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Esses dias eu descobri uma dessas novas dietas-desafio. Eu sou nutricionista, e perdão tribunal do mundo… Eu não conhecia essa. Era uma proposta de alimentação muito restritiva e que me parece insustentável de seguir pelo resto da vida. É um programa de mudança radical na alimentação que promete um organismo limpo, livre de “inflamação” e toxinas. Vocês podem buscar. Não vou explicar em minúcias porque não estou aqui para promover o programa alimentar “clean” dos outros.

Isso me fez pensar em algumas coisas. Uma delas é o quanto se fala em “saúde” atualmente. Eu diria que a Era da aeróbica, das fitas VHS da Jane Fonda, das refeições congeladas diet, chás e shakes de emagrecimento está ficando para trás num passado nebuloso.

Nas últimas décadas do século XX, o sofrimento primordial de milhões de mulheres era manter-se magra. Mas valia tudo. Cigarro, Coca Diet, “boletas” para emagrecer, volumes ridículos de comida. Atualmente, não vale tudo. Somos a “geração saúde” e nunca soubemos tanto sobre nutrição, dietas, alimentos que “fazem mal”, são “venenos” e deixam a população irremediavelmente doente por causa do seu amplo consumo. Nunca falou-se TANTO em alimentação saudável, no entanto, nunca tivemos números tão expressivos de obesidade ao redor do globo. Irônico.

Enfim… Ser magra é out. Esbanjar saúde é in.

Ocorreu a troca do “ser macérrima” por “ter saúde”, mas isso não significa que não exista oportunismo mercadológico fazendo lavagem cerebral nas pessoas. Antes bastava fazer aeróbica e comer refeições “diet” (e vomitar, tomar anfetaminas, fumar 4 carteiras de cigarro por dia… mas disso a gente não fala). Atualmente existe um tremendo terrorismo nutricional, alegações de que determinados grupos de alimentos são “inflamatórios”, causam câncer, causam todos os males da humanidade… Fujam.

Substâncias e práticas que supostamente limpam e curam o organismo estão sendo proclamadas como SAUDÁVEIS, como a dieta cetogênica (“paleo”), produtos DETOX, papos estranhos holísticos e jejuns. Se anteriormente tínhamos um forte encorajamento do desenvolvimento da anorexia/bulimia, neste começo de século fomos “presenteados” com mais dois novos tipos de transtornos: ortorexia e vigorexia.

Ortorexia é uma obsessão por “comer certo”. Comer “limpo”. É um transtorno alimentar que se relaciona pouco com a imagem corporal, mas é um dos mais torturantes e estressantes que existem. Não chega a ser hipocondria, mas é uma extravagância preventiva. A pessoa tem uma lista quilométrica de alimentos ‘proibidos’, lê rótulos obsessivamente, perde a vida social e fica com severa deficiência de nutrientes. A vigorexia cresce em ritmo recorde porque as pessoas estão confundindo “ter saúde” com ter baixo índice de gordura corporal.

Mas a gordura corporal não é uma inimiga. Ela está presente no nosso corpo, faz parte da nossa fisiologia e existe por diversos motivos (a gordura protege o corpo contra choques mecânicos, regula a temperatura corporal, é veículo de absorção das vitaminas A, D, E e K. E recentemente descobriu-se que o tecido adiposo tem funções endócrinas específicas e que até participa da regulação da fome e da saciedade.)

A indústria das DIETAS (kits, comidas congeladas, chás, shakes) deu lugar à Indústria Fitness e dos alimentos “””saudáveis””””… A coisa toda foi repaginada, mas seguimos sendo explorados por uma indústria que simplesmente se adaptou para nos vender um novo discurso: quem come “certo” é um vencedor e tem sucesso. Quem não se controla e “jaca” (como se diz no Brasil) é um derrotado, que não tem vergonha na cara. Ser gordo? Reprovação social plena!

Mas até que ponto essas práticas ‘saudáveis’ são verdadeiramente saudáveis? Alimentação e atividade física compõem uma vida sadia, é evidente. Mas não é SÓ isso. Será que estamos verdadeiramente vivendo de maneira saudável se seguirmos todas as regras higienistas da manutenção do corpo, mas submetidos a um imenso estresse mental?

Almoçar arroz integral, uma carne magra grelhada (ou uma substituição se você for vegetariano), salada e um copo d’água é uma opção saudável. Comer bolo floresta negra e brigadeiro em uma festa de aniversário TAMBÉM é saudável. O brigadeiro não é FUNCIONAL nem utilitário. No entanto, é afetivamente, mentalmente, socialmente e culturalmente saudável que as duas realidades se permeiem. A gente come de tudo um pouco. É normal.

Um tremendo esforço para manter uma alimentação SAUDÁVEL, mesmo que seja saudável, não é saudável. Da mesma maneira que nós não aceitamos mais a dieta dos pontos, as normas dos Vigilantes do Peso e os kits de shakes emagrecedores, chás e refeições ‘light’ congeladas… Nós também não aceitamos um referencial de beleza estupidamente magro. Acabaram-se os dias do “Heroin Chic”.

O advento da internet tem forte papel nessa mudança de mentalidade. Atualmente temos mídias alternativas (Blogs, Sites, canais no Youtube) que transmitem mensagens que não são veiculadas pelos meios de comunicação da mídia tradicional.

A mulher passou a perceber que ela não precisa emagrecer para frequentar a praia. Emagrecer para casar. Emagrecer porque é o seu dever existencial (porque mulheres devem ser bonitas, portanto magras).

Começou o movimento de aceitação. Porque tudo o que é muito represado, eventualmente extravasa. Porque quanto maior é a altura, maior é a queda. E se frequentamos as nossas aulas de história direitinho, já sabemos que todos os Impérios eventualmente acabam. Nós NÃO ENGOLIMOS mais a magreza surreal que nos foi socada goela abaixo ao longo de décadas.

Ok, mas e o homem? Ele nunca precisou se preocupar muito com isso porque ele é imagem e semelhança de Deus. É até bonito que ele fique grisalho, careca, barrigudinho… “quanto mais antiga a safra, melhor o vinho”, certo?

Entretanto,as coisas estão ficando apertadas para eles também. A febre fitness demanda corpos cada vez mais definidos, grandes, musculosos… E para sustentar as demonstrações corporais de potência e virilidade, MUITOS suplementos precisam ser consumidos e MUITO ferro precisa ser puxado. Foco. Força. Fé. E o seu dinheiro aplicado em potes cintilantes de Whey Protein.

~~Apenas uma curiosidade:

Quando o leite é entregue à indústria de laticínios, ele é aproveitado de diversas maneiras: leite integral, semidesnatado, desnatado. Manteiga, ricota, iogurte, creme de leite. TUDO é devidamente extraído e transformado para ser comercializado. Anteriormente, havia uma coisa que sobrava: o SORO do leite. E ele era sumariamente descartado. Eis a sacada de Midas: mas por que não LUCRAR com o descarte? Basta começar a vender a proteína isolada do soro do leite alegando ser o alimento mais completo do mundo. Tcha-nã: você comprou o lixo da indústria por quatrocentos reais.~~

Só que a situação não é TÃO ruim para os homens, já que eles podem conquistar aceitabilidade social e status através de dinheiro, poder, bens materiais, altas posições no mundo corporativo, intelectualidade… Há mais chances de ser reconhecido, certo?

Já as mulheres SÓ têm a beleza como moeda de valor. Então a manutenção dos atributos físicos é uma prática fundamental. É questão de sobrevivência e, com o movimento de aceitação, os limites da denifição de “beleza” se tornaram um pouco mais amplos. Um pouco. O ideal de beleza se encontra, de fato, um pouco menos restrito

Nós clamamos para que aceitassem os nossos diferentes corpos, pesos, alturas, cores, cabelos… E as indústrias da moda, dos cosméticos, da estética, da vida Fitness cederam… mas também não permitem que a coisa vá TÃO longe.

Temos top models Plus Size? Sim, nós temos! Mas é um corpo Plus Size “tolerável”. A gorda aceitável veste 44. Ou 46 (o que é muito avanço, se fizermos um comparativo com a ditadura do 34/36). A gorda aceitável também tem cintura fina. Bem fina. Ela é CAUCASIANA. Ela tem corpo de ampulheta e All the right junk in all the right places (Meghan Trainor – “All About That Bass”). E é primordial que a gorda aceitável declare, sempre, que ela é tonificada, come “certo” e faz bastante atividade física.

Aí que o tsunami da SAÚDE mescla com a (relativa) democratização dos corpos: “Nós permitimos que você não vista 36. Mas você não pode ser uma maldita gorda sedentária e sem vergonha. Porque nós temos uma genuína, grande, sincera preocupação com a sua SAÚDE… Então compre nossas marmitas fit, nossas receitas com Whey, nossos sucos detox, nosso programa de dieta Paleo, nossa linha sem glúten, nossos pudins 0% lactose!”

Nós não somos a geração saúde. Nós não estamos cultivando o bem estar. Nós não temos corpos livres. Nós não somos livres… Tudo isso é apenas uma NOVA maneira de mercantilizar a nossa vida. É preciso estar atentas para as novas armadilhas e lutar por uma liberdade que em nada nos limite.


Paola Altheia é nutricionista formada pela UFPR e criadora do projeto Não Sou Exposição.

Arte: Kelly Bastow, aka Moosekleenex

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Antes de tudo, esclareço o lugar de que falo, o lugar de Mulher com deficiência e de acadêmica, antropóloga. Desse lugar hibrido é que falo. E falo olhando para a violência que este corpo sofreu, em silêncio, ao longo da história. E do silêncio que foi produzido para que este corpo sofresse ainda mais em silêncio.

Como antropóloga, interessa-me pensar histórica e simbolicamente o corpo da mulher com deficiência e como esse corpo recebeu uma narrativa social, como uma narrativa social foi produzida a respeito desse corpo. Primeiramente, interessa-me o silêncio a que este corpo é imposto. Como foi produzido um silêncio a respeito do corpo da mulher com deficiência e de suas necessidades, especialmente de suas necessidades sexuais e reprodutivas. Um silêncio abusivo, castrador, horrível, aterrorizante.

Pensei em dividir esse bate-papo (quero muito ouvir todas vocês, comentem, escrevam), em três partes: na primeira, vou falar de dados de violência, na segunda vou falar das imagens simbólicas do corpo da mulher com deficiência, ao longo da história na narrativa social judaico cristã (o modelo religioso), e na terceira falar de deficiência e sexualidade.

Comecemos falando de violência. Quando falamos de violência e mulheres com deficiência as pessoas sempre precisam ser recordadas que temos um corpo, inclusive um corpo sexual. A narrativa social construiu um esquecimento acerca do tema, de maneira tão forte, que nosso corpo, esquecido e silenciado, é deixado nas sombras, para que os abusos aconteçam em silêncio. Estou aqui, como mulher com deficiência, disposta a quebrar o silêncio.

Cerca de 10% das mulheres do mundo vivem com uma deficiência, e nos países mais pobres, 75% das pessoas com deficiência são mulheres. No Brasil, de acordo com o Censo de 2010, mais de 25 milhões de mulheres com deficiência e quase um terço das mulheres negras tem uma deficiência.

A violência dirigida às mulheres com deficiência é um problema global. As mulheres com deficiência vivem em condições de maior isolamento social, o que amplia extremamente a possibilidade de violência e abuso. Elas têm menos chances de sucesso educacional, financeiro, profissional e social e isso também dificulta sair da condição de violência e abuso, pois inviabiliza autonomia e contato com redes que poderiam prestar ajuda. Na maioria das vezes o abuso vem de familiares, cuidadores, colegas, e isso torna denúncias um processo muito difícil. Por exemplo eu acompanhei um caso de uma senhora que o único contato com o mundo era o telefone. O cuidador, no caso o marido, desligava o telefone e ela não podia mais falar, nem do abuso que sofria. E quando falava, ela tinha medo, porque “só tinha ele” para cuidar dela.

Mulheres com deficiência sofrem abusos de todos os tipos: sexo forçado com trabalhadores, cuidadores ou outros residentes em instituições, são espancadas, esbofeteadas, ou feridas em crises, sofrem esterilização ou abortos forçados, são trancadas em quartos ou armários sozinhas, são obrigadas a banhos de gelo ou chuveiros frios como punição, são obrigadas a medicação forçada (tranquilizantes), muitas vezes obrigada a ter que se despir ou ficar nua na frente de outras pessoas, como castigo, são amarradas ou colocadas em restrição (contidas).

Numa pesquisa que realizamos em Escolas e Jovens e Adultos, na cidade de Campinas, em 2008, detectamos algumas situações: as mulheres com deficiência, mesmo sendo obrigadas a serem tocadas ou realizarem sexo contra sua vontade não percebem estar sendo abusadas ou violadas, tem grande dificuldade de sair desse processo, mulheres cegas ou com deficiência têm, proporcionalmente, duas vezes mais chances de serem abusadas ou violentadas que as sem deficiências, surdas, cinco vezes mais, e com deficiência mental de oito a nove vezes mais. Muitas famílias retiram as meninas com deficiência das escolas regulares por medo de abuso, mas são abusadas em casa, por funcionários e assistentes.

Na verdade, é preciso criar uma rede de proteção e denúncia estatal específica para a questão, apoio, inclusive de saúde mental para as famílias e medidas penais mais severas para os abusadores. Já encontrei no Facebook uma página, denunciada por mim que falava: estupre uma deficiente mental porque ela não vai saber contar. A gente precisa saber responder: Mas, nós vamos. Todas nós estamos vendo, e vamos fazer um escândalo


Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social (IFCH – UNICAMP), coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Arte: Manjit Thapp

 

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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A última semana foi uma das mais intensas do ano para nós do Think Olga. Lançamos a hashtag #primeiroassedio para saber das mulheres quando foi a primeira vez que foram abordadas sexualmente. A iniciativa foi uma resposta ao imenso número de mensagens de teor pedófilo que circularam no Twitter durante a estreia do programa Masterchef Júnior, na Band. Uma das meninas tornou-se alvo de homens que não se intimidaram em manifestar publicamente seu desejo sexual por uma criança.

 

Durante os dois anos de existência da Chega de Fiu Fiu, nossa campanha contra o assédio em locais públicos, e por experiência pessoal, sabemos que infelizmente o que estava acontecendo no Twitter e chamando atenção pelo absurdo nada mais eram que registros reunidos a refletir um comportamento familiar a muitas mulheres. O assédio começa na vida de uma mulher no momento em que algum homem decide que ela já tem idade suficiente para ver seu pênis, ouvir palavras sujas ou coisa pior. Para algumas, tão cedo quanto aos cinco anos de idade.

 

Outro evento recente que diz respeito às mulheres é a aprovação do Projeto de Lei 5069/13 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. De autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o próximo passo é a votação em Plenário da Câmara. O projeto de lei visa dificultar o acesso a métodos abortivos mesmo quando a profilaxia da gestação é permitida por lei, como em casos de estupro.

 

Para tal, segundo o texto do projeto, será negada às vítimas atendimento básico em casas de saúde logo após uma violência sexual. O ato deve ser violento o suficiente para causar danos físicos e psicológicos – a ser comprovados via exame de corpo de delito, em uma delegacia. Com o laudo que comprove o estupro em mãos, só então a pessoa poderá procurar auxílio em uma emergência hospitalar.

 

Tudo isso está superficialmente explicado em um texto aberto a interpretações e subjetividades que, em todos os níveis, prejudicam somente as mulheres. No Brasil, o acessoao aborto é limitado aos casos nos quais há risco de vida para a mulher causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro ou se o feto for anencefálico. Nas três circunstâncias, a mulher é vitima de fatores externos, mas em um deles ela ainda será obrigada a encontrar forças se quiser ter acesso aos procedimentos necessários para sua própria saúde. Antes de cuidar de si, a mulher deve cuidar de provar para o estado que foi vítima de um crime – uma tarefa que definitivamente não é fácil quando se conhece a realidade burocrática, fria e machista das delegacias brasileiras, inclusive as da mulher. Caso ela não consiga, será impedida de ter acesso ao kit estupro (medicamentos que incluem a pílula do dia seguinte e salvaguardam a vida da mulher após essa violência), correndo risco não apenas de gerar um bebê indesejado, mas também de contrair todo tipo de doença sexualmente transmissível.

 

O PL também se esforça para manter mulheres na escuridão. Segundo ele, estarão sujeitos à penas de reclusão os profissionais de saúde que ajudarem mulheres a abortar sem a comprovação obtida em uma delegacia e, se a vítima for menor de 18 anos, o tempo de cadeia é maior ainda. Além disso, o “anúncio de meio abortivo” também seria criminalizado para dificultar a educação das mulheres em relação a direitos reprodutivos.

 

Para entender o quanto esse projeto está descolado da realidade, basta olhar para os números. No Brasil, uma pessoa é estuprada a cada 10 minutos e mais da metade das vezes é apenas uma criança. Ter acesso ao aborto garantido por lei quando uma gravidez proveniente desse crime acontece já é difícil por si só. Em suma, as maiores prejudicadas por esse PL são meninas pobres e definitivamente nenhuma mulher sai ganhando. Seu maior beneficiário talvez seja o estuprador, que seguirá impune (e livre para fazer piadas sobre pedofilia na internet), ancorado por leis que afastam as vítimas da denúncia.

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O fato de todos esses absurdos terem meramente sido aprovados pela CCJ já constituem uma derrota na luta pelos direitos das mulheres, mas ainda não perdemos a guerra. No Brasil inteiro, mulheres estão se mobilizando para que o projeto não seja aprovado no Plenário. É possível assinar a petição online contra o projeto, participar dos atos que vão acontecer em São Paulo e entrar em contato com nossos deputados federais para colocar pressão e demonstrar que as mulheres repudiam esse PL.

 

Tomar iniciativa é apenas fazer valer direitos que já conquistamos. É triste perceber que a discussão sobre direitos reprodutivos no Brasil e o direito sobre os nossos próprios corpos ainda esteja tão atrasada e correndo risco de retroceder, mas não será desistindo de nos fazer ouvir que essa realidade mudará. Essa é uma lei que não faz qualquer sentido e não tem espaço na realidade atual do país que temos hoje e muito menos na do país que queremos um dia ser. Querem nos desinformar, nos intimidar e nos fazer pagar com nossas próprias vidas pelo crime dos outros. Temos 5069 razões para lutar contra essa lei e pelas nossas vidas – e a primeira delas é a nossa paixão pela liberdade.


Arte: Leah Reena Goren

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Ser mulher neste mundo pode ser uma experiência muito solitária. Em todos os lugares, deparamos com situações que alimentam, lá dentro, os sentimentos de inadequação e impotência. Sabe as “cantadas” que você recebe de estranhos, ou aqueles “recados” inconvenientes sobre a sua aparência? Por mais que essas posturas incomodem, é relativamente fácil de acreditar que elas são naturais e que não precisa ser diferente. A julgar pela opinião da maioria, parece que o problema é só seu ‒ quando não é você mesma.

Às vezes, porém, vozes igualmente aborrecidas lhe surpreendem e insinuam a causa e o efeito de tanto isolamento. Desde muito tempo atrás, milhares de mulheres enfrentam as mesmas dificuldades sem ter noção do quanto suas vivências são semelhantes ‒ em muito, porque somos desencorajadas de externar o que pensamos e sentimos. O que aconteceria se essa multidão silenciosa descobrisse a dimensão coletiva de suas angústias? Uma vez arranjada, poderia ela formar uma frente consistente de mudança?

Essas são as perguntas fundadoras de vários projetos colaborativos que estão alcançando, em tempo recorde, enorme adesão no meio online. Idealizados por mulheres na faixa dos 20 e 30 anos, com perfis pessoais e profissionais diversos, eles apostam no potencial da rede para aplacar problemas cotidianos, mas de grande relevância política. O caráter voluntário e inclusivo ‒ nenhum deles possui fins lucrativos ou restrições de público ‒ deriva de um denominador comum importante: o apelo afetivo. Criadoras e apoiadoras abraçam as iniciativas pelo desejo de sintonizar seus valores com sua ação social, além da vontade de se conectar a outras mulheres identificadas com uma causa.

Conversamos com representantes de seis movimentos de empoderamento e mobilização feminina para saber o que anda engajando tantas usuárias na web em 2015. Confira abaixo os temas e os links para acompanhar o trabalho de cada projeto.

 

Mulheres no espelho: fortalecendo a autoimagem

Talvez poucas crises femininas simbolizem melhor os efeitos da violência de gênero do que a relação conflituosa com o próprio corpo. Praticamente o tempo inteiro, a luta contra o machismo e a misoginia é travada nessa arena privada ‒ e como é difícil resisti-los. Há sempre um ou dez quilos a perder. A pele tem manchas ‒ ou não tem o tom “certo”. O cabelo não esvoaça ou não brilha. Os seios são muito pequenos e o bumbum é muito chato. Conforme as meninas crescem, a existência em um corpo confortável parece se tornar impossível: inicia-se uma guerra contra si mesma para aniquilar a mulher real em função de um modelo inatingível que a mídia bombardeia contra todas. Quando se admite a derrota anunciada, corpo e alma estão em pedaços e nem sempre há apoio para reconstituí-los.

A publicitária baiana Teresa Rocha conhece essa narrativa. Negra e crespa, ela via, na infância, uma semelhança entre todas as figuras célebres das propagandas: o físico branco, magro e liso, bastante diferente do seu. Ter chances de sucesso passou a implicar um tempo diário para o alisamento dos cabelos. “Foi na adolescência que percebi o quanto ter autoestima impacta de forma positiva em todos os campos da vida, e que receber críticas e cobranças sobre a aparência é cruel e injusto. Desde então, tenho vontade de fazer algo a respeito”, conta. Quando encontrou ícones femininos que assumiam os cachos, motivou-se a libertar os seus ‒ e hoje, pelo Bonita Também, quer divulgar mensagens de aceitação e amor próprio a muitas outras mulheres.

“O Bonita Também quer reforçar a importância de se sentir bem e abraçar a diversidade. O que importa é ser feliz, mas se isso for fora do padrão social que tanto nos exclui, melhor ainda, porque vai gerar referência para as meninas que estão crescendo. E a gente bem sabe que mulher precisa disso”, explica Teresa. Ela gerencia um Tumblr colaborativo com histórias de mulheres que também aprenderam a amar seus corpos como são e, na página da iniciativa no Facebook, posta mensagens inspiradoras e cards ilustrando diversos tipos de beleza. “O projeto não se faz sozinho, entende?”, diz ela. “Cada pessoa que interage com um clique ajuda a fazê-lo!”. É esse pensamento que a relaxa em relação às estatísticas da rede social. Criada em dezembro de 2014, a página do Bonita Também chegou às mil curtidas orgânicas em junho deste ano. Por trás de cada uma, Teresa enxerga uma mulher celebrando a autoestima feminina e buscando o incentivo a se mostrar como é. Ela já recebe mensagens de seguidoras falando do impacto positivo da página sobre elas. “O crescimento é gradativo e devagar, mas muito válido”, afirma.

Os depoimentos do Tumblr, que revelam o peso como uma preocupação muito forte, são enviados por e-mail e ficam disponíveis para receber comentários de outras visitantes. Focada em corrigir os vácuos de representatividade, a publicitária também está atenta ao risco de endossar novas padronizações e tenta equilibrar na comunicação do projeto múltiplas variações de raça, biotipo, cabelo e outras características. A crença no potencial transformador da imagem embasa os sonhos de desenvolvimento da iniciativa. “Eu desejo que todo o material que está sendo recolhido possa tomar formato de um documentário um dia e fazer a diferença para mulheres de idades variadas, principalmente para quem está se tornando mulher agora”, conta Teresa.

 

Mulheres em trânsito: a luta pelo espaço público

A participação efetiva das mulheres na vida pública é uma das reivindicações mais antigas do feminismo. Contudo, em pleno século 21, a pauta se mantém atual pelos mecanismos que constrangem a ocupação feminina dessa esfera. Comecemos pelos obstáculos à apropriação do espaço. Laura Krebs, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que as teorias urbanistas de viés mais sociológico, com inclinação marxista, pensam a cidade como um campo de reprodução dos valores e relações da sociedade que a habita. “Assim, é inevitável entender a urbe como um ambiente machista, em que a mulher é considerada mais frágil e onde uma série de abusos ‒ verbais e/ou físicos ‒ e opressões de gênero se repetem”, afirma.

Laura é uma das idealizadoras do coletivo se essa rua fosse nossa, criado em março para denunciar a violência contra a mulher no espaço urbano e mapear o sentimento delas nas ruas. O movimento começou como uma intervenção gráfica planejada para o Dia Internacional da Mulher. Em parceria com uma colega de curso, Laura pretendia coletar relatos sobre o assunto e espalhá-los por Porto Alegre, mas logo surgiu a ideia de produzir algum material audiovisual sobre o tema. “Fomos atrás de amigas capacitadas e acabamos formando uma rede incrível de mais de 80 gurias, transformando uma ação pontual em vontade de ter um trabalho contínuo de questionamento sobre um problema tão presente”, conta.

Os depoimentos reunidos em áudio e vídeo dão conta de um transtorno que interfere na escolha das roupas para sair e até no simples ato de andar a pé. As integrantes do coletivo se reúnem quinzenalmente e sentem necessidade de criar um grupo de estudos sobre feminismo. Para o segundo semestre de 2015, elas preveem uma nova série de vídeos e a expansão de suas ações virtuais. No Facebook, o se essa rua fosse nossa disponibiliza o endereço de um formulário anônimo para o compartilhamento de casos de agressão machista em locais públicos. Mais de 26 mil pessoas acompanham a página do projeto, que acumulou mil curtidas no dia em que foi criada.

A página se popularizou ao divulgar o relato, narrado pela própria vítima, de um estupro ocorrido por volta do meio dia na região central de Porto Alegre. Segundo os dados do Facebook, a postagem alcançou mais de um milhão de usuários da rede. A repercussão da história levou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Vereadores a vistoriar toda a Rede de Proteção às Mulheres da capital gaúcha e apresentar um relatório com as constatações oficiais em maio. Para Laura, esse feito é um exemplo de empoderamento feminino e comunitário, que desafia a ideia das instituições públicas como excessivamente burocráticas e distantes da população. “Tínhamos voz e geramos resultados a partir de uma indignação coletiva e quase sempre banalizada”, diz ela.

A força da ação conjunta e cidadã é também o que inspira a jornalista Babi Souza, outra gaúcha. Afetada pelas leituras sobre colaborativismo e empreendedorismo social, foi cruzando pelo centro de Porto Alegre à noite que ela refletiu sobre o medo de circular sozinha ‒ e concebeu o Vamos juntas?, um fenômeno instantâneo no Facebook desde o dia 30 de julho. Reconhecendo a aflição peculiar das mulheres ao transitar no dia a dia, a iniciativa quer trazer mais segurança incentivando a parceria casual ou regular entre elas. Diante de situações de risco, o movimento convida cada uma a se unir com a próxima, intimidando potenciais agressores e, quem sabe, fazendo novas amizades.

A ideia de Babi foi ilustrada pela designer Vika Schmitz e postada no perfil pessoal da jornalista. Menos de duas horas depois, pessoas fora do seu círculo de amizade estavam compartilhando a imagem e buscando a página do movimento, que foi imediatamente criada. Foram cinco mil curtidas em 24 horas, e até o fechamento desta matéria, mais de 135 mil seguidores reunidos. Durante o mês de agosto, a equipe somou a social media Stephanie Evaldt começou a estudar formas de aproximar cada vez mais suas apoiadoras. Foram criados grupos por região do Brasil no Facebook e iniciado o projeto de um aplicativo para que elas possam se encontrar nas ruas.

Animada com o retorno das adeptas, Babi espera que as mais novas também sejam impactadas pela ideia do movimento. Um caso que a emociona é o de uma jovem que imprimiu cards da página e colou nas dependências da escola onde estuda. Quando encontrou um deles rasgado no lixo, fixou-o novamente e enviou-lhe a foto do cartaz. “Acho que se as meninas da idade dela entrarem em contato com a sororidade e com a ideia de amar ao próximo (aí independentemente do sexo), o futuro será muito melhor”, afirma. A jornalista acredita que as mulheres adultas não costumam “ir juntas” por medo e, principalmente, por serem ensinadas desde muito cedo a competir entre si e não confiar umas nas outras.

Babi anda com a agenda cheia divulgando o Vamos juntas? na mídia, mas concorda que em algumas entrevistas, a proposta parece se diluir em um problema mais amplo de segurança pública. Ela faz questão de ressaltar que o movimento pretende, sobretudo, estimular a associação entre mulheres. “Além disso, sinto que estamos tendo um papel importante no sentido de mostrar aos homens como é ser mulher, como não é fácil ser assediada e se sentir insegura”, pontua. As muitas mensagens que a equipe recebe deles oscilam entre gratidão e estranhamento, mostrando que boa parte da população masculina ainda não compreende as nuances de violência criadas pelo gênero. Por ora, parece mesmo mais proveitoso investir na comunicação com elas ‒ e crer que a ação suscitada será eloquente o bastante.

 

Mulheres em debate: pluralizando o diálogo

Por outro lado, a limitação espacial não se impõe somente na via pública. As mulheres também enfrentam barreiras para participar e protagonizar eventos profissionais e mesas de debate. Ainda hoje, por mais qualificadas que sejam, elas são completamente excluídas de alguns encontros. Quando questionados a respeito, os organizadores tendem a justificar a escolha dos convidados pela competência, experiência e destaque na área em que atuam. Mas será que existem tão poucas experts à disposição? Em uma sociedade desigual como a nossa, a quem serve o critério meritocrático ‒ e até que ponto ele não contribui para a permanência desse cenário?

“Quem já é privilegiado entra no ciclo vicioso da manutenção de seus privilégios sociais. Por ter mais oportunidades de praticar algo, fará aquilo melhor e mais oportunidades aparecerão”, afirma a designer e comunicadora Gabi Juns, cofundadora da Escola de Ativismo. A marginalização feminina nas rodas de conversa é um fato familiar a ela e às amigas Daniela Silva, Daniela Teixeira, Manoela Miklos e Fer Shira. Todas envolvidas em projetos de mobilização social ou ativismo online, elas perceberam que os colegas homens geralmente serviam como portavozes dos trabalhos desenvolvidos coletivamente. Talvez por isso a iniciativa Stop Man Panels, lançada em maio de 2014 à época da Convenção sobre Armas Convencionais da Organização das Nações Unidas (ONU), tenha impactado tanto o grupo: no compromisso, 79 especialistas sobre o tema da reunião se recusavam a participar de paineis que não incluíssem mulheres. “A ação dos homens teve sucesso no evento. Então pensamos, ‘por que não para todos os eventos?'”, conta Gabi.

Dessa inquietação, com o apoio conceitual e criativo de muitas outras pessoas, surgiu o compromisso #nãotemconversa. O princípio de base do movimento é a conscientização dos homens ‒ em especial os cisgêneros, heterossexuais, de classes mais altas e sem deficiências aparentes ‒ do lugar favorecido que ocupam na hierarquia social. A partir disso, eles são interpelados a promover a integração de vozes femininas aos debates por meio de um pacto solidário. “Achamos que eles também têm um papel na desconstrução do machismo. Abrir mão de privilégios de fala é algo que podem fazer”, diz Gabi. Ela e as demais criadoras do #nãotemconversa acreditam que a visão de mundo de uma mulher é indissociável de sua vivência, e, por isso, elas têm potencial para enriquecer as discussões. “Meu gênero é parte da minha construção como indivíduo, e essa construção me dá uma perspectiva única”, defende Gabi.

Já no lançamento, em 24 de junho, o compromisso foi assinado por mais de 300 pessoas e a inbox de Gabi no Facebook se encheu de mensagens de homens curiosos sobre os próximos passos. Um dos apoiadores chegou a negar participação em um programa de TV ‒ algo que as criadoras só souberam quando a apresentadora reclamou na página da campanha na rede social. O retorno surpreendeu tanto que as idealizadoras do compromisso ainda não conseguiram sistematizar e responder todas as dúvidas recebidas. Apesar de colaborarem entre si, elas não se reconhecem como equipe. “Entendemos que tivemos uma ideia, colocamos para rodar e não seremos capazes, sozinhas, de dar a continuidade necessária”, explica Gabi. Devido a isso, elas criaram o #temconversa, um grupo exclusivamente feminino no Facebook dedicado à construção coletiva do projeto e à discussão de assuntos afins. O espaço é aberto a quem quiser participar.

Contando cerca de 10 mil curtidas na rede social, o #nãotemconversa pretende agora apurar os desdobramentos do compromisso assumido na vida dos homens e na organização dos eventos. As criadoras também comemoram a replicação da campanha no combate a outras formas de opressão. No dia seguinte à criação da página no Facebook, surgiu o compromisso-irmão #nemtentaargumentar, ao qual mais de 3,5 mil pessoas já aderiram. A iniciativa partiu do Coletivo Enegrecer, ligado à militância estudantil, e convida os usuários a demandar representatividade negra, feminina e masculina, nas rodas de debate. “Um olhar negro nos apresenta a perspectiva daqueles que vêm de baixo e qualifica as elaborações a serem desenvolvidas”, afirma Moara Correa, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e uma das idealizadoras do compromisso. Ela cuida do projeto em parceria com Cledisson Júnior, que já foi diretor de combate ao racismo da UNE e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).

O #nemtentaargumentar está em contato com as criadoras do #nãotemconversa para compartilhar tecnologia e desenvolver o próprio site para a coleta de assinaturas. Enquanto isso, no Facebook, a campanha busca denunciar o racismo institucionalizado e chamar a atenção de organizações e entidades para a ausência de palestrantes negros em seus eventos. Apesar das inúmeras reprimendas à iniciativa, Moara crê no aspecto político e construtivo do constrangimento e se diz pouco impressionada. “Há anos lidamos com a reação de conservadores que militam contra as cotas raciais no ensino superior e nos concursos públicos. Estamos vacinados”, afirma. A intenção da dupla idealizadora é ampliar o alcance do compromisso e seguir revelando a branquitude como um vetor de desigualdade social no Brasil ‒ inclusive nas intersecções entre gênero e raça. “Nosso grande desafio ‒ e aí falo enquanto mulher negra ‒ é de convencer as nossas companheiras brancas de que construir a solidariedade entre as mulheres significa, também, ceder espaços e desconstruir privilégios”, explica Moara.

 

Mulheres em gestação: a maternidade que existe

Quando a empreendedora Thais Cimino se olhou no espelho no dia seguinte ao parto de Vida, hoje com um ano e meio, assustou-se com o tamanho de seu peito. Tendo sofrido com a intensa sensibilidade nos seios durante a gravidez, ela não imaginava que sentiria tanta dor para amamentar a filha, apesar de toda a vontade e preparação. Em tese, estava tudo em ordem: a pega, a alimentação, o sono, o bebê mamava à livre demanda… Mas o desconforto piorava e Thais se sentia cada vez mais insegura. Foram muitas visitas à emergência da maternidade e à enfermeira obstetra até que ela fosse diagnosticada com um abcesso mamário, removido em uma cirurgia com anestesia geral e pós-operatório de cerca de um mês. Finalmente, Thais entendeu que não estava “fraquejando” no trabalho materno ‒ mas ainda assim, chorou por meses a fio por causa desse período.

Ela não compreendia como um processo natural como a amamentação podia ser tão desgastante, nem como poderia ser necessário um esforço sobre-humano para criar vínculo afetivo com a filha. No meio de toda a situação, estava o companheiro, com quem Thais vive na França. Atordoado com a nova condição de pai e inseguro à sua maneira, ele apoiou a parceira como pode ‒ o que para ela, infelizmente, não foi suficiente. Quando pesquisou sobre depressão pós-parto, Thais se deu conta de que muitas outras mulheres também embarcam nessa jornada sem conhecer o “lado B” da maternidade, e de que o silêncio sobre essas provações tornava o percurso ainda mais penoso. Entretanto, como admitir dor, medo ou tristeza no que deveria ser um momento de absoluta felicidade? Como arcar com o julgamento alheio ‒ e administrar a culpa por não ser a mãe perfeita?

Antes de qualquer coisa, é necessário verbalizar o que a pressão externa encerra dentro de cada uma. “A maternidade não é um conto de fadas! Ela pode ser linda, transformadora, mas para isso, as mulheres e os bebês precisam que todo o ambiente ampare esta relação e que haja dispositivos sociais e públicos que deem conta desta questão”, afirma Thais. A partir disso, ela fundou o projeto Temos que falar sobre isso, uma plataforma de desabafos anônimos em que as mães podem compartilhar suas angústias e proporcionar conforto e acolhimento a outras famílias. O objetivo é fortalecer a ideia de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um caminho para humanizar a vida materna e resgatar dentro de si a confiança na própria capacidade. Coordenado por Thais e pela terapeuta ocupacional Bruna Taño, o site também é atualizado com textos sobre temas variados, como sofrimento psicológico, dificuldades no período gravídico-puerperal e violência obstétrica.

Além da solidão e da preocupação das mães em relação a sentimentos ambivalentes, como a ausência de um amor imediato pelos filhos, os relatos enviados frequentemente abordam a violência institucional por parte de órgãos e profissionais de saúde e a dificuldade de adaptação do casal à nova vida. As postagens relacionadas à implicação paterna no cuidado também têm repercutido. Criado em maio, o projeto ainda está “vivendo o puerpério”, mas superou as expectativas de Thais ultrapassando as 250 mil visualizações no blog e os 11 mil seguidores no Facebook. O espaço de desabafos cresceu a tal ponto que profissionais de diversos ramos passaram a procurá-la para colaborar com conhecimento especializado. Hoje, catorze deles contribuem regularmente com material informativo e o projeto mantém uma parceria com o grupo carioca Do Luto à Luta, de apoio à perda gestacional. Com a colaboração do Ministério da Saúde, o Temos que falar sobre isso também disponibiliza a listagem dos Centros de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (CAPS/SUS) e fornece assistência sobre centros, grupos ou profissionais de apoio próximos às visitantes do site.

Embora a internet facilite o anonimato e a participação de mães “recém nascidas” ou com dificuldades para sair de casa, Thais reconhece a importância do contato presencial e quer alcançar as mulheres que não estão na web. Cheia de sonhos e dedicando-se exclusivamente ao projeto, ela se mostra determinada a ampliá-lo, online e offline, e busca parcerias que possam apoiar arranjos mais complexos. “Almejamos promover uma mudança de atitude e a implementação de leis que protejam à mulher de todos os tipos de violência (obstétrica, física, psicológica e institucional) durante a gravidez, o parto e o puerpério”, afirma. Quem deseja integrar a equipe de colaboradores do Temos que falar sobre isso ou ajudar no gerenciamento da iniciativa pode contatá-la pelo e-mail do site.


Stefanie Cirne é feminista de todas as horas e jornalista de ocasião formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Arte: Elizabeth Catlett

 

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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Parece simples, mas não é. A fronteira entre o estupro e o sexo ainda está embaçada na cabeça de muita gente. O hit Blurred Lines, sucesso absoluto na voz do cantor Robin Thicke em parceria com o rapper Pharrell, é basicamente uma ode à violência sexual. Pra se ter uma ideia, o Projeto Unbreakable, que reúne fotos de vítimas de estupro segurando cartazes com o que seus agressores diziam na hora da violência, conseguiu recriar a letra da música apenas com imagens previamente publicadas.

A popularidade desse tipo de canção é um forte indício da identificação ou da conformidade do público com essa abordagem. “Eu sei que você quer”, “A maneira como me segura, deve estar querendo mais”: a canção (e a sociedade?) está lotada de suposições equivocadas sobre o desejo da mulher. Ela é considerada apenas parte interessante, mas não interessada, pois em nenhum momento perguntam o que ela quer.

Consentimento é a certeza de que as duas (ou mais) pessoas estão dispostas a participar de uma interação afetiva. Do flerte ao sexo, qualquer tipo de aproximação entre um casal só pode ter sucesso caso ambos estejam absolutamente certos do desejo do outro em estar ali. É preciso ter um entendimento inequívoco da vontade de ambos – tanto de um para o outro, quanto individualmente (ou seja, se VOCÊ quer mesmo que isso aconteça).

Relacionamentos, sejam de uma noite ou para a vida inteira, não devem ser encarados como uma obrigação, mas como uma escolha. Independente dos motivos que levam duas pessoas a ficar juntas, o ideal é que eles venham de dentro, que sejam genuínos e pessoais. Consentir é diferente de “deixar” ou “dar permissão”: é verdadeiramente querer e desejar que aquilo aconteça.

O consentimento só pode ser dado por livre e espontânea vontade. Todo ato íntimo proveniente de ameaça, coerção e intimidação é considerado estupro. Por isso, antes de continuarmos nosso papo sobre consentimento, precisamos primeiro acabar com alguns mitos sobre violência sexual:

Mito 1 – Estupro só acontece em vielas escuras e são cometidos por tarados malucos que vivem atrás de moitas

A maioria dos estupros é cometida por pessoas conhecidas pelas vítimas, muitas vezes em suas próprias casas e por seus parceiros íntimos. Por mais desagradável que esse pensamento seja, é preciso encarar a realidade de que é preciso muito mais que “evitar andar sozinha à noite” para evitar ser violentada.

Mito 2 – Mulheres provocam o estupro por se vestirem de maneira sexy

“Mas ela está pedindo!”. Não, ninguém pede para ser estuprada e nem todas as vítimas estão de saia curta. A única pessoa responsável por um estupro é o estuprador. Os homens (que geralmente são os aqueles percebidos como perpetrores desse tipo de violência) não são bestas selvagens e deveriam se ofender com a acusação de que não podem se controlar ao ver um decote. Uma mulher deve ser livre para vestir o que quiser sem temer ser violentada por isso.

Mito 3 – Mulheres que bebem ou se drogam estão pedindo pra ser estupradas

A vulnerabilidade que acompanha o entorpecimento não implica que a mulher esteja disponível para fazer sexo. Se ela está inconsciente ou parece incapaz de tomar uma decisão, tal como dar consentimento, é estupro. Beber não é crime, estupro sim.

Mito 4 –Se a vítima não gritou, fugiu ou se machucou, então não é estupro

Qualquer relação sexual sem consentimento é estupro. Não é necessário nada além disso para que essa situação configure como violência sexual. Em muitos casos, a vítima coopera com o estuprador por temer pela própria vida, ou por consequência de sua personalidade ou da situação, não têm coragem ou força de reagir, sentindo-se paralisadas pelo pavor. Esse tipo de questionamento transfere a responsabilidade de evitar o estupro para a vítima – e, como já dissemos anteriormente, o único culpado pelo estupro é o estuprador.

Mito 5 – Se a vítima não reclama ou dá queixa logo em seguida, não é estupro.

Um estupro pode provocar sentimentos de vergonha e culpa tão grandes que impedem a vítima de falar sobre o assunto. Ainda mais vivendo em uma sociedade que tenta justificar o estupro de todas as formas (vide esses mitos!) e constantemente transfere a culpa

Mito 6 – Estupro de prostituta não conta

A prostituição é baseada fundamentalmente no consenso em praticar atos sexuais em troca de dinheiro.  O que passa desse acordo é estupro.

 

Ok, então… como consentir e como obter consentimento?

Comunicação! Comunicação! Comunicação! Para ser eficaz, o consentimento deve ser expresso de maneira ativa e voluntária, por meio de palavras ou ações que indiquem o desejo mútuo de participar de uma atividade sexual. Confira abaixo algumas reflexões importantes sobre consentimento:

– Ambiguidade não ajuda em nada. Sim é sim e não é não. É importante é respeitar esses limites quando dados pelo seu parceiro ou parceira.

– Sentiu desconforto para dizer não? Sinal vermelho! É um forte indicativo de intimidação e medo – coisas que não combinam com momentos de intimidade nos quais devemos nos sentir seguras para expressar nossos desejos.

– Se o parceiro ou parceira está hesitando, o ideal é não ir adiante com o contato íntimo. Consentimento é ter absoluta certeza de que o que está acontecendo naquele momento é algo que os envolvidos desejam verdadeiramente. Talvez é não.

– Consentimento para um ato sexual específico não significa que todos as outras formas de interação íntima estão liberadas.

– Mesmo depois que o consentimento tenha se estabelecido entre o casal, ambos são livres para mudar de ideia em qualquer momento do ato sexual.

– Caso isso aconteça, seja por palavras ou ações, a relação deve ser interrompida imediatamente. Ainda que o “não” tenha soado meio indeciso ou confuso, ele deve ser respeitado como uma quebra do acordo prévio. E sem consentimento, sem sexo.

– Especialmente entre casais que já se relacionam a mais tempo, o consentimento deve ser obtido toda vez em que houver atividade sexual. A intimidade pode levar a deduções que nem sempre são corretas e, consequentemente, levar a experiências desagradáveis.

– Ser casado com a vítima não exime o marido de ser um criminoso. A inglesa Sarah Tetley, por exemplo, foi estuprada mais de 300 vezes pelo marido enquanto dormia. Ela trouxe sua história a público recentemente para aumentar a conscientização sobre o abuso.

– Silêncio, falta de resistência verbal ou física e relações anteriores não são sinônimos de consentimento, bem como tipos de roupa, flertar, um drink, um jantar ou qualquer outro gasto com alguém, também não significam que ele ou ela consentiu em fazer sexo com você.

– Usar drogas ou beber não impedem deliberadamente uma pessoa de consentir em fazer sexo, mas certos níveis de intoxicação a tornam incapaz de tomar essa decisão.

– Consentimento não se obtém com o uso de força (literal ou implicitamente), ameaças, intimidação e coerção.

– É sempre OK dizer não. Seja por que você não tá afim, por causa de religião, por ter medo de pegar uma doença, se quiser ir devagar ou só ver a pessoa como amigo e não como parceiro sexual. Se você acha que tem que consentir, então a escolha não é mais sua.

Sexo é pra ser divertido e empoderador. Falar sobre isso, também. Respeitar o consentimento é uma das responsabilidades de quem tem uma vida sexual ativa. Não se trata de preciosismo, mas de tomar cuidado para não ultrapassar os limites do seu parceiro e transformar um momento prazeroso em uma experiência traumática.

 


Arte:  Emily North

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O blog Não Sou Exposição é um dos nossos favoritos aqui da OLGA. A nutricionista Paola Altheia escreve sobre corpo, saúde e autoestima de maneira didática e bem-humorada, desconstruindo os mitos do emagrecimento e padrões de beleza. Aqui, ela fala sobre o apogeu do culto ao corpo que vivemos atualmente, apontando os resultados nocivos que acarreta. A entrevista definitiva que vai te convencer a parar de torturar seu corpo com dietas malucas e #projetos insustentáveis.

 

Como você enxerga o momento atual relativo ao cuidado do corpo, alimentação e nutrição?  

Eu identifico como preocupante. Porque o discurso vigente sobre corpo, comer e comida é simplista e dicotômico. A pluralidade dos hábitos alimentares, a afetividade e a preferência dos indivíduos deixa de ser respeitada. Muito se fala em “bom ou ruim”, “saudável ou nocivo”, “certo ou errado” , “pode ou não pode” e esquecemos que a comida é manifestação social, cultural, identitária e por tudo isso, livre de qualquer tipo de julgamento moral. Evidentemente, todos sabemos que atualmente existe uma alta prevalência de consumo de alimentos industrializados com alta densidade energética combinada com sedentarismo, que nos levou a índices alarmantes de sobrepeso e obesidade. Mas da mesma maneira que o excesso de peso pode favorecer doenças crônicas que configuram um problema de saúde pública, vejo a preocupação com o emagrecimento e estilo de vida saudável (dentro de definições rígidas e muitas vezes errôneas) como um problema de saúde coletiva igualmente alarmante. “Comer certo” é uma emergência coletiva que está nos afogando. Está na TV, nas revistas, nos anúncios, nas redes sociais, nas rodas de conversa, na literatura, em todas as formas de discurso midiático. A comunidade médica e científica está tão desesperada e sem rumo para contornar as doenças decorrentes da má alimentação, que está, literalmente, praticando terrorismo para que as pessoas façam a manutenção da saúde de modo satisfatório. Esse terrorismo, como o próprio nome indica, resulta em terror. Terror de comer. Terror de engordar. Terror de alimentos. Terror de celebrações. Terror de sentir fome. Terror de faltar a academia. Terror de gordura corporal. Terror de ter um corpo.

 

Existe um culto excessivo ao corpo? As mulheres estão mais suscetíveis a esse culto?

Sim. Absolutamente. Existe, é prevalente e é uma prática de devoção típica do século XXI. Já mencionei em outras ocasiões que estamos vivendo o apogeu da era do culto ao corpo. É interessante notar que o enaltecimento de virtudes morais foi gradualmente dando lugar à manutenção de atributos físicos. Se gerações anteriores apresentavam preocupação com a salvação da alma, atualmente precisamos agir em favor da salvação do corpo (mais especificamente, salvação da gordura e da velhice). Jejum, orações e penitência dão lugar à dieta, exercícios e antioxidantes. Na Idade Média temos relatos de mulheres que aspiravam à santidade praticando jejum severo para se aproximarem de Deus e atualmente, para se ter o corpo ideal, valem todos os sacrifícios. As mulheres são mais suscetíveis ao discurso porque desde a mais tenra idade nos é ensinado que o valor pessoal de um indivíduo do sexo feminino reside na aparência. Ser feminina é ser delicada, esguia, “princesa”. A moeda de valor do homem na sociedade é poder, dinheiro, influência, intelectualidade. Mas uma mulher que não dispõe de beleza (beleza esta, que se encaixa em critérios exclusivistas e específicos)… não dispõe de ferramenta nenhuma para ter um lugar na sociedade. O discurso midiático nos ensina que ser mulher é fazer a manutenção da própria beleza e ainda competir com as demais pelo prêmio da atenção masculina.

Entre mulheres, é típico observar conversas triviais e postagens nas redes sociais sobre dietas, “projetos” para preparar o corpo para o verão/vestido de noiva/eventos (como se o corpo precisasse de preparação para isso). Também é bem prevalente a postura de se justificar por “gordices” que eventualmente tenham sido cometidas, ou seja, sair da dieta. Mulheres têm que fazer dieta. Porque nos foi ensinado que ser mulher é ser bonita, portanto, magra. Esse diet talk, que é uma conversa incessante sobre o tema, junto com mútuo policiamento, está na boca de muitas mulheres brasileiras e do mundo, e é um franco reflexo do machismo. O que muitas dessas garotas falham em perceber é que o controle do corpo da mulher tem uma importância comportamental, cultural, política. É crucial nos colocar rédeas. Não estamos aprisionadas por espartilhos ou confinadas dentro de casa para a missão de ter filhos & cuidar da família, porém somos reféns da nossa mente e do nosso próprio corpo. Por esta razão, eu classifico a autoaceitação, a autoestima e o rompimento de padrões como fator de empoderamento e revolução. Paremos para pensar por um momento: o asco sentido pelo próprio corpo é impedimento para quantas conquistas? Desde ir à praia, praticar esportes até o rendimento acadêmico e confiança nas próprias habilidades. Temos uma crença de que a mulher É a sua aparência, que é muito difícil de desmistificar.

Quando eu questiono toda a cultura das dietas, projetos, intervenções estéticas, muitos me chamam de “radical”. E talvez eu seja mesmo. Mas me recuso a acreditar que, enquanto mulher, eu nasci para ser uma boneca de porcelana. Eu posso mais e eu SOU mais.

No entanto, entre os homens também vêm crescendo  os transtornos de imagem corporal e de comportamento alimentar. O bodybuilding é uma modalidade que popularizou muito e apresentou um crescimento vertiginoso nos últimos anos e representa as qualidades centrais do culto ao corpo. Os homens recebem a pressão para que sejam fortes, destemidos, valentes, viris e fantasiam que tais qualidades podem se tornar visíveis através de um corpo opulento, volumoso (“monstro”, “grande” e nomenclaturas do estilo). Ser “monstro” é espantar todos os presentes no recinto. É impor respeito pelo medo e por ter uma aparência ameaçadora.  Esses valores se relacionam intimamente com a cultura machista, dentro da qual não somente as mulheres são vítimas. É cobrado dos homens um comportamento estereotipado e idealizado, que causa danos emocionais e de desenvolvimento psicoafetivo. A febre da musculação faz vítimas diariamente, pelo uso indiscriminado de substâncias perigosas como medicamentos e hormônios. Vale tudo pelo corpo perfeito.

 

“Dieta detox”, “acúçar é veneno”. Por que esse terrorismo nutricional existe e como ele reflete na nutrição das pessoas?

Pra começo de conversa, veneno é arsênico, cicuta, chumbinho. Açúcar é um carboidrato e é uma substância que o nosso corpo reconhece e metaboliza perfeitamente sem que ninguém morra em decorrência disso.

“Aaah mas e a obesidade e o diabetes?” Ok.

Apenas consideremos que uma dieta com alta ingestão de açúcar refinado, pobre em grãos e fibras pode, sim, favorecer o aparecimento de doenças crônicas. Mas é preciso entender que o problema não está no alimento propriamente dito, mas sim no uso que se faz dele. O que vai definir se o açúcar faz mal é a frequência e a quantidade do seu consumo.

Em relação às “dietas detox”, acho importante ressaltar que a metabolização de substâncias no nosso organismo é realizada por órgãos e sistemas complexos como fígado, intestinos, pulmões, rins. O corpo tem plena habilidade de eliminar as toxinas e produtos metabólicos, sem que haja a necessidade de consumir “superalimentos” ou sucos verdes que potencializem ou mesmo provoquem tal efeito. É muito positivo consumir mais frutas e hortaliças, porque aumenta a quantidade de fibras, minerais e vitaminas na alimentação. Sucos de vegetais e frutas? São ótimos! Mas não provocarão milagres antienvelhecimento nem nenhuma outra promessa mirabolante do estilo. Também é legal lembrar que nem todas as pessoas têm condições financeiras para adquirir produtos orgânicos (cultivados livres de agrotóxicos), por isso, o suco de hortaliças pode ter efeitos deletérios à saúde pelo consumo exacerbado, e aí sim, podemos começar a discutir sobre veneno.

O terrorismo nutricional é a classificação maniqueísta da alimentação: é bom ou ruim. Engorda ou emagrece. Está certo ou está errado. E se você escolher errado, todo o seu sistema de qualificação moral estará em jogo. Estamos, verdadeiramente, dividindo pessoas tomando como critério o seu padrão alimentar. Fast Food é pecado. Pão francês é escândalo. O sistema de policiamento, altamente representado, inclusive, por profissionais da saúde leva ao stress, à culpa, aos transtornos alimentares, ansiedade, medo de comer e ojeriza pelo próprio corpo. Nas palavras da nutricionista Sophie Deram, amiga e mentora que eu admiro muito, precisamos “escutar o nosso corpo”. O corpo tem coisas para dizer. Sobre volume e qualidade da alimentação que necessitamos e também sobre atividade física. Ter consciência corporal e estabelecer um diálogo com nosso próprio organismo é fundamental para termos entendimento dessas necessidades, para que assim possamos administrá-lo. Muito se fala que devemos “controlar” nossa alimentação de fora para dentro, mas nosso padrão alimentar é regulado por comandos genéticos, mentais e metabólicos que vêm de dentro. Sou adepta do chamado mindful eating, que rompe com as normas dietéticas e o foco nas calorias e propõe uma nova relação com o alimento: íntima e particular.

Não me restam dúvidas de que o terrorismo alimentar não funciona, pois abordagens negativas não funcionam para nada na vida. Ninguém terá qualidade de vida e saúde plena se as diretrizes para que isso seja feito forem ditadas por ameaças, escárnio e medo. É senso comum pensar que o indivíduo primeiro emagrece e depois fica bem. Mas o que ocorre, na realidade, é o contrário. Primeiro diversas questões de desequilíbrio mental e afetivos deverão ser resolvidas… e a pessoa emagrecerá por consequência. Pessoas que se amam, se compreendem, se perdoam, se acolhem e se cuidam tratam bem do seu organismo, evitando excessos e desgastes.

Eu diria que o terrorismo nutricional acontece por termos uma sociedade altamente voltada à técnica e ao cientificismo e uma necessidade de polarizar as coisas como “adequadas ou inadequadas” e “certas ou erradas”. A sociedade ocidental, de modo geral, tem muita pouca tolerância ao discurso da moderação, o chamado “caminho do meio”. Também não gostamos de considerar aspectos psicológicos e sentimentos. Já vi nutricionistas dizendo “me recuso a me desfazer da velha máxima ‘redução calórica + exercício físico’”. A “máxima” é realmente interessante e aparentemente eficaz.Só faltou lembrar que estamos lidando com pessoas e por questões de subjetividade e diferenças de personalidade, a mudança de hábitos não é algo assim tão simples de acontecer.

 

O que é comer bem? Existe tal coisa?

Existe. Só que depende. Acho que meu ponto pode ser ilustrado por um episódio que vivi na cozinha do hospital das clínicas, onde estou fazendo estágio. Eu fico na área de produção de refeições aguardando os pedidos de dietas para os pacientes que estão internados. Somos nós quem separamos as comidinhas para: diabetes, hipertensão, insuficiência renal etc. Estávamos montando marmitas quando nos deparamos com um bilhete que dizia “hipoglicêmica”. Então a nutricionista indagou:

– Ei. Mas é DIETA hipoglicêmica ou PACIENTE hipoglicêmica?

Se fosse “dieta”, tínhamos que mandar comida com pouco açúcar. Se fosse “paciente”, tinha que ser com muito açúcar. Então alimentação é um ato que se relaciona com diversos outros fatores: quem come? Por que come? O que come? Quanto come?

Comer bem é o que é bom… Para mim! Pode ser um prato de 1 quilo de macarrão para um maratonista, ou uma água de coco para quem descansa à beira da praia. É um prato de almoço, uma porção de carpaccio ou um brigadeiro na festa de criança. Comer bem é quando um paciente que ficou se alimentando por sonda durante dias consegue enfim mastigar a primeira refeição sólida. “Comer bem” é uma história, um sentimento, uma necessidade, uma conquista.

Não existe uma receita para definir o que é “o bom” ou “o certo”. Muitas variáveis precisam ser analisadas e este é o erro de massificar a nutrição como se a regra X fosse boa para todas as pessoas.

 

Muitas revistas femininas têm seções inteiras dedicadas à dietas. O que você acha desse tipo de conteúdo?

Acho macabro. As seções sobre dieta nas revistas femininas passam a seguinte mensagem: ser mulher é estar de dieta. É controlar a alimentação e a silhueta. Porque é isso que mulheres fazem. Porque é isso que mulheres devem fazer. Acho inadequado pois a alimentação deve ser avaliada e orientada por profissionais habilitados e de forma individual. Ou seja, aquela dieta da revista é absolutamente genérica e dificilmente se adequa às necessidades de cada leitora. Quantos tipos de pessoas lêem a revista? Altas, baixas, gordas, magras, grandes, pequenas, ativas, sedentárias? Em que parte do país moram? Cada uma dessas pessoas deve ter o seu plano alimentar individualizado!

Em relação ao “dever” de fazer dieta… mito. Essa é a maior mentira que nos foi contada e não passa de mais uma ferramenta de opressão. Para colocar a mulher no seu “devido lugar”, que é o de passividade, submissão. É muito oportuno para a indústria das revistas femininas que suas leitoras estejam entorpecidas de fome. Deste modo, muitas ideias podem ser sugeridas e muitos valores podem ser passados com muito mais facilidade. Você, mulher, não precisa fazer dieta. O corpo sabe o que faz. Temos comandos de fome e saciedade eficazes, o único problema é que perdemos a consciência corporal necessária para identificá-los. Um corpo estressado por dietas fica desarmônico e a restrição alimentar tem consequências como episódios de compulsão alimentar e ganho de peso.

 

O que, em nossa sociedade, estimula a gordofobia? E quais as consequências dessa prática na vida das pessoas? 

A sociedade contemporânea é muito voltada para o corpo. Temos a aparência dos corpos como valor central a ser conservado, cultivado. Porque relacionamos qualidades morais com aspecto físico. Somos coletivamente movidos pela crença de que a gordura corporal é sinal de falta de obstinação, oportunismo, fanfarronice. A lipofobia é o pavor da gordura nos alimentos, no próprio corpo e no corpo dos outros. A gordofobia é o repúdio às pessoas gordas. A gordofobia é estimulada: pelo ideal estético atlético, pelo crescimento dos conceitos errôneos da “geração saúde” (que de saúde não tem nada), pela glamourização da magreza, pelas indústrias do emagrecimento/beleza/entretenimento e pelos discursos da área da saúde.

As consequências são as mais nefastas imagináveis: baixa autoestima, depressão, transtornos alimentares, marginalização da pessoa gorda, injustiça social, desemprego, piora na qualidade de vida, sedentarismo, maus hábitos alimentares. As pessoas têm uma tendência a pensar que se “assustarmos” o gordo, aplicarmos a tal da “terapia de choque”, a pessoa de alguma maneira irá reagir e modificar os hábitos de vida. Por esta razão, vemos profissionais de saúde (e os amigos, os familiares e a vizinha…) ridicularizando, cobrando, depreciando e menosprezando as pessoas com excesso de peso.

É imaginar que se pisotearmos a pessoa o bastante, um dia ela irá erguer-se. É senso comum, mas trata-se de uma besteira. Ninguém vai melhorar seus hábitos e passar a se cuidar porque foi xingado, humilhado, maltratado.

Não é difícil de entender porque a pessoa gorda se sente desmotivada para praticar exercícios físicos, uma vez que foi dito para ela sem parar que o corpo dela é inadequado, indesejável e feio, que só as pessoas magras são capazes e bonitas e ela é uma perdedora. Quem entraria numa academia de ginástica para fazer exercício, sendo que este ambiente é um templo de adoração à massa magra e às pessoas atléticas e definidas?

 

Qual o limite da vaidade? Como descobrir que ela virou obsessão e o que fazer a respeito?

A vaidade não tem limites. E pode, inclusive, matar. Quando “perdemos a linha” com a nossa vaidade (que todos temos, é claro) nossa qualidade de vida pode ficar seriamente comprometida.

Gostaria de deixar claro que o NSE não se posiciona contra práticas de embelezamento. Todo mundo gosta de se enfeitar, se embonecar, se admirar e admirar os outros. A humanidade sempre celebrou as formas físicas e celebrou o corpo e isso é natural. Os Egípcios gostavam de pintar o rosto e essa prática data de A.C. O que é diferente hoje é o papel central que a beleza ocupa nas nossas vidas. Ser belo é tudo. É missão, meta, obsessão. Vivemos uma mitologia fundamentada na crença de que ser magra, jovem e bonita vai abrir as portas para um pleno estado de felicidade.

Como toda obsessão, a beleza também é perigosa. A preocupação com a alimentação e o peso corporal possivelmente se tornou um exagero quando a pessoa já não se sente capaz de ter uma vida social com os entes queridos e amigos sem se sentir desconfortável. A mãe chama para almoçar e a pessoa mente que já comeu. Os amigos vão à pizzaria e a pessoa leva um potinho de salada. É sentir que não é permitido sair da linha. Nem um pouquinho. É negar um pedaço de bolo numa festa de aniversário da empresa.

Também é importante notar a hipervigilância corporal. Se a pessoa passa longos períodos na frente do espelho buscando “defeitos” e descobrindo imperfeições “novas” que supostamente não estavam ali. Se pesa todos os dias. Se sente desconfortável nas roupas, prefere peças de roupa mais larguinhas que escondam sua “bunda grande”, suas “pernas grossas” ou seus “braços gordos”. Ou, ao contrário, abusa de roupas justas, coladas, que evidenciem os músculos que parecem nunca ser definidos ou grandes o suficiente.

Também quando dados objetivos (peso, IMC e composição corporal) comprovam que não há excesso de peso (na maioria dos casos, o peso corporal já se encontra abaixo de limites seguros) e mesmo assim a pessoa não acredita ou não consegue ficar satisfeita.

E, claro, quando o que você enxerga não é compatível com o que o mundo inteiro diz. Ou seja, se a pessoa afirma categoricamente que está gorda e todos ao redor negam.

É preciso estar atento para um problema de saúde sério que se chama transtorno dismórfico corporal. As pessoas com este problema apresentam fator de risco para complicações decorrentes de restrições alimentares, abuso de exercícios físicos e cirurgias plásticas de repetição. A pessoa se enxerga sempre feia, irremediavelmente feia. Olha no espelho e sente desespero. Chora, sofre. Não consegue assimilar a própria imagem e sente que sua presença “ofende” os olhos dos demais.

Se sinais assim forem percebidos, é importante buscar tratamento. Psicoterapia, e se for necessário, psiquiatra e medicação. No caso dos transtornos alimentares os nutricionistas também podem ajudar.

 

Se você pudesse fazer uma consultoria para algumas revistas femininas e blogueiras fitness sobre como falar de nutrição de forma saudável, que palavras você cortaria do vocabulário e por quê?

Eu creio que cortaria eufemismos estranhos para a palavra “emagrecer”: afine, enxugue, seque, esculpa, modele, detone… porque é besteirol não científico e são palavras que despersonificam. Esse tipo de nomenclatura faz o corpo humano parecer uma substância maleável, controlável e moldável de acordo com a nossa vontade, o que simplesmente não é verdadeiro. Existem fortes determinantes genéticos para termos o corpo que temos e tal fato não pode ser modificado pela “força de vontade” e nem uma “dieta TOP”. Em bom português, é enganação. As palavras são convidativas e desviam o foco do significado de “emagrecer”, que é uma tarefa árdua, difícil e que acontece a longo prazo.

Também eliminaria com muito prazer a palavra “Projeto” (projeto verão, projeto biquíni, projeto casamento etc.) porque é reducionista. Atrelar a sua rotina alimentar a um projeto não é uma forma de promover a alimentação saudável porque o objetivo é sempre uma coisa pontual e efêmera como ir à praia ou uma festa… A pessoa que se entrega a “projetos” não está verdadeiramente buscando uma vida saudável, está fazendo um “sacrifício” em nome de uma compensação. E ter uma vida saudável não deveria ser sinônimo de privação, luta, sacrifício. Sempre digo: ser saudável, é agradável.

O próximo da lista é “No Pain, No Gain” (“sem dor, sem ganhos), sem dúvidas. Eu fico absolutamente abismada ao observar como a área da saúde está contaminada com uma filosofia de flerte com a dor oriunda do fisiculturismo. Dor é mau sinal. Dor quer dizer que algo não está bem. Dor é um alerta do organismo saudável. Não é verdade que tudo o que a gente faz tem que doer, tem que sangrar, tem que ser uma tortura. Existem pessoas que não consideram uma atividade física realizada se não tiver passado por um calvário. Evidentemente, isso não é saudável. É importante fazer atividade física dentro dos limites de cada corpo. Não existe nada de proveitoso em treinar até morrer. É normal faltar academia de vez em quando e também é normal não conseguir ter pleno rendimento todas as vezes. Algumas vezes a gente aguenta mais, outras menos. Tem dias que preferimos ficar em casa dormindo. E isso é normal e também é uma forma de cultivar a saúde.

Também baniria: “MAGRA” como elogio e sinônimo de coisa boa. “Tá magra, amiga” ou “agora eu vou ficar magra”. Magreza é uma característica física. Não é a oitava maravilha do mundo e não necessariamente significa que a pessoa tem saúde. Uma pessoa pode emagrecer e melhorar muito seu estado geral ou isso pode acontecer por problemas emocionais, luto, desordens metabólicas e até câncer. Ser magra não é sinônimo de saúde. Nem de superioridade. E não é um elogio. Sempre importante lembrar: nem toda pessoa gorda é doente. Nem toda pessoa magra é saudável.

Último e mais importante: “Vergonha na cara”. Esse comentário é absurdo e terrível. Atualmente temos um aumento da prevalência de doenças crônicas como diabetes, cardiopatias e hipertensão e isso acontece por inúmeros fatores, só que um surto mundial de falta de vergonha na cara não é um deles. Dizer que uma pessoa tem problemas de saúde porque “quer” ou porque “não tem vergonha na cara” é uma demonstração de ignorância e preconceito. As pessoas têm dimensão emocional, afetiva, financeira, social, física e os determinantes da saúde humana são muito complexos. Ter boa saúde e ter bons hábitos envolve muito mais do que “uma escolha” e, sejamos francos, dizer que as pessoas não têm vergonha não motiva ninguém.

 

Como podemos criar uma relação de paz com a comida e aceitação com nosso próprio corpo? Você tem histórias para dividir sobre pacientes, leitores ou conhecidos que conseguiram atingir isso?

Confiando no organismo, deixando o corpo em paz, controlando a ansiedade e não tendo pressa. Como comentei anteriormente, é comum imaginarmos que primeiro a pessoa emagrece e depois começa a se sentir bem. Mas a na realidade acontece o contrário: primeiro a pessoa fica bem. Se aceita. Se acolhe. Se harmoniza. E o emagrecimento vem por consequência. Perceber os sinais de fome e saciedade nos leva ao respeito pelo nosso corpo e quando respeitamos o nosso corpo, não comemos sem necessidade. Há muitas histórias de pessoas que mudaram suas vidas quando decidiram trilhar o caminho da aceitação. É paradoxal, mas tudo muda quando desistimos de tentar mudar tudo. Há diversos depoimentos no meu Blog sobre transformações maravilhosas e recebo mensagens e e-mails quase que diários me falando sobre como o amor próprio transformou vidas. A Keila é um caso muito especial pois é uma amiga próxima. Também tem a Raquel Rocha, que por causa do NSE tem, hoje, o próprio Blog. A Aline Xavier também. A Lu Medeiros também veio com a gente e hoje tem uma Fanpage linda chamada Ei Mulher, Melhore. Acho muito especial a história da Karol, que foi a porta de entrada para outras pessoas também enviarem depoimentos. Pra ser sincera? Estamos criando uma revolução de amor que só tem crescido!! São inúmeras histórias, incontáveis vidas modificadas. Perdi as contas. Tem um mundo de gente do outro lado da telinha!

 

Suas mídias sociais têm um approach bem humorado ao falar sobre esses temas. Elas, inclusive, tiram sarro de propagandas enganosas, denunciando os abusos de maneira leve e cômica. Por que você decidiu por essa estratégia?

Porque os abusos são engraçados. Eu sempre acho engraçado. Dentro da velha máxima “seria cômico se não fosse trágico”, acredito que a melhor maneira de enfrentar uma realidade é rir dela. E eu rio. Rio alto. Sempre que vejo capas de revistas na fila do mercado e leio os apelos e sugestões eu dou gargalhadas, porque não é possível que estejam realmente querendo me dobrar com tanta bobagem. Isso é um relato que ouço de amigas também. Quando você está imersa no discurso, tudo aquilo parece ser muito importante, mas a partir do momento que a mística se desfaz e você começa a enxergar a coisa toda com outros olhos – olhos de quem tem senso crítico e não quer ser explorada – tudo acaba se tornando muito engraçado. Não sei. Tive uma intuição de que o humor era o caminho a tomar. Dizem que eu sou engraçada, então uso um mecanismo de linguagem que domino.

 

Sei que você sofre com muita violência online. Por que você acha que as pessoas têm esse comportamento ao falarmos de saúde?

A animosidade online é grande. Com todo grande empreendimento vêm os desafios e todo bônus tem seu ônus. Tenho fãs, parceiros e amigos. E também bullys, haters e inimigos. Pra ser honesta, tem alguns nutricionistas chateados comigo. Quando você enche a sua clínica promovendo o Projeto Verão e aparece uma sirigaitinha na internet dizendo que as pessoas não precisam emagrecer para ir à praia, é pra ficar muito p* mesmo! Hahaha…

Acho que as pessoas se alteram quando falamos de saúde porque existe muita crença em discursos simplistas e extremos. Além de muita gordofobia, há muito pouco questionamento e uma impressionante tendência em repetir a máxima (falida) da Dieta + atividade física + força de vontade. Ora, todo mundo conhece essa fórmula. Todo mundo sabe disso. Se a questão fosse assim tão simples, não teríamos um tremendo problema de crescimento da obesidade no mundo!

Me lembro também de uma ocasião em que discorri sobre fisiculturismo infantil e precisei trocar meu endereço de email no começo deste ano. A comunidade bodybuilder queria minha cabeça. Também pudera. Existem certos grupos que têm conduta sectária e o nicho da musculação certamente é um deles. Também dizem por aí que eu tenho “A Fanpage que ataca nutricionistas”… Porque eu denuncio as bobagens que certos nutricionistas andam falando por aí. Mas eu juro que eu sou boazinha e nunca avancei em nenhum nutricionista. Sou da paz.

Eu sei que estou sozinha num barco à remo tentando vencer a correnteza (e correnteza braba!). Quando alguém levanta a voz e desafia o status quo, essa pessoa precisa saber que não vai ficar por isso mesmo. Vai ter muuuuuuuuuito mimimi. Cada vez que eu me sinto derrotada, abatida, eu paro e me faço a seguinte pergunta: “- Você vai recuar por causa disso?”… Até agora a minha resposta tem sido NÃO.


 

Arte: Ashley Blanton

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“Eu nunca tive um orgasmo”. Quando eu tinha 18 anos, uma amiga me contou isso. Na época, uma Gabriela fã de carteirinha da Sue Johanson ficou em choque. “Como assim nunca teve um orgasmo? Tu nunca te masturbou??” – ênfase no sotaque gaúcho carregadíssimo de Santa Maria.

A resposta dela fez todo sentido: “não, nunca me toquei”. Ela dizia que até alguns anos atrás achava “nojento”, que era uma “guria de respeito” e que quando teve vontade mesmo, o bloqueio já era muito grande. Que conselho eu podia dar à minha amiga na época? “Assista a um filme pornô”? Nem eu assistia, a pornografia nunca me deu um pingo de tesão, com humilhações, depilações exageradas, fantasias que nunca foram as minhas e uma boa dose de violência. Tenho certeza de que há várias meninas como ela por aí, com nojo e vergonha da própria vagina e sem qualquer consciência do próprio corpo, muito menos do que lhes dá prazer. E isso tem tudo a ver com opressão a mulheres e pornografia mainstream.

Muitas feministas são antipornografia. Como dizia a feminista Robin Morgan: “a pornografia é a teoria; o estupro é a prática.” Há bons argumentos nessa linha feminista, como o fato de que é uma indústria que existe somente para fazer dinheiro, que mastiga e cospe as mulheres e mostra violência, assédio e ofensas como algo  aceitável e parte da sexualidade masculina. Dizem que a pornografia promove padrões de beleza misóginos e que afeta a todos porque influencia a forma como homens veem mulheres. “A pornografia mainstream heterossexual dita uma ideia estreita e limitada do que é a sexualidade humana. Na pornografia, a sexualidade masculina pressupõe crueldade, coerção e degradação e a feminina como submissa ou aparentemente apreciadora de um tratamento cruel, coercitivo e degradante. A pornografia anula as necessidades sexuais das mulheres e dificulta a descoberta de seus próprios corpos e sua sexualidade”, diz um blog americano de feministas antipornografia.

Vamos falar sobre alguns fatos da indústria pornográfica que fazem com que muitas feministas se oponham à pornografia. É um negócio bilionário, centralizado na Califórnia, onde fica 90% da produção mundial, dirigido e produzido por homens e voltado ao prazer masculino através da dominação. Sabe-se que 80% das sobreviventes do tráfico de pessoas relatam que seus algozes usaram a pornografia para mostrar a elas como deveriam se comportar em seu estado de escravos sexuais. Muitas vezes, essas vítimas também são fotografadas e filmadas para a indústria pornô, a fim de multiplicar o ganho de seus sequestradores. Além disso, muitas atrizes pornôs relataram situações análogas ao tráfico humano e/ou à escravidão sexual. Uma delas é Linda Lovelace, famosa pela sua atuação em Garganta Profunda e eternizada como símbolo da revolução sexual dos anos 1970. Só que era tudo uma mentira: na verdade, Linda era torturada, espancada e obrigada sob ameaça de morte a fazer filmes pornográficos por seu marido abusivo Chuck Traynor. Depois de conseguir fugir dele, Linda virou uma ativista antipornografia e relatou os abusos a que foi submetida em uma série de entrevistas até morrer em um acidente de carro em 2002. Um filme sobre sua história foi lançado no ano passado, inclusive. Assista ao trailer:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=O0Dyx3SE2Yo?rel=0&w=560&h=315]

 

Como é um mercado, a competição impera na indústria pornô, e o conteúdo “evolui” para práticas cada vez mais “ousadas”. O gang bang de três caras com uma mulher de repente vira o “extreme gang bang”, com 10, 20, 150 caras. O sexo anal vira rosebud (só dê um Google se tiver estômago). Surgem canais especializados em surras e outras práticas cada vez mais extremas, “extreme isso”, “extreme aquilo”. E assim por diante, com atos cada vez mais violentos e mais destruidores de corpos femininos. Quando eu falo destruidores, não me refiro somente a DSTs e HIV, que já configuram um cenário aterrador, mas a ferimentos graves nos órgãos genitais. No St. James Infirmary, uma clínica criada por trabalhadores da indústria do sexo para trabalhadores da indústria do sexo (inclusive prostitutas e garotos de programa) em São Francisco (Califórnia), reconstituição de vaginas e ânus são procedimentos comuns. Isso sem contar as “ciladas” que estão sempre bombando nos sites pornôs, como a que um cara finge que vai contratar uma funcionária como forma de persuasão para receber sexo oral ou outros serviços. Claro que essas emboscadas não são reais e sim hermeticamente produzidas pela indústria pornô, mas a mensagem de enganar mulheres só pela diversão é transmitida com sucesso.

Nos Estados Unidos, há algumas organizações de proteção a atrizes pornôs. Uma delas é a Pink Cross Foundation, uma instituição de caridade criada por Shelley Lubben, ex-atriz pornô que deixou o ramo após ser infectada pelo vírus da herpes e perder metade do útero. Shelley é uma voz importante no movimento antipornografia americano e sua organização realiza e divulga uma série de pesquisas sobre a vida das atrizes pornôs. Alguns dados apresentados pela organização: a expectativa média de vida de uma estrela pornô é de 36 anos; 208 atores morreram de aids, overdose, suicídio, homicídio ou outras doenças somente em 2014 e 66% desses trabalhadores têm herpes, uma doença sem cura. Entre as lutas, está a aprovação, em 2012, de uma lei que exige o uso de camisinha durante as gravações em Los Angeles. Um ano após a lei, a produção caiu 90% na cidade, e continua diminuindo este ano. Em 2014, uma lei semelhante chegou a ser aprovada no estado da Califórnia, mas ainda enfrenta uma longa batalha no senado para ser mantida. Veja este vídeo produzido por alunos da Universidade de São Paulo sobre o lado obscuro do mundo pornô, com falas de Shelley:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hIok-mr12P0?rel=0&w=560&h=315]

 

Mais de 11 milhões de adolescentes assistem a filmes pornôs na internet, e sabemos que educação sexual não é um procedimento padrão em muitos lares e não passa de uma conversa sobre o uso de camisinha em muitas escolas. Segundo a britânica Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), a pornografia tem um efeito sombrio sobre as crianças e está ligada à proliferação de casos de estupros entre adolescentes. Muitos concordam com essa ideia. Para fazer o documentário “Amor e Sexo na Era da Pornografia”, a pesquisadora Maree Crabbe entrevistou dezenas de jovens sobre suas práticas sexuais e percebeu que muitos deles estavam sendo educados pela pornografia, normalizando comportamentos agressivos. Meninas relataram a Maree que muitas vezes não se sentiam confortáveis com os pedidos de seus parceiros, mas acabavam cedendo pela pressão ou vontade de agradar. Alguém aí lembra daquela cena de Girls em que Adam pede para Hanna rastejar pelo quarto e ejacula em suas costas? Bem por aí. A pornografia pode tornar as mulheres cada vez mais presas a fantasias pornográficas que não são as suas.

Cansada de lidar com esse tipo de postura ao transar com novinhos educados pela pornografia, a empresária americana Cindy Gallop resolveu fazer algo a respeito. “Como uma mulher mais velha, madura, experiente e confiante, eu não tive dificuldade de perceber que uma certa quantidade de reeducação, reabilitação e reorientação era necessária”, disse Cindy em uma TED em 2009 ao lançar a iniciativa Make Love Not Porn (“Faça amor, não faça pornô”, em tradução livre). Basicamente, é um site educativo que mostra as diferenças entre o sexo real e o dos “filmes adultos” através de desenhos e vídeos.

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Traduzindo…”Mundo pornô: homens adoram gozar na cara das mulheres e as mulheres adoram que eles gozem na cara delas. Mundo real: algumas mulheres gostam disso, outras não. Alguns caras gostam disso, outros não. Depende inteiramente da sua escolha.”

Eu adoro como o pesquisador da Universidade de Tel Aviv Ran Gavrieli explica por que parou de consumir pornô em uma TED. Ele fala da necessidade de uma desintoxicação não apenas de nossos corpos através da alimentação, mas de nossa mente. Ran conta ter percebido como ele passou a fantasiar com situações que nunca lhe agradaram de verdade como consequência dos pornôs que via, e como ele observou que a cultura pop utiliza cada vez mais referência pornográficas (cita Lady Gaga e Miley Cyrus), influenciando adolescentes a tirar fotos e vídeos nuas para seduzir seus paqueras e muitas vezes acabam expostas por eles, com vazamentos que terminam em bullying, humilhações incessantes, perseguição, depressão e às vezes até suicídio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=gRJ_QfP2mhU?rel=0&w=560&h=315]

 

Apesar de tudo isso, eu não sou uma feminista antipornografia. Eu concordo com o que Wendy McElroy diz no livro XXX: A Woman’s Right to Pornography: “censura ou qualquer repressão sexual inevitavelmente se volta contra as mulheres, especialmente aquelas que querem questionar seus papeis tradicionais. A liberdade de expressão sexual, incluindo a pornografia, cria uma atmosfera de interrogação e exploração. Isso promove a sexualidade das mulheres e sua liberdade”.

Como em todas as áreas dominadas por homens, eu acredito que as mulheres devem tomar seu espaço na pornografia. Por exemplo fazendo pornô feminino, de mulher para mulher, como Erika Lust. A sueca formada em ciências políticas e feminismo na Universidade de Lund, uma das mais prestigiadas da Suécia, criou uma produtora de filmes eróticos vencedores de vários prêmios em festivais, inclusive o Feminist Porn Awards, que é praticamente um movimento em prol do pornô feminista. “É triste dizer isso, mas o sexo ainda é uma questão política”, disse Lust em uma entrevista à Tpm em 2012.

Sim, sexo é político. Michel Foucault já dizia em sua obra História da Sexualidade I que as sexualidades são socialmente construídas. “É pelo sexo, com efeito, ponto imaginário fixado pelo dispositivo da sexualidade, que cada um deve passar para ter acesso à sua própria inteligibilidade (…) à totalidade de seu corpo(…) à sua identidade”. Foucault vê a proliferação de sexualidades como uma extensão de poder. E quando as mulheres fazem pornografia para mulheres, elas tomam o poder para si. Quando uma atriz pornô reflete sobre o próprio trabalho e determina o que quer fazer e como quer fazer, a exemplo de Stoya, Sasha Grey e Mônica Mattos, ela está tomando poder para si mesma (mas vale lembrar que para cada Stoya há centenas de escravas sexuais).

Quando uma mulher se masturba e aprende a ter prazer sozinha, ela também está tomando poder sobre si mesma. Na história, a legitimação da masturbação feminina representou o uso do corpo como luta política, como as moças do Femen usam os seios. Isso ainda não mudou. É preciso se conhecer muito bem para saber o que dá prazer ou não, e para isso é preciso se tocar muito. Também é preciso saber o que gosta ou não para barrar aquele cara educado pelo pornô de tentar fazer coisas que você não quer. Para se impor sexualmente. Para se impor como mulher. E gozar muito. Porque siririca é o poder.

 

* E para quem quiser saber mais sobre pornô para mulheres, recomendo o blog da minha querida amiga Nina Neves, que fez um TCC a respeito.

* Fica para outra hora a discussão sobre como a pornografia mainstream também limita a nossa sexualidade.

IMAGEM: ART BY BlackHeart (Facebook e Instagram)

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