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Em uma dessas curiosas coincidências da vida, minha mãe me trouxe um balde de pipoca e um copo de refrigerante enquanto eu escrevia esse texto sobre cinema. A associação desse combo com a experiência de assistir filmes só não é maior que a do assédio com amor nos roteiros para a tela grande. Romance de verdade, de acordo com os filmes, tem muita perseguição, desrespeito à autonomia feminina e até pequenos crimes – tudo porque o verdadeiro amor nunca desiste. Será mesmo?

É importante frisar que me refiro majoritariamente aos filmes Hollywood por ser esta ser a indústria cinematográfica mais influente na cultura nacional, ocupando a maior parte das salas de cinema no Brasil, da programação da tevê fechada e dos catálogos virtuais que têm se tornado uma nova forma de consumo de produções audiovisuais, como NET NOW e Netflix.

Filmes americanos não são a única opção que existe, é verdade, mas pelo gigantismo de seus grandes estúdios, eles sufocam, dificultam e até inviabilizam a chegada de produções independentes em geral e de filmes nacionais e de outros países (especialmente os subdesenvolvidos) ao grande público. A exibição de filmes que estejam fora do eixo hollywoodiano é restrita a poucos títulos a ser encontrados na tevê paga e, quando chega aos cinemas, limita-se a poucas salas do circuito alternativo de grandes cidades, sem dublagem. Ou seja: por meios legais, são de difícil acesso à população em geral. Vale lembrar que os filmes brasileiros de maior orçamento e bilheteria nos últimos tempos têm seguido a cartilha de Hollywood.

Dito isso, o cinema mainstream americano, onipresente em nossos meios de comunicação, colabora – e muito – com a manutenção de estereótipos de gênero. A começar pela forma como os filmes são percebidos de acordo com a sua temática: filmes de guerra, ação, aventura e ficção científica são “de homem”, ao passo que dramas, romances e comédias românticas são “de mulher”. No caso da comédia, elas podem ter um público neutro, como e, por exemplo, o caso de O Mentiroso (1997) que, apesar de ter momentos bem machistas e uma história de amor envolvida, não é direcionado necessariamente a homens ou mulheres. Mas a comédia também pode ser dividida entre aquelas dirigidas ao público masculino, como Se Beber, Não Case! (2009), ou feminino, caso de Missão Madrinha de Casamento (2011) e praticamente todos os títulos classificados como comédias românticas.

E são as tais comédias românticas que mais recebem a pecha de “filmes de mulherzinha”, basicamente por trazerem alguns dos maiores clichês da expectativa social feminina. Ainda que mulheres sejam o público-alvo, o modo americano de fazer cinema é machista, heteronormativo, gordofóbico, capacitista e racista, resultando em roteiros que perpetuam noções limitadas sobre o que é ser uma mulher e o que elas esperam de relacionamentos amorosos.

Estrelados em sua maioria por mulheres brancas, magras e de cabelos lisos, esses filmes passam a impressão de que elas são as únicas dignas de receber amor. Sua beleza é valorizada a cada cena, em close ups e cenas que estão ali para apresentar suas características como objetos de desejo. São elas a receber as mais lindas declarações de amor dos maiores galãs do cinema interpretando os parceiros mais perfeitos possíveis dentro dos ideais do amor romântico, tudo com uma trilha sonora emocionante. Às negras, às gordas e às que de alguma forma são percebidas como menos atraentes restam os papéis de amiga, conselheira, alívio cômico ou até mesmo vilãs. A diversidade de cores e corpos femininos não é celebrada, pelo contrário: a presença de piadas e situações que ridicularizam mulheres gordas, por exemplo, são muito comuns.

Sem título
Simplesmente É Amor (2003)

Mas essa heroína-padrão-Hollywood não terá uma necessariamente vida fácil: é bem provável que o seu par, no mundo real, fosse um verdadeiro criminoso. Perseguições, assédio sexual, abusos, falta de respeito à vontade e à autonomia feminina, constrangimentos públicos e outros comportamentos desagradáveis ou até mesmo criminosos são retratados como grandes gestos de amor nas comédias românticas. A insistência masculina é extremamente valorizada e o convencimento da protagonista por aquele que fora inicialmente rejeitado é a espinha dorsal de alguns dos roteiros de maior sucesso do gênero.

Um Amor Para Recordar (2002), Mensagem Para Você (1998), 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999) e A Verdade Nua E Crua (2009) são alguns exemplos dessa vertente. Ainda que jogos de sedução sejam interessantes de assistir, esses filmes ajudam na criação da ideia nem sempre acertada de que “os opostos se atraem”, sendo que o lado masculino é, em geral, um rebelde, um sujeito agressivo e até mulherengo – um péssimo parceiro em potencial. Nesse caso, porém, a protagonista se torna a sua última conquista, aquela que, por ser tãããão especial, conseguiu amansar a fera… O tipo de ilusão que leva inúmeras mulheres a insistir em relacionamentos incompatíveis e a permanecer em relações abusivas no aguardo do final feliz dos filmes, do sossego do príncipe, algo que realisticamente pode até terminar em morte.

Parece exagero, mas não é. É nessa confusão entre gestos de amor e rejeição que comportamentos como o stalking, ou perseguição insistente, passam a ser entendidos como atos românticos. Um estudo realizado pela Universidade de Michigan apontou que a representação desse comportamento na mídia torna as mulheres mais tolerantes à insistência de um homem em persegui-las “romanticamente”. E vale tudo: decorar os horários da rotina da mulher e abordá-la sem aviso, invadir sua casa, deixar mil mensagens no seu telefone, importunar sua família e amigos, enviar centenas de rosas indesejadas. Para quem deseja a vitória sobre a presa a qualquer custo, vencer pelo cansaço é uma estratégia.

Em Quem Vai Ficar Com Mary (1998), a personagem de Cameron Diaz é disputada por quatro homens absolutamente obcecados por ela: um contrata um detetive para descobrir seu paradeiro e muda-se para a sua cidade em busca de uma nova chance, o detetive assume uma nova personalidade para conquista-la, um entregador de pizzas finge-se de amigo e médico para aproximar-se dela e seu ex-marido invade sua casa para roubar-lhe os sapatos.  No final, todos os atos são justificados pelo amor que eles sentem por Mary. Esses comportamentos, que se repetem em diversos outros filmes do gênero (Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo, Amor à Toda Prova, Segundas Intenções), ajudam a tornar a perseguição até mesmo como algo desejável na mente de quem assiste, atando o ato a clichês como “Uau, se ele fez tudo isso, é porque a ama de verdade!” ou “Se o homem realmente gostar de você, vai fazer enormes sacrifícios!”.

Isso quando, é claro, o sacrifício não é exigido delas. Nem sempre com a intenção da conquista, muitas comédias românticas trazem mulheres que só passam a ser percebidas como atraentes após uma transformação completa. É claro que as atrizes já carregam em si todas as características percebidas como atraentes, mas começam o filme com o cabelo volumoso/frisado, usando óculos e aparelho nos dentes, usando roupas fora de moda e outros apetrechos absolutamente comuns que Hollywood ajuda a estigmatizar como feios.

Miss Simpatia (2000), Ela É Demais (1999), Nunca Fui Beijada (1999), Uma Linda Mulher (1990), O Diabo Veste Prada (2006): todos trazem melhoras significativas nas vidas de suas personagens após o alisamento de seus cabelos, o uso de roupas mais reveladoras e maquiagem e a obtenção de uma personalidade mais confiante a partir da adequação aos padrões estéticos vigentes na mídia. Não importa que antes elas fossem as mulheres que sempre quiseram ser, tendo chegado até ali pela trajetória que escolheram para si mesmas em busca da felicidade: algum evento no roteiro vai mostrar que a vida pode ser muito melhor com um pouco de batom, blush e um homem que admira tudo isso ao seu lado.

Hollywood também cumpre seu papel de retratar o amor de uma mulher em um sentimento mágico capaz de tornar a vida de um homem muito mais feliz. Conhecidas como Manic Pixie Dream Girls, existe uma vertente de mocinhas que surgem na vida de um cara já prontas, sem precisar mudar quem são, justamente por já possuírem um seu jeitinho meio doido e um estilo diferenciado que servirão para mostrar ao par romântico uma alegria e um jeito de viver que ele ainda não conhecia, mas que eram exatamente o que lhe faltava.

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Ainda que muitas dessas personagens sejam interessantes e admiradas por muitas mulheres, a sua função no roteiro está intimamente ligada à do homem e em como a sua presença afetará a vida dele. Limitadas e limitantes para mulheres em todo o mundo, as Manic Pixie Dream Girls são um produto de fantasias masculinas que dão a mulheres incríveis a única missão de consertar a vida de um sofrido protagonista masculino.

Não é nenhuma surpresa: ainda que o público-alvo desses filmes seja o feminino, assim como quase todas as indústrias do mundo a de cinema também é controlada por homens – e eles vão colocar nas telas as ideias que eles têm sobre o que as mulheres gostam, querem e pensam. O site Polygraph realizou uma interessante pesquisa baseada no Teste de Bechdel, aquele que só aprova obras de ficção nas quais personagens femininas (com nomes) dialoguem entre si sobre algo que não seja um homem, criado pela cartunista Alison Bechdel, e tornou-se um marco na análise da presença de mulheres no cinema, na televisão e na literatura. O teste tem suas falhas: o filme Legalmente Loira (2001) passa apenas porque em determinado momento Elle Woods e uma amiga falam sobre cachorros, já Gravidade (2013) é protagonizado por uma mulher astronauta e foi reprovado.

Mas, na verdade, o consenso geral é que ele serve apenas para apontar que esse mínimo esperado por mulheres em um filme é surpreendentemente difícil de alcançar. O estudo do Polygraph analisou os 200 filmes de maior bilheteria de 1995 a 2005 e chegou às seguintes conclusões:

– Dos filmes que só tinham roteiristas homens, 53% falharam no teste.

– Dos que contavam com ao menos uma mulher assinando o roteiro, o número caiu para 38%.

– Todos os que tiveram roteiros escritos somente por mulheres passaram no teste.

E, ao analisar todos os 4000 filmes, do mesmo período, presentes no site do teste, o estudo apontou que quando os tomadores de decisão são homens, os filmes têm mais chances de falhar: roteiristas (46%), produtores (43%) e diretores (41%). Os números vão caindo vertiginosamente conforme o número de mulheres envolvidas aumenta.

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Além disso, a proporção entre diretores homens e mulheres na última amostra era de 5:1 e os números não melhoraram com o passar do tempo. Em 1995, 37% dos filmes falharam no teste e 18% tinham mulheres em cargos de decisão. Em 2015, 38% dos filmes não passaram no teste e 17% do total tinham ao menos uma mulher como diretora, produtora ou roteirista.

O fato de que as chances de um filme passar no teste aumentam com a presença de mulheres por trás das câmeras é um indicativo nítido de que a qualidade das personagens femininas e a diversidade nas telas dependem diretamente da diversidade dentro dos estúdios e, principalmente, entre aqueles que decidem o que será produzido e como.

A dificuldade em tornar a indústria de cinema mais inclusiva está no fato de que, até que um filme chegue aos cinemas, desde o roteiro até sua versão final, ele precisa passar pela aprovação de um sem número de pessoas, tornando mais difícil localizar a origem do problema. Não se trata apenas do machismo de diretores, produtores e roteiristas, mas do fato de que são eles os preferidos dos executivos para ocupar esses cargos, de que são os seus filmes a receber recursos e do seu sucesso comprovado nas bilheterias, que lhes garante ainda mais prestígio, só ter sido possível porque, lá atrás, lhes fora concedidas oportunidades que uma mulher negra, ainda que com a mesma formação e capacidade, não teria. É nesse momento em que a visão e a perspectiva dela são apagadas e a deles permanece.

O diretor Spike Lee sugere que Hollywood encontre uma forma de adotar a Regra de Rooney, utilizada pela NFL (Liga Nacional de Futebol Americano, na sigla em inglês), que obriga a Liga a entrevistar minorias para cargos de técnico e gestores dos times. Ele aponta o fato de que não há negros entre as pessoas que decidem o que será produzido ou não.  “Mais do que ter uma pessoa não-branca à frente de um estúdio ou emissora, precisamos estar entre as pessoas que decidem o que será feito e o que não será. A cada mais ou menos quatro meses acontecem essas reuniões nas quais eles se sentam, olham para o orçamento, leem os roteiros, quem está envolvido, e dizem ‘vamos fazer esse filme, mas não vamos fazer aquele’. (…) Não existe uma pessoa não-branca que tenha direito a esse voto [para produções televisivas ou de cinema]”, afirmou ele em seu discurso de agradecimento ao Governors Awards em 2015.

Nos últimos anos, o feminismo e o empoderamento feminino ganharam força no mundo inteiro e Hollywood reagiu a isso com a chegada de “filmes para mulheres” escritos por mulheres que foram verdadeiros sucessos de público e crítica. A Escolha Perfeita (2012), Missão Madrinha de Casamento (2011), Descompensada (2015) e Irmãs (2016) são bons exemplos de histórias que escapam a muitos clichês e trazem protagonistas que, por uma razão ou outra, parecem menos fictícias que as mocinhas clássicas das comédias românticas.

Ainda assim, não é suficiente. Afinal, as protagonistas dos filmes citados, ainda que não sejam necessariamente musas, estão dentro dos padrões do cinema americano, bem como as roteiristas. E um dos romances mais esperados do ano é o filme Como Eu Era Antes de Você, cuja protagonista é uma manic pixie dream girl das mais clássicas:

É bom que a indústria cinematográfica mexa-se rápido para mudar esse cenário, pois já sente os efeitos da feroz concorrência daquela que se tornou sua principal rival: a televisão – ou seria a internet? Estamos vivendo a chamada nova Era de Ouro da televisão, com produções de séries que não devem em nada a filmes de Hollywood ou que, com orçamentos muito mais tímidos, capturam mais espectadores que boa parte dos blockbusters em cartaz. E a Netflix, uma das principais empresas a entrar com o pé na porta na disputa pela audiência, têm feito sucesso com uma fórmula simples: liberdade total de criação para sua diversificada equipe de criadores. Resultado: Master of None, Orange Is The New Black, Sense 8, Narcos – séries absolutamente idolatradas pelo público com negras, mulheres trans*, latinos e indianos entre os personagens principais.

Hollywood também precisa repensar de maneira urgente a percepção de filmes a partir do gênero, algo que tem muito mais sutil e até mesmo imperceptível no mundo das séries, por exemplo. Por mais que, obviamente, todos sejam livres para assistir ao filme que quiserem, essa ideia de “filme de homem” e “filme de mulher” colabora com a manutenção da distinção entre gêneros.

O fato de Star Wars: O Despertar da Força (2016) ter sido protagonizado por uma mulher e um negro foi muito positivo nesse sentido, bem como a presença de Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria (2015): lugar de mulher também é em filmes de ação. Comédias românticas deviam ser filmes para quem gosta de comédia e romance misturados, bem como trazer mais perspectivas masculinas e sexualmente diversas, não sendo taxadas apenas como “filmes pra mulher”. Porque mulheres são apenas pessoas e suas histórias devem ser contadas por elas mesmas e ouvidas por todos.

 


Arte: Sally Nixon e desconhecido

 

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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Lola Aronovich sob ataques de machistas
SXSW cancela painel sobre violência contra a mulher no mundo dos games após receber ameaças com as quais as vítimas já estão mais que acostumadas, e volta atrás somente após perder patrocínios e ameaças de boicote
Maria Júlia Coutinho e Taís Araújo são vítimas de ataques racistas
– O perfil da Stephanie Ribeiro foi derrubado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook
 Também no Facebook, as páginas da Jout Jout e Feminismo Sem Demagogia estão fora do ar…

Mas é tarde demais para nos calar! 

A violência contra mulheres na internet atingiu um novo auge nos últimos tempos. Talvez como resposta aos avanços cada vez mais rápidos do feminismo em diversos espaços e do incômodo que a sua presença e fortalecimento causam.

Em menos de uma semana, a hashtag ‪#‎primeiroassedio‬ foi replicada 82 mil vezes em resposta à comentários machistas e pedófilos. A violência contra a mulher foi tema no principal exame de acesso à universidade no país. O Google (!) compartilhou o vídeo da Jout Jout sobre a cultura do estupro.

A frase “machistas não passarão” nunca fez tanto sentindo quanto agora: campanhas publicitárias, músicas e outros produtos midiáticos que desrespeitam as mulheres são rapidamente rechaçados (leia-se “Esqueci o não em casa” da Skol, Homens Risqué, chamar cólicas menstruais de mimimi, aquela música “Vou jogar na internet” etc).

Na internet (e fora dela), temos força, temos voz, mas também temos inimigos da nossa liberdade. Há anos a Lola recebe ameaças e é perseguida por sua militância na internet. Os haters divulgam seu endereço residencial, ligam para sua casa, a ameaçam de morte, querem destruir sua vida e reputação – e essa briga já foi parar na justiça diversas vezes. Tudo porque ela é mulher e tem uma opinião.

‪#‎ForçaLola‬! Estamos com você e NÃO VAMOS NOS CALAR diante do que está acontecendo. Sabemos que medidas legais já foram tomadas, registramos aqui nosso repúdio aos ataques e aproveitamos para divulgar seu único endereço na web mais uma vez:http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br

Se você também está sendo vítima de ataques virtuais, confira nosso FAQ sobre o que fazer quando isso acontece.

“Estou irritada porque esperam que eu aceite assédio virtual como preço por ser uma mulher de opinião” – Anita Sarkeesian, diretora executiva do Feminist Frequency e uma das principais vozes contra a violência online contra mulheres no mundo.

Nós também, Anita, nós também. Mas prometemos solenemente NUNCA compactuar com isso.


 

Arte: NVM Illustration

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O OLGA Mentoring: Escola de Líderes surgiu do desejo de ajudar mulheres a ir além em suas ideias de negócios. O empreendedorismo é uma importante ferramenta para a diminuição da desigualdade de gênero, seja pelo fato de que nesse modelo a mulher é dona do próprio negócio e, assim,  pode eliminar o problema de discriminação dentro da empresa, quanto pelo aumento feminino no número de empresários do país.

Para as mulheres, empreender no Brasil ainda é desafiador: embora estejam à frente de 43% dos negócios, somente 0,2% delas são sócias ou proprietárias de empresas de grande porte, segundo dados de pesquisa divulgada  pelo Experian este ano.

Isso se dá não apenas pela segregação de gênero institucionalizada a que são submetidas no mundo corporativo, permeada por muitos preconceitos inconscientes ou não. A ausência de mulheres nestes cargos também acontece por um traço cultural de muitas empreendedoras brasileiras: o desejo de empreender em busca de qualidade de vida, e não por ganhos financeiros – uma reação direta das mulheres a modelos de negócio despreparados para as particularidades de funcionárias do sexo feminino.

Sendo assim, boa parte das empreendedoras brasileiras preferem abrir pequenos negócios para conciliar vida pessoal e profissional, ficar mais perto de casa, da família, fugir do mundo corporativo e conquistar um novo ganha-pão, mas hesitam na hora de expandir os negócios. Ainda segundo a pesquisa, 73% dos micro ou pequenos empreendimentos são comandados por mulheres, sendo que o número sobre para 98% quando somadas as Micro Empreendedoras Individuais (MEI). Pesa também sobre elas a exclusão sistemática das mulheres à informações sobre negócios, recursos financeiros e uma rede de apoio que as dê suporte para ir adiante.

 

O que é a Escola?

Criado com o objetivo de ajudar mulheres a seguir o caminho do empreendedorismo, o OLGA Mentoring Escola de Líderes tem sua primeira edição em São Paulo com turma de oito alunas com diferentes histórias de vida. Mães, avós, jovens cheias de ideias, elas foram selecionadas entre as mais de 300 candidatas que mostraram interesse pelo curso.

As aulas e workshops abordam temas variados e essenciais para quem deseja dar os primeiros passos no mundo do empreendedorismo: como montar um plano de negócios, noções de marketing, como vender sua ideia, finanças, tendências, etc. São nove encontros presenciais realizados no Aldeia Lisboa Espaço Coletivo.

A Escola é liderada por Nana Lima, publicitária formada pela FAAP com MBA pela ESADE Business School, de Barcelona,  especialização em  Comunicação e Marketing de Moda pelo Istituto Europeo di Design (IED) e experiência em agências de publicidade e na área de marketing de grandes empresas, ela atualmente é empreendedora e sócia da Think Eva, consultoria de negócios para marcas que desejam uma comunicação mais eficiente com o público feminino.

“As mulheres não arriscam tanto ou arriscam menos que os homens porque porque não têm as ferramentas e conhecem menos o conteúdo de negócios. Daí veio a ideia: por que nós não fornecemos isso a elas? E aí juntamos também o desejo de fornecer mentoria e criar uma rede de apoio”, explica Nana. Mais que um local de aprendizado, o OLGA Mentoring busca ser um espaço no qual as participantes possam falar abertamente sobre suas ideias, receber feedbacks construtivos e contar com a experiência de quem já possui mais tempo de mercado – além de aumentar a base de contatos dessas mulheres.

Joana Gabriela Mendes é uma das alunas da primeira turma. “Eu acho a iniciativa ótima. Me inscrevi porque estou cheia de projetos e nem sei como torná-los viáveis. A dificuldade que eu vejo é que é difícil alguém pra te dar a mão e te ajudar,  sabe? E o medo também. De não dar certo, de como fazer e com quem”, afirma. “A seleção de meninas foi incrível, elas são super interessadas e cada uma vem com uma ideia de negócio dentro da sua própria realidade, de seus próprios valores, que estão se encaixando muito bem e estamos aprendendo muito umas com as outras”, elogia Nana.

A primeira edição atraiu interessadas do Brasil inteiro e a vontade de levar a Escola de Líderes para outras regiões do Brasil é enorme. “Nós da Olga também estamos aprendendo muito sobre o formato e descobrindo como podemos empoderar as mulheres por meio desse tipo de iniciativa. Não vejo a hora de descobrirmos, a partir dessa primeira edição, formas expandir o projeto para que possamos absorver mais mulheres e levar o OLGA Mentoring para em outros estados do Brasil além do sudeste”, sonha a líder do projeto.


Arte: Leah Reena Goren

 

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A primeira edição dos Jogos Olímpicos que deu origem ao que conhecemos hoje data do ano de 1896, mas sua história começou bem antes, na Grécia, em 776 a.C. Ao longo do tempo, a participação das mulheres na competição teve períodos conturbados: ainda na Antiguidade, elas eram proibidas de assistir os jogos sob pena de morte e na primeira edição oficialmente aberta ao público feminino em 1900, em Paris, somente 22 do total de 997 atletas eram mulheres, competindo em apenas cinco esportes.

A conquista de um total de 44% de participação feminina na última edição dos jogos em Londres, no ano de 2012, com a participação delas em todas as modalidades pela primeira vez na história, não foi sem o esforço e a luta de milhares de esportistas que não se curvaram diante das adversidades causadas pelo sexismo.

É de mulheres assim que são feitas as Olimpíadas:  guerreiras que trazem dentro de si a chama da transformação. Elas fazem história ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos dos quais eram excluídas ao provar que têm garra, talento e capacidade para brilhar nos esportes.

Mulheres como Neide Santos, ou Neide Vida Corrida, como ficou conhecida ao adotar como sobrenome o nome do projeto que criou no Capão Redondo, e que já transformou a vida de milhares de pessoas por meio da prática de corrida.

Na trilha de um sonho

Atleta desde os 14 anos, Neide teve sua carreira interrompida por revezes que a vida pôs em seu caminho. Primeiro, foi obrigada a mudar-se ainda menina para São Paulo, onde foi adotada por uma família que lhe deu educação, mas também a cruel responsabilidade de trabalhar como empregada doméstica ainda criança.  Trouxe sua família biológica para a cidade, mas só depois de adulta, onde ainda passou por muita pobreza e dificuldade.

Quando se casou, viu sua vida entrar um pouco nos trilhos e vislumbrava um futuro melhor, mas seu esposo foi assassinado por policiais no Capão Redondo, comunidade da periferia da cidade de São Paulo, onde moravam, deixando-a sozinha com um bebê recém-nascido e sonhos partidos.

Apesar das dificuldades que teve a partir de então como mãe solteira, Neide não abandonou sua paixão pela corrida e continuava a praticar o esporte amadoramente, participando de maratonas onde encontrava amigos da comunidade. Era a única mulher entre eles. Com o tempo, um pequeno grupo de mulheres de seu bairro a procurou pedindo que Neide as ensinasse a correr também. Elas queriam se movimentar tanto pelo lazer da atividade, quanto pela oportunidade de praticar um esporte, um privilégio geralmente reservado somente aos homens daquele local.

Em 1999, Neide se propôs a ensinar um grupo de seis mulheres do Capão Redondo a correr durante as duas semanas em que estava de férias no trabalho – e, desde então, esse voluntariado nunca mais parou. Assim, começava a história do projeto Vida Corrida. Mas a essência da iniciativa iria mudar drasticamente quando seu filho também teve a vida ceifada pela violência em um assalto no ano 2000, pelo disparo de um revólver empunhado por uma criança de 11 anos.

Neide quase desistiu de tudo, mas foi lembrando do desejo de seu filho de que ela incluísse crianças em seu projeto, para incentivá-las a trilhar o caminho do bem em uma comunidade refém de forças do mal, que ela decidiu não apenas continuar a transformar vidas por meio da corrida, mas ir além e estender esse benefício a meninos e meninas da comunidade.

 

Quando o impossível não existe

Hoje, o Vida Corrida, com mais de 350 participantes, atende 150 crianças do Capão Redondo e pretende expandir esse número em 2016. O projeto conta com o patrocínio de grandes empresas para a aquisição de equipamentos e estrutura para realização das atividades, mas principalmente com a dedicação de voluntários apaixonados pelo esporte.

O sucesso do Vida Corrida é motivo de orgulho para Neide e para todas nós que, conhecendo sua história, contemplam a capacidade de realização dessa mulher inspiradora. Com amor e entrega, criou uma onda de solidariedade, empoderamento e oportunidades que mudaram e inspiram a vida de tantas pessoas, como nós, aqui do Think Olga.

A Neide tem mais um grande sonho: carregar a Tocha Olímpica no Capão Redondo. Ver, na comunidade onde viu sua família ser vítima da violência, brilhar uma chama de esperança, a mesma que a leva todos os dias a continuar lutando pelo Vida Corrida. Ela quer mostrar para as crianças da comunidade, que aprenderam com ela a correr brincando, que nada é impossível.

Ano que vem, os Jogos Olímpicos serão realizados pela primeira vez no Brasil e o Comitê Olímpico Internacional tem um compromisso sério com a participação das mulheres no esporte. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, criou uma plataforma onde todos podemos indicar pessoas para conduzir a Tocha Olímpica Rio 2016. Por meio do site www.brades.co/thinkolgaindica, qualquer pessoa pode indicar alguém que faz a diferença na vida de outras pessoas para ter essa grande honra. Para a candidatura ser válida, é imprescindível o candidato fazer a confirmação por email ou ele será desconsiderado. Sugestão Think Olga: indique mulheres e ajude a aumentar a representatividade delas nos Jogos Olímpicos! Quem você conhece que tem uma #chamaquetransforma?

Nós acreditamos no sonho da Neide e vamos indicá-la não apenas porque acreditamos na importância da representatividade feminina nessa tradição tão importante dos Jogos Olímpicos, mas porque ela verdadeiramente transformou e transforma a vida de muitas pessoas com o seu projeto.

Tivemos a honra de conversar com a Neide sobre sua vida, sonhos e planos para o futuro. Conheça um pouco mais sobre a história dessa mulher inspiradora em suas próprias palavras:

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Como você se apaixonou pela corrida?

Aos 14 anos, eu fui a uma pista de atletismo e tinha um campeonato escolar, mas fui para jogar handebol. Só que, no revezamento 4×100, faltou uma menina. O professor de educação física olhou para um lado, para o outro, olhou para mim e falou: “Vai você mesmo!”.  E me mandou correr. Eu disse que nunca havia treinado, mas ele disse que eu corria muito e já treinava handebol – tudo o que eu precisava fazer era ser a última a pegar o bastão e correr o mais rápido que eu pudesse. Foi o que eu fiz: peguei o bastão , corri o mais rápido que eu pude e naquele dia eu me apaixonei pela corrida porque eu nunca tinha ganhado uma medalha para eu levar para casa. Quando a gente ganhava alguma coisa no handebol, ganhava um troféu que ficava na escola, mas naquele dia eu ganhei minha primeira medalha e eu gostei tanto daquilo que eu falei: “Não, agora eu não vou mais jogar handebol, não, vou começar a correr!”. E foi assim que a corrida entrou na minha vida e eu corro até hoje. Vai fazer 42 anos que eu corro.

 

O que a corrida representa hoje na sua vida? 

Hoje, para mim, a corrida é uma ferramenta de transformação social, porque através da dela eu consegui mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

 

E o que o futuro reserva para você e para o Vida Corrida?

Ontem mesmo eu fiquei até tarde trabalhando e planejando porque no ano que vem vou atender mais 250 crianças – nós atendíamos 150, mas agora teremos mais verba para atender mais. Sem contar as mulheres: hoje nós temos 200 e acredito que no ano que vem vamos receber mais. Também tenho planos de construir nossa casa, a Casa Vida Corrida, mas o meu maior sonho, acima de tudo, um sonho de criança, é de um dia estar nos Jogos Olímpicos. Outro sonho olímpico também é ver o Jonathan Santos, que eu ensinei a brincar de correr, nos Jogos Olímpicos de 2020.

 

Muitas das mulheres da comunidade têm jornada tripla e quase não sobra tempo ou dinheiro para lazer e atividades pessoais, para cuidar de si mesmas. Como a corrida e o projeto as ajudam?

Vou falar para você o que eu ouço delas. Um dia uma chegou para mim e falou que o projeto deu autoestima pra ela. Ela falou que o projeto a levou a lugares que ela jamais imaginaria ir. Outra disse que a vida corrida uniu a família dela, que elas não tinham uma vida social, mas que através da corrida elas entraram nas redes sociais, mostraram para as pessoas o que elas fazem. Teve uma menina que veio do Piauí que foi escolhida para ser entrevistada no programa Como Será, e aí ela me disse “Neide, minha família no Piauí está em festa, eles me viram na televisão, eles me viram correr!”. Tem mulheres no projeto que voltaram a estudar, algumas fazem faculdade para um dia trabalhar no Vida Corrida. Tem mulheres que nunca tinham conhecido pessoas que não fossem da comunidade.  O projeto as leva para outros lugares.

 

 

 

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Janete Rocha Pietá, 68 anos, conheceu seu marido, Elói Pietá, na política. Juntos, eles lutaram contra a ditadura e ajudaram a formar o Partido dos Trabalhadores (PT). Certa vez, nos anos 1980, Janete era presidente do PT em Guarulhos e tinha como missão articular o partido e a bancada, enquanto seu marido era vereador. Só que quando outros políticos do partido ligavam para os Pietá para discutir a articulação, poucos procuravam Janete. Mesmo que não fosse a responsabilidade de Elói, eles procuravam o homem da casa para discutir política. Essa história de Janete, além de outras que mostram o preconceito que sofreu por ser, além de mulher, negra, é um pequeno exemplo da tradição política brasileira de segregação. Ainda hoje, mais de 80 anos depois da conquista do voto feminino, as mulheres são minoria nas esferas de poder e impera o pensamento de que elas não pertencem à política. Enquanto isso, as que fazem questão de pertencer enfrentam preconceito, assédio, exclusão dos grupos de decisão e do financiamento de suas campanhas, além de uma inclusão de fachada movida por oportunismo.

Mas por que, mesmo, as mulheres precisam estar no poder? Um motivo é representatividade, importante porque as mulheres são 52% dos eleitores brasileiros, ou 74 milhões de eleitoras que vão eleger um congresso praticamente 90% masculino, com poucas opções de candidatas em relação a candidatos. Em segundo lugar, as brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932, mas este não é o único direito político das mulheres – acesso a cargos políticos também o é.

Em terceiro lugar, ter mais mulheres no poder não significa necessariamente mais propostas  feministas, mas certamente há uma probabilidade maior da situação das brasileiras entrar em pauta. Mas tomemos o exemplo do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para despenalização do aborto, um problema de saúde para cerca de um milhão de mulheres que abortam anualmente no Brasil. O projeto está em votação pública e online no site Vote na Web, e o resultado até o fechamento desta reportagem mostra 57% de aprovação geral, com 71% de aprovação feminina e apenas 40% de aprovação masculina. Se os brasileiros em geral tivessem o poder de decidir através de uma votação online se o aborto deve ser crime ou não, já temos a resposta. Se as mulheres pudessem decidir sobre seu próprio corpo então, nem se fala. No entanto, vivemos em uma democracia representativa, em que nossos representantes decidem as leis por nós. Só que 90% desses representantes são homens brancos, muitos deles empresários. E eles não querem largar o osso.

Internacionalmente, o Brasil é aclamado por ter uma presidente mulher, enquanto tantos países de tradição democrática, como Estados Unidos e França, por exemplo, nunca tiveram uma. Na prática, ter uma presidenta reeleita tem efeitos meramente simbólicos, já que as mulheres são minorias em todas as instâncias políticas, mesmo compondo 51% da população. Na Câmara de Deputados, elas representam 8,8% das cadeiras; no Senado, 9,9%; nas Prefeituras, 12% e nos governos estaduais, 3,7% (na verdade, apenas uma mulher foi eleita dos 27 estados brasileiros). Esses números constrangedores colocam o Brasil em 120º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) que mede o índice de mulheres nos parlamentos, perdendo até para países islâmicos.

Há uma série de fatores para uma participação feminina tão limitada, que vão desde o conceito de que a responsabilidade do lar e dos filhos é da mulher até a falta de investimento financeiro. Mas uma das mais citadas entre especialistas é a resistência dentro dos partidos políticos – absolutamente todos eles. “Nas direções nacionais não temos nenhuma mulher presidente de nenhum partido. Quem decide quem vai ser candidato? Nos últimos anos, as mulheres têm representado 64% das pessoas que se filiam a partidos. O que não há é tradição e cultura de que as mulheres devem ocupar esses espaços. Não basta ser filiada, não basta ser candidata, é preciso estar dentro do poder de decisão”, disse Rose Scalabrin, Secretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, no painel Pequim +20, uma série de debates realizados em 14 de abril deste ano sobre a participação feminina na política 20 anos depois da IV Conferência sobre as Mulheres, realizada na capital chinesa.

 

Filme de terror

Em sua fala, Scalabrin disse que o sistema brasileiro de cotas se mostrou ineficiente nessas últimas duas décadas e que a reforma política, para ser eficaz, precisa englobar os partidos, para que a forma como as decisões são tomadas e os recursos são geridos seja transformada. “Muitas mulheres saem literalmente traumatizadas de uma campanha eleitoral, saem tão fragilizadas que não querem nem saber de partido político. E justamente por estarem em baixíssimos numeros em outros lugares que geram capital politico, como ministérios e secretarias, elas dificilmente têm uma base para começar. Elas têm medo de se envolver nesse jogo do financiamento, as empresas não confiam nelas porque geralmente os caciques que vão resolver as questões e elas não são recomendadas pelos partidos como candidaturas prioritárias”, explica.

Segundo Karina Kufa, advogada especialista em direito eleitoral os partidos dizem que não encontram mulheres com interesse na política. “Em parte, acho que é verdade. Tem mulheres com interesse, outras com medo, receio, falta de interesse. Então é preciso buscar essas mulheres que querem, e essa iniciativa tem que ser dos partidos. Os partidos têm que criar mecanismos para filiar mulheres, apresentar uma plataforma, usar verba do fundo partidário para formar essas mulheres e qualificá-las para a política”, diz Kufa.

Janete Pietá, que está no PT desde sua fundação, sente que a resistência às mulheres tem crescido nos últimos anos. “Eu sou de uma geração que lutou contra a ditadura, que nos anos 1970 fez toda uma movimentação no sentido de buscar nossos próprios caminhos e igualdade de direitos. Eu sinto que hoje existe um conservadorismo muito grande, inclusive no próprio PT, onde existe muita resistência na questão de paridade. Se não mudarmos a concepção de que mulher é um ser de segunda categoria, não adianta. Acho que temos que ampliar as políticas públicas, primeiro mostrar que a responsabilidade do filho não é só da mulher, é do casal. Por que só a mulher leva o filho ao médico? Por que creche só em locais de trabalho em que trabalham mulheres? Temos que avançar muito nas políticas públicas”, afirma a ex-deputada.

Afinal, as cotas de 30% das candidaturas dos partidos para as mulheres, obrigatória segundo uma lei de 1997, dificilmente são preenchidas de maneira honesta. “A saída que os partidos acabaram arranjando: desses 30%, algumas são esposas de candidatos que não têm interesse em se eleger, mas emprestam o nome só para cumprir a cota, outras são conhecidas, funcionários do partido e pior, servidores públicos. Quando vai se candidatar, o servidor pode tirar licença remunerada, então algumas mulheres tiram a licença para se candidatar, mas não se envolve na política, não vai atrás de voto e nem ela mesma vota nela. Esse ponto é preocupante porque isso é uma fraude eleitoral e improbidade administrativa porque você está recebendo dinheiro público sem prestar serviço com a desculpa de que é um benefício que a lei confere”, afirma Kufa.

Aí entra outra cota que foi aprovada com a pressão do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres: 5% do total do fundo dos partidos deve ser investido na formação política da mulher (o pedido inicial era de 30%). Ou seja, esse dinheiro deveria ser investido na capacitação das mulheres que vão compôr os 30% das candidaturas para que a votação nelas seja viável, desde cursos de oratória ou de marketing político, por exemplo. Na prática, isso raramente ocorre, segundo Kufa. “Um partido recebe um valor x de fundo que é do dinheiro público, e 5% do total tem que ser investido em mulher. Vamos supor que um partido tenha 5 mil por mês para gastar com mulher, só que ele não gasta. No ano seguinte, vem a penalidade e ele tem que gastar 7,5 mil para não ter a conta rejeitada. Os partidos estão deixando as contas serem rejeitadas, estão recebendo essa penalidade e ignorando”, afirma.

Ou seja, a política de cotas definitivamente não resolve o problema, com tantos outros obstáculos pela frente. “Você fala com mulheres com nome, credencial referência e pergunta se ela quer ser candidata. Ela fala ‘não quero porque é um filme de terror’. Política de cotas sem condições não leva a nada. Se só está na lei, vemos o resultado, quais são as mulheres nos espaços de poder que discutem a situação das mulheres?”, questiona Muna Zeyn, membro da Rede Feminista e presidente do Comitê Nacional Multipartidário de Mulheres durante o começo dos anos 2000.

 

Pele de rinoceronte

Várias décadas atrás, a antiga primeira-dama dos Estados Unidos disse que “se as mulheres querem estar na política, precisam criar uma pele tão grossa quanto a dos rinocerontes”. Ainda hoje, as mulheres que estão na política sentem a necessidade de se camuflar na pele de rinocerontes, imitando comportamento dos homens – ou aguentando a pressão. Luciana Genro, candidata à presidência em 2014 pelo PSOL, por exemplo, sentiu na pele a jornada tripla de trabalho que a militância política lhe exigiu. “As mulheres ainda são vistas como as maiores responsáveis pelo lar e pelos filhos, o que dificulta muito a participação política da mulher. Não é casual que a maior parte das mulheres que tem algum tipo de sucesso na política têm alguém da família na política porque a nossa cultura é muito machista e é muito difícil o marido aceitar que a mulher saia para uma reunião à noite e ele fica em casa fazendo janta e cuidando dos filhos. É muito difícil conciliar essa tripla jornada, a de trabalho normal que todos têm com a jornada de trabalho doméstico e um terceiro turno da militância política. Isso é um obstáculo muito crítico para as mulheres”, afirma.

A impressão de Genro é sentida por outras políticas também, independentemente do partido político. Mara Gabrilli (PSDB-SP) sente preconceito na Câmara de Deputados, onde atua. “Existe um preconceito muito grande, mesmo na Câmara, com mulheres em cargos de direção. Para mudar isso, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou no mês passado, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição 590/06, que garante a presença de, ao menos, uma mulher nas Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados, do Senado e das comissões de cada Casa. A proposta segue para ser debatida no Senado”, disse.

Para Marcela Trópia,  vice-presidente regional na Juventude do PSDB Minas Gerais, as dificuldades são parecidas com as que as mulheres em geral vivem no mercado de trabalho. “Sua capacidade sempre é questionada, se quer desenvolver algum projeto, só há espaço no segmento de mulheres para que isso ocorra, sua candidatura não terá outra bandeira que não a feminina e a sua presença sempre parece ser lembrada por que falta ‘mulher’ na mesa, em um tom de que falta uma parte bonita na mesa e não de que realmente deveríamos compô-la porque precisamos de representatividade nas decisões”, conta.

É possível entender um pouco melhor os obstáculos das mulheres na política na aba “mulheres do site Meu Congresso Nacional, um site sem fins lucrativos que apresenta dados governamentais em um formato acessível. Ou seja: gráficos. Através deles, vemos que a média de doações totais para candidatos é maior do que para as candidatas, mas a média de doações dos eleitos – de ambos os sexos – é quase igual. “Dado igualdade de financiamento para homens e mulheres, a taxa de eleitos é praticamente a mesma. Mas eu não acredito que o problema principal seja o financiamento de campanha e sim a estrutura da política brasileira, que privilegia a reeleição. Independentemente do gênero, o principal fator para se eleger é ser reeleito”, diz Kellyton Brito, engenheiro de software e criador do Meu Congresso Nacional. De fato, a maioria das deputadas (e dos deputados) eleitas já estavam no Congresso. Mas os homens se reelegem muito mais que as mulheres: quase 60% deles, contra 40% delas.

 

Muitos problemas, poucas soluções

A bancada feminina do Congresso está discutindo meios de colocar a causa da participação política das mulheres na reforma política, segundo Kufa. Se a reforma política vingar e o sistema eleitoral mudar para lista fechada, a movimentação será pela lista com alternância de gênero. Nesse caso, os partidos apresentariam uma lista com ordem de classificação definida internamente com homens e mulheres candidatos para vereadores e deputados estaduais e municipais. Os nomes da lista mais votada seriam eleitos. Há ainda outra proposta, uma reserva de 30% dos cargos em disputa para as mulheres, semelhante ao sistema de cotas das universidades. Ou seja, 70% das vagas é para todos e 30% é só para mulheres, independentemente do número de votos. Isso significa que 30% do Congresso seria representado por mulheres.

Luiz Felipe Miguel, coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades da UnB, vislumbra alternativas interessantes. “Nosso modelo de cotas é muito pouco efetivo, mas isso não quer dizer que podemos abandonar esse modelo. Precisamos aprimorar esse modelo, pensando em propaganda eleitoral, dinheiro para campanha, cotas nas direções partidárias (uma questão complicada porque mexe com autonomia do partido), cotas no poder executivo, na ocupação de primeiro escalão”, disse ele no painel Pequim +20. Miguel lembra que, ao ser eleita, Dilma Rousseff prometeu que um terço dos ministérios seriam chefiados por mulheres, o que não apenas não foi cumprido, como o número de mulheres foi minguando, já que os partidos querem indicar homens, segundo o especialista. De acordo com ele, a capacitação das mulheres não pode ser vista como a grande solução. “Talvez o caminho não seja fazer com que mulheres sejam capazes de mimetizar o comportamento da elite política masculina. É mais interessante se permitir uma mudança do comportamento com novas formas de fazer política”, disse.

Já Karina Kufa acredita no empoderamento como chave para essa mudança, no caso um núcleo de apoio à mulher com um telefone 0800 para dúvidas e atendimento durante a campanha, uma rede além do partido que as oriente sobre como buscar recursos, apresentar plataformas e que explique quais são seus direitos e deveres. “Empoderar as mulheres é o caminho”.

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população”, disse, oito décadas atrás, Bertha Lutz (1894-1976), referência do movimento sufragista brasileiro, uma mulher que lutou pelo direito feminino ao voto. Depois de conquistar o direito ao voto, Lutz se tornou deputada na Câmara Federal e defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e menores de idade – assuntos tão atuais -, propondo a igualdade salarial, uma das várias realidades que não alcançamos ainda hoje. Fingir que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens na política é apenas uma maneira encontrada para negar justiça à metade da população brasileira em pleno século XXI.

 

O que elas têm a dizer

Conheça as experiências com o machismo de sete mulheres que, apesar dele, abraçaram a carreira política.

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“Eu fui num evento no Ministério da Justiça. Sempre que tinha eventos assim, ainda no segundo governo Lula, vamos no credenciamento e os deputados têm reserva, um espaço para eles. Aí a moça estava de cabeça baixa escrevendo e eu disse ‘senhora, eu sou deputada federal’. Ela nem levantou a cabeça e falou ‘vai para outra mesa, autoridades é ali”, aí tudo bem, eu estava indo e ela me olhou e disse ‘mas a senhora é deputada federal?’. Eu falei ‘sou, por que, você tem dúvida?’. Ela disse ‘ah, eu nunca lhe vi’, e eu respondi ‘mas é impossível você conhecer os 513 deputados’. Aí ela olhou e disse ‘ah, tá bom, vai vai vai’. Foi horrível porque muitas vezes os deputados vão com os assessores, eles que pegam o crachá no credenciamento e eu não, fui sozinha e quando eu cheguei lá me deparei com isso. Eu sou a primeira deputada eleita pelo PT assumidamente negra, nunca tive um espaço especial no partido por causa disso. Mas sofri vários tipos de preconceito enquanto mulher negra.

O grande problema do racismo é que quem vive, sente, depois quando você conta, as pessoas falam “não é bem assim”. Quando eu tomei posse como deputada federal, eu não sabia que existia elevadores para os parlamentares e elevador do povo, em janeiro de 2007, cheguei no elevador e a ascensorista falou “esse elevador é para parlamentares, a senhora se dirija ao outro elevador por favor”, de uma forma muito agressiva. Aí tudo bem, fui para o outro lado, era parlamentar nova, não tinha boton. Quando eu voltei, com o Vicentinho, ele disse ‘daqui pra frente, Janete, você deve usar esse elevador’ e era a mesma ascensorista. Então ela me falou ‘me desculpe, é que são ordens’, eu disse ‘tudo bem, mas a forma como você me tratou foi muito rude’.

 

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Quando cheguei na assembleia legislativa como deputada aos já aos 24 anos filha de um político conhecido, além de ser mulher e jovem, eu ainda era filha do Tarso. Eu sentia uma desconfiança deles no ar de que ‘essa menina só chegou aqui por causa do pai dela’. Tive que trabalhar dobrado pra provar que eu tinha minha própria trajetória e minhas próprias ideias políticas. Eu também sofri muito preconceito por ter tido divergências políticas com meu pai, muitas pessoas me cobravam ‘como tu vai contra o teu pai?’. Como se fosse um crime a filha ter uma divergência com o pai, como se fosse obrigação de toda filha dizer amém para tudo o que o pai pensa. Hoje não mais, mas até alguns anos atrás eu ainda escutava essa frase, que é bem machista e patriarcal, dizendo que uma filha não pode, em hipótese alguma, ter um pensamento independente.

 

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“Para que você, como mulher, tenha se projetado politicamente, todos pensam que você se envolveu intimamente com algum homem poderoso, que seu pai é um homem poderoso ou que você tem muito dinheiro para isso, não parece haver um motivo óbvio para você estar lidando com política. O meio é majoritariamente masculino e extremamente intimidador. Não consigo ir de vestidos às reuniões, a cada amiga ou conhecida que eu levo para participar, após as reuniões, já começa a receber cantadas virtuais e um assédio enorme se inicia.

Aconteceu comigo quando entrei, bem nova, aos 16 anos e eu acabei namorando alguém de dentro do PSDB, ele hoje é deputado, mas sempre me respeitou nas minhas ambições políticas e até terminamos para que cada um seguisse seu caminho público. Se eu tivesse me envolvido com qualquer outro, talvez a história fosse bem diferente, como vi acontecer com várias amigas. Se você se envolve, é uma ‘puta interesseira’, se você não se envolve é ‘sapatão’ ou ‘mal amada’, “bruxa”. Hoje, já não sei qual minha classificação.”

 

patricia bezerra

“Passei por uma situação na Câmara, logo nas primeiras semanas de trabalho. Eu estava chegando, tudo pra mim era novo e estava tentando lidar com o tal ‘regimento interno’ que dita as regras para o funcionamento das sessões e de todas as atividades da casa. Na ocasião estava sendo votado um projeto do qual eu discordava e sempre vi ser praticado um ‘voto contrário’ no plenário.  Por observação, precedência e legitimidade, ao término da votação fui ao microfone e declarei meu voto contrário àquele projeto. Do chão emergiu um vereador que veio ao microfone e contestou minha atitude dizendo que não era ‘regimental’ o meu pedido e emendou: ‘Aí vem a vereadora aqui e nhen nhen nhen…’ Me arremedou sem nenhuma cerimônia!  Fui ao microfone e disse que não admitiria ser arremedada por quem quer que fosse e que naquele espaço eu era tão vereadora e tão parlamentar quanto ele. Nunca mais fui desrespeitada por ele, ao contrário. Infelizmente, por vezes temos de mostrar os dentes.”


ana amelia

“As mulheres estão muito mais fortes em carreiras de estado, como poder judiciário e polícia federal, profissionais liberais também, medicina, direito, engenharia e as empresárias também, há muitas bem sucedidas. Nas áreas em que ela é cobrada pelo seu desempenho ela está indo muito bem, enquanto na política não, porque ela depende de vários fatores.

Em geral, a dificuldade é de acesso a recurso do partido, o espaço dentro do partido, as condições de tratamento privilegiadas porque ela entra em um lugar onde já está ocupado o espaço, tem o vereador, o cara que é prefeito e quer levar um filho, embora no RS isso não seja muito comum, vão se formando feudos e aí fica mais complicado para a mulher. Partido político tem que insistir muito nesses segmentos.”

 

 

mara gabrilli

“Acho que minha maior dificuldade foi iniciar o debate de um tema (da pessoa com deficiência) que era considerado tabu e muito pouco debatido pelo poder público. Meu trabalho foi dar visibilidade às pessoas com deficiência, à importância da acessibilidade e de uma cidade construída para todos. A partir do momento que esses temas passaram a fazer parte da agenda pública, em todas as suas esferas, comecei a ser respeitada, dentro e fora do partido. Afinal, é um tema suprapartidário, que independe de sexo, e que diz respeito a todos nós.”

 

manuela davila

“Eu comecei a fazer política muito jovem, eu agregava as causas de preconceito no nosso país: questões de juventude, de gênero, questão ideológicas, por ser uma mulher de esquerda. Eu sempre fui uma das poucas que não tinha marido, pai ou alguma figura masculina ligadas à política, que desse aquela respeitabilidade que Brasilia esta acostumada . Então, foi um caminho muito difícil , de provar permanentemente a capacidade, as mulheres tem que provar sua capacidade de maneira repetida, muito mais que os homens. Isso foi fazendo que eu adquirisse cada vez mais consciência da desigualdade de gênero. No ambiente da universidade, do movimento estudantil, esta nunca foi uma pauta central da minha atuação. A realidade foi me impondo uma noção cada vez mais profunda de como a gente vive a desigualdade de gênero no nosso país. E foi isso que foi construindo minha militância nesta área.”

 


Arte: Ester Aarts

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olga game of thrones

olga game of thrones

A série Game of Thrones, derivada da sequência de livros Crônicas de Gelo e Fogo escritos por George R. R. Martin, tem apenas três temporadas e já figura entre as produções mais bem-sucedidas da história da TV norte-americana. Os livros carregavam milhares de fãs por onde passavam e, depois da estreia da série em 2011, a comunidade de admiradores tomou forma e teve uma adesão massiva das mulheres – algumas ainda viam o tema “medieval-fantasia” com certo preconceito.

Ao transferir as histórias de Westeros das páginas para as telas, os criadores David Benioff e D. B. Weiss tomaram uma decisão que mudaria os rumos da narrativa: dar mais destaque às personagens femininas. Quem acompanha provavelmente percebeu que a série teve uma mudança gradativa, desde uma primeira temporada recheada de nudez feminina e batalhas até a terceira, com mais foco nos diálogos e nos dramas pessoais dos personagens.  E foi assim que a série da HBO colocou no centro das atenções uma cavaleira, uma rainha, uma menina fugitiva e uma herdeira com sangue de dragão.

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BRIENNE DE TARTH

Brienne se tornou cavaleira da Guarda do Rei por opção. Ela se comporta exatamente como um soldado é treinado a se comportar, no entanto, não é considerada como “um dos soldados” entre os outros cavaleiros. Os homens a desprezam e fazem piadas, e as mulheres não sabem muito o que pensar, abominando-a por abrir mão de sua feminilidade e não aderir às função de donzela que o gênero exige nessa sociedade. Brienne vive entre os dois mundos sem acesso total a nenhum, o que define a sua personalidade e sua postura diante dos fatos. Apesar dessa aparente falta de gênero, ela tem plena consciência de sua identidade feminina e sabe que ter um título real e andar armada não a protege de sofrer abusos, sexual ou moral.

É uma personagem profunda e complexa. O interessante de seu arco até o momento na série de TV é que, apesar de todos os riscos e conflitos previstos, Brienne escolheu ser um cavaleiro, optou por desafiar as normas e escolheu a quem se aliar. Ela não foi forçada e nem manipulada a chegar até ali. Tudo que ela faz é por sua escolha própria.

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Cersei Lannister

Uma personagem central do argumento de Game of Thrones, mesmo sem nunca se sentar em referido trono, é Cersei Lannister. Pertencente à rica e poderosa família Lannister, ela foi casada com o rei dos sete reinos. Consequentemente, seu filho também se tornou o rei. Cersei tem uma vida de privilégios, porém ela já deixou claro que nunca conseguiu aquilo que ela mais deseja: o controle sobre sua própria vida algo que, segundo ela mesma, “só poderia conseguir sendo homem”. Sua vida é guiada pelo poder (se há alguém que completamente concentrado neste jogo dos tronos é Cersei). Ela também é uma das únicas que quebra os tabus da sexualidade feminina reprimida em Westeros, admitindo seu poder de sedução e seu gosto pelo sexo. Costuma, inclusive, fazer uso da sua sexualidade para ajudá-la a ganhar ou manter seu poder sobre as peças do jogo.

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DaEnerys Targarien

Um texto sobre as mulheres de Game of Thrones não estaria completo sem mencionar essa garota. Daenerys Targarien é o rosto mais famoso da série e representa muito bem a força que as personagens femininas ganharam entre as páginas e a TV. Também chamada de Khaleesi, “rainha” na língua Dothraki, ela é um exemplo de como alguém pode ser forte sem ser fisicamente capaz de entrar em uma batalha. Sua jornada começa sob o domínio de seu irmão, que a vende para o rei dos Dothraki em troca de um exército. Porém, ao se tornar esposa de um líder bárbaro, ela aprende que pode adquirir poder para si mesma, e se adapta à cultura Dothraki em busca de seu objetivo. Com o passar dos capítulos, apesar de sofrer cada vez mais provações e tragédias, Khaleesi se torna mais forte e determinada a tomar o trono dos Sete Reinos. Nesse caminho, ela aprende que herdou a genética de dragões de sua família e se torna “mãe” de três dragões.

Daenerys tem um “quê” de justiceira, mas ela não é retratada como uma salvadora pura e inocente. Há uma certa sujeira realista deixada no rastro de suas conquistas e conflitos graves em suas decisões. Ela confia em seus dragões para incendiar o que for preciso pelo caminho, mas simplesmente porque uma espada é pesada demais. E isso não tira o crédito de todo o trauma que ela não só sobreviveu, como superou de cabeça erguida. Khaleesi é durona, e permanece obstinada sem perder sua compaixão ou sua feminilidade.

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Arya Stark

Arya Stark, filha caçula do rei do norte, surge na série como uma das crianças de Winterfell. Uma menina impetuosa de 9 anos, Arya rejeita tudo o que sua irmã Sansa adora: bordado, dança e histórias românticas. Em vez disso, ela luta com espadas de madeira com seu irmão mais novo, Bran e, mais tarde, aprende a lutar com uma espada de verdade dada a ela por seu meio-irmão, Jon Snow. A menina já rejeita as construções sociais de feminilidade e papéis de gênero, apesar de sua pouca idade. Assim como Daenerys, Arya é marcada por tragédias e passa a descartar seu privilégio social como um membro da nobreza, escapando da capital Porto Real disfarçada de menino camponês. Ela parece instantaneamente confortável em sua nova identidade e, apesar de se concentrar na vingança contra aqueles que destruíram sua família, ela sempre demonstra um desejo de encontrar um lugar onde seja aceita como é.

Estes foram quatro exemplos, mas Ygritte, Ros, Osha, Melisandre, Sansa, Margeary, Catelyn, Talisa e Shae têm tanta importância quanto elas. Não são esteriótipos, nem arquétipos. Se despejarmos nossas esperanças feministas em qualquer uma delas, até mesmo em Daenerys Targaryen, provavelmente vamos acabar nos decepcionando. Contudo, quando comentamos sobre querer ver “personagens femininas fortes”, é disso que estamos falando. Não um exército de super-heroínas, ou mulheres maravilhosas sem vida amorosa complicada ou falhas morais, mas uma variedade de seres humanos complexos, problemáticos e talvez não muito confiáveis.


Letícia Souki é jornalista, pós-graduada em processos criativos e fã de ficção científica e seres fantásticos.


Este é mais um post da série sobre a revolução dos personagens femininos na TV. Veja as matérias anteriores:
– A Revolução Feminina Será Televisionada
– Séries de TV: Um Grande Momento Para Ser Mulher
– Mulheres Mais Velhas Na TV, a Conquista

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