanente movimento, como se, assim como suas esculturas colossais, também buscassem capturar o observador para dentro de si. Novas formas (como círculos, arcos, elipses), novos planos, ondas tridimensionais, em uma organicidade quase selvática, saltam ao olhar do observador a cada nova mirada e somente possível através da potência e das gradações das cores primárias e secundárias.

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Imagem: Quadro verde, acrílico sobre tela, 2012.

Ao largo de sua produção, Tomie Ohtake revelou um permanente e meticuloso compromisso com a busca pelas propriedades cromáticas da veladura, transparência, irradiação e retração, assim como com a particular e harmonica tensão entre o gesto livre, o movimento delicado, a leveza linear e suas impactantes, imponentes e massissas esculturas em dimensões megalomaníacas. Através de suas pinceladas, ora carregadas de tinta ora trabalhadas na transparência, a artista não limitou o uso espacial de suas telas. Ao contrário, ela as utilizou bem mais como metáforas do que “ainda está por vir”, já que oferecem ao observador uma leitura aberta que, a cada nova mirada, descobre novas formas e imagens no emaranhado abstrato fomentado pela potência de suas cores. Através de suas obras, Tomie Ohtake nos inspira porque são uma resposta inconvencional, sensata e sensível às convencionalidades clássicas que estamos acostumados e esperamos de esculturas e pinturas. Como mulher, Tomie segue nos inspirando, ainda que tenha partido no dia 12 de fevereiro, porque concretizou em si a quebra de paradigmas sociais que poderiam tê-la reprimido a realizar seus desejos e projetos; porque sua resposta às convencionalidades sociais foi trabalhada metaforicamente de forma contínua ao largo de mais de sessenta anos de produção e em formatos colossais, para que aqueles que buscam justificá-las ou defendê-las não possam ignorar por completo a delicada, massissa e monumental resistência que essa mulher inseriu em seus cotidianos através de suas esculturas nada convencionais.

 


 

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens exibidas neste artigo foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake (esculturas públicas) e pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara (quadros azul e verde de 2012). A imagem da escultura linear fotografada num espaço interior pertence à autora do texto.

 

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Janete Rocha Pietá, 68 anos, conheceu seu marido, Elói Pietá, na política. Juntos, eles lutaram contra a ditadura e ajudaram a formar o Partido dos Trabalhadores (PT). Certa vez, nos anos 1980, Janete era presidente do PT em Guarulhos e tinha como missão articular o partido e a bancada, enquanto seu marido era vereador. Só que quando outros políticos do partido ligavam para os Pietá para discutir a articulação, poucos procuravam Janete. Mesmo que não fosse a responsabilidade de Elói, eles procuravam o homem da casa para discutir política. Essa história de Janete, além de outras que mostram o preconceito que sofreu por ser, além de mulher, negra, é um pequeno exemplo da tradição política brasileira de segregação. Ainda hoje, mais de 80 anos depois da conquista do voto feminino, as mulheres são minoria nas esferas de poder e impera o pensamento de que elas não pertencem à política. Enquanto isso, as que fazem questão de pertencer enfrentam preconceito, assédio, exclusão dos grupos de decisão e do financiamento de suas campanhas, além de uma inclusão de fachada movida por oportunismo.

Mas por que, mesmo, as mulheres precisam estar no poder? Um motivo é representatividade, importante porque as mulheres são 52% dos eleitores brasileiros, ou 74 milhões de eleitoras que vão eleger um congresso praticamente 90% masculino, com poucas opções de candidatas em relação a candidatos. Em segundo lugar, as brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932, mas este não é o único direito político das mulheres – acesso a cargos políticos também o é.

Em terceiro lugar, ter mais mulheres no poder não significa necessariamente mais propostas  feministas, mas certamente há uma probabilidade maior da situação das brasileiras entrar em pauta. Mas tomemos o exemplo do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para despenalização do aborto, um problema de saúde para cerca de um milhão de mulheres que abortam anualmente no Brasil. O projeto está em votação pública e online no site Vote na Web, e o resultado até o fechamento desta reportagem mostra 57% de aprovação geral, com 71% de aprovação feminina e apenas 40% de aprovação masculina. Se os brasileiros em geral tivessem o poder de decidir através de uma votação online se o aborto deve ser crime ou não, já temos a resposta. Se as mulheres pudessem decidir sobre seu próprio corpo então, nem se fala. No entanto, vivemos em uma democracia representativa, em que nossos representantes decidem as leis por nós. Só que 90% desses representantes são homens brancos, muitos deles empresários. E eles não querem largar o osso.

Internacionalmente, o Brasil é aclamado por ter uma presidente mulher, enquanto tantos países de tradição democrática, como Estados Unidos e França, por exemplo, nunca tiveram uma. Na prática, ter uma presidenta reeleita tem efeitos meramente simbólicos, já que as mulheres são minorias em todas as instâncias políticas, mesmo compondo 51% da população. Na Câmara de Deputados, elas representam 8,8% das cadeiras; no Senado, 9,9%; nas Prefeituras, 12% e nos governos estaduais, 3,7% (na verdade, apenas uma mulher foi eleita dos 27 estados brasileiros). Esses números constrangedores colocam o Brasil em 120º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) que mede o índice de mulheres nos parlamentos, perdendo até para países islâmicos.

Há uma série de fatores para uma participação feminina tão limitada, que vão desde o conceito de que a responsabilidade do lar e dos filhos é da mulher até a falta de investimento financeiro. Mas uma das mais citadas entre especialistas é a resistência dentro dos partidos políticos – absolutamente todos eles. “Nas direções nacionais não temos nenhuma mulher presidente de nenhum partido. Quem decide quem vai ser candidato? Nos últimos anos, as mulheres têm representado 64% das pessoas que se filiam a partidos. O que não há é tradição e cultura de que as mulheres devem ocupar esses espaços. Não basta ser filiada, não basta ser candidata, é preciso estar dentro do poder de decisão”, disse Rose Scalabrin, Secretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, no painel Pequim +20, uma série de debates realizados em 14 de abril deste ano sobre a participação feminina na política 20 anos depois da IV Conferência sobre as Mulheres, realizada na capital chinesa.

 

Filme de terror

Em sua fala, Scalabrin disse que o sistema brasileiro de cotas se mostrou ineficiente nessas últimas duas décadas e que a reforma política, para ser eficaz, precisa englobar os partidos, para que a forma como as decisões são tomadas e os recursos são geridos seja transformada. “Muitas mulheres saem literalmente traumatizadas de uma campanha eleitoral, saem tão fragilizadas que não querem nem saber de partido político. E justamente por estarem em baixíssimos numeros em outros lugares que geram capital politico, como ministérios e secretarias, elas dificilmente têm uma base para começar. Elas têm medo de se envolver nesse jogo do financiamento, as empresas não confiam nelas porque geralmente os caciques que vão resolver as questões e elas não são recomendadas pelos partidos como candidaturas prioritárias”, explica.

Segundo Karina Kufa, advogada especialista em direito eleitoral os partidos dizem que não encontram mulheres com interesse na política. “Em parte, acho que é verdade. Tem mulheres com interesse, outras com medo, receio, falta de interesse. Então é preciso buscar essas mulheres que querem, e essa iniciativa tem que ser dos partidos. Os partidos têm que criar mecanismos para filiar mulheres, apresentar uma plataforma, usar verba do fundo partidário para formar essas mulheres e qualificá-las para a política”, diz Kufa.

Janete Pietá, que está no PT desde sua fundação, sente que a resistência às mulheres tem crescido nos últimos anos. “Eu sou de uma geração que lutou contra a ditadura, que nos anos 1970 fez toda uma movimentação no sentido de buscar nossos próprios caminhos e igualdade de direitos. Eu sinto que hoje existe um conservadorismo muito grande, inclusive no próprio PT, onde existe muita resistência na questão de paridade. Se não mudarmos a concepção de que mulher é um ser de segunda categoria, não adianta. Acho que temos que ampliar as políticas públicas, primeiro mostrar que a responsabilidade do filho não é só da mulher, é do casal. Por que só a mulher leva o filho ao médico? Por que creche só em locais de trabalho em que trabalham mulheres? Temos que avançar muito nas políticas públicas”, afirma a ex-deputada.

Afinal, as cotas de 30% das candidaturas dos partidos para as mulheres, obrigatória segundo uma lei de 1997, dificilmente são preenchidas de maneira honesta. “A saída que os partidos acabaram arranjando: desses 30%, algumas são esposas de candidatos que não têm interesse em se eleger, mas emprestam o nome só para cumprir a cota, outras são conhecidas, funcionários do partido e pior, servidores públicos. Quando vai se candidatar, o servidor pode tirar licença remunerada, então algumas mulheres tiram a licença para se candidatar, mas não se envolve na política, não vai atrás de voto e nem ela mesma vota nela. Esse ponto é preocupante porque isso é uma fraude eleitoral e improbidade administrativa porque você está recebendo dinheiro público sem prestar serviço com a desculpa de que é um benefício que a lei confere”, afirma Kufa.

Aí entra outra cota que foi aprovada com a pressão do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres: 5% do total do fundo dos partidos deve ser investido na formação política da mulher (o pedido inicial era de 30%). Ou seja, esse dinheiro deveria ser investido na capacitação das mulheres que vão compôr os 30% das candidaturas para que a votação nelas seja viável, desde cursos de oratória ou de marketing político, por exemplo. Na prática, isso raramente ocorre, segundo Kufa. “Um partido recebe um valor x de fundo que é do dinheiro público, e 5% do total tem que ser investido em mulher. Vamos supor que um partido tenha 5 mil por mês para gastar com mulher, só que ele não gasta. No ano seguinte, vem a penalidade e ele tem que gastar 7,5 mil para não ter a conta rejeitada. Os partidos estão deixando as contas serem rejeitadas, estão recebendo essa penalidade e ignorando”, afirma.

Ou seja, a política de cotas definitivamente não resolve o problema, com tantos outros obstáculos pela frente. “Você fala com mulheres com nome, credencial referência e pergunta se ela quer ser candidata. Ela fala ‘não quero porque é um filme de terror’. Política de cotas sem condições não leva a nada. Se só está na lei, vemos o resultado, quais são as mulheres nos espaços de poder que discutem a situação das mulheres?”, questiona Muna Zeyn, membro da Rede Feminista e presidente do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres durante o começo dos anos 2000.

 

Pele de rinoceronte

Várias décadas atrás, a antiga primeira-dama dos Estados Unidos disse que “se as mulheres querem estar na política, precisam criar uma pele tão grossa quanto a dos rinocerontes”. Ainda hoje, as mulheres que estão na política sentem a necessidade de se camuflar na pele de rinocerontes, imitando comportamento dos homens – ou aguentando a pressão. Luciana Genro, candidata à presidência em 2014 pelo PSOL, por exemplo, sentiu na pele a jornada tripla de trabalho que a militância política lhe exigiu. “As mulheres ainda são vistas como as maiores responsáveis pelo lar e pelos filhos, o que dificulta muito a participação política da mulher. Não é casual que a maior parte das mulheres que tem algum tipo de sucesso na política têm alguém da família na política porque a nossa cultura é muito machista e é muito difícil o marido aceitar que a mulher saia para uma reunião à noite e ele fica em casa fazendo janta e cuidando dos filhos. É muito difícil conciliar essa tripla jornada, a de trabalho normal que todos têm com a jornada de trabalho doméstico e um terceiro turno da militância política. Isso é um obstáculo muito crítico para as mulheres”, afirma.

A impressão de Genro é sentida por outras políticas também, independentemente do partido político. Mara Gabrilli (PSDB-SP) sente preconceito na Câmara de Deputados, onde atua. “Existe um preconceito muito grande, mesmo na Câmara, com mulheres em cargos de direção. Para mudar isso, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou no mês passado, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição 590/06, que garante a presença de, ao menos, uma mulher nas Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados, do Senado e das comissões de cada Casa. A proposta segue para ser debatida no Senado”, disse.

Para Marcela Trópia,  vice-presidente regional na Juventude do PSDB Minas Gerais, as dificuldades são parecidas com as que as mulheres em geral vivem no mercado de trabalho. “Sua capacidade sempre é questionada, se quer desenvolver algum projeto, só há espaço no segmento de mulheres para que isso ocorra, sua candidatura não terá outra bandeira que não a feminina e a sua presença sempre parece ser lembrada por que falta ‘mulher’ na mesa, em um tom de que falta uma parte bonita na mesa e não de que realmente deveríamos compô-la porque precisamos de representatividade nas decisões”, conta.

É possível entender um pouco melhor os obstáculos das mulheres na política na aba “mulheres do site Meu Congresso Nacional, um site sem fins lucrativos que apresenta dados governamentais em um formato acessível. Ou seja: gráficos. Através deles, vemos que a média de doações totais para candidatos é maior do que para as candidatas, mas a média de doações dos eleitos – de ambos os sexos – é quase igual. “Dado igualdade de financiamento para homens e mulheres, a taxa de eleitos é praticamente a mesma. Mas eu não acredito que o problema principal seja o financiamento de campanha e sim a estrutura da política brasileira, que privilegia a reeleição. Independentemente do gênero, o principal fator para se eleger é ser reeleito”, diz Kellyton Brito, engenheiro de software e criador do Meu Congresso Nacional. De fato, a maioria das deputadas (e dos deputados) eleitas já estavam no Congresso. Mas os homens se reelegem muito mais que as mulheres: quase 60% deles, contra 40% delas.

 

Muitos problemas, poucas soluções

A bancada feminina do Congresso está discutindo meios de colocar a causa da participação política das mulheres na reforma política, segundo Kufa. Se a reforma política vingar e o sistema eleitoral mudar para lista fechada, a movimentação será pela lista com alternância de gênero. Nesse caso, os partidos apresentariam uma lista com ordem de classificação definida internamente com homens e mulheres candidatos para vereadores e deputados estaduais e municipais. Os nomes da lista mais votada seriam eleitos. Há ainda outra proposta, uma reserva de 30% dos cargos em disputa para as mulheres, semelhante ao sistema de cotas das universidades. Ou seja, 70% das vagas é para todos e 30% é só para mulheres, independentemente do número de votos. Isso significa que 30% do Congresso seria representado por mulheres.

Luiz Felipe Miguel, coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades da UnB, vislumbra alternativas interessantes. “Nosso modelo de cotas é muito pouco efetivo, mas isso não quer dizer que podemos abandonar esse modelo. Precisamos aprimorar esse modelo, pensando em propaganda eleitoral, dinheiro para campanha, cotas nas direções partidárias (uma questão complicada porque mexe com autonomia do partido), cotas no poder executivo, na ocupação de primeiro escalão”, disse ele no painel Pequim +20. Miguel lembra que, ao ser eleita, Dilma Rousseff prometeu que um terço dos ministérios seriam chefiados por mulheres, o que não apenas não foi cumprido, como o número de mulheres foi minguando, já que os partidos querem indicar homens, segundo o especialista. De acordo com ele, a capacitação das mulheres não pode ser vista como a grande solução. “Talvez o caminho não seja fazer com que mulheres sejam capazes de mimetizar o comportamento da elite política masculina. É mais interessante se permitir uma mudança do comportamento com novas formas de fazer política”, disse.

Já Karina Kufa acredita no empoderamento como chave para essa mudança, no caso um núcleo de apoio à mulher com um telefone 0800 para dúvidas e atendimento durante a campanha, uma rede além do partido que as oriente sobre como buscar recursos, apresentar plataformas e que explique quais são seus direitos e deveres. “Empoderar as mulheres é o caminho”.

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população”, disse, oito décadas atrás, Bertha Lutz (1894-1976), referência do movimento sufragista brasileiro, uma mulher que lutou pelo direito feminino ao voto. Depois de conquistar o direito ao voto, Lutz se tornou deputada na Câmara Federal e defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e menores de idade – assuntos tão atuais -, propondo a igualdade salarial, uma das várias realidades que não alcançamos ainda hoje. Fingir que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens na política é apenas uma maneira encontrada para negar justiça à metade da população brasileira em pleno século XXI.

 

O que elas têm a dizer

Conheça as experiências com o machismo de sete mulheres que, apesar dele, abraçaram a carreira política.

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“Eu fui num evento no Ministério da Justiça. Sempre que tinha eventos assim, ainda no segundo governo Lula, vamos no credenciamento e os deputados têm reserva, um espaço para eles. Aí a moça estava de cabeça baixa escrevendo e eu disse ‘senhora, eu sou deputada federal’. Ela nem levantou a cabeça e falou ‘vai para outra mesa, autoridades é ali”, aí tudo bem, eu estava indo e ela me olhou e disse ‘mas a senhora é deputada federal?’. Eu falei ‘sou, por que, você tem dúvida?’. Ela disse ‘ah, eu nunca lhe vi’, e eu respondi ‘mas é impossível você conhecer os 513 deputados’. Aí ela olhou e disse ‘ah, tá bom, vai vai vai’. Foi horrível porque muitas vezes os deputados vão com os assessores, eles que pegam o crachá no credenciamento e eu não, fui sozinha e quando eu cheguei lá me deparei com isso. Eu sou a primeira deputada eleita pelo PT assumidamente negra, nunca tive um espaço especial no partido por causa disso. Mas sofri vários tipos de preconceito enquanto mulher negra.

O grande problema do racismo é que quem vive, sente, depois quando você conta, as pessoas falam “não é bem assim”. Quando eu tomei posse como deputada federal, eu não sabia que existia elevadores para os parlamentares e elevador do povo, em janeiro de 2007, cheguei no elevador e a ascensorista falou “esse elevador é para parlamentares, a senhora se dirija ao outro elevador por favor”, de uma forma muito agressiva. Aí tudo bem, fui para o outro lado, era parlamentar nova, não tinha boton. Quando eu voltei, com o Vicentinho, ele disse ‘daqui pra frente, Janete, você deve usar esse elevador’ e era a mesma ascensorista. Então ela me falou ‘me desculpe, é que são ordens’, eu disse ‘tudo bem, mas a forma como você me tratou foi muito rude’.

 

luciana genro

Quando cheguei na assembleia legislativa como deputada aos já aos 24 anos filha de um político conhecido, além de ser mulher e jovem, eu ainda era filha do Tarso. Eu sentia uma desconfiança deles no ar de que ‘essa menina só chegou aqui por causa do pai dela’. Tive que trabalhar dobrado pra provar que eu tinha minha própria trajetória e minhas próprias ideias políticas. Eu também sofri muito preconceito por ter tido divergências políticas com meu pai, muitas pessoas me cobravam ‘como tu vai contra o teu pai?’. Como se fosse um crime a filha ter uma divergência com o pai, como se fosse obrigação de toda filha dizer amém para tudo o que o pai pensa. Hoje não mais, mas até alguns anos atrás eu ainda escutava essa frase, que é bem machista e patriarcal, dizendo que uma filha não pode, em hipótese alguma, ter um pensamento independente.

 

marcela tropia

“Para que você, como mulher, tenha se projetado politicamente, todos pensam que você se envolveu intimamente com algum homem poderoso, que seu pai é um homem poderoso ou que você tem muito dinheiro para isso, não parece haver um motivo óbvio para você estar lidando com política. O meio é majoritariamente masculino e extremamente intimidador. Não consigo ir de vestidos às reuniões, a cada amiga ou conhecida que eu levo para participar, após as reuniões, já começa a receber cantadas virtuais e um assédio enorme se inicia.

Aconteceu comigo quando entrei, bem nova, aos 16 anos e eu acabei namorando alguém de dentro do PSDB, ele hoje é deputado, mas sempre me respeitou nas minhas ambições políticas e até terminamos para que cada um seguisse seu caminho público. Se eu tivesse me envolvido com qualquer outro, talvez a história fosse bem diferente, como vi acontecer com várias amigas. Se você se envolve, é uma ‘puta interesseira’, se você não se envolve é ‘sapatão’ ou ‘mal amada’, “bruxa”. Hoje, já não sei qual minha classificação.”

 

patricia bezerra

“Passei por uma situação na Câmara, logo nas primeiras semanas de trabalho. Eu estava chegando, tudo pra mim era novo e estava tentando lidar com o tal ‘regimento interno’ que dita as regras para o funcionamento das sessões e de todas as atividades da casa. Na ocasião estava sendo votado um projeto do qual eu discordava e sempre vi ser praticado um ‘voto contrário’ no plenário.  Por observação, precedência e legitimidade, ao término da votação fui ao microfone e declarei meu voto contrário àquele projeto. Do chão emergiu um vereador que veio ao microfone e contestou minha atitude dizendo que não era ‘regimental’ o meu pedido e emendou: ‘Aí vem a vereadora aqui e nhen nhen nhen…’ Me arremedou sem nenhuma cerimônia!  Fui ao microfone e disse que não admitiria ser arremedada por quem quer que fosse e que naquele espaço eu era tão vereadora e tão parlamentar quanto ele. Nunca mais fui desrespeitada por ele, ao contrário. Infelizmente, por vezes temos de mostrar os dentes.”


ana amelia

“As mulheres estão muito mais fortes em carreiras de estado, como poder judiciário e polícia federal, profissionais liberais também, medicina, direito, engenharia e as empresárias também, há muitas bem sucedidas. Nas áreas em que ela é cobrada pelo seu desempenho ela está indo muito bem, enquanto na política não, porque ela depende de vários fatores.

Em geral, a dificuldade é de acesso a recurso do partido, o espaço dentro do partido, as condições de tratamento privilegiadas porque ela entra em um lugar onde já está ocupado o espaço, tem o vereador, o cara que é prefeito e quer levar um filho, embora no RS isso não seja muito comum, vão se formando feudos e aí fica mais complicado para a mulher. Partido político tem que insistir muito nesses segmentos.”

 

 

mara gabrilli

“Acho que minha maior dificuldade foi iniciar o debate de um tema (da pessoa com deficiência) que era considerado tabu e muito pouco debatido pelo poder público. Meu trabalho foi dar visibilidade às pessoas com deficiência, à importância da acessibilidade e de uma cidade construída para todos. A partir do momento que esses temas passaram a fazer parte da agenda pública, em todas as suas esferas, comecei a ser respeitada, dentro e fora do partido. Afinal, é um tema suprapartidário, que independe de sexo, e que diz respeito a todos nós.”

 

manuela davila

“Eu comecei a fazer política muito jovem, eu agregava as causas de preconceito no nosso país: questões de juventude, de gênero, questão ideológicas, por ser uma mulher de esquerda. Eu sempre fui uma das poucas que não tinha marido, pai ou alguma figura masculina ligadas à política, que desse aquela respeitabilidade que Brasilia esta acostumada . Então, foi um caminho muito difícil , de provar permanentemente a capacidade, as mulheres tem que provar sua capacidade de maneira repetida, muito mais que os homens. Isso foi fazendo que eu adquirisse cada vez mais consciência da desigualdade de gênero. No ambiente da universidade, do movimento estudantil, esta nunca foi uma pauta central da minha atuação. A realidade foi me impondo uma noção cada vez mais profunda de como a gente vive a desigualdade de gênero no nosso país. E foi isso que foi construindo minha militância nesta área.”

 


Arte: Ester Aarts

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Mulheres-na-arte (1)

Instintivamente e de forma quase cíclica, buscamos sempre fazer uma análise ou uma retrospectiva de acontecimentos e experiências que de alguma forma nos marcaram ou nos ensinaram algo novo ou distinto do que estávamos acostumados. Obedecendo a esse impulso e relembrando as exposições de artes plásticas que vi nos últimos tempos, devo confessar que uma das mais belas que visitei foi a da carioca Cristina Canale (1961) na galeria que a representa em São Paulo.

Não foi somente a potência das cores e a combinação de elementos figurativos, usados para representar seres tal como são percebidos por nosso olhar, com elementos abstratos geométricos, usados como recurso para compor a ambientação entorno de tais seres, que me chamaram a atenção nas pinturas mais recentes (2013-1014) de Cristina Canale. Como também a representação predominante de figuras femininas que caracterizaram sua última mostra individual no Brasil, “Entre o ser e as coisas”,  e cujos quadros foram trazidos especialmente de seu atelier em Berlim – cidade onde reside e produz há mais de vinte anos.

Anjo

Imagem: Anjo, 2004.

Técnica: óleo sobre tela, 200 x 300 cm

 

Cristina Canale, que se firmou no cenário artístico brasileiro juntamente com outros artistas jovens de sua geração (como Leda Catunda, Beatriz Milhares, Adriana Varejão, Daniel Senise ao compor o grupo “Geração 80” cuja proposta era uma nova arte em oposição à racionalidade conceitual das artes plásticas dos anos 1970 no país), encontrou em sua mudança para a capital alemã em 1993 condições perfeitas para a firmação de um estilo singular de pintura que ilustra uma tensão entre o ser e as coisas, entre a cultura e a natureza. Em sua página web (www.cristinacanale.com), podemos observar com muita clareza esse câmbio em sua produção entre os anos de 1980 e 1990. Contudo, a própria artista afirma que em todo o seu fazer artístico sempre teve como carro-chefe o elemento da contradição: a contradição da mescla de elementos abstratos com figurativos e que provoca uma certa tensão, um estranhamento inicial no olhar do observador. Esse estranhamento surge do fato de que o observador não logra classificar as pinturas da artista como arte puramente abstrata nem estritamente figurativa. Com isso, Canale o leva a perder seus estigmas, suas certezas, seu costume de classificar o mundo no campo da subtração, do “isso ou é x ou y”. As obras da artista conduzem o observador ao campo da adição, do “isso é x e também é y”, e, com isso, desestabiliza o que ele considerava essencial e necessário para entender de forma taxativa a arte.

Esse gesto de desestabilizar o que consideramos necessário e essencial para entendermos o mundo ao nosso entorno nos obriga a exercitar (ou despertar) nossa capacidade de readaptação e autocrítica diante de algo inesperado que coloca em xeque-mate aquilo que antes considerávamos como essencial ou como nossa zona de conforto. Nesse aspecto, podemos citar um trecho do romance A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector que combina perfeitamente com essa ideia/necessidade de readaptação/mudança de parâmetros causada pelo surgimento de uma situação nova e surpreendente: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.

Menina e vento

Imagem: Menina e vento, 2013.
Técnica mista, 200 x 200 cm

 

Cristina Canale não somente desarma o “tripé estável” do observador com suas pinturas, como também o conduz a um campo intermediário, um espaço “entre” elementos figurativos femininos e espaços geométricos, entre o mundo inteligível das ideias e o mundo material sensível. Captados pelas potentes e intensas cores da paleta da artista, figuras e rostos femininos em primeiro plano fundem-se sutilmente às formas geométricas no fundo das telas através de uma organicidade simétrica. Com isso, uma delicada e inebriante trama, cuja temática remete diretamente ao universo feminino, encontra-se retratada em enormes quadros onde a potencialidade das cores abriga uma dinâmica e híbrida justaposição entre o figurativo e abstrato, entre o uso de motivos tradicionais da pintura, como retratos de mulheres e anjos, e a fragmentada linguagem pictórica própria de Canale que nos remete a mestres da pintura impressionista como Henri Matisse e Gustav Klimt.

 Damas

Imagem: Damas, 2013.

Técnica: acrílica sobre tela, 140 x 165 cm

 

Na obra acima encontramos um elemento constante na produção dos últimos vinte anos de Cristina Canale: rostos femininos. Porém, esses rostos não estão pintados detalhadamente ao ponto de nos facilitar o reconhecimento da singularidade ou da identidade das mulheres retratadas. As figuras femininas têm rostos aparentemente mal  acabados, como se estivessem recém-esboçados, esfumaçados apenas; mas isso é um ato consciente da artista que prefere que suas mulheres não sejam reconhecidas ou definidas por um aspecto em particular. Essas mulheres levam no lugar do rosto uma espécie de “máscara”, e assim como a palavra “máscara” deu origem ao significado de “persona”, elas passam a representar em si pessoas femininas em sua totalidade.

Sendo assim, não poderíamos interpretar esses rostos propositalmente “não-reconhecíveis” e, aparentemente, sem uma identidade particular como máscaras que comportam de forma universal o retrato de múltiplas mulheres, de todo um gênero? Essas máscaras-rostos não poderiam ser analizadas como retrato do gênero feminino em sua essência e, em uma potência maior, capaz de alcançar e retratar a todas nós simultaneamente e sob uma só forma? E não seria essa a nossa busca atual: que as lutas e as conquistas de todo gênero feminino sejam retratadas e gozadas individualmente por cada mulher e vice-versa?

Segundo a própria artista, sua intenção ao retratar rostos sem traços distintivos seria de permitir que o observador preenchesse as difusas faces com os rostos femininos que preferisse e tivesse em sua mente. Uma vez mais, Cristina Canale tem a habilidade de desestabilizar o olhar de seu observador, de quitar-lhe a terceira perna do tripé estável de seu comodismo ou de sua zona de conformo, e de levá-lo a um espaço intermediário, um espaço entre o que está realmente retratado pela pintura e o que ele, com sua percepção e experiências próprias, enxerga nelas. A artista abala suas certezas através de sua sutil e delicada subversiva tensão entre o figurativo e o abstrato, entre o ser e as coisas.

Medusa

Imagem: Medusa, 2013.

Técnica: óleo sobre tela, 90 x 100 cm

 

 


Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens deste texto foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara.

Para mais informações sobre a artista e suas obras: www.cristinacanale.com

Na página web da Galeria Nara Roesler tanto imagens da exposição “Entre o ser e as coisas” quanto seu catálogo podem ser visualizados:

www.nararoesler.com.br/exhibitions/34/

A citação do romance “A paixão segundo G.H.” provem da edição de 2009 da Editora Rocco, páginas. 9-10.

 

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Seria inevitável trazer qualquer expressão sobre o tema do cabelo sem falar da minha própria experiência de vida.  O interesse pelo alisamento de cabelos crespos foi, na verdade, objeto de minha pesquisa de mestrado e há bons tempos quero compartilhar os saberes que adquiri com mais pessoas, de dentro e fora do mundo acadêmico.

Em setembro de 2009 defendi meu mestrado em antropologia social e cultural na Universidade de Strasbourg, na França, cujo tema é “Alisar seus cabelos em Salvador, Brasil: uma construção pela negação?”. O fato de estar na França me permitiu abraçar um tema de importância vital em minha vida (embora eu não tivesse tanta consciência disto durante o processo) de forma não planejada, pois não era mesmo o que eu tinha em mente. O afastamento geográfico de Salvador, a cidade onde fiz meu trabalho de campo (a minha etnografia), ajudou muito a abordar a temática. Aliás, jamais teria feito algo parecido se estivesse no Brasil. Para entender com mais clareza algo nosso (ou do outro) em certas ocasiões, adquirir distância pode ser muito esclarecedor.

Talvez o mais importante e o que de fato permitiu que eu escrevesse sobre este assunto na caminhada de meu mestrado tenha sido o fato de que tudo me conduzia muito naturalmente a um verdadeiro processo de auto-análise. O querer é essencial, e eu sempre quis ser. Estava totalmente em busca de minha essência mais verdadeira quando ingressei no mestrado, então, não poderia ter sido de outra forma. E não poderia ter sido melhor.

Salvador é minha cidade natal e é o local onde me sinto realmente em casa. Sinto um amor enorme por aquele lugar, de filha mesmo, de onde brota o reconhecimento. Apesar de não morar mais ali há 16 anos, sinto que é meu território, e por isso foi difícil encará-lo de forma mais distante. Foi preciso interrogar o meu já acostumado olhar sobre minha cidade, parte fundamental deste processo de re-conhecimento.

O alisamento começou a fazer parte de minha vida quando eu fiz 15 anos. Comecei a alisar periodicamente meus cachos, como um ritual de passagem para a vida de mocinha. Conto nos dedos hoje em dia quantas pessoas de fato me encorajaram a fazer o inverso. Salvador, “território africano”, é uma cidade bastante complexa, como muitos sabemos. Os movimentos negros e o destaque da trajetória dos povos negros pelo mundo afora puderam dar à cidade uma posição muito específica entre sua privilegiada localização geográfica e as identidades negras. Ela é reconhecida (e autodeclarada) como cidade de encontro e desenvolvimento de diversos povos de origem africana aqui no Brasil.

Depois de certa idade, comecei a perceber a quantidade absurda de mulheres andando pelas ruas, ônibus, shoppings, praias, com cabelos alisados. Questionar o lugar dos cabelos e situá-los dentro de uma sociedade foi indispensável para avançar na pesquisa. E foi para Salvador que eu virei meus olhos, já há alguns anos sem alisar meu cabelo e morando fora. Duas professoras, referências externas, colocaram aquele tema em meu colo. Eu não o escolhi, ele me encontrou.

Decidi validar pelo caminho acadêmico uma problemática social enquanto tal. A intenção não era de buscar qualquer “glamour” e sim de me levar a sério e de ser levada a sério, reforçando o respeito através do qual acredito que esta questão deva ser debatida. É importante mencionar que diversos estudos científicos se propuseram a abordar a história da mestiçagem e negritude brasileiras e que essas análises foram referências fundamentais para a minha pesquisa, mas este não é o objetivo aqui. A proposta é mostrar caminhos que me ajudaram na compreensão da questão e a compartilhar um pouco da construção da beleza no Brasil e de diversas questões que se referem ao cabelo e ao corpo, reforçando hipóteses sobre as motivações de mulheres, negras ou não, que faziam alisamento em seus cabelos crespos e/ ou cacheados.

Escolhi dois salões de beleza situados em dois bairros vizinhos para realizar minha pesquisa: Liberdade e Baixa de Quintas. Liberdade é o bairro com o maior número de população que se declara afrodescendente em Salvador e é também conhecido como o segundo mais populoso (entre 400.000 e 600.000 pessoas). O primeiro salão, onde tive autorização para realizar minha pesquisa, me indicou o segundo estabelecimento, localizado no bairro Baixa de Quintas.

Considerei duas categorias centrais de salão de beleza: os “não-especializados” em cabelos crespos, que realizam todo tipo de tratamento químico para cabelos, alisamentos e diversos cuidados estéticos; e os salões afro, especializados em cabelos crespos e penteados de inspiração africana. Priorizei a pesquisa feita nos dois salões mencionados acima, não-especializados em cabelos crespos.

 

A beleza em construção

Coloquei o corpo como um dos fios condutores de uma análise dos processos histórico e sociológico da formação do povo brasileiro. Em diferentes culturas, significados e comportamentos se inscrevem no corpo. Há muitas formas de se conceber o corpo no Brasil, física e culturalmente. A influência do clima e da geografia contribui para a importância que lhe é dada, em algumas regiões mais que em outras. As praias, assim como os salões de beleza, são locais de construção da beleza corporal. Morar em cidades litorâneas pode reforçar o valor dado à aparência física, bastante reconhecida e valorizada em Salvador.

De acordo com nossa história, é possível constatar que a cor da pele esteve diretamente ligada à ascensão social entre o final do século XIX e o começo do século XX, em especial no período pós-escravidão. A mestiçagem se desenvolveu em paralelo a um ideal de embranquecimento da população brasileira com a adoção de valores da aristocracia européia pelo Brasil, que reforça uma hierarquia social também baseada na cor da pele, no formato do rosto e na textura dos cabelos. Mestiços ganharam, pouco a pouco, uma relativa importância social em detrimento dos negros, que têm a pele mais escura (aqui, faço referência a mestiços como pessoas nascidas da miscigenação entre negros e brancos). Uma verdadeira nova categoria de indivíduos estava sendo estabelecida pelas autoridades brasileiras, e dentro dela os mestiços se aproximavam da “comunidade branca”. É importante ressaltar que a miséria e carência latentes e estruturais da maior parte da população, o concubinato e a concorrência pelo controle da mão-de-obra também estão na origem da mestiçagem na América Latina.

Durante a primeira metade do século XX, a pele mais escura indicava o trabalho duro sob o sol, a pobreza, a insalubridade dos bairros populares e a promiscuidade em locais miseráveis de prostituição. A pele pálida, por sua vez, era sinônimo de prestígio social e evocava conforto, tempo livre e filiação europeia. “A raça branca serve de modelo maior aos preceitos de beleza e saúde”.

Mudar sua aparência através do alisamento dos cabelos era reflexo da valorização da(s) aparência(s) física(s) estabelecida(s) por uma população branca. A contar da época colonial e passando pela instauração destas políticas de branqueamento, a cor da pele é um elemento importante que está na origem de diversas mudanças corporais. O alisamento é uma delas.

Os cabelos crespos foram conhecidos como cabelos “difíceis” por alguns séculos, e ainda o são. Essa é uma opinião bastante conhecida e reproduzida por uma parte importante da população de Salvador (e segue além pelo nosso país). Como “filha” da cidade e dona de uma vasta cabeleira crespa, eu sei bem do “rico” repertório de registro semântico que faz menção a este tipo de cabelo. Cabelos crespos como “ruins” é a forma mais frequente de referenciá-los. Ter cabelos “duros” ou “difíceis” é bastante associado a ter cabelo “ruim”. Percebidos como um problema que precisa de solução dentro do processo histórico, político e cultural brasileiro, o cabelo crespo sempre foi considerado um elemento importante de reforço da negritude e de referência às culturas africanas. Neste processo de desenvolvimento histórico, sobretudo após a abolição da escravatura, atribuir um lugar social ao negro ainda constitui uma questão de luta e debates intensos.

Neste sentido, é bastante importante trazer para cá mais deste registro semântico. Cabelos crespos podem também ser “rebeldes” e “amansá-los” é uma solução. O uso destas palavras pode ser bastante revelador de uma relação entre natureza e cultura. O cuidado exigido pelos cabelos crespos seria algo complicado para seguir no domínio das práticas humanas. É preciso, então, domesticá-los. Muitos estudos sobre a natureza e sua apreensão pelas sociedades mostram que o homem enquanto indivíduo tem a tendência a controlar aquilo que considera “contratempos” naturais e as determinações do instinto. Em sociedades mais tradicionais, a tendência é de se reconhecer como parte de um conjunto mais vasto que não necessariamente deve controlar o ecossistema dentro do qual se está inserido, e que discriminações entre humanos e não-humanos é algo muito mais raro.[6] Neste caso, se a referência aos cabelos crespos repousa em visões que o aproximam do conceito de domesticação, eles se tornam objeto de discriminação social, colocados do lado da “natureza”. É preciso que obedeçam a um modelo de beleza adequado à essa sociedade.

Cabelos bem cuidados ou arrumados não carregam necessariamente em si um peso pejorativo. Cabelos arrumados possuem aspecto agradável e são aprovados pela maioria das pessoas. Entretanto, a palavra pode ser imbuída de negatividade: para muitas mulheres, cabelos lisos são mais arrumados do que cabelos cacheados ou crespos, o que justifica o alisamento. Em muitos casos, “arrumado” é adjetivo para o cabelo liso. Os cuidados do universo do alisamento seriam uma forma de domesticar e adaptar ao mundo moderno a parte ameaçadora da natureza.

As técnicas empregadas para o alisamento e cuidados corporais são verdadeiras fontes de análise. Marcel Maus0, antropólogo francês, dizia que o corpo é construído culturalmente e que seus atos são formados pela autoridade social: “é graças à sociedade que há uma intervenção da consciência”.As técnicas corporais, carregadas de sentidos, são transmitidas entre diferentes gerações e culturas, permitindo localizar e identificar grupos no tempo e no espaço.

Pouco a pouco, a técnica torna-se subordinada às indústrias e ao poder econômico, influenciando a indústria da beleza. O saber técnico do alisamento desenvolveu-se de acordo com a história da construção do corpo e de seus padrões de beleza no país e novas necessidades em matéria de alisamento foram criadas.

Decidi dividir as técnicas de alisamento em duas: técnicas químicas e não-químicas. A ideia não é entrar no detalhe de cada uma, mas enumerá-las para ilustrar sua importância na sociedade.

As técnicas de alisamento químicas encontradas foram:

  1. Alisamento por hidróxido de sódio;
  2. Alisamento por guanidina;
  3. Uso de amônia;
  4. Escova progressiva ou definitiva;
  5. Retoque;
  6. Formol (proibido no Brasil desde 2005).

Dentre as técnicas de alisamento não-químicas, destaquei as seguintes:

  1. Escova;
  2. Chapinha;
  3. Bóbis;
  4. Meias colantes bastante aderentes (para pés ou pernas);
  5. Ferro de passar.

O alisamento por químicas supõe que o cabelo esteja sujo antes e durante a aplicação para proteção do couro cabeludo. Muitas mulheres também reforçam essa proteção usando cremes hidratantes na base dos cabelos. A sujeira associada ao alisamento é um ponto bastante importante aqui. Apesar de encarada como um passo natural dentro do processo de alisamento, a relação com a sujeira se estabelece no dia-a-dia dessas mulheres de uma forma específica.

Ainda em relação a sujeira, os cabelos não são lavados com a mesma frequência de antes quando se faz frequentemente a escova e a chapinha para a manutenção do liso. O cabelo crespo é frequentemente associado ao sujo no discurso de muitas mulheres (apesar de o cabelo alisado agregar de fato esta característica, e não o cabelo crespo). O uso de cremes hidratantes é bastante associado à manutenção do crespo e isso causa a impressão de cabelos úmidos por mais tempo, que acumulam resíduos e são consequentemente percebidos como sujos. A questão, aqui, é de manter os cabelos úmidos ou excessivamente hidratados com a intenção de deixá-los com menos volume ou com os cachos mais definidos. Mulheres que mantêm seus cabelos crespos mais naturais (com um estilo black power por exemplo) não enfrentam esse tipo de problema. Novamente, a autoestima de assumi-los como são está no centro da questão.

O efeito do alisamento obtido pelas técnicas não químicas é bem mais rápido e com resultados considerados mais eficazes. As técnicas químicas tratam os cabelos através do tempo: quanto mais produtos químicos forem aplicados, sempre respeitando uma frequência e disciplina, mais o couro cabeludo desenvolverá raízes lisas. Combinar técnicas, portanto, é bastante freqüente para muitas e a melhor forma de manter os cabelos sempre lisos.

O alisamento requer um grande esforço para a obtenção do resultado desejado. É preciso ter tempo (para a aplicação de produtos químicos o processo pode durar até 2h30) e fazer concessões do tipo “não ir sempre à praia” ou à piscina (relembro que estamos falando de Salvador), estar mais atenta à sua transpiração (sobretudo mulheres que transpiram em excesso), abdicar de reuniões ou festas caso “o cabelo não esteja bem alisado”, levar em conta as condições meteorológicas (chuva, calor excessivo), concordar com o fato de que a prática do alisamento vai estragar (muito) os cabelos ao longo dos meses e anos… estes fatores parecem implicar, efetivamente, em uma “domesticação” do próprio corpo e dos hábitos para se chegar à uma nova aparência. Nestes casos, é esclarecedor o que disse Neusa Santos Souza sobre o reconhecimento do negro no Brasil: “o negro só pode ser reconhecido socialmente à medida que ele esquece sua identidade”.

 

Contraponto

Cabe aqui um pouquinho de outra relação com os cabelos crespos, apesar de não constituir o objeto principal deste texto. Para muitas mulheres, preservar seus cabelos crespos é motivo de orgulho e autoestima. Ao lado do bairro da Liberdade encontra-se o bairro do Curuzu, onde se localiza a sede do Ilê Aiyê, uma das mais importantes associações carnavalescas e culturais em Salvador pela valorização das culturas negras. O trabalho do Ilê Aiyê é bastante permeado pela importância da reivindicação de uma identidade negra ou afro-brasileira, de se assumir negro em uma sociedade que se constituiu de forma discriminatória em relação a essas populações. Reivindicar-se negro pode evidenciar o corpo através de roupas, acessórios e penteados de inspiração africana. Trazer em si mesmo elementos que se referem às culturas africanas reforça o vínculo com essas culturas.

É importante relembrar do caráter político das lutas contra o racismo a partir dos anos 1960 nos Estados Unidos. Estas lutas se impunham em relação a qualquer ideia de moda que negros que foram referência na militância política, artes e cultura ajudaram a colocar em evidência (Rosa Parks, Angela Davis, Jimi Hendrix, entre outros). Nos EUA, como aqui no Brasil, movimentos negros nasceram e ganharam força a partir deste momento (o Ilê Aiyê é um exemplo, fundado em 1979). Elementos da negritude podem ser considerados como parte da moda atual e isso sem dúvida reforça uma determinada aceitação e admiração social. Porém, assumir seus cabelos crespos é assumir a si mesmo e assumir invariavelmente todo o esforço feito por homens e mulheres que militaram pelos direitos dos negros e sofreram forte discriminação.

A indústria estética, em paralelo, também considera as mudanças culturais das sociedades e desenvolve produtos para a manutenção dos cabelos crespos. Alguns penteados, como tranças, são um meio de garantir respeito por seu próprio corpo e seus cabelos crespos. É uma forma de assumi-los e protegê-los sem agredi-los. O mesmo vale para o penteado black power, no qual os cabelos são usados soltos e têm a parte superior cheia, dando um formato redondo ao contorno dos cabelos acima da cabeça. Este é um penteado que começou a se dissociar da pele negra com o advento dos movimentos negros nos EUA e no Brasil, seguidos de uma evolução posterior do estatuto do negro nestes países.

 

Mudando sua aparência: causas e consequências

Os cabelos são considerados em diversas culturas como elementos marcantes da construção da beleza feminina. Eles permitem caracterizar visualmente e muito rapidamente a mulher. Definido por muitos como “a moldura do rosto”, o cabelo pode dar informações sobre as origens, pertencimento a grupos sociais e hábitos de uma pessoa, aproximando ou afastando indivíduos enquanto elementos de identidade corporal. Eles possuem uma grande capacidade de expressão simbólica vinculados a um contexto sociocultural.[11]

A mulher pode e deve decidir o que transmitir para o outro enquanto características de sua aparência física. Ela pode ansiar por uma maior aceitação social, procurando outra posição também através de sua aparência. Todos nós, mulheres e homens, estamos sujeitos a isso e o fazemos continuamente. Em Salvador, cidade onde a maioria da população se autodeclara negra ou afrodescendente, é mesmo impressionante a preponderância de mulheres com cabelos alisados. Este contínuo processo de alisamento contribui para a percepção do cabelo liso como bastante natural. Alisar os cabelos é percebido como uma forma de se colocar “em pé de igualdade” com mulheres que possuem cabelos lisos naturais. Trata-se de adaptar a aparência física para facilitar sua entrada e permanência em uma sociedade ou grupo.

Este ponto me parece de importância vital, pois me foi colocado em diversas situações onde o assunto era trabalho e empregabilidade. A vantagem do cabelo liso é o fato de que ali ele já é socialmente aceito, enquanto o cabelo crespo, em desvantagem, causa constrangimento a muitas mulheres que se veem compelidas – ou são solicitadas – a alisarem sem cabelos, tornando este processo parte de suas obrigações profissionais. Ouvi mulheres dizendo que os cabelos crespos possuem uma “aparência agressiva”, o que as impede de conquistar posições profissionais. Uma das motivações que leva a mulher a alisar seu cabelo, portanto, passa pelo acesso ao emprego e conquista de melhores posições profissionais.

Dentre outras motivações, há uma questão extremamente relevante em relação ao alisamento: a liberdade feminina. Para além do racismo estrutural brasileiro, é importante considerar a trajetória feminina dentro dos direitos cívicos e morais no Brasil. É necessário levar em conta que, durante séculos, mulheres negras e mestiças foram discriminadas de diversas formas e que ao longo desta trajetória também foram forçadas ou estimuladas a alisarem seus cabelos (a princípio, com o ferro de passar). Relembro que a formação de toda sociedade se reflete no presente e que, hoje, o alisamento vai além da questão da não-aceitação. Ele é também um processo estético acessível que pode ser feito pela decisão da própria mulher, a qualquer momento, e que a depender da técnica empregada, ele pode ser rapidamente desfeito. Muitas mulheres negras que têm uma forte consciência de sua importância social e política, no Brasil e nos EUA, acreditam e defendem o discurso de que a valorização do esforço individual é muito mais importante do que a aparência física em si, o que tira o peso do processo de alisamento.

Considerando estas inúmeras influências sobre a vida e aparência física da mulher de hoje, o que ela procura, finalmente? O alisamento pode se inscrever em duas dinâmicas diferentes: uma associada às influências que valorizam, primordialmente, a figura da mulher branca e suas características físicas e, portanto, ligada a princípios racistas. A mulher estaria influenciada por um ideal de aproximação de outra aparência física, a da mulher branca com cabelos lisos.

A outra dinâmica seria da ordem da escolha e da possibilidade de mudar sua aparência física com freqüência, o que também tem influência da moda. A mulher sempre teve a intenção de fazer-se remarcar de alguma forma, independente das barreiras culturais de sua época. Essa dinâmica é mais vinculada a um sinal de liberdade da mulher e doravante mais viável através da emancipação feminina a partir dos anos 1960.

Mas, é necessário se perguntar se a dinâmica do alisamento se inscreve sempre em uma ou outra das alternativas descritas acima. O fato é que existem limites bastante sutis em cada uma das nossas escolhas. Como definir escolhas feitas sob a influência de questões tão naturalmente complexas?

Podemos levar em conta que a maioria das decisões feitas em relação ao alisamento (e também a outras práticas estéticas) acontece dentro dos salões de beleza. As mídias exercem uma poderosa influência neste caso (programas de TV, revistas, cartazes), mas também o desejo de pertencer a um grupo social, como já foi pontuado aqui. Como contraponto, algumas mulheres negras afirmaram ter parado com o alisamento porque foram convencidas de que era preciso estar visualmente inscritas no que se entende como “ser negro”.

A opinião masculina também é um fator de muito peso. Diversas mulheres manifestaram esse ponto como uma preocupação, considerando a importância de agradá-los, parceiros fixos e potenciais. Muitas mulheres consideram que um parceiro sexual (em geral de pele mais branca) pode valorizar cabelos “mais leves” (através dos quais é mais fácil deslizar os dedos)…

Por fim, a própria competição entre mulheres é sem dúvida a considerar. Muitas de nós nos produzimos para um alguém que reside na figura de outra mulher. O seu eu feminino não está necessariamente sempre em você: em diversos casos, muitas de nós colocamo-lo fora de nós mesmas.

Gomes diz que se “o cabelo crespo é imediatamente associado ao corpo do Negro […], alguns Negros poderão interiorizar a ideia de que, desde que a gente muda a textura crespa do cabelo eles chegarão, de maneira simbólica, a embranquecer seus corpos, logo, a ‘se embranquecerem’. A força dessa mensagem é grande a ponto de ‘contaminar’ e confundir nosso próprio olhar, desviando nossa atenção de questões que foram construídas dentro do contexto da cultura e das relações de poder, no plano físico e corporal”.

Mudar sua aparência através do alisamento pode ser uma atitude subjetiva, não intencional. Sua relação com seu corpo refletirá um imaginário social. Mudar estes valores é uma construção diária, gradual e lenta, de coragem e aceitação. É possível começar, por exemplo, pela adoção de uma nova atitude de cabeleireiros, detentores e transmissores do saber técnico na área. Não se pode esquecer, entretanto, que isso entraria em conflito com a tendência do mercado cosmético que estimula o alisamento e os cabelos lisos. Neste sentido, promover outros padrões estéticos e de beleza em esferas que vão além dos salões e ambientes afro é absolutamente necessário e bem-vindo.

Estamos em 2015 (relembro que meu trabalho de pesquisa foi concluído em 2009) e é possível dizer que encontro mais pessoas nas ruas portando cabelos naturais do que antes, mesmo em Salvador. Há também um número bem maior de pessoas usando e compartilhando experiências em redes sociais, e é mais fácil ler e ouvir mulheres que têm tido mais e mais coragem para assumirem seus cabelos crespos e cacheados, mulheres que se livram de uma culpa ilusória, mulheres que aprendem a confiar mais em si mesmas e trabalharem mais suas autoestimas, mulheres e pessoas que têm se amado mais. Isso é admirável. Porém, as mesmas questões, conflitos e fantasmas persistem sim e são muito, muito atuais. É impressionante como esses padrões de beleza associados aos cabelos lisos são fortes e marcantes em nossa(s) sociedade(s) ocidental(ais). Sugiro, para aqueles que custam a acreditar em tais realidades, que tentem desenvolver suas capacidades de empatia e a se colocarem no lugar do outro. Que busquem e escutem pessoas que enfrentaram ou enfrentam tais fantasmas. Tenho certeza que cada um de nós carrega o seu… mesmo que não o assuma ou não consiga enxergá-lo.

A construção da identidade (uma noção absurdamente complexa) de uma pessoa está, sem dúvida, implicada neste processo. O corpo não é uma entidade finita: ele está sempre em construção e transformação. Existem, portanto, diferentes “categorias” de pessoas que se constroem ao longo do tempo, segundo interesses e sentimentos comuns.  O cabelo e o penteado podem servir para esconder ou afirmar um pertencimento a uma dada categoria social. É também possível ler todo este processo do ponto de vista da identidade da qual se busca fugir: o que se evita quando se alisa os cabelos?

 

Fechando uma questão tão aberta…

Construir a aparência física pela negação de seu corpo pode ser a ocasião para uma pessoa de se transformar. O alisamento é um fenômeno que possibilita a mudança da aparência física de uma mulher. O número de técnicas de alisamento e o vínculo deste procedimento com diversas problemáticas sociais reforça sua importância, dadas suas recorrência e atualidade. Ele reforça a negação de cabelos crespos dentro desta sociedade, que tem em sua origem o profundo histórico do racismo.

Qualquer estigmatização pela aparência pode conduzir a uma não-aceitação de si mesmo. A negritude pode ser, sim – e é – usada contra o negro, inclusive como reforço de outros preconceitos que estão geralmente associados à condição de pobreza e de poucas oportunidades na vida. A aparência física pode então ser objeto de um ritual, uma transformação de si mesmo, com o objetivo de conquistar mais aceitação e adequação social pelo indivíduo.

 

Quando não se tem a aparência física questionada, contrariada, é preciso sensibilidade e humanidade para se colocar no lugar daqueles que veem, escutam e, sobretudo, aprendem a acreditar que seu corpo e sua presença física são inadequados. Sua existência, atravessada por tais questionamentos, será no mínimo desarmoniosa, pois foi marcada pela rejeição. É preciso trabalhar a estima de si mesmo buscando sua essência e sua verdade.

Quando não se aprende a ser, simplesmente não se é. É, sim, simples assim. Para aqueles que pregam que tudo isto é exagero, inflamação, recalque ou racismo contra si mesmo: eu sinto muito, a ignorância dos fatos e a insensibilidade os rodeia. Eu sinto muito, mesmo, porque são estas pessoas que passarão a vida tentando apontar para o outro que ele não deve se amar como ele é. São estas as pessoas que necessitam justificar alguma superioridade que preenche um vazio qualquer, que ignoram anos de repressão daquilo que é diferente do que acreditam ser o certo. Estas pessoas acreditam que para se estar em algum lugar, é preciso no mínimo alterar a natureza do outro.

Quando não se sente algo na própria pele, convém se informar a respeito antes de julgar. A dor do outro sempre dói menos. Então, quando algo doer em você, procure entender que todos nós sentimos, sofremos e temos prazer.


Ananda Melo King é formada em comunicação social, pós-graduada em gestão de processos comunicacionais, mestre em antropologia cultural pela Université de Strasbourg e atualmente trabalha na área de responsabilidade social.

Arte: Jamilla Okubo

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O que acontece quando duas formas de arte se encontram para um inspirado diálogo? O livro Não conheço ninguém que não seja artista, lançado pela Confeitaria, explora essa possibilidade por meio dos trabalhos da fotógrafa Camila Svenson e da escritora Ana Guadalupe. A obra reúne uma coletânea de 20 poemas e 20 fotografias que conversam entre si. O processo criativo foi dividido em duas etapas: com tema livre, Ana escreveu dez poemas, para os quais Camila se inspirou para fazer dez retratos que os ilustrassem; e depois Camila produziu dez retratos, para os quais Ana escreveu dez poemas. O resultado é um conjunto que relaciona palavra e imagem, alternando o ponto de partida: ora a poesia, ora a fotografia.

A Ana estudou letras na Universidade Estadual de Maringá e hoje mora em São Paulo. Seus poemas já foram publicados no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos, em antologias como “Amor; Pequenas Estórias”, “Otra Línea de Fuego”, “101 Poetas Paranaenses” e “Cityscapes”. Em 2011, publicou o livro “Relógio de Pulso”, pela 7Letras.  Fabiane Secches, editora da Confeitaria, conversou com a Ana sobre o projeto, poesia e o mercado literário no Brasil.

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Como começou a sua relação com a poesia?Mexia em livros de poesia que meus pais tinham em casa quando era criança. Depois, na adolescência, tive uma amiga que escrevia e também me influenciou — mas só percebi essa influência recentemente. Comecei a escrever poemas muito ruins aos 13, 14 anos e fui emprestando livros etc. Durante a faculdade de letras, fiz um estágio de dois anos na Biblioteca Municipal de Maringá e foi nessa época que comecei a ler e escrever mais.Como costuma ser o seu processo criativo? Foi diferente para você no livro novo?

Raramente sinto um “chamado da inspiração” ou uma vontade muito forte de escrever, como se tivesse alguma mensagem pra “colocar pra fora” (invejo), mas às vezes penso numa frase e tento desenvolver a ideia depois. Ou me obrigo a fechar o navegador e escrever alguma coisa. Acho que a internet distrai demais. No “Não conheço ninguém que não seja artista”, foi totalmente diferente: tínhamos prazos, a ideia central do diálogo entre fotos e poemas e minha vontade de escrever sobre temas novos. Esse compromisso e as fotos da Camila Svenson, que são muito boas, ajudaram muito.

Que outras mulheres na literatura encorajam ou encorajaram você a seguir esse caminho?

Como inspiração, muitas encorajam. O que mais gosto de ler é poesia contemporânea e, dentro dela, me inspiro/divirto muito com mulheres. Na “vida real”, a Alice Sant’anna é uma das poetas contemporâneas que admiro muito e que me encorajou bastante.Como você vê o cenário literário no Brasil para as mulheres? E na poesia, que é ainda mais nichado?Vejo que são muitas mulheres talentosas, publicando coisas ótimas, e espero que tenham cada vez mais espaço, mas isso é óbvio. Acho que as dificuldades e preconceitos também ajudaram a formar escritoras mais assertivas, e são elas que vejo levantando questões importantes, usando as redes sociais pra falar de feminismo, literatura, sexo, humor e todas as coisas. Na poesia, acho que as mulheres estão ganhando um destaque bem importante, mas ainda existem coleções de editoras com muito mais homens que mulheres, por exemplo. Acho que também tem um obstáculo estranho na ideia de que poesia é um gênero “feminino”, feito de versinhos de amor e carência, e talvez na ilusão de que o homem escreva poesia de um jeito diferente. Não sei se já fizeram um estudo mostrando textos anônimos pra um grupo de pessoas e trocando os gêneros antes da leitura. Sinto que um poema escrito por uma mulher tem mais chances de ganhar comentários como “fofo”, “doce” (a não ser que fuja disso com todas as forças, pra combater mesmo) e alguém sempre vai inventar uma capa ou layout cor de rosa, enquanto o mesmíssimo poema vinculado ao nome de um homem pode ser considerado uma “porrada na alma”, “cortante”, “poderoso”.

Você também é ótima no Twitter. Acha que a limitação dos 140 caracteres ajuda a exercitar a sua habilidade com poesia? Você sente que a plataforma contribui como “aquecimento” ou inspiração para os seus poemas, que passam por temas tão atuais?

Obrigada! Gosto do muito do Twitter e fico feliz que o mecanismo nunca tenha mudado. Acho que escrever em 140 caracteres ajuda, sim, no exercício de anotar umas coisas sem se prolongar e sem cansar quem está lendo. E de se abrir a devaneios desconexos em público, o que é bem absurdo quando a gente para pra pensar. Nesse livro, cheguei a usar alguns tweets como “ponto de partida”.

O tema de seus poemas costuma variar entre o que é atemporal — no livro novo você fala de amor, saudade, esquecimento e morte — e o que é contemporâneo — redes sociais, seguro fiança, reality show. Sempre foi assim pra você?

Sim. Acho esses temas atemporais perigosos, mas os mais contemporâneos também. Tenho medo de escrever demais sobre a internet e a tecnologia e “errar a mão” nisso. Tenho tentado usar qualquer tema que apareça, ~experimentar novas emoções~.

Neste livro você trabalhou principalmente com outras mulheres. Como foi essa experiência pra você?

Foi muito legal principalmente porque nunca fiz nada em equipe e porque o resultado é diferente do que eu imaginaria e do que acho que as pessoas esperam. As fotos da Camila, a edição da Fabi, nossas opiniões e os temas novos que apareceram quando eu estava escrevendo.


Fabiane Secches é editora e diretora criativa da Confeitaria.

Arte: Chris Silas Neal

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O Brasil é o país com o maior número de domésticas do mundo. Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Trabalho, são 6,7 milhões de mulheres na função, representando 17% das trabalhadoras do país. É para ouvir a voz dessas mulheres, que o coletivo Nós, Madalenas lança hoje o documentário Mucamas, com sessão gratuita na Casa de Lua. Com duração de quinze minutos, o filme joga luz sobre mulheres que dedicam suas vidas à vida de outras famílias. O que torna o projeto ainda mais especial é que as entrevistadas são mães de cinco integrantes do coletivo.

Ambientado na maior cidade do país, São Paulo serve de pano de fundo para relatos intimistas que revelam a necessidade de repensarmos o papel dessas profissionais no mundo em que vivemos. Conversamos com a Ione Gonçalves, estudante de Artes Visuais e editora do documentário, que nos contou mais o coletivo e o projeto do documentário.

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Como o coletivo Nós,Madalenas começou e qual é a proposta dele?

O coletivo começou com a ideia de desenvolver um longa-metragem para um primeiro edital, não foi esse que ganhamos, foi antes disso. Mas desde o começo com a mesma essência, de defender o “papel” da mulher na sociedade. E levamos esse propósito como objetivo principal pro filme “Mucamas” também, por meio dessa questão do trabalho doméstico.

 

O Nós,Madalenas é formado por mulheres e em formato de coletivo, ou seja, sem hierarquia, como foi produzir nesse ambiente criativo?

Para respeitar todas as opiniões da equipe e para que todas tivessem um peso igual na tomada de decisão, percebemos que o “coletivo” era o melhor caminho para estruturar nossa relação de trabalho, ou seja, uma relação sem hierarquia.

Chega a ser confuso explicar nosso processo de criação dentro dessa relação horizontal e intensa, mas foi a forma mais gostosa que o projeto pode se realizar. Tivemos a oportunidade de acolher o projeto de coração cheio, todas nós nos sentimos essenciais e carregamos o mesmo sentimento de realização e doação.

 

Como surgiu a ideia do documentário ‘Mucamas”?

O documentário surgiu da forma mais espontânea possível. Tínhamos um prazo para viabilizar nossa inscrição em um edital e precisávamos de uma ideia para desenvolver o filme. Estávamos todas aflitas, pois nosso primeiro roteiro não se encaixava nas premissas do edital que íamos nos inscrever. Foi a epifania da última hora mesmo. Acho que a gente trabalha bem sob pressão.

 

O que motivou o coletivo a fazer um filme sobre o trabalho doméstico? E o que te motivou a querer abordar o assunto?

A questão do trabalho doméstico surgiu naturalmente. Sempre soubemos que tínhamos muito em comum, mas a questão que surgiu nessa última hora foi uma surpresa! A profissão das nossas mães era a mesma. Carregamos o mesmo sentimento pela profissão e quando notamos — depois de uma pesquisa sobre produções de cinema com esse tema do trabalho doméstico — o quão precioso era contar essas histórias do nosso ponto de vista, fechamos a essência do filme e foi isso que mais motivou o coletivo a desenvolver o doc.

O que me motivou a fazer o filme foi ter a oportunidade de contar a história das nossas mães com um olhar mais humano. Isso faz parte da minha realidade e foi o que mais me deu vontade de fazer esse projeto acontecer.

 

Você já teve algum tipo de conflito com a profissão da sua mãe, quando ela era empregada doméstica?

Eu nunca tive nenhum tipo de conflito direto com a profissão da minha mãe. Se isso acontecesse, jamais seria pela profissão em si, mas sim como ela é considerada

 

Como foi a reação da sua mãe quando você a convidou para contar sua história e trajetória profissional para um filme?

Minha mãe ficou encabulada quando soube da realização do documentário. Me entregou a seguinte fala “Tanta coisa legal pra vocês falarem. Por que a minha história? Isso é tão normal…”. Ela ficou tímida

 

Ela já viu o assistiu ao filme? O que ela achou?

Ela ainda não assistiu o documentário completo, confesso estar guardando surpresa. Quando iniciei a montagem, decidi mostrar os 5 primeiros minutos pra ela. A história ‘tão normal’ dita por ela transparece tanta potência! Ela ficou bem emocionada.

 

Você acha que participar do filme teve algum impacto na vida nela? E na relação de vocês duas?

Essa minha participação de contar a história dela nos acrescentou acima de tudo o reconhecimento. Minha mãe nunca me deixou pensar na possibilidade de ser doméstica, até então eu não sabia dos detalhes sofridos que ela passou. Há uma relação mais humana e um olhar mais respeitoso depois dessa experiência.

 

O que você sentiu trabalhando nas filmagens onde sua mãe estava sendo entrevistada para o filme?

Durante as gravações eu sentia estar contando a história da mulher mais guerreira que conheci. Nossa principal ideia com o filme é humanizar o olhar das pessoas com a profissão, trazer esse debate à tona por meio de histórias de mulheres fortes. E me enche o coração ver que que até a minha mãe se permitiu esse olhar, esse ressiginificado. Achei incrível!

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Muitos filmes que tiveram o trabalho doméstico como tema foram produzidos por equipes de classes sociais diferentes das personagens. Você acha que o fato das filhas das entrevistadas estarem envolvidas no processo criativo e na equipe de filmagem influenciou no resultado do filme? de que forma?

Pra mim o que o documentário tem de mais precioso é o fato das filhas contarem a história das próprias mães. Acho que esse é o diferencial, nós sabemos como a profissão é encarada desde sempre, está na nossa história. O filme possui cinco histórias fortes e que carregam semelhanças entre si apesar dos caminhos de cada uma serem bem diferentes.

 

Você tem ou já teve uma empregada doméstica em casa? Caso não, você teria uma empregada?

Nunca tivemos empregada doméstica em casa e se um dia for necessário não vejo problemas. Mas se for necessário MESMO!

 

O documentário tem uma pergunta muito simples e também muito forte, que gerou respostas emocionantes e que, agora, gostaríamos de saber a sua resposta: pra você o que é ser mulher?

É viver várias vezes numa vida só. Ao mesmo tempo carregamos as maiores vitórias.

 


Natália Fava é publicitária e faz parte do coletivo feminino de audiovisual “Nós, Madalenas”, que produziu o documentário “Mucamas”.

Arte:

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Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

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lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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Elas nem sempre estão nas principais manchetes dos jornais, mas o fato é que muitas mulheres brilharam em 2014 de um jeito ou de outro. Seja com projetos elaborados dentro de uma grande corporação ou na sala de casa, com apoio de investidores ou dinheiro do próprio bolso, em piscinas ou, literalmente, no topo do mundo, elas atingiram muitas das conquistas mais impressionantes do ano. Esta lista vem para mostrar as ações incríveis que algumas delas – são quase 150 nomes! – vem criando em suas respectivas áreas. Não é, nem pretende ser, uma seleção definitiva, mas é uma boa amostra do poder das mulheres em 2014. Quando você pensar no que aconteceu ao longo do ano, fizer uma retrospectiva ou mesmo a própria lista de fatos relevantes, não esqueça de incluir essas mulheres tão importantes.

 

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Por Suzana Maria

ARTE

Arquitetas Invisíveis – É um projeto iniciado por alunas da UnB que busca dar visibilidade a arquitetas importantes do mundo todo que foram esquecidas pela história e ficaram a sombra dos homens com quem trabalharam. Os resultados positivos já começaram a ser percebidos pelas alunas nas aulas do curso de arquitetura da Universidade, com alguns professores passando a abordar o trabalho de mulheres que antes não eram mencionadas.

Carol Rossetti – Designer e ilustradora mineira criadora de uma série de desenhos que retratam de forma poderosa restrições cotidianas e preconceitos enfrentados pelas mulheres, estimulando a empatia e a sororidade. O trabalho foi traduzido para outras línguas, ganhou o mundo e foi mostrado por diversos jornais internacionais.

Coletivo Agulha – Coletivo de tricô e crochê que se reúne frequentemente com voluntárias para criar mantas, gorros e sapatinhos para pacientes do Hospital Pérola Byington.

Coletivo Capulanas Cia de Arte Negra –  Grupo composto por jovens negras de movimentos artístico políticos de São Paulo que encenam sobre as dores que o racismo e a exclusão social causa. Em 2014, trouxeram belíssimos espetáculos gratuitos como o Sangoma, cujo tema é a saúde da mulher negra e foi inspirado em práticas medicinais de sociedades da África do Sul.

Francis Divina – Lançou, em agosto, o projeto artístico Representativid’arte, para onde cria ilustrações que valorizam a diversidade corporal feminina. Mulheres com curvas, dobras, diferenças e imperfeições são as musas de Francis, que as retrata em nanquim.

Jéssica Ipólito – É ativista e dona do blog Gorda e Sapatão, onde escreve sobre feminismo, sexualidade e bodypositive. Em 2014 promoveu o empoderador Desafio Arte Gorda, que recebe colaborações de diversas pessoas. A única regra é que seja representado o corpo de uma mulher gorda.

Julia Morgan – Foi a primeira mulher a receber a medalha de ouro do AIA (American Institute of Architects), 57 anos depois de sua morte. Também foi a primeira arquiteta certificada pela L’École des Beaux-Arts de Paris e a primeira profissional licenciada para o exercício da profissão na Califórnia. Seu legado, construído ao longo de quase 50 anos de carreira, inclui mais de 700 edifícios, entre eles o Hearst Castle.

Lovelove6 – Quadrinista feminista, criadora da personagem Garota Siririca. Seu trabalho nos faz repensar bastante sobre os padrões estereotipados da sexualidade feminina representados nos quadrinhos. Fala sobre o autoconhecimento e ajuda a desestigmatizar a masturbação feminina.

Mariamma Fonseca, Samanta Coan e Samara Horta – São criadoras da Lady’s Comics, página que discute a representação feminina – ou a falta dela – nos quadrinhos. Em 2014 aconteceu em BH o “1° encontro Lady’s Comics: Transgredindo a representação feminina nos quadrinhos” , com debates, exposições, oficinas, venda de quadrinhos e painéis.

Raquel Trindade – Fundadora do Teatro Popular Solano Trindade, da Nação Kambinda de Maracatu, e uma das criadoras do movimento de Artes da Praça da República. Também é fundadora de um curso de extensão sobre folclore, teatro negro e sincretismo religioso na Unicamp.

Suzana Maria (ou SHOSH) – Criou o Selfless Portraits das Minas, grupo de arte formado por mulheres trans e cis, artistas profissionais ou não, no qual toda semana são sorteadas duplas de meninas com o objetivo de desenharem umas às outras, sem definição de prazos ou maneiras. O grupo se tornou um ambiente de encontros, trocas e sororidade entre mulheres.

Thaiz Leão – Ela é autora do ótimo Mãe Solo,  um diário de bordo em quadrinhos da maternidade de uma mãe solteira.

Vanessa Israel, Renata Dania, Lais de Souza, Amanda Zacarkim, Camila Lopes e Marina Dini – Criadoras do Clube do Bordado, que subverte a noção dócil e inocente da técnica para bordar cenas da sexualidade feminina.

  • INTERNACIONAL

Cheryl Strayed – Escritora e romancista americana, é a autora do bestseller “Wild” – memoir sobre sua solitária jornada de recuperação após seu divórcio e a morte de sua mãe. Em 2014, seu livro recebeu uma adaptação cinematográfica aclamada pela crítica.

Ilana Glazer e Abbi JacobsonSão atrizes nova-iorquinas e criadoras do seriado Broad City. A comédia, que começou como uma série de vídeos no Youtube, conta a história de duas amigas navegando pela cidade de Nova Iorque. O seriado foi chamado de “ataque feminista disfarçado” pelo Wall Street Journal.

Keke Palmer – Aos 21 anos, é a primeira atriz negra a interpretar a Cinderella na Broadway. Ela também já atuou em filmes, séries de televisão e tem seu próprio programa, o “Just Keke“, exibido no canal BET.

Lupita Nyong’o – Em 2014 só se falou em Lupita: ela recebeu Oscar de melhor atriz por 12 Anos de Escravidão, foi escolhida pela People como a mulher mais bonita do mundo, estampou editoriais de moda, centenas de capas. Lupita é um exemplo de representatividade  na mídia.

 

ATIVISMO & CIDADANIA

Adriana Padula Jannuzzi – Coordenadora do programa de Acessibilidade da Câmara dos Deputados em Brasília (DF). Entre as ações realizadas este ano estão a produção de audiolivros e tradução para Libras e também a reforma do plenário em julho de 2014 para que pessoas com mobilidade reduzida pudessem chegar até à Mesa Diretora.

Ana Claudia Vitoriano – Técnica em desenvolvimento de pesquisas, monitoramento e avaliação e mediadora sobre políticas públicas para mulheres e combate à violência no município de Barueri (SP). Este ano realizou mais de 25 rodas de discussões em regiões vulneráveis de sua cidade conscientizando as mulheres sobre a questão de gênero.

Amanda Kamanchek Lemos – Jornalista realizou em 2014 o projeto “Cartografia dos Direitos Humanos”, em que mapeou locais importantes na cidade de São Paulo para o a luta dos Direitos Humanos. É responsável pela campanha “O Valente Não é Violento” da ONU Mulheres no Brasil.

Associação das Advogadas, Estagiárias e Acadêmicas do Direito de SP (Asas) – Em uma ação contra o assédio sexual e a violência contra a mulher, o grupo distribuiu milhares de apitos para mulheres usuárias de transporte público.

Beatriz Silva – Professora, começou em janeiro deste ano um trabalho de proteção animal no lixão de Itapevi (SP). Contando apenas com recursos próprios, ela castrou todas as fêmeas do local e conseguiu lares para mais de 30 animais durante o período.

Bianca Santana Além de professora, assessora de projetos e jornalista, Bianca desenvolve projetos na ONG Casa de Lua. Em 2014, realizou o Círculos de Mulheres Negras, cujo objetivo é empoderar mulheres negras, fortalecer sua autoimagem e autoestima e criar redes de networking entre elas.

Carolina Ferrés – Lançou o projeto Viva Rio Pinheiros, que pretende ocupar as margens do Rio Pinheiros, em SP, com artes visuais e arte de rua. A proposta é resgata-lo e transformá-lo, de novo, em um lugar pra pessoas.

Casa de Lua – O projeto feminista completou um ano em novembro, com uma agenda de mais de 80 atividades, muitas gratuitas, voltadas para o empoderamento do público feminino. Tornou-se ONG em julho.

Haydée Svab – Engenheira civil, fundadora do Grupo de Estudos de Gênero da Escola Politécnica da USP (PoliGen), qualificou seu mestrado sobre a questão da mulher e o transporte em 2014. Uma de suas prioridades no ano foi discutir o “vagão rosa” no coletivo a partir da leitura de “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, além de participar de reuniões sobre o assédio em transportes coletivos no Conselho Estadual de Condição Feminina.

Laura Mascaro – Coordenadora e pesquisadora do Centro de Estudos Hannah Arendt, promoveu em parceria com a Cátedra Unesco de Educação Para Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância oficinas de direitos humanos e escrita criativa no Centro Acadêmico Maria Antônia. O próximo passo é levar tais ações para as periferias de São Paulo.

Laura Sobral – É arquiteta e urbanista criadora do movimento A Batata Precisa de Você, que promove a ocupação do Largo da Batata em São Paulo todas as sextas-feiras no final do dia com atividades culturais e de lazer, como grupos musicais e conversas sobre temas urbanos, com a proposta de estimular o uso do espaço como local de convivência.

Luiza Carvalho – A brasileira foi nomeada diretora regional da ONU Mulheres para a América Latina e o Caribe. Ela também já foi representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) nas Filipinas.

Maria Clara Araújo – Estudante e colaboradora da revista online Capitolina e, com 18 anos, uma ativista assídua da causa trans*. Participa de palestras e debates sobre o assunto e é uma militante reconhecida no ativismo virtual. Foi uma das primeiras transexuais autorizadas a usarem seu nome social durante as provas do Enem este ano.

Mariana Ribeiro, Fernanda Cabral e Mariana Campanatti – Fundadoras do Imagina na Copa, um projeto que busca promover mudanças e transformações no país. Por meio de oficinas, jovens interessados eram capacitados a entender como poderiam atuar em diversas causas, trazendo melhorias nas cidades impactadas pela Copa. No começo do mês, a ação ganhou prêmio do Google pelo impacto social.

Nana Queiroz – É jornalista e em 2014 iniciou a campanha virtual #EuNãoMereçoSerEstuprada – postando nas redes uma foto seminua com o congresso ao fundo, utilizando a hashtag como mensagem central – , que teve início quando o IPEA divulgou uma pesquisa que tratava da violência contra as mulheres. No documento, um dos dados mais polêmicos foi o de que 65% dos entrevistados concordavam que mulheres que vestem pouca roupa estão mais sujeitas a ataques. Apesar do instituto ter corrigido o número para 26%, o tema continuou em evidência e mantém a discussão até hoje.

Nós, Mulheres da Periferia – O projeto, formado em 2014 por oito jornalistas e uma designer, todas moradoras de bairros da periferia de São Paulo, se propõe a combater a falta de representatividade das comunidades na imprensa, buscando mais protagonismo e visibilidade.

Sônia Guajajara – É porta-voz do movimento indígena brasileiro. Coordenadora Executiva da Articulação dos Povos Indígenas (APIB) é reconhecida internacionalmente como uma forte liderança dos direitos humanos. Em ano de eleição, foi fundamental para a movimentação do debate político em torno da causa, se posicionando principalmente no embate em torno da PEC 215.

Stephanie Ribeiro – Militante do movimento negro e feminista, é a única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos. Em maio, denunciou perseguições e ofensas racistas dentro da universidade.

 

  • INTERNACIONAL

Anita Sarkeesian – A crítica de games e autora do blog Feminist Frequency, recebeu esse ano o prêmio Ambassador Award, no Game Developers Choice Award, dado a pessoas que ajudam a promover e a melhorar a indústria de games. Por sua atuação crítica em relação a representação feminina e ao machismo na cultura pop, principalmente nos jogos de videogame, Anita foi vitima de uma ameaça terrorista em 2014 que fez com que sua palestra na Utah State University.

Emily May – Diretora da ONG Hollaback!, criada em 2005 para lutar contra o assédio a mulheres nas ruas e conta com ativistas em 26 países, onde promovem conversas a respeito do tema. Emily reacendeu o debate mundial sobre cantadas de rua com o vídeo “10 Hours of Walking in NYC as a Woman” (10 horas caminhando por Nova Iorque como uma mulher, em tradução livre). A gravação tem mais de 37 milhões de visualizações no YouTube.

 

BLOGS & MÍDIAS SOCIAIS

Ariane Freitas e Jessica Grecco – Cansadas de comentários com cutucadas maldosas no Facebook, resolveram criar a página Indiretas do Bem para espalhar mensagens mais positivas. Foi um sucesso e, em um ano, a página chegou a mais de 7 milhões de curtidas. As autoras acabaram de lançar o Livro do Bem, com sugestões de atividades para deixar a vida mais feliz. No blog e na página, divulgam campanhas importantes, como Teleton, Dia Mundial de Combate à AIDS, Dia Mundial da Doação de Sangue, entre outros.

Bia Granja – A fundadora do site YouPix, o “manual” brasileiro da internet, lançou neste ano o curso Espalhe!, que destrincha a ciência por trás do conteúdo online e viral das redes sociais.

Carol Moré  – É criadora do Follow the Colours, blog que fala sobre vários tipos de artes – de decoração a prints em tecidos, de letterings a tatuagens. Em 2014, a página cresceu muito, ganhando novo layout e categorias, e abriu ainda mais espaço para divulgar e valorizar o trabalho de novos artistas. Iniciou também o projeto Gotas de Cor, em que traz, em forma de post, curiosidade e informações sobre as infinitas tonalidades existentes.

Débora Cassolatto – É autora de de dois blogs-referência sobre música, o Música de Menina, no qual desmistifica essa expressão e discute o sexismo existente na área, e o Ouvindo Antes de Morrer, em parceria com a MTV.

Gizelli Sousa – Criadora do ótimo #ValorizeAsMinas, post semanal no blog Maior Digressão que reúne casos, histórias e projetos de mulheres.

Sharon Caleffi – Criou a página Vote numa feminista para destacar candidatas feministas nas eleições de 2014. A proposta é demonstrar como a participação feminista no poder legislativo é importante e dar visibilidade à candidatas que possam ajudar a ampliar a voz das mulheres na política. Além disso, divulga ações e propõe discussões políticas relacionadas aos direitos das mulheres.

Sofia F. Ricardo – Estudante de psicologia, mulher trans* e  dona da página Travesti Reflexiva, que critica com bom humor diversos tipos de opressões.

 

CIÊNCIA

Georgia Gabriela da Silva Sampaio e Raíssa Müller – São estudantes brasileiras de 19 anos que desenvolveram projetos e foram vencedoras de concurso de inovação promovido pela Universidade de Harvard. Georgia Gabriela propôs a criação de um métodos mais econômico e menos invasivo para o diagnóstico da endometriose, através de exames de sangue. Raíssa criou uma esponja que absorve óleo e repele água – ela poderia ser usada em casos de derramamento de óleo no mar, por exemplo.

Livia Eberlin – Graduada pela Unicamp, foi premiada este ano como autora da melhor tese em química dos Estados Unidos. Com um espectrômetro de massas, ela desenvolveu uma técnica para identificar moléculas da doença nos fragmentos do tecido, contribuindo enormemente para a precisão da cirurgia de retirada de tumor cerebral. Ela foi a primeira pesquisadora brasileira a receber o chamado Nobel Laureate Signature Award 2014.

Marcelle Soares-Santos – Física brasileira pós-doutoranda do Fermi National Accelerator Laboratory, em Illinois, foi premiada com o Alvin Tollestrup Award por sua pesquisa. Ela trabalha no projeto Dark Energy Survey, que busca compreender a energia escura a partir do mapeamento de 4 mil supernovas e 300 milhões de galáxias.

  • INTERNACIONAL

Jeri Ellsworth – Engenheira da computação autodidata que, após ser demitida pela Valve, criou com um sócio uma start up chamada Technical Illusions que já arrecadou coletivamente mais de 1 milhão de dólares no Kickstarter pra lançar um óculos revolucionário de realidade aumentada.

Mars Orbiter Mission (MOM) – A Índia lançou, em setembro, a Mars Orbiter Mission (MOM), a primeira missão ao planeta do país – e com muitas cientistas mulheres na equipe. E, enfrentando preconceitos da mídia internacional e com um orçamento menor do que o de qualquer outro país, foi a única missão espacial a Marte a acertar de primeira até hoje.

Maryam Mirzakhani – A iraniana tornou-se a primeira mulher a receber a medalha Fields, prêmio conhecido como o Nobel da Matemática.

COMUNICAÇÃO & AUDIOVISUAL

Alice Riff – Documentarista que realizou, junto ao Diário do Centro do Mundo em 2014, o documentário Dr. Melgaço, viabilizado pelos leitores via crowdfunding. A cineasta foi enviada a Melgaço, a cidade com menor IDH do país, para investigar o impacto do programa Mais Médicos sobre a população.

Andrea DipJornalista da Agência Pública, foi responsável por algumas das mais importantes matérias e denúncias sobre violência contra mulher, como a HQ sobre a teia de exploração sexual de meninas durante a Copa e a matéria sobre mães encarceradas.

Clara Averbuck, Mari Messias e Polly Barbi – Fundadoras do Lugar de Mulher, site feminista que aborda diversos temas do universo feminino, de política à moda, de gordofobia à seriados sempre de forma muito explicativa e bem-humorada.

Djamila Ribeiro – Feminista negra de grande influência e uma das fundadoras do Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero, Raça e Sexualidades da Unifesp, onde também é pesquisadora e mestranda.  É uma das Blogueiras Negras e escreve também para o Escritório Feminista da Carta Capital.

Fernanda Honorato – Entrou para o Rank Brasil por ser a primeira repórter com síndrome de down do país. Fernanda, de 34 anos, ocupa o cargo no Programa Especial da TV Brasil desde 2006.

Heloísa Rocha – Jornalista da Gazeta AM, Rádio Universitária da Faculdade Cásper Líbero, atua na orientação e produção de reportagens sobre inclusão e acessibilidade com os estudantes com o objetivo de propor a conscientização dos futuros comunicadores do Brasil. Em 2014 realizou uma das matérias de maior impacto da rádio ao produzir e veicular um especial sobre a gravidez de uma mãe com ossos de cristal. Primeiro caso no Brasil de uma mulher de Osteogênese Imperfeita do Tipo III. Também realizou especial sobre a acessibilidade para a Copa.

Joanna de Assis – Jornalista esportiva, lançou em 2014 o livro “Para-Heróis” sobre os atletas paráolimpícos e suas histórias de superação. Também palestrou sobre a presença das mulheres no jornalismo esportivo em diversas universidades do País.

Juliana Vicente – Diretora de cinema e fundadora da Preta Portê Filmes, produziu e dirigiu dois curta-metragens para o Canal Futura em 2014: “Meu Cabelo Não Nega”, sobre o cabelo de mulheres negras e “As Minas do Rap”, sobre a participação feminina no rap e no hip-hop.

Maria Julia Coutinho – É a primeira negra a apresentar a previsão metereológica da Rede Globo de Televisão. Ganhou a medalha “Medalha Theodosina Rosário Ribeiro”, conferida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo às mulheres ou entidades de mulheres que se destacarem na sociedade em razão de sua contribuição ao enfrentamento da discriminação racial e na defesa dos direitos das mulheres no Estado de São Paulo.

Mauana Simas – Jornalista e fundadora da produtora ”Nós Todos Filmes” no Rio de Janeiro.  Coordenou o projeto de narração audiodescritiva durante a Copa do Mundo e levou mais de 400 deficientes para os jogos em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Produziu um documentário totalmente acessível para o Canal Futura chamado “A hora de deixar a quadra”. Em setembro, foi convidada a participar de um curso em Londres sobre acessibilidade em estádios de futebol que resultou em um projeto a ser realizado em 2015 no estádio do Morumbi, em São Paulo. Também produziu e dirigiu o clipe Zeit, da banda Schracho, todo em Libras.

Sofia Soter, Clara Browne e Lorena Piñeiro  – O trio criou a Revista Capitolina revista eletrônica adolescente com pegada feminista. Para nós da Olga, é o melhor conteúdo brasileiro para teens na internet!

Susanna Lira – Diretora da Modo Operante Produções no Rio de Janeiro, estreou em 2014 a série “Mulheres em Luta”, sobre presas políticas na ditadura militar para o canal GNT. Atualmente produz o longa metragem “A Torre das Donzelas”, que contará a história das mulheres torturadas no regime e que cumpriram pena no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Também este ano lançou o documentário e série “Damas no Samba”, que retrata o papel das mulheres na construção do ritmo mais brasileiro e o longa metragem “Por Que Temos Esperança” sobre as mulheres que criam seus filhos sem ajuda dos pais em Pernambuco.

  • INTERNACIONAL

Pam Grossman – Editora da Getty Images, criou, ao lado de Sheryl Sandberg, a coleção Lean In de imagens de arquivo que lutam contra os estereótipos e o machismo ao representar mulheres de maneira poderosa.

 

EDUCAÇÃO

Anna Haddad, Camila Haddad e Giovana Camargo – Fundadoras do Cinese, plataforma de cursos criada pelo trio para unir pessoas e promover palestras, debates e cursos. Recentemente, elas tiraram a cobrança dos organizadores dos encontros e apostaram em um modelo de negócio muito mais humano e inovador.

Denna Hill, Lúcia Udemezue, Nina Vieira e Thays Quadros – Criaram o coletivo Manifesto Crespo, que atua na área educacional, provocando reflexões sobre o cabelo crespo, a história e cultura africana. Neste ano, levaram a iniciativa para comunidades negras e indígenas com lideranças femininas, como Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba, e a aldeia Indígena Tenondé Porã, no bairro de Parelheiros.

Tamires Gomes Sampaio – Aos 20 anos, é a primeira aluna negra a dirigir o  Centro Acadêmico João Mendes Jr, da Faculdade  de Direito do Mackenzie.

  • INTERNACIONAL

Malala Yousafzai – Recebeu o Nobel da Paz este ano, tornando-se a pessoa mais jovem a ganhar o prêmio, aos 17, dividido com o indiano Kailash Satyarthi. Doou o valor recebido para a reconstrução de escolas em Gaza. Desde os 11 anos, a paquistanesa é uma ativista que defende os direitos humanos das mulheres e o acesso de meninas à educação no norte de seu país, onde muitas são proibidas pelos talibãs de estudar. Em 2012, comoveu o mundo ao sobreviver a uma tentativa de assassinato, quando foi baleada dentro de um ônibus escolar e discursar sobre sua experiência e a importância da educação das meninas na ONU.

 

EMPREENDEDORISMO

Ariane Cor e Marcella Chartier – Criaram a Iara, agência de empoderamento feminino onde ajudam as mulheres a se apropriarem de seus potenciais.

Bordadeiras de Passira – Conseguiram financiamento coletivo pelo Catarse para criar um e-commerce, produzindo bordados e vendendo seus trabalhos de forma autônoma para o mercado de moda nacional.

Fabi Secches – Co-fundadora da Confeitaria Mag, e organizadora de livros inspiradores como a coletânea de contos Amor | Pequenas Estórias, Fabi lançou este ano o e-commerce para impulsionar o trabalho de novos artistas. A Loja da Confeitaria vende livros, objetos de arte, papelaria, bijuteria e artigos de decoração.

Itali Pedroni Collini – Estudante de economia da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), é uma das fundadoras do GENERA (Grupo de Estudos de Gênero e Raça da FEA-USP), apresentou um trabalho inédito de conclusão de curso sobre a participação das mulheres no mercado financeiro.

Lorrana Scarpioni – É criadora do Bliive, plataforma digital que viabiliza uma rede colaborativa de troca de tempo e serviços. Funciona assim: o usuário oferece uma experiência/serviço; alguém “contrata”, o usuário recebe em Time Money (moeda de troca da rede), com o qual pode “contratar” serviços de terceiros. A rede, criada no finzinho de 2013, já reúne mais de 60 mil colaboradores e se expande internacionalmente. Este ano, Lorrana, aos 23 anos, foi uma das duas mulheres da lista dos dez brasileiros mais inovadores com menos de 35 anos da MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Marina Gurgel Prado e Tatiana Pascowitch – Sócias da Bela do Dia, empresa que utiliza bicicletas para a entrega de flores em São Paulo. Inauguraram, em 2014, a floricultura ganhou ponto fixo, no bairro de Pinheiros, em SP.

Raquell Guimarães – Empresária de Juiz de Fora (MG), fundadora da marca Doisélles, criou o projeto Flor de Lótus aonde ensina tricot para homens que cumprem pena em uma penitenciária de segurança máxima. Seu trabalho teve amplo destaque na imprensa internacional em 2014, tendo sido noticiado por veículos como Le Monde (França) e The New York Times. As peças da Doisélles são comercializadas nos maiores centros de moda do mundo, como a Harrod´s, em Londres.

Talita Noguchi – Fundadora dos Las Magrelas, uma mescla de bar e bicicletaria onde, além de atividades baseadas no cicloativismo, rolam festivais de cunho feminista conhecidos como Desamélia com workshops, palestras e rodas de bate-papo.

  • INTERNACIONAL

Hilary Jones – É ativista de direitos animais e diretora de ética da Lush, marca britânica de cosméticos que não realiza testes com bichos. A companhia que preza pela sustentabilidade voltou este ano ao Brasil, onde planeja abrir 30 lojas inicialmente.

Martine Rothblatt – Trans* norte-americana fundadora e CEO da Silver Spring (empresa do ramo farmacêutico). Em setembro deste ano foi capa da New York Magazine sob o título da CEO mais bem paga dos Estados Unidos.

 

ESPORTE

Ana Boscarioli Em junho, chegou ao cume do Monte McKinley, no Alasca, e se tornou a primeira brasileira a escalar os “sete cumes” – o ponto mais alto de cada um dos sete continentes, considerado um dos maiores desafios do alpinismo. Em 2006, já havia se tornado a primeira brasileira a atingir o topo do Monte Everest, o local mais alto do mundo.

Etiene Medeiros – A nadadora de 23 anos bateu, no Campeonato Mundial de Piscinas Curtas, em Doha, o recorde mundial em 50m costas e conquistou a primeira medalha da natação feminina brasileira em Mundiais (é a nossa primeira campeã mundial!!!).

Seleção Brasileira Feminina de Handebol – Em 22 de dezembro de 2013, o Brasil ganhou o Campeonato Mundial de Handebol Feminino, realizado em Belgrado, na Sérvia. Não só é um título inédito nesse esporte no país, mas foi a segunda nação não-europeia (após a Coreia do Sul) e primeira da América conquistá-lo. Para completar, não perdeu uma partida sequer no torneio.

Terezinha Guilhermina – A velocista alcançou o 1º lugar do ranking mundial de 2014 nas provas de 100 e 200 metros na categoria T11, disputada por quem possui alguma deficiência visual. Neste ano, a atleta paralímpica brasileira também conquistou ouro nos torneios Grand Prix de Dubai, Open de Berlim e Open de São Paulo, todos em provas de 100 e 200 metros, além do 2º lugar geral no Meeting de Paris, nas mesmas provas. Uma das provas do Circuito de Corridas Instituto Sicoob, que acontece em Maringá (PR), leva o nome Terezinha Guilhermina em sua homenagem.

  • INTERNACIONAL

Corinne Diacre – Entra para a história por ser efetivamente a primeira treinadora mulher de uma equipe masculina de futebol profissional. O clube francês Clermont Foot havia anunciado Helena Costa como técnica, mas esta recusou o cargo de última hora, que acabou sendo assumido por Diacre. A atleta, além do feito, declara lindamente que, “salvo a sensibilidade”, não vê qualquer diferença entre treinadores e treinadoras.

Mo’ne Davis – A garota de 13 anos, que vive na Philadelphia, é estrela da Liga infantil (Little League) de baseball dos EUA. Ela, ao lado de outra colega, são as únicas meninas a disputar a liga em 2014 (elas jogam no time masculino). O arremesso de Mo’ne chega a 110km/h – a média de sua idade é 80km/h – e e garantiu a vitória de sua equipe este ano.  Ela foi a primeira atleta da Little League a aparecer na capa da Sports Illustrated, que a nomeou a atleta infantil do ano. Mo’ne se diz surpresa com o reconhecimento no baseball, quando na verdade o esporte preferido dela é o basquete.

 

INSPIRAÇÃO

Chames Salles Rolim – Se formou em Direito aos 97 anos de idade. O diploma de bacharel é da Faculdade de Direito de Ipatinga (Fadipa), em Minas Gerais. A senhora afirma que quer compartilhar o conhecimento adquirido a ajudar a sociedade.

  • INTERNACIONAL

Ellen Page – A atriz, protagonista de Juno e Hard Candy, fez, em fevereiro, um discurso contra a homofobia em que também se assumiu lésbica.

Emma Sulkowicz – Sobrevivente de um estupro na Universidade de Columbia, foi também vítima de descaso da administração da própria instituição. Como forma de protesto, carregou o colchão em que foi violentada pelo campus, pedindo que sua história fosse ouvida com o cuidado e respeito que merece e que seu agressor, punido.

Emma Watson – Como embaixadora da ONU Mulheres, lançou a campanha HeForShe, a favor dos direitos iguais e contra o machismo.

Jada – É uma adolescente negra norte-americana de 16 anos que sofreu estupro coletivo após ser vítima de um “boa noite Cinderela”. Fotos do crime foram divulgadas nas redes sociais junto com a hashtag #jadapose, agravando ainda mais a violência do ato. Jada não se intimidou e, com o apoio da mãe, postou uma foto de seu rosto com a hashtag #iamjada, afim de mostrar a pessoa por trás do meme. Ela também denunciou o fato à polícia, além de relatar a história aos veículos de imprensa.

Laverne Cox – Atriz transexual da série Orange is the New Black, é um importante ícone na luta contra a transfobia e em 2014 recebeu diversos prêmios por seu ativismo. Foi escolhida “Woman of the Year” pela revista Glamour, foi incluída no Root 100, uma lista anual que honra líderes inovadores e criadores de cultura negros que se destacam com menos de 45 anos, ficou em primeiro lugar na “Wolrd Pride Power List”, do jornal britânico The Guardian, que reúne as pessoas LGBTs mais influentes do mundo, e recebeu o Stephen F. Kolzak Award na categoria GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation).

 

LITERATURA

Jarid Arraes – Lançou uma série de cordéis feministas abordando temáticas de gênero, raça e sexualidade. A escritora também mantém a coluna Questão de Gênero na Revista Fórum e publica textos no Blogueiras Negras.

Jenyffer Nascimento – A poeta pernambucana lançou o livro Terra Fértil, onde fala sobre amor, cidade, diferenças sociais e orgulho da própria origem. A obra integra o Projeto Mjiba: Espalhando Sementes, que visa o fortalecimento da escrita negra e feminina.

Julia Bussius e Sofia Mariutti – Editoras na Companhia das Letras, a dupla têm conseguido trazer cada vez mais publicações feministas para o grande público. Sofia batalho para lançar gratuitamente o e-book de Chimamanda Ngozie Adichie, baseado no TED Sejamos todas feministas. Já Julia trouxe o Lean In (Faça Acontecer), de Sheryl Sandberg, e disponibilizou o e-book Meu corpo não é seu – Desvendando a violência contra a mulher em parceria aqui com o Think Olga.

Laura Folgueira e Marcella Chartier – A dupla é fundou a Kayá, editora cujo objetivo é publicar o feminino – seja apresentando novas autoras ou trazendo temas ou livros que tenham as mulheres como público-alvo – e ampliar a noção do que é ser mulher na literatura, nos estudos de gênero ou nas histórias infantojuvenis.

Marina Colasanti – É a autora de “Breve História de um Pequeno Amor” (Editora FTD), vencedor do prêmio Jabuti como melhor livro infantil de 2014.

Martha Lopes – Criadora do projeto KD Mulheres, que discute a participação e representatividade da mulher nas artes, com foco principal na literatura.

Pelas Mulheres Indígenas – O livro acaba de ser lançado por autoras de oito etnias da região Nordeste. Foi desenvolvido em oficinas de literatura que fazem parte de um projeto de formação continuada sobre o direito das mulheres indígenas. A publicação apresenta relatos de suas vidas, dificuldades, sonhos e expectativas além de informações sobre como prevenir e lidar com casos de violência conjugal.

Lady Sybylla e Aline ValekSão criadoras da primeira coletânea de ficção científica feminista do Brasil, a Universo Desconstruído, lançada em 2013. Neste ano, traduziram e colocaram à disposição o conto feminista Sultana’s Dream, o primeiro do gênero na história.

  • INTERNACIONAL

Margaret AtwoodEscritora canadense especialista em gênero de ficção científica/distópica e reconhecida por inúmeros prêmios literários internacionais importantes, tais como o  Arthur C. Clarke. Sua obra mais recente, a trilogia MaddAddam está sendo adaptada pela HBO, para uma série de tv e contará com a direção do Darren Aronofsky.

Sophia Amoruso – CEO da marca de moda americana Nasty Girl. A marca, fundada e presidida por ela, foi considerada uma das empresas com crescimento mais espantoso nos últimos anos. Em 2014, Sophia lançou o memoir #GirlBoss, sucesso de vendas, que conta um pouco da sua jornada errante e revela muito mais do que uma mulher virtuosa e de escolhas assertivas.

 

MODA

Flávia Durante – É criadora e produtora do Bazar POP Plus Size, que garimpa marcas de roupas de diversos estilos com numerações acima de 46. Tem roupa retrô, básica, praia, lingerie e fitness e a entrada custa somente R$ 5,00.

Luciane Barros – Fundadora do África Plus Size Fashion Week Brasil, evento de moda cuja missão é aumentar a visibilidade da moda afro-contemporânea, além de valorizar a a beleza, o talento e a auto-estima das mulheres negras plus size. O evento, lançado em 2013, ganhou força total neste ano, multiplicando o número de desfiles e participações em eventos de moda.

Nina Weingrill, Claudia Weingrill e Camila Silveira – Sócias da marca Velô, de roupas para ciclistas urbanos, lançada neste ano. As vestimentas são feitas com materiais tecnológicos, com proteção UV e tratamento bacteriostático, por exemplo. Ou seja, não pegam o cheiro do corpo, protegem do sol. Além disso, os tecidos usados não amassam e possuem secagem rápida.

Mulheres do Por Mais Turbantes Nas Ruas –  O grupo, criado em 2014, tem uma atuação bem local, em Sergipe, onde vendem alguns turbantes e oferecem oficinas e workshops em escolas para trabalhar questões de identidade, dialogando sobre cultura negra, auto-aceitação e racismo.

 

MÚSICA

Bárbara SweetÉ representante feminista no cenário do rap nacional, sobretudo nas batalhas de MCs, sempre batendo de frente com todo o machismo enraizado nas ruas.

Brisa De La Cordillera – Também conhecida como Brisaflow, é cantora, instrumentista, compositora e MC e tem levado a discussão feminista para dentro do universo do rap. A mineira de Belo Horizonte relata em suas letras as dificuldades em ser mulher e faz provocações inteligentes aos estereótipos de classe, de raça e de gênero.

Flora Matos – É cantora de rap e considerada um dos grandes nomes do rap na atualidade. Um dos destaques de 2014 foi sua presença na Maratona de Cartas Escreva por Direitos, evento de Direitos Humanos promovido pela Anistia Internacional.

Luana HansenÉ DJ, MC, produtora e usa sua palavra pra falar sobre assuntos do movimento feminista como aborto. Luana também é ativista pela maior participação das mulheres no universo do rap.

  • INTERNACIONAL

Anita Tijoux – A MC franco-chilena vem rimando os temas da vida das mulheres desde os anos noventa, em grupos como Makiza ou em carreira solo. Este ano, elevou seu discurso feminista a um novo patamar com o disco Vengo, ainda mais revolucionário.

Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet WeissElas formam o Sleater-Kinney banda que integrou o movimento riot grrrl, de grande influência nos anos 1990/2000. Se separaram em 2006, mas em 2014 anunciaram sua volta, lançando um novo álbum e turnê. Suas letras e atitudes sempre carregaram um viés feminista e de protesto.

POLÍTICA & ESTADO

Ana Paula Meirelles Lewin e Ana Rita Prata –  Coordenadoras do NUDEM – Nucleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher. Defensoras públicas que com o seu trabalho estão pautando para a população e o poder judiciário tema delicados e antes invisíveis da violência contra a mulher, como a violência obstétrica e o assédio sexual, contribuindo para o esclarecimento da população sobre todos os tipos de violência contra a mulher.

Amarilis Busch Tavares – Diretora da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Em 2014, coordenou importantes projetos na área da reparação moral, simbólica, coletiva e psicológica aos atingidos por atos de exceção durante a ditadura, e à sociedade brasileira como um todo, tais como as Caravanas da Anistia, o Projeto Marcas da Memória, o Memorial da Anistia Política do Brasil e as Clínicas do Testemunho. Também atuou diretamente em trabalhos da comissão sobre os 50 anos do golpe militar, como o “Cinema Pela Verdade” e o congresso Internacional “Memória- Alicerce de da Justiça de Transição e dos Direitos Humanos”, além de escrever artigos sobre o fortalecimento da democracia no Brasil e a dependência do pleno (re) conhecimento do nosso passado de violações e da efetivação da Justiça de Transição.

Cristiana de Castro Moraes – Em abril, tornou-se a primeira mulher a presidir uma sessão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, em 90 anos da história da instituição.

Fernanda Alves dos Anjos – Advogada mineira. Primeira mulher a assumir o Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação do Ministério da Justiça. Foi a única brasileira convidada pela relatora da ONU como um dos cinco exemplos mundiais em governança de política de tráfico de pessoas.

Isa Penna – Feminista, foi candidata a deputada estadual pelo PSOL. Denunciou o machismo no período eleitoral ao escrever uma carta-aberta ao UOL, portal que publicou uma lista com “as mais belas candidatas” da eleição de 2014.

Karina Kufa – Advogada e presidente do Instituto Paulista de Direito Eleitoral (IPADE) organizou o primeiro congresso sobre o tema em São Paulo. Em 2014, colaborou com artigos sobre a participação política da mulher e defendendo a maior representatividade feminina no Executivo e no Legislativo brasileiros.

Laís de Figueiredo Lopes – Advogada maranhense e assessora especial da Secretaria Geral da Presidência da República. Este ano se dedicou à articulação e diálogo com o parlamento e a sociedade em nome do Governo Federal para a aprovação da Lei13.019/14, que institui um novo Marco Regulatório das organizações da sociedade civil nas relações de parceria com o estado.

Luciana Genro – Durante as eleições para presidência de 2014, mesmo fazendo parte dos partidos “nanicos”, destacou-se nos debates televisivos em horário nobre por discutir abertamente temas como aborto, violência contra mulher, direitos civis LGBT, sem ser caricata.

Lucimara Passos – A vereadora ganhou destaque por seu discurso na Câmara dos Vereadores de Aracaju no Dia Internacional de Combate à Violência Contra Mulher, quando confrontou os discursos machistas de seus colegas, principalmente do vereador Agamenon Sobra, que havia criticado uma noiva por ter se casado sem calcinha. Na ocasião, Lucimara levou sua calcinha no bolso à Câmara e falou sobre o fim da opressão às mulheres enquanto segurava a peça.

Margarete Coelho – É deputada estadual do Piauí e, em 2014, foi eleita vice-governadora do estado. Conselheira Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), participou ativamente do movimento que instituiu a cota de 30% de advogadas paras as chapas da instituição e apoia diversas causas feministas, como a maior participação política da mulher e o parto humanizado

Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha – Pela primeira vez na história, uma mulher ocupou o cargo máximo de um Supremo Tribunal Militar. A ministra Maria Elizabeth assumiu a posição e se comprometeu a lutar contra a desigualdade de gênero e a homofobia nas Forças Armadas.

Telma de Souza – É deputada estadual em São Paulo e, Procuradora Especial da Mulher da Assembleia Legislativa. Em 2014, promoveu a criação do curso online “Gênero e Atuação Legislativa” em parceria com a Procuradoria da Mulher da Câmara dos Deputados e o Banco Mundial para qualificar as servidoras do legislativo de todo o país sobre a questão da mulher.

 

SAÚDE

Ana Lúcia Dias da Silva Keunecke, Raquel de Almeida Marques e Patrícia Hernandez – Pelo trabalho na Ong Artemis e pelas muitas conquistas no campo da saúde da gestante e na luta contra a violência obstétrica. Em 2014, conquistaram, via financiamento coletivo, os recursos para rodar a segunda parte do documentário O Renascimento do Parto.

Deisy Ventura – Professora de Direito Internacional da Universidade de São Paulo, debruçou-se sobre o tema da saúde global e suas relações com o Direito. Em 2014, foi uma das grandes vozes nacionais a abordar as questões jurídicas relativas ao ebola, denunciando a rede Globo de violar lei ao publicar dados de paciente suspeito de contágio.

Paola Altheia – Nutricionista e autora do blog Não Sou Exposição. Tornou-se referência em 2014 ao abordar temas relacionados a saúde, alimentação, imagem corporal, amor próprio e bem estar de uma perspectiva contrária à ditadura da magreza e da vilanização da comida. Deu uma entrevista maravilhosa e definitiva à Olga sobre nutrição, que você pode conferir aqui.

Rosana Beni – Jornalista e mãe de Anita e Raphael por processo de inseminação artificial aos 50 anos, está lutando na Câmara dos Deputados junto ao deputado Arnaldo Faria de Sá que a resolução do Conselho Federal de Medicina que proíbe fertilização após os 45 anos seja aprovada. Também concedeu inúmeras entrevistas esclarecedoras sobre o tema.

 

TECNOLOGIA

Ana Ribeiro – Seu projeto foi um dos selecionados do Hackathon Gênero e Cidadania – Câmara dos Deputados deste ano. Ana tem 18 anos, estuda Ciência da Computação na Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, é feminista e programadora. Seu projeto, o Grrls Hacks, se propõe a reunir as pouquíssimas mulheres que trabalham no universo da Ciências da Computação e Tecnologia da Informação, para que elas se encontrem, troquem ideias, fomentem o debate e ajudem a aumentar a participação feminina na tecnologia.

Camila Achutti – É Diretora Nacional do Technovation Challenge Brasil, uma competição que busca empoderar meninas por meio da tecnologia. Em 2014, foi responsável por uma série de workshops pra ensinar garotas a programar.

Camila Ziron, Estela Machado, Hadassa Mussi, Larissa Rodrigues e Letícia Santos – As estudantes de 16 anos criaram o aplicativo App For You para ajudar meninas que tiveram fotos íntimas expostas na internet ou que sofreram algum tipo de assédio virtual. Por meio dos app, as vítimas poderão conversar entre si e aprendem como a legislação às protege.

Diana Assenato Botelho e Natasha Madov – Criadoras do portal Ada.vc, especializado em tecnologia e cujo objetivo é incentivar uma maior participação feminina na área. Diana também é uma das fundadoras do Arco,  startup que inovou a experiência de e-commerce ao desenvolver um sistema de compras pelo Instagram.

Salete Farias – É professora do Instituto Federal do Maranhão e desde janeiro coordena o curso técnico de informática da instituição, aonde também ministra aulas como “Linguagem de Programação Python”, “Estruturas de Dados” e “Banco de Dados”. Foi curadora da área de software livre da Campus Party Brasil de 2014 e mediou uma mesa redonda sobre mulheres, tecnologia e software livre.

Tatiana Capitanio – É criadora do Data4Good, projeto que busca incentivar o uso de dados como instrumento de mudança e solução de problemas sociais. Em 2014, ano inicial oficial do projeto, já impactou mais de duas milhões de pessoas com uma ferramenta bem “simples”: informação.

  • INTERNACIONAL

Whitney Wolfe – Uma das fundadoras do Tinder. Ela denunciou o assédio sexual e a discriminação no trabalho que sofreu do também cofundador Justin Mateen e do CEO Sean Rad. Os abusos fizeram com que ela tivesse que pedir demissão. Em novembro, Whitney lançou o Bumble App, concorrente do Tinder com um diferencial: o controle da paquera fica nas mãos da mulher. É ela quem precisa iniciar a conversa, caso contrário a conexão desaparece em 24 horas.

 

EM MEMÓRIA

Cláudia Silva Ferreira – Auxiliar de serviços gerais, moradora do Morro da Congonha, foi alvejada ao sair de casa para comprar pão e teve seu corpo arrastado pela Polícia Militar no Rio de Janeiro. Ela deixou marido, quatro filhos e muita saudade.

Jandira Magdalena dos Santos Cruz e Elisângela Barbosa – Mortas pela ilegalidade do aborto. Jandira era auxiliar administrativa e tinha duas filhas. Elisângela era casada e tinha três filhos. Ambas procuraram clínicas ilegais para interromper gravidezes indesejadas e pagaram com a vida por um direito garantido somente às classes altas do Brasil.

Maya Angelou – Intelectual de grande importância por suas diversas contribuições literárias e pioneirismo. Entre seus muitos feitos, foi a primeira roteirista e diretora negra em Hollywood. Ativista dos direitos civis, atriz, dançarina, professora. Foi nomeada para o Pulitzer Prize em poesia e porta-voz dos direitos dos negros e das mulheres.

Rose Marie Muraro – A intelectual e uma das pioneiras da luta feminista no Brasil faleceu em junho, em decorrência de um câncer na medula óssea.

Tuğçe Albayrak – Jovem que perdeu a vida após defender duas mulheres de assédio, na Alemanha.  Ela não resistiu aos ferimentos e teve os aparelhos que a mantinham viva desligados no dia de seu aniversário de 23 anos. Milhares de pessoas compareceram ao seu funeral

Vange LeonelEscritora, cantora, compositora, feminista, ativista LGBT e Lupulina, sendo uma das autoras do blog de cerveja artesanal homônimo. Faleceu em julho, vítima de um câncer no ovário.

 

MENÇÃO HONROSA

Leitoras da OLGA – Que ano incrível, dolorido, sofrido, bem-sucedido, complexo e rico que foi 2014. E se chegamos ao fim dele sãs (quase!) e salvas foi graças ao apoio de vocês. Obrigada por todos os e-mails, debates no Talk Olga, tweets, mensagens via Facebook, depoimentos enviados, denúncias feitas no Mapa Chega de Fiu Fiu, doação feita ao nosso documentário Chega de Fiu Fiu e apoio moral. Agradecemos, inclusive, às meninas que nos ajudaram a montar essa lista. De coração, obrigada. Vocês são as nossas mulheres inspiradoras!

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“Tu no me vas a humillar, tu no me vas a gritar
Tu no me vas someter tu no me vas a golpear
Tu no me vas denigrar, tu no me vas obligar
Tu no me vas a silenciar tu no me vas a callar”
– Ana Tijoux (Anti Patriarca)

Com o objetivo de conhecer um pouco melhor três vozes femininas que derrubam fronteiras no rap / hip-hop, gêneros musicais ainda essencialmente dominados pelos homens, fomos até São Carlos, no interior paulista, durante o Festival Multimídia Colaborativo Contato, acompanhar de perto o trabalho, a histórias e os percalços destas três corajosas e inspiradoras artistas: Ana Tijoux, Miss Bolívia e Karol Conká.

Antes de falar sobre as entrevistas, é preciso abrir um parênteses aqui sobre representatividade e até a importância da iniciativa do “Entreviste uma Mulher”. Quando descobri que era a única jornalista mulher do grupo, não sabia se ficava chateada ou feliz (afinal, pelo menos eu estava lá para representar). Mas conversando com meus colegas, acabei ficando um pouco chocada ao saber que nenhum deles iriam entrevistar a Ana Tijoux ou a Miss Bolívia, apesar de serem as únicas atrações internacionais do festival. Fiz uma certa campanha, e a Tijoux acabou sendo entrevistada por outro veículo, mas mesmo assim, foi um baque muito grande dar de cara com essa realidade.

Aqui, faremos diferente e todo espaço será dado a elas:

ANA TIJOUX

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Chilena de raízes indígenas e criada na França durante o exílio dos pais por conta da ditadura de Pinochet, Ana começou como MC do grupo Makiza. Lançou em 2007 seu primeiro disco solo, e desde então se destaca no cenário mundial com sua mistura de hip-hop e pop latino. Seu hit1977 entrou na trilha da amada série Breaking Bad. Em 2014 lançou “Vengo”, seu quinto álbum, já sem utilização de nenhum sample (prática clássica do hip-hop), segurando suas rimas apenas com a excelente banda. Suas letras são pautadas pelo feminismo, pos colonialismo, violência, e seu constante ativismo em questões sociais.

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“Liberarse de todo el pudor,

Tomar de las riendas,
No rendirse al opresor.
Caminar erguido, sin temor,
Respirar y sacar la voz.”
-Ana Tijoux (Sacar La Voz)

MISS BOLIVIA

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Apesar de usar o codinome Bolívia (por ter morado memoráveis 6 meses no país), Maria Paz é na verdade Argentina, morou por dois anos na cozinha de um casarão abandonado de um amigo em La Boca. A cantora já lançou dois álbuns desde 2008, que misturam rap, cumbia, funk, dance-hall. Nesse período já levou seu som para turnês internacionais onde acrescenta artes visuais e dança em apresentações performáticas e eletrizantes.
Psicóloga há 10 anos, e professora de Universidade, a artista trabalha em um estudo sobre os benefícios físicos e sociais da legalização da maconha. Porém deixou de lecionar há dois anos já que não era mais levada à sério na sala de aula e pela própria Universidade ao adotar o visual de dreads e se tornar uma cantora cada vez mais famosa.

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“Voy con musica vos con lucha ma
suena de mujer a mujer, toma mi mano
quiero sanar tus heridas
quiero transformarlo en memoria y vida”
– Miss Bolívia (Rap Para Las Madres)

KAROL CONKÁ

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A curitibana Karol Conká aparece como um dos destaques do Festival, em excelente momento da sua carreira. Logo após voltar de uma longa turnê internacional, Karol que conseguiu visibilidade pelo MySpace, concorreu `a artista revelação no extinto VMB, lançou seu primeiro EP em 2011 e seu primeiro disco, Batuk Freak, que mescla elementos do rap tradicional com sons típicos brasileiros em 2013. Suas letras falam de empoderamento, feminismo, autoestima de uma forma leve, dançante e divertida.

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“Se quer medir forças sei que me garanto,
Sem conversa froxa, sem olhar de canto,
Fecha a boca, ouça, eu não tô brincando,
Sua estratégia fraca já vo chega te derrubando.”
– Karol Conká (Me Garanto)

NO PALCO

Apesar de beberem das mesmas fontes, a apresentação das três artistas são absolutamente diferentes entre si. Enquanto Ana forma uma unidade em total sintonia entre ela e sua banda, fazendo com que a gente realmente entenda o conceito de igualdade de gênero, Karol é a rainha absoluta de seu palco, dominando-o de ponta a ponta, deixando para os seus músicos o papel de coadjuvantes. Já Miss Bolívia, que costuma viajar com sua crew de vários músicos, estava contando apenas com 3 no palco, e mesmo assim utilizou sua voz, corpo, dança e energia para transformar sua apresentação em uma festa `a céu aberto para delírio do público.

COMEÇO DE CARREIRA

Em comum, o começo da carreira das três foi marcado justamente pela mesma questão: mulheres seguindo um caminho fora dos padrões sociais, desconstruindo estereótipos.

Ana, apesar de admitir se envolver tardiamente com o feminismo, sempre procurou fugir dos temas machistas e violentos do gênero. Karol, que segundo sua mãe faz hoje no palco a mesma coisa que fazia quando criança na frente das bonecas, ficava ofendidíssima quando a elogiavam dizendo que ela “rimava como um cara”. E Bolívia, apesar de ter começado “tardiamente”, aos 30 anos tocando bateria, costumava ouvir todo tipo de desencorajamento por parte dos caras que simplesmente não acreditavam em seu trabalho.
SER MULHER NO MEIO RAPPER

Críticas e perguntas indiscretas não faltam nesse quesito. Ana Tijoux conta que sempre teve que lidar com jornalistas mulheres perguntando “Mas por que o rap?” — o que considera uma pergunta em si machista. Miss Bolívia diz que apesar de ter que constantemente provar seu valor no começo de carreira (já não bastasse o desafio de convencer a si mesma), constata que depois que enfrentou essa barra, conseguiu conquistar respeito e que hoje os caras de sua equipe se tornaram grandes parceiros. Já a Karol costumava chegar botando tanta banca e tanta marra que os caras se intimidavam com tamanha atitude, e a garota sempre saía por cima. Ela aproveita sua posição de destaque no meio para ser a voz das mulheres, escrevendo pensando nelas, e credita parte do boom de seu sucesso ao conteúdo de suas letras de autoestima e superação, enquanto rebola de mini shorts, sem se importar com celulite e mandando a galera mexer a pélvis de cima do palco.
“Vai com calma, rapaz, mais respeito
Dá dez passos pra trás, fica ai mesmo
É bom ter disciplina se quiser sair ileso”
– Karol Conká (Gandaia)

“Deixa ela, deixa!
Ser livre, seguir sem se importar
Se quiser ir pra qualquer lugar que vá
Não tem asas mas pode voar
Ela só quer viver, ela só quer viver!
Andar de sandália pela Jamaica”
– Karol Conká (Sandália)

CONTATO COM O FEMINISMO

Ana Tijoux chega a quase se desculpar pelo seu envolvimento “tardio” com o feminismo. Segundo ela, foi por ignorância mesmo: antes até se referia às militantes como feminazis, como muitas de nós. Foi quando leu e refletiu mais sobre o tema, com a ajuda de autoras como Simone de Beauvoir, que a ficha caiu e ela se encontrou, sendo hoje uma das grandes ativistas da causa.

O contato de Karol com as questões de gênero se deram de uma forma inusitada: aos 10 anos, sua melhor amiga era uma travesti de 35 anos. Desde cedo, ela brincava de ser travesti e, queria porque queria ser uma delas quando crescesse. Esse foi um dos seus primeiros contatos com as questões de gênero e com o preconceito e incompreensão que as minorias sofrem. Em suas letras e durante seus shows, Karol abusa da performance, botando para fora toda sua maravilhosidade e influência da sua amizade de infância, conquistando em cheio o público gay.

Já Miss Bolívia tem atitude digna de uma riot grrrl em seus shows, afinal, ela mostra o corpo, rebola, dança e grita “Free Marijuana!” para um público que dificilmente sabe respeitar uma mulher. Ela conta que uma vez durante uma apresentação, em um momento de silêncio, um cara gritou “ABRA SUAS PERNAS”. Ela abriu e respondeu “Ok, abertas porque eu quis e o que você vai poder fazer agora? Nada. Então fica aí na sua”. O público foi a delírio e aparentemente nunca mais ninguém fez uma gracinha dessas.

“Dicen que soy caprichosa,
que soy jodida y que soy celosa
dicen de mí tanta cosa, y todo están de acuerdo,
que tengo lengua peligrosa”
– Miss Bolívia (Caprichosa)

VIOLÊNCIA NA INTERNET

A internet pode ser um lugar bem hostil, especialmente se você é mulher, com o agravante de fazer sucesso. Ana diz que não liga a mínima e apenas dá risada. Bolívia, que no começo se importava, mas hoje em dia superou. Os xingamentos de “vagabunda” são frequentes, mas por uma questão de manter o karma limpo, ela simplesmente não responde. Já Karol teve que ouvir acusações machistas e cruéis de que “estava estragando o rap”, seguidas de “quem é você para mandar as meninas rebolarem” e até “essa neguinha é feia” quando lançou seu primeiro disco. Do alto de sua segurança, Conká apenas vê essas pessoas como seres que infelizmente estão aprisionados em um padrão ignorante. Mas nós sabemos como é difícil ser mulher todos os dias, imagine em um ambiente predominantemente masculino e tão hostil com elas.

MATERNIDADE

Se mulheres que se dedicam à sua profissão e seguem seus sonhos normalmente são julgadas e cobradas em relação aos filhos, o que dirá sobre rappers que vivem em turnês? Ana é enfática ao falar como lida com as pressões e julgamentos: “Minha casa é o meu templo e como eu crio meu filho está absolutamente fora de questão”.

Karol se abre e conta que depois que teve seu filho, aos 19 anos, precisou lutar contra uma forte depressão que durou 2 anos. Por causa do pensamento machista geral e dos comentários clássicos de “engravidou, tá fodida”, ela, que sempre sonhou ser cantora, achou que era o fim de uma carreira que mal tinha começado. Um dia, olhou para o filho dormindo no berço e se questionou “por que eu tô fodida? Quem disse que eu tô fodida?” e decidiu provar para todos que eles estavam errados.

Enquanto isso, Miss Bolívia, 39 anos, optou por não ter filhos biológicos: argumenta que seu corpo é seu instrumento de trabalho e que precisa de pelo menos de 6h de tempo para si mesma, então não se sente pronta para lidar com um bebê completamente dependente dela. Pensa em adotar uma criança já maiorzinha: “as pessoas gastam rios de dinheiro tentando engravidar, sendo que as crianças já estão aí no mundo, esperando por um lar”.
DICA PARA AS GAROTAS QUE ESTAO SEGUINDO OUTROS CAMINHOS

A melhor parte de ter passado por dificuldades é poder abrir caminho e passar sua experiência para quem está começando agora.

O conselho de Ana é que você, antes de tudo, deve saber o que quer fazer, com quem quer fazer, como quer fazer e então traçar o caminho que vai seguir. Ter isso bem claro em sua mente e disciplina para seguir em frente é o que ela tem de mais valioso para dividir com as garotas que querem seguir caminhos não convencionais.

Karol fala para as garotas fazerem o que ela fez consigo mesma: “olhe-se no espelho, se aceite como é e lembre que todo mundo um dia irá morrer. Ficar pensando no que os outros irão achar ou tentar agradar pessoas que não sabem nem o que querem só vai fazer com que você perca um tempo imenso de sua vida, que não tem volta. Então pense em você em primeiro, segundo e terceiro lugar e se respeite. Só assim é possível respeitar o próximo.”


Débora Cassolatto é redatora, curadora musical e DJ há mais de 10 anos nas casas rockers do baixo Augusta. Criadora do tumblr parceiro da MTV Brasil Ouvindo Antes de Morrer onde ouve, posta e compartilha impressões sobre todas as músicas do livro “1001 songs you must hear before you die”, entre outros conteúdos sobre música. Também fundou o blog Música de Menina, espaço que subverte a questão de gênero e música.

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Historicamente, o bordado é uma atividade fortemente associada ao universo feminino. Os motivos, cuidadosamente desenhados com linha, agulha e dedicação, costumam retratar cenas puramente ornamentais cuja função é apenas decorativa, como flores e animais. De modo geral, a prática já não é uma habilidade exigida das mulheres como outrora, tampouco conserva-se intacta a tradição de transmitir a técnica de mãe para filha. Um coletivo de bordadeiras paulistas, porém, resolveu resgatar o bordado de uma forma diferente, trazendo como tema imagens e conceitos que fazem parte do universo erótico das mulheres.

As amigas Vanessa Israel, Renata Dania, Lais de Souza, Amanda Zacarkim, Camila Lopes e Marina Dini, criadoras do coletivo Clube do Bordado, estão fazendo sucesso ao representar de maneira despudorada o corpo feminino, sexo oral, masturbação e palavrões em suas delicadas criações. “É muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica, que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher ‘pra casar’ deveria saber bordar, cozinhar, etc”, explica Vanessa. Um trabalho que subverte a noção de que bordar é uma atividade engessada e obsoleta, dando a ela uma nova roupagem e um verniz artístico. As criações podem ser conferidas no site do Clube e adquiridas sob encomenda.

O que é o Clube do Bordado e por que ele foi criado?

Marina: O clube foi criado a partir do desejo de aprender a bordar e ter uma atividade nova dentro das nossas rotinas. A Rê e Lalá, que moram juntas, pediram para a Camila algumas aulas em casa e acabaram convidando as outras meninas que ficaram interessadas. Semanalmente nos encontramos na casa das meninas para bordar, bater papo e trocar ideias. Hoje o clube está virando negócio já que vimos um interesse muito grande das pessoas em adquirir nossas criações.

Amanda: O Clube do Bordado é uma boa desculpa para se reunir. Digo isso porque, antes de começarmos os projetos temáticos, só a ideia de ter um Clube já servia para facilitar o encontro em meio ao caos da cidade, acompanhado de conversas, comidinhas e updates da vida. O Clube juntou amigas e amigas de amigas com a ideia de aprender algo feito à mão, e a facilidade de ter alguém ao seu lado que pudesse ensinar a melhor forma de executar tal ponto, dar pitaco sobre um desenho escolhido, essas coisas. Cada encontro foi se tornado um evento, porque as anfitriãs, Renata e Laís, são prendadas e adoram receber bem, então a soma de todos esses fatores fez com que os encontros semanais fossem tomando forma e ganhando ideias de coleções, temas, negócio… Até que todas nos tornássemos ‘donas’ desse filhote coletivo.

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Por meio de uma ferramenta muito inocente, vocês exploram a sexualidade feminina de uma maneira muito elegante. Por que a temática?

Laís: A Vanessa fez um bordado softporn e a gente amou! E um amigo nosso falou que ia ter uma feira/festival de arte pornô e sugeriu da gente tentar se inscrever. A gente curtiu a ideia de “formalizar” o clube. E a gente notou que é muito legal falar de um tema tão íntimo abertamente. Por incrível que pareça, sexualidade feminina ainda é um tabu. Trazer ela a tona, para ser pensada, discutida, é muito importante. Descobrimos que, fazer isso se apropriando de uma técnica tão tradicional e tida como “atividade para mulheres”, foi um jeito de subverter todos os significados. Tanto do bordado quanto da sexualidade. Eu convidei alguns dos meus amigos (homens) para bordar, e as respostas eram sempre em tom de deboche, como se fosse algo muito engraçado um homem bordando. Seguindo por essa linha vem a sexualidade feminina e uma tonelada de tabus. E por que não aproveitar para expor tudo isso? Fazer as pessoas questionarem o que elas entendem por um grupo de 6 mulheres que se encontra semanalmente para bordar. A gente gosta de brincar com esses elementos tidos como contraditórios, mas que fazem muito sentido juntos: tecidos delicados e floridos, cores suaves, estampas de bolinhas, tudo bordado com palavrões, insinuações se sexo oral, masturbação, perversões, etc. Acredito que o mais legal é mostrar que tudo isso pode vir junto, ou separado. Além do que o sexo, e tudo que envolve o tema, sempre foi um dos assuntos recorrentes dos nossos encontros, então era natural colocá-lo na nossa produção.

Vanessa: Partindo de um olhar mais superficial, sou apaixonada pelo contraste da técnica delicada e até inocente com nossas temáticas nada discretas. Porém, além disso é muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher “pra casar” deveria saber bordar, cozinhar, etc. Desde que começamos a expor os trabalhos do clube, temos recebido alguns depoimentos de senhoras que odiavam ser obrigadas a aprender a bordar dizendo que se tivessem tido a ideia de bordar o que bordamos, com certeza a atividade teria sido bastante prazerosa. (umas fofas!)

Como é o processo de criação de vocês?

Marina: No começo do clube não trabalhávamos com temas. Quando surgiu o tema do Popporn, cada uma de nós pesquisou ou criou imagens a partir de ideias particulares. Eu pelo menos pensei em algo que eu gosto e a partir daí sair em busca de referências e imagens. Agora já temos uma lista de coleções que queremos produzir e a próxima é a Cinéfilos. Fizemos uma pesquisa no Facebook para saber quais filmes as pessoas gostariam de ver bordados. A partir dessa lista fizemos uma seleção e acrescentamos vários outros que nós gostaríamos de bordar. Cada uma ficou responsável por alguns deles e a partir daí temos toda a liberdade de criar. Estamos coletando nossas cenas, imagens e frases favoritas e vamos desenvolver os bordados com a identidade única dos filmes e de cada bordadeira.

É preciso coragem para expor um assunto visto como tabu, como a sexualidade da mulher, de forma tão clara. Como tem sido tratar dessa questão de forma tão pública e tão artística?

Renata: O feedback tem sido ótimo! Até hoje os comentários são muito positivos e sempre recebemos mensagens de apoio e incentivo. De uma forma delicada e singela, temos representado através do bordado ilustrações e ideias com as quais muitas pessoas tem se identificado. É muito legal ver que hoje o bordado despertou nossa curiosidade e escolhemos representar nossas ilustrações através dessa técnica.

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Entrevistamos a Cris Bertoluci, para a Olga, no ano passado. Ela disse que o tricotar era uma forma de conquistar a liberdade. Vocês acreditam que o bordado também tem um quê de libertador? 

Marina: Acho que sim, bordar é libertador assim como todas as expressões artísticas. Um bom exemplo disso são os homens interessados em bordar com a gente. No passado isso dificilmente aconteceria, um homem jamais se diria interessado em uma atividade destinada unicamente à mulheres. A partir do momento que você tem um bastidor e uma agulha nas mãos o bordado pertence apenas à você e é muito libertador poder decidir o que quer fazer com aquilo.

Vanessa: Sim! Acredito que o bordado seja um ótimo caminho não só para a liberdade como as meninas já explicaram, mas também para o auto conhecimento, pois além de bordarmos juntas semanalmente, parte de cada projeto é executado de modo solitário, em que apesar de termos o foco e a atenção voltados para as mãos e a feitura da ilustração, a atividade permite a livre fruição do pensamento, possibilitando o exercício da paciência para desfazer e refazer cada ponto que foi para o caminho errado e também a compreensão do tempo das coisas, já que é um processo impossível de ser acelerado.

Vocês acreditam que o trabalho de vocês seja empoderador para mulheres?

Vanessa: Com certeza. Tentamos expor assuntos como masturbação feminina, tipos diferentes de corpos e diferentes sexualidades, com o intuito de fortalecer a auto estima das mulheres. O retorno tem sido tão positivo que já fizemos um encontro aberto para conhecer melhor as meninas que gostam do nosso trabalho e pretendemos fazer outros!

Laís: Muito! Impressionante o quanto. Quando eu comecei a bordar eu já senti a força que tinha colocar para fora algo que só existia na minha cabeça. Eu sinto esse empoderamento primeiro comigo. O bordado me deu força, para eu acreditar em mim mesma, na minha criatividade, na minha capacidade de me comunicar e impor e expor os meus pensamentos. E tudo isso fica refletido no bordado que eu faço. Teve uma amiga que veio me contar que amou a idéia, que ela queria aprender a bordar também e me contou até algumas intimidades da vida dela. Foi um diálogo que se abriu. E só com muito diálogo que a gente consegue mudar os nossos pensamentos. Nossa forma de ver o mundo e de se relacionar. Que o bordado seja uma forma de abrir muitos diálogos, questionamentos, reflexões. Para que, no futuro, a sexualidade deixe de ser um tabu.


Edição: Luíse Bello

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