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Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

olga voce acha que ouvir cantada é algo legal

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

olga voce deixou de fazer algo com medo de assedio

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

olga voce ja trocou de roupa por medo de assedio

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

olga voce responde ao assedio

Se sim, como?

SeSim

Se não, por quê?

SeNao (1)

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

olga voce ja ouviu alguma dessas cantadas

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

olga cantada no trabalho

Que tipo de cantada você já ouviu no ambiente de trabalho?

trabalho

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

olga voce ja foi assediada na balada

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

olga ja tentaram te agarrar na balada

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

olga corpo agarrar na balada

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

olga ja passaram a mao em voce

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

olga ja passaram a mao onde

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

olga voce ja foi xingada porque disse nao as cantadas

Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

olga xingamentos

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.
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olga estupro 2

olga estupro 2

A presidente Dilma Rousseff aprovou ontem (1º de agosto), sem qualquer veto, a lei que obriga os hospitais do SUS a prestar atendimento às vítimas de violência sexual. O que isso significa? A mulher violentada terá acesso a tratamento que combina auxílio psicológico, coleta de material para a realização do exame de HIV e medicação – entre eles, a pílula do dia seguinte, que deve ser tomada em até 72 horas.

Uma grande conquista para as mulheres, mas motivo de lamentação da Bancada Evangélica da Câmara. Liderados por Marcos Infeliciano, os deputados acreditavam que o trecho da lei que dizia que os hospitais devem prestar serviço de “profilaxia da gravidez” era pura apologia ao aborto. Despreparados que são, não sabem que as vítimas de estupro JÁ têm o direito de interromper a gravidez e o procedimento é garantido pelo SUS.

Precisamos falar de estupro, porque é desconcertante constatar que esses senhores, protegidos por suas religiões, não sabem o que é essa violência e continuam a perpetuar mitos sobre o assunto. Dia 28 de julho, o Padre Joãozinho escreveu no Twitter que estupro era relativo. “Onde está a definição de estupro?”, disse. AQUI, seu Padre, veja se está bom para você:

Art. 213.  Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
§ 1o  Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2o  Se da conduta resulta morte: Pena – reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.”

Ontem, magoado com a sanção presidencial da lei que garante atendimento às mulheres violentadas, Infeliciano entulhou seu Twitter com desinformações. O deputado, por exemplo, não acredita que exista sexo sem consentimento dentro do casamento. Pois extra, extra: estupro acontece dentro de casa sim!!! E muitas mulheres podem nem saber ou entender a violência a que estão sendo submetidas, pois políticos como ele disseminam ignorâncias como essa. Estupro – infelizmente – pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, inclusive homens. O governo e a sociedade, que não foram capazes de consertar a raiz do problema, são responsáveis por, no mínimo, remediar as consequências.

Depois que lançamos a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual, recebi diversos depoimentos de mulheres que foram intimidadas nas ruas. Um deles contava uma história que foi além do terrível “ô, gostosa”. A Bruna relatou, em um e-mail dolorido de ler, o estupro que sofreu aos 19 anos. Reproduzo aqui:


Eu morei a minha vida toda em cidade grande. Nunca tinha sido sequer assaltada. Quando, aos 19 anos de idade, eu mudei pra uma cidade pequena pra estudar, eu acreditei piamente no que todos diziam: “aqui não tem crime! Não acontece nada! Pode andar sossegada, bixete, que a taxa de criminalidade é zero!”. Por isso, quando faltou dinheiro pro táxi e eu estava muito cansada pra esperar uma carona, eu não hesitei e resolvi voltar a pé de uma festa. Afinal, cidade pequena de interior… Não há problema algum nisso! Todo mundo faz!

Esse foi o maior erro da minha vida. 

Quando eu estava a dois quarteirões da minha casa, um homem com uma arma se aproximou. Ele estava com o rosto coberto com um pano e só seus olhos apareciam. Ele queria dinheiro e eu não tinha. Na bolsa, uma nota de R$ 2, uma máquina fotográfica e um celular. Eu ofereci, mas ele recusou. Ele queria outra coisa. Ele disse que tinha visto minha calcinha. Fez com que eu ficasse de costas pra ele, olhando para o muro de uma casa. Subiu meu vestido e disse que ia gozar e que depois iria embora.

Eu rezei tanto, mas Deus não me ouviu. Eu queria mais que tudo que um policial passasse ali, que alguém acordasse e fosse na rua. Eu queria morrer. Eu queria tanto que ele me matasse com aquela arma, atirasse e eu jamais teria de suportar aquela dor. Eu pensava nos meus pais e na dor que eles sentiriam caso eu fosse assassinada. Pensava que minha irmã… Mas eu queria morrer!

Não pude reagir porque não queria causar esse sofrimento a minha família. Mas eu rezava pra morrer, já que aquilo estava acontecendo e não ia parar! Esse foi o momento que eu percebi o quanto eu os amo e faria qualquer coisa por eles. Porque se eu achasse que eles superariam isso, eu teria reagido, corrido, morrido.

Nada no mundo vale aquilo, nada! A saúde mental deles pela minha foi a “troca” que eu fiz! Por que Deus não me ouviu? Por quê? Pra quem é ateu ou não-religioso, isso pode não ter importância! Pra mim, teve toda importância do mundo! Eu sempre fui religiosa e eu briguei com Deus nessa hora! Rompi com Ele, na verdade. Hoje, estamos retomando nosso relacionamento, mas não acredito em um mundo sem injustiças mais! Porque eu fui injustiçada! Eu me senti abandona por Deus!

Quando ele “terminou”, ele disse que a culpa era minha, que ele só queria dinheiro, mas que eu era muito gostosa, que ele não resistiu. Ele disse que eu tinha de perdoar ele e apontou a arma na minha cabeça e disse que se eu não dissesse que eu perdoava ele, ele me mataria. Então eu disse “Eu te perdôo!” e fui embora…

Há 7 anos eu tenho um transtorno psiquiátrico que se chama Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Esta é uma condição na qual a pessoa que sofreu um trauma – no meu caso, o estupro – revive aquele momento sempre. Acordo a noite aos prantos sonhando com o momento, com aquele homem nojento. Parece que ouço ele gemendo às custas do meu corpo frágil e impotente contra aquela arma. Sinto o cheiro do suor e de álcool que ele exalava. Sinto o frio da arma na minha cabeça me paralisando.

Tem uma parte de mim que ainda me culpa, que diz que eu não deveria estar naquele lugar, naquela hora, com aquela roupa. Porque o machismo é tão forte que ele comanda a vítima! Mas hoje eu vejo que o único culpado foi ele! Ele que reproduziu esse modelo pronto e estúpido de machismo. Ele não questionou o que ensinaram pra ele! Ele nunca elaborou um pensamento quanto a isso. Ele que me viu como um pedaço de carne e não como uma mulher, que tem sonhos, vontades e desejos! Ele é um criminoso e eu sou a vítima! Isso pode parecer óbvio, mas não é assim que as pessoas em geral vêem.

Eu – infelizmente – não tive a coragem necessária para procurar uma delegacia e me submeter a um exame de corpo de delito. Eu só queria tomar banho e esquecer que tudo aquilo tinha acontecido! A verdade é que se eu pudesse, eu voltaria atrás e não andaria naquele lugar com aquela roupa. Mas a verdade maior ainda é que nós deveríamos poder andar como quisermos e termos segurança pra isso!

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olga aborto

olga aborto

Claudia Salgado, 28 anos, gerente de varejo, fala de forma corajosa sobre a ilegalidade do aborto e suas consequências absurdas. Um viés humano e sincero nesse momento em que se debate o projeto de lei do nascituro


Minha mãe tinha 18 anos na época em que foi estuprada. Ela não foi a única que sofreu este tipo de violência na família: tenho uma tia que também foi humilhada e estuprada por mais de um homem, mas não teve frutos disso, a não ser o trauma e a vida quebrada.

Somos de uma cidade muito pequena no interior de Santa Catarina. Ela havia saído com minha tia para dançar em uma matinê e, quando voltou para casa, sofreu agressão física muito brutal do avô, que era militar e muito rigído com regras e com relação às filhas saírem de casa. A família era muito grande – eram 5 filhas no total – e havia muita preocupação com relação as filhas ficarem mal faladas.

Estou abrindo isso para mostrar como ignorância só gera ignorância. Meu avô não é má pessoa, mas ele era alcoólatra e muito severo com as meninas.

Minha mãe ficou desesperada depois da surra que tomou e decidiu fugir de casa com minha tia. As duas estavam muito machucadas e vulneráveis e se sentaram desoladas nas escadarias da Catedral no centro da cidade, onde estes dois homens se aproximaram de forma amigável e ofereceram amparo. Elas inocentemente aceitaram e foram passar a noite na casa deles, onde haviam mais homens. Foi quando toda a violência física ocorreu. Minha tia era mais forte e conseguiu fugir, mas minha mãe não conseguiu e foi violentada por mais de um homem. Somos tão parecidas fisicamente que ela mesmo lamenta o fato de nem sequer saber qual deles é meu pai.

Naquela época as coisas não eram bem explicadas – em sua maioria, eram omitidas. Minha mãe não contou a ninguém o ocorrido, pois, além da vergonha, ela ainda se sentia mortificada de medo de que não acreditassem nela. Ela era tão inocente que nem sabia que estava grávida, nem foi atrás de justiça, apenas se fechou. E quando a barriga ficou impossível de disfarçar, ela não pôde mais negar e outra vez passou por mais humilhação. Teve que sair de casa às pressas, pois meu avô queria matá-la. Eu não acho que, para ela, seguir a gravidez foi uma escolha, ela não entendia o que estava acontecendo e só teve essa opção.

Essa história afetou minha vida e a relação com a minha mãe por muitas razões. Ela não tinha a menor estrutura emocional de ter um filho sob aquelas condições e naquela idade. E eu nunca me senti desejada. Minha infância ficou quebrada e minha vida, incompleta. Só soube dessa história quando tinha 11 anos. Até então, ela dizia que meu pai havia morrido num acidente enquanto ela estava grávida, o que eu sempre achei estranho, pois nunca havia visto uma foto ou algum registro de que ele realmente existira.

olga claudia

Minha infância ficou incompleta porque me faltou a figura paterna, minha mãe era instável emocionalmente, me senti enganada e não consegui assimilar quando ela me contou a minha origem. Me sentia humilhada quando via minhas amigas com seus pais num lar ajustado.

Sentia raiva da minha mãe porque ela me teve sem ter me desejado, embora existisse o respeito por saber que ela nunca deixou nada me faltar e sempre fez o possível para que eu crescesse com dignidade, tivesse uma boa educação e nada me faltasse.

Sempre tive o sentimento de que ela se importava comigo, mas não me amava… E até hoje tenho este sentimento, mas hoje é mais compreensível porque, com o tempo, adquiri maturidade para entender o quanto isso foi danoso e o quanto deve ter sido difícil para ela ter que conviver com o fantasma de um ato bárbaro. É muito difícil lidar com a dor da rejeição, ela nos deixa realmente miseráveis… E mesmo que você tente se agarrar a seu orgulho, esbravejar que está tudo bem e ser indiferente a situação, não tem como: aquilo está ali, é a realidade da sua vida e você precisa aceitar.

Acho que nesse caso é visível que a ignorância gerou tudo isso. Se ela tivesse mais abertura em casa e direito de expressão, mais compreensão da parte dos pais, nada disso teria acontecido.

Não sei se cabe dizer que ela poderia ter escolhido interromper a gravidez, pois acredito que ela nem se quer sabia que isso era possível naquela altura. E também sei que no fundo ela não se arrependeu, porque não fui uma filha ruim e nunca dei trabalho ou fiz algo que pudesse fazer com que ela se arrependesse de eu ter nascido. Pelo contrário, minha chegada na família foi recebida com muito amor, inclusive meu avô aceitou e foi um pai para mim. Quem me criou foram meus avós, minha mãe teve mais um papel de provedora, pois sempre trabalhou muito para garantir que nada me faltasse.
Acho apenas que ela deveria ter se empenhado mais em achar estes bandidos, mas, ao mesmo tempo, acredito que ela estava muito fragilizada naquele momento e não tinha condições de lutar por nada além da nossa sobrevivência. E devo confessar que sou uma pessoa de sorte, pois não tive um pré-natal e nasci muito saudável.

O projeto de lei do nascituro

Acho esse projeto de lei um grande equívoco. Acredito que as mulheres deveriam ter suporte financeiro e emocional do governo para tomarem a decisão que melhor fosse conveniente a elas, especialmente num caso de estupro, em que deveria ser totalmente amparada e ter o direito de escolha de continuar ou interromper a gravidez. Não se trata apenas de receber uma esmola do governo, vai muito além disso…  

A favor do aborto

Por ser fruto de um estupro, me sinto até mesmo no direito moral de ser a favor do aborto. Eu sei o quanto foi horrível e quantas vezes desejei não ter nascido, pois acredito que a vida da minha mãe teria sido muito melhor se isso não tivesse acontecido. Ela teria tido mais tempo para concluir os estudos, fazer coisas que uma jovem da idade dela faria se não tivesse um filho nos braços. Ela não teria passado pela dor da reprovação, pela humilhação que passou e teria muito mais chance de ter formado uma família e ter um lar ajustado. Demorou muitos anos até que ela conseguisse (eu já era adolescente quando ela conheceu uma pessoa, com qual ela já está há 12 anos e tem outra filha). Ela também acabou de se formar em Direito, aos 47 anos de idade. Acho muito mais digno interromper uma gravidez indesejada do que colocar uma criança no mundo para sofrer e passar necessidades.

Eu fiquei extremamente sequelada, e não sinto a menor vontade de ser mãe. Não acredito que poderei ser boa o suficiente. Me sinto extremamente insegura e tenho muita resistência ao assunto. Sempre digo que só terei um filho se algum dia estiver em uma relação estável com alguém que queira muito, que me passe essa segurança.

O que podemos fazer

Eu acho que falta promover a igualdade, no sentido de que nós, mulheres, tenhamos autonomia sobre nossos próprios corpos e que possamos decidir por nós mesmas como ter um filho afetará nossas vidas e a da criança inocente. Sem interferência de religião, a mulher necessita ter esse direito e centros de apoio moral e psicológico. Vamos supor que homens pudessem engravidar, vocês acham que o aborto já não estaria legalizado?

Leis como essa são criadas, pois vivemos num mundo cheio de pessoas ignorantes e incapazes de pensar no dano que um estupro causa à história de uma pessoa.

Devemos promover discussões saudáveis e positivas sobre o assunto em um aspecto geral, derrubar dogmas e aumentar a consciência de um assunto que é importante na vida de muitas pessoas. Trabalhar com comunidades locais oferecendo suporte psicológico, oferecer uma plataforma neutra onde a mulher tenha espaço, sem ser julgada, e analisar realisticamente os prós e contras da gravidez. E que a mulher possa fazer sua própria decisão.

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olga golden boy

olga golden boy

“Por que você não lutou mais?, diz meu cérebro.
Doía muito, eu respondo. 
Sim. E por que você não lutou mais?
Eu não sei. Isso vai soar loucura, mas… Senti como se fosse um direito dele.” 

No recém-lançado Golden BoyAbigail Tarttelin conta a história de Max, o garoto de ouro da sua cidade. Bonito, atlético, inteligente e gentil, o adolescente guarda um segredo. Ele nasceu intersexual, condição em que a pessoa apresenta genitália ambígua. Aos 16 anos, no entanto, um amigo de infância que sabe a verdade trai sua confiança e o estupra. “A partir daí, Max percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção feminina da intimidação sexual”, diz.

Durante a jornada de Max, a escritora britânica de 25 anos faz um debate profundo e delicado sobre gêneros e como eles moldam nossa visão de mundo – assuntos que também permearam nosso bate-papo. Abby ainda falou sobre assédio nas ruas, a falta de liberdade com que as mulheres têm que lidar diariamente e a “ditadura do pênis”.

olga abby

Golden Boy conta a história complexa e dolorida de um adolescente intersexual. Por que decidiu falar sobre um tema tão delicado?

Fiquei mais consciente da intersexualidade e da dificuldade de viver em um corpo sem gênero em um mundo comprometido com a divisão binária de sexos depois de ver o filme argentino XXY, em 2009. Dois anos depois,  li o The Women’s Room, de Marilyn French, durante um verão em Camden [bairro londrino] e me peguei pensando sobre as suposições e expectativas que temos de todas as pessoas – mulheres, homens, transexuais – por causa de seus gêneros.

Um dia, acordei e escrevi um e-mail para mim mesma com uma cena em que Max e Danny [o personagem principal e seu irmão] conversam sobre ter filhos. Rapidamente, a história se formou em minha mente. Conforme pesquisava sobre intersexualidade, percebi que era um tema importante, principalmente no que diz respeito à perda de autonomia das crianças cujos médicos e pais decidem que a cirurgia de redesignação sexual é a solução para seu “problema”.

O livro é bastante informativo, com detalhes sobre a intersexualidade, explicações sobre a condição, cirurgias e outros procedimentos médicos. Como foi seu processo de pesquisa? 

Tive o cuidado de pesquisar o aspecto médico da situação de Max e os tratamentos indicados no Reino Unido naquele momento. As informações foram difíceis de encontrar: elas são muito conflitantes, já que os procedimentos mudaram dramaticamente ao longo dos últimos 15 anos e o apoio à intersexualidade ainda é um movimento em crescimento. No entanto, para o personagem Max, quis ter o mesmo método de construção de identidade que o dos outros personagens, independentemente do gênero, pois não é nosso sexo ou nossos corpos que nos fazem humanos ou passíveis de empatia.

Você disse que, ao escrever Golden Boy, descobriu blogueiros, alguns adolescentes, que estão bravamente subvertendo as velhas ideias de identidade de gênero. Como isso influenciou seu livro? 

Foi a partir da coragem dessas pessoas inspiradoras que tive uma certeza: esse tipo de romance e personagens heroicos são necessários na literatura convencional.

olga golden boy livro

Simone de Beauvoir disse que “não se nasce mulher, torna-se”. Você concorda? E como isso se aplicaria a Max? 

Pelas minhas experiências, acho que essa frase é verdadeira. Uma das realizações percepções que eu tinha antes de escrever Golden Boy é que eu não acreditava – e ainda não acredito – que os sexos são muito diferentes ao nascer. São nossas vivências no mundo, principalmente aquelas que temos enquanto crescemos, as responsáveis por moldar nossa identidade de gênero. 

Particularmente, os anos de intimidação sexual e passividade forçada, devido a normas sociais e anatomia, que as mulheres vivem é uma experiência completamente diferente da de um homem.  A partir dessa leitura, Max não pode ser descrito como uma mulher “feita”, “moldada”. Mas quando ele é violado por um estupro que resulta em uma gravidez indesejada, ele percebe que seu corpo também tem capacidades femininas. E eu pensei que essa seria uma maneira eficaz de apresentar a percepção femina da intimidação sexual. A compreensão de que seu corpo é pequeno (se comparado a de um homem) e que ela é incapaz de penetrar e de controlar a fertilidade, muda sua visão de mundo

Você fala sobre como os gêneros moldam nossas personalidades e nossas maneiras de ver o mundo. Uma das perguntas que você se faz, em seu site, é: “no geral, mulheres são menores e mais fracas fisicamente do que os homens. Será que convivendo anos com essa vulnerabilidade nos fez mais cautelosas?”. Você tem uma resposta para isso? 

Fiz essa pergunta já sabendo a resposta porque percebi que minhas amigas era mais cuidadosas do que meus amigos. Por exemplo, tenho um grande amigo que fez um passeio, sozinho, com um nativo do Panamá que carregava um facão de mato, em meio à floresta para fotografar espécies raras de sapos. Parece uma aventura maravilhosa, mas se eu tivesse feito exatamente a mesma coisa, soaria como a decisão mais estúpida que alguém poderia tomar. É com essa falta de liberdade que mulheres têm de lidar diariamente- um fator que muda nossas vidas conforme nos tornamos adultas.

Você, que cresceu em uma cidade pequena da Inglaterra, conta que só foi experienciar assédio nas ruas quando se mudou para Londres. Essas situações de intimidação influenciaram sua personalidade de alguma forma?

Essa é, com certeza, uma das maiores influências na construção de Golden Boy. Quando me mudei para Londres, vinda de uma pequena cidade, vivenciei tanta intimidação sexual nas ruas que fiquei deprimida e não queria sair de casa. Saber que os homens podiam me tratar daquele jeito sem que eu desse qualquer tipo de permissão foi minha primeira experiência com esse tipo de agressão e isso me destruiu. No entanto, eu não compreendia direito esses sentimentos até ler The Women’s Room, já um pouco mais velha. Foi aí que eu entendi que a desigualdade de gêneros não se tratava apenas de leis ou grandes movimentos sociais, mas também de ofensas do dia-a-dia que geram tristeza, raiva e vergonha.

Max, um intersexual que vive como menino, vive um estupro, gravidez não-planejada e aborto – problemas que preocupam as mulheres assim que têm a primeira menstruação. Mas como você acha que a jornada de Max vai ressoar aos ouvidos dos homens? 

Minha expectativa era a de que os homens que lessem o livro tirassem algum insight da história de Max. E fico contente em saber que aqueles que leram o livro, gostaram da história e compreendem as questões ali propostas.

Em entrevista à Interview Magazine, você conta que, ao ser abordada por um menino de 12 que disse “eu quero te comer, moça”, teve uma luz e entendeu do que se tratava a “ditadura do pênis”. Conte um pouco.  

Foi um momento decisivo para a minha compreensão do assédio sexual e da cultura do estupro. Simplesmente porque esse rapazinho tem o equipamento para me intimidar, ele se sente no direito de fazê-lo. E eu entendi que o contrário, responder algo como “não, eu que vou te comer!”, não funciona, pois eu não tenho como! Acho que essa pequena diferença na anatomia humana é a maior e mais importante diferença entre homens e mulheres. Mulheres ganham esse papel de vítima passiva por conta do seu próprio corpo e, os homens, o papel ativo. Claro que não tenho a resposta para essa charada ainda, mas sinto que isso é algo que só pode ser resolvido fazendo escolhas como animais civilizados que vão ampliar a natureza das relações entre nós.

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