bicicleta de rodinha

bicicleta de rodinha

Laura Athayde gosta de desenhar mulher pelada e colorir com aquarela. É nova no universo dos quadrinhos, e muitos de seus trabalhos são autobiográficos. Laura tem uma desenhista dentro do armário que, de vez em quando, deixa escapulir. Mudou-se há alguns meses para São Paulo, onde já foi cuspida por um mendigo e ganhou um par de sapatos de um taxista desconhecido, e estes experimentos refletem suas impressões sobre descobrir(-se) o mundo. Ela faz parte da equipe do Zine XXXConheça seu Tumblr e sua página no Facebook.

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“Quando eu tirei a roupa toda, ele simplesmente olhou, fez uma expressão de sobrancelha, deu as costas e foi embora… Fiquei lá, olhando ele indo, puxando as roupas pro corpo, com os olhos já cheios de lágrimas.”

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De repente, a artista Negahamburguer começou a receber confissões de anônimas tão dolorosas quanto a escrita acima. Uma atrás da outra, elas pingavam em seu e-mail, sempre com as mesmas aflições relacionadas ao corpo e auto-estima. Mas por que mulheres de todo o país – de todas as idades e de todos os formatos – sentiram-se à vontade para escrever suas vivências mais tristes para uma desconhecida pela internet? É que Negahamburguer, que também atende por Evelyn Queiróz, de 27 anos, vem ilustrando um mundo onde a diversidade é vista com carinho.

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Em seus desenhos, protagonizam personagens que assumem suas formas: gorda, magra, alta, baixa, com dobrinhas, curvas e pelos. Todas têm duas coisas em comum: 1) São, sobretudo, mulheres reais. 2) Exercitam uma aceitação alegre e verdadeira do próprio corpo. “Sou muito feliz com a minha leveza”, “gordas também são amadas”, “meu tamanho é lindo, meu peso, ideal”, “é muito egoísmo da minha parte esconder tanta beleza natural” são algumas das frases que acompanham os desenhos.

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Conforme os depoimentos foram aumentando, Negahamburguer decidiu transformar a dor e a coragem em um projeto, o Beleza Real. Por meio de intervenções urbanas (grafites e stickers), a artista espalha pela cidade as histórias dessas pessoas que “por culpa do padrão de beleza que é imposto já sofreram algum tipo de preconceito por qualquer condição linda que a nossa sociedade insiste em falar que não é bom ou bonito”. Mulheres reais para valer e não só para publicitário ver. O projeto foi parar no Catarse e conta com a ajuda de crowdfunding para virar livro. Qualquer pessoa pode colaborar em troca de brindes como a própria publicação, camisetas, adesivos e cadernos.

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A seguir, um bate-papo com Negahamburguer:

CHEGA DE PADRÃO

“Acho que a dificuldade enfrentadas pelas mulheres quando o assunto é o corpo e a auto-estima está em achar que é preciso se encaixar em uma lista de detalhes para se sentir bem e bonita. Com isso, se perde a ideia do como é lindo sermos diferentes, já que é assim que somos.”

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FALTA CUIDADO COM O OUTRO

“De vez em quando aparece um perfil fake causando ou alguém que não entendeu nada da proposta dos meus desenhos. Estou aprendendo a lidar com essa situação, com pessoas que não consegue enxergar o próximo. Fico triste por elas serem assim.”

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BELEZA REAL

“O projeto começou quando passei a receber histórias de pessoas que se identificavam com o trabalho. Vi que essas vivências poderiam ser base para algum projeto legal. Choro toda vez que leio um depoimento. A gente acha que já passou por constrangimentos, mas quando você conhece a experiência do próximo, percebe que não é só com você, e que muita gente passa por muita coisa pior no cotidiano.”

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A PARANOIA É LUCRATIVA (PARA ALGUNS)

“Não há diversidade nas publicações femininas e nas campanhas publicitárias porque não convêm. O que a publicidade mais quer é que a mulher se enxergue como insuficiente para poder vender porcarias que prometem fazer com que elas sejam mais felizes.”

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AMOR PRÓPRIO

“Sempre tive uma relação tranquila com meu corpo, nunca me cobrei. Até pensava uma coisinha aqui e outra ali quando era mais nova, mas nunca tomei alguma atitude pra mudá-lo. Gosto muito dele.”

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AMOR - Ana Helena Tokutake

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A arte tem gênero? O que é um desenho com traço “feminino”? Para discutir esse tema, convidamos duas jovens artistas brasileiras para debater o mundo da ilustração, suas inspirações e seus obstáculos. Ana Helena Tokutake (conhecida como Iamana), 28 anos, desenha, pinta, tricota, borda, fotografa, canta, toca e está também buscando a arte no mundo das flores. “Comecei um curso de Ikebana logo que voltei de uma viagem ao Japão”, conta. “De muitas maneiras, essa arte está ligada com tudo que já faço: as cores, texturas, equilíbrio, mas tudo isso com flores, o que torna tudo mais vivo.” Entre os trabalhos que mais gostou de fazer está o pôster da turnê de 20 anos do disco Last Splash, do Breeders (acima).

A capixaba Irena Freitas, 22 anos, adora desenhar mulheres e trabalha numa empresa de games – o que significa lidar constantemente com questões relacionadas a gênero. Uma das suas ilustrações favoritas é a com os personagens do filme Moonrise Kingdom, de Wes Anderson. O trabalho virou capinha de iPhone e conquistou até Lena Dunham, atriz, roteirista e diretora do seriado Girls, da HBO (veja na foto acima). Recentemente, também colaborou com a nova edição da publicação Petty Pony, sobre Harry Potter.


 

Ana Helena Tokutake: Bom, me conta como você começou a ilustrar. 

Irena Freitas: Eu sempre desenhei e sempre quis trabalhar com isso, sabe? Mas eu não sabia se dava (risos)

Ana: Super sei! (risos)

Irena: Aí, quando eu tinha uns 15, 16 anos, comecei a conhecer gente pela internet que fazia isso. Foi quando comecei a me focar mesmo, não só desenhar atrás de caderno da escola. Tu sempre fizeste esse teu tipo de arte ou foi algo que foi desenvolvendo com o tempo?

Ana: Sim, acho que é sempre assim. Uma coisa natural que a gente nem vê e já tá fazendo… Eu também sempre desenhei, desde sempre. E uma hora vi que tinha aceitado um trabalho de ilustração sem entender muito bem como que seria isso! Daí você vai aprendendo fazendo, tropeçando. Meu trabalho mudou com o tempo. E é engraçado que vi seus trabalhos e um dos primeiros trabalhos que fiz foi para a revista Capricho também. Que é super a revista das meninas. Como é pra você pensar que está desenhando para meninas?

Irena: Nossa, quando eu aceitei o meu primeiro freela para a Capricho eu não sabia nem o que eu estava fazendo. (risos) No final eu mandei um e-mail pra editora de arte da revista pedindo desculpas por qualquer burrada que eu tivesse cometido (risos).

Ana: No fim, dá tudo certo, né? Porque acho que, querendo ou não, a gente faz tudo muito intuitivamente.

Irena: Mas mesmo assim, toda vez que pego algum projeto novo, fico meio empolgada e meio nervosa.

Ana: Sim! Acho que isso é para sempre. Eu adorei muito seus desenhos que são cheios de personagens, uma coisa que eu tenho mta dificuldade em criar. Como é pra você criar personagens, principalmente meninas?

Irena: Sabe que eu nunca parei pra pensar nisso? Eu acho que eu gosto muito de personagens em geral, em livro, em filme ou na TV. É uma das coisas que eu mais gosto num top 10 da vida (risos). Então é natural desenhar isso. E eu sempre tive referências femininas, tipo heroínas favoritas mesmo, então é algo que eu  reproduzo.

Ana: Eu vejo que você escolhe o tipo de personagem que quer representar. Para mim, suas personagens sempre parecem estar exatamente onde elas querem estar, parecem decididas e com personalidade forte. Quem são suas heroínas favoritas?

Irena: Nossa, é uma INFINIDADE. Mas vou tentar listar algumas: Lizzie Bennet, Cher Horowitz [Patricinhas de Beverly Hills], Buffy [a Caça-Vampiro], Sophie Hatter [Howl’s Moving Castle], Dana Scully [Arquivo X], Kat Stratford [10 Coisas Que Eu Odeio Em Você] e mais um monte de gente. Tu tens algo do tipo também? Porque você diz que tem dificuldade de representar personagens, mas as suas fotos sempre parecem representar a rotina de alguém ou o lugar onde essas pessoas vivem, sabe? Fico agoniada com aquelas fotos que parecem pra revista de decoração: tudo lindo, mas parece que ninguém vive ali naquele lugar.

Ana: Adorei as meninas que você citou. Todas tem a atitude de não ficar esperando as coisas acontecerem e acho que estão sempre questionando as coisas. Acho que minhas heroínas são um pouco assim também. Quase sempre da música ou artistas também: Frida Kahlo, Patti Smith, Louise Bourgeois, Marina Abramovic, Debbie Harry. Sobre os personagens, gosto de criar um ambiente, uma imagem que deixe um espaço. De alguma maneira, eu tenho ido muito para um caminho de abstração, de tentar deixar o mais elementar possível. Mas acho legal que vejo um pouco disso também nos seus desenhos, de você conseguir criar esses espaços. Seu desenho tem um traço simples, mas muito expressivo. É um lance de ter um mistério por trás de tudo. Todas essas nossas heroínas têm um pouco disso: serem misteriosas e super expressivas ao mesmo tempo.

Irena: Verdade! Eu gosto de dar um pouco de espaço pra interpretação. Honestamente, acho que meus desenhos são mais personalidade que técnica. E às vezes isso me deixa um pouco preocupada do ponto de vista profissional. Mas eu também não me sinto muito atraída por trabalhos que se prendam muito à realidade, tipo pinturas realistas.

Ana: Me incomoda um pouco o lance do realismo porque as pessoas entram numa relação de contemplação. E acho que trabalhos mais soltos parecem se aproximar mais das pessoas.

Irena: É aquela coisa das pessoas acabarem gostando mais pelo grau de dificuldade do trabalho, em vez do significado dele. 

Ana: Exatamente!!! Essa é uma super questão, quase uma metáfora. Inclusive desse nosso universo feminino.  Falando em significados, eu amei a releitura da chapeuzinho vermelho!

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Irena: Eu fiz isso pra uma aula na faculdade e meu professor não entendeu (risos). Ele disse que não entendia porque era maldade o que lobo tinha feito.

Ana: Ele queria mais realismo (risos).

Irena: Mas quando a gente é adolescente, tudo a gente acha que é maldade!!! O lobo deixa de ficar com a chapeuzinho pra ficar com outra menina. Esse era para ser o clímax de maldade no lobo na história da releitura. E meu professor queria alguma coisa mais maldosa. Mas maldade é uma coisa meio relativa, né? Quando a gente é nova e alguém não gosta da gente da mesma forma, parece que é uma maldade enorme!

Ana: A questão é a atitude do lobo, que na sua história ou na outra não é das mais inocentes. Pensando nisso também, é mais outra super metáfora do universo das meninas. Na verdade, do universo humano (risos).

Irena: Sim. Eu sinto que existe uma preguiça geral de assimilar o universo feminino na arte. O que, honestamente, não faz nenhum sentido pra mim. No momento, estou trabalhando numa empresa de games como ilustradora mesmo. E estávamos criando personagens pra um jogo. Como é um ambiente muito masculino – eu sou a única menina do escritório – ninguém surgia com nenhuma alternativa de personagem feminino. E, nossa, eu simplesmente não entendo essa dificuldade.

Ana: É meio absurdo mesmo essa falta de aproximação.

Irena: Essa dificuldade de nos representar nas mídias, sendo que somos só pessoas. Acho que todos ficam muito presos em ideias de o que é “para menina” ou “para menino”.

Ana: Para mim, é uma falta de diálogo sincero. Os caras precisam fazer perguntas sobre o que não compreendem, e as meninas não têm que ter medo de responder. Acho que de uma maneira ou de outra, a gente tenta com nossa arte responder coisas, ou gerar essas perguntas. Digo isso em relação ao meu trabalho, porque sempre ouvi que ele é “feminino”. E eu não tenho ideia de onde vem isso, porque meu trabalho não é literalmente feminino, mas as pessoas têm essa percepção. A arte não deveria representar gêneros. Ela é exatamente o espaço onde essas questões banais de gênero deveriam sumir. Você ouve muito também que seu trabalho é “feminino”?

Irena: Sim, eu escuto demais! Honestamente, fico um pouco surpresa quando algum menino diz que gosta do meu trabalho. Acho que a maior parte tem um pouco de vergonha de admitir, não sei. (risos)

Ana: É isso que digo. Ninguém se questiona em se aproximar de um trabalho de um cara, isso não é uma questão, mas o inverso é a maior questão do mundo. 

Irena: É aquela conversa de que menina pode ver filme de menino, mas o contrário não pode acontecer.

Ana: É o típico preconceito. Acho que os caras deveriam ser mais curiosos (risos). As pessoas, no geral, deviam estar mais abertas pra serem surpreendidas…

olga irena

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