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Lola Aronovich sob ataques de machistas
SXSW cancela painel sobre violência contra a mulher no mundo dos games após receber ameaças com as quais as vítimas já estão mais que acostumadas, e volta atrás somente após perder patrocínios e ameaças de boicote
Maria Júlia Coutinho e Taís Araújo são vítimas de ataques racistas
– O perfil da Stephanie Ribeiro foi derrubado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook
 Também no Facebook, as páginas da Jout Jout e Feminismo Sem Demagogia estão fora do ar…

Mas é tarde demais para nos calar! 

A violência contra mulheres na internet atingiu um novo auge nos últimos tempos. Talvez como resposta aos avanços cada vez mais rápidos do feminismo em diversos espaços e do incômodo que a sua presença e fortalecimento causam.

Em menos de uma semana, a hashtag ‪#‎primeiroassedio‬ foi replicada 82 mil vezes em resposta à comentários machistas e pedófilos. A violência contra a mulher foi tema no principal exame de acesso à universidade no país. O Google (!) compartilhou o vídeo da Jout Jout sobre a cultura do estupro.

A frase “machistas não passarão” nunca fez tanto sentindo quanto agora: campanhas publicitárias, músicas e outros produtos midiáticos que desrespeitam as mulheres são rapidamente rechaçados (leia-se “Esqueci o não em casa” da Skol, Homens Risqué, chamar cólicas menstruais de mimimi, aquela música “Vou jogar na internet” etc).

Na internet (e fora dela), temos força, temos voz, mas também temos inimigos da nossa liberdade. Há anos a Lola recebe ameaças e é perseguida por sua militância na internet. Os haters divulgam seu endereço residencial, ligam para sua casa, a ameaçam de morte, querem destruir sua vida e reputação – e essa briga já foi parar na justiça diversas vezes. Tudo porque ela é mulher e tem uma opinião.

‪#‎ForçaLola‬! Estamos com você e NÃO VAMOS NOS CALAR diante do que está acontecendo. Sabemos que medidas legais já foram tomadas, registramos aqui nosso repúdio aos ataques e aproveitamos para divulgar seu único endereço na web mais uma vez:http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br

Se você também está sendo vítima de ataques virtuais, confira nosso FAQ sobre o que fazer quando isso acontece.

“Estou irritada porque esperam que eu aceite assédio virtual como preço por ser uma mulher de opinião” – Anita Sarkeesian, diretora executiva do Feminist Frequency e uma das principais vozes contra a violência online contra mulheres no mundo.

Nós também, Anita, nós também. Mas prometemos solenemente NUNCA compactuar com isso.


 

Arte: NVM Illustration

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A última semana foi uma das mais intensas do ano para nós do Think Olga. Lançamos a hashtag #primeiroassedio para saber das mulheres quando foi a primeira vez que foram abordadas sexualmente. A iniciativa foi uma resposta ao imenso número de mensagens de teor pedófilo que circularam no Twitter durante a estreia do programa Masterchef Júnior, na Band. Uma das meninas tornou-se alvo de homens que não se intimidaram em manifestar publicamente seu desejo sexual por uma criança.

 

Durante os dois anos de existência da Chega de Fiu Fiu, nossa campanha contra o assédio em locais públicos, e por experiência pessoal, sabemos que infelizmente o que estava acontecendo no Twitter e chamando atenção pelo absurdo nada mais eram que registros reunidos a refletir um comportamento familiar a muitas mulheres. O assédio começa na vida de uma mulher no momento em que algum homem decide que ela já tem idade suficiente para ver seu pênis, ouvir palavras sujas ou coisa pior. Para algumas, tão cedo quanto aos cinco anos de idade.

 

Outro evento recente que diz respeito às mulheres é a aprovação do Projeto de Lei 5069/13 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. De autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o próximo passo é a votação em Plenário da Câmara. O projeto de lei visa dificultar o acesso a métodos abortivos mesmo quando a profilaxia da gestação é permitida por lei, como em casos de estupro.

 

Para tal, segundo o texto do projeto, será negada às vítimas atendimento básico em casas de saúde logo após uma violência sexual. O ato deve ser violento o suficiente para causar danos físicos e psicológicos – a ser comprovados via exame de corpo de delito, em uma delegacia. Com o laudo que comprove o estupro em mãos, só então a pessoa poderá procurar auxílio em uma emergência hospitalar.

 

Tudo isso está superficialmente explicado em um texto aberto a interpretações e subjetividades que, em todos os níveis, prejudicam somente as mulheres. No Brasil, o acessoao aborto é limitado aos casos nos quais há risco de vida para a mulher causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro ou se o feto for anencefálico. Nas três circunstâncias, a mulher é vitima de fatores externos, mas em um deles ela ainda será obrigada a encontrar forças se quiser ter acesso aos procedimentos necessários para sua própria saúde. Antes de cuidar de si, a mulher deve cuidar de provar para o estado que foi vítima de um crime – uma tarefa que definitivamente não é fácil quando se conhece a realidade burocrática, fria e machista das delegacias brasileiras, inclusive as da mulher. Caso ela não consiga, será impedida de ter acesso ao kit estupro (medicamentos que incluem a pílula do dia seguinte e salvaguardam a vida da mulher após essa violência), correndo risco não apenas de gerar um bebê indesejado, mas também de contrair todo tipo de doença sexualmente transmissível.

 

O PL também se esforça para manter mulheres na escuridão. Segundo ele, estarão sujeitos à penas de reclusão os profissionais de saúde que ajudarem mulheres a abortar sem a comprovação obtida em uma delegacia e, se a vítima for menor de 18 anos, o tempo de cadeia é maior ainda. Além disso, o “anúncio de meio abortivo” também seria criminalizado para dificultar a educação das mulheres em relação a direitos reprodutivos.

 

Para entender o quanto esse projeto está descolado da realidade, basta olhar para os números. No Brasil, uma pessoa é estuprada a cada 10 minutos e mais da metade das vezes é apenas uma criança. Ter acesso ao aborto garantido por lei quando uma gravidez proveniente desse crime acontece já é difícil por si só. Em suma, as maiores prejudicadas por esse PL são meninas pobres e definitivamente nenhuma mulher sai ganhando. Seu maior beneficiário talvez seja o estuprador, que seguirá impune (e livre para fazer piadas sobre pedofilia na internet), ancorado por leis que afastam as vítimas da denúncia.

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O fato de todos esses absurdos terem meramente sido aprovados pela CCJ já constituem uma derrota na luta pelos direitos das mulheres, mas ainda não perdemos a guerra. No Brasil inteiro, mulheres estão se mobilizando para que o projeto não seja aprovado no Plenário. É possível assinar a petição online contra o projeto, participar dos atos que vão acontecer em São Paulo e entrar em contato com nossos deputados federais para colocar pressão e demonstrar que as mulheres repudiam esse PL.

 

Tomar iniciativa é apenas fazer valer direitos que já conquistamos. É triste perceber que a discussão sobre direitos reprodutivos no Brasil e o direito sobre os nossos próprios corpos ainda esteja tão atrasada e correndo risco de retroceder, mas não será desistindo de nos fazer ouvir que essa realidade mudará. Essa é uma lei que não faz qualquer sentido e não tem espaço na realidade atual do país que temos hoje e muito menos na do país que queremos um dia ser. Querem nos desinformar, nos intimidar e nos fazer pagar com nossas próprias vidas pelo crime dos outros. Temos 5069 razões para lutar contra essa lei e pelas nossas vidas – e a primeira delas é a nossa paixão pela liberdade.


Arte: Leah Reena Goren

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O OLGA Mentoring: Escola de Líderes surgiu do desejo de ajudar mulheres a ir além em suas ideias de negócios. O empreendedorismo é uma importante ferramenta para a diminuição da desigualdade de gênero, seja pelo fato de que nesse modelo a mulher é dona do próprio negócio e, assim,  pode eliminar o problema de discriminação dentro da empresa, quanto pelo aumento feminino no número de empresários do país.

Para as mulheres, empreender no Brasil ainda é desafiador: embora estejam à frente de 43% dos negócios, somente 0,2% delas são sócias ou proprietárias de empresas de grande porte, segundo dados de pesquisa divulgada  pelo Experian este ano.

Isso se dá não apenas pela segregação de gênero institucionalizada a que são submetidas no mundo corporativo, permeada por muitos preconceitos inconscientes ou não. A ausência de mulheres nestes cargos também acontece por um traço cultural de muitas empreendedoras brasileiras: o desejo de empreender em busca de qualidade de vida, e não por ganhos financeiros – uma reação direta das mulheres a modelos de negócio despreparados para as particularidades de funcionárias do sexo feminino.

Sendo assim, boa parte das empreendedoras brasileiras preferem abrir pequenos negócios para conciliar vida pessoal e profissional, ficar mais perto de casa, da família, fugir do mundo corporativo e conquistar um novo ganha-pão, mas hesitam na hora de expandir os negócios. Ainda segundo a pesquisa, 73% dos micro ou pequenos empreendimentos são comandados por mulheres, sendo que o número sobre para 98% quando somadas as Micro Empreendedoras Individuais (MEI). Pesa também sobre elas a exclusão sistemática das mulheres à informações sobre negócios, recursos financeiros e uma rede de apoio que as dê suporte para ir adiante.

 

O que é a Escola?

Criado com o objetivo de ajudar mulheres a seguir o caminho do empreendedorismo, o OLGA Mentoring Escola de Líderes tem sua primeira edição em São Paulo com turma de oito alunas com diferentes histórias de vida. Mães, avós, jovens cheias de ideias, elas foram selecionadas entre as mais de 300 candidatas que mostraram interesse pelo curso.

As aulas e workshops abordam temas variados e essenciais para quem deseja dar os primeiros passos no mundo do empreendedorismo: como montar um plano de negócios, noções de marketing, como vender sua ideia, finanças, tendências, etc. São nove encontros presenciais realizados no Aldeia Lisboa Espaço Coletivo.

A Escola é liderada por Nana Lima, publicitária formada pela FAAP com MBA pela ESADE Business School, de Barcelona,  especialização em  Comunicação e Marketing de Moda pelo Istituto Europeo di Design (IED) e experiência em agências de publicidade e na área de marketing de grandes empresas, ela atualmente é empreendedora e sócia da Think Eva, consultoria de negócios para marcas que desejam uma comunicação mais eficiente com o público feminino.

“As mulheres não arriscam tanto ou arriscam menos que os homens porque porque não têm as ferramentas e conhecem menos o conteúdo de negócios. Daí veio a ideia: por que nós não fornecemos isso a elas? E aí juntamos também o desejo de fornecer mentoria e criar uma rede de apoio”, explica Nana. Mais que um local de aprendizado, o OLGA Mentoring busca ser um espaço no qual as participantes possam falar abertamente sobre suas ideias, receber feedbacks construtivos e contar com a experiência de quem já possui mais tempo de mercado – além de aumentar a base de contatos dessas mulheres.

Joana Gabriela Mendes é uma das alunas da primeira turma. “Eu acho a iniciativa ótima. Me inscrevi porque estou cheia de projetos e nem sei como torná-los viáveis. A dificuldade que eu vejo é que é difícil alguém pra te dar a mão e te ajudar,  sabe? E o medo também. De não dar certo, de como fazer e com quem”, afirma. “A seleção de meninas foi incrível, elas são super interessadas e cada uma vem com uma ideia de negócio dentro da sua própria realidade, de seus próprios valores, que estão se encaixando muito bem e estamos aprendendo muito umas com as outras”, elogia Nana.

A primeira edição atraiu interessadas do Brasil inteiro e a vontade de levar a Escola de Líderes para outras regiões do Brasil é enorme. “Nós da Olga também estamos aprendendo muito sobre o formato e descobrindo como podemos empoderar as mulheres por meio desse tipo de iniciativa. Não vejo a hora de descobrirmos, a partir dessa primeira edição, formas expandir o projeto para que possamos absorver mais mulheres e levar o OLGA Mentoring para em outros estados do Brasil além do sudeste”, sonha a líder do projeto.


Arte: Leah Reena Goren

 

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A primeira edição dos Jogos Olímpicos que deu origem ao que conhecemos hoje data do ano de 1896, mas sua história começou bem antes, na Grécia, em 776 a.C. Ao longo do tempo, a participação das mulheres na competição teve períodos conturbados: ainda na Antiguidade, elas eram proibidas de assistir os jogos sob pena de morte e na primeira edição oficialmente aberta ao público feminino em 1900, em Paris, somente 22 do total de 997 atletas eram mulheres, competindo em apenas cinco esportes.

A conquista de um total de 44% de participação feminina na última edição dos jogos em Londres, no ano de 2012, com a participação delas em todas as modalidades pela primeira vez na história, não foi sem o esforço e a luta de milhares de esportistas que não se curvaram diante das adversidades causadas pelo sexismo.

É de mulheres assim que são feitas as Olimpíadas:  guerreiras que trazem dentro de si a chama da transformação. Elas fazem história ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos dos quais eram excluídas ao provar que têm garra, talento e capacidade para brilhar nos esportes.

Mulheres como Neide Santos, ou Neide Vida Corrida, como ficou conhecida ao adotar como sobrenome o nome do projeto que criou no Capão Redondo, e que já transformou a vida de milhares de pessoas por meio da prática de corrida.

Na trilha de um sonho

Atleta desde os 14 anos, Neide teve sua carreira interrompida por revezes que a vida pôs em seu caminho. Primeiro, foi obrigada a mudar-se ainda menina para São Paulo, onde foi adotada por uma família que lhe deu educação, mas também a cruel responsabilidade de trabalhar como empregada doméstica ainda criança.  Trouxe sua família biológica para a cidade, mas só depois de adulta, onde ainda passou por muita pobreza e dificuldade.

Quando se casou, viu sua vida entrar um pouco nos trilhos e vislumbrava um futuro melhor, mas seu esposo foi assassinado por policiais no Capão Redondo, comunidade da periferia da cidade de São Paulo, onde moravam, deixando-a sozinha com um bebê recém-nascido e sonhos partidos.

Apesar das dificuldades que teve a partir de então como mãe solteira, Neide não abandonou sua paixão pela corrida e continuava a praticar o esporte amadoramente, participando de maratonas onde encontrava amigos da comunidade. Era a única mulher entre eles. Com o tempo, um pequeno grupo de mulheres de seu bairro a procurou pedindo que Neide as ensinasse a correr também. Elas queriam se movimentar tanto pelo lazer da atividade, quanto pela oportunidade de praticar um esporte, um privilégio geralmente reservado somente aos homens daquele local.

Em 1999, Neide se propôs a ensinar um grupo de seis mulheres do Capão Redondo a correr durante as duas semanas em que estava de férias no trabalho – e, desde então, esse voluntariado nunca mais parou. Assim, começava a história do projeto Vida Corrida. Mas a essência da iniciativa iria mudar drasticamente quando seu filho também teve a vida ceifada pela violência em um assalto no ano 2000, pelo disparo de um revólver empunhado por uma criança de 11 anos.

Neide quase desistiu de tudo, mas foi lembrando do desejo de seu filho de que ela incluísse crianças em seu projeto, para incentivá-las a trilhar o caminho do bem em uma comunidade refém de forças do mal, que ela decidiu não apenas continuar a transformar vidas por meio da corrida, mas ir além e estender esse benefício a meninos e meninas da comunidade.

 

Quando o impossível não existe

Hoje, o Vida Corrida, com mais de 350 participantes, atende 150 crianças do Capão Redondo e pretende expandir esse número em 2016. O projeto conta com o patrocínio de grandes empresas para a aquisição de equipamentos e estrutura para realização das atividades, mas principalmente com a dedicação de voluntários apaixonados pelo esporte.

O sucesso do Vida Corrida é motivo de orgulho para Neide e para todas nós que, conhecendo sua história, contemplam a capacidade de realização dessa mulher inspiradora. Com amor e entrega, criou uma onda de solidariedade, empoderamento e oportunidades que mudaram e inspiram a vida de tantas pessoas, como nós, aqui do Think Olga.

A Neide tem mais um grande sonho: carregar a Tocha Olímpica no Capão Redondo. Ver, na comunidade onde viu sua família ser vítima da violência, brilhar uma chama de esperança, a mesma que a leva todos os dias a continuar lutando pelo Vida Corrida. Ela quer mostrar para as crianças da comunidade, que aprenderam com ela a correr brincando, que nada é impossível.

Ano que vem, os Jogos Olímpicos serão realizados pela primeira vez no Brasil e o Comitê Olímpico Internacional tem um compromisso sério com a participação das mulheres no esporte. O Bradesco, um dos patrocinadores do evento, criou uma plataforma onde todos podemos indicar pessoas para conduzir a Tocha Olímpica Rio 2016. Por meio do site www.brades.co/thinkolgaindica, qualquer pessoa pode indicar alguém que faz a diferença na vida de outras pessoas para ter essa grande honra. Para a candidatura ser válida, é imprescindível o candidato fazer a confirmação por email ou ele será desconsiderado. Sugestão Think Olga: indique mulheres e ajude a aumentar a representatividade delas nos Jogos Olímpicos! Quem você conhece que tem uma #chamaquetransforma?

Nós acreditamos no sonho da Neide e vamos indicá-la não apenas porque acreditamos na importância da representatividade feminina nessa tradição tão importante dos Jogos Olímpicos, mas porque ela verdadeiramente transformou e transforma a vida de muitas pessoas com o seu projeto.

Tivemos a honra de conversar com a Neide sobre sua vida, sonhos e planos para o futuro. Conheça um pouco mais sobre a história dessa mulher inspiradora em suas próprias palavras:

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Como você se apaixonou pela corrida?

Aos 14 anos, eu fui a uma pista de atletismo e tinha um campeonato escolar, mas fui para jogar handebol. Só que, no revezamento 4×100, faltou uma menina. O professor de educação física olhou para um lado, para o outro, olhou para mim e falou: “Vai você mesmo!”.  E me mandou correr. Eu disse que nunca havia treinado, mas ele disse que eu corria muito e já treinava handebol – tudo o que eu precisava fazer era ser a última a pegar o bastão e correr o mais rápido que eu pudesse. Foi o que eu fiz: peguei o bastão , corri o mais rápido que eu pude e naquele dia eu me apaixonei pela corrida porque eu nunca tinha ganhado uma medalha para eu levar para casa. Quando a gente ganhava alguma coisa no handebol, ganhava um troféu que ficava na escola, mas naquele dia eu ganhei minha primeira medalha e eu gostei tanto daquilo que eu falei: “Não, agora eu não vou mais jogar handebol, não, vou começar a correr!”. E foi assim que a corrida entrou na minha vida e eu corro até hoje. Vai fazer 42 anos que eu corro.

 

O que a corrida representa hoje na sua vida? 

Hoje, para mim, a corrida é uma ferramenta de transformação social, porque através da dela eu consegui mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

 

E o que o futuro reserva para você e para o Vida Corrida?

Ontem mesmo eu fiquei até tarde trabalhando e planejando porque no ano que vem vou atender mais 250 crianças – nós atendíamos 150, mas agora teremos mais verba para atender mais. Sem contar as mulheres: hoje nós temos 200 e acredito que no ano que vem vamos receber mais. Também tenho planos de construir nossa casa, a Casa Vida Corrida, mas o meu maior sonho, acima de tudo, um sonho de criança, é de um dia estar nos Jogos Olímpicos. Outro sonho olímpico também é ver o Jonathan Santos, que eu ensinei a brincar de correr, nos Jogos Olímpicos de 2020.

 

Muitas das mulheres da comunidade têm jornada tripla e quase não sobra tempo ou dinheiro para lazer e atividades pessoais, para cuidar de si mesmas. Como a corrida e o projeto as ajudam?

Vou falar para você o que eu ouço delas. Um dia uma chegou para mim e falou que o projeto deu autoestima pra ela. Ela falou que o projeto a levou a lugares que ela jamais imaginaria ir. Outra disse que a vida corrida uniu a família dela, que elas não tinham uma vida social, mas que através da corrida elas entraram nas redes sociais, mostraram para as pessoas o que elas fazem. Teve uma menina que veio do Piauí que foi escolhida para ser entrevistada no programa Como Será, e aí ela me disse “Neide, minha família no Piauí está em festa, eles me viram na televisão, eles me viram correr!”. Tem mulheres no projeto que voltaram a estudar, algumas fazem faculdade para um dia trabalhar no Vida Corrida. Tem mulheres que nunca tinham conhecido pessoas que não fossem da comunidade.  O projeto as leva para outros lugares.

 

 

 

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Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York. 

A Comissão de Banda Larga da ONU divulgou esta quinta-feira os resultados de um levantamento sobre violência cibernética. Em todo o mundo, 73% das mulheres que estão conectadas já foram expostas a algum tipo de violência online.

As jovens entre 18 e 24 anos são as maiores vítimas de perseguições nas redes e de assédio sexual e muitas sofrem ameaças físicas. Nos países da União Europeia, 9 milhões de mulheres já passaram por alguma forma de violência online, algumas aos 15 anos de idade.

Sem Punição

Mas entre 86 países investigados, apenas 26% estão tomando medidas judiciais apropriadas para reverter o quadro. Uma entre cinco usuárias da internet mora em países onde casos de assédio e abuso na internet não recebem punição.

Combater a violência contra as mulheres na internet é uma preocupação da ONU Mulheres, agência que participou da apresentação do relatório.

Maneiras

A representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, explicou que os abusos online podem ocorrer de várias maneiras.

“Essa violência na internet pode ser a humilhação, a ofensa, a ameaça online, a publicação de mensagens e imagens íntimas, a invasão da privacidade, o preconceito, a intolerância na rede. Isso nos preocupa muito, porque a internet é parte de nossa realidade dia a dia. E mesmo que seja virtual, que não pareça ser real, é parte de nossa realidade.”

Segundo Nadine Gasman, da ONU Mulheres, outro efeito é o “intenso sofrimento emocional das vítimas” que têm sua vida íntima compartilhada nas redes.

Exploração Sexual

Durante o lançamento do relatório, a administradora do Programa da ONU para o Desenvolvimento, Pnud, mencionou “evidências de que o volume e conteúdo de material na internet que promove o tráfico humano com o propósito da exploração sexual é sem precedentes”.

Helen Clark destacou que a dimensão do desafio é clara: “70% das pessoas traficadas no mundo são mulheres ou meninas e 97% das traficadas são exploradas sexualmente”.

Investimentos

A internet já é considerada por especialistas como o principal meio de disseminação de material de pornografia infantil.

O relatório do grupo de trabalho da ONU alerta para a necessidade de mais investimentos para prevenir a violência cibernética. Esse dinheiro deve ser usado para sensibilizar o público, implementar técnicas de segurança e deter criminosos por meio de medidas legais e regulatórias.

O documento também pede atenção dos países e da indústria a esses riscos e para que pensem em novas soluções, como o uso de aplicativos móveis para monitorar e relatar a violência contra mulheres e meninas.

Escute a matéria AQUI.

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Esse post faz parte de uma parceria entre Think Olga e a Rádio ONU em Português para a divulgação de conteúdo relacionado a gênero.

Arte: Karolin Schnoor

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Ser mulher neste mundo pode ser uma experiência muito solitária. Em todos os lugares, deparamos com situações que alimentam, lá dentro, os sentimentos de inadequação e impotência. Sabe as “cantadas” que você recebe de estranhos, ou aqueles “recados” inconvenientes sobre a sua aparência? Por mais que essas posturas incomodem, é relativamente fácil de acreditar que elas são naturais e que não precisa ser diferente. A julgar pela opinião da maioria, parece que o problema é só seu ‒ quando não é você mesma.

Às vezes, porém, vozes igualmente aborrecidas lhe surpreendem e insinuam a causa e o efeito de tanto isolamento. Desde muito tempo atrás, milhares de mulheres enfrentam as mesmas dificuldades sem ter noção do quanto suas vivências são semelhantes ‒ em muito, porque somos desencorajadas de externar o que pensamos e sentimos. O que aconteceria se essa multidão silenciosa descobrisse a dimensão coletiva de suas angústias? Uma vez arranjada, poderia ela formar uma frente consistente de mudança?

Essas são as perguntas fundadoras de vários projetos colaborativos que estão alcançando, em tempo recorde, enorme adesão no meio online. Idealizados por mulheres na faixa dos 20 e 30 anos, com perfis pessoais e profissionais diversos, eles apostam no potencial da rede para aplacar problemas cotidianos, mas de grande relevância política. O caráter voluntário e inclusivo ‒ nenhum deles possui fins lucrativos ou restrições de público ‒ deriva de um denominador comum importante: o apelo afetivo. Criadoras e apoiadoras abraçam as iniciativas pelo desejo de sintonizar seus valores com sua ação social, além da vontade de se conectar a outras mulheres identificadas com uma causa.

Conversamos com representantes de seis movimentos de empoderamento e mobilização feminina para saber o que anda engajando tantas usuárias na web em 2015. Confira abaixo os temas e os links para acompanhar o trabalho de cada projeto.

 

Mulheres no espelho: fortalecendo a autoimagem

Talvez poucas crises femininas simbolizem melhor os efeitos da violência de gênero do que a relação conflituosa com o próprio corpo. Praticamente o tempo inteiro, a luta contra o machismo e a misoginia é travada nessa arena privada ‒ e como é difícil resisti-los. Há sempre um ou dez quilos a perder. A pele tem manchas ‒ ou não tem o tom “certo”. O cabelo não esvoaça ou não brilha. Os seios são muito pequenos e o bumbum é muito chato. Conforme as meninas crescem, a existência em um corpo confortável parece se tornar impossível: inicia-se uma guerra contra si mesma para aniquilar a mulher real em função de um modelo inatingível que a mídia bombardeia contra todas. Quando se admite a derrota anunciada, corpo e alma estão em pedaços e nem sempre há apoio para reconstituí-los.

A publicitária baiana Teresa Rocha conhece essa narrativa. Negra e crespa, ela via, na infância, uma semelhança entre todas as figuras célebres das propagandas: o físico branco, magro e liso, bastante diferente do seu. Ter chances de sucesso passou a implicar um tempo diário para o alisamento dos cabelos. “Foi na adolescência que percebi o quanto ter autoestima impacta de forma positiva em todos os campos da vida, e que receber críticas e cobranças sobre a aparência é cruel e injusto. Desde então, tenho vontade de fazer algo a respeito”, conta. Quando encontrou ícones femininos que assumiam os cachos, motivou-se a libertar os seus ‒ e hoje, pelo Bonita Também, quer divulgar mensagens de aceitação e amor próprio a muitas outras mulheres.

“O Bonita Também quer reforçar a importância de se sentir bem e abraçar a diversidade. O que importa é ser feliz, mas se isso for fora do padrão social que tanto nos exclui, melhor ainda, porque vai gerar referência para as meninas que estão crescendo. E a gente bem sabe que mulher precisa disso”, explica Teresa. Ela gerencia um Tumblr colaborativo com histórias de mulheres que também aprenderam a amar seus corpos como são e, na página da iniciativa no Facebook, posta mensagens inspiradoras e cards ilustrando diversos tipos de beleza. “O projeto não se faz sozinho, entende?”, diz ela. “Cada pessoa que interage com um clique ajuda a fazê-lo!”. É esse pensamento que a relaxa em relação às estatísticas da rede social. Criada em dezembro de 2014, a página do Bonita Também chegou às mil curtidas orgânicas em junho deste ano. Por trás de cada uma, Teresa enxerga uma mulher celebrando a autoestima feminina e buscando o incentivo a se mostrar como é. Ela já recebe mensagens de seguidoras falando do impacto positivo da página sobre elas. “O crescimento é gradativo e devagar, mas muito válido”, afirma.

Os depoimentos do Tumblr, que revelam o peso como uma preocupação muito forte, são enviados por e-mail e ficam disponíveis para receber comentários de outras visitantes. Focada em corrigir os vácuos de representatividade, a publicitária também está atenta ao risco de endossar novas padronizações e tenta equilibrar na comunicação do projeto múltiplas variações de raça, biotipo, cabelo e outras características. A crença no potencial transformador da imagem embasa os sonhos de desenvolvimento da iniciativa. “Eu desejo que todo o material que está sendo recolhido possa tomar formato de um documentário um dia e fazer a diferença para mulheres de idades variadas, principalmente para quem está se tornando mulher agora”, conta Teresa.

 

Mulheres em trânsito: a luta pelo espaço público

A participação efetiva das mulheres na vida pública é uma das reivindicações mais antigas do feminismo. Contudo, em pleno século 21, a pauta se mantém atual pelos mecanismos que constrangem a ocupação feminina dessa esfera. Comecemos pelos obstáculos à apropriação do espaço. Laura Krebs, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que as teorias urbanistas de viés mais sociológico, com inclinação marxista, pensam a cidade como um campo de reprodução dos valores e relações da sociedade que a habita. “Assim, é inevitável entender a urbe como um ambiente machista, em que a mulher é considerada mais frágil e onde uma série de abusos ‒ verbais e/ou físicos ‒ e opressões de gênero se repetem”, afirma.

Laura é uma das idealizadoras do coletivo se essa rua fosse nossa, criado em março para denunciar a violência contra a mulher no espaço urbano e mapear o sentimento delas nas ruas. O movimento começou como uma intervenção gráfica planejada para o Dia Internacional da Mulher. Em parceria com uma colega de curso, Laura pretendia coletar relatos sobre o assunto e espalhá-los por Porto Alegre, mas logo surgiu a ideia de produzir algum material audiovisual sobre o tema. “Fomos atrás de amigas capacitadas e acabamos formando uma rede incrível de mais de 80 gurias, transformando uma ação pontual em vontade de ter um trabalho contínuo de questionamento sobre um problema tão presente”, conta.

Os depoimentos reunidos em áudio e vídeo dão conta de um transtorno que interfere na escolha das roupas para sair e até no simples ato de andar a pé. As integrantes do coletivo se reúnem quinzenalmente e sentem necessidade de criar um grupo de estudos sobre feminismo. Para o segundo semestre de 2015, elas preveem uma nova série de vídeos e a expansão de suas ações virtuais. No Facebook, o se essa rua fosse nossa disponibiliza o endereço de um formulário anônimo para o compartilhamento de casos de agressão machista em locais públicos. Mais de 26 mil pessoas acompanham a página do projeto, que acumulou mil curtidas no dia em que foi criada.

A página se popularizou ao divulgar o relato, narrado pela própria vítima, de um estupro ocorrido por volta do meio dia na região central de Porto Alegre. Segundo os dados do Facebook, a postagem alcançou mais de um milhão de usuários da rede. A repercussão da história levou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Vereadores a vistoriar toda a Rede de Proteção às Mulheres da capital gaúcha e apresentar um relatório com as constatações oficiais em maio. Para Laura, esse feito é um exemplo de empoderamento feminino e comunitário, que desafia a ideia das instituições públicas como excessivamente burocráticas e distantes da população. “Tínhamos voz e geramos resultados a partir de uma indignação coletiva e quase sempre banalizada”, diz ela.

A força da ação conjunta e cidadã é também o que inspira a jornalista Babi Souza, outra gaúcha. Afetada pelas leituras sobre colaborativismo e empreendedorismo social, foi cruzando pelo centro de Porto Alegre à noite que ela refletiu sobre o medo de circular sozinha ‒ e concebeu o Vamos juntas?, um fenômeno instantâneo no Facebook desde o dia 30 de julho. Reconhecendo a aflição peculiar das mulheres ao transitar no dia a dia, a iniciativa quer trazer mais segurança incentivando a parceria casual ou regular entre elas. Diante de situações de risco, o movimento convida cada uma a se unir com a próxima, intimidando potenciais agressores e, quem sabe, fazendo novas amizades.

A ideia de Babi foi ilustrada pela designer Vika Schmitz e postada no perfil pessoal da jornalista. Menos de duas horas depois, pessoas fora do seu círculo de amizade estavam compartilhando a imagem e buscando a página do movimento, que foi imediatamente criada. Foram cinco mil curtidas em 24 horas, e até o fechamento desta matéria, mais de 135 mil seguidores reunidos. Durante o mês de agosto, a equipe somou a social media Stephanie Evaldt começou a estudar formas de aproximar cada vez mais suas apoiadoras. Foram criados grupos por região do Brasil no Facebook e iniciado o projeto de um aplicativo para que elas possam se encontrar nas ruas.

Animada com o retorno das adeptas, Babi espera que as mais novas também sejam impactadas pela ideia do movimento. Um caso que a emociona é o de uma jovem que imprimiu cards da página e colou nas dependências da escola onde estuda. Quando encontrou um deles rasgado no lixo, fixou-o novamente e enviou-lhe a foto do cartaz. “Acho que se as meninas da idade dela entrarem em contato com a sororidade e com a ideia de amar ao próximo (aí independentemente do sexo), o futuro será muito melhor”, afirma. A jornalista acredita que as mulheres adultas não costumam “ir juntas” por medo e, principalmente, por serem ensinadas desde muito cedo a competir entre si e não confiar umas nas outras.

Babi anda com a agenda cheia divulgando o Vamos juntas? na mídia, mas concorda que em algumas entrevistas, a proposta parece se diluir em um problema mais amplo de segurança pública. Ela faz questão de ressaltar que o movimento pretende, sobretudo, estimular a associação entre mulheres. “Além disso, sinto que estamos tendo um papel importante no sentido de mostrar aos homens como é ser mulher, como não é fácil ser assediada e se sentir insegura”, pontua. As muitas mensagens que a equipe recebe deles oscilam entre gratidão e estranhamento, mostrando que boa parte da população masculina ainda não compreende as nuances de violência criadas pelo gênero. Por ora, parece mesmo mais proveitoso investir na comunicação com elas ‒ e crer que a ação suscitada será eloquente o bastante.

 

Mulheres em debate: pluralizando o diálogo

Por outro lado, a limitação espacial não se impõe somente na via pública. As mulheres também enfrentam barreiras para participar e protagonizar eventos profissionais e mesas de debate. Ainda hoje, por mais qualificadas que sejam, elas são completamente excluídas de alguns encontros. Quando questionados a respeito, os organizadores tendem a justificar a escolha dos convidados pela competência, experiência e destaque na área em que atuam. Mas será que existem tão poucas experts à disposição? Em uma sociedade desigual como a nossa, a quem serve o critério meritocrático ‒ e até que ponto ele não contribui para a permanência desse cenário?

“Quem já é privilegiado entra no ciclo vicioso da manutenção de seus privilégios sociais. Por ter mais oportunidades de praticar algo, fará aquilo melhor e mais oportunidades aparecerão”, afirma a designer e comunicadora Gabi Juns, cofundadora da Escola de Ativismo. A marginalização feminina nas rodas de conversa é um fato familiar a ela e às amigas Daniela Silva, Daniela Teixeira, Manoela Miklos e Fer Shira. Todas envolvidas em projetos de mobilização social ou ativismo online, elas perceberam que os colegas homens geralmente serviam como portavozes dos trabalhos desenvolvidos coletivamente. Talvez por isso a iniciativa Stop Man Panels, lançada em maio de 2014 à época da Convenção sobre Armas Convencionais da Organização das Nações Unidas (ONU), tenha impactado tanto o grupo: no compromisso, 79 especialistas sobre o tema da reunião se recusavam a participar de paineis que não incluíssem mulheres. “A ação dos homens teve sucesso no evento. Então pensamos, ‘por que não para todos os eventos?'”, conta Gabi.

Dessa inquietação, com o apoio conceitual e criativo de muitas outras pessoas, surgiu o compromisso #nãotemconversa. O princípio de base do movimento é a conscientização dos homens ‒ em especial os cisgêneros, heterossexuais, de classes mais altas e sem deficiências aparentes ‒ do lugar favorecido que ocupam na hierarquia social. A partir disso, eles são interpelados a promover a integração de vozes femininas aos debates por meio de um pacto solidário. “Achamos que eles também têm um papel na desconstrução do machismo. Abrir mão de privilégios de fala é algo que podem fazer”, diz Gabi. Ela e as demais criadoras do #nãotemconversa acreditam que a visão de mundo de uma mulher é indissociável de sua vivência, e, por isso, elas têm potencial para enriquecer as discussões. “Meu gênero é parte da minha construção como indivíduo, e essa construção me dá uma perspectiva única”, defende Gabi.

Já no lançamento, em 24 de junho, o compromisso foi assinado por mais de 300 pessoas e a inbox de Gabi no Facebook se encheu de mensagens de homens curiosos sobre os próximos passos. Um dos apoiadores chegou a negar participação em um programa de TV ‒ algo que as criadoras só souberam quando a apresentadora reclamou na página da campanha na rede social. O retorno surpreendeu tanto que as idealizadoras do compromisso ainda não conseguiram sistematizar e responder todas as dúvidas recebidas. Apesar de colaborarem entre si, elas não se reconhecem como equipe. “Entendemos que tivemos uma ideia, colocamos para rodar e não seremos capazes, sozinhas, de dar a continuidade necessária”, explica Gabi. Devido a isso, elas criaram o #temconversa, um grupo exclusivamente feminino no Facebook dedicado à construção coletiva do projeto e à discussão de assuntos afins. O espaço é aberto a quem quiser participar.

Contando cerca de 10 mil curtidas na rede social, o #nãotemconversa pretende agora apurar os desdobramentos do compromisso assumido na vida dos homens e na organização dos eventos. As criadoras também comemoram a replicação da campanha no combate a outras formas de opressão. No dia seguinte à criação da página no Facebook, surgiu o compromisso-irmão #nemtentaargumentar, ao qual mais de 3,5 mil pessoas já aderiram. A iniciativa partiu do Coletivo Enegrecer, ligado à militância estudantil, e convida os usuários a demandar representatividade negra, feminina e masculina, nas rodas de debate. “Um olhar negro nos apresenta a perspectiva daqueles que vêm de baixo e qualifica as elaborações a serem desenvolvidas”, afirma Moara Correa, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e uma das idealizadoras do compromisso. Ela cuida do projeto em parceria com Cledisson Júnior, que já foi diretor de combate ao racismo da UNE e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).

O #nemtentaargumentar está em contato com as criadoras do #nãotemconversa para compartilhar tecnologia e desenvolver o próprio site para a coleta de assinaturas. Enquanto isso, no Facebook, a campanha busca denunciar o racismo institucionalizado e chamar a atenção de organizações e entidades para a ausência de palestrantes negros em seus eventos. Apesar das inúmeras reprimendas à iniciativa, Moara crê no aspecto político e construtivo do constrangimento e se diz pouco impressionada. “Há anos lidamos com a reação de conservadores que militam contra as cotas raciais no ensino superior e nos concursos públicos. Estamos vacinados”, afirma. A intenção da dupla idealizadora é ampliar o alcance do compromisso e seguir revelando a branquitude como um vetor de desigualdade social no Brasil ‒ inclusive nas intersecções entre gênero e raça. “Nosso grande desafio ‒ e aí falo enquanto mulher negra ‒ é de convencer as nossas companheiras brancas de que construir a solidariedade entre as mulheres significa, também, ceder espaços e desconstruir privilégios”, explica Moara.

 

Mulheres em gestação: a maternidade que existe

Quando a empreendedora Thais Cimino se olhou no espelho no dia seguinte ao parto de Vida, hoje com um ano e meio, assustou-se com o tamanho de seu peito. Tendo sofrido com a intensa sensibilidade nos seios durante a gravidez, ela não imaginava que sentiria tanta dor para amamentar a filha, apesar de toda a vontade e preparação. Em tese, estava tudo em ordem: a pega, a alimentação, o sono, o bebê mamava à livre demanda… Mas o desconforto piorava e Thais se sentia cada vez mais insegura. Foram muitas visitas à emergência da maternidade e à enfermeira obstetra até que ela fosse diagnosticada com um abcesso mamário, removido em uma cirurgia com anestesia geral e pós-operatório de cerca de um mês. Finalmente, Thais entendeu que não estava “fraquejando” no trabalho materno ‒ mas ainda assim, chorou por meses a fio por causa desse período.

Ela não compreendia como um processo natural como a amamentação podia ser tão desgastante, nem como poderia ser necessário um esforço sobre-humano para criar vínculo afetivo com a filha. No meio de toda a situação, estava o companheiro, com quem Thais vive na França. Atordoado com a nova condição de pai e inseguro à sua maneira, ele apoiou a parceira como pode ‒ o que para ela, infelizmente, não foi suficiente. Quando pesquisou sobre depressão pós-parto, Thais se deu conta de que muitas outras mulheres também embarcam nessa jornada sem conhecer o “lado B” da maternidade, e de que o silêncio sobre essas provações tornava o percurso ainda mais penoso. Entretanto, como admitir dor, medo ou tristeza no que deveria ser um momento de absoluta felicidade? Como arcar com o julgamento alheio ‒ e administrar a culpa por não ser a mãe perfeita?

Antes de qualquer coisa, é necessário verbalizar o que a pressão externa encerra dentro de cada uma. “A maternidade não é um conto de fadas! Ela pode ser linda, transformadora, mas para isso, as mulheres e os bebês precisam que todo o ambiente ampare esta relação e que haja dispositivos sociais e públicos que deem conta desta questão”, afirma Thais. A partir disso, ela fundou o projeto Temos que falar sobre isso, uma plataforma de desabafos anônimos em que as mães podem compartilhar suas angústias e proporcionar conforto e acolhimento a outras famílias. O objetivo é fortalecer a ideia de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um caminho para humanizar a vida materna e resgatar dentro de si a confiança na própria capacidade. Coordenado por Thais e pela terapeuta ocupacional Bruna Taño, o site também é atualizado com textos sobre temas variados, como sofrimento psicológico, dificuldades no período gravídico-puerperal e violência obstétrica.

Além da solidão e da preocupação das mães em relação a sentimentos ambivalentes, como a ausência de um amor imediato pelos filhos, os relatos enviados frequentemente abordam a violência institucional por parte de órgãos e profissionais de saúde e a dificuldade de adaptação do casal à nova vida. As postagens relacionadas à implicação paterna no cuidado também têm repercutido. Criado em maio, o projeto ainda está “vivendo o puerpério”, mas superou as expectativas de Thais ultrapassando as 250 mil visualizações no blog e os 11 mil seguidores no Facebook. O espaço de desabafos cresceu a tal ponto que profissionais de diversos ramos passaram a procurá-la para colaborar com conhecimento especializado. Hoje, catorze deles contribuem regularmente com material informativo e o projeto mantém uma parceria com o grupo carioca Do Luto à Luta, de apoio à perda gestacional. Com a colaboração do Ministério da Saúde, o Temos que falar sobre isso também disponibiliza a listagem dos Centros de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (CAPS/SUS) e fornece assistência sobre centros, grupos ou profissionais de apoio próximos às visitantes do site.

Embora a internet facilite o anonimato e a participação de mães “recém nascidas” ou com dificuldades para sair de casa, Thais reconhece a importância do contato presencial e quer alcançar as mulheres que não estão na web. Cheia de sonhos e dedicando-se exclusivamente ao projeto, ela se mostra determinada a ampliá-lo, online e offline, e busca parcerias que possam apoiar arranjos mais complexos. “Almejamos promover uma mudança de atitude e a implementação de leis que protejam à mulher de todos os tipos de violência (obstétrica, física, psicológica e institucional) durante a gravidez, o parto e o puerpério”, afirma. Quem deseja integrar a equipe de colaboradores do Temos que falar sobre isso ou ajudar no gerenciamento da iniciativa pode contatá-la pelo e-mail do site.


Stefanie Cirne é feminista de todas as horas e jornalista de ocasião formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Arte: Elizabeth Catlett

 

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Quem não teria curiosidade em saber quem foi a mulher considerada “a dama das artes plásticas brasileiras”? E para nos instigar ainda mais, outros fatores de sua biografia que a fizeram/fazem uma mulher inspiradora para todas nós: chegando ao Brasil aos 23 anos, ela não deixou que sua condição de estrangeira a limitasse ou a impedisse de traçar o caminho que desejou; e, recém aos 40 anos, essa “imigrante comum” iniciou-se no mundo das artes plásticas contrariando clichês que, lamentavelmente ainda hoje existem em torno de nós mulheres: de ser estrangeira/imigrante/migrante em um país ou cidade novos e de quase não ter o “direito” de começar uma nova profissão/carreira após os quarenta anos de idade por ser considerada “velha” para o mercado de trabalho. Essa mulher tem um nome: Tomie Ohtake, a artista plástica nipo-brasileira que personificou muitas das reivindicações femininas (ainda atuais) como sua inserção e a conquista de respeito e reconhecimento por seu trabalho num campo laboral antigamente praticamente dominado por homens – é de se lembrar que Tomie Ohtake começou sua produção artística em 1952 em São Paulo. E ela soube conquistar e defender seu espaço e presença nesse ambiente através de suas obras escultóricas gigantestas, com proporções monumentais que desafiam a estaticidade elástica desses corpos, e sua contínua pesquisa com cores e texturas em suas telas, produzidos ainda quando ela cumprira seu centenário de vida.

Tomie Ohtake é/foi uma mulher inspiradora porque combateu com seu trabalho, e em proporções colossais, todos os fatores sociais e culturais que poderiam vir “contra” si e fez isso deixando muito bem marcada sua presença no cotidiano de milhares de brasileiros através de 27 obras públicas espalhadas por algumas cidades brasileiras. Milhões de pessoas passam ou veem diariamente as obras de Tomie, e inclusive as têm incorporada a sua paisagem urbana, sem se darem conta disso. E como não entender essa inserção discreta e definitiva da presença da artista em nosso cotidiano se não como uma forma de resistência permanente e provocativamente silenciosa aos “nãos” que uma cultura conservadora e machista procura nos obrigar a aceitar como regra? As obras de Tomie Ohtake protestam pela excepção a essa regra, à regra da convencionalidade, da estaticidade dos objetos e ordens naturais, do conforto e funcionalidade imediata das coisas ao nosso redor.

Quando um está chegando ou partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos (São Paulo), exatamente no meio de um campo ao céu aberto encontra-se instalada uma enorme escultura em forma circular. Porém,  a escultura circular de Tomie Ohtake foge à regra geométrica de uma esfera que esperamos e conhecemos. A sua esfera nos seduz quer por seu vermelho intenso quer por suas dimensões inexatas, desproporcionadas, como se fosse um corpo celular disforme viesse ao nosso encontro, procurando nos atrair, capturar e tragar para dentro de uma dimensão determinada e conhecida somente por Tomie.

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Imagem: Escultura no Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo, 2008.

Essa poderia ser a primeira experiência de um observador distraído com as obras de Tomie Ohtake. Mas, passeando pela capital paulista, mais exatamente pela estação do Metrô Consolação ou passando pela Avenida 23 de maio, nos damos conta que a presença da artista está fortemente demarcada e compõe a paisagem urbana do cotidiano de milhares de pessoas, mesmo que essas não saibam ou ignorem a autoria das obras. O fato é que: Tomie está ali – e de forma colossal e permanente.

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Imagem: Estação do Metrô Consolação (São Paulo), 1991.

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Imagem: Escultura na Avenida 23 de maio (São Paulo), 1988.

Na cidade de Santos, litoral paulista, encontra-se no Parque Municipal Roberto Mário Santini outro exemplo da liberdade de criação da artista que impressiona o visitante pela leveza e movimento das placas metálicas que compõem a obra. Uma vez mais, suas esculturas (consciente e meticulosamente arquitetadas) brincam e põem em questão a massa, o volume, o peso, o tamanho, a forma e a cor das obras que cria. É como se as coisas que criava não tivessem paz – assim como na música homônima de Arnaldo Antunes “As coisas” – pois elas se encontram em um contraditório território de imobilidade elástica, em permanente movimento que, muitas vezes, parece nos buscar, nos envolver para dentro de si entre seus tentáculos.

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Imagem: Escultura no Parque Municipal Roberto Mário Santini (Santos, Estado de São Paulo).

 

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Imagem: Escultura na entrada do teatro do Parque do Ibirapuera, São Paulo, XX

Ao cumprir seu centenário em 2013 e em plena fase de produção, Tomie Ohtake inaugurou três exposições organizadas pelo Instituto Tomie Ohtake (www.institutotomieohtake.org.br), inaugurado em 2000 na capital paulista. Em uma delas, numa galeria de arte desta cidade, cerca de vinte quadros e esculturas inéditos produzidos pela artista entre 2011 e 2012 foram expostos e transmitiam ao observador uma impactante energia e vitalidade criativa da artista. A conhecida leveza e delicadeza de seu gesto e a mobilidade estática de suas esculturas voltaram a ser exibidas, como na obra abaixo (semelhante escultura também pode ser encontrada instalada em frente ao Museu de Arte Contemporânea da Cidade Universitária de São Paulo):

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Imagem: Escultura instalada na Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2013.

Suas telas comportam uma explosão de cores, de texturas, de gestos/pinceladas sobrepostos – resultado de uma constante investigação durante toda sua trajetória artística. Dependendo da proximidade ou da distância frente a suas telas, o observador é brindado com a visão de novas formas, temas e tramas tridimensionais que se mesclam simultanea e harmonicamente. Formas circulares, recorrentes na produção de Tomie Ohtake desde os anos de 1950, reincidiram em seus últimos trabalhos – numa espécie de encerramento do ciclo de um trabalho claramente projetado e investigado durante toda uma vida.

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Imagem: Quadro azul, acrílico sobre tela, 2012.

Assim como suas esculturas são caracterizadas por uma ação gestual linear muito bem marcada, suas telas demonstram uma exploração em limite máximo da potência das cores que cria uma textura particular, lograda através de diversas capas de acrílico sobrepostas. Essa materialidade possibilita a formação de imagens abstratas em permanente movimento, como se, assim como suas esculturas colossais, também buscassem capturar o observador para dentro de si. Novas formas (como círculos, arcos, elipses), novos planos, ondas tridimensionais, em uma organicidade quase selvática, saltam ao olhar do observador a cada nova mirada e somente possível através da potência e das gradações das cores primárias e secundárias.

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Imagem: Quadro verde, acrílico sobre tela, 2012.

Ao largo de sua produção, Tomie Ohtake revelou um permanente e meticuloso compromisso com a busca pelas propriedades cromáticas da veladura, transparência, irradiação e retração, assim como com a particular e harmonica tensão entre o gesto livre, o movimento delicado, a leveza linear e suas impactantes, imponentes e massissas esculturas em dimensões megalomaníacas. Através de suas pinceladas, ora carregadas de tinta ora trabalhadas na transparência, a artista não limitou o uso espacial de suas telas. Ao contrário, ela as utilizou bem mais como metáforas do que “ainda está por vir”, já que oferecem ao observador uma leitura aberta que, a cada nova mirada, descobre novas formas e imagens no emaranhado abstrato fomentado pela potência de suas cores. Através de suas obras, Tomie Ohtake nos inspira porque são uma resposta inconvencional, sensata e sensível às convencionalidades clássicas que estamos acostumados e esperamos de esculturas e pinturas. Como mulher, Tomie segue nos inspirando, ainda que tenha partido no dia 12 de fevereiro, porque concretizou em si a quebra de paradigmas sociais que poderiam tê-la reprimido a realizar seus desejos e projetos; porque sua resposta às convencionalidades sociais foi trabalhada metaforicamente de forma contínua ao largo de mais de sessenta anos de produção e em formatos colossais, para que aqueles que buscam justificá-las ou defendê-las não possam ignorar por completo a delicada, massissa e monumental resistência que essa mulher inseriu em seus cotidianos através de suas esculturas nada convencionais.

 


 

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

PS: As imagens exibidas neste artigo foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake (esculturas públicas) e pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara (quadros azul e verde de 2012). A imagem da escultura linear fotografada num espaço interior pertence à autora do texto.

 

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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Zara, Marisa, Pernambucanas, Sete Sete Cinco, Renner, M. Officer, Le Lis Blanc, Bo.Bô. Infelizmente, a lista de empresas da moda que usaram trabalho escravo nos últimos anos no Brasil poderia encher um artigo inteiro. Saber o que a maioria delas têm em comum, porém, pode nos ajudar a combater o problema com mais eficiência: sua clientela principal está entre as mulheres.

Ou seja: é justo dizer que, hoje, as mulheres estão entre as mais fiéis patrocinadoras de trabalhos análogos à escravidão no Brasil e no mundo. Contudo, demonizá-las seria um erro. As mulheres são, por sua vez, vítimas de uma publicidade violenta e de revistas femininas que estimulam um consumismo desenfreado e irresponsável. Pouco se fala da linha de produção a não ser para consagrar designers ou enriquecer grifes anunciantes. As revistas femininas de hoje se comportam como se suas leitoras não tivessem consciência.

Estudos comprovaram, ainda por cima, que o consumidor brasileiro interiorizou essa imagem e aderiu a este padrão de comportamento. Pesquisadores da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Federal de Uberlândia (MG) analisaram a repercussão do caso Zara, em 2011, quando foi revelado que a marca pagava R$ 2 por peça aos costureiros em São Paulo. A conclusão foi triste: consumidores não só acreditavam que este tipo de crime compensava financeiramente como não estavam dispostos a deixar de comprar produtos da marca em retaliação.

Prova isso o crescimento do mercado da moda, que não se deixa arranhar por denúncias do Ministério Público. Nos últimos dez anos, seu faturamento quadruplicou, alcançando 140 bilhões de reais, segundo a consultoria Euromonitor. O Brasil pulou de 14o. para 8o. do mundo no setor. Os lucros são inflados por salários baixíssimos e condições degradantes de empregados.

Nós, fundadoras da Revista AzMina – para mulheres de A a Z, acreditamos que é possível fazer um jornalismo especializado para mulheres que quebre esse ciclo destrutivo. Concebemos uma revista que, além de acreditar em todos os tipos de beleza, falará de ética toda vez que pensar em moda. Em nossos ensaios de moda, marcas transgressoras estão fora. Vamos visitar fábricas nas periferias do mundo fashion, como China e Bangladesh, e investir em um jornalismo investigativo que não trate as leitoras com condescendência e denuncie redes e lojas que façam uso de trabalho escravo. Nosso plano é colocar a consumidora cara a cara com a boliviana ou chinesa que passou noites em pouca luz costurando os botões daquela camisa em promoção. É fazê-la questionar fundo cada ato de consumo muito além das capacidades de sua conta bancária. É provocar uma mudança cultural e de coração.

Mas o que nos fará diferente das demais revistas e como conseguiremos fazer isso? A resposta a esse questionamento não está apenas no jornalismo, mas na concepção de todo um modelo de negócios. As revistas femininas não questionam o mundo fashion pois ele é seu verdadeiro cliente. São grandes marcas que pagam a conta dessas publicações e garantem seus lucros, não as leitoras. Nós apostamos em uma inversão desse sistema. AzMina está nascendo a partir de financiamento coletivo e assim pretende pagar a maior parte de seus custos. Anunciantes são parte complementar do processo e, como não temos fins lucrativos, podemos dispensar um ou outro baseadas em critérios éticos.

Criamos o conceito de publicidade responsável ou women-friendly. Isso significa que só poderão anunciar conosco marcas que não estejam no radar recente da Repórter Brasil de uso de trabalho análogo à escravidão. Significa também que vamos editorializar nosso conteúdo publicitário com tanto carinho quanto pensarmos nossas reportagens. O intuito, mais do que angariar verbas, é estimular uma mudança profunda no jeito com que fazemos propaganda para mulheres no Brasil.

É uma ideia ambiciosa, mas realista. Para existir, porém, precisamos da ajuda de quem acredita nesse ideal junto conosco. A vaquinha on-line que garantirá que a Revista AzMina saia do papel termina em menos de um mês. O jornalismo independente é capaz de quebrar padrões sociais destrutivos, e um investimento que vale a pena para os leitores. As grandes marcas estarão sempre dispostas a assumir os custos, mas, ao nos mobilizarmos, não vamos assumimos o prejuízo da perda de nossos valores.

 


 

Nana Queiroz é diretora executiva da Revista AzMina, e criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. É jornalista pela USP, especialista em Relações Internacionais pela UnB e está cursando o mestrado em Estudos de Gênero na George Washington University. Artigo via Repórter Brasil.

Arte: Ada Buchholc

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