olga leah goren publicidade
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Falar com as mulheres ainda é um desafio para muitas marcas. Infelizmente, é mais fácil encontrar anúncios que retratem as mulheres de maneira equivocada do que aqueles que buscam fazê-lo com cuidado e profundidade.

O número de marcas que precisam repensar sua comunicação com o público feminino supera com folga o daquelas que já encontraram uma abordagem mais direta e honesta com suas consumidoras. Em um mercado de ideias fossilizadas sobre como se dirigir a esse target, inovações podem significar riscos que a maioria dos anunciantes não está pronta para encarar.

Entretanto, aqueles que decidem repensar sua comunicação com as mulheres para além dos estereótipos se colocam na vanguarda de uma mudança de um mercado ainda muito atrasado: o revolucionário entendimento de que mulheres também são pessoas.

Sendo assim, enquanto algumas marcas ainda tropeçam com flopadas gigantescas na hora de falar com elas, outras nos inspiram com campanhas super bacanas que fogem da mesmice. Conheça oito delas:

 

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=l1xxx4NYYUQ]

Volkswagen Passat – Meninas na banca de limonada

A Volkswagen do Canadá veiculou esse anúncio para divulgar o novo Passat em agosto de 2013. Sua proposta é simples: duas meninas (e vale ressaltar que uma delas é negra) estão trabalhando em uma banca de limonadas na calçada quando um carro se aproxima. Ao verem que se trata de um veículo caro, elas viram a placa de preço ao contrário, exibindo um valor mais alto, a ser praticado com clientes ricos. A ideia é simples, mas a grande sacada, que garantiu ao anúncio uma posição em nossa lista, é o uso aparentemente displicente de duas meninas como protagonistas de um anúncio de carros. Ao vermos o anúncio, essa escolha parece tão natural quanto deveria ser a presença feminina protagonizando cenas inteligentes nos comerciais – e não apenas adornando-os, como acontece na maioria dos anúncios.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Verizon – Inspirando meninas a amar exatas

Esse anúncio da Verizon mostra como muitas vezes os pais acabam desencorajando suas filhas a se interessar por ciências ao afastá-las de sujeira ou bagunça e as incentivar a estar sempre bonitas. Ele apresenta Samantha, que é uma menina que, em diversos momentos da infância, é reprimida por seus pais ao brincar na terra ou ao desarrumar o quarto enquanto trabalha em um projeto de ciências. “Cuidado pra não sujar o vestido”, “Deixa seu irmão fazer isso” e “Quem é a minha lindinha?” são algumas das frases que levam ao desfecho em que ela, um pouco mais velha, aparentemente ignora um cartaz sobre uma feira de ciências para passar gloss nos lábios. A mensagem é clara: é preciso incentivar e valorizar a inteligência das meninas, não só a beleza. O vídeo serve como um alerta para os pais e é encerrado com um dado preocupante: nos EUA, 66% das meninas até a 4ª série afirmam gostar de matemática, mas somente 18% dos estudantes de todas as engenharias são mulheres.

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GoldieBlox – Para futuras engenheiras

E é para incentivar meninas a gostar mais de engenharia que nasceu a marca GoldieBlox. Criada pela Debbie Sterling, uma engenheira formada em Stanford que não se conformava com o número pequeno de mulheres no seu curso e que cresceu insatisfeita com as poucas opções de brinquedos criativamente instigantes  para meninas. Com um anúncio veiculado no Super Bowl desse ano, a GoldieBlox oferece kits para meninas criarem as máquinas e resolverem os problemas propostos pela personagem Goldie e seus amigos. O vídeo apresenta três meninas entediadas ao assistir uma propaganda de bonecas na tevê que resolvem criar elas mesmas um enorme mecanismo para desligar o aparelho.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=FRf35wCmzWw]

Kotex – Fazendo graça em cima do clichê

A marca de absorventes Kotex lançou esse anúncio em 2010. Nele, a protagonista descreve de maneira irônica todas as situações lúdicas em que as mulheres são representadas em anúncios de absorventes, tais como caminhadas na praia, usar roupas brancas e sair para dançar – como se ficar menstruada fosse uma grande curtição. Divertido, o anúncio não subestima o senso de humor feminino e ainda gera cumplicidade entre as consumidoras e a marca.

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Aerie – Xô, Photoshop!

A marca de lingerie Aerie lançou no ano passado a campanha #AerieREAL, na qual nenhuma das fotos do catálogo sofreu qualquer retoque de imagem. Ao escolher modelos cujos corpos fogem do padrão imposto pela indústria da moda e eliminar o uso de Photoshop, a Aerie aposta em uma comunicação mais simples e honesta que, por si só, já é super bacana, mas que ainda gerou uma repercussão incrível com a viralização da iniciativa. Além disso, é que qualquer usuária da marca pode enviar fotos utilizando peças da Aerie para o site da loja, criando um catálogo incrível que torna toda mulher uma modelo da marca.

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Cover Girl – Garotas podem, sim!

As marcas de cosmético gringas fazem esforço para mostrar como a maquiagem deve ser utilizada como uma maneira de expressar a personalidade feminina, e não para atrair o sexo oposto como se essa fosse a única preocupação da mulher. Em 2012, Revlon fez uma campanha com a Halle Berry e a Emma Thompson falando sobre câncer de mama. No ano seguinte, a campanha #ShineStrong, da Pantene, falou sobre como as mulheres são rotuladas de maneira mais crítica que os homens ao adotar os mesmos comportamentos que eles. A Dove, pioneira em retratar “mulheres reais”, continua seus esforços em ajudar mulheres a encontrar sua real beleza e lançou um vídeo de três minutos sobre a importância das selfies para a autoestima feminina.

O vídeo em destaque, porém, é da Cover Girl, que convidou famosas que arrasam em áreas em que as mulheres costumam ser convencidas de que não têm acesso. Com a hashtag #GirlsCan, elas partilham suas experiências como comediantes, esportistas e roqueiras de sucesso em um mundo no qual é comum ouvir que mulheres não são engraçadas, nem fortes, etc. Elas aconselham as espectadoras a ter coragem e encarar cada “não” como uma chance de provar que elas podem, sim, fazer o que quiserem! Outro ponto positivo da Cover Girl é a diversidade na escolha das garotas-propaganda. Entre elas, estão Queen Latifah, Ellen Degeneres, Janelle Monae, Pink, Becky G e Talia Joy Castellano (uma menina de 13 anos que lutou contra o câncer).

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XjJQBjWYDTs]

Always – Fazendo coisas como uma garota

A marca de absorventes Always resolveu mostrar como a expressão “como uma garota” é utilizada de maneira pejorativa. Ela convidou voluntários que deveriam simular a execução de tarefas simples como correr, mas com a ordem de fazê-las “como uma garota faria”. Participantes de ambos os sexos adotavam trejeitos desengonçados e fúteis, mas em seguida são questionados sobre por que agiram assim. A reflexão gerada os leva a repensar como essa atitude ofende as mulheres e que fazer as coisas como uma garota não é um sinal de incapacidade.

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Duloren – Pelo direito de amar a si mesma

A Duloren é conhecida por suas campanhas de conteúdo picante. Neste ano, resolveu mostrar que é possível uma mulher ser feliz sozinha em pleno dia dos namorados. Com peças com o título “Eu me amo” e imagens sugestivas, faziam referência à masturbação feminina. Conceito ousado que gerou polêmica e uma notificação do CONAR, mas cuja repercussão, em geral, foi positiva ao incentivar as mulheres a conhecer o próprio corpo.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=NEcZmT0fiNM]

HelloFlo – Menstruação com humor

Dá para fazer propaganda de absorvente sem líquido azul, roupa branca colada, mulher feliz pulando ondinhas e outros clichês que tratam da menstruação como algo misterioso que não pode ser nomeado? Dá. A HelloFlo, com um approach leve e bem-humorado, mostra a história da menina que finge menstruar pela primeira vez. Sua mãe, sabendo da mentira, faz uma festona para celebrar a menarca e tirar sarro da filha.


Arte: Leah Goren

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olga bonitice

olga bonitice

A atriz Kristen Stewart constantemente vira alvo de críticas por não ter o hábito de sorrir em fotos. Alguns dizem que é ruim para os negócios e que ela contribui para que a indústria e o público em geral a percebam como uma pessoa antipática. Sua aparência séria a faz parecer infeliz, dizem, ainda que mesmo sem mostrar os dentes ela seja considerada uma das mais belas atrizes de Hollywood. Em uma entrevista para a Vanity Fair, ela comentou o assunto:

“Eu tenho sido muito criticada por não estar com uma aparência perfeita em todas as fotos. Eu aguento muita merda por isso. Mas isso não me envergonha. Na verdade, tenho orgulho. Se eu saísse perfeita nas fotos o tempo inteiro, as pessoas que estivessem no mesmo ambiente que eu, ou no tapete vermelho, pensariam ‘Como é falsa!’. Esse pensamento me envergonha tanto que eu fico com cara de merda em metade das fotos, mas que se foda. O que importa pra mim é que as pessoas saiam dali e digam, ‘Ela era legal. Ela se divertiu. Ela foi sincera.'”

A honestidade da atriz diante das lentes inspirou um artigo do The Grindstone que defendeu seu direito de não sorrir o tempo todo. Afinal, o seu trabalho não é o de aparentar felicidade em entrevistas e tapetes vermelhos, mas interpretar personagens da melhor maneira possível. Contanto que seja ótima nos papéis que aceitar, pouco devia importar a forma como posa para fotógrafos e paparazzi.

Principalmente porque, da ala masculina, isso não é cobrado. O artigo cita James Franco, que quase não sorriu quando foi apresentador da cerimônia do Oscar em 2012. Além disso, é muito comum que atores não sorriam em pré-estreias, e nem por isso achamos que estão aborrecidos com alguma coisa. Eles estão isentos do que eu gosto de chamar de a cultura da bonitice: a constante obrigação feminina de estar sempre bela e à revelia de suas próprias emoções – que devem, de fato, resumir-se a uma só: a alegria, sempre expressa em um sorriso que, se não constante, deve ser fácil de obter.

Nem mesmo quem está no topo da sua carreira escapa da pressão da cultura da bonitice. Todo ano, um artista é convidado para o show do intervalo do Super Bowl, o maior evento midiático dos Estados Unidos. É a final do campeonato da National Football League e tornou-se um fenômeno tão imenso que o intervalo comercial das partidas é o mais caro do mundo, com marcas desembolsando US$ 4 milhões por 30 segundos no ar. Em 2013, foi a vez da Beyoncé se apresentar.

Ser escolhido para cantar no Super Bowl é um ponto alto na carreira de qualquer músico. Nomes como Diana Ross, os Rolling Stones, Madonna e Paul McCartney já se apresentaram para os milhões de espectadores do Halftime Show. O show da Beyoncé, para 108 milhões de pessoas, foi impecável. Não havia dúvidas de que ela arrasou. Mas nem mesmo tamanha honraria impediu a assessoria da cantora de entrar em contato com o Buzzfeed após o espetáculo, solicitando para que fossem retiradas desta matéria algumas fotos do show que não a favoreciam.

Ou seja: essa incessante busca pela perfeição chega ao cúmulo de que os registros de uma mulher (que após anos de exposição na mídia já nem precisa provar mais nada em relação à sua aparência) dançando, obviamente despreocupada com a maneira como vai aparecer nas fotos e, por isso, fazendo caretas e poses estranhas, sejam vistos como negativos para a sua imagem.

O contra-ataque

Por outro lado, algumas personalidades do show business estão se rebelando contra essa opressão. Em 2011, as atrizes britânicas Emma Thompson, Kate Winslet e Rachel Weisz formaram a  British Anti-Cosmetic Surgery League, ou seja, a Liga Britânica Anti-Cirurgia Plástica, se colocando abertamente contra o uso de botox e outras plásticas para mulheres acima dos 50 anos – intervenções cujo objetivo nada mais é do privar as mulheres de emoções faciais. Emma, a mais velha das três, na época afirmou: “Estamos nesse terrível mundo impulsionado pela jovialidade no qual todo mundo precisa aparentar ter 30 aos 60”.

Elas estão certas. O envelhecimento da mulher é indesejado, especialmente no cinema. Um estudo da Vulture com dez grandes atores de Hollywood  revelou que, nos seus principais filmes nos quais tinham um par romântico, conforme eles iam entrando nos 40, 50 ou 60 anos, suas parceiras em geral se mantiveram entre 20 e 30 e poucos anos.

Outras atrizes, como Jennifer Lawrence e Claire Danes, por exemplo, também já deixaram claro que não se importam com a polícia da beleza. A primeira se tornou um símbolo para muitas mulheres ao adotar uma postura de porta-voz da normalidade em Hollywood. Jennifer sempre fala sobre o seu amor por comida e não tem medo de usar seu rosto para se expressar. Seus trejeitos já lhe renderam um Tumblr dedicado às suas expressões faciais, o Faces of Jennifer Lawrence.

Já Claire Danes é mais reservada, porém fez questão se posicionar quanto às críticas e à chacota virtual em torno de sua cara de choro. Interpretando a oficial da CIA Carrie Mathison no seriado Homeland, ela constantemente faz cenas em que aparece às lágrimas. A entrega com que interpreta a personagem levam a atriz a ficar com uma aparência que, pela falta de hábito em ver mulheres verdadeiramente em prantos na televisão, causou estranhamento em muita gente.

Ao ser perguntada sobre a polêmica pela revista Glamour, Claire deu risada:

“Bem, é verdade, ela se emociona bastante. Mas eu acho que, na verdade, os sentimentos são difíceis para as pessoas. Acho que elas ficam desconfortáveis por demonstrações irrestritas de emoções. Mas, sabe como é, esse é o meu trabalho. Eu não tenho esses medos. Eu nunca realmente me preocupei em estar bonita na tela. Simplesmente não é o meu jeito. Estou preocupada é se estou interpretando um belo personagem.”

A modelo Cara Delevingne é mais uma que faz bom uso de sua popularidade para questionar os padrões estabelecidos. O movimento que ela está fazendo com suas selfies cheias de personalidade no Instagram e com a sua maneira despojada de lidar com as câmeras é comparável ao de Twiggy e Gisele Bundchen em suas épocas. Cara não tem medo de ficar vesga, torta e agir de maneira absolutamente divertida. Ela não teme perder contratos ou fãs ao se vestir como um cachorro quente ou fazer caretas. A sua audácia, na verdade, tem sido recompensada com mais empresas que desejam ter a personalidade da moça associada às suas marcas e projetos. “Eu tento ser real e manter a minha vida real. Não espero que ninguém ache que sou perfeita, porque eu não sou”, já declarou.

Esse cobrança, porém, não está restrita ao show business. Não importa se a mulher é recepcionista ou CEO de uma grande empresa: o mundo espera que ela sorria e ostente o tempo todo aquela aparência “natural” que somente uma miríade de recursos artificiais podem proporcionar. Até porque natural de verdade é ter rugas, olheiras, espinhas, dobrinhas, caretas, linhas de expressão, pés de galinha, bigode chinês, frizz no cabelo, sobrancelhas grossas (ou finas!), cílios pequenos e tantas outras coisas que as mulheres são ensinadas a esconder com técnicas que aprendem a aceitar como rotina desde a adolescência – e, em alguns casos, até da infância.

A revolução das caras-lavadas

O lado bom é que esse cenário está mudando. Nos últimos anos, além do surgimento de celebridades que se declaram abertamente contra os padrões de beleza,  a internet deu espaço para que a insatisfação feminina com a obrigação de estar sempre impecável tomasse forma de movimentos que ajudam as mulheres a despertar quanto a essas imposições sociais.

Recentemente, a Leandra Medine escreveu um post com os motivos pelos quais ela não usa maquiagem. Ela tem um blog, que já virou livro, chamado The Men Repeller, cuja proposta é vestir-se de maneira “ofensiva” que resultará em repelir os membros do sexo oposto. Ela defende a liberdade feminina de vestir o que quiser sem se preocupar se isso vai atrair os homens ou não. É a moda que não necessariamente valoriza o corpo da forma como estamos acostumadas a entender essa valorização, mas que representa e dá destaque à personalidade da mulher. Em seu texto, a Leandra declara: 

“A razão pela qual eu não uso maquiagem é porque sou preguiçosa. E não me leve a mal – eu sou sou tão otária pelo mais novo ‘creme anti-idade milagroso’ quanto qualquer um. Só porque eu não uso lá muita maquiagem não quer dizer que eu não acredito em uma pele bonita (…) Ainda mais importante que isso, eu estou confortável com a minha aparência. Eu não odeio o que vejo quando olho no espelho. Mesmo que legiões não concordem. Eu aceitei o reflexo que me é fielmente devolvido por seus bônus e suas falhas. Eu sei que há grossas olheiras sob meus olhos. Aprendi a apreciá-las. Eu notei que meu nariz vai ficando um pouco mais torto quase que mensalmente. Tudo bem. Eu sei que há rugas prontas para tomar seus lugares como residentes de longo prazo na minha testa a qualquer momento. Meu pai também tem dessas, e eu acho cativante.”

Abrir mão da maquiagem está se tornando uma forma de retomar a liberdade feminina de mostrar o seu rosto como ele é, limpo, e não sentir vergonha por isso. O blog Girls With Style lançou a campanha Terça Sem Make, em que as leitoras postam selfies sem maquiagem. A ideia é não usar maquiagem às terças-feiras e registrar o feito nas redes sociais usando a hashtag #terçasemmake.

Nuta Vasconcellos, jornalista de moda e uma das criadoras do GWS, contou que a repercussão da campanha tem sido positiva. “Descobrimos que tem muita mulher querendo quebrar esse ciclo. Muitas garotas postam suas fotos no Instagram só com a hasgtag, mas muitas dividem também as suas histórias. E ficamos super emocionadas ao nos darmos conta de quanto esses pequenos movimentos fazem grandes transformações.”

Entre as histórias compartilhadas, está a da moça cujo próprio namorado nunca a tinha visto sem maquiagem. “Ela acordava antes dele pra se maquiar”, revela Nuta. Outro caso marcante foi o de uma garota com muitos seguidores no Instagram que aderiu à campanha e assumiu que tem uma mancha no rosto que ninguém conhecia, pois sempre a escondia com base, corretivo e afins.

Para a blogueira, a maquiagem hoje é muito mais que um acessório de beleza. “Deixou de ser uma brincadeira gostosa e se tornou obrigação. Acreditamos que tudo o que uma mulher NÃO precisa é mais uma regra de como deve ser sou corpo, seu rosto, seu cabelo. Várias empresas tem como norma a funcionária mulher estar maquiada. Faz parte do uniforme. Parece besteira, mas a mensagem por de trás disso é muito forte. É como dizer que uma mulher não está apresentável sem maquiagem.”

Dessa forma, elas acabam entrando em um ciclo vicioso. Além do trabalho, nos fins de semana também querem estar bonitas (= se maquiar) para sair, ver os amigos e namorar, e assim a maquiagem se torna uma rotina diária. “A pele nunca descansa, nunca respira e o mais grave: você passa a cada dia se achar mais e mais feia sem make, afinal, você quase nunca está sem”, enfatiza Nuta.

Vale lembrar que o Girls With Style e a #terçasemmake não querem acabar com o uso desse recurso. “Não somos contra a make! Também usamos e amamos, o que somos contra é a escravidão. Essa obrigação de estar maquiada para estar ‘apresentável’ caso contrário vão te perguntar se você está doente ou dizer que você está pálida.”

Até porque a maquiagem pode, sim, ser uma grande aliada na busca da auto-estima. A marca de comésticos Dermablend lançou uma interessante campanha na qual convidou duas mulheres,  Cheri Lindsay e Cassandra Bankson, que sofrem de vitiligo e acne severa, respectivamente, para contar suas experiências com a maquiagem. Ambas falaram sobre como o uso dela as ajudou a conquistar uma aparência que as deu mais confiança. No vídeo, Cheri diz: “Escolhi buscar uma alternativa. Algo que pudesse colocar no meu rosto e ajudasse as pessoas a ver além do choque inicial de ‘oh, o rosto dela é branco, mas ela é uma garota negra!’, algo que as fizesse literalmente ver através disso e enxergar quem eu sou como pessoa. Isso me tornou uma pessoa mais acessível.”

Outro movimento da internet que está revertendo a lógica da bonitice são as uglies, selfies que retraram as mulheres fazendo uma cara bem feia – a pior que conseguir, se possível. O fato é que tirar uma boa foto de si mesma dá muito mais trabalho do que parece. São muitas tentativas e erros até que se encontre a iluminação, o ângulo e o look almejados. Foi com uma certa insatisfação com esse compromisso que nasceram as uglies. O Tumblr Pretty Girls Making Ugly Faces, por exemplo, reúne uma coleção de fotos de seguidoras que toparam o desafio de fazer uma selfie perfeitinha e uma bem feia. As duas são colocadas lado a lado, fazendo um antes-e-depois. Pode ser enviada só a foto com careta também, contanto que ela esteja bem caprichada.

Por trás dessas iniciativas, reside uma mensagem muito forte: a de que as mulheres estão cansadas, mas não se importam mais de parecer cansadas. Atrás de cada sorriso, de cada camada de base e de cada picadinha de toxina botulínica está escondido um desejo de agradar aos outros que custa às mulheres tempo, dinheiro, energia e um enorme desgaste emocional.

Mas a cada uglie, a cada #terçasemmake e cada vez que uma mulher busca a liberdade de ser quem ela é e encontra beleza nisso, estamos enfraquecendo a intensidade dessa tirania e ficando menos cegas para o fato de que a única verdadeira necessidade que temos é a de ser feliz. E para satisfazê-la talvez seja preciso perder menos tempo com maquiagens, sorrisos forçados e emoções escondidas para agradar os outros, e mais tempo tentando descobrir como agradar e ser fiel a si mesma.


 

Ilustração: Laura Callaghan

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mapa cdff

mapa cdff

Quais são os locais mais perigosos para as mulheres? Que tipo de violência elas sofrem em cada cidade? Existem poucos dados que ajudem a responder essa pergunta, mas a campanha Chega de Fiu Fiu, que luta contra o assédio sexual em locais públicos, quer tentar agora desvendá-los. Para isso, está lançando o Mapa Chega de Fiu Fiu, uma ferramenta colaborativa para mapear os pontos mais críticos de violência contra mulheres no Brasil. Cada uma pode registrar o caso e o local da violência que recebeu. Com isso, as próprias vítimas ou testemunhas das agressões vão, unidas, nos ajudar a levantar esses dados.O mapa conta com as seguintes categorias: assédio verbal, assédio físico, ameaça, intimidação (stalking), atentado ao pudor (masturbação em público), estupro, violência doméstica, exploração sexual. Acreditamos que para se discutir violência de gênero devemos contemplar também as interseccionalidades. Por isso, acrescentamos racismo, homofobia e transfobia como categorias.

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Como funciona?

– Ao acessar o mapa, o usuário clica nos botões “compartilhe sua história” ou “denuncie o que viu”. Na etapa seguinte, procura o endereço onde a violência ocorreu e marca um pin. Como a ferramente utiliza o Google Maps, a localização pode ser bastante específica. Se o usuário não se lembrar do número específico da rua, pode ajustar a altura da localidade manualmente com o mouse.

– Há um espaço para desenvolver detalhes do ocorrido. Caso tenha recorrido a amparo público ou privado sem sucesso, solicitamos à vítima que notifique no testemunho. Exemplos: a oficiais da Delegacia da Mulher se recusaram a lavrar o boletim de ocorrência; os seguranças e proprietário de uma casa noturna negaram prestar auxílio.

– Contamos também com um pequeno questionário sócio-econômico, baseado no questionário do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nenhuma das opções é obrigatória (a resposta automática às questões é “prefiro não dizer”). No entanto, estimulamos o usuário respondê-las, pois conseguiríamos dados ainda mais específicos.

– Os pins (como chamamos as marcações dos testemunhos) não exibirão nome, nem e-mail do usuário. Tais dados estarão disponíveis somente para os administradores do mapa. Mesmo assim, há a opção de participar anonimamente.

– É possível checar os pins por região. Na home do mapa, há a caixa de busca “pesquise por uma cidade”.

– Os números gerais são acessíveis a todos e podem ser exportados na seção Dados.

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Por que um mapa?

Nossa proposta de registrar os locais problemáticos do Brasil relativos à violência contra mulher não é podar ainda mais a liberdade das vítimas e apontar espaços públicos e privados onde ela não deve ir. Nosso olhar, na verdade, é o de transformação. Ao conhecer esses pontos críticos, podemos entender o motivo que os levam a assim ser: é uma rua com iluminação escassa? É uma casa noturna com segurança falha? Somente compreendendo tais questões é que podemos buscar mudanças – e não apenas no setor privado, mas também no público. Sim, com dados na mão podemos pressionar também instituições governamentais a olharem com mais atenção para a violência contra a mulher.

Precisamos de você

Os dados só terão impacto se forem representativos e corretos. E para conseguirmos essa relevância, precisamos da participação constante dos usuários. Participe, divida sua história, divulgue o mapa. Sua contribuição é muito importante – para você e todos que lutam contra a violência de gênero.

Denuncie

O mapa não substitui denúncias oficiais de violência contra a mulher. Pedimos que denunciem também nas Delegacias de Defesa da Mulher e na Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180. A Secretaria de Políticas para as Mulheres também recebe depoimentos nos seguinte e-mails: ouvidoria@spm.gov.br e spmulheres@spmulheres.gov.br.

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olga dieta

A vida tem dessas. Por uma razão ou outra, a gente engorda. Lentamente, de repente. A criança gordinha engorda mais ainda, a magrinha muda de figura. A mãe dá à luz e não recupera o peso e a atleta que engorda ao parar de treinar – ou mesmo treinando. Acontece.

Acontece. E quando menos percebe, você está lá, se escondendo na hora da foto com os amigos, evitando ir à praia. Querendo sair para pedalar, mas se sentindo feia nas roupas de ginástica. Adiando a compra de roupas novas até a perda de peso. Deixando um bom pedaço da vida pra depois – depois, quando o peso baixar.

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E aí você se motiva, faz uma dieta. Perde um pouco de peso, compra umas roupas novas. Recebe muitos elogios. Mas, antes de chegar ao peso que você queria, acaba engordando de novo. Você fica frustrada, se sentindo miserável. Não se reconhece no espelho, pensa que a verdadeira “você” está ali debaixo das dobrinhas, daquela zona de conflito ao redor da cintura. Você tem receio de começar outra dieta e falhar novamente. Mas a família enche o saco, as amigas estão sempre falando de dieta. Você sente a pressão. Então você tenta de novo. E o ciclo se repete. Algum emagrecimento, vontade incontrolável de comer certos alimentos, episódios de perda de controle, ganho de peso, reinício da dieta. Para 95% das pessoas, a perda de peso que advém desse ciclo não é duradoura. Muitas ganham mais peso do que tinham no início. Por quê?

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A verdade é que não foi você quem falhou. Sim. A dieta é quem falhou com você. As pessoas que disseram que perder peso era simplesmente questão de disciplina e força de vontade é que falharam com você. Ninguém disse que seria tão difícil, ninguém disse que as taxas de sucesso eram irrisórias. E, principalmente, ninguém disse que não era necessário. Que, em termos de beleza, tem espaço pra todo mundo, todo tipo de corpo. E que, em termos de saúde, dá pra ser saudável em qualquer tamanho. Por que ninguém disse nada disso? É uma boa pergunta. Uma das respostas possíveis é que muita gente lucra em cima da insegurança das pessoas, de vender soluções para problemas que não existem. A indústria da dieta movimenta pelo menos 6 bilhões de dólares por ano.

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Para investigar essa forma de ver a questão – uma mudança de paradigma em que a obesidade deixa de ser doença e em que ser gordo deixa de ser o problema – é que escrevi a reportagem Chega de Dieta, matéria de capa da revista Vida Simples, edição 139, de dezembro. Queria entender um pouco mais sobre a nossa relação com o peso e porque é tão difícil, afinal, controlá-lo. As descobertas foram surpreendentes. Tão surpreendentes que, junto com a reportagem, decidimos lançar uma campanha: #chegadedieta. Porque o primeiro passo para a gente se cuidar mais, e ter mais saúde, é sair do ciclo danoso das dietas.

Olga Vida Simples Chega de Dieta

Algumas das coisas que descobri na reportagem:

Não é preciso ser magro para ser saudável. Muitas pessoas acima do peso ou obesas têm índices excelentes de saúde. Pesquisas mostram que os hábitos, como comer bem e se exercitar, são mais importantes para a saúde do que o peso em si.

Dietas não adiantam. Cerca de 95% das pessoas que fazem algum tipo de dieta – qualquer tipo, das mais mirabolantes às mais sensatas – recuperam o peso em até cinco anos. Dietas funcionam bem para perder peso no curto prazo. Mas, no longo prazo, quase todo mundo ganha o peso de volta.

Dietas podem fazer você engordar. A maioria das pessoas que faz dieta não recupera apenas o peso que perdeu, mas mais um pouco. As dietas bagunçam o mecanismo de regulação de peso do nosso corpo, o “setpoint”, e por isso podem fazer com que engordemos mais do que antes.

Dietas fazem mal. Elas são associadas com várias doenças que dizemos ser causadas pela obesidade, como hipertensão, diabetes e doenças coronárias. Algumas fazem mais mal que outras, e quanto menos individualizadas e mais radicais forem, pior.

A privação é irmã gêmea da compulsão. Se a gente se proíbe de comer algo ou restringe a alimentação, isso gera um desejo incontrolável por essas comidas. O pensamento de que alguns alimentos são “bons” e outros são “ruins” em si é sempre prejudicial.

Ouvir nosso corpo é importante. Se tem algo que podemos dizer sobre nutrição e saúde é que cada corpo é único e tem suas peculiaridades. Alguns alimentos farão bem a algumas pessoas e muito mal a outras. É importante ouvir o corpo, nos apercebermos dos sinais dele, principalmente os de fome e saciedade.

Ser gordo não é moralmente errado. Nós julgamos severamente as pessoas gordas, como se fosse uma escolha ser gordo, como se fosse uma questão de força de vontade. Ainda que fosse – e não é – ninguém teria o direito de nos julgar, avaliar e criticar por isso. O mesmo vale para as pessoas magras – não é bacana julgá-las, ou ao corpo delas.

Ninguém precisa ser saudável se não quiser. Não é da conta de ninguém dar palpite sobre nossa saúde, sobre como levamos a vida. Se, mesmo sabendo que exercícios e uma alimentação mais equilibrada ajudam a melhorar a saúde, você não quiser adotar esses hábitos, a escolha é só sua, de mais ninguém.

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Tem isso – e mais um monte de coisas, como a relação – muitas vezes emocional – que estabelecemos com o alimento. Para modificar a relação que temos com a comida, e com o peso, o primeiro passo é sair desse ciclo: chega de dieta. Aquele número na balança não diz nada sobre você, seu valor, sua saúde. Aceitar-se, entender que tudo bem ter o corpo que se tem, é mais importante. Vamos nos libertar da balança, parar de odiar nosso corpo. E, então, abrir espaço para uma vida mais feliz, com mais auto-aceitação, auto-compaixão. O único peso extra é a culpa.


Jeanne Callegari é editora-assistente da revista Vida Simples e está tentando, cada vez mais, ter uma relação mais pacífica com o peso e a comida.

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olga katia mari

Os depoimentos a seguir mostram que, apesar dessas mulheres estarem em lados diferentes do espectro do peso, suas vivências são parecidas. E as dores também. A partir daí, percebemos que o problema não é o formato do nosso corpo e sim os julgamentos e a necessidade de nos enquadrarmos em uma perfeição inexistente.


Kátia Kohane, estudante de história na USP, é autora do blog Diário De Uma Magra

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A ditadura da beleza não poupa nenhuma mulher, e comigo não foi diferente. Sofri pressão por não usar maquiagem, não alisar o cabelo, ter seios pequenos, por não me depilar, por causa da acne e um sem-número de outros. Porém, passei por uma situação menos frequente e pouco discutida: uma avalanche de críticas por ser magra “demais”.

Minha família é toda bastante magra, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Apesar disso, meus pais me levaram, desde a minha infância, para diversas especialidades médicas em busca do motivo de eu ser tão magra. Lembro de estar na ala pediátrica do hospital, onde me entretinha com vários ursinhos pintados nas paredes, cada qual com seus pares de balões de festa, aguardando o diagnóstico que iria me salvar. Eu tinha que ter vermes, baixa absorção de nutrientes, hipertireoidismo, alguma coisa que justificasse o meu sub-peso.

Era só descobrir o que era, que eu estaria justificada e legitimada, e só bastaria tomar alguns remédios, que o escárnio das pessoas passaria. Mas os diagnósticos de todos os muitos exames que eu fiz ao longo da minha infância e início da adolescência foram unânimes: a minha saúde era perfeita.

Na escola, não faltaram apelidos, gozações e críticas. Gente supostamente muito, mas muito bem-intencionada, preocupada exclusivamente com a minha saúde, vinha me fazer as perguntas e os comentários mais invasivos. Usava calças extras por baixo do uniforme e, sobretudo, comia. Comia muito, toda a junk food que podia encontrar.

Fui bastante acusada de ter anorexia. Isso mostra a falta de empatia que a sociedade tem por mulheres e meninas anoréxicas: quando suspeitavam que eu tinha anorexia, eu precisava me defender da acusação de que estava doente. Eu tinha que mostrar que era assim mesmo, que era natural, que estava tudo bem! Se fosse preocupação com a minha saúde, por que não me ofereceram psicólogo, psiquiatra, ajuda para conversar com os meus pais a respeito? Ter anorexia é estar errada e merecer ser punida, criticada, debochada. Não surpreende que tantas jovens morram sem jamais procurar ajuda.

Nunca tive a doença, mas com tantas acusações resolvi pesquisar sobre o assunto. Descobri tudo o que podia e achei que comer em público e com freqüência afastaria a suspeita, mas estava enganada. As pessoas, como antes era o meu caso, não sabiam o que a anorexia é. Dar demonstrações, que para quem entende do assunto são claras, de que eu não era doente não adiantava, porque essas demonstrações que para qualquer pessoa minimamente bem informada provariam que eu não era anoréxica, para o senso comum simplesmente não eram compreendidas.

O lado bom é que com tudo isso me aproximei de garotas anoréxicas e bulímicas, senti uma profunda solidariedade e, com isso, consegui ser útil a algumas delas. Luto para que o movimento feminista as inclua em suas reivindicações, como já faz com as mulheres que se recusam a tentar emagrecer.

Um caso que me marcou foi já no Ensino Médio, quando eu ouvia comentários diários de um rapaz a respeito dos meus braços serem finos. Comecei a usar a jaqueta do uniforme da escola todos os dias, inclusive no calor, e tive que ouvir dele que eu estava sendo “ridícula”, que eu não deveria ligar com o que “os outros” pensam. Quem seriam esses outros – ele e mais quem? Porque eu é que tinha a obrigação de não me importar – não era ele quem tinha a obrigação de não fazer comentários negativos sobre o meu corpo, dar risada, expor isso para as nossas amigas em comum.

Já ouvi que estava no curso certo, o de história, porque “quem gosta de osso é arqueólogo”, que eu sou uma “árvore seca” e que nunca vou poder ter filhos, que não preciso de guarda-chuva porque posso desviar dos pingos, que não sirvo nem para limpar os dentes já que daria um palito muito fino, para não falar em várias coisas repetitivas, como “tem garota de 12 anos que é mais mulher que você”, “mulher é que nem churrasco, pra ser gostosa tem que ter uma gordurinha”, “parece aquelas modelos famintas”, “parece aquelas crianças que passam fome na África”, etc.

Antes que vocês perguntem, eu tenho 1,63m e peso 42kg.

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Resisti ao bullying escolar até depois de formada, mas, no cursinho, desmoronei. “Não preciso agradar ninguém, quem quiser me amar vai gostar de mim independente da minha aparência” já não fazia mais sentido diante da pressão do mercado de trabalho para que eu fosse maquiada, alisada, esbranquiçada, plastificada para as entrevistas de emprego, se quisesse passar em alguma delas. E eu queria, eu precisava. Minha família não tinha dinheiro uma universidade particular, e passar numa pública era a minha única chance de ter um futuro melhor.

Foi então que comecei uma saga por modificar cada milímetro do meu corpo – eu já não queria mais ser a coitadinha que não tem onde pegar, que ninguém vai querer, que é um favor beijar, que é osso para dar aos cachorros roerem. Não importa quantos médicos dissessem que a minha saúde era perfeita, ninguém iria acreditar se eu dissesse, não é? Então vamos mudar isso. Recebi todos os diagnósticos de olho que se possa sonhar – anoréxica, bulímica, aidética, portadora de hipertireoidismo, de vermes, mas sobretudo de ruindade. Sou magra de ruim, e meu corpo era um reflexo do meu caráter errado.

Então resolvi ter um aspecto saudável: me entupi de açúcar e gordura, comecei a fumar maconha, comprei abridores de apetite em farmácias de esquina sem receita. Todos começaram a me elogiar, dizer como eu havia mudado, exceto pela minha mãe, que cada dia mais alarmada, certa vez descobriu os remédios que eu escondia no guarda-roupas.

Foi então que meus pais começaram uma maratona, me levando à casa de vários tios e tias, cada um com suas próprias histórias para contar sobre o quanto se arrependiam de ter começado a tomar abridores de apetite, anabolizantes, corticóides de um sem-número de outros para ganhar peso. Eles sabiam que só me contar as suas próprias histórias não bastaria. Com tantos parentes que passaram pelo mesmo me falando das consequências que tiveram de longo prazo, me convenceram a parar. Meu peso caiu quase que para o de sempre, sem que eu tivesse feito o menor esforço para emagrecer. Não havia jeito, era uma tendência genética mesmo.

Hoje faço algumas pequenas coisas por auto-aceitação corporal. Por exemplo, um piercing no umbigo, por conta da minha barriga ser bem chapada (mas nunca negativa!). Estou aprendendo a fazer pulseiras, já que eu nunca encontro finas o bastante para os meus braços – fazer artesanato é terapêutico e eu posso até ganhar um pouco de dinheiro extra com isso. Não evito mais fazer atividade física, e hoje tenho um grande prazer em dançar e pretendo fazer capoeira quando puder.

“Mas não é isso que eu vejo – os homens gostam das magras, só há roupas para elas, não há desfiles com mulheres gordas e assim por diante”. Então você precisa começar a olhar para além dos seus horizontes. Não é em todo o mundo, nem em todos os âmbitos sociais que a sua visão está correta. A ditadura da magreza não é eterna, não é universal e não existe à parte do recorte de classe social.

Ela começou após a revolução industrial, é muito mais forte nos países protestantes do que nos católicos e pesa muito mais sobre as mulheres das classes alta e média-alta do que nas mulheres pobres. Na periferia, magreza é sinônimo de fome, não de academias. De gente que passa necessidade, não vontade. De gente que não come por miséria, não por vaidade. Mulher magérrima e branca é vista como linda, magérrima e negra é vista como faminta e miserável. O padrão de beleza não é o mesmo em todos os setores da sociedade.

Não se esqueça, também, que as mulheres com anorexia e/ou bulimia estão morrendo para serem magras, “princesas, borboletas, plumas, bolhas de sabão”. Morrendo porque acreditam que não podem ser amadas se não forem magérrimas. Chamar elas de feias não é fazer nada que a sociedade não já faça. Xingá-las de “ósseas, esqueléticas, dead girls are skinny, tripas” não acrescenta nada na vida delas, não lhes dá saúde e não diminui os lucros das indústrias de dietas, academias, roupas.

Todo corpo feminino está errado para a sociedade. Que o movimento feminista seja, ao contrário, um espaço em que todo corpo feminino seja respeitado – com ossos mais ou menos aparentes, somos todas mulheres igualmente dignas de respeito.


Mariana Zambon, formada em Letras pela USP, é tradutora, adepta da filosofia de saúde em qualquer tamanho e praticante do amor próprio e defensora da beleza sem padrões.

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Gostaria de deixar bem claro que esse não é um texto sobre saúde ou uma inspiração para alguém que deseja emagrecer, ou uma história de superação, tampouco se trata de um mimimi sobre como seria legal se os padrões de beleza ou de saúde fossem invertidos. É apenas uma série de reflexões sobre o que é, para mim, ser uma mulher gorda.

Gordinha, fofinha, cheinha, plus size… Nenhum desses termos me representa. Eu sou Gorda. Assim mesmo, com G maiúsculo e com todas essas cinco letras pesadas (!). Algumas mulheres se ofendem com esse adjetivo, mas se você parar para pensar, significa apenas uma característica física e não deveria ser um termo tão detestado. Eu não me importo que me chamem de gorda. Mas, nem sempre foi assim tão simples não sofrer com o estigma desse termo.

Após 31 anos convivendo e aprendendo a lidar com o sobrepeso, concluí, a duras penas, que essa palavra pesa muito mais do que os quilos que compõem a minha estrutura física e que o estigma social é mais prejudicial à saúde do que os “perigos da obesidade”.

O que significa ser gorda?

Ser gorda é ruim, ser gorda é ser feia, ser gorda é feio. Por que isso é algo que aterroriza e assombra tanto a grande maioria das mulheres? Eu poderia discorrer a respeito da indústria da beleza, ou dos inatingíveis padrões estéticos que são impostos sobre as mulheres, ou mesmo sobre como isso é apenas mais uma das formas usadas pela sociedade para nos manter sob controle e sempre preocupadas em agradar aos homens, mas não. Quero falar sobre como é ser gorda, sob o meu ponto de vista.

A mulher que engorda é vista como desleixada, como alguém que não cuida da saúde, nem da aparência, até mesmo como perdedora e coitadinha. Ser gorda, na nossa cultura, é estar à margem do que é considerado aceitável e desejável. De modo geral, as pessoas me olham e pensam que bastaria eu fazer uma dieta e um plano de exercícios para ter o corpo ideal. É engraçado como todo mundo se transforma em especialista em nutrição e endocrinologia ao olhar para uma gorda. Ninguém sequer supõe que você já tenha tentado seguir esse modelo e que ele não trouxe muitos resultados, porque a limitada visão de quem nos julga assume que é impossível ser gorda e ser saudável e que se você continua gorda depois de adotar uma alimentação balanceada e praticar atividades físicas, bem, você com certeza está fazendo algo errado ou não é dedicada o suficiente. O que me leva ao próximo tópico:

A Gorda boa versus a Gorda má

A Gorda boazinha é aquela que vive fazendo dietas, que está sempre insatisfeita com o corpo e buscando a redenção através da perda de peso, é aquela que não ousa comer nada que engorde na frente dos outros, não repete os pratos, abaixa a cabeça quando lhe criticam, que sempre se veste de forma a disfarçar o seu tamanho. É a gorda aceitável – sem celulites exageradas, sem estrias aparentes, sexy, curvilínea e voluptuosa. A gorda boazinha é aquela que sempre busca emagrecer e, por isso, tem direito de ser gorda, ou a que é gorda por algum problema de saúde que não foge ao seu controle – hipotireoidismo, por exemplo.

A Gorda má é aquela que não faz nada disso, que sorri ao usar um short curto e mostrar a celulite para o mundo, é aquela que é feliz, se ama, aceita seu próprio corpo e não se preocupa em agradar a ninguém além dela mesma. A gorda má não tem o corpo em formato de violão, não se desculpa por não fazer dietas, repete os pratos, gosta de comer e não esconde isso, não vive em função da aparência e faz suas escolhas de saúde sem levar em conta o que dizem ser certo ou errado. É uma mulher que se libertou da opressão, e que as pessoas não conseguem compreender porque pensam: como é possível alguém ser feliz e encontrar satisfação sem estar buscando o corpo ideal?

Depois de muitos anos sendo a gorda boazinha, eu decidi que estava na hora de virar a mesa e parar de me culpar por existir. Eu sou a gorda má, corram para as colinas! Aqui um exemplo de como as gordas más chocam a sociedade.

A eterna vontade de desaparecer

Eu lutei com a balança a maior parte da minha vida. Fiz todas as dietas que me apresentavam, tomei remédios malucos, fiz reeducação alimentar – que sigo até hoje – pratiquei incontáveis modalidades esportivas e continuo praticando exercícios com frequência. Mas cheguei a um ponto em que a aceitação é o único caminho a ser seguido. Vou falar sobre isso mais adiante.

Na época do colégio, eu desmaiava pelo menos uma vez por semana, por passar fome, para tentar emagrecer. Minha mãe ficou horrorizada com aquilo e me deu uma bronca. Ela me disse que nada justificava eu prejudicar a minha saúde daquele jeito – o que me deixou ainda mais confusa, pois, na minha cabeça de menina de treze anos, eu só poderia ser saudável se fosse magra, como os médicos me disseram. Daí, decidi que eu iria voltar a me alimentar direito, para não desmaiar mais, porém comecei a entender que a comida me fazia voltar àquele tamanho que significava doença, não importava o quanto eu me exercitasse. Eu não conseguia compreender o porquê meu corpo me tratava tão mal e me fazia passar tanta vergonha. Eu me odiava todos os dias, desejava sair de dentro de mim, nascer de novo.

Eu cresci com a noção de que gordas só servem para serem amigas, ou então para uma noite divertida, mas só se ninguém ficar sabendo. É claro que, quando eu me tornei adulta, descobri que tudo isso era mentira, mas o estrago já estava feito e as inseguranças se instalaram dentro de mim, e luto com elas até hoje. Às vezes tenho a impressão de que terei que batalhar contra tudo isso para o resto da vida. Passei longos anos presa à ideia de que existe uma pessoa magra dentro de mim, e que eu preciso libertá-la, e, então, vou poder viver minha vida ao máximo. Mas isso eu também descobri ser uma das grandes mentiras que nos contam quando somos jovens.

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Mulher e gorda, duplamente oprimida

Ser uma mulher gorda é algo que realmente exige muito da gente, emocionalmente falando. Aos catorze anos, me apaixonei platonicamente por um garoto lindo que jogou um balde de água fria na minha cabeça com a seguinte frase: “Sabe, você tem o rosto muito bonito. Se emagrecesse, com certeza eu ficaria com você”. Então, adivinhem o que fiz? Exato! Voltei a desmaiar algumas vezes por mês.

Seria muito maçante continuar contando todas as histórias tristes, sobre as vezes que ouvi de “amigas” que eu não deveria dizer não pra um cara que queria ficar comigo só porque eu era gorda e tinha que aproveitar todas as chances; sobre todas as vezes em que fiquei meio presa na catraca de um ônibus; sobre as vezes que tentei comprar alguma roupa e nada me serviu; sobre todos os dias que deixei de ir à praia por medo de ser humilhada; as incontáveis vezes em que fui abordada na rua com panfletos de clínicas de emagrecimento e produtos como Herbalife; dos dias em que saí para comer e vi pessoas me encarando enquanto eu tentava desfrutar de um sorvete ou alguma comida calórica… A lista é grande!

Gordofobia e a desculpa da saúde

Não importa o quanto você malhe na academia, se a sua alimentação é saudável, ou se você se ama e se cuida, o fato de você ousar ocupar mais espaço no mundo do que a sociedade permite e aceita é motivo para ser odiada. Sendo uma gorda boa ou má, sempre terá alguém pegando no seu pé e dizendo o quanto você precisa perder peso, transformando a sua vida num diagnóstico de doenças terríveis que irão te consumir caso sua cintura não meça menos do que 90 cm.

A gordura é demonizada, a obesidade é muito mais encarada como sinônimo de falta de saúde do que a magreza. Claro que o fato de eu ser gorda tem a ver com esse ponto de vista, mas vamos combinar que há muito mais gente preocupada com a ‘saúde’ das mulheres gordas do que em engordar as magras. E isso tem afetado cada vez mais meninas mais jovens, que aderem a todo tipo de projetos verão e se matam (literalmente) para tentar alcançar os objetivos de saúde. Cada vez mais pessoas, em especial as mulheres, entram em depressão por se sentirem inadequadas e culpadas por não conseguirem emagrecer.

Ao contrário do que se pensa, ridicularizar a gordura e torna-la a principal vilã da saúde não fará com que os gordos deixem de ser gordos, isso é algo que só aumenta o estigma e complica ainda mais a vida de quem já passa por tanto constrangimento.

Ser gorda é ruim, mas eu gosto

O que eu quero que você saiba é que eu não me importo em ser gorda. Eu gosto das minhas dobras, do meu rosto redondinho, da maneira como meu corpo preenche um vestido ou uma calça, do meu umbigo grande e da minha barriga positiva. Mas nem sempre foi assim e, ainda que eu me goste muito e procure me cercar de aceitação e positividade, existe dentro de mim o fantasma da inadequação. E esse eu acredito que não seja um companheiro apenas das gordas, mas de todas as mulheres.

Lembra que eu disse que voltaria a falar sobre aceitação? Hoje, a comunidade do “fat acceptance” (algo como aceitação da gordura, em português) tem crescido muito e isso tem me ajudado a me empoderar e aceitar como mulher e gorda. Blogs como The Militant Baker, GabiFreshEntre Topetes e Vinis, o trabalho da Negahamburguer, todas essas lindas me ajudam a seguir nessa batalha diária contra os pensamentos aos quais fui exposta a vida toda. Elas me mostram que é possível sobreviver a tudo isso.

Todos os seres humanos têm direito à felicidade. Ter uma vida digna, feliz, completa e satisfatória não deve depender do formato do seu corpo. Aceitar quem você é não é se conformar com o que vê no espelho e achar que “tudo bem” ser daquele jeito ou achar que alguém vai te amar “apesar de”. Se alguém te ama, não tem essa de “apesar de”, e sim “por causa de”. Aliás, isso também vale para o amor próprio. Então, aceitar a mim mesma significa que seja lá qual o corpo que eu tenha, a condição em que me encontre, eu estarei de bem comigo mesma. É isso o que me mantém viva e disposta a lutar para acabar com os preconceitos que existem por aí com relação a ser uma mulher gorda.


As ilustrações, feitas com carinho especialmente para este post, são da artista e designer
Vanessa Kinoshita.

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Eu sempre fui a gordinha da turma. Até quando era magra, sempre tive formas e, talvez por ser baixinha, sempre fui mais larga que as outras meninas. No balé, eu era a das coxas grossas. No vôlei, tinha braço grande. No colégio, era a “gorda, baleia, saco de areia”. Como toda criança crescendo, essas diferenças foram moldando minha personalidade. Eram olhares e palavras maldosas, cada uma a sua maneira, querendo dizer: você tem que ser magra. Crescer em um mundo onde as pessoas sempre esperam que você seja outra coisa que não você mesma é assustador. Felizmente, sempre tive apoio em casa e elogios nunca me faltaram para equilibrar o que eu não tinha fora. Em casa, eu cresci ouvindo que era mais importante ser boa do que ser bonita – mas que vaidade não matava ninguém. E isso me ajudou muito a criar uma barreira lógica contra críticas. Mas a adolescência chega para todo mundo e, com ela, uma vontade irrefreável de se encaixar, de “ser legal”.

Francamente, até a adolescência, ser a gorda nunca me pareceu ruim. E foi lá, aos 14 anos, quando comecei a tomar um remédio para espinhas, cheio de efeitos colaterais psicológicos, que me esqueci por algum tempo o que era importante de verdade. De repente, a vida só tinha sentido se eu fosse magra e nada mais importava – um sentimento semelhante, imagino, ao de quem tem anorexia e bulimia. Se eu fosse magra seria legal, seria desejável, seria popular, teria amigos, sairia para baladas, seria finalmente igual a todas as outras meninas. E foi assim que passei os 2 anos mais infelizes da minha vida. Anos aos quais eu não gostaria de voltar jamais.

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Fiquei magra, sim. Cheguei a vestir 36 – hoje visto 50. Mas passar todas as horas do dia tentando me transformar em uma coisa que eu não era me tornou uma pessoa tão amarga e tão fechada no meu próprio mundo, que nenhum dos benefícios de ser magra foi conquistado, a não ser o de entrar em uma calça menor. Depois de parar o remédio e me recuperar, me fortalecer psicológicamente, comecei a analisar a situação pela qual passei. Amigos de verdade só querem o seu bem, independente do número da sua calça. Relacionamentos não se sustentam pelas aparências – aliás, amor tem mais a ver com o que tem dentro do que o que tem por fora – e é muita futilidade acreditar que alguém deve te amar pela sua aparência. Enfim, o colégio acabou, entrei no cursinho e na faculdade e descobri a diversidade da vida. Sair da sua bolha, pode ser uma experiência maravilhosa. Fanáticos por religião, drogados, depressivos, hedonistas, indecisos, mau caráter… Cada um com uma personalidade e com um corpo diferente e ninguém, absolutamente ninguém, igual. Pensei “Graças a Deus, aqui sou normal”. Como não tinha um padrão, comecei a descobrir o que de verdade eu gostava. Estilo de música, roupas, hobbies, exercícios, livros, etc. Desenvolvi minha personalidade em cima de tudo que eu me sentia confortável e aprendi a dizer “eu gosto disso” ao mesmo tempo em que aprendi a respeitar quem não gostava e principalmente de quem gostava do que eu odiava.

Eu sempre amei moda e beleza e, desde que me dou por gente, leio revistas femininas. Por incrível que pareça, sempre entendi as modelos das revistas simplesmente como manequins, como cabides. Então, sempre achei que moda era para mim também, já que eu gostava e me sentia parte daquele mundo. A minha família também sempre teve uma veia fashion e um faro apurado para pechinchas – vou à 25 de março e ao Bom Retiro desde criança. Sempre me ensinaram a combinar as roupas, a discernir tecidos bons dos ruins, a saber o valor real de uma peça, etc. Quando cresci, para mim era uma conta lógica: preciso de uma roupa bonita e que caiba em mim. Não faço muitas reflexões em cima disso. Aprendi simplesmente a usar truques para adaptar as peças ao meu corpo gordinho. Sem ficar remoendo o fato de meu corpo ser gordo e, sim, me concentrando em como resolver as peças.

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Foi na faculdade, quando eu realmente aceitei e encarei minha personalidade, que comecei a me vestir com personalidade, com a minha personalidade. As pessoas começaram a elogiar minhas roupas e penteados e passaram a dividir suas dúvidas fashion comigo. Pensei: por que não fazer um blog para compartilhar os meus truques? Em momento nenhum eu pensei “blog plus size”. Ele começou como um blog para meninas fora do padrão, que precisavam se valer de pequenos truques para aprender a combinar e vestir moda. A denominação plus size veio só depois e veio das leitoras, não de mim. E foi tão natural, para mim, quebrar essas regras bobas tipo “gorda não pode usar branco” ou “gorda não deve usar listras horizontais”, simplesmente porque eu já usava e as pessoas já elogiavam. Não que eu precisasse dos elogios, mas concorda que se você usa uma coisa e as pessoas gostam, aquilo está bom em você não importa o que as regras digam? Adicione a isto o fato de que eu, Juliana Romano, tenho um seriíssimo problema com autoridades. Odeio que me digam o que fazer e como fazer. Me sinto um macaco de laboratório. Me dê uma limitação e eu lhe mostro como contorná-la. É isso. Eu gosto de criar possibilidades para situações impossíveis. Então se você me disser que gorda não fica bem com um tipo de roupa, eu fico absolutamente motivada a provar que eu sou gorda e que eu posso ficar bem com essa roupa, sim! E acho que foi essa rebeldia que transformou o blog no ”estopim”. As mulheres são tão reprimidas por tudo na vida, que precisavam de um grito de liberdade. Acho que eu consegui despertar uma força que toda mulher tem dentro de si, a vontade de ser livre sabe? De fazer o que bem entender?

Quando eu comecei, não tinha muita coisa sobre esse assunto. Hoje em dia tem um boom do plus size em todos os lugares. Pessoalmente, acho ótimo em partes. São tantos blogs gringos mostrando moda para pessoas fora dos padrões – não só gordas. Os blogs de beleza e as meninas que fazem, também não se encaixam nos padrões. Aliás, se tem uma coisa que já é democrática é a beleza. Todo mundo pode usar tudo! Acho maravilhoso. Algumas lojas, como a Flaminga, por exemplo, tem um quiz para você ver o estilo do seu corpo e um tabela que você preenche suas medidas, para ajudar na hora das compras a encontrar uma peça que vai cair bem no seu tipo de corpo. E não é você que tem que se encaixar na modelagem. As lojas de departamento também têm aumentado a grade de numeração das peças e criado coleções plus. Mas ainda tenho minhas dúvidas se segregar é evoluir. Eu não quero aplicativos, lojas, coleções e etc plus sizes. Eu quero que tudo seja mais abrangente. Eu quero uma grade de tamanhos maior, quero revistas com imagens corporais diferentes, quero que a atriz gorda da novela não faça o papel da gorda, mas que faça qualquer outro papel que exija uma boa atriz como ela. Eu gostaria que o termo plus size deixasse se existir. Aí então teríamos uma moda democrática. Uma sociedade democrática. Aí então, uma mulher que vista acima do 46 deixaria de ser diferente e seria simplesmente normal. Eu visto 50 e não sou mais especial que uma menina que veste 38 só porque sou gorda e como mais. Eu não preciso de uma coleção “especial”.

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Claro, toda evolução exige um processo de mudança e adaptação. Tenho notado um movimento vindo da gringa, de capas com mulheres mais “reais”. Com gordurinhas, barriguinha, flacidez, etc. Embora eu note que é tudo feito com muito medo ainda. Ninguém sabe bem o limite do ofensivo. Quando a gente pode chamar uma mulher de gorda? Quando ela é plus size? É superdifícil por enquanto. Explico: plus size é uma nomenclatura da moda, para classificar peças que estejam acima do 46. Consequentemente, qualquer mulher que use 46 ou mais é plus size. E isso independe de sua aparência ou do seu peso. Já achar que a palavra gorda é ofensiva, é puro preconceito. Se eu estiver falando de uma menina e for descrever sua aparência, vou dizer, por exemplo: “ah, ela é magra, alta, tem cabelos castanhos e pele morena”, certo? Então, porque eu não posso me descrever como “uma gorda, baixa, de cabelos longos castanhos e lisos, com a pele branca”. Por que a minha característica física é ofensiva? Tem todo um pensamento que nos é imposto desde a nossa infância, de que a mulher deve ser magra e por isso a palavra gorda virou ofensa. Mas na verdade é só uma característica e evitar falar a palavra “gorda” é preconceituoso. Já a palavra gordinha, é só um jeito de amenizar o choque que as pessoas levam com a palavra gorda. Eu não me sinto ofendida quando as pessoas me chamam de gordinha, da mesma forma que não me sinto quando me chamam de gorda ou de plus size. Mas que é um jeito de amenizar uma outra palavra que elas acreditam ser ofensiva e que isso carrega uma dose de preconceito, isso sim. Quer dizer, “olha, você está acima do peso, mas eu não te acho tão ruim para te chamar de gorda”. E, desculpa, mas eu não sou menos capaz que nenhuma mulher magra. Eu sou uma mulher inteligente, tenho amigos, um bom senso de humor, um coração mole, fiz faculdade, gosto de ler, gosto de filmes antigos, faço penteados… Eu tenho tantas outras características além do fato de ser gorda, que para mim é ofensivo ser resumida somente ao meu peso e minha aparência. O meu peso e minha aparência são tão pequenos perto da mulher que eu sou…

Peso, aliás, é algo que deixou de me incomodar há 6 ou 7 anos… Quando subi na balança pela última vez! Números podem ser cruéis com a nossa autoestima. Você olha no espelho e roupa está linda, mas aí você lembra seu peso e parece impossível se amar com todos aqueles números. Então hoje eu subo só na balança do médico, virada de costas e peço para que ele mantenha sigilo absoluto daquele valor. Que ele calcule a minha alimentação e o que eu devo fazer para manter minha saúde, mas que só mexa no peso caso seja absolutamente necessário. E para você ver como a mídia e as pessoas usam como desculpa a saúde para impor um padrão: eu visto 50, tenho dobrinhas na maior parte do corpo, peso sei lá quanto e minha endocrinologista (presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, por sinal) diz que eu não preciso emagrecer nada se eu não quiser. Beijos, sociedade, sou gorda e saudável! Qual a desculpa para eu não poder usar o que eu quiser agora, mesmo?!


Juliana Romano, jornalista e autora do blog Entre Topetes e Vinis, desafiou as “regrinhas fashion” de consultoras, stylists e revistas de moda… E ganhou!

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olga perfeicao

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Eu não sou perfeita, é óbvio. O que não é tão óbvio assim é o fato de eu não poder viver a minha imperfeição. Ela incomoda demais. Não a mim, mas aos outros. E quem me fez perceber isso foi a TV a cabo, mãe de todas as procrastinações, a quem me rendi em um dia de concentração zero. Ali, assisti a dois filmes seguidos que me fizeram recordar de um dos meus maiores sonhos de infância: nascer menino. O motivo? Poder viver dentro do gênero que não só permite a imperfeição, como estimula e abraça falhas. Enquanto menina, só me foi apresentada a necessidade de ser pura, elegante, direita… Impecável.

Primeiro foi Valente, animação da Disney que conta a história da princesa Merida. Por preferir caçar de arco e flecha na floresta a e ganhar um sapato de cristal, Merida é vista como rebelde. Tal concepção, propositalmente desacertada, é o centro de um roteiro infantil que nos traz enfim uma protagonista feminina mais real. Tem cabelos bagunçados, postura desajeitada e nenhuma paciência para caber em vestidos apertados. Mas uma princesa não pode viver assim – “e nem rir, pular, correr, gritar”, já avisa sua mãe, a rainha. Merida tem três irmãos mais novos que tocam o terror no reinado. Neles, enxerga a liberdade que gostaria de ter. “Meus irmão se livram de todas as broncas”, diz. “Já eu, não me livro de nenhuma.”

Parece apenas mais um conto de criança, que acontece em castelos de animações Disney e não na sala de estar de nossas casas ou nas pré-escolas por aí. Mas não é verdade. A “maldição da princesa” é repassada para meninas até hoje. Para ganhar a coroa imaginária, aprendemos o nosso lugar, no pedestal, e ali permanecemos imóveis, mudas, delicadas, discretas… Dolorosamente perfeitas. Aprendemos a cruzar as pernas quando sentadas muito antes de entendermos o significado de uma vagina e que um quarto bagunçado não é coisa de “mocinha”. O “não é coisa de mocinha”, por sinal, nos acompanha pela vida, determinando as escolhas das nossas roupas, delimitando nossas experiências com a sexualidade, moderando nossa forma de trabalhar e gerenciar equipes, refreando a maneira como expomos nossas opiniões em grupos…

Em seguida, vi Ruby Sparks. O longa mostra a trajetória de um brilhante, mas solitário escritor que se apaixona por uma de suas personagens fictícias. No filme, uma cena de quase 5 segundos, bastante insignificante ao plot, me fez viajar. O escritor, também bastante atrapalhado, não checa as mensagens do agente, que informava sobre um evento que celebraria seu livro de estreia. Ele aparece atrasado e maltrapilho. No fim da apresentação, reclama: “Eu poderia ter me vestido melhor…”. É quando seu agente responde sem hesitar: “você é um gênio, ninguém vai ligar para a sua aparência”. Uau! Uma verdade – e uma gigantesca regalia – dirigida exclusivamente aos homens.

Independente da genialidade de uma mulher – ou da sua força, influência, conquistas, poder – ela sempre será passível de críticas, principalmente quando se trata de seu visual. Nem a presidenta Dilma, nem a chanceler alemã Angela Merkel, no topo da cadeia política escapam de análises fúteis e irrelevantes sobre suas preferências de moda e beleza. “Ao escolher um aspecto de qualquer candidata mulher para criticar, reflita se você escolheria criticar a mesma coisa num candidato homem. Não parece meio imbecil gostar ou desgostar de Serra ‘porque ele é careca’? Então por que a estética serviria para gostar ou desgostar de uma candidata mulher?”, escreveu Marília Moschkovich, no post Entre Dilma e Marina, Escolha Não Ser Machista.

Já este artigo, realizado em 2007, fala sobre como a forma que mulheres empreendedoras, líderes e presidente de empresas, são retratadas em revistas especializadas. É feita uma comparação entre as publicações Fortune e Exame. A primeira, norte-americana, traz perfis focados no histórico profissional. “As descrições, sem excessos narrativos, consagra o sujeito feminino como empresária eficiente”, relatam as autoras. Já a Exame traz narrativas com histórias pessoas, citações de moda e beleza, referências à maternidade e os cuidados da casa. “Ou seja, ao assumirem postos de comando nas corporações, estas ‘extraordinárias’ ganharam civilização, sem deixar de lado, entretanto, os aspectos castos da sua própria natureza.”

Vale a pena conferir a pesquisa e os exemplos de matérias que ele traz. Quando a Exame fala de Luiza Trajano, quem comanda a rede de lojas Magazine Luiza, faz questão de ressaltar que durante a entrevista ela usava branco, pérolas, que sua voz é suave e seus gestos, delicados. Ieda Correia Gomes, na época presidente da Comgás, ganhou a seguinte descrição no perfil: “metida numa calça jeans e uma blusa decotada estampadinha de flores, essa baiana de 43 anos…”. Pode parecer inofensivo – pois estamos acostumadas a ler ou até mesmo propagar essas alegorias – mas a verdade é que a ideia de empresária da Exame “lembra à mulher o seu lugar tradicional social, o de esposa e mãe”. Aquele imóvel e corretinho, o pedestal. 

a INSURREIção da imperfeição

“Será que as mulheres vão ter, um dia, a liberdade de serem feias?”, pergunta uma matéria do Jezebel. O NY Times trouxe a mesma reflexão, em meados de outubro, com o texto A New Image of Female Authenticity: “Já é possível detectar uma iconografia feminina mais realista, grotesca e defeituosa – de coxas largas e sexualidade nada sexy. De infinita maneiras, mulheres estão clamando por uma liberdade já desfrutada há tempos pelos homens: o direito de ser feia também”. O “feia” em ambas ocasiões, no entanto, poderia ser substituído por “humana”, termo mais simples e direto, já que acho que não estamos (e nem deveríamos) falar apenas de aparência. 

No texto, há alguns exemplos de mulheres famosas que estão conseguindo quebrar essa expectativa da perfeição. E por elas o fazerem debaixo das luzes dos holofotes, um dos lugares mais duros e exigentes com as mulheres, é ainda mais notável. Como a diretora e atriz Lena Dunham, que subverte a noção de feminilidade simplesmente por não se importar com seu peso, com as roupas que escolhe, com sua beleza. “Quando ela joga ping-pong com os peitos de fora, claramente ela não está tentando tentando atingir os homens como público-alvo. Ela faz essa cena APESAR deles”, escreve Anand Giridharadas, no NY Times. “E o infame twerking de Miley Cyrus (…) foi uma performance nada bonita sexualmente que era mais algo vindo dela mesma do que feito PARA alguém.”

Com essas pequenas transgressões ou ações que os críticos consideram de mau gosto, essas mulheres estão apenas lutando pelo direito de serem tão estranhas e imperfeitas quanto qualquer um dos grandes atores, escritores ou gênios homens. Estão criando cenas que elas mesmas gostam, e descartando a opinião em relação ao que se espera delas. Como bem li outro dia por aí: nada mais radical para uma mulher do que sair de casa com o cabelo despenteado.

Ilustração: Leah Goren

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No começo de outubro, a revista Marie Claire publicou em seu site uma foto da modelo Izabel Goulart de biquíni. No título, diziam que ela exibia um “corpo perfeito”. Não é de espantar que a matéria tenha causado alvoroço nas redes sociais: quando uma publicação feminina rotula um corpo magro como “perfeito”, está estabelecendo um padrão de beleza. E isso, como sabemos, gera uma ansiedade pela busca da “perfeição”, que pode ter consequências graves como bulimia e anorexia. Além do mais, não existe corpo perfeito.

Infelizmente, a revolta não foi direcionada à Marie Claire e ao uso irresponsável do adjetivo “perfeito”, mas sim à modelo. O corpo de Izabel Goulart foi chamado de “horrível”, entre outras coisas muito mais grosseiras. Ela foi acusada de ser anoréxica (e até de aidética e tuberculosa por alguns). Não faltava gente para dizer que ela deveria ter mais isso ou menos aquilo, para fazer piadas, ou para dizer que o corpo de Izabel não satisfazia às expectativas sexuais dos homens (a velha máxima de “tem que ter onde pegar”).

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Essa atitude também é conhecida como body shaming, expressão usada para definir os comentários negativos em relação ao corpo de outrem (no caso, mulheres). O curioso é que, na vontade de reprimir alguém que supostamente estava envergonhando os corpos gordinhos ao classificar a magra como perfeita, acabou-se fazendo a mesma coisa: detonando o corpo magro e classificando a “gostosa” como ideal de beleza.

Na tentativa de criticar o corpo alheio, a saúde é um dos argumentos mais usados. Do mesmo jeito que dizem que o problema da gorda é não ser saudável, as magras são tachadas de doentes, numa brincadeira de médico sem nenhuma graça. À exceção de casos extremos, não dá para julgar a saúde de uma pessoa apenas por uma foto.

Quem também sofreu com esse julgamento foi a cantora Fiona Apple. Em um show em Portland, ela expulsou uma garota que gritou: “fique saudável! Queremos te ver daqui a 10 anos. Eu te vi 20 anos atrás e você era linda”. Fiona saiu do palco aos prantos. Afinal, essa liberdade que muitos acreditam ter de criticar e/ou diagnosticar o corpo alheio machuca, e muito.

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Lutar para que as publicações femininas estampem em suas páginas uma maior diversidade de corpos e que não tentem definir a perfeição feminina é válido e necessário. Mas não é recriminando mulheres, por serem magras ou gordas ou qualquer outra coisa, que vamos conseguir isso.

Quem faz body shaming para reclamar do padrão magro de uma revista, na verdade, está fazendo a mesma coisa que tanto critica: impondo um padrão de corpo como o bonito, o ideal. E ainda por cima usando palavras cruéis pra detonar outro tipo de corpo.

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Nenhuma mulher é obrigada a ter as coxas da Sabrina Sato só porque “homem não gosta de osso”. E, se tiver, tudo bem também. Tudo bem ser magra. Tudo bem ser gorda. Tudo bem ter pouco ou muito peito, quadril largo ou estreito. Envergonhar outras mulheres por causa de seus corpos não, isso não está nada bem.


Taís Toti é jornalista, escreve no Estadão e no Indieoteca, fala no Comando Legal, cuida de duas gatas e pensa muito antes de postar textos no Facebook.

As ilustrações fazem parte da campanha “Beleza Real” da ilustradora brasileira Negahamburguer.

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olga betty faria

olga betty faria

Enquanto estávamos num lago de Berlim, uma amiga e eu lembramos da Betty Faria, que recentemente “se descuidou” e deixou a velhice à mostra (!!!!). Imagine só, ela foi à praia de biquíni aos 72 anos no Brasil e, como pôde?, entrou no mar com o corpo fora de forma.

Coincidentemente, vi logo depois que a Betty respondeu às críticas, defendendo o direito dela de não sair de burca em público: “Querem que eu me envergonhe de ter envelhecido?”. Mesmo assim, ela cedeu e preferiu sair de maiô depois, no domingo, mesmo dia em que eu fui ao lago (de biquíni, aos 26 anos, apenas para efeitos de registro).

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Ao meu lado, as pessoas mostravam o corpo – jovem, atlético, fora de forma, velho, bronzeado, branquelo, com pelancas, nu, de biquíni, de maiô, de camiseta sem sunga, de roupas – para quem quisesse (ou não) ver. Lembrei também das senhoras anônimas, em Salvador e outras praias pelo Brasil, que usam maiô ou biquíni mesmo contra a opinião dos consultores de moda para terceira idade. E sem tanto fuzuê quanto com a fotografável Betty Faria.

Ou seja.

Quem quer que esteja responsável pelas regras de roupas de banho em lugares públicos precisa ser avisado. As regras não estão sendo aceitas em todo lugar, não foram oficializadas em nenhuma conferência internacional e nem traduzida em todas as línguas.

E aproveito para mandar um beijo pra Betty, que entrou no mar de maiô e chapéu porque, mesmo que interfiram na sua vida, o que vale é a atitude. 🙂

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Amanda Luz, jornalista e co-criadora do site Grunz, usa biquíni nas horas livres.

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