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Antes de tudo, esclareço o lugar de que falo, o lugar de Mulher com deficiência e de acadêmica, antropóloga. Desse lugar hibrido é que falo. E falo olhando para a violência que este corpo sofreu, em silêncio, ao longo da história. E do silêncio que foi produzido para que este corpo sofresse ainda mais em silêncio.

Como antropóloga, interessa-me pensar histórica e simbolicamente o corpo da mulher com deficiência e como esse corpo recebeu uma narrativa social, como uma narrativa social foi produzida a respeito desse corpo. Primeiramente, interessa-me o silêncio a que este corpo é imposto. Como foi produzido um silêncio a respeito do corpo da mulher com deficiência e de suas necessidades, especialmente de suas necessidades sexuais e reprodutivas. Um silêncio abusivo, castrador, horrível, aterrorizante.

Pensei em dividir esse bate-papo (quero muito ouvir todas vocês, comentem, escrevam), em três partes: na primeira, vou falar de dados de violência, na segunda vou falar das imagens simbólicas do corpo da mulher com deficiência, ao longo da história na narrativa social judaico cristã (o modelo religioso), e na terceira falar de deficiência e sexualidade.

Comecemos falando de violência. Quando falamos de violência e mulheres com deficiência as pessoas sempre precisam ser recordadas que temos um corpo, inclusive um corpo sexual. A narrativa social construiu um esquecimento acerca do tema, de maneira tão forte, que nosso corpo, esquecido e silenciado, é deixado nas sombras, para que os abusos aconteçam em silêncio. Estou aqui, como mulher com deficiência, disposta a quebrar o silêncio.

Cerca de 10% das mulheres do mundo vivem com uma deficiência, e nos países mais pobres, 75% das pessoas com deficiência são mulheres. No Brasil, de acordo com o Censo de 2010, mais de 25 milhões de mulheres com deficiência e quase um terço das mulheres negras tem uma deficiência.

A violência dirigida às mulheres com deficiência é um problema global. As mulheres com deficiência vivem em condições de maior isolamento social, o que amplia extremamente a possibilidade de violência e abuso. Elas têm menos chances de sucesso educacional, financeiro, profissional e social e isso também dificulta sair da condição de violência e abuso, pois inviabiliza autonomia e contato com redes que poderiam prestar ajuda. Na maioria das vezes o abuso vem de familiares, cuidadores, colegas, e isso torna denúncias um processo muito difícil. Por exemplo eu acompanhei um caso de uma senhora que o único contato com o mundo era o telefone. O cuidador, no caso o marido, desligava o telefone e ela não podia mais falar, nem do abuso que sofria. E quando falava, ela tinha medo, porque “só tinha ele” para cuidar dela.

Mulheres com deficiência sofrem abusos de todos os tipos: sexo forçado com trabalhadores, cuidadores ou outros residentes em instituições, são espancadas, esbofeteadas, ou feridas em crises, sofrem esterilização ou abortos forçados, são trancadas em quartos ou armários sozinhas, são obrigadas a banhos de gelo ou chuveiros frios como punição, são obrigadas a medicação forçada (tranquilizantes), muitas vezes obrigada a ter que se despir ou ficar nua na frente de outras pessoas, como castigo, são amarradas ou colocadas em restrição (contidas).

Numa pesquisa que realizamos em Escolas e Jovens e Adultos, na cidade de Campinas, em 2008, detectamos algumas situações: as mulheres com deficiência, mesmo sendo obrigadas a serem tocadas ou realizarem sexo contra sua vontade não percebem estar sendo abusadas ou violadas, tem grande dificuldade de sair desse processo, mulheres cegas ou com deficiência têm, proporcionalmente, duas vezes mais chances de serem abusadas ou violentadas que as sem deficiências, surdas, cinco vezes mais, e com deficiência mental de oito a nove vezes mais. Muitas famílias retiram as meninas com deficiência das escolas regulares por medo de abuso, mas são abusadas em casa, por funcionários e assistentes.

Na verdade, é preciso criar uma rede de proteção e denúncia estatal específica para a questão, apoio, inclusive de saúde mental para as famílias e medidas penais mais severas para os abusadores. Já encontrei no Facebook uma página, denunciada por mim que falava: estupre uma deficiente mental porque ela não vai saber contar. A gente precisa saber responder: Mas, nós vamos. Todas nós estamos vendo, e vamos fazer um escândalo


Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social (IFCH – UNICAMP), coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Arte: Manjit Thapp

 

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Quando eu tinha 3 anos de idade, minha família foi convidada para a festinha de um ano da minha prima. Há uma divertida fita VHS do evento e, toda vez que assistíamos, minha mãe me contava sobre como eu dei trabalho naquele dia. É que a comemoração ocorreu no salão de festas do play do prédio onde meu tio morava, mas fora daquele ambiente tudo estava escuro e vazio. E eu, sempre que encontrava oportunidade, saía zanzando sozinha a explorar o play inóspito e algum adulto tinha que ir me pegar.

Eu acredito ter alguns flashes de memória dessa ocasião (inclusive de quando descobri o camarim improvisado dos palhaços), mas certeza eu tenho mesmo é de que desde essa época eu já manifestava o gosto por fazer coisas sozinha. Só mais tarde é que entendi que, para muita gente, por incrível que pareça, isso é alguma espécie de defeito em uma mulher.

Ou até de danação. Ficar sozinha depois de certa idade, “para titia”, ainda assombra muitas mulheres pela simples pressão social a que são submetidas por esse motivo. Não importa o quão bem sucedida, feliz ou até mesmo bonita dentro dos padrões vigentes (magra, branca, cabelos lisos, etc) ela seja: se não conseguiu manter um homem ao seu lado, tem alguma coisa de errada com ela. Se tem filhos, nem mãe ela é: é mãe solteira, pois é preciso salientar o fato de que ela está criando o filho sozinha – já o pai, em geral, “tem uma filha de outro relacionamento” quando falam dele, pois ser pai e solteiro não o definem como indivíduo.

Mas o fato de não estar em um relacionamento gera situações em que a única saída possível é fazer algo por si só, ainda que eu nunca tenha dependido particularmente disso para gostar de fazer programas tendo só a mim como companhia. Nem sempre os amigos estão disponíveis também e eu não deixo de fazer o que quero por causa disso. É nesses momentos em que percebo como, em pleno século XXI, o mundo ainda não está totalmente preparado para esse tipo de autonomia feminina.

No início do ano passado, eu decidi que não deixaria para última hora os planos da próxima virada de ano. Rotineiramente, dezembro chegava e eu não fazia ideia de onde ia passar o réveillon. Dessa vez, porém, eu resolvi me organizar e decidi realizar um sonho que nutria há muito tempo: virar o ano em Nova York. Por alguma razão, eu sempre desconfiei que essa seria uma cidade incrível para se estar nesse momento específico do calendário e resolvi tirar a prova (resposta: eu estava certa).

De início, convidei pessoas próximas para me acompanhar, mas ninguém topou. Alguns por falta de grana, outros por medo do frio etc. Apesar disso, eu não ia deixar de fazer a viagem que eu tanto queria só por falta de companhia. Consegui me organizar financeiramente para arcar com os custos sem ter com quem dividí-los e me tornei uma expert na cidade, escolhendo com muito cuidado como gastaria os meus 20 dias e suados dólares (a cada mês mais caros!) que levaria na bagagem.

Depois de ter me decidido, a reação mais comum das pessoas à notícia da minha viagem era, disparado: “Mas você vai sozinha?!”, como se eu estivesse planejando invadir a Rússia no inverno armada apenas com uma faca de passar manteiga. Ir à Nova York está longe de ser uma viagem ousada. Talvez fosse, sim, um grande passo para mim, que não fui o tipo de criança que conheceu a Disney e havia saído do país pela primeira vez no ano anterior. Mas, de toda forma, eu estava falando apenas uma das cidades mais turísticas do mundo, não de ir para a Síria.

Foi necessário certo sangue frio e alguma determinação da minha parte para levar o projeto adiante. Eu sentia como se devesse aos outros os motivos, as razões e os porquês de gastar o meu dinheiro com algo que eu queria fazer. É claro que deixei muita gente no vácuo, mas penso nas mulheres que se deixam levar pela ideia de que não poderiam dar o mesmo passo. Que olham para o mundo como uma peça de museu: você pode admirá-lo, mas jamais poderá colocar as mãos nele, pois não lhe pertence. Somente pessoas autorizadas podem tocar o mundo e mulheres sozinhas não fazem parte desse time.

Não estou falando aqui do aspecto financeiro da questão. Sei bem que, ainda que eu esteja muito longe de ser endinheirada, tive e tenho oportunidades e condições de dedicar boa parte dos meus modestos rendimentos a planos completamente meus. Um número muito grande de mulheres nem mesmo pode sonhar com isso, ainda que tenham o desejo de tomar o mundo com as mãos. Mas o fato é que existem também essas mulheres, e muitas eu conheci ao falar sobre os meus planos, que, ainda que tivessem condições de viajar, não o fariam sozinhas, de jeito nenhum. Por quê?

Pelo mesmo medo que nos faz evitar ruas e avenidas, trocar de roupa e viver sob um toque de recolher informal: o medo do assédio, do abuso, do estupro, da violência contra a mulher. De ataques que homens não sofrem rotineiramente e simplesmente não consideram antes de comprar a passagem. Dependendo do país para onde uma mulher vai, é primordial que ela saiba como é o machismo naquele lugar, que tipo de apuros ela, pelo simples fato de ser mulher, pode passar ao visitar a região. Mulher, estrangeira e sozinha? Presa fácil em quase qualquer lugar. E essa é uma realidade que acomete diversos países.

Ou seja, o nome do nosso carcereiro, mais uma vez, é O Patriarcado. Hoje, de volta ao Brasil após uma viagem muito enriquecedora, sei que a melhor forma de combatê-lo é resistindo aos seus grilhões. Fico pensando nas experiências maravilhosas que eu teria perdido simplesmente por ter medo de viajar sozinha. Se eu me tivesse deixado convencer de que sou dependente, sempre, de outra pessoa, nem que fosse uma outra mulher. Mas sair sozinha? Do país, então? Jamais!

Aprendemos desde muito cedo como devemos agir para nos manter em segurança. Ainda que esse aprendizado não seja justo – são os homens que deviam ser ensinados que o corpo de uma mulher é propriedade dela e somente com o seu consentimento ele tem a liberdade de tecer comentários sobre ele ou tocá-lo. O que quer que passe disso é considerado, para dizer o mínimo, uma inconveniência. E pouco nos importamos com as suas intenções (“Eu só queria elogiar!”).

Mas é nesses momentos que devemos colocar nosso conhecimento em prática. Sabemos muito bem tomar conta de nós mesmas, somos treinadas para isso há anos. E, se mesmo assim sabemos que não há garantia de que estaremos a salvo de sofrer uma violência, não é na hora de viajar que vamos ter medo. Se ser mulher é um risco em quase todo lugar, então vamos explorar o mundo e ao menos ver lugares diferentes. Este artigo da Forbes, escrito por uma mulher que viajou sozinha por Bali durante quatro meses, fala juntamente sobre esse assunto:

“Não estou dizendo para você arrumar a mochila e viajar o mundo como um inocente e ridícula viajante solitária. Aquela que saltita por aí gritando bem alto o número do seu quarto no albergue, que bebe horrores com estranhos nas partes mais perigosas da cidade e anda pelas ruas à noite com fones de ouvido bem alto em ruas escuras. Nada me deixa mais perturbada do que quando essas garotas são atacadas e legiões de pessoas surgem gritando que essas mulheres deveriam fazer, vestir e falar o que elas quisessem.

Em um mundo perfeito, as mulheres deveriam poder fazer tudo isso e muito mais.

Esse mundo perfeito ainda não existe.”

Não vamos aceitar ser tratadas como idiotas, é o que eu quero dizer. Viajar sozinha não é sinônimo de se tornar cega para medidas básicas de segurança – ainda que NADA justifique que sejamos vítimas de qualquer tipo de violência. Não é certo, porém, que a intimidação nos impeça de expandir nossos horizontes. É normal ter medo, sim, temos razão para tal: uma em cada três mulheres já sofreu violência sexual ou física, segundo a ONU. Mas ser mulher, por si só, é viver apesar desse medo. Então vamos viajar apesar dele também.

Eu, eu mesma e Nova York

Apesar de já ter feito muitas viagens de trabalho sozinha, eu não sabia o que me esperava nessa que seria a minha primeira viagem de férias do tipo. Como 2015 foi um ano generoso comigo, ainda tive a oportunidade de ir à cidade antes de dezembro, por quatro dias, para uma conferência. Foi quando comecei a fazer algumas observações sobre como era estar sem mais ninguém naquela cidade, já que, ainda que tivesse compromissos profissionais, estava por minha conta.

Após o primeiro dia de palestras, resolvi ir ao Comedy Cellar, um tradicional clube de stand up comedy novaiorquino, já que eu adoro comédia. Eu fiz reserva com certa antecedência e fiquei feliz de conseguir chegar a tempo. Com o passaporte em mãos para comprovar que tenho idade o suficiente para adentrar o recinto e confirmar meu nome na lista, o segurança da porta me pergunta, com certa condescendência: “É só você?” Sim, sou só eu, reserva para um, obrigada. Ele sorriu com um misto de pena e admiração, como se eu merecesse um prêmio por ter a coragem de fazer algo desacompanhada. Mai um pouco e ele descia as escadas para tirar uma foto minha sozinha na mesa para dois.

Eu me pergunto se ele teria a mesma reação se eu fosse um cara ou se as piadas seriam mais engraçadas se eu soubesse que alguém conhecido as estaria ouvindo comigo. Se uma garota sai para se divertir sozinha e ninguém está lá para fazer-lhe companhia, sua felicidade ainda tem valor?

Quando voltei para lá em dezembro tive bem mais oportunidades de explorar a cidade, é claro. E fazê-lo sozinha foi libertador, divertido e inesquecível, mas em alguns momentos foi impossível não me aborrecer com as limitações que ainda existem para mulheres nessa modalidade de viagem, ainda que eu estivesse lá, em parte, para encará-las de frente.

Certa noite, lá pelas 23h de um domingo, eu estava voltando de metrô para a casa onde fiquei hospedada cheia de fome. Decidi descer na Times Square para comer alguma coisa, pois lá está sempre muito iluminado, tem polícia e onde certamente havia restaurantes abertos. Dito e feito. Depois de comer o que eu queria, fui meio caminhando, meio passeando até a minha estação de metrô. Digam o que quiser, mas aquele lugar é um símbolo da cidade e lá estava eu, sem mais ninguém, com tempo de sobra para apreciar aquela loucura toda. Eu estava bem no meio da praça, olhando para um letreiro, quando um homem se aproximou de mim. Ele parecia ser um cara normal em circunstâncias normais e perguntou se eu era brasileira. Eu disse que sim e ele começou a conversar comigo ali mesmo, em pé no meio de uma Times Square quase deserta (para os padrões normais de lá).

Fui tentando me desvencilhar do assunto quando ele tentou segurar minha mão. Não deixei. Ele insistiu. Tentou me dar o braço, como se fosse meu namorado, e disse que estávamos em um encontro. Eu disse que não, que aquilo não era um encontro, e eu ia embora. Saí andando depressa para o metrô, já com medo de estar sendo seguida. Meu passeio acabou. Depois me dei conta de que ele provavelmente era um desses pick up artists (“artistas da cantada”, homens que possuem técnicas para abordar e conquistar mulheres na rua e em baladas – geralmente sozinhas) tentando a sorte com estrangeiras.

No AirBnb onde fiquei hospedada, descobri que as anfitriãs haviam alugado o quarto ao lado para um cara e simplesmente não avisaram que haveria outro hóspede. Um dia a polícia bateu na porta por causa de uma chamada falsa e eu descobri junto a dois policiais que havia um homem na casa. A partir de então, fiquei preocupada. Sei que há mulheres que não se importam e não têm medo, mas eu havia alugado essa casa justamente por ser de uma mãe e uma filha. Por sorte, eu nunca mais o vi no apartamento e ele foi embora de vez dois dias depois. Na avaliação da hospedagem, perderam uma estrelinha em comunicação.

No geral, eu me sentia muito segura circulando sozinha pela cidade. Mas isso também se deve à minha ignorância em relação à criminalidade por lá. Vira e mexe eu via nos jornais locais notícias de estupro de mulheres em determinados bairros da cidade que eu só frequentei à noite quando acompanhada de amigos que encontrei por lá e, em geral, evitei explorar sozinha, o que é triste.

E foi essa minha falta de conhecimento sobre as regras não ditas da cidade que me surpreendeu quando, numa noite, eu tentava voltar para casa às duas da manhã e só havia homens nas ruas. Acho que vi uma ou duas mulheres em um percurso de quase duas horas em diversas estações de metrô – mas havia muito mais homens, alguns sozinhos, outros em grupos. Senti que não devia estar ali, não naquele horário. Deus sabe como relaxei quando tranquei a porta do apartamento e estava sã e a salvo, ainda que nada demais tenha acontecido no trajeto.

Fora esses incômodos com as amarras do patriarcado, o resto da viagem foi muito bacana. Acho que toda mulher, tendo a oportunidade, deveria fazer uma viagem sozinha, nem que seja só para ver como é. É algo tão simples e tão poderoso. Quem já tem vontade, provavelmente vai amar essa conquista. Quem nunca pensou nisso, pode descobrir que é capaz de muito mais que imagina. E sozinha! Na volta ainda pode se reunir com as amigas para contar causos e comemorar, bem assim como estou fazendo aqui com vocês. 🙂


Arte: Cari Vander Yacht

 

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2015 se encerra conhecido como o ano da primavera das mulheres. O feminismo invadiu as ruas, as rodas de conversa, mas, principalmente, a vida de muitas mulheres que nunca antes imaginaram que assim se reconheceriam.

E a internet também foi um dos campos de batalha do feminismo esse ano. Foi por meio de campanhas, hashtags, denúncias e respostas espertas a machismos em geral que o movimento se popularizou na rede e mostrou como pode se fazer presente no dia a dia das mulheres. Quase metade da população brasileira está conectada, a internet é um meio de comunicação poderoso e o machismo faz parte do cotidiano virtual também – o feminismo nada mais é que uma forma combatê-lo em todas as suas manifestações, inclusive online.

Neste infográfico criado em parceria com a Agência Ideal, trazemos os principais números desse movimento na internet. São dados que impressionam pela grandeza e frequência de ocasiões durante o ano em que o feminismo foi notícia e gerou burburinho na rede.

Esses números também nos emocionam e enchem de esperança. Para além deles, existem incontáveis histórias de mulheres que se libertaram, fizeram denúncias, lutaram contra fantasmas, retomaram suas próprias narrativas, buscaram ajuda e ajudaram outras mulheres a se libertar também. Essas não cabem no infográfico. De algumas, jamais ouviremos falar. Mas não existe nada mais gratificante que a mera noção de que é isso, também, que esses números representam.

De acordo com o Google Trends, a hashtag #primeiroassedio, por exemplo, teve mais de 11 milhões de buscas relacionadas no buscador. Algumas procuravam saber o que era assédio, como ele acontece no trabalho, etc. Informações poderosas e transformadoras, ao alcance de um clique, encontradas pelo incentivo de uma simples hashtag.

E, com mulheres cada vez mais conscientes de seus direitos e apagadas à sua liberdade, temos certeza de que o ano que vem não será diferente, pois essa tal primavera faz florescer nas mulheres uma garra e uma coragem que não murcham jamais. Vem com tudo, 2016. Nós estamos preparadas!

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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obrigada

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Este foi um ano muito especial para as mulheres brasileiras. Ainda que tenham sofrido ataques diretos à própria autonomia e liberdade e assistido retrocessos políticos inexplicáveis, este também foi um período em que elas tomaram as ruas para dizer basta a tudo isso; em que compartilhamos suas histórias por meio de hashtags, descobrindo que não estão sozinhas no sofrimento pessoal com que o machismo as aflige; elas viram, ainda, o principal exame de acesso ao ensino superior abraçar as pautas feministas.

Tudo isso foi capa de jornais e manchetes em grandes portais. E ficou registrado também em números e recordes. Aqui, a nossa surpresa: a Agência Ideal, em parceria com o Think Olga, realizou um estudo cujos resultados nos orgulham e emocionam. São dados que refletem a força do que estamos construindo juntas, nas ruas e na internet.

Observando a tendência dos termos “feminismo” e “empoderamento feminino”, observa-se um salto nítido no interesse por ambos esse ano. Vale lembrar que o ENEM aconteceu em outubro, mas esse pico no período só foi possível pelo aumento perene da popularidade do termo nos últimos meses.

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Já o empoderamento feminino era algo sobre o que pouco se falava até março do ano passado. Desde então, o crescimento foi constante: um total de 354,5% a mais em buscas no Google com esse termo. Em números gerais: até 2014, foram 3.960 buscas e, em 2015, foram 18.000 até o momento. A produção de conteúdo contendo a expressão “empoderamento feminino” em matérias de mídia tradicional e em blogs cresceu 137%! Em 2014 ao todo, a expressão foi usada em 261 matérias de imprensa enquanto em 2015, até agora, já foram 724 (crescimento de 177%). Em blogs, o crescimento da produção de conteúdo não fica muito atrás. Foram 248 blog posts com essa expressão no ano passado e 483 até esse momento de 2015 (crescimento de 95%).

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Tudo isso aconteceu graças às mulheres incríveis que, seja militando pela causa feminista, ou simplesmente arrasando nas mais diversas áreas do conhecimento, ajudam a mostrar a força das mulheres e a sua capacidade de brilhar muito, sempre e em todo o lugar, muito além dos papéis que tradicionalmente as destinam.

Reunimos aqui quase duas centenas delas para mostrar que existem muitos exemplos positivos de mulheres para inspirar e apontar novos caminhos. Não se trata de uma premiação, tampouco de uma lista definitiva (sabemos que ficam de fora muitas outras mulheres incríveis as quais vocês podem nos ajudar a completar ao divulgar este documento). Trata-se sim de uma referência geral de histórias e trabalhos femininos que se destacaram em 2015 e fizeram dele o grande ano que está sendo – e que será eternizado como o ano da Primavera Feminista. Obrigada, mulheres!

 

MULHERES INSPIRADORAS DE 2015

 

ARTE & ENTRETENIMENTO

Andressa Cor – Curitibana residente em Los Angeles é diretora de fotografia para cinema. “Stealth”, sua tese de mestrado na área, venceu o Student Emmy e o Student Academy Awards 2015 e ganhou menção honrosa no Festival de Cannes.

 

Anna Muylaert – Diretora do premiado “Que Horas Ela Volta?”, candidato brasileiro ao Oscar 2016. A repercussão do filme levantou a discussão sobre o machismo e a representatividade feminina na indústria cinematográfica.

 

Berna Reale – Artista paraense, realizadora de instalações e performances, representou o Brasil na 56ª Bienal de Veneza. Também foi selecionada para o 34º Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna (MAM).

 

Carol Rodrigues – Concebeu e dirigiu o curta sobre aborto “A Boneca e o Silêncio”, que conta a história de Marcela, uma menina negra de 14 anos que se torna dona de si e do seu corpo ao tomar a decisão de interromper uma gravidez indesejada. O curta ganhou diversos prêmios entre eles, melhor curta-metragem eleito pelo público no 6 FESTin (festival itinerante de língua portuguesa) e melhor curta-metragem, por escolha do Júri Oficial e do Júri Popular da ENTRETODOS 8 (festival de curtas de Direitos Humanos da cidade de São Paulo). Carol também disponibiliza o filme em centros culturais, sedes de movimentos sociais e de trabalhadores (as) e escolas públicas para debater aborto, gênero e raça.

 

Clarice Falcão – Lançou novo single, uma versão de Survivor da banda Destiny’s Child. O clipe faz referência à violência contra a mulher e à resistência feminina.

 

Diane Lima – Atua no eixo interdisciplinar entre a arte, o design e a educação, dedicando-se a atividades e projetos focados em discutir, desenvolver e difundir a diversidade brasileira. É diretora criativa do Instituto NoBrasil, uma plataforma que conecta pessoas que estão transformando o país através da criatividade. Lançou em maio, no TEDxSãoPaulo, a campanha artística Deixa O Cabelo da Menina no Mundo, que trabalha a auto-estima de meninas e mulheres negras e valoriza os fios crespos.

 

Kaol Porfírio – Ilustradora, desenvolvedora de jogos e gamer gaúcha, criou a série “Fight Like a Girl” (Lute Como Uma Garota), que destaca guerreiras inspiradoras. O desenho da ativista Malala Yousafzai foi compartilhado pela própria no Instagram de sua fundação, The Malala Fund.

 

Lucia Murat – Dirigiu o filme Em Três Atos, no qual revisita a obra de Simone de Beauvoir para fazer um mergulho no que significa ser idoso na sociedade contemporânea.

 

Nina Pandolfo – A artista de São Paulo (SP) foi a primeira brasileira a ter uma exposição de arte solo em uma galeria de Nova Iorque. A convite da Rivington Street Gallery, Nina criou um mural na cidade utilizando técnicas de grafite.

 

Nós, Madalenas – Em sessão gratuita na Casa de Lua, o coletivo lançou o documentário “Mucamas”, que trata do trabalho das empregadas domésticas por meio de entrevistas com as mães de cinco integrantes do grupo.

 

Nós, Mulheres da Periferia – O coletivo conseguiu financiamento pelo Programa de Valorização das Iniciativas Culturais (VAI), da Prefeitura de São Paulo, e organizou a exposição “Quem Somos (Por Nós)”, que transformou em arte as histórias de mais de 100 mulheres envolvidas no projeto.

 

Petra Costa – Escreveu, produziu e dirigiu “Olmo e a Gaivota”, que aborda a maternidade a partir das transformações, medos e escolhas que ela impõe às mulheres. O filme foi eleito Melhor Longa-Metragem de Documentário pelo Júri Oficial no Festival do Rio 2015, e sua divulgação integrou virais defendendo o direito ao aborto.

 

Taís Araújo – Protagonizou o seriado “Mister Brau” na Rede Globo e está em cartaz com a peça “O Topo da Montanha”, sobre o ativista Martin Luther King Jr. Vítima de racismo nas redes sociais, denunciou seus agressores e não se deixou intimidar.

 

Internacional

 

Amandla Stenberg – Com apenas 17 anos, a atriz de “Jogos Vorazes” entrou para a lista de 100 Adolescentes Mais Influentes do Ano da Revista Time e se destacou pelo posicionamento antirracista nas mídias sociais, manifestando-se contra a apropriação cultural e o estereótipo da “mulher negra raivosa”.

 

Ava DuVernay – Diretora e roteirista norte-americana. Assina o filme “Selma”, sobre Martin Luther King. Pelo longa-metragem, Ava foi a primeira mulher negra a ser indicada ao prêmio Globo de Ouro e a primeira diretora negra a receber a indicação de Melhor Filme no Oscar 2015.

 

Gabourey Sidibe – A atriz norte-americana recentemente protagonizou uma cena de sexo explícito na série “Empire” ao lado do ator Mo McRae e sofreu ataques nas redes sociais por conta de seu físico, negro e gordo. Ela não se abalou e ainda inspirou a hashtag #MyFatSexStory (Minha Grande História de Sexo, no trocadilho em inglês), onde usuárias e usuários reagiam contra a gordofobia.

 

Jody Houser e Marguerite Sauvage – Roteirista e desenhista da Valiant, respectivamente, assinam a história em quadrinhos (HQ) “Faith”, da primeira heroína gorda. Chega às bancas no começo de 2016.

 

Leslee Udwin – Documentarista britânica, produziu durante dois anos e meio o dolorido, mas poderoso “India’s Daughter” (Filha da Índia). O filme conta a história da estudante de Medicina Jyoti Singh, vítima de espancamento e estupro coletivo em 2012.

 

Misty Copeland – Fez história em junho ao se tornar a primeira dançarina negra a assumir o posto de primeira-bailarina do prestigiado American Ballet Theatre. A ascensão de Misty ao topo da companhia marcou uma ruptura com o padrão tradicional do meio, dominado por corpos brancos e de físico esguio.

 

Shonda Rhymes – Produtora e roteirista norte-americana. Em 2015, três séries criadas e escritas por ela ‒ “Grey’s Anatomy”, “How to Get Away With Murder” e “Scandal” ‒ foram ao ar no mesmo dia da semana na emissora ABC e alcançaram sucesso absoluto. Todas são protagonizadas por mulheres, sendo duas das personagens negras.

 

Viola Davis – Primeira mulher negra a ganhar o Emmy de Melhor Atriz, por seu papel no seriado “How To Get Away With Murder”. No discurso de aceitação do prêmio, destacou a urgência de mais oportunidades às atrizes negras na indústria do entretenimento.

 

ATIVISMO & CIDADANIA

 

Alessandra Orofino – Fundadora da Rede Meu Rio, a maior plataforma de mobilização social da cidade. Nas mídias sociais e no meio offline, o grupo tem dado amplo destaque ao problema da violência contra a mulher, organizando ações contra projetos que endurecem a criminalização do aborto e denunciando as acusações de violência doméstica contra o Secretário de Governo Pedro Paulo, pré-candidato à prefeitura em 2016.

 

Anette Trompeter, Viviane Santiago e Monica Souza – A equipe da Plan International Brasil lançou a campanha “Quanto Custa? (Custa Caro)” para provocar o debate sobre a violência sexual contra meninas. A iniciativa levou o documentário “India’s Daughter”, de Leslee Udwin, à exibição em várias cidades do país.

 

Babi Souza – Criou o movimento Vamos Juntas?, que incentiva mulheres a oferecer companhia e apoio umas às outras em espaços públicos, aumentando a sensação de segurança e incentivando a parceria feminina.

 

Carolina Ferrés – A designer e ativista de São Paulo (SP), idealizadora da iniciativa Viva Rio Pinheiros, criou em 2015 o projeto Cidade Azul, cuja proposta é revelar à população os rios, córregos e riachos da cidade através de passeios guiados. O objetivo é conscientizar as pessoas sobre o impacto que o “enterro” das águas surte na vida urbana.

 

Daiara Figueroa – Indígena de etnia Tukano, a professora divulgou em setembro um vídeo em seu perfil pessoal no Facebook pedindo socorro a todos os movimentos sociais pelo massacre em curso no Mato Grosso do Sul contra diversas comunidades Guarani-Kaiowá.

 

Daniela Silva, Daniela Teixeira, Fernanda Shirakawa, Gabi Juns e Manoela Miklos – Lançaram o Não Tem Conversa, que convida os homens a assumirem o compromisso de não promover ou participar de painéis, palestras, eventos e debates exclusivamente masculinos.

Gisele Truzzi – Advogada especialista em direito digital, é referência no assunto e responsável por avanços na área, lutando pelos direitos da mulher e apresentando palestras sobre seus direitos na internet em diversos órgãos gonvernamentais.

Jacira Melo – Diretora executiva da Agência Patrícia Galvão, que divulgou neste ano o Dossiê Violência Contra as Mulheres. O documento reúne e sistematiza dados, pesquisas e análises estratégicas que contribuem para reprodução correta de informações sobre a violência contra a mulher na mídia.

 

Katiele Fischer – Primeira brasileira a obter na justiça a permissão para uso medicinal do canabidiol (CBD), substância derivada da maconha. Seu caso contribuiu para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberasse o CBD sob recomendação médica.

 

Pri Ferrari e Mila Alves – Com intervenções feitas com fita isolante e duas fotos compartilhadas nas redes sociais, conseguiram derrubar uma campanha publicitária machista de uma das maiores cervejarias do país, a poucos dias do Carnaval.

 

se essa rua fosse nossa – O coletivo divulgou o relato de um estupro ocorrido na região central de Porto Alegre (RS), narrado pela própria vítima. A repercussão da história mobilizou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Vereadores a vistoriar a Rede de Proteção às Mulheres da cidade e apresentar publicamente um relatório sobre a operação.  

 

Stephanie Ribeiro, Phran Noctuam e Ana Maria Sena – Lançaram o projeto colaborativo Afronta, cuja missão é ampliar a representação feminina e negra nas histórias contadas e ensinadas no Brasil.

 

Terezinha de Jesus – Após perder o filho, Eduardo de Jesus Ferreira, 10, pelas mãos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, teve a coragem de se levantar contra a violência policial e expor a arbitrariedade com que ceifam vidas nas favelas cariocas. O caso está sendo investigado pela Anistia Internacional e Terezinha se tornou um símbolo da luta por justiça.

 

Vanessa Rodrigues – Uma das idealizadoras da Casa de Lua, espaço coletivo com diversas atividades gratuitas para mulheres. Em 2015, a grade de eventos da ONG teve um enorme foco no empoderamento de mulheres negras.

 

Internacional

 

Alexandra Loras – Consulesa da França em São Paulo, é uma voz ativa sobre o racismo institucional no Brasil e no mundo. Em maio, participou do TEDxSaoPaulo, onde falou sobre a importância de ajudar a melhorar a auto-estima das crianças afro-descendentes.

 

Alicia Garza, Patrice Cullors e Opal Tometi – As três mulheres por trás da campanha #BlackLivesMatter, lançada em 2013 no Twitter após o assassinato do jovem norte-americano Trayvon Martin pelo policial branco George Zimmerman. Alcançando reconhecimento internacional após os protestos de Ferguson e Nova Iorque em 2014, neste ano, o grupo passou a questionar publicamente os candidatos à presidência dos Estados Unidos sobre suas posições acerca do racismo no país.

 

Brittany “Bree” Newsome – A ativista foi detida na Carolina do Sul (EUA) após remover a bandeira confederada do Capitólio do estado, em meio às tensões que se seguiram ao massacre de Charleston. A bandeira, antigo estandarte do grupo rebelde que defendia a escravidão na Guerra Civil Americana, é hoje considerada um símbolo da supremacia branca e da opressão racista nos Estados Unidos.  

 

Combatentes peshmerga – As unidades femininas do Exército Curdo vem se destacando como uma força necessária contra o avanço do Estado Islâmico (EI). Em janeiro, elas ajudaram a expulsar o EI da região de Kobani, em território curdo situado no norte da Síria. Foi uma das mais importantes derrotas sofridas pelo grupo jihadista em toda a sua história.

 

Johnetta “Netta” Elzie – Uma das líderes do grupo We The Protesters, participou dos protestos antirracistas em Ferguson, Missouri e Baltimore e, em parceria com o ativista DeRay McKesson, criou a newsletter “This is the Movement” e o projeto Mapping Police Violence, que coletou dados sobre homicídios cometidos por policiais nos Estados Unidos em 2014. Neste ano, Netta e McKesson receberam o Howard Zinn Freedom to Write Award pelo seu trabalho social e figuraram entre os 53 Maiores Líderes do Mundo no ranking da revista Fortune.

 

Maryanne Diamond – Fundadora da Aliança Internacional da Deficiência, lançou a campanha O Que As Mulheres Com Deficiência Querem, que convoca as mulheres e meninas com deficiência em todo o mundo para expressar o que elas querem da comunidade internacional para avançar no exercício dos seus direitos.

 

The Black Mambas – Grupo majoritariamente feminino que lidera a luta contra caça ilegal de animais selvagens na África do Sul.

 

BLOGS & MÍDIAS SOCIAIS

Aline Ramos – Idealizadora do blog Que Nega é Essa?, cujo conteúdo busca promover e ampliar os debates sobre feminismo e negritude no Brasil. Também se envolveu na organização da quinta edição do Estética das Periferias, evento idealizado pela Ação Educativa em São Paulo (SP).

 

Bruna de Lara – A estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fundou o blog Livre de Abuso, onde 15 mulheres oferecem informações e assistência jurídica a outras mulheres que estejam em relacionamentos abusivos ou gostariam de ajudar alguém envolvida em relações tóxicas.

 

Gabriela Franco – Jornalista especializada em cultura pop e criadora do MinasNerds, site voltado a meninas e mulheres amantes de HQs, games e “nerdices” em geral. Sua equipe marcou presença na Fest Comix 2015, inaugurando o primeiro espaço dedicado ao público nerd feminino no evento, e também participou do Festival International de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte (MG).

 

Helaine Martins – Jornalista, fundou o projeto Entreviste Um Negro, banco de fontes inspirado no Entreviste Uma Mulher para que pessoas negras tenham mais voz na mídia.

 

Joanna Burigo – Lançou neste ano a Casa da Mãe Joanna, dedicada à criação e curadoria de conteúdo e à divulgação de iniciativas feministas. Uma das ações da Casa é a Espiral, mapa que reúne coletivos e projetos feministas de todo o Brasil.

 

Jout Jout Prazer – Usou seu canal no YouTube para falar de violência íntima de forma empoderadora, e ajudou a jogar luz sobre o tema com os vídeos “Não tira o batom vermelho” e “Vamos fazer um escândalo”.

 

Moara Correa – Militante do Coletivo Enegrecer, no Facebook, é uma das administradoras da página Nem Tenta Argumentar, que procura visibilizar o racismo no Brasil e convida as pessoas brancas a demandar representatividade negra em palestras, eventos, painéis e debates.

 

Nanda Cury – Criou o Blog das Cabeludas, onde compartilha imagens de mulheres crespas e cacheadas com o objetivo de inspirar as visitantes a assumirem e amarem seus cabelos volumosos. Foi também uma das organizadoras da Marcha do Orgulho Crespo, em São Paulo.

 

Teresa Rocha – A publicitária criou o movimento Bonita Também, que valoriza a autoestima feminina na diversidade inerente às mulheres, mas tão pouco celebrada pela mídia.

 

Thais Cimino – As dificuldades e o sentimento de desamparo que enfrentou logo após o parto resultaram no blog Temos que Falar Sobre Isso, onde mulheres podem desabafar de forma anônima e se informar sobre as angústias da maternidade.

 

Internacional

 

Saara Särmä – Pesquisadora de Relações Internacionais na Universidade de Tampere, na Finlândia, criou o Tumblr All Male Panels (Painéis Só de Homens), que se tornou um sucesso na rede ao apontar de maneira bem humorada eventos que só convidam homens para falar.

 

CIÊNCIA

 

 

Alice Cunha da Silva – Estudante de Engenharia Nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi a grande vencedora da Olimpíada Nuclear organizada pela Universidade Nuclear Mundial (WNU, na sigla em inglês), cujo principal objetivo é expandir a conscientização sobre as diferentes aplicações dos materiais radioativos.

 

Mariana Vasconcelos – Aos 23 anos, ganhou uma bolsa de estudos em uma universidade situada dentro de uma unidade da NASA após ter encontrado uma solução para ajudar a resolver a questão da falta de água.

 

Priscila Kosaka – Desenvolveu técnica para detecção de câncer que dispensa biópsias e que consegue identificar a doença antes mesmo do aparecimento dos sintomas, por meio de um nanosensor 10 milhões de vezes mais sensível que os métodos tradicionais de exame.

 

Thaisa Storchi Bergmann e Carolina Horta Andrade – Astrofísica e química, respectivamente, as brasileiras foram ganhadoras da edição internacional do prêmio “Para Mulheres na Ciência” da UNESCO. Thaisa foi premiada pelos estudos sobre buracos negros, e Carolina, pelas pesquisas na área de química medicinal para o tratamento da leishmaniose.  

 

Internacional

 

Liliana e Luisa Terán – Engenheiras indígenas que melhoraram a vida de sua comunidade no deserto do Atacama ao instalar painéis de energia solar.

 

Olivia Hallisey – Aos 17 anos, foi a vencedora do 2015 Google Science Fair com o projeto de um diagnóstico barato e capaz de detectar o vírus Ebola em menos de 30 minutos, mesmo que o paciente não apresente sintomas.

 

“Underground Astronauts” – Marina Elliott, Becca Peixotto, K. Lindsay Hunter, Elen Feuerriegel, Hannah Morris e Alia Gurtov foram as seis intrépidas cientistas a explorar cavernas e descobrir um novo parente dos seres humanos: o Homo naledi.

COMUNICAÇÃO

 

Ana Luiza Gomes – Lançou o Projeto Andarilha, plataforma de pesquisa e curadoria dedicada a mapear processos criativos que caminham pela cultura brasileira.

 

Carol Patrocinio – Jornalista, blogueira e colunista de diversos portais online, escreveu reflexões importantes sobre o assédio à participante de 12 anos do MasterChef Júnior, e a perseguição da ativista Lola Aronovich.  

 

Cris Bartis e Juliana Wallauer – A dupla comanda o podcast Mamilos. Numa área tão dominada por homens, Cris e Ju fazem um programa com uma audiência fiel onde falam sobre todos os temas, sempre sob o espectro do feminino.

 

Djamila Ribeiro – Mestranda em Filosofia Política pela Unifesp, onde fundou o Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Sexualidades, enriqueceu o Escritório Feminista da Carta Capital com textos sobre feminismo negro e hoje é colunista da publicação.

 

Karin Hueck – Em julho, a jornalista assinou a matéria de capa da Revista Superinteressante sobre o silenciamento das vítimas de estupro e como é engendrada a cultura que favorece essa violência.

 

Leda Letra – Jornalista da Rádio ONU em Português, baseada em Nova Iorque. Fez coberturas impactantes, em especial sobre violência contra a mulher e a questão dos refugiados, onde denunciou violações dos direitos humanos.

 

Luciana Barreto – Jornalista âncora do Repórter Brasil, foi convidada este ano para falar no Senado sobre a necessidade de políticas públicas para combater as desigualdades sociais.

 

Luíse Bello – Em uma releitura do Tumblr Liga da Criação, que destaca os publicitários mais famosos da área, criou a Liga das Heroínas para denunciar o alcance e o cotidiano do machismo nas agências. Por conta da iniciativa, foi convidada a participar da 3% Conference, evento realizado em Nova Iorque para discutir a representatividade feminina no ramo da criação publicitária.   

 

Maria Júlia “Maju” Coutinho – Em abril, passou a apresentar a previsão do tempo ao vivo no Jornal Nacional e foi alvo de ofensas racistas nas redes sociais. O caso mobilizou os usuários e seus próprios colegas de trabalho a repudiarem publicamente as agressões.

 

Renata Martins e Joyce Prado – As cineastas lançaram o Empoderadas, web série sobre a vida das mulheres negras. O conteúdo traz entrevistas com personagens dos mais diversos campos de atuação – empresárias, músicas, historiadoras – que quebram estereótipos racistas e ajudam a inspirar mais e mais mulheres.

 

Revista AzMina – Desenvolvida através de financiamento coletivo, surgiu para representar mulheres reais e diversas em seus corpos, formas de amar e de transar. Seu conteúdo está disponível online e é totalmente gratuito.

 

Tatiana Vasconcellos – Única radialista do horário nobre e única mulher a ganhar o prêmio Comunique-se em sua área, ela blinda a rádio BandNews FM de comentários machistas, sem medo de corrigir colegas e entrevistados. Em 2015, suas coberturas subverteram a lógica machista da grande mídia rompendo com estereótipos sexistas e a culpabilização da vítima. Está na direção de uma série documental em vídeo sobre mulheres no cinema com produção da SimonSays Filmes.

 

EDUCAÇÃO

 

Georgia Gabriela da Silva Sampaio – Selecionada em um programa da Universidade de Harvard em 2014 com uma pesquisa sobre endometriose, aos 19 anos, a baiana de Feira de Santana foi aprovada em nove instituições norte-americanas e já iniciou os estudos na Universidade de Stanford.

 

Geovana Soares e Linda Brasil – Criaram o EducaTrans, projeto promovido pela Associação do Movimento Sergipano de Travestis e Transexuais (AMOSERTRANS) para preparar estudantes trans para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2015, o número de pessoas trans a prestar o Enem praticamente triplicou ‒ e pela primeira vez, elas puderam utilizar o nome social no cartão de inscrição.

 

Letícia Cardoso – Em 125 anos de história, foi a primeira aluna a entrar para o Pantheon Literário do Colégio Militar, quadro de alunos exemplares e honraria máxima da instituição.

 

Monique Evelle – Vencedora do Prêmio Laureate Brasil 2015 pela fundação da Desabafo Social, plataforma de educação e aprendizagem coletiva com foco em direitos humanos. O negócio agora é parceiro da rede mundial YouthActionNet, iniciativa da Fundação Internacional da Juventude (IYF, na sigla em inglês) que busca fortalecer e expandir o impacto dos empreendimentos sociais liderados por jovens no mundo inteiro.

 

Estudantes feministas do ensino médio – Em São Paulo e em outras cidades do país, alunas do ensino médio estão se organizando em coletivos feministas e iniciativas para combater o machismo ainda na adolescência.

 

EMPREENDEDORISMO

Ana Fontes – Fundadora da Rede Mulher Empreendedora, uma plataforma de serviços que visa unir e apoiar mulheres de todo o Brasil no desenvolvimento do próprio negócio. Em 2015, falou sobre sua experiência no evento TEDx, em São Paulo (SP); foi finalista do Prêmio Cláudia na categoria Negócios; e também ganhou o Prêmio Spark Awards de Melhor Mentora.

 

Ana Laura Castro e Camila Cristina Conti – Fundaram o Maternativa, portal exclusivamente dedicado ao empreendedorismo materno. Todas as empresas cadastradas no site são gerenciadas por mães e ficam à disposição para pesquisa e consulta. O espaço também gera conteúdo e proporciona a troca de informações e experiências entre as empreendedoras.

 

Camila Fusco – Diretora de empreendedorismo do Facebook para a América Latina, começou em março deste ano o projeto Facebook na Comunidade, para estimular o empreendedorismo na periferia. Na comunidade de Heliópolis (SP), coordenou a implementação do laboratório de inovação para ensinar conceitos de marketing digital e empreendedorismo. Até o momento, já atendeu cerca de 1.100 pequenos comerciantes.

 

Deb Xavier – Fundadora do Jogo de Damas e referência internacional em empreendedorismo feminino. Em 2015, foi escolhida novamente como embaixadora da Fundação das Nações Unidas para o Dia do Empreendedorismo Feminino e lançou projeto social de capacitação empreendedora de adolescentes grávidas.  Sua organização promoveu o Dama Mentoring, programa com duração de oito meses para auxiliar as novas empresárias a estruturar o seu negócio e fomentar o desenvolvimento dele através de oficinas e networking. Por sua atuação, também foi convidada a palestrar no Women’s Leadership Day e no Global Summit of Women.

 

Denise Guilherme – Mestre em Educação pela PUC-SP, é fundadora de A Taba, empresa que presta curadoria sobre literatura infantil desde 2013 e só comercializa livros infantis aprovados por uma comissão leitora. Somente este ano, fez a leitura crítica de mais de mil títulos para que fossem doados a 14 escolas.

 

Lorrana Scarpioni – Fundadora da rede social colaborativa Bliive, que promove a troca de experiências e habilidades usando o tempo como moeda. Cada minuto investido pelos usuários na plataforma é revertido em minutos que eles podem aproveitar para descobrir o conteúdo compartilhado pelos demais. Com quase 100 mil horas de experiência contabilizadas no site, aos 25 anos, Lorrana já foi eleita pela BBC como uma das 100 mulheres mais inspiradoras do mundo.  

 

Renata Moraes – A jornalista, autora do “Guia de Boas Práticas em Diversidade de Gênero” da ONU Mulheres, fundou em 2015 a Impulso Beta, plataforma de orientação de carreira para mulheres que já atendeu mais de 100 usuárias. Suas atividades contam com cursos presenciais e online de liderança feminina e empreendedorismo para mães.

 

Samyra Cunha – Fundou com dois amigos a Veggie Box, empresa que presta curadoria e entrega de uma caixa mensal de cosméticos e produtos alimentícios veganos e cruelty-free a seus assinantes. O negócio foi viabilizado por financiamento coletivo e arrecadou R$ 18 mil em três meses, iniciando suas atividades em 2014.

 

Vera Moreira – Jornalista que trabalha com o mercado de orgânicos há mais de uma década e, em 2015, lançou o portal de notícias Organics News Brasil e o Guia de Orgânicos, para promover a sustentabilidade, conscientização e mudanças no padrão de consumo e segurança alimentar.

 

ESPORTE

 

Adriana Behar – Membra do Comitê Olímpico Brasileiro, a atleta está envolvida no desenvolvimento do projeto Uma Vitória Leva à Outra, uma parceria firmada em outubro entre a ONU Mulheres e o Comitê Olímpico Internacional (COI) para fomentar a liderança e o empoderamento de meninas por meio do esporte.

 

Aline Rocha – A paratleta de 23 anos conquistou o 3º lugar na Maratona de Oita, no Japão, que reúne as melhores do mundo. Com o resultado, estabeleceu um novo recorde brasileiro para a distância (42.195m) e entrou para o ranking mundial entre as 10 melhores do mundo, estabelecendo também o índice “A” paralímpico para essa prova.

 

Ana Paula Henkel – Aderindo à campanha #agoraequesaoelas, a ex-jogadora de vôlei escreveu um artigo impactante sobre a objetificação e sexualização sofrida pelas atletas e o sentimento de desamparo que isso traz em momentos de derrota no esporte.

 

Ana Marcela – A nadadora de Salvador (BA) completou a coleção de medalhas no Mundial de Esportes Aquáticos, disputado em Kazan, na Rússia. Após ser bronze nos 10 km e prata nos 5 km, Ana conquistou o ouro nos 25 km. Tornou-se bicampeã da prova, que já vencera no Mundial de Xanguai, em 2011.

 

Guerreiras Grenás – O time de futebol feminino Ferroviária/Fundesport, de Araraquara (SP), conquistou pela primeira vez a Libertadores da América. Apesar do pouco patrocínio e repercussão midiática, a equipe venceu o Colo-Colo (Chile) por 3 x 1 e trouxe a taça para casa.

 

Joanna Maranhão – A nadadora falou corajosamente à Revista TPM sobre o abuso sexual que sofreu pelo ex-treinador e manifestou publicamente seu repúdio a políticos retrógrados e conservadores em competições internacionais. Desde 2014, a atleta coordena a ONG Infância Livre, que ajuda crianças recifenses de baixa renda vítimas de violência sexual.

 

Marineide “Neide” dos Santos Silva – Fundadora da Associação de Moradores da Cohab Adventista de Capão Redondo (SP) e da Associação Projeto Vida Corrida, que incentiva a corrida de rua entre a comunidade. Os treinamentos do projeto já alcançam mais de 350 pessoas, dentre as quais 87% são mulheres e meninas de 4 a 80 anos.

 

Seleção Brasileira Feminina de Rugby Sete – Em sua estreia em Jogos Pan-Americanos, no Canadá, elevou a conversa sobre a participação feminina nesta modalidade esportiva batendo a Argentina por 29 x 0 e conquistando a medalha de bronze. Apesar de não ter nenhuma tradição ou incentivo no país, a equipe brasileira já é dez vezes campeã sul-americana do esporte.

 

Teliana Pereira – A tenista curitibana é a brasileira mais bem sucedida na quadras depois de Maria Esther Bueno. Está no top 50 da WTA (Associação de Tênis Feminino).

 

Internacional

 

Mieko Nagaoka – Aos 100 anos, foi a primeira atleta centenária a completar uma prova de 1.500 metros nado livre em uma piscina semi-olímpica, de 25 metros. Mieko começou nadar aos 82 anos e também detém o recorde de sua categoria (de 100 a 104 anos) na piscina olímpica, de 50 metros.

 

Sarah Tomas – Primeira mulher a ser árbitro oficial da National Football League (NFL) dos Estados Unidos.

 

INSPIRAÇÃO

 

Elena Crescia – Curadora do TEDxSãoPaulo, braço independente do TED, organização dedicada ao compartilhamento de ideias e projetos inovadores. Neste ano, promoveu uma edição exclusivamente feminina do evento, cujos ingressos se esgotaram em poucas horas.

 

Eliane Dias – Manda-chuva da Boogie Naipe, produtora responsável pelo grupo Racionais MC’s, a empresária deu uma entrevista absolutamente maravilhosa sobre machismo, empoderamento feminino, força, coragem, seu casamento com Mano Brown, filhos e drogas para a Revista TPM.

 

Marinalva Dantas Em seus dez anos de atuação como auditora fiscal de Natal (RN), já libertou mais de 2.300 pessoas da escravidão no Brasil, em pleno século 21. Para isso, teve de abrir mão da convivência com a família e colocar a própria vida em risco. Sua história foi contada no livro “Dama da Liberdade”, do jornalista Klester Cavalcanti. Marinalva recebeu o Prêmio Claudia 2015 na categoria Políticas Públicas em reconhecimento ao seu trabalho.

 

Tati Stramandinoli e Marcela Guardiola – As duas tatuadoras criaram projetos dedicados a reconstituir gratuitamente o mamilo de mulheres que tenham se submetido à mastectomia devido ao câncer. Sócia do estúdio Pigmenta Tattoo, Tati atua em São José dos Campos (SP) com o projeto Reviva, e Marcela coordena o projeto itinerante Mamma no sul do país.

 

Internacional

 

Chipo Matimba e Elizabeth Simbi Petros – As duas capitãs do Zimbábue fizeram história. Elas formaram a primeira equipe de aviação totalmente feminina do país, bem como foram as primeiras mulheres a pilotar um Boeing 737.

 

Florence Ndagire – Primeira advogada cega de Uganda, Florence interessou-se desde pequena por política e atualidades. Derrubou muitas barreiras para conquistar sua profissão, já que seu país oferece poucas oportunidades para deficientes visuais.

 

LITERATURA

 

Adriana Carranca – Escreveu o livro infantil “Malala, a menina que queria ir para a escola”, contando de maneira lúdica a história da ativista paquistanesa Malala Yousafzai e apresentando a uma nova geração um exemplo a ser seguido.

 

Bianca Santana – Autora do livro “Quando me descobri negra”, que reúne a história de várias mulheres descobrindo a própria negritude e força em uma sociedade que não sabe lidar com a diversidade.

 

Jarid Arraes – Jornalista, cordelista e ativista de causas sociais, lançou neste ano o livro ilustrado “As Lendas de Dandara”, repleto de contos sobre a guerreira quilombola Dandara dos Palmares.

 

Maria Valéria Rezende e Carol Rodrigues – Vencedoras do Prêmio Jabuti nas categorias Romance e Contos e Crônicas, por “Quarenta Dias” e “Sem Vista para o Mar – Contos de Fuga”, respectivamente.

 

Matilde Campilho – Autora do livro “Jóquei”, que em 2015 bateu recorde de vendas na Feira Literária de Paraty, o maior evento do ramo no país.

 

Nana Queiroz – Jornalista e criadora do movimento Não Mereço Ser Estuprada, lançou neste ano o livro “Presos que menstruam”, sobre a situação das mulheres nas penitenciárias de todo o país. A obra provocando o início de novos movimentos sociais a favor das detentas.

 

Revista Capitolina – Em comemoração ao seu aniversário de um ano, a revista digital voltada ao público juvenil feminino compilou os melhores textos em um livro ilustrado, que traz também artigos inéditos.

 

MODA & BELEZA

 

Cooperárvore – Cooperativa de moda sustentável formada por 12 artesãs e um artesão em Betim (MG). Aproximadamente 11 mil acessórios de moda e decoração foram produzidos por elas a partir da reutilização de tecidos automotivos e cintos de segurança doados por empresas parceiras, como a Fiat Chrysler Automobiles. Além de gerar trabalho e renda, a cooperativa promove projetos de capacitação e protagonismo feminino para a comunidade.

 

Flávia Flores Ex-modelo, escritora, palestrante e idealizadora do projeto Quimioterapia e Beleza. Em 2015, lançou o Banco de Lenços, que já distribuiu gratuitamente mais de mil lenços para pacientes com câncer.

 

Juliana Romano – Foi a primeira mulher gorda a estampar a capa da revista ELLE Brasil, seminua e sem Photoshop (e com muito arraso!). A foto virou matéria de mídias nacionais e internacionais.

 

Maria Clara Araújo – A ativista e estudante de pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) se tornou a primeira garota-propaganda trans do Brasil ao lançar a coleção Oh!Maria em parceria com a Lola Cosmetics.

 

Mel “Candy Mel” Gonçalves – A vocalista da banda UÓ estrelou a campanha #EuUsoAssim, veiculada pela Avon para promover a conscientização sobre o Outubro Rosa.

 

Naomi Faustino – Estudante de Economia e louca por estética, criou o The Black Cupcake para tratar de moda, estilo e comportamento com um enfoque especial em beleza e representatividade negra. A blogueira também abastece regularmente as redes sociais da página.

 

MÚSICA

Anelis Assumpção – A cantora e compositora é um dos nomes mais bombados da nova música brasileira. Por seu segundo disco, Anelis Assumpção & Os Amigos Imaginários, lançado em 2014, a artista foi homenageada em março no Prêmio da Associação Paulisya de Críticos de Arte e levou a estatueta de Melhor Intérprete de Música Popular.

 

Brisa Flow – Rapper, fala sobre emporamento feminino em suas composições. Este ano, lançou o single As de Cem e está prestes a lançar seu novo trabalho, “Newen”.

 

Elza Soares – Aos 78 anos, ela lançou o elogiado disco “A Mulher do Fim do Mundo”, com canções inéditas disponíveis para streaming gratuito. As letras das canções falam sobre sexo, violência contra a mulher, machismo e a sobrevivência de uma travesti.

 

Luana Hansen – A DJ e MC da uma aula sobre justiça social e feminismo em suas letras. Em junho, lançou o simbólico clipe da canção Negras em Marcha.

 

MC Soffia – Após participar de oficinas de hip hop, decidiu iniciar sua carreira de MC cantando o orgulho que sente de ser negra, aos 11 anos de idade.

 

Tássia Reis – A rapper paulista está em atividade desde 2011 e coleciona sucessos e parcerias bem sucedidas com músicos como Marcelo D2 e Emicida. Participou da Semana do Hip Hop de Bauru (SP) e se manifestou abertamente sobre o machismo em um meio ainda amplamente ocupado por homens.   

 

Xênia França – A magnética baiana é a única mulher e uma das vocalistas da banda Aláfia, integrada por outros 10 músicos e que canta a negritude ao tom de diferentes gêneros da black music.

 

POLÍTICA & ESTADO

 

Ana Lucia Keunecke, Valéria Sousa e Raquel Marques O trio forma a ONG Artemis, que denunciou Eduardo Cunha e os 11 deputados que escreveram o PL 5069/2013 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Foi feito pedido de medida cautelar em razão da urgência da perda de direitos das mulheres no Brasil já que a lei dificulta o acesso de vítimas de estupro à medicamentos e ao aborto.  

 

Anamelka Albuquerque Formiga e Tânia Gonçalves de Miranda – Delegadas que atuaram no caso de estupro e tentativa de homicídio em Castelo do Piauí (PI). Foram as responsáveis por investigar e prender os autores do crime contra quatro adolescentes, enquadrando-o como feminicídio.

 

Carla Clausi – A Major paranaense é a primeira mulher a comandar uma unidade do Exército Brasileiro. Em janeiro, ela assumiu o comando do Hospital da Guarnição de João Pessoa (PB).

 

Carla Lyrio Martins – A Coronel Médica mineira é a primeira mulher a comandar uma organização militar da Força Aérea Brasileira (FAB). Ela chefia a Casa Gerontológica Brigadeiro Eduardo Gomes (CGABEG), no Rio de Janeiro.

 

Jandira Feghali – Em maio, a deputada federal eleita pelo Partido Comunista do Brasil no Rio de Janeiro (PC do B-RJ) acusou o deputado Roberto Freire (PPS-SP) de agressão por conta de um empurrão durante o desentendimento dele com o deputado Orlando Silva (PC do B-SP). Ao ter sua denúncia questionada pelo deputado Alberto Fraga (DEM-DF) ‒ que afirmou no Plenário da Câmara que “mulher que participa da política e bate como homem tem que apanhar como homem também” ‒, Jandira repudiou o machismo na política e recebeu apoio de políticos, movimentos sociais e da própria presidenta Dilma Rousseff.

 

Maria Clara de Sena – Primeira mulher trans a assumir cargo em um Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, órgão ligado à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e que atua em parceria com a ONU.

 

Maria do Rosário – A deputada federal eleita pelo Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (PT-RS) processou e ganhou a ação de danos morais contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que declarou em sessão no Plenário que “não a estupraria porque ela não merece”.

 

Maria Gabriela Mansur – Promotora do Ministério Público de São Paulo, foi homenageada neste ano com a medalha Ruth Cardoso, pelo trabalho em defesa dos direitos da mulher. Criou curso obrigatório para que homens condenados por violência doméstica reflitam sobre as consequências penais e sociais desse tipo de crime. Também é criadora e organiza o Movimento pela Mulher, corrida com grupos de mulheres que já sofreram algum tipo de violência (física ou psicológica) para melhorar a autoestima feminina. A última edição do evento reuniu 2 mil pessoas.

 

Nazareth Araújo – A procuradora do Estado é vice-governadora do Acre pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Pela primeira vez no estado, uma mulher vistoriou as tropas no Dia da Independência. Em 2015, também implementou o programa Mulher Cidadã, que levou até áreas mais isoladas representações de órgãos e entidades públicas para realizar atendimentos de saúde, organização comunitária e interação entre comunidade e escola, além de realizar ações de combate à violência doméstica.

 

Internacional

 

Dina Kawar – Durante o mês de abril, a embaixadora jordaniana foi a primeira mulher árabe a presidir o Conselho de Segurança da ONU após quase 70 anos de história.

 

Hillary Clinton – A advogada e pré-candidata à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata incluiu em sua plataforma de campanha ações para diminuir a diferença salarial entre homens e mulheres nos EUA. Se eleita, será a primeira mulher da história a governar o país.

 

Madhu Kinnar – Tornou-se a pessoa trans a ser eleita como prefeita na Índia.

 

Marzieh Afkham – Primeira embaixadora do Irã desde a Revolução Islâmica, ocorrida em 1979. Ela assumiu o posto na Malásia, em novembro, aos 50 anos, tornando-se a segunda mulher a ocupar o cargo no país (a primeira foi Mehrangiz Dolatshahi, em 1970, na Dinamarca).

 

SAÚDE

 

Fabiana Mesquita – Jornalista e educomunicadora de Brasília (DF), é consultora da UNAIDS, programa da ONU para a universalização do tratamento do HIV-AIDS. É uma das idealizadoras do Curso de Formação de Jovens Lideranças para o Controle Social no Sistema Único de Saúde (SUS) e, somente em 2015, formou mais de 100 jovens líderes que atuam com questões como gênero, raça, direitos humanos e drogas. Graças à internet, ela mantém contato com mais de mil jovens de todo o Brasil para formar uma rede de solidariedade e combate à discriminação social.

 

Valéria Guimarães – A médica se tornou a primeira brasileira a conquistar o Prêmio Laureate Award Winners da Sociedade Americana de Endocrinologia, na categoria Serviço Público Extraordinário, pelo trabalho de conscientização sobre a questão da obesidade e outras discussões da área.

 

TECNOLOGIA

 

Anielle Guedes – Aos 22 anos, a paulistana tem um sonho: reduzir o deficit habitacional no mundo. Para realiza-lo, fundou a startup Urban 3D, que usa sistemas de computação inteligente para a construção de moradias de baixo custo.

 

Bárbara Paes, Fernanda Balbino e Ariane Cor – Criadoras do #MinasProgramam, projeto que incentiva o ensino de programação para mulheres. O curso é aberto ao público feminino em geral e traz temas como WordPress, CSS, HTML, PHP, Ruby on Rails, UX/front-end e até o uso de redes sociais.

 

Camila Achutti – Aos 21 anos, é sócia-fundadora da Ponte21, consultoria de inovação que promove a conexão da tecnologia com as pessoas. Em maio deste ano, conquistou o prêmio Women of Vision na categoria Student of Vision (ABIE Award), do Instituto Anita Borg, voltado para o incentivo à inclusão de mulheres no mundo digital.

 

Kamila Brito – Administradora de Belém (PA), criou o Barco Hacker, que viaja pelo estado e pelo Amazonas ensinando às populações ribeirinhas noções de tecnologia. Cerca de 500 pessoas participaram das viagens do barco em 2015. Também neste ano, ela reestruturou a Casa de Cultura Digital do Pará, iniciativa que fundou e que congrega empresas, startups e empreendedores em um espaço colaborativo para trabalharem em rede em projetos de webcidadania em todo o Brasil.

 

Internacional

 

Ellen Pao – Após ser levada a desistir de processo contra o machismo que enfrentou em uma empresa do setor financeiro, tornou-se CEO do Reddit, onde também foi vítima do mesmo problema. Foi redimida e, em 2015, tornou-se um símbolo definitivo da luta pelo fim do machismo no mundo da tecnologia.

 

Emily May – Fundadora da ONG Hollaback, que combate o assédio sexual em locais públicos, lançou neste ano via financiamento coletivo o app Heartmob, para proteger vítimas e mobilizar usuários contra a violência de gênero na internet.

 

EM MEMÓRIA

 

Danielly Rodrigues – Estudante de Castelo do Piauí (PI) e única vítima fatal do crime brutal cometido contra ela e três amigas. Morreu no hospital aos 17 anos após ter sido estuprada e atirada em um penhasco junto às outras, que sobreviveram.

 

Estrella Bohadana Professora universitária, sua primeira prisão foi aos 19 anos em 1970, no Rio de Janeiro, durante a ditadura. Fugiu para São Paulo, onde foi presa novamente e sofreu um aborto por conta da tortura. Faleceu no Rio no dia 11 de maio de 2015.

 

Iná Meireles de Souza – Médica infectologista da rede pública de saúde, foi fundadora do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), da Central Única dos Trabahadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT). Ex-diretora do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, presidiu a Comissão da Verdade de Niterói até o seu falecimento por conta de um câncer, em novembro (dois dias antes de completar 67 anos). Resistiu à ditadura cilvil-militar-empresarial na década de 1960, quando foi torturada de forma bárbara no presídio Ilha das Flores (RJ).

 

Maria Clara Siqueira Castro de Araújo A advogada carioca faleceu em agosto em consequência da diabetes, doença contra a qual lutou desde os 12 anos. Sempre praticou a advocacia em favor dos mais necessitados ‒ o que contribuiu para que o escritório onde era sócia, Siqueira Castro Advogados, ganhasse o prêmio de Melhor Escritório de Advocacia da América Latina da Chambers Global, pelo atendimento de mais de 60 instituições de caridade. Os outros sócios do escritório criaram o Instituto Maria Clara, que concentrará todas as atividades de advocacia pro bono.

 

Sandra Bland – Por não dar sinal ao mudar de faixa e se recusar a apagar um cigarro, a norte-americana negra foi detida em condições irregulares e de violência policial ‒ o que gerou um debate sobre viés inconsciente e racismo no país. Foi encontrada morta em sua cela três dias após a prisão. A polícia texana afirmava se tratar de suicídio, para descrença de familiares, amigos, militantes e da mídia em geral.

 

Therezinha Zerbini – Faleceu em março, aos 87 anos. A advogada de São Paulo (SP), fundadora do Movimento Feminino pela Anistia durante os anos 1970, foi presa durante a ditadura civil-militar por sua resistência ao regime. Sua história foi contada no livro “A mulher que era o general da casa”, do jornalista Paulo Moreira Leite.

 

Zilda Xavier Pereira – Uma das líderes da Ação Libertadora Nacional (ALN), que resistiu à ditadura de forma armada, teve seus filhos Iuri e Alex assassinados pelo regime. Também dirigiu a Liga Feminina da Guanabara na década de 1960, e até o fim da vida, lutou para que fossem encontrados os restos mortais de seus filhos, tendo discursado em uma cadeira de rodas e com fala debilitada na Comissão de Mortos e Desaparecidos da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Faleceu em novembro no mesmo dia em que completou 90 anos, em sua residência em Brasília (DF).

 

MENÇÃO HONROSA

 

Mulheres do #primeiroassedio – Pela coragem de expor histórias de assédio que sofreram ainda na infância e pela fundamental participação em um movimento internacional de conscientização sobre a gravidade desse problema.

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Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.
Mosaic portrait of Simone De Beauvoir made out of butterflies. Created for Womankind magazine in Australia.

Que o trabalho intelectual das mulheres é menos valorizado que o dos homens não é nenhuma surpresa. Aprendemos na escola e sabemos de cor o nome de filósofos, cientistas e autores masculinos, mas mesmo grandes mentes femininas têm menos destaque que alguns pensadores medíocres por uma falta de visibilidade e descrédito que têm raiz no machismo. E é nesse cenário de invisibilidade sistemática que, entre as poucas intelectuais femininas de renome mundial, está a francesa Simone de Beauvoir.

Filósofa, Simone, entre muitos feitos, é autora do livro O Segundo Sexo, considerado uma das obras estruturantes e fundamentais do feminismo ocidental. Sua obra foi revisitada no ENEM deste ano, que contou com uma questão que trazia o seguinte trecho: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Se, por um lado, feministas do Brasil inteiro comemoravam o fato de sete milhões de candidatos à entrar em universidades de todo o país terem contato com questões de gênero não apenas nessa questão, mas também na redação, cujo tema era violência contra a mulher, de outro, a presença de uma filósofa falando abertamente sobre a opressão feminina incomodou mentes atrasadas.

Os deputados federais Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) usaram suas redes sociais para criticar a filósofa e tentar diminuir sua produção intelectual. Vereadores da cidade de Campinas aprovaram moção contra o ENEM, com direito a discursos inflamados no plenário contra Simone. Tanta revolta, somada à presença dela no principal exame de acesso ao ensino superior no Brasil, mostram como a obra da filósofa ainda é pertinente no mundo atual.

Quase 70 anos após a primeira publicação de O Segundo Sexo, é preocupante que tantos desses estudantes tenham tido contato com a obra da filósofa pela primeira vez ao fazer o exame. Por isso estamos felizes em apresentar, com exclusividade, o teaser do novo longa de Lucia Murat, Em Três Atos, que investiga os estudos de Simone de Beauvoir sobre a velhice por meio de escritos e entrevistas que ela concedeu sobre o tema.

Além de ser uma obra que trará mais visibilidade à uma grande mulher, trata-se de uma investigação da diretora, aos 66 anos, sobre situação dos idosos na sociedade. A mesma inquietação que a cineasta agora sente, fez a pensadora francesa escrever “A velhice”, em 1970. Por ter sido bailarina na adolescência, Lucia decidiu refletir sobre o tema contrapondo o corpo e a palavra no longa, que estreia em 10 de Dezembro -Dia Mundial dos Direitos Humanos e o último da campanha dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres.

“A proposta do filme é muito mais levantar questões e apontar sensações do que dar respostas. Por isso, o que busco são as nuances e contradições observadas no corpo: a dor de ter perdido o vigor convivendo com a vida que está presente na velhice”, explica a diretora que optou por trabalhar com textos de Simone de Beauvoir imediatamente após ter decidido fazer o filme.

“Não somente por ela ter escrito e pensado sobre o tema, mas também por ter sido uma das intelectuais mais importantes da minha geração”, completa a diretora, que também se debruçou sobre a obra “Uma morte doce”, da mesma autora, livro no qual Simone de Beauvoir descreve a morte de sua mãe. De forma poética, “Em três atos” entrecruza dança e textos filosóficos, refletindo sobre o ciclo da vida. Com as atrizes Andréa Beltrão, Nathalia Timberg, e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe.

Como parte das ações de lançamento do filme, além do teaser aqui no Think Olga, o Rio de Janeiro receberá um debate cujo tema é “Protagonismo feminino e Simone de Beauvoir: da literatura ao cinema”, às 19h30, na Livraria Travessa do Leblon. O bate-papo, aberto ao público, contará com a presença da cineasta Lucia Murat, da filósofa Carla Rodrigues, a ativista feminista Heloisa Melino e da socióloga Jacqueline Pitanguy – e um trailer inédito do longa será exibido ao público


 

O Think Olga foi convidado para realizar o lançamento do vídeo com exclusividade. Nos sentimos honradas com o convite e cedemos o espaço gratuitamente para divulgar um projeto alinhado com nossa missão de empoderamento feminino por meio da informação.

Arte: Charis Tsevis

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Eu cresci sendo aquela única negra da turma. É o que acontece quando você nasce em uma família e mora em bairros classe média, estuda em escolas particulares, faz curso de inglês e uma universidade federal. Passei a infância pedindo (e ganhando) a Barbie, o namorado da Barbie, o carro da Barbie, a casa da Barbie, pro Papai Noel. Na adolescência, a pretexto de diminuir o volume e “soltar” os cachos, por anos fiz relaxamento no cabelo. Em uma das idas ao salão, sofri calada enquanto sentia as queimaduras no meu couro cabeludo, afinal, eu tinha aprendido que pra ficar bonita eu precisava sofrer. E por muito, muito tempo nada disso me pareceu um problema. Ao contrário. Eu me achava privilegiada demais para reivindicar qualquer coisa, inclusive minha identidade negra. Mas o tempo – novamente ele – passou e descobri que ser uma negra de privilégios em ambientes majoritariamente brancos não é fácil e deixou marcas. Minha vida pode ter sido sim mais confortável que a de outros, mas ser uma minoria nos espaços que deveriam ser igualitários também é um tipo de opressão. Especialmente se você é uma mulher negra.

Por mais que eu estivesse entre brancos, nunca fui um deles. E isso ficava claro nos pequenos racismos do dia a dia, nas piadas que atacavam aquilo que eu tinha e tenho de mais característico. Não foram poucas as vezes em que me peguei tendo vergonha do meu cabelo, do meu nariz, desejando ser branca para que os garotos (mais tarde, os empregadores) fossem um pouquinho mais solícitos comigo. Em algum lugar ao longo do caminho eu comecei a acreditar que eu não era boa o suficiente como as outras meninas, o que quer que isso significasse. O racismo, ainda que eu não o enxergasse, me fez desconfortável em torno de meu próprio corpo. Mesmo adulta esse sentimento de inadequação me acompanhava. E até compreender que o problema não era eu, não estava em mim, muito estrago se fez.

Não sei exatamente quando consegui romper com esse ciclo e tomei consciência de como os outros me veem, mas foi de certo um percurso longo, sem direito a atalhos. Nele fui costurando minha identidade, encontrando meus pares, (re)conhecendo minha história e minha ancestralidade, juntando os pedaços da minha autoestima numa trajetória por vezes dolorosa, mas também de liberdade. Só que isso não representa um final feliz. Porque aprendi que ser uma mulher negra é, inevitavelmente, militar todos os dias. Vai ter sempre um incomodado querendo nos anular, mostrar qual é “o nosso lugar”. Basta um vacilo para pôr tudo a perder.

O estereótipo racista
Infelizmente, minha história não é única. De acordo com o IBGE, as mulheres negras representam 25% do total da população brasileira, o que corresponde a cerca de 49 milhões de pessoas. São 49 milhões de histórias diferentes de luta diária pelo resgate da autoestima. Você sabe o que é se olhar no espelho e querer ser outra? Abrir os jornais e perceber que os seus só estampam os cadernos policiais – no máximo os de cultura e entretenimento? O que é ligar a televisão e se enxergar carregada de preconceitos? Não nos vemos representadas num país de quase 53% da população autodeclarada negra. E é nessa ausência e distorção da imagem da mulher negra na mídia que o racismo mais se manifesta porque ela desempenha o papel perverso de perpetuar estereótipos. Somos as vítimas das tragédias; as mães, esposas ou irmãs dos criminosos; as mulatas do carnaval; as domésticas das telenovelas.

De fato, ainda que a desigualdade venha se reduzindo em todo o país, as mulheres negras continuam na base da pirâmide social, política e econômica. Dados do IPEA, de 2014, mostram que, mesmo com qualificação similar, a renda das mulheres negras corresponde a 56% da renda das mulheres brancas; o acesso aos direitos sociais básicos (educação, saúde, habitação) é muito mais precário; os postos de trabalhos são escassos e requerem pouca qualificação – 70% das empregadas domésticas são negras e a maioria ainda sem carteira assinada. E não para por aí: os homicídios contra negras aumentaram 54%, enquanto o de brancas diminuíram 10%, de acordo com o Mapa da Violência 2015.

Isso é resultado do preconceito e discriminação que nos excluem de determinados espaços e nos negam possibilidades por uma dupla opressão: de gênero e racial. Mas não podemos mais permitir que as representações não retratem toda a profundidade de quem somos. Queremos mais. Podemos estar em menor número, mas estamos aí nas engenharias, no jornalismo, na advocacia, no empreendedorismo, na ciência, na academia. Produzindo intelectualmente. E é por isso que representatividade importa, porque empodera. E mulher negra empoderada incomoda. Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para ver que muitas das vítimas dos casos mais recentes de racismo no Brasil foram todas mulheres que ocupam espaços nos quais, normalmente, não se veem representadas, mas que elas podem e devem ocupar. É a jornalista que aparece no principal telejornal do país orgulhosa do seu black power; a atriz protagonista de seriado na Globo; a modelo que ganhou um concurso de beleza; a estudante que cursa Medicina em uma universidade federal.

Em busca do protagonismo
Em um país cuja uma das poucas interações com a realidade e cultura negra se dá através das lentes distorcidas dos meios de comunicação, estes hegemonicamente brancos, o resultado só pode ser a difusão de um discurso fortemente racista e naturalizado. Uma pesquisa sobre a presença dos negros nas agências de publicidade no Brasil mostrou que apenas 0,74% dos cargos de alta direção são ocupados por negros. Dos 404 executivos, apenas 3 são negros. Entre as mulheres é ainda pior: nenhuma negra ocupa um cargo de gestão estratégica. O resultado a gente vê sendo veiculado todos os dias: propagandas que, quando não simplesmente ignoram mulheres e homens negros, são institucionais ou cometem equívocos próprios de quem não faz a menor ideia do que é ser negro nesse país.

O jornalismo não é diferente. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), apenas 23% dos profissionais da área são negros. É uma das profissões com a menor proporção de negros no país. E se a pluralidade não começa dentro do processo não há como encontrá-la no produto final, certo? Não é à toa que, diariamente, vemos na imprensa as demandas específicas de mais da metade da população serem ignoradas, que o termo discriminação ou preconceito são mais usados em vez de racismo, que injúria racial está mais para bullying que para crime. Entre as fontes jornalísticas, ou seja, personagens e profissionais especializadas entrevistadas, como psicólogas, antropólogas, médicas, advogadas, arqueólogas ou engenheiras, por exemplo, também somos minoria, mesmo quando questões raciais estão em pauta.

Pensando nisso, hoje nasce o projeto Entreviste um Negro, inspirado na proposta do Entreviste uma Mulher, da Think Olga: um jornalismo mais plural e que busque um equilíbrio em seus pontos de vista. O banco de fontes é colaborativo e vai aproximar mulheres e homens negros, experts nas mais diversas áreas ou que têm experiências para contar, a jornalistas que procuram fontes especializadas, seja para pautas com recorte étnico-racial ou não.

O funcionamento é básico. Se você é jornalista, é só acessar o banco de fontes e procurar pelo profissional que melhor se encaixa na sua pauta e entrar em contato diretamente com ele. Se você quer ser fonte ou indicar uma, é só mandar para o e-mail entrevisteumnegro@gmail.com nome, uma mini biografia, as áreas de expertise (os assuntos que você pode abordar numa entrevista em formato de palavra-chave), contato (site, portfólio, telefone e/ou e-mail), e cidade onde a entrevista será realizada, caso seja feita pessoalmente. E faça essa rede crescer!

A mudança só virá quando deixarmos de ser objetos e nos tornarmos sujeitos, quando a nossa presença se tornar a norma. E não apenas pela autoestima da mulher negra, mas porque isso normaliza a sua humanidade para os outros. Queremos ser protagonistas das nossas próprias histórias. Deixem que a gente fale por si. Que sejamos nós por nós. Como clama a rapper-musa-preta Tássia Reis, ouça-me.

ACESSE O BANCO DE FONTES ENTREVISTE UM NEGROhttp://bit.ly/EntrevisteUmNegro


Helaine Martins é jornalista freelancer, formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com 11 anos de experiência em assessoria de imprensa e reportagem, e pós-graduanda em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais pela ECA/USP. Fez parte da primeira turma da Olga Mentoring – Escola de Líderes.

Arte: Jeff Ötisberg

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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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Lola Aronovich sob ataques de machistas
SXSW cancela painel sobre violência contra a mulher no mundo dos games após receber ameaças com as quais as vítimas já estão mais que acostumadas, e volta atrás somente após perder patrocínios e ameaças de boicote
Maria Júlia Coutinho e Taís Araújo são vítimas de ataques racistas
– O perfil da Stephanie Ribeiro foi derrubado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook
 Também no Facebook, as páginas da Jout Jout e Feminismo Sem Demagogia estão fora do ar…

Mas é tarde demais para nos calar! 

A violência contra mulheres na internet atingiu um novo auge nos últimos tempos. Talvez como resposta aos avanços cada vez mais rápidos do feminismo em diversos espaços e do incômodo que a sua presença e fortalecimento causam.

Em menos de uma semana, a hashtag ‪#‎primeiroassedio‬ foi replicada 82 mil vezes em resposta à comentários machistas e pedófilos. A violência contra a mulher foi tema no principal exame de acesso à universidade no país. O Google (!) compartilhou o vídeo da Jout Jout sobre a cultura do estupro.

A frase “machistas não passarão” nunca fez tanto sentindo quanto agora: campanhas publicitárias, músicas e outros produtos midiáticos que desrespeitam as mulheres são rapidamente rechaçados (leia-se “Esqueci o não em casa” da Skol, Homens Risqué, chamar cólicas menstruais de mimimi, aquela música “Vou jogar na internet” etc).

Na internet (e fora dela), temos força, temos voz, mas também temos inimigos da nossa liberdade. Há anos a Lola recebe ameaças e é perseguida por sua militância na internet. Os haters divulgam seu endereço residencial, ligam para sua casa, a ameaçam de morte, querem destruir sua vida e reputação – e essa briga já foi parar na justiça diversas vezes. Tudo porque ela é mulher e tem uma opinião.

‪#‎ForçaLola‬! Estamos com você e NÃO VAMOS NOS CALAR diante do que está acontecendo. Sabemos que medidas legais já foram tomadas, registramos aqui nosso repúdio aos ataques e aproveitamos para divulgar seu único endereço na web mais uma vez:http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br

Se você também está sendo vítima de ataques virtuais, confira nosso FAQ sobre o que fazer quando isso acontece.

“Estou irritada porque esperam que eu aceite assédio virtual como preço por ser uma mulher de opinião” – Anita Sarkeesian, diretora executiva do Feminist Frequency e uma das principais vozes contra a violência online contra mulheres no mundo.

Nós também, Anita, nós também. Mas prometemos solenemente NUNCA compactuar com isso.


 

Arte: NVM Illustration

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A última semana foi uma das mais intensas do ano para nós do Think Olga. Lançamos a hashtag #primeiroassedio para saber das mulheres quando foi a primeira vez que foram abordadas sexualmente. A iniciativa foi uma resposta ao imenso número de mensagens de teor pedófilo que circularam no Twitter durante a estreia do programa Masterchef Júnior, na Band. Uma das meninas tornou-se alvo de homens que não se intimidaram em manifestar publicamente seu desejo sexual por uma criança.

 

Durante os dois anos de existência da Chega de Fiu Fiu, nossa campanha contra o assédio em locais públicos, e por experiência pessoal, sabemos que infelizmente o que estava acontecendo no Twitter e chamando atenção pelo absurdo nada mais eram que registros reunidos a refletir um comportamento familiar a muitas mulheres. O assédio começa na vida de uma mulher no momento em que algum homem decide que ela já tem idade suficiente para ver seu pênis, ouvir palavras sujas ou coisa pior. Para algumas, tão cedo quanto aos cinco anos de idade.

 

Outro evento recente que diz respeito às mulheres é a aprovação do Projeto de Lei 5069/13 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. De autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o próximo passo é a votação em Plenário da Câmara. O projeto de lei visa dificultar o acesso a métodos abortivos mesmo quando a profilaxia da gestação é permitida por lei, como em casos de estupro.

 

Para tal, segundo o texto do projeto, será negada às vítimas atendimento básico em casas de saúde logo após uma violência sexual. O ato deve ser violento o suficiente para causar danos físicos e psicológicos – a ser comprovados via exame de corpo de delito, em uma delegacia. Com o laudo que comprove o estupro em mãos, só então a pessoa poderá procurar auxílio em uma emergência hospitalar.

 

Tudo isso está superficialmente explicado em um texto aberto a interpretações e subjetividades que, em todos os níveis, prejudicam somente as mulheres. No Brasil, o acessoao aborto é limitado aos casos nos quais há risco de vida para a mulher causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro ou se o feto for anencefálico. Nas três circunstâncias, a mulher é vitima de fatores externos, mas em um deles ela ainda será obrigada a encontrar forças se quiser ter acesso aos procedimentos necessários para sua própria saúde. Antes de cuidar de si, a mulher deve cuidar de provar para o estado que foi vítima de um crime – uma tarefa que definitivamente não é fácil quando se conhece a realidade burocrática, fria e machista das delegacias brasileiras, inclusive as da mulher. Caso ela não consiga, será impedida de ter acesso ao kit estupro (medicamentos que incluem a pílula do dia seguinte e salvaguardam a vida da mulher após essa violência), correndo risco não apenas de gerar um bebê indesejado, mas também de contrair todo tipo de doença sexualmente transmissível.

 

O PL também se esforça para manter mulheres na escuridão. Segundo ele, estarão sujeitos à penas de reclusão os profissionais de saúde que ajudarem mulheres a abortar sem a comprovação obtida em uma delegacia e, se a vítima for menor de 18 anos, o tempo de cadeia é maior ainda. Além disso, o “anúncio de meio abortivo” também seria criminalizado para dificultar a educação das mulheres em relação a direitos reprodutivos.

 

Para entender o quanto esse projeto está descolado da realidade, basta olhar para os números. No Brasil, uma pessoa é estuprada a cada 10 minutos e mais da metade das vezes é apenas uma criança. Ter acesso ao aborto garantido por lei quando uma gravidez proveniente desse crime acontece já é difícil por si só. Em suma, as maiores prejudicadas por esse PL são meninas pobres e definitivamente nenhuma mulher sai ganhando. Seu maior beneficiário talvez seja o estuprador, que seguirá impune (e livre para fazer piadas sobre pedofilia na internet), ancorado por leis que afastam as vítimas da denúncia.

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O fato de todos esses absurdos terem meramente sido aprovados pela CCJ já constituem uma derrota na luta pelos direitos das mulheres, mas ainda não perdemos a guerra. No Brasil inteiro, mulheres estão se mobilizando para que o projeto não seja aprovado no Plenário. É possível assinar a petição online contra o projeto, participar dos atos que vão acontecer em São Paulo e entrar em contato com nossos deputados federais para colocar pressão e demonstrar que as mulheres repudiam esse PL.

 

Tomar iniciativa é apenas fazer valer direitos que já conquistamos. É triste perceber que a discussão sobre direitos reprodutivos no Brasil e o direito sobre os nossos próprios corpos ainda esteja tão atrasada e correndo risco de retroceder, mas não será desistindo de nos fazer ouvir que essa realidade mudará. Essa é uma lei que não faz qualquer sentido e não tem espaço na realidade atual do país que temos hoje e muito menos na do país que queremos um dia ser. Querem nos desinformar, nos intimidar e nos fazer pagar com nossas próprias vidas pelo crime dos outros. Temos 5069 razões para lutar contra essa lei e pelas nossas vidas – e a primeira delas é a nossa paixão pela liberdade.


Arte: Leah Reena Goren

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