Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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O OLGA Mentoring: Escola de Líderes surgiu do desejo de ajudar mulheres a ir além em suas ideias de negócios. O empreendedorismo é uma importante ferramenta para a diminuição da desigualdade de gênero, seja pelo fato de que nesse modelo a mulher é dona do próprio negócio e, assim,  pode eliminar o problema de discriminação dentro da empresa, quanto pelo aumento feminino no número de empresários do país.

Para as mulheres, empreender no Brasil ainda é desafiador: embora estejam à frente de 43% dos negócios, somente 0,2% delas são sócias ou proprietárias de empresas de grande porte, segundo dados de pesquisa divulgada  pelo Experian este ano.

Isso se dá não apenas pela segregação de gênero institucionalizada a que são submetidas no mundo corporativo, permeada por muitos preconceitos inconscientes ou não. A ausência de mulheres nestes cargos também acontece por um traço cultural de muitas empreendedoras brasileiras: o desejo de empreender em busca de qualidade de vida, e não por ganhos financeiros – uma reação direta das mulheres a modelos de negócio despreparados para as particularidades de funcionárias do sexo feminino.

Sendo assim, boa parte das empreendedoras brasileiras preferem abrir pequenos negócios para conciliar vida pessoal e profissional, ficar mais perto de casa, da família, fugir do mundo corporativo e conquistar um novo ganha-pão, mas hesitam na hora de expandir os negócios. Ainda segundo a pesquisa, 73% dos micro ou pequenos empreendimentos são comandados por mulheres, sendo que o número sobre para 98% quando somadas as Micro Empreendedoras Individuais (MEI). Pesa também sobre elas a exclusão sistemática das mulheres à informações sobre negócios, recursos financeiros e uma rede de apoio que as dê suporte para ir adiante.

 

O que é a Escola?

Criado com o objetivo de ajudar mulheres a seguir o caminho do empreendedorismo, o OLGA Mentoring Escola de Líderes tem sua primeira edição em São Paulo com turma de oito alunas com diferentes histórias de vida. Mães, avós, jovens cheias de ideias, elas foram selecionadas entre as mais de 300 candidatas que mostraram interesse pelo curso.

As aulas e workshops abordam temas variados e essenciais para quem deseja dar os primeiros passos no mundo do empreendedorismo: como montar um plano de negócios, noções de marketing, como vender sua ideia, finanças, tendências, etc. São nove encontros presenciais realizados no Aldeia Lisboa Espaço Coletivo.

A Escola é liderada por Nana Lima, publicitária formada pela FAAP com MBA pela ESADE Business School, de Barcelona,  especialização em  Comunicação e Marketing de Moda pelo Istituto Europeo di Design (IED) e experiência em agências de publicidade e na área de marketing de grandes empresas, ela atualmente é empreendedora e sócia da Think Eva, consultoria de negócios para marcas que desejam uma comunicação mais eficiente com o público feminino.

“As mulheres não arriscam tanto ou arriscam menos que os homens porque porque não têm as ferramentas e conhecem menos o conteúdo de negócios. Daí veio a ideia: por que nós não fornecemos isso a elas? E aí juntamos também o desejo de fornecer mentoria e criar uma rede de apoio”, explica Nana. Mais que um local de aprendizado, o OLGA Mentoring busca ser um espaço no qual as participantes possam falar abertamente sobre suas ideias, receber feedbacks construtivos e contar com a experiência de quem já possui mais tempo de mercado – além de aumentar a base de contatos dessas mulheres.

Joana Gabriela Mendes é uma das alunas da primeira turma. “Eu acho a iniciativa ótima. Me inscrevi porque estou cheia de projetos e nem sei como torná-los viáveis. A dificuldade que eu vejo é que é difícil alguém pra te dar a mão e te ajudar,  sabe? E o medo também. De não dar certo, de como fazer e com quem”, afirma. “A seleção de meninas foi incrível, elas são super interessadas e cada uma vem com uma ideia de negócio dentro da sua própria realidade, de seus próprios valores, que estão se encaixando muito bem e estamos aprendendo muito umas com as outras”, elogia Nana.

A primeira edição atraiu interessadas do Brasil inteiro e a vontade de levar a Escola de Líderes para outras regiões do Brasil é enorme. “Nós da Olga também estamos aprendendo muito sobre o formato e descobrindo como podemos empoderar as mulheres por meio desse tipo de iniciativa. Não vejo a hora de descobrirmos, a partir dessa primeira edição, formas expandir o projeto para que possamos absorver mais mulheres e levar o OLGA Mentoring para em outros estados do Brasil além do sudeste”, sonha a líder do projeto.


Arte: Leah Reena Goren

 

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A primeira edição dos Jogos Olímpicos que deu origem ao que conhecemos hoje data do ano de 1896, mas sua história começou bem antes, na Grécia, em 776 a.C. Ao longo do tempo, a participação das mulheres na competição teve períodos conturbados: ainda na Antiguidade, elas eram proibidas de assistir os jogos sob pena de morte e na primeira edição oficialmente aberta ao público feminino em 1900, em Paris, somente 22 do total de 997 atletas eram mulheres, competindo em apenas cinco esportes.

A conquista de um total de 44% de participação feminina na última edição dos jogos em Londres, no ano de 2012, com a participação delas em todas as modalidades pela primeira vez na história, não foi sem o esforço e a luta de milhares de esportistas que não se curvaram diante das adversidades causadas pelo sexismo.

É de mulheres assim que são feitas as Olimpíadas:  guerreiras que trazem dentro de si a chama da transformação. Elas fazem história ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos dos quais eram excluídas ao provar que têm garra, talento e capacidade para brilhar nos esportes.

Mulheres como Neide Santos, ou Neide Vida Corrida, como ficou conhecida ao adotar como sobrenome o nome do projeto que criou no Capão Redondo, e que já transformou a vida de milhares de pessoas por meio da prática de corrida.

Na trilha de um sonho

Atleta desde os 14 anos, Neide teve sua carreira interrompida por revezes que a vida pôs em seu caminho. Primeiro, foi obrigada a mudar-se ainda menina para São Paulo, onde foi adotada por uma família que lhe deu educação, mas também a cruel responsabilidade de trabalhar como empregada doméstica ainda criança.  Trouxe sua família biológica para a cidade, mas só depois de adulta, onde ainda passou por muita pobreza e dificuldade.

Quando se casou, viu sua vida entrar um pouco nos trilhos e vislumbrava um futuro melhor, mas seu esposo foi assassinado por policiais no Capão Redondo, comunidade da periferia da cidade de São Paulo, onde moravam, deixando-a sozinha com um bebê recém-nascido e sonhos partidos.

Apesar das dificuldades que teve a partir de então como mãe solteira, Neide não abandonou sua paixão pela corrida e continuava a praticar o esporte amadoramente, participando de maratonas onde encontrava amigos da comunidade. Era a única mulher entre eles. Com o tempo, um pequeno grupo de mulheres de seu bairro a procurou pedindo que Neide as ensinasse a correr também. Elas queriam se movimentar tanto pelo lazer da atividade, quanto pela oportunidade de praticar um esporte, um privilégio geralmente reservado somente aos homens daquele local.

Em 1999, Neide se propôs a ensinar um grupo de seis mulheres do Capão Redondo a correr durante as duas semanas em que estava de férias no trabalho – e, desde então, esse voluntariado nunca mais parou. Assim, começava a história do projeto Vida Corrida. Mas a essência da iniciativa iria mudar drasticamente quando seu filho também teve a vida ceifada pela violência em um assalto no ano 2000, pelo disparo de um revólver empunhado por uma criança de 11 anos.

Neide quase desistiu de tudo, mas foi lembrando do desejo de seu filho de que ela incluísse crianças em seu projeto, para incentivá-las a trilhar o caminho do bem em uma comunidade refém de forças do mal, que ela decidiu não apenas continuar a transformar vidas por meio da corrida, mas ir além e estender esse benefício a meninos e meninas da comunidade.

 

Quando o impossível não existe

Hoje, o Vida Corrida, com mais de 350 participantes, atende 150 crianças do Capão Redondo e pretende expandir esse número em 2016. O projeto conta com o patrocínio de grandes empresas para a aquisição de equipamentos e estrutura para realização das atividades, mas principalmente com a dedicação de voluntários apaixonados pelo esporte.

O sucesso do Vida Corrida é motivo de orgulho para Neide e para todas nós que, conhecendo sua história, contemplam a capacidade de realização dessa mulher inspiradora. Com amor e entrega, criou uma onda de solidariedade, empoderamento e oportunidades que mudaram e inspiram a vida de tantas pessoas, como nós, aqui do Think Olga.

A Neide tem mais um grande sonho: carregar a Tocha Olímpica no Capão Redondo. Ver, na comunidade onde viu sua família ser vítima da violência, brilhar uma chama de esperança, a mesma que a leva todos os dias a continuar lutando pelo Vida Corrida. Ela quer mostrar para as crianças da comunidade, que aprenderam com ela a correr brincando, que nada é impossível.

Ano que vem, os Jogos Olímpicos serão realizados pela primeira vez no Brasil e o Comitê Olímpico Internacional tem um compromisso sério com a participação das mulheres no esporte. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, criou uma plataforma onde todos podemos indicar pessoas para conduzir a Tocha Olímpica Rio 2016. Por meio do site www.brades.co/thinkolgaindica, qualquer pessoa pode indicar alguém que faz a diferença na vida de outras pessoas para ter essa grande honra. Para a candidatura ser válida, é imprescindível o candidato fazer a confirmação por email ou ele será desconsiderado. Sugestão Think Olga: indique mulheres e ajude a aumentar a representatividade delas nos Jogos Olímpicos! Quem você conhece que tem uma #chamaquetransforma?

Nós acreditamos no sonho da Neide e vamos indicá-la não apenas porque acreditamos na importância da representatividade feminina nessa tradição tão importante dos Jogos Olímpicos, mas porque ela verdadeiramente transformou e transforma a vida de muitas pessoas com o seu projeto.

Tivemos a honra de conversar com a Neide sobre sua vida, sonhos e planos para o futuro. Conheça um pouco mais sobre a história dessa mulher inspiradora em suas próprias palavras:

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Como você se apaixonou pela corrida?

Aos 14 anos, eu fui a uma pista de atletismo e tinha um campeonato escolar, mas fui para jogar handebol. Só que, no revezamento 4×100, faltou uma menina. O professor de educação física olhou para um lado, para o outro, olhou para mim e falou: “Vai você mesmo!”.  E me mandou correr. Eu disse que nunca havia treinado, mas ele disse que eu corria muito e já treinava handebol – tudo o que eu precisava fazer era ser a última a pegar o bastão e correr o mais rápido que eu pudesse. Foi o que eu fiz: peguei o bastão , corri o mais rápido que eu pude e naquele dia eu me apaixonei pela corrida porque eu nunca tinha ganhado uma medalha para eu levar para casa. Quando a gente ganhava alguma coisa no handebol, ganhava um troféu que ficava na escola, mas naquele dia eu ganhei minha primeira medalha e eu gostei tanto daquilo que eu falei: “Não, agora eu não vou mais jogar handebol, não, vou começar a correr!”. E foi assim que a corrida entrou na minha vida e eu corro até hoje. Vai fazer 42 anos que eu corro.

 

O que a corrida representa hoje na sua vida? 

Hoje, para mim, a corrida é uma ferramenta de transformação social, porque através da dela eu consegui mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

 

E o que o futuro reserva para você e para o Vida Corrida?

Ontem mesmo eu fiquei até tarde trabalhando e planejando porque no ano que vem vou atender mais 250 crianças – nós atendíamos 150, mas agora teremos mais verba para atender mais. Sem contar as mulheres: hoje nós temos 200 e acredito que no ano que vem vamos receber mais. Também tenho planos de construir nossa casa, a Casa Vida Corrida, mas o meu maior sonho, acima de tudo, um sonho de criança, é de um dia estar nos Jogos Olímpicos. Outro sonho olímpico também é ver o Jonathan Santos, que eu ensinei a brincar de correr, nos Jogos Olímpicos de 2020.

 

Muitas das mulheres da comunidade têm jornada tripla e quase não sobra tempo ou dinheiro para lazer e atividades pessoais, para cuidar de si mesmas. Como a corrida e o projeto as ajudam?

Vou falar para você o que eu ouço delas. Um dia uma chegou para mim e falou que o projeto deu autoestima pra ela. Ela falou que o projeto a levou a lugares que ela jamais imaginaria ir. Outra disse que a vida corrida uniu a família dela, que elas não tinham uma vida social, mas que através da corrida elas entraram nas redes sociais, mostraram para as pessoas o que elas fazem. Teve uma menina que veio do Piauí que foi escolhida para ser entrevistada no programa Como Será, e aí ela me disse “Neide, minha família no Piauí está em festa, eles me viram na televisão, eles me viram correr!”. Tem mulheres no projeto que voltaram a estudar, algumas fazem faculdade para um dia trabalhar no Vida Corrida. Tem mulheres que nunca tinham conhecido pessoas que não fossem da comunidade.  O projeto as leva para outros lugares.

 

 

 

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Historicamente, o bordado é uma atividade fortemente associada ao universo feminino. Os motivos, cuidadosamente desenhados com linha, agulha e dedicação, costumam retratar cenas puramente ornamentais cuja função é apenas decorativa, como flores e animais. De modo geral, a prática já não é uma habilidade exigida das mulheres como outrora, tampouco conserva-se intacta a tradição de transmitir a técnica de mãe para filha. Um coletivo de bordadeiras paulistas, porém, resolveu resgatar o bordado de uma forma diferente, trazendo como tema imagens e conceitos que fazem parte do universo erótico das mulheres.

As amigas Vanessa Israel, Renata Dania, Lais de Souza, Amanda Zacarkim, Camila Lopes e Marina Dini, criadoras do coletivo Clube do Bordado, estão fazendo sucesso ao representar de maneira despudorada o corpo feminino, sexo oral, masturbação e palavrões em suas delicadas criações. “É muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica, que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher ‘pra casar’ deveria saber bordar, cozinhar, etc”, explica Vanessa. Um trabalho que subverte a noção de que bordar é uma atividade engessada e obsoleta, dando a ela uma nova roupagem e um verniz artístico. As criações podem ser conferidas no site do Clube e adquiridas sob encomenda.

O que é o Clube do Bordado e por que ele foi criado?

Marina: O clube foi criado a partir do desejo de aprender a bordar e ter uma atividade nova dentro das nossas rotinas. A Rê e Lalá, que moram juntas, pediram para a Camila algumas aulas em casa e acabaram convidando as outras meninas que ficaram interessadas. Semanalmente nos encontramos na casa das meninas para bordar, bater papo e trocar ideias. Hoje o clube está virando negócio já que vimos um interesse muito grande das pessoas em adquirir nossas criações.

Amanda: O Clube do Bordado é uma boa desculpa para se reunir. Digo isso porque, antes de começarmos os projetos temáticos, só a ideia de ter um Clube já servia para facilitar o encontro em meio ao caos da cidade, acompanhado de conversas, comidinhas e updates da vida. O Clube juntou amigas e amigas de amigas com a ideia de aprender algo feito à mão, e a facilidade de ter alguém ao seu lado que pudesse ensinar a melhor forma de executar tal ponto, dar pitaco sobre um desenho escolhido, essas coisas. Cada encontro foi se tornado um evento, porque as anfitriãs, Renata e Laís, são prendadas e adoram receber bem, então a soma de todos esses fatores fez com que os encontros semanais fossem tomando forma e ganhando ideias de coleções, temas, negócio… Até que todas nos tornássemos ‘donas’ desse filhote coletivo.

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Por meio de uma ferramenta muito inocente, vocês exploram a sexualidade feminina de uma maneira muito elegante. Por que a temática?

Laís: A Vanessa fez um bordado softporn e a gente amou! E um amigo nosso falou que ia ter uma feira/festival de arte pornô e sugeriu da gente tentar se inscrever. A gente curtiu a ideia de “formalizar” o clube. E a gente notou que é muito legal falar de um tema tão íntimo abertamente. Por incrível que pareça, sexualidade feminina ainda é um tabu. Trazer ela a tona, para ser pensada, discutida, é muito importante. Descobrimos que, fazer isso se apropriando de uma técnica tão tradicional e tida como “atividade para mulheres”, foi um jeito de subverter todos os significados. Tanto do bordado quanto da sexualidade. Eu convidei alguns dos meus amigos (homens) para bordar, e as respostas eram sempre em tom de deboche, como se fosse algo muito engraçado um homem bordando. Seguindo por essa linha vem a sexualidade feminina e uma tonelada de tabus. E por que não aproveitar para expor tudo isso? Fazer as pessoas questionarem o que elas entendem por um grupo de 6 mulheres que se encontra semanalmente para bordar. A gente gosta de brincar com esses elementos tidos como contraditórios, mas que fazem muito sentido juntos: tecidos delicados e floridos, cores suaves, estampas de bolinhas, tudo bordado com palavrões, insinuações se sexo oral, masturbação, perversões, etc. Acredito que o mais legal é mostrar que tudo isso pode vir junto, ou separado. Além do que o sexo, e tudo que envolve o tema, sempre foi um dos assuntos recorrentes dos nossos encontros, então era natural colocá-lo na nossa produção.

Vanessa: Partindo de um olhar mais superficial, sou apaixonada pelo contraste da técnica delicada e até inocente com nossas temáticas nada discretas. Porém, além disso é muito interessante explorar a liberdade feminina e outros temas tabus de nossa sexualidade fazendo uso dessa técnica que por muito tempo foi uma maneira de oprimir as mulheres, uma vez que mulher “pra casar” deveria saber bordar, cozinhar, etc. Desde que começamos a expor os trabalhos do clube, temos recebido alguns depoimentos de senhoras que odiavam ser obrigadas a aprender a bordar dizendo que se tivessem tido a ideia de bordar o que bordamos, com certeza a atividade teria sido bastante prazerosa. (umas fofas!)

Como é o processo de criação de vocês?

Marina: No começo do clube não trabalhávamos com temas. Quando surgiu o tema do Popporn, cada uma de nós pesquisou ou criou imagens a partir de ideias particulares. Eu pelo menos pensei em algo que eu gosto e a partir daí sair em busca de referências e imagens. Agora já temos uma lista de coleções que queremos produzir e a próxima é a Cinéfilos. Fizemos uma pesquisa no Facebook para saber quais filmes as pessoas gostariam de ver bordados. A partir dessa lista fizemos uma seleção e acrescentamos vários outros que nós gostaríamos de bordar. Cada uma ficou responsável por alguns deles e a partir daí temos toda a liberdade de criar. Estamos coletando nossas cenas, imagens e frases favoritas e vamos desenvolver os bordados com a identidade única dos filmes e de cada bordadeira.

É preciso coragem para expor um assunto visto como tabu, como a sexualidade da mulher, de forma tão clara. Como tem sido tratar dessa questão de forma tão pública e tão artística?

Renata: O feedback tem sido ótimo! Até hoje os comentários são muito positivos e sempre recebemos mensagens de apoio e incentivo. De uma forma delicada e singela, temos representado através do bordado ilustrações e ideias com as quais muitas pessoas tem se identificado. É muito legal ver que hoje o bordado despertou nossa curiosidade e escolhemos representar nossas ilustrações através dessa técnica.

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Entrevistamos a Cris Bertoluci, para a Olga, no ano passado. Ela disse que o tricotar era uma forma de conquistar a liberdade. Vocês acreditam que o bordado também tem um quê de libertador? 

Marina: Acho que sim, bordar é libertador assim como todas as expressões artísticas. Um bom exemplo disso são os homens interessados em bordar com a gente. No passado isso dificilmente aconteceria, um homem jamais se diria interessado em uma atividade destinada unicamente à mulheres. A partir do momento que você tem um bastidor e uma agulha nas mãos o bordado pertence apenas à você e é muito libertador poder decidir o que quer fazer com aquilo.

Vanessa: Sim! Acredito que o bordado seja um ótimo caminho não só para a liberdade como as meninas já explicaram, mas também para o auto conhecimento, pois além de bordarmos juntas semanalmente, parte de cada projeto é executado de modo solitário, em que apesar de termos o foco e a atenção voltados para as mãos e a feitura da ilustração, a atividade permite a livre fruição do pensamento, possibilitando o exercício da paciência para desfazer e refazer cada ponto que foi para o caminho errado e também a compreensão do tempo das coisas, já que é um processo impossível de ser acelerado.

Vocês acreditam que o trabalho de vocês seja empoderador para mulheres?

Vanessa: Com certeza. Tentamos expor assuntos como masturbação feminina, tipos diferentes de corpos e diferentes sexualidades, com o intuito de fortalecer a auto estima das mulheres. O retorno tem sido tão positivo que já fizemos um encontro aberto para conhecer melhor as meninas que gostam do nosso trabalho e pretendemos fazer outros!

Laís: Muito! Impressionante o quanto. Quando eu comecei a bordar eu já senti a força que tinha colocar para fora algo que só existia na minha cabeça. Eu sinto esse empoderamento primeiro comigo. O bordado me deu força, para eu acreditar em mim mesma, na minha criatividade, na minha capacidade de me comunicar e impor e expor os meus pensamentos. E tudo isso fica refletido no bordado que eu faço. Teve uma amiga que veio me contar que amou a idéia, que ela queria aprender a bordar também e me contou até algumas intimidades da vida dela. Foi um diálogo que se abriu. E só com muito diálogo que a gente consegue mudar os nossos pensamentos. Nossa forma de ver o mundo e de se relacionar. Que o bordado seja uma forma de abrir muitos diálogos, questionamentos, reflexões. Para que, no futuro, a sexualidade deixe de ser um tabu.


Edição: Luíse Bello

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Falar com as mulheres ainda é um desafio para muitas marcas. Infelizmente, é mais fácil encontrar anúncios que retratem as mulheres de maneira equivocada do que aqueles que buscam fazê-lo com cuidado e profundidade.

O número de marcas que precisam repensar sua comunicação com o público feminino supera com folga o daquelas que já encontraram uma abordagem mais direta e honesta com suas consumidoras. Em um mercado de ideias fossilizadas sobre como se dirigir a esse target, inovações podem significar riscos que a maioria dos anunciantes não está pronta para encarar.

Entretanto, aqueles que decidem repensar sua comunicação com as mulheres para além dos estereótipos se colocam na vanguarda de uma mudança de um mercado ainda muito atrasado: o revolucionário entendimento de que mulheres também são pessoas.

Sendo assim, enquanto algumas marcas ainda tropeçam com flopadas gigantescas na hora de falar com elas, outras nos inspiram com campanhas super bacanas que fogem da mesmice. Conheça oito delas:

 

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=l1xxx4NYYUQ]

Volkswagen Passat – Meninas na banca de limonada

A Volkswagen do Canadá veiculou esse anúncio para divulgar o novo Passat em agosto de 2013. Sua proposta é simples: duas meninas (e vale ressaltar que uma delas é negra) estão trabalhando em uma banca de limonadas na calçada quando um carro se aproxima. Ao verem que se trata de um veículo caro, elas viram a placa de preço ao contrário, exibindo um valor mais alto, a ser praticado com clientes ricos. A ideia é simples, mas a grande sacada, que garantiu ao anúncio uma posição em nossa lista, é o uso aparentemente displicente de duas meninas como protagonistas de um anúncio de carros. Ao vermos o anúncio, essa escolha parece tão natural quanto deveria ser a presença feminina protagonizando cenas inteligentes nos comerciais – e não apenas adornando-os, como acontece na maioria dos anúncios.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Verizon – Inspirando meninas a amar exatas

Esse anúncio da Verizon mostra como muitas vezes os pais acabam desencorajando suas filhas a se interessar por ciências ao afastá-las de sujeira ou bagunça e as incentivar a estar sempre bonitas. Ele apresenta Samantha, que é uma menina que, em diversos momentos da infância, é reprimida por seus pais ao brincar na terra ou ao desarrumar o quarto enquanto trabalha em um projeto de ciências. “Cuidado pra não sujar o vestido”, “Deixa seu irmão fazer isso” e “Quem é a minha lindinha?” são algumas das frases que levam ao desfecho em que ela, um pouco mais velha, aparentemente ignora um cartaz sobre uma feira de ciências para passar gloss nos lábios. A mensagem é clara: é preciso incentivar e valorizar a inteligência das meninas, não só a beleza. O vídeo serve como um alerta para os pais e é encerrado com um dado preocupante: nos EUA, 66% das meninas até a 4ª série afirmam gostar de matemática, mas somente 18% dos estudantes de todas as engenharias são mulheres.

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GoldieBlox – Para futuras engenheiras

E é para incentivar meninas a gostar mais de engenharia que nasceu a marca GoldieBlox. Criada pela Debbie Sterling, uma engenheira formada em Stanford que não se conformava com o número pequeno de mulheres no seu curso e que cresceu insatisfeita com as poucas opções de brinquedos criativamente instigantes  para meninas. Com um anúncio veiculado no Super Bowl desse ano, a GoldieBlox oferece kits para meninas criarem as máquinas e resolverem os problemas propostos pela personagem Goldie e seus amigos. O vídeo apresenta três meninas entediadas ao assistir uma propaganda de bonecas na tevê que resolvem criar elas mesmas um enorme mecanismo para desligar o aparelho.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=FRf35wCmzWw]

Kotex – Fazendo graça em cima do clichê

A marca de absorventes Kotex lançou esse anúncio em 2010. Nele, a protagonista descreve de maneira irônica todas as situações lúdicas em que as mulheres são representadas em anúncios de absorventes, tais como caminhadas na praia, usar roupas brancas e sair para dançar – como se ficar menstruada fosse uma grande curtição. Divertido, o anúncio não subestima o senso de humor feminino e ainda gera cumplicidade entre as consumidoras e a marca.

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Aerie – Xô, Photoshop!

A marca de lingerie Aerie lançou no ano passado a campanha #AerieREAL, na qual nenhuma das fotos do catálogo sofreu qualquer retoque de imagem. Ao escolher modelos cujos corpos fogem do padrão imposto pela indústria da moda e eliminar o uso de Photoshop, a Aerie aposta em uma comunicação mais simples e honesta que, por si só, já é super bacana, mas que ainda gerou uma repercussão incrível com a viralização da iniciativa. Além disso, é que qualquer usuária da marca pode enviar fotos utilizando peças da Aerie para o site da loja, criando um catálogo incrível que torna toda mulher uma modelo da marca.

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Cover Girl – Garotas podem, sim!

As marcas de cosmético gringas fazem esforço para mostrar como a maquiagem deve ser utilizada como uma maneira de expressar a personalidade feminina, e não para atrair o sexo oposto como se essa fosse a única preocupação da mulher. Em 2012, Revlon fez uma campanha com a Halle Berry e a Emma Thompson falando sobre câncer de mama. No ano seguinte, a campanha #ShineStrong, da Pantene, falou sobre como as mulheres são rotuladas de maneira mais crítica que os homens ao adotar os mesmos comportamentos que eles. A Dove, pioneira em retratar “mulheres reais”, continua seus esforços em ajudar mulheres a encontrar sua real beleza e lançou um vídeo de três minutos sobre a importância das selfies para a autoestima feminina.

O vídeo em destaque, porém, é da Cover Girl, que convidou famosas que arrasam em áreas em que as mulheres costumam ser convencidas de que não têm acesso. Com a hashtag #GirlsCan, elas partilham suas experiências como comediantes, esportistas e roqueiras de sucesso em um mundo no qual é comum ouvir que mulheres não são engraçadas, nem fortes, etc. Elas aconselham as espectadoras a ter coragem e encarar cada “não” como uma chance de provar que elas podem, sim, fazer o que quiserem! Outro ponto positivo da Cover Girl é a diversidade na escolha das garotas-propaganda. Entre elas, estão Queen Latifah, Ellen Degeneres, Janelle Monae, Pink, Becky G e Talia Joy Castellano (uma menina de 13 anos que lutou contra o câncer).

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XjJQBjWYDTs]

Always – Fazendo coisas como uma garota

A marca de absorventes Always resolveu mostrar como a expressão “como uma garota” é utilizada de maneira pejorativa. Ela convidou voluntários que deveriam simular a execução de tarefas simples como correr, mas com a ordem de fazê-las “como uma garota faria”. Participantes de ambos os sexos adotavam trejeitos desengonçados e fúteis, mas em seguida são questionados sobre por que agiram assim. A reflexão gerada os leva a repensar como essa atitude ofende as mulheres e que fazer as coisas como uma garota não é um sinal de incapacidade.

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Duloren – Pelo direito de amar a si mesma

A Duloren é conhecida por suas campanhas de conteúdo picante. Neste ano, resolveu mostrar que é possível uma mulher ser feliz sozinha em pleno dia dos namorados. Com peças com o título “Eu me amo” e imagens sugestivas, faziam referência à masturbação feminina. Conceito ousado que gerou polêmica e uma notificação do CONAR, mas cuja repercussão, em geral, foi positiva ao incentivar as mulheres a conhecer o próprio corpo.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=NEcZmT0fiNM]

HelloFlo – Menstruação com humor

Dá para fazer propaganda de absorvente sem líquido azul, roupa branca colada, mulher feliz pulando ondinhas e outros clichês que tratam da menstruação como algo misterioso que não pode ser nomeado? Dá. A HelloFlo, com um approach leve e bem-humorado, mostra a história da menina que finge menstruar pela primeira vez. Sua mãe, sabendo da mentira, faz uma festona para celebrar a menarca e tirar sarro da filha.


Arte: Leah Goren

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olga perfeicao

olga perfeicao

Eu não sou perfeita, é óbvio. O que não é tão óbvio assim é o fato de eu não poder viver a minha imperfeição. Ela incomoda demais. Não a mim, mas aos outros. E quem me fez perceber isso foi a TV a cabo, mãe de todas as procrastinações, a quem me rendi em um dia de concentração zero. Ali, assisti a dois filmes seguidos que me fizeram recordar de um dos meus maiores sonhos de infância: nascer menino. O motivo? Poder viver dentro do gênero que não só permite a imperfeição, como estimula e abraça falhas. Enquanto menina, só me foi apresentada a necessidade de ser pura, elegante, direita… Impecável.

Primeiro foi Valente, animação da Disney que conta a história da princesa Merida. Por preferir caçar de arco e flecha na floresta a e ganhar um sapato de cristal, Merida é vista como rebelde. Tal concepção, propositalmente desacertada, é o centro de um roteiro infantil que nos traz enfim uma protagonista feminina mais real. Tem cabelos bagunçados, postura desajeitada e nenhuma paciência para caber em vestidos apertados. Mas uma princesa não pode viver assim – “e nem rir, pular, correr, gritar”, já avisa sua mãe, a rainha. Merida tem três irmãos mais novos que tocam o terror no reinado. Neles, enxerga a liberdade que gostaria de ter. “Meus irmão se livram de todas as broncas”, diz. “Já eu, não me livro de nenhuma.”

Parece apenas mais um conto de criança, que acontece em castelos de animações Disney e não na sala de estar de nossas casas ou nas pré-escolas por aí. Mas não é verdade. A “maldição da princesa” é repassada para meninas até hoje. Para ganhar a coroa imaginária, aprendemos o nosso lugar, no pedestal, e ali permanecemos imóveis, mudas, delicadas, discretas… Dolorosamente perfeitas. Aprendemos a cruzar as pernas quando sentadas muito antes de entendermos o significado de uma vagina e que um quarto bagunçado não é coisa de “mocinha”. O “não é coisa de mocinha”, por sinal, nos acompanha pela vida, determinando as escolhas das nossas roupas, delimitando nossas experiências com a sexualidade, moderando nossa forma de trabalhar e gerenciar equipes, refreando a maneira como expomos nossas opiniões em grupos…

Em seguida, vi Ruby Sparks. O longa mostra a trajetória de um brilhante, mas solitário escritor que se apaixona por uma de suas personagens fictícias. No filme, uma cena de quase 5 segundos, bastante insignificante ao plot, me fez viajar. O escritor, também bastante atrapalhado, não checa as mensagens do agente, que informava sobre um evento que celebraria seu livro de estreia. Ele aparece atrasado e maltrapilho. No fim da apresentação, reclama: “Eu poderia ter me vestido melhor…”. É quando seu agente responde sem hesitar: “você é um gênio, ninguém vai ligar para a sua aparência”. Uau! Uma verdade – e uma gigantesca regalia – dirigida exclusivamente aos homens.

Independente da genialidade de uma mulher – ou da sua força, influência, conquistas, poder – ela sempre será passível de críticas, principalmente quando se trata de seu visual. Nem a presidenta Dilma, nem a chanceler alemã Angela Merkel, no topo da cadeia política escapam de análises fúteis e irrelevantes sobre suas preferências de moda e beleza. “Ao escolher um aspecto de qualquer candidata mulher para criticar, reflita se você escolheria criticar a mesma coisa num candidato homem. Não parece meio imbecil gostar ou desgostar de Serra ‘porque ele é careca’? Então por que a estética serviria para gostar ou desgostar de uma candidata mulher?”, escreveu Marília Moschkovich, no post Entre Dilma e Marina, Escolha Não Ser Machista.

Já este artigo, realizado em 2007, fala sobre como a forma que mulheres empreendedoras, líderes e presidente de empresas, são retratadas em revistas especializadas. É feita uma comparação entre as publicações Fortune e Exame. A primeira, norte-americana, traz perfis focados no histórico profissional. “As descrições, sem excessos narrativos, consagra o sujeito feminino como empresária eficiente”, relatam as autoras. Já a Exame traz narrativas com histórias pessoas, citações de moda e beleza, referências à maternidade e os cuidados da casa. “Ou seja, ao assumirem postos de comando nas corporações, estas ‘extraordinárias’ ganharam civilização, sem deixar de lado, entretanto, os aspectos castos da sua própria natureza.”

Vale a pena conferir a pesquisa e os exemplos de matérias que ele traz. Quando a Exame fala de Luiza Trajano, quem comanda a rede de lojas Magazine Luiza, faz questão de ressaltar que durante a entrevista ela usava branco, pérolas, que sua voz é suave e seus gestos, delicados. Ieda Correia Gomes, na época presidente da Comgás, ganhou a seguinte descrição no perfil: “metida numa calça jeans e uma blusa decotada estampadinha de flores, essa baiana de 43 anos…”. Pode parecer inofensivo – pois estamos acostumadas a ler ou até mesmo propagar essas alegorias – mas a verdade é que a ideia de empresária da Exame “lembra à mulher o seu lugar tradicional social, o de esposa e mãe”. Aquele imóvel e corretinho, o pedestal. 

a INSURREIção da imperfeição

“Será que as mulheres vão ter, um dia, a liberdade de serem feias?”, pergunta uma matéria do Jezebel. O NY Times trouxe a mesma reflexão, em meados de outubro, com o texto A New Image of Female Authenticity: “Já é possível detectar uma iconografia feminina mais realista, grotesca e defeituosa – de coxas largas e sexualidade nada sexy. De infinita maneiras, mulheres estão clamando por uma liberdade já desfrutada há tempos pelos homens: o direito de ser feia também”. O “feia” em ambas ocasiões, no entanto, poderia ser substituído por “humana”, termo mais simples e direto, já que acho que não estamos (e nem deveríamos) falar apenas de aparência. 

No texto, há alguns exemplos de mulheres famosas que estão conseguindo quebrar essa expectativa da perfeição. E por elas o fazerem debaixo das luzes dos holofotes, um dos lugares mais duros e exigentes com as mulheres, é ainda mais notável. Como a diretora e atriz Lena Dunham, que subverte a noção de feminilidade simplesmente por não se importar com seu peso, com as roupas que escolhe, com sua beleza. “Quando ela joga ping-pong com os peitos de fora, claramente ela não está tentando tentando atingir os homens como público-alvo. Ela faz essa cena APESAR deles”, escreve Anand Giridharadas, no NY Times. “E o infame twerking de Miley Cyrus (…) foi uma performance nada bonita sexualmente que era mais algo vindo dela mesma do que feito PARA alguém.”

Com essas pequenas transgressões ou ações que os críticos consideram de mau gosto, essas mulheres estão apenas lutando pelo direito de serem tão estranhas e imperfeitas quanto qualquer um dos grandes atores, escritores ou gênios homens. Estão criando cenas que elas mesmas gostam, e descartando a opinião em relação ao que se espera delas. Como bem li outro dia por aí: nada mais radical para uma mulher do que sair de casa com o cabelo despenteado.

Ilustração: Leah Goren

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olga feminismo

olga feminismo

A revista ELLE deste mês é centrada no girl power. Participei da edição com uma matéria que se propõe a debater o feminismo contemporâneo. Para elaborar o texto, conversei com Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em discussões sobre trabalho e gênero.

Durante a entrevista, ela me deu um belo olhar sobre o movimento nos dias de hoje, como ele é percebido por mulheres e homens e até mesmo se podemos chamá-lo de “novo feminismo”. Como não coube nosso longo papo no texto da ELLE, decidi postar toda reflexão da Bárbara aqui. Veja abaixo:


Sempre fico um pouco na dúvida sobre se podemos chamar o que acontece hoje de novo feminismo. E penso isso porque entendo que são basicamente as mesmas ideias que vêm pautando o movimento desde os tempos da Simone de Beauvoir. Aí poderiam dizer “mas, poxa, como assim são as mesmas ideias se passaram tantos anos e tantas conquistas foram feitas?”. O que eu responderia é que não é ruim dizer que, na essência, as ideias são as mesmas.

Acho, inclusive, que ajuda a organizar as ideias e a entender que, mais do que um sinal de que nada mudou, é um indicativo de que ainda há muito pelo que lutar. Com exemplos, acho que fica mais claro: as mulheres conseguiram o direito ao voto e ampliaram sua participação no mercado de trabalho, mas ainda há uma participação mínima das mulheres na vida política institucional, no Brasil, e uma imensa desigualdade salarial entre homens e mulheres que ocupam a mesma função no trabalho.

Construímos a Lei Maria da Penha e as Delegacias Especiais de Mulheres há pouco tempo, mas as mulheres continuam sendo agredidas diariamente nas ruas e nas suas casas. Muita coisa mudou e foi conquistada, mas o que ainda permanece no senso comum é a ideia de que os gêneros feminino e masculino – ou seja, a maneira pela qual homens e mulheres se comportam, se vestem e fazem suas escolhas na vida – são predeterminados pelo sexo biológico. É isso o que permite a persistência das desigualdades, que cria hierarquias de gênero e as defende como algo natural, que vem do sexo biológico e que, portanto, não pode ser modificado.

O papel do feminismo, de uma maneira geral, foi sempre o de negar essa ideia da natureza determinando o comportamento e as capacidades das mulheres. Foi sempre o de dizer que a ideia de feminino é algo socialmente construído. E essa é uma ideia poderosa, porque, se é socialmente construída, pode ser modificada.

Se essa ideia é a que persiste, sua difusão é justamente a que permite o feminismo ser tratado da maneira plural como ele é feita hoje. Não que não houvessem diversas correntes desde o seu início, mas a compreensão dessa ideia ajuda a gente a entender uma série de movimentos novos, como a marcha das vadias ou o Pussy Riot.

No caso da marcha, defende-se que a mulher possa usar as roupas que bem entender, e que isso não deve ser entendido como um chamado para os homens assediá-las. Além do controle sobre a sexualidade, ideia que a Simone de Beauvoir já defendia, vem a novidade de dizer que mostrar o corpo não deve ser tratado como objetificação da mulher, como algumas feministas mais tradicionais defenderiam.

Vestir-se como gostaríamos passa a ser tratado como uma escolha, como parte da liberdade de expressão da mulher. Mostrar o corpo e, no limite, prostituir-se, são ações que não podem mais ser tratadas como símbolo da dominação masculina sobre as mulheres. Podem e devem ser tratadas como escolhas (apesar de que não são todas as mulheres que fazem a escolha de vender seus corpos. Mas se há as que fazem, é preciso reconhecer essa capacidade de agência e respeitá-la).

O caso do Pussy Riot é ainda mais interessante porque traduz mais um traço do que leva a gente a chamar os movimentos feministas atuais de novos movimentos feministas: a incorporação de outras pautas na agenda de luta. Ou seja, além de lutar pelos direitos relativos às mulheres, os movimentos feministas estão se engajando em lutas políticas institucionais, como a campanha contra o presidente russo Vladimir Putin, nesse caso.

O sensacional dessa incorporação é o poder que a ação traduz: mulheres não lutam apenas por questões relativas às mulheres, mas por uma sociedade melhor. Digo que é sensacional porque ajuda a desconstruir a imagem errada de que os homens estariam excluídos da pauta de luta das feministas. E digo que está errada porque o machismo e essa obrigatoriedade de vivenciar os gêneros segundo um padrão pré-definido também causa enorme sofrimento aos homens, pois aqueles que não pautam sua masculinidade por essas ideias também sofrem violência (simbólica ou não) de outros homens.

Acho que isso ajuda a responder sua pergunta de por que o feminismo parece estar ganhando tanta força hoje. Além da aceitação da ideia de que homens e mulheres devem ser tratados de maneira igual e ter acesso às mesmas oportunidades, há uma maior aceitação de que os gêneros podem ser exercidos pelos homens e mulheres da maneira que eles bem entenderem. Ou seja, uma mulher pode ser feminista e gostar de moda, de se vestir de maneira provocativa, de vender seu corpo, de escolher sair do trabalho para cuidar dos filhos porque se realiza dessa maneira (desde que seja uma escolha efetiva, claro).

Ao mesmo tempo, um homem pode gostar de decoração, de cuidar da casa, e de também escolher sair do trabalho para cuidar dos filhos (daí o sonho de conquistarmos, no Brasil, a licença paternidade como ela existe em outros países), sendo heterossexual ou não. Enfim, acho que o faz as ideias feministas estarem ganhando mais espaço é justamente a superação de estereótipos do que é uma feminista e de como ela deve se vestir, se comportar etc.

Assim como o gênero é socialmente construído – o que quer dizer que as práticas sociais vão modificando o seu significado aos poucos – o feminismo também é resultado de práticas sociais. E é por isso que ele sempre se renova, sempre incorpora ideias novas. E o feminismo continua sendo importante para as mulheres porque ainda há muita coisa a ser conquistada (como já citei: igualdade de oportunidades no mercado de trabalho – ainda é muito comum ouvir que mulheres não servem para o perfil de trabalho que envolve viagem porque elas têm que cuidar da família, por ex.; igualdade salarial para pessoas que ocupam as mesmas funções; reconhecimento do exercício da livre sexualidade sem julgamentos morais; o direito ao aborto; etc.).

Acho que o mais interessante, hoje, é ver que além de incorporar novas ideias, há feminismo atuante fora de movimentos organizados: existem muitas mulheres, como eu ou como você que são o que costumo chamar de militantes do cotidiano, porque a gente faz a nossa luta no dia-a-dia, conversando, convencendo, divulgando ou reagindo ao assédio das ruas. Por isso que, apesar de contraditórias, acho que temos mulheres muito importantes pra divulgar algumas das ideias fundamentais do feminismo.

A Valesca Popozuda sobe no palco pra dizer que as mulheres têm direito a ter prazer sexual, apesar de muita gente dizer que ela depõe contra a conquista das mulheres porque obedece a um padrão de beleza (e até leva isso ao extremo, como quando colocou as próteses de silicone na bunda).

A Lena Dunham faz a mesma coisa de uma maneira mais leve com Girls, e mostra como até essa ideia de uma mulher sexualmente emancipada, com muitos parceiros e sem construção de laços emocionais, pode ser opressiva às vezes. Acho o seriado cheio de ideias boas por isso: mostra as contradições daquilo que se convencionou ser subversivo e daquilo que quer ser vivido. É um conflito das mulheres da nossa geração: posso casar sem parecer que estou em uma relação machista? Posso fazer um jantar surpresa pro namorado sem parecer que sou submissa na relação? Quem nunca teve esses conflitos antes de parar, pensar e garantir que apesar de o machismo existir, ele não necessariamente está presente na sua relação porque nem você nem seu parceiro são assim?

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AMOR - Ana Helena Tokutake

olga artistas

A arte tem gênero? O que é um desenho com traço “feminino”? Para discutir esse tema, convidamos duas jovens artistas brasileiras para debater o mundo da ilustração, suas inspirações e seus obstáculos. Ana Helena Tokutake (conhecida como Iamana), 28 anos, desenha, pinta, tricota, borda, fotografa, canta, toca e está também buscando a arte no mundo das flores. “Comecei um curso de Ikebana logo que voltei de uma viagem ao Japão”, conta. “De muitas maneiras, essa arte está ligada com tudo que já faço: as cores, texturas, equilíbrio, mas tudo isso com flores, o que torna tudo mais vivo.” Entre os trabalhos que mais gostou de fazer está o pôster da turnê de 20 anos do disco Last Splash, do Breeders (acima).

A capixaba Irena Freitas, 22 anos, adora desenhar mulheres e trabalha numa empresa de games – o que significa lidar constantemente com questões relacionadas a gênero. Uma das suas ilustrações favoritas é a com os personagens do filme Moonrise Kingdom, de Wes Anderson. O trabalho virou capinha de iPhone e conquistou até Lena Dunham, atriz, roteirista e diretora do seriado Girls, da HBO (veja na foto acima). Recentemente, também colaborou com a nova edição da publicação Petty Pony, sobre Harry Potter.


 

Ana Helena Tokutake: Bom, me conta como você começou a ilustrar. 

Irena Freitas: Eu sempre desenhei e sempre quis trabalhar com isso, sabe? Mas eu não sabia se dava (risos)

Ana: Super sei! (risos)

Irena: Aí, quando eu tinha uns 15, 16 anos, comecei a conhecer gente pela internet que fazia isso. Foi quando comecei a me focar mesmo, não só desenhar atrás de caderno da escola. Tu sempre fizeste esse teu tipo de arte ou foi algo que foi desenvolvendo com o tempo?

Ana: Sim, acho que é sempre assim. Uma coisa natural que a gente nem vê e já tá fazendo… Eu também sempre desenhei, desde sempre. E uma hora vi que tinha aceitado um trabalho de ilustração sem entender muito bem como que seria isso! Daí você vai aprendendo fazendo, tropeçando. Meu trabalho mudou com o tempo. E é engraçado que vi seus trabalhos e um dos primeiros trabalhos que fiz foi para a revista Capricho também. Que é super a revista das meninas. Como é pra você pensar que está desenhando para meninas?

Irena: Nossa, quando eu aceitei o meu primeiro freela para a Capricho eu não sabia nem o que eu estava fazendo. (risos) No final eu mandei um e-mail pra editora de arte da revista pedindo desculpas por qualquer burrada que eu tivesse cometido (risos).

Ana: No fim, dá tudo certo, né? Porque acho que, querendo ou não, a gente faz tudo muito intuitivamente.

Irena: Mas mesmo assim, toda vez que pego algum projeto novo, fico meio empolgada e meio nervosa.

Ana: Sim! Acho que isso é para sempre. Eu adorei muito seus desenhos que são cheios de personagens, uma coisa que eu tenho mta dificuldade em criar. Como é pra você criar personagens, principalmente meninas?

Irena: Sabe que eu nunca parei pra pensar nisso? Eu acho que eu gosto muito de personagens em geral, em livro, em filme ou na TV. É uma das coisas que eu mais gosto num top 10 da vida (risos). Então é natural desenhar isso. E eu sempre tive referências femininas, tipo heroínas favoritas mesmo, então é algo que eu  reproduzo.

Ana: Eu vejo que você escolhe o tipo de personagem que quer representar. Para mim, suas personagens sempre parecem estar exatamente onde elas querem estar, parecem decididas e com personalidade forte. Quem são suas heroínas favoritas?

Irena: Nossa, é uma INFINIDADE. Mas vou tentar listar algumas: Lizzie Bennet, Cher Horowitz [Patricinhas de Beverly Hills], Buffy [a Caça-Vampiro], Sophie Hatter [Howl’s Moving Castle], Dana Scully [Arquivo X], Kat Stratford [10 Coisas Que Eu Odeio Em Você] e mais um monte de gente. Tu tens algo do tipo também? Porque você diz que tem dificuldade de representar personagens, mas as suas fotos sempre parecem representar a rotina de alguém ou o lugar onde essas pessoas vivem, sabe? Fico agoniada com aquelas fotos que parecem pra revista de decoração: tudo lindo, mas parece que ninguém vive ali naquele lugar.

Ana: Adorei as meninas que você citou. Todas tem a atitude de não ficar esperando as coisas acontecerem e acho que estão sempre questionando as coisas. Acho que minhas heroínas são um pouco assim também. Quase sempre da música ou artistas também: Frida Kahlo, Patti Smith, Louise Bourgeois, Marina Abramovic, Debbie Harry. Sobre os personagens, gosto de criar um ambiente, uma imagem que deixe um espaço. De alguma maneira, eu tenho ido muito para um caminho de abstração, de tentar deixar o mais elementar possível. Mas acho legal que vejo um pouco disso também nos seus desenhos, de você conseguir criar esses espaços. Seu desenho tem um traço simples, mas muito expressivo. É um lance de ter um mistério por trás de tudo. Todas essas nossas heroínas têm um pouco disso: serem misteriosas e super expressivas ao mesmo tempo.

Irena: Verdade! Eu gosto de dar um pouco de espaço pra interpretação. Honestamente, acho que meus desenhos são mais personalidade que técnica. E às vezes isso me deixa um pouco preocupada do ponto de vista profissional. Mas eu também não me sinto muito atraída por trabalhos que se prendam muito à realidade, tipo pinturas realistas.

Ana: Me incomoda um pouco o lance do realismo porque as pessoas entram numa relação de contemplação. E acho que trabalhos mais soltos parecem se aproximar mais das pessoas.

Irena: É aquela coisa das pessoas acabarem gostando mais pelo grau de dificuldade do trabalho, em vez do significado dele. 

Ana: Exatamente!!! Essa é uma super questão, quase uma metáfora. Inclusive desse nosso universo feminino.  Falando em significados, eu amei a releitura da chapeuzinho vermelho!

chapeu gif

Irena: Eu fiz isso pra uma aula na faculdade e meu professor não entendeu (risos). Ele disse que não entendia porque era maldade o que lobo tinha feito.

Ana: Ele queria mais realismo (risos).

Irena: Mas quando a gente é adolescente, tudo a gente acha que é maldade!!! O lobo deixa de ficar com a chapeuzinho pra ficar com outra menina. Esse era para ser o clímax de maldade no lobo na história da releitura. E meu professor queria alguma coisa mais maldosa. Mas maldade é uma coisa meio relativa, né? Quando a gente é nova e alguém não gosta da gente da mesma forma, parece que é uma maldade enorme!

Ana: A questão é a atitude do lobo, que na sua história ou na outra não é das mais inocentes. Pensando nisso também, é mais outra super metáfora do universo das meninas. Na verdade, do universo humano (risos).

Irena: Sim. Eu sinto que existe uma preguiça geral de assimilar o universo feminino na arte. O que, honestamente, não faz nenhum sentido pra mim. No momento, estou trabalhando numa empresa de games como ilustradora mesmo. E estávamos criando personagens pra um jogo. Como é um ambiente muito masculino – eu sou a única menina do escritório – ninguém surgia com nenhuma alternativa de personagem feminino. E, nossa, eu simplesmente não entendo essa dificuldade.

Ana: É meio absurdo mesmo essa falta de aproximação.

Irena: Essa dificuldade de nos representar nas mídias, sendo que somos só pessoas. Acho que todos ficam muito presos em ideias de o que é “para menina” ou “para menino”.

Ana: Para mim, é uma falta de diálogo sincero. Os caras precisam fazer perguntas sobre o que não compreendem, e as meninas não têm que ter medo de responder. Acho que de uma maneira ou de outra, a gente tenta com nossa arte responder coisas, ou gerar essas perguntas. Digo isso em relação ao meu trabalho, porque sempre ouvi que ele é “feminino”. E eu não tenho ideia de onde vem isso, porque meu trabalho não é literalmente feminino, mas as pessoas têm essa percepção. A arte não deveria representar gêneros. Ela é exatamente o espaço onde essas questões banais de gênero deveriam sumir. Você ouve muito também que seu trabalho é “feminino”?

Irena: Sim, eu escuto demais! Honestamente, fico um pouco surpresa quando algum menino diz que gosta do meu trabalho. Acho que a maior parte tem um pouco de vergonha de admitir, não sei. (risos)

Ana: É isso que digo. Ninguém se questiona em se aproximar de um trabalho de um cara, isso não é uma questão, mas o inverso é a maior questão do mundo. 

Irena: É aquela conversa de que menina pode ver filme de menino, mas o contrário não pode acontecer.

Ana: É o típico preconceito. Acho que os caras deveriam ser mais curiosos (risos). As pessoas, no geral, deviam estar mais abertas pra serem surpreendidas…

olga irena

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