primeiroassedio

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Para a minha fala no TEDxSão Paulo sobre a campanha Chega de Fiu Fiu, precisei juntar coragem. Contei, no Auditório do MASP, sobre minha história com violência sexual não apenas para o público de 450 pessoas, mas também para câmeras que eternizariam o momento – aos 11 anos, escutei comentários grotescos sobre meu corpo de um estranho na rua.

Falar sobre o #PrimeiroAssedio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. “O que será que eu fiz para provocar isso?”, me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Naquele mesmo palco, desabafei sobre isso: apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, só consegui voltar a falar sobre ele 16 anos depois. Aos 27 anos, ao ver, pela primeira vez em toda minha vida, uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos de forma pública, em post no Facebook, tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Decidi ali que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #primeiroassedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade! E, infelizmente, o caso do MasterChef Jr. jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

 

HASHTAG TRANSFORMAÇÃO

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.  Ela não é operada por um super vilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero,  que é preciso esquecer,  que “o que passou,  passou”,  e que reclamar disso é  “vitimismo”.  Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano,  então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.
É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse. Descobrem-se,  enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância.  E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag  #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo. Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

 

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Demos ali a largada em um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, até em 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

 

Os depoimentos recebidos até então pela campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio sexual em locais públicos já mostravam que o problema começava cedo, mas não há precedentes na quantidade de histórias recebidas sobre a prevalência desse problema na infância.  Recebemos depoimentos de mulheres que lembram ter passado por abusos com até cinco anos de idade.

 

Ao ler isso, a reação inicial de muitos é acreditar que ela foi vítima de um pedófilo, o que isola e minimiza a questão da cultura de pedofilia em que vivemos – retratada com louvor por seus próprios representantes na ocasião dos ataques à menina do programa de televisão.  Existe uma desinformação muito conveniente para os homens em relação à gravidade das “brincadeiras” com pedofilia,  estupro e assédio que os deixa confortáveis o suficiente para reproduzi-las sem se preocupar com as consequências.

ANÁLISE

Até a meia-noite de domingo, a hashtag foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos a constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

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A seguir, veja a cloud de palavras mais citadas nesse grupo de tweets:

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Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico – e grande parte dos crimes, 65%, são cometidos por conhecidos. Ou seja, aqueles em que mais deveríamos confiar. Adentramos, então, nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas.  Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem.  Nesse caso,  para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar,  mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe,  sim,  e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas,  mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

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Estamos de volta! Não se preocupe caso você tenha notado uma diminuição no número de posts do Think Olga nos últimos meses: passamos por uma grande reforma. Com o amor o apoio de tantas e tantas Olgas (nossas leitoras), o site cresceu. Ainda assim, somos poucas para dar conta do recado e, após dois anos de pé embaixo, trabalhando sem parar e movimentando vários projetos simultaneamente, precisamos de uma pausa para colocar ordem na casa e retomar a Olga com a qualidade que ela merece.

Enquanto estivemos fora por aqui, Juliana de Faria, jornalista e fundadora do Think Olga, participou de eventos incríveis em nome da Chega de Fiu Fiu. Ficamos muito orgulhosas em vê-la representando organizações contra o assédio em locais públicos de toda a América Latina na 59ª Conferência Mundial sobre as Mulheres da ONU, no mês de março, em Nova York.

De lá, ela partiu para o Texas, onde ao lado da Amanda Luz, comandou um painel sobre violência contra as mulheres na internet. Ao voltar, participou do TEDx só com mulheres, em São Paulo, para falar sobre suas experiências à frente dessa que talvez seja a maior campanha contra assédio em locais públicos do país. E, na última semana de junho, repetiu a dose em Floripa.

A oportunidade de participar de tantos eventos bacanas não apenas nos deixaram felizes e cheias de orgulho, mas também nos fizeram refletir sobre o futuro do Think Olga e como precisamos nos preparar para que ele continue sendo relevante e inspirador para tantas pessoas. Por isso, precisamos dessa pausa estratégica para recomeçarmos com fôlego renovado e novos ares.

Conheça as novidades

Para começar, apresentamos nosso novo layout. Ele é mais mais intuitivo e agora contamos com um menu superior que reúne nossos principais projetos. Na Chega de Fiu Fiu, além do Mapa, do Ebook, da Cartilha e das Artes, adicionamos um FAQ com as perguntas mais frequentes que recebemos em relação ao assédio sexual em locais públicos e a campanha.

O Entreviste Uma Mulher foi turbinado e adicionamos mais 20 mulheres incríveis que merecem ser ouvidas não apenas pelo reconhecimento de seus trabalhos, mas por uma maior representatividade feminina nos meios de comunicação.

Apresentamos, também, as mixtapes da Olga na nossa Rádio. Vamos começar com uma especial só com músicas da Nina Simone, inspirada pelo recente documentário lançado sobre essa lenda da música, disponível no Netflix.

Para não ficar mais sem notícias sobre a Olga, agora você pode acompanhar tudo o que estamos fazendo por aí e o reconhecimento que recebemos mundo afora na seção Girl Power. E, para ficar por dentro de eventos feministas em todo o Brasil, fique de olho na nossa atualizadíssima Agenda.

Ufa! E tem muito mais vindo por aí, mas tudo, tudo mesmo, começou aqui nesse espaço. Por isso, estamos felizes em dizer que estamos de volta e com saudades, mas também com muita vontade de fazer os próximos anos do Think Olga ainda melhores do que os anteriores. Agradecemos de coração a paciência e o carinho de todas as Olgas.  Obrigada por tudo e fiquem ligadas para mais novidades!


Arte: Diela Maharanie

Layout: Carolina Yurie Suga e Jordana Andrade

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mapa cdff

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Quais são os locais mais perigosos para as mulheres? Que tipo de violência elas sofrem em cada cidade? Existem poucos dados que ajudem a responder essa pergunta, mas a campanha Chega de Fiu Fiu, que luta contra o assédio sexual em locais públicos, quer tentar agora desvendá-los. Para isso, está lançando o Mapa Chega de Fiu Fiu, uma ferramenta colaborativa para mapear os pontos mais críticos de violência contra mulheres no Brasil. Cada uma pode registrar o caso e o local da violência que recebeu. Com isso, as próprias vítimas ou testemunhas das agressões vão, unidas, nos ajudar a levantar esses dados.O mapa conta com as seguintes categorias: assédio verbal, assédio físico, ameaça, intimidação (stalking), atentado ao pudor (masturbação em público), estupro, violência doméstica, exploração sexual. Acreditamos que para se discutir violência de gênero devemos contemplar também as interseccionalidades. Por isso, acrescentamos racismo, homofobia e transfobia como categorias.

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Como funciona?

– Ao acessar o mapa, o usuário clica nos botões “compartilhe sua história” ou “denuncie o que viu”. Na etapa seguinte, procura o endereço onde a violência ocorreu e marca um pin. Como a ferramente utiliza o Google Maps, a localização pode ser bastante específica. Se o usuário não se lembrar do número específico da rua, pode ajustar a altura da localidade manualmente com o mouse.

– Há um espaço para desenvolver detalhes do ocorrido. Caso tenha recorrido a amparo público ou privado sem sucesso, solicitamos à vítima que notifique no testemunho. Exemplos: a oficiais da Delegacia da Mulher se recusaram a lavrar o boletim de ocorrência; os seguranças e proprietário de uma casa noturna negaram prestar auxílio.

– Contamos também com um pequeno questionário sócio-econômico, baseado no questionário do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nenhuma das opções é obrigatória (a resposta automática às questões é “prefiro não dizer”). No entanto, estimulamos o usuário respondê-las, pois conseguiríamos dados ainda mais específicos.

– Os pins (como chamamos as marcações dos testemunhos) não exibirão nome, nem e-mail do usuário. Tais dados estarão disponíveis somente para os administradores do mapa. Mesmo assim, há a opção de participar anonimamente.

– É possível checar os pins por região. Na home do mapa, há a caixa de busca “pesquise por uma cidade”.

– Os números gerais são acessíveis a todos e podem ser exportados na seção Dados.

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Por que um mapa?

Nossa proposta de registrar os locais problemáticos do Brasil relativos à violência contra mulher não é podar ainda mais a liberdade das vítimas e apontar espaços públicos e privados onde ela não deve ir. Nosso olhar, na verdade, é o de transformação. Ao conhecer esses pontos críticos, podemos entender o motivo que os levam a assim ser: é uma rua com iluminação escassa? É uma casa noturna com segurança falha? Somente compreendendo tais questões é que podemos buscar mudanças – e não apenas no setor privado, mas também no público. Sim, com dados na mão podemos pressionar também instituições governamentais a olharem com mais atenção para a violência contra a mulher.

Precisamos de você

Os dados só terão impacto se forem representativos e corretos. E para conseguirmos essa relevância, precisamos da participação constante dos usuários. Participe, divida sua história, divulgue o mapa. Sua contribuição é muito importante – para você e todos que lutam contra a violência de gênero.

Denuncie

O mapa não substitui denúncias oficiais de violência contra a mulher. Pedimos que denunciem também nas Delegacias de Defesa da Mulher e na Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180. A Secretaria de Políticas para as Mulheres também recebe depoimentos nos seguinte e-mails: ouvidoria@spm.gov.br e spmulheres@spmulheres.gov.br.

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olga anna mancini

É provável que você já tenha visto a imagem abaixo circulando pela internet. Batizada de Judgements (em português, julgamentos), a foto foi feita pela artista Rosea Posey com a intenção de denunciar os preconceitos e as ofensas estereotipadas que as mulheres escutam por causa de suas roupas. “Toda vez que saio de casa com um shorts curto ou um decote, fico preocupada se serei vítima de assédio sexual”, disse Posey ao Huffington Post.

olga saia

De maneira irresponsável e equivocada, a forma como as mulheres se vestem é apontada como a culpada por gerar violências sexuais. Governos e entidades religiosas praticam a culpabilização da vítima. Recentemente, um estudo na Arábia Saudita, onde as mulheres usam o xador, vestimenta que cobre todo o corpo, com exceção dos olhos) mostrou que os homens acreditam que o uso de maquiagem é uma das causas do aumento de casos de assédio sexual. A culpa é de todos, menos dos verdadeiros culpados: os assediadores e agressores.

olga anna mancini

À convite da OLGA, a ilustradora Anna Mancini fez uma versão da foto acima. As categorias foram todas substituídas por “asking for it” (“ela estava pedindo”). É que, na verdade, o tamanho da saia pouco importa se o agressor tem a intenção de assediar e a certeza de impunidade.


Anna Mancini é ilustradora, adora fazer animações e descobriu que desenhar quadrinhos faz bem pra cabeça. Trabalha com ilustrações para camisetas, lettering e design gráfico. Faz parte do projeto Zine XXX e publica suas coisas no Tumblr e na página Manzanna.

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olga assedio

olga assedio

O país já está há semanas debatendo o assédio sexual em locais públicos. No entanto, ontem, a Mídia Ninja reportou que, durante as manifestações dos professores no Rio de Janeiro, Anne Melo foi detida por ter respondido ao assédio de um oficial do Batalhão de Choque da Polícia Militar do RJ. Ele a chamou de “gostosa”. Ela não gostou, retrucou e foi levada para o camburão por cinco PMs. Veja o vídeo.

Não estamos apenas falando de assédio sexual, mas também de abuso de autoridade. Onde está Ane Melo? O que aconteceu com ela depois da detenção, longe dos olhos dos outros manifestantes? 

O que deveria ser inaceitável, no entanto, acontece com mais frequência do que imaginamos. Abaixo, alguns relatos de assédio envolvendo policiais retirados da seção depoimentos da campanha Chega de Fiu Fiu

  • “Descendo uma rua da Liberdade, em SP, um policial deu bom dia pra mim. Respondi educadamente bom dia, e ele fala ‘bom dia, coisa linda’. Falei que ele não tinha direito de falar comigo daquele jeito, ele disse que era autoridade, eu xinguei ele de abusado, ele disse que eu estava desacatando a autoridade. Eu disse que ele tava me desacatando, xinguei de escroto e sai andando.” JULIA
  • “Às vezes alguns policiais olham e/ou mandam uma cantada. Contei uma vez de um policial para um ex namorado e ele muito ciumento ficou bravo comigo e ainda disse que eu gostava.” DANI
  • “Uma vez eu saí com uma amiga, ela tinha uns 18 e eu ainda 16, dois policiais acharam que éramos namoradas e começaram a desfiar comentários como ‘depois é estuprada e não sabe porque, tem que aprender mesmo’. Se respondêssemos seria desacato, e quem ouviu nada pôde fazer também. Era sair de perto e tentar esquecer, e sabe se lá quantas meninas ouviram coisas assim antes ou depois de nós e ‘fugiram” também.” ANA
  • No ano passado, estava procurando uma casa de sucos que ficava próxima ao Parque Trianon, na Alameda Santos, mas que por alguma razão não conseguia encontrar. Era noite e depois de ir e voltar algumas vezes, passando pela quadra do Parque escura e vazia, vi um PM e me dirigi a ele para perguntar se ele conhecia a casa de sucos ou sabia em qual quadra ficava a Peixoto Gomide (não conseguia encontrar a placa e sempre fico confusa com os totens da Paulista: é essa ou é a próxima?). Eu estava com um pouco de receio de ficar andando por ali porque sempre escuto histórias de como o Trianon é perigoso para as mulheres à noite. Vi no PM a falsa segurança que precisava para parar alguém e pedir informação. Me lembro de ter dito algo como “Com licença, o senhor por favor poderia me ajudar porque estou um pouco perdida?”. E ele “Mas o que uma moça linda como você faz andando sozinha por aqui?”, com um sorriso de canto de boca horroroso. Eu, que sempre contesto as cantadas que recebo, confesso que fiquei paralisada. Era um policial, armado, estava escuro e eu estava ali do lado de um monte de moitas do Parque Trianon. Insisti, séria, que estava procurando a Peixoto Gomide e ele insistiu no “meu doce, minha linda”. Fiquei ainda mais apavorada, mas uma senhora passou por nós e aproveitei para lhe perguntar, já que o PM só me dirigia perguntas pessoais “Está indo encontrar seu namorado? Ele te deixa andar assim sozinha?”. Ela me deu a direção e fui andando com ela, tremendo de nervoso. Estava brava por não ter reagido, brava porque sabia que o PM estava usando de sua autoridade para me dar cantadas sem que eu pudesse reagir e arrasada por ter confiado que um agente público fosse instruído a ter uma conduta minimamente decente para com os cidadãos. Mas só sei que meu medo de denunciar sem ter prova alguma – que não o meu testemunho – foi maior (que força tinha eu, sozinha?), assim como meu medo de reagir e ser presa por desacato também foi maior. Escolhi a cautela, porque tive medo das inúmeras violências que poderia sofrer. Mas é preciso cobrar da SSP uma postura clara sobre o assunto. B.C.
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Dez dias atrás, escrevemos que o assédio sexual em vias públicas era uma não-questão, um monstro invisível. Não poderíamos mais dizer o mesmo hoje. O assunto virou tema de debate em todo o país – em jornais, na internet, em programas de rádio e televisão. A violência verbal e física que as mulheres sofrem nas ruas passou de algo “natural” ou que “faz parte” para um problema a ser combatido por toda a sociedade.

Em 9 de setembro, divulgamos uma pesquisa com 7762 participantes, na qual 99,6% afirmou já terem sido  assediadas. Não era um estudo acadêmico, elaborado nos moldes tradicionais das universidades brasileiras. Mas havia sim uma metodologia consistente, que permitia tirar conclusões sobre como é feito o assédio no Brasil e que impacto ele tem sobre suas vítimas. Com um número tão grande de respostas, virou um retrato detalhado – e até assustador – da extensão do problema entre as mulheres brasileiras. Mais de 83% das mulheres afirmaram não gostar desse assédio. A maioria sentia medo de se defender, e muitas eram ofendidas ainda mais ao tentar fazê-lo.

A pesquisa tinha a pretensão de ser apenas uma luz sobre um problema – uma primeira exploração em um território ignorado. Acabou virando o estopim de algo muito maior. Nas cinco primeiras horas no ar, os resultados foram compartilhados por mais de 10 mil pessoas. Nesse mesmo dia, tivemos mais de 140 mil visualizações no Think Olga. Nos dias seguintes, centenas de milhares de pessoas compartilharam os resultados, ampliaram o debate, trouxeram novos depoimentos, agregaram informações e teorias, fizeram pontes com outros temas. Mais do que isso, abraçaram essa causa esquecida, mas tão importante. O resultado é que agora a campanha “Chega de Fiu Fiu” é apenas uma pequena parte de um movimento muito amplo direcionado a trazer dignidade à qualquer mulher que caminhe pelas ruas – não importa onde esteja ou a roupa que use.

Recebemos relatos surpreendentes. De mulheres que sofrem abusos terríveis, que passam por constrangimentos todos os dias, e não sabem o que fazer a respeito. Algumas contavam sua história pela primeira vez. Muitas culpavam a si mesmas pelo que aconteceu. Outras pediam ajuda para tentar fazer justiça. Havia também aquelas que ajudavam as demais com mensagens de coragem: “não desista, não abaixe a cabeça, você não é a culpada”.

Muitos homens também contaram a sua história. Alguns sequer sabiam que esse era um problema. Afirmavam já ter assediado mulheres, mas sem terem se dado conta do mal que causavam. Demonstravam-se arrependidos. Outros relatavam também terem sofrido assédio – tanto na rua quanto no trabalho. Nesse caso, não sentiam o medo da violência, mas mostravam-se também incomodados com o desrespeito.

E, claro, como acontece em qualquer tentativa de mudar a situação, nós e as pessoas que lutávamos contra o assédio fomos bastante atacadas. Recebemos ofensas e ameaças de violência. Inventaram interesses ocultos nos números que apenas coletamos e divulgamos na íntegra. Para alguns, estávamos tentando acabar com qualquer tipo de proximidade entre homens e mulheres. Mas existe um limite bastante claro entre um flerte saudável e uma agressão verbal e é muito bom que estejamos finalmente discutindo essa diferença.

A campanha Chega de Fiu Fiu não acaba aqui. Temos outras ações programadas, e agora com a certeza de que não estamos sozinhas nesse caminho. Agradeço às quase 8 mil mulheres que responderam nosso questionário e às muitas outras que, corajosamente, se engajaram no assunto e criaram sua própria luta na busca por mudanças e respeito. E aos homens que também estão se dispondo a inventar uma sociedade em que todos possam interagir de maneira respeitosa.

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Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

olga voce acha que ouvir cantada é algo legal

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

olga voce deixou de fazer algo com medo de assedio

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

olga voce ja trocou de roupa por medo de assedio

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

olga voce responde ao assedio

Se sim, como?

SeSim

Se não, por quê?

SeNao (1)

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

olga voce ja ouviu alguma dessas cantadas

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

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Que tipo de cantada você já ouviu no ambiente de trabalho?

trabalho

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

olga voce ja foi assediada na balada

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

olga ja tentaram te agarrar na balada

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

olga corpo agarrar na balada

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

olga ja passaram a mao em voce

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

olga ja passaram a mao onde

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

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Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

olga xingamentos

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.
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gostosa
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gostosa

A campanha CHEGA DE FIU FIU se propõe a combater o assédio sexual em espaços públicos. O primeiro passo foi apontar o problema, pois ele ainda é vastamente ignorado. Por isso, criamos o espaço de DEPOIMENTOS, onde mulheres (e homens!) relatam suas experiências, medos e traumas.

Agora, por iniciativa de Karin Hueck, colocamos no ar uma pesquisa que pretende dar nome, tamanho e cara a esse comportamento. Nunca vimos dados, estudos ou informações sobre intimidação sexual. Nos ajude a mudar esse cenário! Clique AQUI.

ATUALIZAÇÃO, 13/08: a pesquisa foi encerrada. Recebemos quase 8 mil respostas. Em breve, divulgaremos o resultado. Obrigada pela participação!

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olga estupro 2

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A presidente Dilma Rousseff aprovou ontem (1º de agosto), sem qualquer veto, a lei que obriga os hospitais do SUS a prestar atendimento às vítimas de violência sexual. O que isso significa? A mulher violentada terá acesso a tratamento que combina auxílio psicológico, coleta de material para a realização do exame de HIV e medicação – entre eles, a pílula do dia seguinte, que deve ser tomada em até 72 horas.

Uma grande conquista para as mulheres, mas motivo de lamentação da Bancada Evangélica da Câmara. Liderados por Marcos Infeliciano, os deputados acreditavam que o trecho da lei que dizia que os hospitais devem prestar serviço de “profilaxia da gravidez” era pura apologia ao aborto. Despreparados que são, não sabem que as vítimas de estupro JÁ têm o direito de interromper a gravidez e o procedimento é garantido pelo SUS.

Precisamos falar de estupro, porque é desconcertante constatar que esses senhores, protegidos por suas religiões, não sabem o que é essa violência e continuam a perpetuar mitos sobre o assunto. Dia 28 de julho, o Padre Joãozinho escreveu no Twitter que estupro era relativo. “Onde está a definição de estupro?”, disse. AQUI, seu Padre, veja se está bom para você:

Art. 213.  Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
§ 1o  Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2o  Se da conduta resulta morte: Pena – reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.”

Ontem, magoado com a sanção presidencial da lei que garante atendimento às mulheres violentadas, Infeliciano entulhou seu Twitter com desinformações. O deputado, por exemplo, não acredita que exista sexo sem consentimento dentro do casamento. Pois extra, extra: estupro acontece dentro de casa sim!!! E muitas mulheres podem nem saber ou entender a violência a que estão sendo submetidas, pois políticos como ele disseminam ignorâncias como essa. Estupro – infelizmente – pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, inclusive homens. O governo e a sociedade, que não foram capazes de consertar a raiz do problema, são responsáveis por, no mínimo, remediar as consequências.

Depois que lançamos a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual, recebi diversos depoimentos de mulheres que foram intimidadas nas ruas. Um deles contava uma história que foi além do terrível “ô, gostosa”. A Bruna relatou, em um e-mail dolorido de ler, o estupro que sofreu aos 19 anos. Reproduzo aqui:


Eu morei a minha vida toda em cidade grande. Nunca tinha sido sequer assaltada. Quando, aos 19 anos de idade, eu mudei pra uma cidade pequena pra estudar, eu acreditei piamente no que todos diziam: “aqui não tem crime! Não acontece nada! Pode andar sossegada, bixete, que a taxa de criminalidade é zero!”. Por isso, quando faltou dinheiro pro táxi e eu estava muito cansada pra esperar uma carona, eu não hesitei e resolvi voltar a pé de uma festa. Afinal, cidade pequena de interior… Não há problema algum nisso! Todo mundo faz!

Esse foi o maior erro da minha vida. 

Quando eu estava a dois quarteirões da minha casa, um homem com uma arma se aproximou. Ele estava com o rosto coberto com um pano e só seus olhos apareciam. Ele queria dinheiro e eu não tinha. Na bolsa, uma nota de R$ 2, uma máquina fotográfica e um celular. Eu ofereci, mas ele recusou. Ele queria outra coisa. Ele disse que tinha visto minha calcinha. Fez com que eu ficasse de costas pra ele, olhando para o muro de uma casa. Subiu meu vestido e disse que ia gozar e que depois iria embora.

Eu rezei tanto, mas Deus não me ouviu. Eu queria mais que tudo que um policial passasse ali, que alguém acordasse e fosse na rua. Eu queria morrer. Eu queria tanto que ele me matasse com aquela arma, atirasse e eu jamais teria de suportar aquela dor. Eu pensava nos meus pais e na dor que eles sentiriam caso eu fosse assassinada. Pensava que minha irmã… Mas eu queria morrer!

Não pude reagir porque não queria causar esse sofrimento a minha família. Mas eu rezava pra morrer, já que aquilo estava acontecendo e não ia parar! Esse foi o momento que eu percebi o quanto eu os amo e faria qualquer coisa por eles. Porque se eu achasse que eles superariam isso, eu teria reagido, corrido, morrido.

Nada no mundo vale aquilo, nada! A saúde mental deles pela minha foi a “troca” que eu fiz! Por que Deus não me ouviu? Por quê? Pra quem é ateu ou não-religioso, isso pode não ter importância! Pra mim, teve toda importância do mundo! Eu sempre fui religiosa e eu briguei com Deus nessa hora! Rompi com Ele, na verdade. Hoje, estamos retomando nosso relacionamento, mas não acredito em um mundo sem injustiças mais! Porque eu fui injustiçada! Eu me senti abandona por Deus!

Quando ele “terminou”, ele disse que a culpa era minha, que ele só queria dinheiro, mas que eu era muito gostosa, que ele não resistiu. Ele disse que eu tinha de perdoar ele e apontou a arma na minha cabeça e disse que se eu não dissesse que eu perdoava ele, ele me mataria. Então eu disse “Eu te perdôo!” e fui embora…

Há 7 anos eu tenho um transtorno psiquiátrico que se chama Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Esta é uma condição na qual a pessoa que sofreu um trauma – no meu caso, o estupro – revive aquele momento sempre. Acordo a noite aos prantos sonhando com o momento, com aquele homem nojento. Parece que ouço ele gemendo às custas do meu corpo frágil e impotente contra aquela arma. Sinto o cheiro do suor e de álcool que ele exalava. Sinto o frio da arma na minha cabeça me paralisando.

Tem uma parte de mim que ainda me culpa, que diz que eu não deveria estar naquele lugar, naquela hora, com aquela roupa. Porque o machismo é tão forte que ele comanda a vítima! Mas hoje eu vejo que o único culpado foi ele! Ele que reproduziu esse modelo pronto e estúpido de machismo. Ele não questionou o que ensinaram pra ele! Ele nunca elaborou um pensamento quanto a isso. Ele que me viu como um pedaço de carne e não como uma mulher, que tem sonhos, vontades e desejos! Ele é um criminoso e eu sou a vítima! Isso pode parecer óbvio, mas não é assim que as pessoas em geral vêem.

Eu – infelizmente – não tive a coragem necessária para procurar uma delegacia e me submeter a um exame de corpo de delito. Eu só queria tomar banho e esquecer que tudo aquilo tinha acontecido! A verdade é que se eu pudesse, eu voltaria atrás e não andaria naquele lugar com aquela roupa. Mas a verdade maior ainda é que nós deveríamos poder andar como quisermos e termos segurança pra isso!

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