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Quando começamos a conversa sobre assédio de rua com a Chega de Fiu Fiu, em 2013, o tratamento dado pela imprensa às questões de gênero eram bastante diferentes, em especial no meio online. Uma busca do Google pela expressão “assédio sexual” levava a reportagens que mencionavam esse tipo de violência no ambiente de trabalho, mas pouco se falava sobre o contexto machista que permite que homens, em todas as partes do mundo, se dirijam a mulheres no espaço público de maneira ofensiva e opressora, como se tivessem o direito de opinar ou escrutinar nossos corpos. Nesses quatro anos de campanha, vimos não apenas o tema do assédio ocupar espaço na imprensa e nas redes sociais; como também o feminismo abraçar e encontrar diferentes vozes nas redes, que aprofundaram o debate e mostraram como é urgente ressignificar o retrato da mulher na sociedade, nos meios  de comunicação, nas relações interpessoais.

Hoje, vemos parte da imprensa aderindo a pautas sobre gênero ou às práticas dos nossos Minimanuais de Jornalismo Humanizado. Percebemos que o feminismo é uma pauta que surge com maior naturalidade nos espaços de conversa. Mas como mensurar os avanços e as transformações que a luta feminista provocou dos últimos quatro anos?

É impossível precisar quantas mulheres estão envolvidas no feminismo ou são contempladas e tocadas por suas pautas. Mas podemos contabilizar histórias que não foram esquecidas, nem silenciadas. Histórias como a de Cláudia Silva Ferreira, que sofreu violência duas vezes: primeiro, quando foi arrastada pelo carro da Polícia Militar em 2014. A segunda, quando foi retratada de forma desumanizada pela imprensa, seu nome esquecido, seus sonhos ignorados, sua identidade negada. Se tivessemos aceitado  o tratamento da imprensa à época, Cláudia poderia ter morrido anonimamente, em um dos tantos atos de violência sem sentido que atingem principalmente as mulheres negras e periféricas.

Mas status social também não é garantia de proteção às mulheres. Lembremos de Nigella Lawson, agredida em público pelo marido; Amber Heard, que foi agredida pelo então parceiro, Johnny Depp, e não apenas teve sua história duvidada e questionada, como perdeu papéis no cinema por ter denunciado sua história de abuso; a cantora Rihanna, que sofreu violência doméstica pelas mãos de Chris Brown pouco antes da cerimônia do Grammy de 2009, viu o ex-namorado comemorar no Twitter que estava livre de punições.

Sabemos que nossa luta faz avanços quando essas histórias não são esquecidas, quando a vítima não é silenciada, quando a mulher é levada a sério em seu testemunho. Como diz Virginia Woolf: “Uma feminista é qualquer mulher que diz a verdade sobre sua vida”. Mas é preciso coragem tremenda para dizer essa verdade.

Nos últimos quatro anos, colecionamos vozes que corajosamente contaram suas histórias. Queremos continuar esse trabalho, pois sabemos que as mudanças são lentas, graduais e não-lineares; basta prestar atenção nos direitos que estão sendo cerceados e manipulados nos últimos dois anos, alguns deles que considerávamos já conquistados, como a reforma trabalhista que pode permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, a dificuldade de denunciar violência mesmo com a Lei da Maria da Penha, a resistência à legalização do aborto. É preciso reforçar, todos os dias, que o silenciamento dessas vozes representa a perda de dignidade e até mesmo a morte de muitas mulheres.

Queremos que os próximos anos sejam de ainda mais conquistas e pluralidade de vivências. Queremos ver a mulher que opta pelo aborto livre dos caminhos escusos da ilegalidade. Queremos mais empatia. E direitos verdadeiramente assegurados.

Nos ajude a continuar lutando. Participe da nossa campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria e mantenha a luta da Think Olga acesa. Precisamos de vocês! #Olga4Anos

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PARTE I: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

O papel dos veículos de comunicação é fundamental na construção da cultura de um país. O jornalismo, em especial, por sua posição de confiança e virtude informativa, é capaz de legitimar discursos e práticas concomitantemente à transmissão de notícias. É por essa capacidade que salientamos a importância de um jornalismo livre de preconceitos, ainda que aqueles que estão por trás dos furos não o sejam.

Este manual pretende fornecer aos profissionais de comunicação ferramentas básicas para uma redação limpa de sexismo, racismo, homofobia e transfobia, apontando erros de abordagem básicos cometidos na cobertura de crimes de gênero – não apenas pelo dever moral do tratamento humanizado para todos os envolvidos, mas também para que o jornalismo não colabore com a perpetuação de discursos de ódio.

ABORDAGEM DE ESTUPRO

Segundo a lei, é estupro “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.” Caso a vítima tenha entre 14 e 18 anos, a pena é mais severa – abaixo disso, qualquer conjunção carnal é considerada estupro de vulnerável, independente do consentimento da vítima.

O estupro é um dos crimes mais subnotificados, por várias razões. A primeira delas é que, em uma sociedade patriarcal e machista como a brasileira, ao revelar que sofreram essa violência, as mulheres, maioria entre as vítimas de estupro no país (89%, segundo o Ipea), têm grandes chances de ser culpabilizadas pelo fato – sendo que o único responsável pelo crime é o estuprador.

As que têm coragem e força para fazer uma denúncia formal, encontram um poder público tecnicamente ineficaz para lidar com esse tipo de crime, seja por barreiras técnicas (falta de recursos) ou ideológicas (o machismo daqueles que estão realizando o atendimento). Apesar de apresentar mais uma barreira para que a denúncia seja realizada, diminuindo o número de crimes notificados, as denúncias que seguem adiante também não representam grandes chances de vitória para as vítimas.

No Rio de Janeiro, um estado que, entre janeiro e abril de 2016, registrou 13 estupros por dia,   somente 6% dos acusados de estupro foram a julgamento em 2015, segundo dados obtidos pela revista Época. Em São Paulo, o número sobre para 10,9% – ainda baixíssimo e desanimador para quem viveu essa dor e deseja buscar justiça.  

Esses são dados que mostram como o machismo ajuda a tornar o estupro um crime de impunidade quase certa. Se os meios de comunicação colaboram na atenuação de sua reportagem, eles ajudam a alimentar essa realidade. As mudanças aqui sugeridas podem parecer sutis, mas na verdade são cruciais para que esse crime seja descrito noticiosamente de forma mais humana e justa com as vítimas.

 

1 – Não romantizar o ato

G1 - Condenado a 54 anos por estupro faz coletiva e se diz vítima de 'inveja' - notícias em Acre - Google Chrome_2

RJ declaração de amor de aluna à professora indigna mãe - Google Chrome

Quando se tratar de uma notícia sobre estupro, jamais usar o termo “encontros amorosos”. Podem ser encontros, mas não há nada de amoroso em estuprar uma pessoa. São encontros criminosos. Esse é um padrão observável especialmente em notícias referentes à pedofilia, quando os abusos acontecem repetidas vezes, e os encontros são assim denominados. 

 

2 – Estupro NÃO É sexo

Padrasto preso na Serra acusado de obrigar enteada a fazer sexo Folha Vitória - Google Chrome

Estupro não é sexo. Sexo é consensual. “Suavizar” este fato, substituindo estupro por “obrigou a fazer sexo” ou usar o mesmo termo de uma prática consensual, como sexo oral, é diminuir a gravidade do crime. Não é sexo para a vítima. 

 

oito anos

cinco anos

Estupro não é sexo. Sexo oral implica consentimento das duas partes – e meninas de 8 anos e 5 anos, segundo a lei, são incapazes de consentir. Logo, é estupro. 

relação sexual

Ainda que nessa notícia o acusado esteja negando o crime, em nenhum momento a vítima acusou-o de manter relação sexual com ela, mas de tê-la estuprado. Ou seja: é impossível negar uma relação sexual, mas sim um estupro. Usar o termo do acusado é dar à sua versão mais validade que a da vítima – sendo que o crime que está sendo investigado é o de estupro.

Cinco homens são presos por pedofilia em Jacarezinho - Google Chrome

Relações sexuais entre homens e vítimas de 9 a 14 anos não são sexo: são estupros de vulneráveis.

Onda de ataques a mulheres tem assustado população em cidade no interior de Minas Gerais - Google Chrome

Forçar o pênis contra a boca de uma mulher já configura estupro. “Consumou o estupro” provavelmente refere-se à penetração vaginal, mas ainda que esta não tivesse acontecido, o crime já estaria consumado.

Bons exemplos:

Cuiabá garçom é condenado a 54 anos de prisão por estupro de vulnerável - Só Notícias - Google Chrome

ovem é vítima de estupro, cárcere privado e assalto em casa no ES - notícias em Espírito Santo - Google Chrome

Marido é condenado a 9 anos de prisão por estuprar a própria mulher - Notícias - Cotidiano - Google Chrome

 

 

3 – Não desmerecer a vítima

Vítima de estupro por 33 homens, garota tem vida exposta na internet - Jornal do Commercio - Google Chrome

Partindo-se do princípio de que um estupro é uma conjunção carnal involuntária, somente o criminoso pode ser responsabilizado pelo ato. Para proteger a vítima, deve-se abster da divulgação de informações sobre a sua vida pregressa, em geral expostas para desmerecer sua conduta e, de alguma forma, colocar sobre ela algum merecimento sobre o que aconteceu.

 

ABORDAGEM DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FEMINICÍDIO

50,3% dos homicídios de mulheres registrados em 2013 foram cometidos por familiares ou ex-parceiros – quatro em cada sete foram cometidos por pessoas que tiveram ou tinham um relacionamento afetivo com a vítima.

Nos dez primeiros meses de 2015, 86% dos relatos de violência obtidos pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, correspondiam a situações de violência doméstica e familiar contra as mulheres.

Tanto os feminicídios quanto as ocorrências de violência contra a mulher são crimes de gênero e assim devem ser tratados nas abordagens jornalísticas, com a sobriedade necessária e sem romantizar o fato.

 

1 – NÃO ROMANTIZAR OS AGRESSORES E O CRIME

Essa é a principal falha nas matérias jornalísticas que abordam tanto violência doméstica quanto feminicídios. Se por um lado as vítimas de estupro têm sua conduta posta à prova na busca machista por razões que a responsabilizariam pelo crime, agressores e assassinos de mulheres têm o seu passado revirado em busca de bons antecedentes que revelem sua violência como um traço de loucura. O fato é que sua notoriedade se dá pelo crime que cometeram. Por isso, é preciso ter cautela para não minimizar a gravidade dos seus atos.

 

Rodrigo de Pádua docinhos, timidez e os segredos de um caderno VEJA São Paulo - Google Chrome

 

Amor que mata - DM.com.br - Google Chrome

A Lei do Feminicídio existe justamente para mostrar que o assassinato de parceiras é um crime de gênero. Colocar o amor como o motivo de um assassinato é corroborar a mensagem de que essa violência é um fim esperado para esse sentimento. Agressões, ameaças, surras e assassinatos não são gestos de amor.

 

Por ciúmes, homem mata mulher e filho a facadas - Fotos - R7 Cidades - Google Chrome

Sugestão: Homem mata mulher e filho a facadas. Não são ciúmes: é o entendimento machista de que a mulher, sua vida e seu corpo, são de propriedade do homem.

 

2 – NÃO JULGAR AS VÍTIMAS POR SEU COMPORTAMENTO APÓS O CRIME

'Ela voltou na comunidade. Ainda ficou de safadeza', diz suspeito de envolvimento em estupro coletivo - Jornal O Globo - Google Ch

Amber Heard aparece sorridente ao lado de amiga após reunião com advogados  E! Online Brasil - Google Chrome

G1 - 'É armação', diz advogado de delegado suspeito de abusar da neta - notícias em Sorocaba e Jundiaí - Google Chrome

Não importa o que a vítima fez antes ou depois do crime. Se decidiu perdoar o agressor ou se quis ir à uma festa: nada disso anula o que ela sofreu. As mulheres que decidem denunciar a violência que sofreram são colocadas sob um holofote e todos os seus passos são acompanhados na busca de sinais que provem que a sua versão dos fatos é uma mentira. Mas não existe protocolo em relação ao comportamento de uma mulher após sofrer uma violência. A ideia de que ela obrigatoriamente deve agir de maneira triste ou deprimida é, mais uma vez, colocar o foco sobre ela, minimizar a violência sofrida e atenuar a gravidade da agressão.

 

BOAS PRÁTICAS

  • Não ter medo de usar a palavra estupro. Quando a especificação do abuso sexual for absolutamente necessária, utilizar os termos estupro anal, estupro oral e estupro vaginal, abolindo a associação dessas práticas com o sexo consensual via ânus, boca ou vagina. Jovem é estuprada em lote vago na Rua Tomaz de Aquino no bairro Caramuru - Patos Agora - A notícia no seu tempo - Google ChromeCaso o ato seja masturbatório, sempre ressaltar que o ato foi forçado, como no exemplo:
    Bill Cosby admite ter abusado sexualmente de duas adolescentes Viver Diario de Pernambuco - Google Chrome
  • Vale lembrar que o Brasil é signatário da OEA e acolheu em seu sistema jurídico a “Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher – Convenção de Belém”, a qual assume como estupro qualquer ato que cause dano. Em outras palavras, não apenas a conjunção carnal é considerada estupro, mas também o ato de enfiar objetos no ânus, na boca ou na vagina da vítima – o que, ainda que não seja previsto pelo Código Penal, também é considerado estupro por sermos signatários. No Reino Unido, o Sex Acts Offenses prevê esse tipo de violação desde 2013 (Obrigada pela informação, Ivy!).
  • Chame feminicídio pelo nome:
    Homem é preso em flagrante por estupro e tentativa de feminicídio em MS Midiamax - Google Chrome
  • Quando for cabível, divulgar, na matéria, informações de apoio à vitimas e parentes de vítimas de crimes correlatos (como, por exemplo, o Disque 180 da Lei Maria da Penha), para ajudar a disseminar a informação de onde e como buscar ajuda caso alguém se encontre em situação parecida.
  • Aproveitar o espaço para trazer mais informações sobre violência contra a mulher. Uma excelente fonte de informações e especialistas para comentar as notícias é o Dossiê Violência contra as Mulheres, da Agência Patrícia Galvão. Exemplo:G1 - Preso homem acusado de matar a companheira grávida, em Baião - notícias em Pará - Google Chrome

Arte: Jack Vettriano

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Durante a campanha #PrimeiroAssédio, em 2015, a baiana Sofia Costa contou sobre o abuso que sofreu em fevereiro daquele ano, durante o carnaval de Salvador, junto a uma amiga que estava alcoolizada e desacordada.

O agressor é um artista muito conhecido na região. Ele abriu contra Sofia um processo por calúnia e ela, por meio de uma transação penal, atualmente cumpre 7 horas semanais em serviços comunitários, somando um total de 40 horas. Seu abusador teve cobertura da mídia para defender-se das acusações. Sofia não. Confira o relato dela aqui: https://www.facebook.com/sofia.costa.52090/posts/1187383354605906?pnref=story

Sofia não é a primeira e, infelizmente, ainda não será a última mulher a encarar as dificuldades e a incredulidade com que vítimas de crimes sexuais são recebidas pela justiça e pela opinião pública:

– A universitária Júlia Velo foi ao Bar Quitandinha, em São Paulo, com uma amiga, dias antes do carnaval. Lá, foram assediadas e agredidas fisicamente por dois rapazes. A gerência nada fez para defedê-las, tratou os agressores super bem por serem clientes antigos e expulsou as duas garotas por causar confusão. Quando publicou seu depoimento no Facebook, a publicação viralizou e a página do bar recebeu uma enxurrada de críticas. A gerência tentou se desculpar, depois desmentiu, disse ser contra o assédio, mas começou uma campanha contra Júlia, chegando a subir um vídeo no YouTube, editado internamente, para acusá-la de ter inventado a história. Apesar do apoio que recebeu, Júlia também foi vítima de outros ataques, além da gerência do bar (que nunca procurou ouvi-la), de pessoas que não deram crédito à sua história.

– Há mais de 20 anos recaem sobre as costas do comediante Bill Cosby acusações de estupro, mas foi somente em 2014, quando Hannibal Buress citou seu passado criminoso em um show de stand up, que a conversa em torno do assunto ganhou força e, desde então, são mais de 50 as mulheres a acusá-lo do crime. Apesar disso, parte da opinião pública ainda duvida da palavra delas e Cosby está processando sete de suas acusadoras por difamação.

– Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la estuprado na infância. Ainda que, além de sua palavra, existam fortes evidências de que o abuso tenha acontecido, Woody Allen nunca foi condenado judicialmente e permanece um diretor aclamado pela opinião pública.

– Quando o vídeo de Janay Rice sendo nocauteada por seu marido, o jogador de futebol americano Ray Rice, em um elevador foi parar na mídia, ainda que um ato tão grave de violência tenha sido registrado de maneira indiscutível, ainda sobrou espaço para questionamentos sobre a atitude de Janay: por que ela ficou? Por que não se separa dele? Como se a culpa pelo soco fosse dela por não abandonar um relacionamento abusivo. Janay deu uma série de entrevistas explicando sua decisão e o caso gerou importantes discussões online por meio das hashtags #whyIstayed(#porqueeufiquei) e #whyIleft (#porqueEuParti), que jogaram luz sobre a complexidade de relacionamentos que se tornam violentos.

– O cantor Cee-Lo foi absolvido das acusações de ter aplicado o golpe “Boa noite Cinderela” em uma mulher que afirmou que lembrava ter ingerido a bebida e depois estar subitamente nua em sua cama. Autoridades não acreditaram na história dela porque eles já estavam saindo há alguns meses e feito sexo antes.

– O jogador de futebol americano Greg Hardy é um dos muitos a cometer violência contra mulheres. Ele deu uma surra na namorada, fez o que pôde para fazer com que parecesse legítima defesa, mas o caso foi encerrado desfavoravelmente a ele. Apesar disso, ele voltou a jogar e teve a oportunidade de dar uma entrevista à ESPN, um dos maiores canais de esporte do mundo, desmentindo o caso. Sua ex-namorada teve a vida destruída e não consegue arrumar um emprego.

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– Em 1991, o assédio sexual sofrido por Anita Hill em seu ambiente de trabalho por seu então chefe e atual candidato a juiz da suprema corte americana, Clarence Thomas, se tornou um dos principais assuntos do país. O depoimento e questionamento de Anita sobre o caso perante as autoridades foi televisionado, obrigando-a a recontar e reviver seu trauma em rede nacional e diante de seus familiares. Clarence negou as acusações, que se tornou um caso da palavra dela contra a dele, e conseguiu sua nomeação como juiz da Suprema Corte. Apesar dessa derrota para os apoiadores de Anita, seu caso colaborou para um aumento substancial de mulheres na política, já que as americanas perceberam como um congresso composto unicamente por homens tratava as mulheres; milhares de vítimas de assédio vieram à frente para denunciar seus casos e se tornou um marco no combate ao assédio sexual em ambientes de trabalho nos EUA.

– A cantora Kesha pediu a quebra de seu contrato com o produtor Dr. Luke acusando-o de abuso sexual, verbal, físico e emocional. Ela não apenas perdeu o processo como continua sob a obrigação de gravar mais seis álbuns com seu agressor. A juíza do caso ainda disse que “Nem todo estupro é um crime de ódio motivado pelo gênero”. ( E quais seriam???). A gravadora ofereceu a quebra de contrato posteriormente caso ela desmentisse as acusações. Ela se negou.

– Em uma das edições do programa Big Brother Brasil, um dos participantes estuprou uma mulher embriagada o suficiente para não ter condições de consentir. Ela foi interrogada por três horas, ele foi expulso do programa, mas a opinião pública condenou a moça.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 47.646 estupros foram registrados no Brasil em 2014, mas estima-se que apenas 10% dos casos sejam notificados. Ou seja, em média 450 mil mulheres preferem manter o silêncio sobre o crime que sofreram a procurar a justiça.

Não apenas as delegacias (incluindo muitas DEAMs http://lugardemulher.com.br/a-ineficiencia-da-delegacia-da-mulher-parte-i) estão despreparadas para reconhecer o crime e lidar com as vítimas, como o judiciário em si, em toda sua ineficiência, ajuda a prolongar a dor com processos enormes e por vezes inconclusivos.

Existe também o mito das falsas acusações de estupro, sendo que estatisticamente é mais fácil um homem ser estuprado do que ser vítima de uma acusação falsa. Além disso, uma vez que o caso é levado à justiça, cabe às autoridades uma investigação neutra sobre o caso e, caso a acusação seja mentirosa, medidas punitivas serão tomadas contra quem a fez. Quem não deve, não teme – ou, pelo menos, não deveria temer.

Em uma sociedade machista como a nossa, não existem benefícios diretos a uma mulher que se assume vítima de estupro. O bem que isso traz é para as mulheres como um todo. A cada Sofia que levanta sua voz e conta o que passou, muitas Anas, Robertas, Jéssicas, Sheilas e sabe-se lá quantas outras ouvintes saberão que essa dor não é só delas, que não estão sozinhas, que outras sobreviveram, que existe um caminho.

Pode ser que no caminho algumas derrotas sejam inevitáveis, mas o silêncio não nos protege. Oferecemos toda nossa solidariedade e carinho às vítimas que decidem não falar sobre o assunto – continuaremos lutando por elas. E agradecemos a todas que tomaram a decisão de lutar por justiça: obrigada por compartilhar a sua história para tornar o mundo um lugar mais seguro para todas nós.

#ChegadeFiuFiu #FoiEstuproSim#MexeuComUmaMexeuComTodas


Arte: Alex Fine

 

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Éramos poucas na esplanada, em breve seremos nenhuma. Um homem não apenas ocupará o lugar da primeira presidenta eleita no Brasil, como também exonerará as poucas ministras a liderar pastas no governo. Os novos ministros, chamados “Homens de Temer”, definitivamente não representam as mulheres brasileiras.

Para piorar, as Secretarias das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, já combalidas por terem sido amalgamadas, serão abarcadas por um certo Ministério da Justiça e da Cidadania – perdendo ainda mais espaço e poder.

Não há motivo para temer as mulheres. A equidade de gênero é uma tendência mundial. Segundo dados da ONU, o número de mulheres parlamentares praticamente dobrou nos últimos 10 anos – elas ainda representam apenas 22% dos parlamentares no mundo inteiro, mas o número segue aumentando rápido.

No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau não só apenas estabeleceu um número equivalente de homens e mulheres em seu gabinete, como abriu espaço também para negros, aborígenes pessoas com deficiência e outras minorias historicamente excluídas de espaços de poder. Nos EUA, a candidata Hillary Clinton já declarou que tomará medidas similares como promessa de campanha – ou seja, a presença igualitária de mulheres é tida como um aspecto positivo.

E é não apenas isso, mas uma aplicação de simples lógica: somos uma metade da população e parimos a outra metade. É impossível acreditar que não houvesse uma mulher capaz de assumir um ministério que fosse. Ainda que antes estivéssemos longe de uma situação ideal, havia espaço para algumas poucas de nós exercermos poder em áreas cruciais do governo. Hoje, nem isso.

Lamentamos o vexame, mas não seremos combatidas pelo machismo ou atropeladas pelo retrocesso. As mulheres ainda são o futuro da política brasileira e vamos mostrar nosso poder nas ruas, nas urnas, na luta.

Leia mais:

Ministério de Temer deve ser o primeiro sem mulheres desde Geisel


Arte: Shigeo Fukuda

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“A cor está para o Brasil como o gelo está para a população do Alasca.” – Hélio Santos.

As narrativas de pessoas negras não são as mesmas, mas possuem diversas semelhanças. Não seria diferente no quesito acadêmico e intelectual: crescemos acreditando que não sabemos nada, ou popularmente dizendo, que somos burros. Com essa percepção que baseia nosso intelecto como limitado, somos sabotados muitas vezes por nós mesmos ao acreditarmos que não somos intelectuais, inteligentes ou capazes o suficiente para sermos reconhecidos. Esse sentimento de “autossabotagem” nos espreita, essa sensação foi introjetada por nós negros, seja no inconsciente fruto da inferiorização racista seja na autoestima que se reflete na rotineira insegurança para certas atividades nas quais não costumamos nos ver, essa introjeção nos limita e nos frustra.

Na escola, alunos negros tendem a receber um tratamento diferente dos demais, um descaso velado. Isso já se dá pela seleção feita pelo racismo institucional que priva alunos negros de maioria pobre do acesso a uma educação de qualidade, essa que fica restrita as classes altas. O aluno negro está alheio às condições plenas de desenvolvimento, afastado dos meios que o tornariam qualificado e competitivo. Paralelo a isso o aluno negro mesmo em meios onde a maioria é negra, sofre com ofensas racistas dos coleguinhas, quanto mais escura sua pele e mais evidente são os traços “lidos” como negros, as agressões tendem a ser constantes e ferozes.

“O professor estava corrigindo as tarefas. Ele tinha terminado e falou que a gente podia conversar. A gente foi conversar e eu estava com o colega do lado. Ele chegou e cuspiu em mim”.

Esse é um relato de um jovem de 14 anos, sobre um caso que aconteceu em novembro de 2015. Provando que a violência sistêmica e estrutural que o racismo apresenta no Brasil reflete o ambiente das escolas, até mesmo por partes dos seus professores, inclusive, muitos isentam-se dos esforços na implementação da lei 10.639:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Eu sei que a vida dos professores em escolas públicas é difícil, a profissão é desvalorizada, exaustiva e mal remunerada, estudei nesses locais de estrutura precária minha vida toda até o ensino superior. Porém eu não vou negar que existe racismo por parte de alguns, dos alunos e da direção. Que essa lei não se implementa também por desinteresse e desconhecimento dos próprios agentes da educação sobre o que seria uma educação com foco racial, e quando isso é debatido em reuniões de professores, muitos partem para ignorância e racismo, julgando o contéudo como opcional, secundário e descartável. Já se passaram mais de 10 anos e não temos uma lei que vai impactar a vida principalmente dos alunos negros sendo implementada e efetivamente aplicada e esses alunos negros, portanto, continuam sendo a maioria nos números de baixo desempenho e consequente evasão escolar.

Estima-se que mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos não frequentam a sala de aula, segundo informações do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do UNICEF. O perfil dos adolescentes fora da escola no Brasil englobam em sua maioria adolescentes negros e pobres. Sendo assim, a evasão escolar é mais do que uma questão de classe social, ela envolve raça, a falta de discussões raciais, a distância da realidade dos jovens negros e frequentes violências geram o afastamento desde da vida escolar até a manutenção do lugar negro fora do ambiente acadêmico.

Mesmo quando criança eu já percebia que deveria me esforçar mais que os demais: seja sempre duas vezes melhor.

Meninas aprendem logo cedo que precisam ser melhores que meninos na escola, afinal eles sempre serão “os caras da matématica”, das exatas, do raciocínio lógico e rápido, mesmo que você seja a aluna que tenha passado mais vezes nas Olímpiadas de Matemática da sua escola. A mulher que se destaca em alguns campos acadêmicos não é tomada como exemplo a ser seguido pelas demais, mas como exceção, temos então um grande problema no quesito representatividade. Com o negro não é diferente, a complexidade da forma como o racismo agiu na nossa sociedade nesses quase 400 anos de escravidão, deixa muitas vezes passar que intelectuais como Luiz Gama sofreram o racismo que o impedia de estar como aluno numa sala de aula do Curso de Direito do Largo do São Francisco – hoje denominada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Gama, por conta do racismo era obrigado a escutar as aulas de fora da sala de aula, pois era impedido, por conta de sua cor, de compartilhar aquele ambiente com os demais alunos do seu curso.

A pergunta é: Quantos como Luiz Gama não ficaram da porta pra fora e nunca puderam exercer sua plena capacidade intelectual por isso? Nunca puderam estar [dentro] de forma legítima e presente usufruindo de todas as potencialidades daquele ambiente acadêmico. Não pode haver avaliação justa numa situação desigual em oportunidades e diferenciada em tratamentos.

Precisamos entender tais conceitos de gênero e raça que nos assolam durante os períodos da vida escolar, para compreender como se dá a narrativa da mulher negra no ensino acadêmico e porque os cursos superiores ainda contam com maioria branca. São duas opressões, que se realimentam e se somam criando uma situação onde não devemos ser duas vezes melhor – isso era ingenuidade minha quando criança: temos que ser quatro, dez, mil vezes melhores para possivelmente se destacar, já que nem isso é garantido. O sistema meritocrático que garante para alguns uma rápida ascensão profissional e salarial, não funciona para nós que nascemos negros. Eu fui ensinada a me exigir obsessivamente, pois as barreiras que enfrentaria eram maiores, da mesma forma que fui encorajada a esconder minha inteligência. Eu sofria literalmente por cada erro, provas com notas não tão altas, tarefas com resultado não tão positivo, eu me exigia a perfeição…

Eu não sou o símbolo que vem ao imaginário quando se pensa na boa educação e consequentemente não sou o modelo do que é ser intelectualizado. A permanência universitária se torna difícil não só pelas questões materiais, mas também pelo psicológico fragilizado pela destruição da autoestima de nós negros, não é à toa que desenvolvemos as chamadas crises de ansiedade. Quando se é colocado num ambiente onde as pessoas a sua volta não têm as mesmas preocupações, demandas, dilemas, obstáculos e dificuldades que você, a tendência é que o sujeito se cobre mais para estar no mesmo nível, mesmo que haja uma impossibilidade socio-instrumental desse parâmetro se equalizar. Pois o passado conta, a vida na escola pública pesa, a aula de inglês que não existiu é cobrada, aquela lacuna constante que fazia todo mundo ficar pelo menos uma vez por semana sem aula, a renda no limite, o intercâmbio que sua posição não forneceu, o mercado de trabalho pós cotas, Prouni/Fies é complicado para quem precisa pagar por cursos e especializações caríssimas para se tornar um profissional competitivo.

Então sim, temos alunos negros depressivos, mentalmente fragilizados, com síndrome do pânico e crises de ansiedade além de outras doenças e transtornos psicológicos graves que minam a vida social e reduzem a qualidade de vida do seu portador.

Isso é frescura? Alguns podem achar que sim. Mas me diga como podemos acreditar em nós, quando ninguém mais acredita? Quais os impactos disso sobre nossa mente?

Será que sou capaz? Será que mereço? Será que sou uma farsa?

“A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito.” – Conceição Evaristo.

No imaginário de jovens negros essas perguntas permeiam uma realidade autopunitiva. Algumas pessoas apontarão isso como mera falta de autoestima ou falta de vontade, eu vejo como consequências de um estado racista, que chegou a privar o negro do acesso à educação e ainda hoje faz isso de forma indireta, tanto que precisou de cotas para o nosso ingresso ser “simbólico”. A intelectualidade para o negro ainda é negada ou repleta de ressalvas, pois uma das alcunhas racistas sobre a definição dessa, é que ela é inerente ao ensino acadêmico, não que o branco venha exercendo a intelectualidade. No Brasil, cada vez mais, a pessoa vista como intelectual se mostra alienada ou despreparada para entender questões que envolvem raça, classe e gênero. O intelectual pode não ter o diploma, assim como o diplomado não é necessariamente o intelectual. O exercício da intelectualidade também requer uma nova visão sobre a universidade e como o ensino se mostra ainda retrógrado, elitizado e limitado.

A busca pela academia é uma busca de legitimação, por isso defender a importância do acesso acadêmico para negros no Brasil é também uma questão que envolve garantir a vivência da intelectualidade como algo pleno e fidedigno.

O que esconde esses nomes e suas produções intelectuais é o racismo. Não existe outra justificativa plausível, assim como muitos intelectuais negros para serem aceitos são primeiro embranquecidos. Os que falam diretamente sobre racismo são os que mais tendem a ser “escondidos” dos olhos de todos. Esses que acabam inclusive sendo só fonte de estudos para alunos negros que se mostram interessados em suas narrativas e produções.

 

Indicação de leitura:

http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/10/16465-50747-1-PB.pdf?5adc52

http://www.geledes.org.br/professores-sao-suspeitos-de-cuspir-em-aluno-e-de-racismo-em-escola/


Stephanie Ribeiro é militante do movimento feminista negro e estudante de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Arte: Manjit Thapp

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Passados 20 anos desde a realização em Beijing da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres da ONU, quanto o país avançou em relação à conquista dos direitos das mulheres em sua sociedade? As escalas megalômanas que costumam envolver a China se aplicam também ao universo das violações praticadas contra as mulheres. São altos os índices das agressões domésticas, rapto de jovens ou as taxas de suicídio feminino, uma das maiores do mundo.

Falando sobre morte, vida e estatísticas que envolvem o universo feminino, o anúncio recente sobre o fim da política do filho único, depois de quase quarenta anos de vigência da lei, deve ser celebrado. Mesmo quando o principal motivo por trás da decisão esteja relacionado ao rápido envelhecimento da população antes que o país tenha prosperado, e não necessariamente a vontade de mulheres e casais em relação ao número desejado de filhos. Mas o fato é que, a partir de agora, inúmeros casos traumáticos de abortos forçados já não terão mais razão de ser praticados, já que é possível ter o segundo filho. Melhor ainda, as bebês poderão ter suas vidas poupadas e assim o país caminha na tentativa de reverter o maior problema de desigualdade entre gêneros do mundo.

“Por muito tempo as mulheres enfrentaram sofrimentos terríveis em função da política do filho único e todas as consequências dela decorrentes. O governo chinês apenas se sensibilizou com os resultados negativos desta política quando as pesquisas começaram a apontar a terrível diferença entre os gêneros. O infanticídio feminino nunca foi motivo de preocupação para o governo, mas o fato dos homens não conseguirem encontrar mulheres para casar sim”, Wang Zheng, professora de estudos femininos na Universidade de Michigan.

Uma jornada de mil léguas começa com um simples passo, escreveu o famoso filósofo chinês Lao Zi. Restam outros tantos para que a jornada chinesa consiga equilibrar a bagagem das tradições paternalistas feudais e do código de conduta moral e ético milenar, o confucionismo, que organizam sua sociedade em direção a uma realidade de maior paridade.

O país de dois sistemas que há pouco mais de trinta anos se abriu ao mundo e para as influências ocidentais, criou uma classe de empreendedores que prosperou e enviou seus filhos e filhas para universidades, em especial nos EUA, deve aprender a lidar com o fato de terem formado mulheres independentes, de opinião que voltam para a China aptas a ocuparem espaços no mercado de trabalho e na própria sociedade anteriormente destinado exclusivamente aos homens. Exatamente em função deste conjunto de fatores elas são denominadas como “mulheres refugo”.

Não há homem chinês em toda a China que vislumbre se casar com uma mulher que eventualmente possa ter formação superior a dele, experiência pessoal ou profissional com mais destaque e maior salário, logo as mulheres com este perfil são rejeitadas, viram refugo. De acordo com a professora Wang Zheng, não importa o quão capaz uma mulher seja no subconsciente coletivo da sociedade chinesa nunca será boa o suficiente como um homem.

O matrimônio em geral acontece imediatamente após a graduação, ou seja casam-se muito jovens. Os homens que passam incólumes a esta fase, o fazem ligeiramente mais tarde e preferem o enlace com garotas da mesma idade ou mais novas, dotadas de atributos considerados inferiores, como ser de uma província rural, ocupar um posto de trabalho tido como medíocre, ter se graduado numa universidade privada ou não ter cursado qualquer uma que seja. Para que desta forma a família, que agora poderá ter dois filhos, possa ter início. Providenciarão o quadro a ser pendurado no quarto do casal com a foto dos dois trajando vestes da cerimônia, assim como vem sendo feito desde sabe-se lá qual dinastia. Ao homem paira uma institucionalização estabelecida desde sempre, sobre práticas esperadas e aceitas atribuídas ao sexo masculino. À mulher o status de ser meiga, 可爱- Kěài, a palavra é muito comum e usada para elogiar o estereótipo de mulher chinesa.

Uma mulher meiga sorri timidamente, faz gestos delicados e contidos, não fala muito nem pouco, se veste discretamente, tende a concordar ou se opõe de modo sutil. Uma criatura que não oferece surpresas nem riscos, uma fera domada que nem sequer um dia soube das potencialidades intrínsecas de sua natureza feminina, acostumou-se a ser yin, a passividade. Mas em matéria de China além dos números suntuosos há de se considerar a velocidade com que as transformações, especialmente as sociais, acontecem.

A nova militância das feministas chinesas (nova por voltar a se organizar depois de períodos políticos mais críticos como o da Revolução Cultural), em especial nas cidades de Beijing e Guangzhou, têm promovido questionamentos e ações visando esclarecer e libertar as mulheres de tamanha meiguice. Propõem reflexões por exemplo geradas a partir do texto Monólogos da Vagina, peça encenada pela primeira vez no país em 2009, levantando questões sobre a sexualidade e, mais do que isso, ao falar sobre a vagina, gerar a conscientização em relação ao próprio corpo, suas necessidades, vontades, desejos e regras. Para que a partir do conhecimento e da informação, os grandes índices anuais de aborto, por exemplo possam ser reduzidos. Para especialistas os 13 milhões de abortos praticados em média por ano no país, estes números podem ser ainda maiores considerando os casos realizados em clínicas clandestinas, ocorrem por falta de orientação sexual.

As meninas se organizaram em grupos de trabalhos, em coletivos e também no espaço virtual. Promoveram campanhas, ações, fizeram vídeos, foram entrevistar recrutadores nas empresas considerados machistas, reivindicaram paridade, lutaram pelo fim das violências domésticas praticadas contra as mulheres, pelo direito sobre seu corpo, pelo fim do assédio sexual… Ganharam espaço, notoriedade e começaram a incomodar, causar desconforto.

No dia 8 de março de 2015, após uma marcha realizada no centro de Beijing, foram presas. O caso das cinco jovens, ganhou tanto destaque na mídia internacional e tanta mobilização nas redes que por bem e depois da pressão internacional o governo decidiu soltá-las. Não antes da contradição ao qual o presidente chinês Xi Jinping foi submetido, em setembro daquele ano, durante visita oficial à Casa Branca. Apesar do seu discurso enfatizar a importância sobre a celebração dos vinte anos da Conferência Mundial das Mulheres em Beijing, uma das jovens chinesas militantes continuava presa.
A libertação não necessariamente significou o fim dos problemas, o cerco ao redor das meninas e suas ações passou a ser mais duro, vigiado. Entrou para a lista dos assuntos considerados sensíveis no país. Sensíveis, não meigos!

Li Tingting, uma das ativistas presas por planejar protestos na capital chinesa contra assédio sexual, relata a sensação de medo enfrentado no período que esteve em cárcere, das humilhações sofridas e da calma que aprendeu a desenvolver para manter sua sanidade. Ressalta, porém, que o medo maior surgiu quando foi solta, liberta, porque agora e para sempre não há mais amarras ou maneiras de detê-la, está em liberdade.

Outras pequenas revoluções cotidianas acontecem no aqui e acolá do território chinês, nem sempre planejadas, apenas deflagram. Sheryl Sandeberg, a executiva do Facebook, que o diga. O lançamento de seu livro “Faça Acontecer” na China culminou numa série de palestras, encontros e gerou um movimento de questionamento em relação as diferenças da remuneração e oportunidades entre homens e mulheres no mercado de trabalho no país, repercutindo em especial entre o público das “mulheres refugo”.

A história e as tradições milenares chinesas em contraste com o fato da população urbana do país ter superado a rural há pouco mais de cinco anos; a ascensão de uma classe média que dispõe de um alto poder aquisitivo que tem viajado o mundo todo, consumido e questionado o funcionamento de seu próprio país; a influência ocidental; os esforços imensos que o governo chinês vem concentrando em sua indústria cultural com o intuito de promover sua imagem e conquistar novos adeptos no mundo; tudo isso e uma série de outros elementos precisam ser considerados para poder entender a velocidade, o turbilhão e o potencial para que muitas mudanças aconteçam, e as que já estão em curso.

No caso da luta pelos direitos das mulheres, passados os vinte anos desde a Conferência os avanços não foram muito significativos, mas a recente dinâmica de luta dos coletivos atrelado ao trabalho que já vem sendo desenvolvido, ao foco das atenções e exigências voltados cada vez mais ao país que ocupa, se insere, desponta, participa, atua e dialoga para a construção de muitas das regras que estão sendo acordadas neste novo cenário da nova configuração de poder mundial me parecem propiciar elementos bastante positivos no que tange as lutas todas, e no caso a das feministas já começou. A luta contra o machismo tanto aqui como na China compartilham tolerância cada vez menor.

 


 

Fernanda Ramone morou nove anos em Beijing, é mestranda em gestão da indústria cultural pela Universidade de Beijing. Foi correspondente da BandNews Tv, trabalhou na Rádio Internacional da China e atua como empreendedora cultural. Idealizadora e organizadora do DocBrazil Festival. É professora na Casa do Saber e autora do capítulo ” A produção Cultural na China”, no Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, Edição Sesc SP.

Arte: Hung Liu

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Em uma dessas curiosas coincidências da vida, minha mãe me trouxe um balde de pipoca e um copo de refrigerante enquanto eu escrevia esse texto sobre cinema. A associação desse combo com a experiência de assistir filmes só não é maior que a do assédio com amor nos roteiros para a tela grande. Romance de verdade, de acordo com os filmes, tem muita perseguição, desrespeito à autonomia feminina e até pequenos crimes – tudo porque o verdadeiro amor nunca desiste. Será mesmo?

É importante frisar que me refiro majoritariamente aos filmes Hollywood por ser esta ser a indústria cinematográfica mais influente na cultura nacional, ocupando a maior parte das salas de cinema no Brasil, da programação da tevê fechada e dos catálogos virtuais que têm se tornado uma nova forma de consumo de produções audiovisuais, como NET NOW e Netflix.

Filmes americanos não são a única opção que existe, é verdade, mas pelo gigantismo de seus grandes estúdios, eles sufocam, dificultam e até inviabilizam a chegada de produções independentes em geral e de filmes nacionais e de outros países (especialmente os subdesenvolvidos) ao grande público. A exibição de filmes que estejam fora do eixo hollywoodiano é restrita a poucos títulos a ser encontrados na tevê paga e, quando chega aos cinemas, limita-se a poucas salas do circuito alternativo de grandes cidades, sem dublagem. Ou seja: por meios legais, são de difícil acesso à população em geral. Vale lembrar que os filmes brasileiros de maior orçamento e bilheteria nos últimos tempos têm seguido a cartilha de Hollywood.

Dito isso, o cinema mainstream americano, onipresente em nossos meios de comunicação, colabora – e muito – com a manutenção de estereótipos de gênero. A começar pela forma como os filmes são percebidos de acordo com a sua temática: filmes de guerra, ação, aventura e ficção científica são “de homem”, ao passo que dramas, romances e comédias românticas são “de mulher”. No caso da comédia, elas podem ter um público neutro, como e, por exemplo, o caso de O Mentiroso (1997) que, apesar de ter momentos bem machistas e uma história de amor envolvida, não é direcionado necessariamente a homens ou mulheres. Mas a comédia também pode ser dividida entre aquelas dirigidas ao público masculino, como Se Beber, Não Case! (2009), ou feminino, caso de Missão Madrinha de Casamento (2011) e praticamente todos os títulos classificados como comédias românticas.

E são as tais comédias românticas que mais recebem a pecha de “filmes de mulherzinha”, basicamente por trazerem alguns dos maiores clichês da expectativa social feminina. Ainda que mulheres sejam o público-alvo, o modo americano de fazer cinema é machista, heteronormativo, gordofóbico, capacitista e racista, resultando em roteiros que perpetuam noções limitadas sobre o que é ser uma mulher e o que elas esperam de relacionamentos amorosos.

Estrelados em sua maioria por mulheres brancas, magras e de cabelos lisos, esses filmes passam a impressão de que elas são as únicas dignas de receber amor. Sua beleza é valorizada a cada cena, em close ups e cenas que estão ali para apresentar suas características como objetos de desejo. São elas a receber as mais lindas declarações de amor dos maiores galãs do cinema interpretando os parceiros mais perfeitos possíveis dentro dos ideais do amor romântico, tudo com uma trilha sonora emocionante. Às negras, às gordas e às que de alguma forma são percebidas como menos atraentes restam os papéis de amiga, conselheira, alívio cômico ou até mesmo vilãs. A diversidade de cores e corpos femininos não é celebrada, pelo contrário: a presença de piadas e situações que ridicularizam mulheres gordas, por exemplo, são muito comuns.

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Simplesmente É Amor (2003)

Mas essa heroína-padrão-Hollywood não terá uma necessariamente vida fácil: é bem provável que o seu par, no mundo real, fosse um verdadeiro criminoso. Perseguições, assédio sexual, abusos, falta de respeito à vontade e à autonomia feminina, constrangimentos públicos e outros comportamentos desagradáveis ou até mesmo criminosos são retratados como grandes gestos de amor nas comédias românticas. A insistência masculina é extremamente valorizada e o convencimento da protagonista por aquele que fora inicialmente rejeitado é a espinha dorsal de alguns dos roteiros de maior sucesso do gênero.

Um Amor Para Recordar (2002), Mensagem Para Você (1998), 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999) e A Verdade Nua E Crua (2009) são alguns exemplos dessa vertente. Ainda que jogos de sedução sejam interessantes de assistir, esses filmes ajudam na criação da ideia nem sempre acertada de que “os opostos se atraem”, sendo que o lado masculino é, em geral, um rebelde, um sujeito agressivo e até mulherengo – um péssimo parceiro em potencial. Nesse caso, porém, a protagonista se torna a sua última conquista, aquela que, por ser tãããão especial, conseguiu amansar a fera… O tipo de ilusão que leva inúmeras mulheres a insistir em relacionamentos incompatíveis e a permanecer em relações abusivas no aguardo do final feliz dos filmes, do sossego do príncipe, algo que realisticamente pode até terminar em morte.

Parece exagero, mas não é. É nessa confusão entre gestos de amor e rejeição que comportamentos como o stalking, ou perseguição insistente, passam a ser entendidos como atos românticos. Um estudo realizado pela Universidade de Michigan apontou que a representação desse comportamento na mídia torna as mulheres mais tolerantes à insistência de um homem em persegui-las “romanticamente”. E vale tudo: decorar os horários da rotina da mulher e abordá-la sem aviso, invadir sua casa, deixar mil mensagens no seu telefone, importunar sua família e amigos, enviar centenas de rosas indesejadas. Para quem deseja a vitória sobre a presa a qualquer custo, vencer pelo cansaço é uma estratégia.

Em Quem Vai Ficar Com Mary (1998), a personagem de Cameron Diaz é disputada por quatro homens absolutamente obcecados por ela: um contrata um detetive para descobrir seu paradeiro e muda-se para a sua cidade em busca de uma nova chance, o detetive assume uma nova personalidade para conquista-la, um entregador de pizzas finge-se de amigo e médico para aproximar-se dela e seu ex-marido invade sua casa para roubar-lhe os sapatos.  No final, todos os atos são justificados pelo amor que eles sentem por Mary. Esses comportamentos, que se repetem em diversos outros filmes do gênero (Cinquenta Tons de Cinza, Crepúsculo, Amor à Toda Prova, Segundas Intenções), ajudam a tornar a perseguição até mesmo como algo desejável na mente de quem assiste, atando o ato a clichês como “Uau, se ele fez tudo isso, é porque a ama de verdade!” ou “Se o homem realmente gostar de você, vai fazer enormes sacrifícios!”.

Isso quando, é claro, o sacrifício não é exigido delas. Nem sempre com a intenção da conquista, muitas comédias românticas trazem mulheres que só passam a ser percebidas como atraentes após uma transformação completa. É claro que as atrizes já carregam em si todas as características percebidas como atraentes, mas começam o filme com o cabelo volumoso/frisado, usando óculos e aparelho nos dentes, usando roupas fora de moda e outros apetrechos absolutamente comuns que Hollywood ajuda a estigmatizar como feios.

Miss Simpatia (2000), Ela É Demais (1999), Nunca Fui Beijada (1999), Uma Linda Mulher (1990), O Diabo Veste Prada (2006): todos trazem melhoras significativas nas vidas de suas personagens após o alisamento de seus cabelos, o uso de roupas mais reveladoras e maquiagem e a obtenção de uma personalidade mais confiante a partir da adequação aos padrões estéticos vigentes na mídia. Não importa que antes elas fossem as mulheres que sempre quiseram ser, tendo chegado até ali pela trajetória que escolheram para si mesmas em busca da felicidade: algum evento no roteiro vai mostrar que a vida pode ser muito melhor com um pouco de batom, blush e um homem que admira tudo isso ao seu lado.

Hollywood também cumpre seu papel de retratar o amor de uma mulher em um sentimento mágico capaz de tornar a vida de um homem muito mais feliz. Conhecidas como Manic Pixie Dream Girls, existe uma vertente de mocinhas que surgem na vida de um cara já prontas, sem precisar mudar quem são, justamente por já possuírem um seu jeitinho meio doido e um estilo diferenciado que servirão para mostrar ao par romântico uma alegria e um jeito de viver que ele ainda não conhecia, mas que eram exatamente o que lhe faltava.

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Ainda que muitas dessas personagens sejam interessantes e admiradas por muitas mulheres, a sua função no roteiro está intimamente ligada à do homem e em como a sua presença afetará a vida dele. Limitadas e limitantes para mulheres em todo o mundo, as Manic Pixie Dream Girls são um produto de fantasias masculinas que dão a mulheres incríveis a única missão de consertar a vida de um sofrido protagonista masculino.

Não é nenhuma surpresa: ainda que o público-alvo desses filmes seja o feminino, assim como quase todas as indústrias do mundo a de cinema também é controlada por homens – e eles vão colocar nas telas as ideias que eles têm sobre o que as mulheres gostam, querem e pensam. O site Polygraph realizou uma interessante pesquisa baseada no Teste de Bechdel, aquele que só aprova obras de ficção nas quais personagens femininas (com nomes) dialoguem entre si sobre algo que não seja um homem, criado pela cartunista Alison Bechdel, e tornou-se um marco na análise da presença de mulheres no cinema, na televisão e na literatura. O teste tem suas falhas: o filme Legalmente Loira (2001) passa apenas porque em determinado momento Elle Woods e uma amiga falam sobre cachorros, já Gravidade (2013) é protagonizado por uma mulher astronauta e foi reprovado.

Mas, na verdade, o consenso geral é que ele serve apenas para apontar que esse mínimo esperado por mulheres em um filme é surpreendentemente difícil de alcançar. O estudo do Polygraph analisou os 200 filmes de maior bilheteria de 1995 a 2005 e chegou às seguintes conclusões:

– Dos filmes que só tinham roteiristas homens, 53% falharam no teste.

– Dos que contavam com ao menos uma mulher assinando o roteiro, o número caiu para 38%.

– Todos os que tiveram roteiros escritos somente por mulheres passaram no teste.

E, ao analisar todos os 4000 filmes, do mesmo período, presentes no site do teste, o estudo apontou que quando os tomadores de decisão são homens, os filmes têm mais chances de falhar: roteiristas (46%), produtores (43%) e diretores (41%). Os números vão caindo vertiginosamente conforme o número de mulheres envolvidas aumenta.

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Além disso, a proporção entre diretores homens e mulheres na última amostra era de 5:1 e os números não melhoraram com o passar do tempo. Em 1995, 37% dos filmes falharam no teste e 18% tinham mulheres em cargos de decisão. Em 2015, 38% dos filmes não passaram no teste e 17% do total tinham ao menos uma mulher como diretora, produtora ou roteirista.

O fato de que as chances de um filme passar no teste aumentam com a presença de mulheres por trás das câmeras é um indicativo nítido de que a qualidade das personagens femininas e a diversidade nas telas dependem diretamente da diversidade dentro dos estúdios e, principalmente, entre aqueles que decidem o que será produzido e como.

A dificuldade em tornar a indústria de cinema mais inclusiva está no fato de que, até que um filme chegue aos cinemas, desde o roteiro até sua versão final, ele precisa passar pela aprovação de um sem número de pessoas, tornando mais difícil localizar a origem do problema. Não se trata apenas do machismo de diretores, produtores e roteiristas, mas do fato de que são eles os preferidos dos executivos para ocupar esses cargos, de que são os seus filmes a receber recursos e do seu sucesso comprovado nas bilheterias, que lhes garante ainda mais prestígio, só ter sido possível porque, lá atrás, lhes fora concedidas oportunidades que uma mulher negra, ainda que com a mesma formação e capacidade, não teria. É nesse momento em que a visão e a perspectiva dela são apagadas e a deles permanece.

O diretor Spike Lee sugere que Hollywood encontre uma forma de adotar a Regra de Rooney, utilizada pela NFL (Liga Nacional de Futebol Americano, na sigla em inglês), que obriga a Liga a entrevistar minorias para cargos de técnico e gestores dos times. Ele aponta o fato de que não há negros entre as pessoas que decidem o que será produzido ou não.  “Mais do que ter uma pessoa não-branca à frente de um estúdio ou emissora, precisamos estar entre as pessoas que decidem o que será feito e o que não será. A cada mais ou menos quatro meses acontecem essas reuniões nas quais eles se sentam, olham para o orçamento, leem os roteiros, quem está envolvido, e dizem ‘vamos fazer esse filme, mas não vamos fazer aquele’. (…) Não existe uma pessoa não-branca que tenha direito a esse voto [para produções televisivas ou de cinema]”, afirmou ele em seu discurso de agradecimento ao Governors Awards em 2015.

Nos últimos anos, o feminismo e o empoderamento feminino ganharam força no mundo inteiro e Hollywood reagiu a isso com a chegada de “filmes para mulheres” escritos por mulheres que foram verdadeiros sucessos de público e crítica. A Escolha Perfeita (2012), Missão Madrinha de Casamento (2011), Descompensada (2015) e Irmãs (2016) são bons exemplos de histórias que escapam a muitos clichês e trazem protagonistas que, por uma razão ou outra, parecem menos fictícias que as mocinhas clássicas das comédias românticas.

Ainda assim, não é suficiente. Afinal, as protagonistas dos filmes citados, ainda que não sejam necessariamente musas, estão dentro dos padrões do cinema americano, bem como as roteiristas. E um dos romances mais esperados do ano é o filme Como Eu Era Antes de Você, cuja protagonista é uma manic pixie dream girl das mais clássicas:

É bom que a indústria cinematográfica mexa-se rápido para mudar esse cenário, pois já sente os efeitos da feroz concorrência daquela que se tornou sua principal rival: a televisão – ou seria a internet? Estamos vivendo a chamada nova Era de Ouro da televisão, com produções de séries que não devem em nada a filmes de Hollywood ou que, com orçamentos muito mais tímidos, capturam mais espectadores que boa parte dos blockbusters em cartaz. E a Netflix, uma das principais empresas a entrar com o pé na porta na disputa pela audiência, têm feito sucesso com uma fórmula simples: liberdade total de criação para sua diversificada equipe de criadores. Resultado: Master of None, Orange Is The New Black, Sense 8, Narcos – séries absolutamente idolatradas pelo público com negras, mulheres trans*, latinos e indianos entre os personagens principais.

Hollywood também precisa repensar de maneira urgente a percepção de filmes a partir do gênero, algo que tem muito mais sutil e até mesmo imperceptível no mundo das séries, por exemplo. Por mais que, obviamente, todos sejam livres para assistir ao filme que quiserem, essa ideia de “filme de homem” e “filme de mulher” colabora com a manutenção da distinção entre gêneros.

O fato de Star Wars: O Despertar da Força (2016) ter sido protagonizado por uma mulher e um negro foi muito positivo nesse sentido, bem como a presença de Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria (2015): lugar de mulher também é em filmes de ação. Comédias românticas deviam ser filmes para quem gosta de comédia e romance misturados, bem como trazer mais perspectivas masculinas e sexualmente diversas, não sendo taxadas apenas como “filmes pra mulher”. Porque mulheres são apenas pessoas e suas histórias devem ser contadas por elas mesmas e ouvidas por todos.

 


Arte: Sally Nixon e desconhecido

 

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Se você pudesse escolher uma época da história para viver agora, qual época escolheria?

Essa é uma pergunta bastante comum, um exercício de imaginação que nos faz sonhar com as festas glamurosas dos anos 1920 ou em Woodstock nos anos 1970. Mas, como mulheres, não gostaríamos de viver em nenhuma dessas épocas. O progresso da igualdade de direitos não tem uma história linear, a luta por direitos das mulheres avançou com vários retrocessos e os avanços acumulados até agora não valem para a maioria das mulheres do mundo, como aquelas que moram em periferia, em sua maioria negras, as indígenas, as trans ou as com alguma deficiência. Mesmo assim, há muito mais pontos favoráveis do que desfavoráveis hoje, comparando com o passado. E se as mulheres continuarem tomando as rédeas da história, o futuro tem tudo para ser melhor.

De onde vem a ideia de que mulheres são inferiores?

A ideia de que mulheres são inferiores aos homens existe há muito tempo, desde a Grécia Antiga. Para o filósofo Aristóteles, a mulher não era mais do que “um homem impotente”, já que não possuía racionalidade, segundo ele. Muitos outros filósofos acreditavam na inferioridade das mulheres, mas um dos mais importantes para o período moderno foi Descartes. No século XVII, ele ajudou a criar uma nova concepção de conhecimento, como algo construído através de métodos. Descartes enfatizou o uso da razão em detrimento da emoção e criou a noção cartesiana de separação entre corpo e mente. Com essa separação, as mulheres foram relegadas a tudo ligado a emoções, como intuição e impulsividade, enquanto os homens eram considerados os detentores da razão, “naturalmente” menos emotivos e mais racionais. E exclusão da razão significou exclusão do poder. É uma história construída por homens, afinal de contas. A partir do século XVIII, com o romantismo, poderia se esperar que as qualidades consideradas femininas pudessem ser valorizadas e as mulheres então poderiam ganhar prestígio, mas não, já que o ocorrido foi a valorização do amor romântico, isto é, os homens continuam sendo os detentores da razão, mas em busca do seu “oposto” (a mulher, a emoção) para completar sua existência. A rejeição à razão do romantismo do século XIX fortaleceu ainda mais a dicotomia entre razão e emoção, o que torna muito difícil entender o que é racionalidade até hoje.

Pode parecer um papo muito filosófico, mas essas ideias tão antigas continuam fortes e afetam diretamente a vida das mulheres, que são vistas como mais frágeis ou mais emotivas que os homens por vários motivos, um dos principais deles a questão dos hormônios femininos, como se os homens não tivessem hormônios também ou não fossem abalados por eles de maneira alguma. O chamado “viés inconsciente”, isto é, as noções pré-concebidas que temos das pessoas nas nossas mentes e que nem percebemos, é considerado um dos grandes fatores para, por exemplo, o número tão baixo de mulheres em cargos de chefia em empresas. Apesar de o estudo da organização Catalyst ter provado que empresas com mais mulheres nos conselhos diretores têm uma performance melhor do que as que não tem e que o retorno de capital investido em empresas com forte representação feminina é 26% maior, no Brasil elas representam 6% dos executivos em conselhos diretores de empresas. Em algumas áreas a situação pode ser mais crítica, como na tecnologia, na qual o salário médio das mulheres no setor de Tecnologia da Informação é 34% menor do que o dos homens e, quando elas alcançam cargos de chefia, ganham 65% a menos que seus colegas. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres no mercado de trabalho são, em média, mais educadas, experientes e produtivas que seus colegas do sexo masculino, mas ainda ganham menos. Mesmo na Islândia, país número um em rankings internacionais de combate à desigualdade de gênero, há uma diferença 20% entre os salários de homens e mulheres e elas ainda ocupam menos cargos políticos que eles.

Sheryl Sandberg, COO do Facebook, diz no seu livro “Faça Acontecer” que um dos motivos para essa diferença são os estereótipos de gênero que são introduzidos na infância e reforçados nas nossas vidas, tornando-se “profecias que se cumprem sozinhas”. Por exemplo, um homem que dá ordens é visto como assertivo, enquanto uma mulher é vista como mandona. É muito comum ouvir comentários como “está de TPM?” quando uma mulher critica ou discorda de um homem. Esse tipo de comportamento mina a autoconfiança de uma mulher, e como autoconfiança é um fator decisivo na ascensão profissional, os efeitos são enunciados nos números das pesquisas citadas acima. Entre os problemas apontados por mulheres para falta de confiança no mercado de trabalho estão a falta de modelos de mulheres bem-sucedidas dentro de empresas, pequenos atos de discriminação no cotidiano, sentir-se julgada por decisões pessoais e ser avaliada por critérios diferentes do que os usados com os colegas do sexo masculino.

Ainda assim, há avanços. Por exemplo, uma pesquisa feita apela Conaje (Confederação Nacional de Jovens Empresários) mostra que o empreendedorismo feminino cresceu 21,4% na última década e, em 2013, 39% dos negócios brasileiros eram impulsionados ou geridos por mulheres. Nos últimos 10 anos, o salário das brasileiros aumentou em 13%, enquanto o dos homens aumentou em 4%. Elas ainda ganham menos que eles, mas a diferença é menor: o salário delas em 2000 equivalia a 67% do deles, e em 2010 esse valor subiu para 73%. Ou seja, a realidade enfrentada por mulheres avança a passos lentos.

Mulheres abraçam o futuro

Nós acreditamos que um fator importante para um futuro melhor para as mulheres é a representatividade. Durante boa parte da história, as mulheres realizaram grandes feitos, mas não foram reconhecidas. Ou, como diz a escritora Virginia Woolf, “durante a maior parte da história, anônimo foi uma mulher”. Quando falamos em tecnologia, química e física automaticamente pensamos em engenheiros, químicos e físicos, todos homens. Mas as mulheres sempre estiveram nessas áreas. Quem inventou o primeiro computador foi uma mulher (Ada Lovelace), quem desenvolveu a teoria da radioatividade foi uma mulher (Marie Curie), quem criou a fórmula correta da energia cinética “de Newton” foi uma mulher (Émilie du Châtelet) e quem descobriu a hélice dupla do DNA também foi uma, Rosalind Franklin. Está mais do que na hora de reconhecer os créditos das mulheres.

Por isso, em março, a equipe do Think Olga foi ao South by Southwest, um dos maiores festivais de tecnologia e tendência do mundo, registrar como mulheres inovando e abraçando um futuro melhor. Encontramos mulheres incríveis com projetos em diferentes áreas e vamos apresentar os trabalhos delas a vocês em uma série de vídeos no nosso canal no YouTube, TV Olga. A seguir, nosso teaser mostra o que aprontamos. E, ao longo das semanas, vamos divulgar um total de oito vídeos.

Conheça as entrevistadas:

Tracy Chou, engenheira de software do Pinterest, exigiu que as empresas de tecnologia liberassem os números sobre mulheres engenheiras em seus quadros de funcionárias e se tornou uma advogada da inclusão de mulheres na área.

Outra é Alana Nichols, uma atleta paralímpica americana que superou uma fratura na espinha com medalhas de ouro.

 

Shireen Mitchell é uma empreendedora, consultora de redes sociais e ativista da inclusão de mulheres negras na tecnologia e do combate à violência online contra mulheres, tendo criado a primeira empresa de gestão de multimídia online de mulheres negras e a organização Digital Sistas, a primeira a focar na capacitação digital de meninas negras.

 

Debi

Uma delas é Debi Jackson, mãe de uma menina trans de 8 anos e criadora de uma organização para auxiliar famílias e instituições a entender e apoiar crianças trans.

Lisen

Depois de uma carreira bem-sucedida de 20 anos em marketing e estratégia de negócios, Lisen Stromberg decidiu criar uma consultoria de estratégia para alavancar a carreira de outras mulheres e mudar os números das empresas sobre mulheres em cargos de liderança.

 

Lara

Lara-Ann de Wet é uma documentarista sul-africana que tenta ganhar um lugar ao sol na indústria de filmes em Nova York e  ficou conhecida com o premiado documentário “Alive and Kicking: The Soccer Grannies of South Africa”, sobre senhoras que usam o futebol para superar adversidades de suas vidas na África do Sul.

Fatima

Fatima Maan participa dos movimentos Black Lives Matter e Million March Texas, a respeito da brutalidade policial contra negros nos Estados Unidos, estuda direito e dá discursos motivacionais para meninas em serviços de proteção a crianças e adolescentes em risco.

 

Meredith

Meredith Walker recebeu vários prêmios como produtora e chegou a ser chefe do departamento de talentos do Saturday Night Life, até que decidiu largar tudo para fundar, junto com sua melhor amiga, a atriz e comediante Amy Poehler, a Amy Poehler’s Smart Girls, uma comunidade que encoraja meninas a serem elas mesmas através de workshops e treinamentos.

São apenas alguns exemplos de como as mulheres estão mudando o futuro, claro. Mas divulgar o trabalho delas é uma maneira de reconhecê-las e encorajar outras mulheres e meninas a tomar as rédeas da mudança. Vamos moldar o futuro juntas?

Um imenso obrigada a três mulheres transformadoras pelo apoio neste projeto: Nayara Ruiz, Danielle Pinheiro e Giovanna Cartapatti. Agradecemos também ao parceiro Bradesco por nos ajudar a impulsionar cada vez mais o protagonismo feminino. #ElasAbraçam

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Empoderamento feminino é uma expressão que, felizmente, está na moda. Virou buzzword, termo inglês que se refere a essas palavras que vira e mexe começam a aparecer em todo lugar. Para nós, aqui na OLGA, o empoderamento das mulheres é muito mais que um desejo ou um conceito, mas uma meta. Hoje somos uma ONG e nosso objetivo é empoderar as mulheres de todas as formas possíveis: em sua relação com seus corpos, seus relacionamentos, sua vida profissional, sua liberdade e seu bolso.

É por isso que anunciamos hoje mais uma parceria que vai levar mulheres de verdade a tirar seus sonhos do papel e vê-los se concretizar. O Mulheres de Impacto é uma consultoria e ativação de rede para projetos de empoderamento feminino e uma iniciativa da Benfeitoria, um site de financiamento coletivo social que nasceu para fomentar uma cultura mais humana, colaborativa e realizadora no Brasil, da Think Olga e da ONU Mulheres.

Como funciona?

Estamos em busca de mulheres com projetos de financiamento coletivo que sejam ferramentas de empoderamento feminino (pessoal ou coletivo) e que resultem em um impacto em sua vida e/ou comunidade.  Vamos receber propostas por meio do site www.benfeitoria.com/canal/mulheresdeimpacto até o dia 6 de maio.

Depois, os projetos selecionados receberão a consultoria especial da Benfeitoria para a elaboração e o acompanhamento da sua campanha de arrecadação via financiamento coletivo (crowdfunding) e nós, responsáveis pelo projeto, vamos  ajudar com divulgação nas nossas redes. A Think Olga também vai oferecer consultoria com foco em negócios e inovação para os projetos que alcançarem suas metas.

Critérios de seleção

Os projetos:

1 – Devem ser liderados por mulheres

2 – Ser ferramentas de empoderamento feminino (pessoal ou coletivo)

3 – Resultar em um impacto na vida da mulher ou da comunidade

4 – Ter uma boa história por trás

5 – Ser implementados em qualquer cidade do Brasil

6 – Ter potencial de arrecadação via crowdfunding (meta compatível com rede)

7 – Ser realizados por mulheres que tenham disponibilidade, energia e brilho no olho para preparar e mobilizar a campanha de arrecadação, que deve ser lançada entre julho e agosto deste ano, com duração de 1 a 3 meses.

8 – Ser implementados até o 1º trimestre de 2017

Vamos nessa? Mais informações e inscrições aqui: https://www.benfeitoria.com/canal/mulheresdeimpacto


Arte: Jenny Zych

 

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Esses dias eu descobri uma dessas novas dietas-desafio. Eu sou nutricionista, e perdão tribunal do mundo… Eu não conhecia essa. Era uma proposta de alimentação muito restritiva e que me parece insustentável de seguir pelo resto da vida. É um programa de mudança radical na alimentação que promete um organismo limpo, livre de “inflamação” e toxinas. Vocês podem buscar. Não vou explicar em minúcias porque não estou aqui para promover o programa alimentar “clean” dos outros.

Isso me fez pensar em algumas coisas. Uma delas é o quanto se fala em “saúde” atualmente. Eu diria que a Era da aeróbica, das fitas VHS da Jane Fonda, das refeições congeladas diet, chás e shakes de emagrecimento está ficando para trás num passado nebuloso.

Nas últimas décadas do século XX, o sofrimento primordial de milhões de mulheres era manter-se magra. Mas valia tudo. Cigarro, Coca Diet, “boletas” para emagrecer, volumes ridículos de comida. Atualmente, não vale tudo. Somos a “geração saúde” e nunca soubemos tanto sobre nutrição, dietas, alimentos que “fazem mal”, são “venenos” e deixam a população irremediavelmente doente por causa do seu amplo consumo. Nunca falou-se TANTO em alimentação saudável, no entanto, nunca tivemos números tão expressivos de obesidade ao redor do globo. Irônico.

Enfim… Ser magra é out. Esbanjar saúde é in.

Ocorreu a troca do “ser macérrima” por “ter saúde”, mas isso não significa que não exista oportunismo mercadológico fazendo lavagem cerebral nas pessoas. Antes bastava fazer aeróbica e comer refeições “diet” (e vomitar, tomar anfetaminas, fumar 4 carteiras de cigarro por dia… mas disso a gente não fala). Atualmente existe um tremendo terrorismo nutricional, alegações de que determinados grupos de alimentos são “inflamatórios”, causam câncer, causam todos os males da humanidade… Fujam.

Substâncias e práticas que supostamente limpam e curam o organismo estão sendo proclamadas como SAUDÁVEIS, como a dieta cetogênica (“paleo”), produtos DETOX, papos estranhos holísticos e jejuns. Se anteriormente tínhamos um forte encorajamento do desenvolvimento da anorexia/bulimia, neste começo de século fomos “presenteados” com mais dois novos tipos de transtornos: ortorexia e vigorexia.

Ortorexia é uma obsessão por “comer certo”. Comer “limpo”. É um transtorno alimentar que se relaciona pouco com a imagem corporal, mas é um dos mais torturantes e estressantes que existem. Não chega a ser hipocondria, mas é uma extravagância preventiva. A pessoa tem uma lista quilométrica de alimentos ‘proibidos’, lê rótulos obsessivamente, perde a vida social e fica com severa deficiência de nutrientes. A vigorexia cresce em ritmo recorde porque as pessoas estão confundindo “ter saúde” com ter baixo índice de gordura corporal.

Mas a gordura corporal não é uma inimiga. Ela está presente no nosso corpo, faz parte da nossa fisiologia e existe por diversos motivos (a gordura protege o corpo contra choques mecânicos, regula a temperatura corporal, é veículo de absorção das vitaminas A, D, E e K. E recentemente descobriu-se que o tecido adiposo tem funções endócrinas específicas e que até participa da regulação da fome e da saciedade.)

A indústria das DIETAS (kits, comidas congeladas, chás, shakes) deu lugar à Indústria Fitness e dos alimentos “””saudáveis””””… A coisa toda foi repaginada, mas seguimos sendo explorados por uma indústria que simplesmente se adaptou para nos vender um novo discurso: quem come “certo” é um vencedor e tem sucesso. Quem não se controla e “jaca” (como se diz no Brasil) é um derrotado, que não tem vergonha na cara. Ser gordo? Reprovação social plena!

Mas até que ponto essas práticas ‘saudáveis’ são verdadeiramente saudáveis? Alimentação e atividade física compõem uma vida sadia, é evidente. Mas não é SÓ isso. Será que estamos verdadeiramente vivendo de maneira saudável se seguirmos todas as regras higienistas da manutenção do corpo, mas submetidos a um imenso estresse mental?

Almoçar arroz integral, uma carne magra grelhada (ou uma substituição se você for vegetariano), salada e um copo d’água é uma opção saudável. Comer bolo floresta negra e brigadeiro em uma festa de aniversário TAMBÉM é saudável. O brigadeiro não é FUNCIONAL nem utilitário. No entanto, é afetivamente, mentalmente, socialmente e culturalmente saudável que as duas realidades se permeiem. A gente come de tudo um pouco. É normal.

Um tremendo esforço para manter uma alimentação SAUDÁVEL, mesmo que seja saudável, não é saudável. Da mesma maneira que nós não aceitamos mais a dieta dos pontos, as normas dos Vigilantes do Peso e os kits de shakes emagrecedores, chás e refeições ‘light’ congeladas… Nós também não aceitamos um referencial de beleza estupidamente magro. Acabaram-se os dias do “Heroin Chic”.

O advento da internet tem forte papel nessa mudança de mentalidade. Atualmente temos mídias alternativas (Blogs, Sites, canais no Youtube) que transmitem mensagens que não são veiculadas pelos meios de comunicação da mídia tradicional.

A mulher passou a perceber que ela não precisa emagrecer para frequentar a praia. Emagrecer para casar. Emagrecer porque é o seu dever existencial (porque mulheres devem ser bonitas, portanto magras).

Começou o movimento de aceitação. Porque tudo o que é muito represado, eventualmente extravasa. Porque quanto maior é a altura, maior é a queda. E se frequentamos as nossas aulas de história direitinho, já sabemos que todos os Impérios eventualmente acabam. Nós NÃO ENGOLIMOS mais a magreza surreal que nos foi socada goela abaixo ao longo de décadas.

Ok, mas e o homem? Ele nunca precisou se preocupar muito com isso porque ele é imagem e semelhança de Deus. É até bonito que ele fique grisalho, careca, barrigudinho… “quanto mais antiga a safra, melhor o vinho”, certo?

Entretanto,as coisas estão ficando apertadas para eles também. A febre fitness demanda corpos cada vez mais definidos, grandes, musculosos… E para sustentar as demonstrações corporais de potência e virilidade, MUITOS suplementos precisam ser consumidos e MUITO ferro precisa ser puxado. Foco. Força. Fé. E o seu dinheiro aplicado em potes cintilantes de Whey Protein.

~~Apenas uma curiosidade:

Quando o leite é entregue à indústria de laticínios, ele é aproveitado de diversas maneiras: leite integral, semidesnatado, desnatado. Manteiga, ricota, iogurte, creme de leite. TUDO é devidamente extraído e transformado para ser comercializado. Anteriormente, havia uma coisa que sobrava: o SORO do leite. E ele era sumariamente descartado. Eis a sacada de Midas: mas por que não LUCRAR com o descarte? Basta começar a vender a proteína isolada do soro do leite alegando ser o alimento mais completo do mundo. Tcha-nã: você comprou o lixo da indústria por quatrocentos reais.~~

Só que a situação não é TÃO ruim para os homens, já que eles podem conquistar aceitabilidade social e status através de dinheiro, poder, bens materiais, altas posições no mundo corporativo, intelectualidade… Há mais chances de ser reconhecido, certo?

Já as mulheres SÓ têm a beleza como moeda de valor. Então a manutenção dos atributos físicos é uma prática fundamental. É questão de sobrevivência e, com o movimento de aceitação, os limites da denifição de “beleza” se tornaram um pouco mais amplos. Um pouco. O ideal de beleza se encontra, de fato, um pouco menos restrito

Nós clamamos para que aceitassem os nossos diferentes corpos, pesos, alturas, cores, cabelos… E as indústrias da moda, dos cosméticos, da estética, da vida Fitness cederam… mas também não permitem que a coisa vá TÃO longe.

Temos top models Plus Size? Sim, nós temos! Mas é um corpo Plus Size “tolerável”. A gorda aceitável veste 44. Ou 46 (o que é muito avanço, se fizermos um comparativo com a ditadura do 34/36). A gorda aceitável também tem cintura fina. Bem fina. Ela é CAUCASIANA. Ela tem corpo de ampulheta e All the right junk in all the right places (Meghan Trainor – “All About That Bass”). E é primordial que a gorda aceitável declare, sempre, que ela é tonificada, come “certo” e faz bastante atividade física.

Aí que o tsunami da SAÚDE mescla com a (relativa) democratização dos corpos: “Nós permitimos que você não vista 36. Mas você não pode ser uma maldita gorda sedentária e sem vergonha. Porque nós temos uma genuína, grande, sincera preocupação com a sua SAÚDE… Então compre nossas marmitas fit, nossas receitas com Whey, nossos sucos detox, nosso programa de dieta Paleo, nossa linha sem glúten, nossos pudins 0% lactose!”

Nós não somos a geração saúde. Nós não estamos cultivando o bem estar. Nós não temos corpos livres. Nós não somos livres… Tudo isso é apenas uma NOVA maneira de mercantilizar a nossa vida. É preciso estar atentas para as novas armadilhas e lutar por uma liberdade que em nada nos limite.


Paola Altheia é nutricionista formada pela UFPR e criadora do projeto Não Sou Exposição.

Arte: Kelly Bastow, aka Moosekleenex

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