olga tv

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Nos últimos tempos, tenho reparado que há uma sensação quase geral de que este é um grande momento para mulheres na televisão. Que nunca antes tivemos tantas opções de seriados com mulheres protagonistas ou representando papéis fortes e importantes. Foi falado sobre isso no texto A Revolução Feminina Será Televisionada.

Mas, afinal, o que tem de tão extraordinário? Em uma sociedade que caminha em direção a igualidade de gêneros o “agora” seria sempre o momento mais igualitário até então, não é? Pois se isto é válido para a ficção seriada, não é assim para o cinema. Uma pesquisa recente aponta que entre os personagens dos 100 filmes mais vistos nos Estados Unidos em 2012, apenas 28,4% dos personagens com fala eram mulheres, menos de um terço e a menor taxa dos últimos 5 anos.

Ou seja, apesar de pequenos avanços como uma mulher finalmente ter ganhado o Oscar de direção, ou as mulheres estarem ganhando voz e fama na comédia, e um dos filmes mais vistos do ano (Jogos Vorazes) ser protagonizado pela heroína Katniss, a verdade é que estamos cada vez menos representadas nas telonas.

POR QUE ESsA DIFERENÇA?

Se nós levarmos em conta o meio, ou seja “cinema x televisão”, dois pontos chamam atenção. O primeiro é que a indústria cinematográfica acredita que são os homens que definem se um filme vai ser um sucesso de bilheteria ou não. E sabe o que está escondido nesta ideia? Aquela velha ladainha de que o homem “força” a sua mulher a ver um filme de ação (que, neste raciocínio, ela nunca vai gostar), mas jamais aceitaria ver o filme “mulherzinha” dela. Ou seja, já são dois bilhetes contra um, isto sem falar no suposto poder de influência masculino.

Já em casa as coisas são bem diferentes. O que dá dinheiro para os canais de televisão ou serviço “on demand” é a publicidade e não a venda de ingressos, e quem compra hoje em dia são as mulheres. Nos Estados Unidos 85% das decisões de compras são feitas por elas. E isto ninguém mais consegue negar.

Outra questão é que apenas 20% dos produtores e 13% dos roteiristas de Hollywood são mulheres, mas, na televisão, elas estão assumindo grandes cargos. Suzanna Makkos, por exemplo, é vice-presidente da FOX e também co-diretora de desenvolvimento das comédias do canal, de onde saiu The Mindy Project e New Girl, duas séries com mulheres protagonistas. A NBC tem uma presidente mulher, Deborah Turness. O IFC uma vice-presidente de programação original, Debbie DeMontreux. Até mesmo a roteirista de Thelma & Louise, Callie Khouri, e a produtora de Exterminador do Futuro e Aliens, Gale Anne Hurd, todos filmes super importantes com protagonistas femininas, também estão na TV trabalhando respectivamente em Nashville e The Walking Dead.

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Suzanna Makkos, Deborah Turness, Debbie DeMontreux, Callie Khouri e Gale Anne Hurd

Vale lembrar também que, mesmo que os estúdios não consigam admitir, hoje em dia a dicotomia “cinema x televisão” já não faz tanto sentido, pois com a internet o importante não é mais o meio, e sim o formato. A Netflix nos provou isto ao dominar os Emmys deste ano. Talvez o importante aqui seja, então, a diferença entre longa metragem e ficção seriada. E aí entra outra questão: o formato seriado não apenas é o formato do momento – e quem sabe o formato do futuro, com cada vez mais público e verba – mas é também um formato que proporciona maior interação com o público. Ao mesmo tempo em que é possível adaptar o roteiro ao gosto dos espectadores durante a temporada, o formato também dá espaço para que o próprio público se acostume a algo novo. Afinal, é mais fácil fazer alguém mudar de ideia ou de costumes em 2 horas ou aos poucos, com 20 ou 40 minutos por semana?

Em um seriado, nós temos a oportunidade de conhecer todos os lados destas mulheres, e elas passam a fazer parte de nossas vidas com frequência – e frequência é muito importante. A série Scandal traz uma vez por semana uma mulher negra, poderosa e influente, enquanto The Mindy Project mostra uma indiana bem-sucedida e acima do peso. São mulheres que já foram invisíveis, mas que não podemos mais ignorar. Se é um filme e você não quer ver é só não ir ao cinema, mas uma série vai estar ali o tempo todo enquanto tiver quem veja, seja nos promos nos intervalos das outras séries que você assiste, na lista de torrents quando você vai baixar, ou no seu site de vídeos on demand.

Além do mais, as pessoas costumam se sentir mais confortáveis em assistir histórias que eles normalmente não assistiriam quando é no formato seriado. É só assistir ao piloto e decidir se quer continuar ou esquecer. E talvez por isto, quem quer fazer inovador e mudar o que está por aí, tem optado cada vez mais por este formato.

Mas mais importante do que as razões para isto estar acontecendo, é o fato de que mais do que nunca as pessoas estão se preocupando com a imagem feminina que está sendo passada pelas telas. Quer conhecer um ótimo exemplo? Geena Davis, que já deu vida à primeira mulher presidente dos Estados Unidos na série Commander in Chief, criou em 2004 um instituto de pesquisa de gênero na mídia. O Geena Davis Institute on Gender in Media busca mudar a forma como as mulheres são retratas nas telas e em especial em programas e filmes infantis, e é responsável por pesquisas que nos deram muitos dos dados citados neste texto.

E eles não estão sozinhos: no final do ano passado, a organização ganhou apoio do Google com o prêmio Global Impact Award, que veio na forma de um investimento de mais de 1 milhão de dólares para o desenvolvimento de um software que vai automatizar o processo de análise da presença e da imagem de mulheres na mídia. Já este mês foi a vez da ONU juntar suas forças com o instituto para produzir um estudo global (em 10 países) sobre a representação da mulher em “family films”, ou seja, filmes sem restrição de idade. Os resultados devem ser apresentados já no ano que vem.

Mas o que queremos afinal? O que é uma boa representação feminina na tela?

A primeira coisa é presença mesmo. Sabia que as mulheres representam apenas 17% dos presentes em cenas com grupos rodadas em filmes de público livre? É preciso também que estas mulheres sejam de todas as etnias e tipos físicos. Em um estudo dos filmes de grande bilheteria de 2011 a porcentagem de mulheres latinas e asiáticas era quase a mesma de animais e extraterrestres. Dá pra acreditar? Outro estudo aponta que 37,5% das mulheres apresentadas nos programas do horário nobre da TV americana são magras, enquanto para os homens a parcela cai para 13,6%.

Uma boa representação é uma mulher real, complexa, sem estereótipos e não objetificada. Mulheres líderes, poderosas, mas também mulheres comuns com opinião e autonomia, com as mais diversas profissões. Queremos todos os tipos de mulheres.

Ainda estamos longe de vermos a mesma quantidade de mulheres na TV e na vida real. Mas já temos motivo suficiente para ter esperança, e é sempre uma boa ideia prestigiar as mulheres bacanas que já estão nas telinhas.

Quer algumas sugestões?

olga games

Game of Thrones tem uma candidata a rainha abolicionista que não tem medo de nada, além de guerreiras, feiticeiras, e mães e mulheres que não precisam de títulos para serem incríveis. Ainda que exista muita crítica à nudez gratuita e à violência sexual mostradas na série.

The Good Wife é outra com um grupo de mulheres de dar inveja, desde a personagem principal que equilibra casamento, família e carreira com maestria sem esquecer de si mesma, até juízas, chefes de empresas, detetives, muitas geeks e vítimas que não se deixam vitimizar.

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Já espiãs e detetives melhores que qualquer homem você encontra em Homeland, The Americans, Law&Order SVU e tantas outras. Já quase não existe investigação sem um toque feminino, e até o velho Watson, companheiro de Sherlock Holmes, virou mulher em Elementary.


Bibiana Haygert é graduada em cinema, está quase se formando em mandarim e cultura chinesa pela Inalco, em Paris, e assiste a mais de 35 séries por ano.

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olga games 2

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Quando tinha 16 anos, entrei em um jogo de estratégia online –  nele o jogador precisa desenvolver uma tribo, formar alianças e competir pelo domínio do servidor. Fiquei viciada. Passava horas jogando, traçando conspirações, desenvolvendo minhas cidades e programando batalhas. Tornei-me general da minha aliança, uma posição de importância crucial. Um belo dia, entrei no fórum do jogo e vi que havia uma enquete para eleger o jogador mais ‘temido’. Os candidatos estavam chamados de “Zézinho, o terrível gaulês” ou “Léo16, o sanguinário teutão”. Eu era a única jogadora (leia-se a única mulher) listada na votação. Minha descrição? “A doce romana”. Eu havia devastado cidades virtuais, saqueado alianças inteiras e era responsável pelo extermínio de vários jogadores. E era vista como doce. Ganhei a eleição – provavelmente só para provocar os outros jogadores listados ali, uma piada.

Parece um exemplo bobo, mas serviu para abrir meus olhos em relação ao que acontecia com garotas nesses jogos. Mudei de gráficos com outros games, mas o cenário era bem parecido. Em outra franquia  meu avatar era obrigado a usar roupas decotadas que nem de longe pareciam adequadas para a batalha. Minha personagem se protegia com uma espécie de sutiã de jade que mal tapava os mamilos (as opções eram sutiã de opala, de rubi, de ônix…). Tudo para preservar as tão valorizadas curvas exageradas com as quais a maioria dos títulos retratam suas personagens.

Em jogos de tiro, recebi cantadas e esculachos de jogadores de 10 a 40 anos ao usar um headphone para me comunicar com minha equipe. Era só uma voz feminina soar no grupo para que a atitude deles mudasse. Descobri que ‘tinha que ser mulher’ não é frase ouvida apenas no trânsito – basta levar um headshot. Ao comentar sobre games na escola e na faculdade via rapazes revirando os olhos por ‘eu não saber do que estava falando’ e moças achando que eu só tocava no assunto para chamar a atenção masculina. Será que já cunharam o termo nerdshaming?

Não é implicância minha, nem sou uma jogadora assim tão ruim para justificar a reação. Não sou a única que passa por isso – nem de longe, infelizmente. A revista New Media & Society publicou um estudo que revela que, ao comentarem coisas neutras (do tipo ‘oi, pessoal’) no headphone durante uma partida de Halo, mulheres recebem 3 vezes mais respostas negativas do que homens.

Recentemente, li uma entrevista com uma das roteiristas da franquia Bioshock, Susan O’Connor, que também participou do time de criação de Lara Croft e tem mais de 10 anos de experiência no mercado. Durante a conversa com o repórter ela se refere ao jogador sempre como uma figura masculina. Isso chama a atenção do jornalista que pergunta a ela “mas e a perspectiva feminina nos games?”. Susan então revela que nunca viu uma garota ser chamada para testar um game na produtora do Bioshock, a 2K Games. Logo depois é discutida uma personagem feminina do jogo Leisure Suit Larry que foi desenvolvida com uma história interessante, tem uma personalidade diferente, um prato cheio para uma roteirista… mas tudo para que, uma hora, o jogador fique ainda mais interessado em fazer sexo com ela. E então Susan revela que está cansada da indústria. “Não sou tão apaixonada por games para ignorar essas coisas sobre as quais discutimos”, confessa.

Se o machismo da indústria dos games é capaz de afastar uma roteirista com 10 anos de experiência, uma garota que está apenas começando a se interessar e sente tamanha resistência ao tentar entrar nesse mundo desiste sem pensar duas vezes. Acho que a maior prova de como o grupo dos gamers é fechado é o meme Idiotic Nerd Girl. Ele consiste em zoar meninas que por serem bonitas, ou populares, ou pegarem a crista da onda na moda de algum game, não teriam direito de participar de comunidades geeks por não serem nerds “de verdade” (suspiro).

Vamos pensar direito sobre o que esse meme realmente diz?

olga gamers

Então a cultura nerd é machista? Mas eles também não eram minoria há alguns anos?  

O estereótipo do nerd, alguns anos atrás, era o menino emocionalmente e fisicamente frágil, extremamente introvertido, que só tirava nota boa na escola. Hoje, o cenário é bem diferente –  alunos tímidos e CDF viraram magnatas, ser nerd ou geek é visto como uma coisa boa e tem um apelo cada vez maior. Mas os próprios nerds não gostam dessa popularização. Há aqueles que acham que suas paixões, antes exclusivas desse grupo, estão sendo ‘roubadas’, como se ficassem menos nobres com um maior número de fãs. E aí entram mulheres que, ao se aproximarem desses domínios, são ridicularizadas por sua falta de habilidade ou conhecimento.

Vale lembrar que a popularização da figura do geek coincide também com uma maior liberdade feminina em relação à cultura e à tecnologia. Em lojas especializadas, vemos pais comprando quadrinhos e games para as filhas. No ‘meu tempo’, quando meu pai me levava para comprar cartas de Magic The Gathering, eu cheguei a ser olhada com espanto por vendedores. Mas, mesmo hoje, nem sempre nos é dada a opção de fazer parte disso – de várias formas, como as citadas acima, somos encorajadas a perseguir interesses considerados ‘mais úteis’ ao universo feminino. Não é como se não gostássemos de games, quadrinhos, ficção ou qualquer outro elemento nerd. É que poucas meninas têm contato com esses produtos e menos ainda são aquelas encorajadas a cultivar sua relação com eles. 

Gosto de acreditar que esse cenário está mudando. Na última conferência E3, a Nintendo revelou que a normalmente frágil Princesa Peach, cujo papel na maioria dos jogos é ficar esperando Mario resgatá-la, será um personagem jogável em Super Mario 3D World. Sim, ela ainda é uma princesa, ela ainda usa rosa. Mas ela já consegue matar monstros sozinha e acompanhar os encanadores italianos numa boa*. Há quem diga que a ideia da Nintendo é trazer mais meninas para a série – acho que não há necessidade disso. Os títulos da franquia  sempre tiveram um grande contingente de adeptas. Penso que se trate, realmente, de uma maior conscientização sobre a forma com que mulheres são representadas.

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A verdade é que que cada um, homem ou mulher, tem seu tempo. Da mesma forma que a filha de uma amiga descobriu como baixar apps com 4 anos de idade, minha mãe descobriu o Call of Duty só depois dos 50 (e detona muito moleque no jogo). Isso mostra que a pequena quantidade de mulheres ou o tempo de contato menor não significa que somos menos apaixonadas pelas causas nerd. Se você, homem, se considera um conhecedor profundo de algum produto cultural, significa que você precisou estudá-lo, gastar tempo nele. Você também já deu mancada antes de acertar. E, sim, também já foi xingado de noob, dentre outras coisas. Mas ninguém te julgou menos capaz por ser um homem. Um hora, seu conhecimento cresceu e você foi reconhecido por isso.

Dê crédito às mulheres, tanto às que nasceram jogando videogame quanto às que descobriram ontem a paixão por Star Wars. Dê a elas a oportunidade de descobrirem seus gostos, sem envergonhá-las por ainda não terem tantas informações ou habilidade. Se você é geek hoje, você já foi um noob. Dê a mesma chance para qualquer um, homem ou mulher, que quiser trilhar o mesmo caminho.

Quer se aprofundar no assunto? Recomendo fortemente a série Damsel In Distress da vlogger Anita Sarkeesian (Feminist Frequency).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=X6p5AZp7r_Q]

A história da própria série de vídeos já é digna de nota – ela apelou ao Kickstarter para arrecadar fundos e produzir seus vídeos sobre o modo com que mulheres são retratadas nos games. E, ao lançar a campanha, se tornou alvo de bullying. Ela compartilha essa história em sua palestra no TED sobre garotas, games e machismo.

*Em 2006, foi lançado um game de Nintendo DS que trazia Peach como personagem principal “Super Princess Peach”. No episódio, Peach é que devia salvar Mario. Mas por se tratar de um título separado da série de games convencional, com o marketing voltado para garotas, o apelo dele entre os homens não foi memorável.


Luciana Galastri é repórter do site da revista Galileu. Se a vida fosse como um navegador, a sua se alternaria entre as seguintes abas: internet, games e literatura.

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olga heroina

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Pense em um grande herói. Se for homem, ele poderá ser dono de infinitas características, de valente a geek tímido, de cavalheiro a um bruto conquistador, alto ou baixo, gordo ou magro, rico ou pobre. Se for mulher, ela certamente vai assumir uma das únicas duas facetas disponíveis: a lady perfeita, que conquista seus objetivos através da sensualidade, ou a durona que não deixa ninguém cruzar o seu caminho. Como é que o sexo feminino, de onde vem pessoas tão complexas, ganham representantes unidimensionais? Para entender de onde surgirão novas e mais profundas imagens, falamos com a escritora Beatriz Del Picchia. Nos livros O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói e Mulheres na Jornada do Herói – Pequeno Guia de Viagem, a autora, ao lado de Cristina Balieiro, responde onde estão as mulheres no conceito mítico da jornada do herói.


Quais as diferenças entre a jornada do herói e da heroína?

Há duas principais. Primeiro, a jornada masculina costuma ser solitária: o grande herói sai de casa e, sozinho, vence o inimigo e salva o mundo. Já a jornada feminina geralmente é mais compartilhada. Nós lutamos as batalhas da vida cuidando das crianças e do cachorro, levando junto as amigas, acudindo a mãe, o ex-marido… Em vez de partir sozinha, nós seguimos quase em caravana, por assim dizer.

Segundo, nós nos deixamos levar mais pela intuição. Damos mais voltas, fazemos círculos, é uma jornada diferente da reta trajetória padrão masculina, até porque atendemos a mais pessoas ou áreas. Se perdemos em rapidez, ganhamos na riqueza da viagem.

Mas veja bem: estou falando da jornada arquetípica feminina conforme detectamos em nossa pesquisa. Claro que há mulheres que fazem jornadas masculinas, no clássico padrão focado do sistema, homens que fazem jornadas femininas, e gente que mescla ou alterna as duas.

Qual sua visão sobre as heroínas apresentadas em filmes, livros, quadrinhos e seriados?

A maioria é uma representação feminina que evoca ou a Marilyn Monroe ou a Margareth Tatcher. Quer dizer, variam entre A Princesa (derivadas: A Sexy, A Romântica, A Infantil, A Desajeitada, A Vítima, etc) ou A Herói Masculino (A Executiva, A Detetive durona, etc). Às vezes colocam ambas na mesma figura, que vira algo estranhíssimo como todo híbrido. São estereótipos que facilitam as vendas dos filmes e de outros produtos, fortalecendo a inércia de pensamento e de percepção de mundo. Mas aos poucos estão surgindo heroínas mais facetadas e sutis nessas mídias.

Além das comuns e unidimensionais cuja força vem da sensualidade, um outro tipo de heroína ganhou destaque: aquela empresária multitarefas, cuja imagem é a da “mulher atendendo ao telefone enquanto balança no colo uma criança chorando”. Como podemos aprofundar a imagem da heroína?

Bom, essa é uma super-heroína de almanaque, a Mulher Maravilha que interiorizou a jornada masculina e tenta ser o herói padrão, só que com mais responsabilidades e mantendo a aparência impecável! Ou seja, ainda hoje a mulher paga um preço absurdo por viver num sistema materialista, devorador e consumista. Somos vitimas e vilões dessa história, que continua acontecendo por várias razões: porque nós não queremos ou não sabemos como fazer diferente, por inexistência de opções onde habitamos, por não questionarmos nosso estilo de vida e valores, por falta de apoio logístico publico e familiar, por tudo isso e mais um pouco…

Em vez da gente se matar para sustentar esse modelo impossível, acho que seria melhor sermos heroínas para contesta-lo e tentar estabelecer novos paradigmas! Por exemplo, simplicidade voluntaria, economia solidária, escolhas conscientes, questionamento de padrões estéticos femininos, estruturas familiares e publicas mais inclusivas e flexíveis, etc .

Você participou do TedXdaLuz, onde disse que o mito do herói deve servir como espelho para a vida, pois ele é universal e está no coração de todos nós. Por que as mulheres têm dificuldade em se retratar como as heroínas?

Muitas vezes os oprimidos não se enxergam como heróis. Projetam no outro qualidades que tem em si sem as reconhecer. Sabe aquela frase “atrás de um grande homem há uma grande mulher”? Ela é escondida até de si mesma! Pela secular desvalorização social e baixa auto estima da imagem e dos padrões femininos, muitas mulheres são grandes opressoras de suas filhas e subordinadas, seus espelhos. Na medida em que a mulher valoriza a si mesma e as qualidades femininas, as heroínas vão surgindo, sendo vistas e retratadas pelas próprias companheiras.

Quem deveriam ser as nossas heroínas hoje e o que falta para elas alcançarem o destaque merecido?

Como reconhecer as heroínas? Bom, para começar, não as procurando em heróis masculinos com corpo de mulher. Para mim, tanto na escala doméstica como pública, as heroínas são as que defendem valores femininos. Valores como, por exemplo, a validação do sentimento e do afeto. Ou como a coerência entre o que a pessoa diz e o que faz na vida pessoal: nós mulheres valorizamos, e ainda bem, o que é intimo e familiar. Heroínas são íntegras consigo mesmas (com sua alma, diriam os antigos) a todo custo. Defendem, ou cuidam, ou procuram a inclusão do fraco, do perseguido, do discriminado, do loser – como são as próprias mulheres em regimes opressores. Enfim, acho que devemos procurar as heroínas naquelas que são portadoras das mudanças que queremos ver no mundo, como disse o Gandhi. E sejamos nós mesmas, cada vez mais, a mudança e a heroína de nossas vidas!

Talvez elas não recebam muito destaque na grande mídia, até porque os sistemas patriarcais se defendem. Mas nós podemos cuidar um pouco disso. Somos boas tanto no varejo, no trabalho de formiguinha, quanto no de elefante. Botamos a boca no trombone, na internet, no bairro, nas editoras, nas Assembleias. Há vários pontos de luz, faróis na neblina. Cada vez mais!

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