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Obras no Itaquerão viram endereço de exploração sexual infantil em São Paulo
As denúncias feitas à CPI da Exploração Sexual Infantil afirmam que aliciadores estão oferecendo serviços sexuais de garotas com idade entre 11 e 17 anos para os operários da obra.

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A reação de uma mulher diante a eliminação da seleção inglesa
Um estudo da Universidade de Lancaster intitulado “A Copa pode estar associada ao aumento da violência doméstica?” mostrou que o abuso aumentava em 26% quando o time da Inglaterra ganhava ou empatava. Quando perdia, a violência crescia 36%.

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Quem contará os estupros na Copa do Mundo?
Depois que uma tentativa de estupro cometida por um estrangeiro foi mal apurada, mal divulgada e até relevada por alguns veículos de comunicação, Jarid Arraes pede: “exponham a realidade de violência sexual que a Copa do Mundo proporciona. Durante um evento tão impactante, onde tantos olhos estão voltados para o nosso país, há outras coisas mais importantes além de contar gols”.

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Isabela foi a única menina a se apresentar na abertura da Copa
Em um determinado momento da cerimônia de abertura da Copa, 64 crianças com bandeira das 32 seleções da Copa tomaram o campo, onde simulavam fazer embaixadinhas. Apenas UMA delas era menina. “O feito foi celebrado pelos comentaristas, todos homens, como uma vitória. E isso é só mais um dos exemplos da abordagem machista e sem noção que parece permitida ao esporte, por aqui”, escreveu Mari Messias.

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Lugar de mulher é na Copa
Teve Copa. E teve essa excelente pesquisa feita pelo portal Impedimento, que expõe e analisa algumas das matérias mais machistas e “galanteadoras” do jornalismo brasileiro quando assunto é mulher no futebol.

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#NãoMeAjudaLuciano: por menos estereótipos da mulher brasileira
“A exploração sexual diz respeito sim à objetificação da mulher, do olhar tão disseminado de que a mulher existe para a satisfação do homem, que ela precisa ser bonita para ser ‘admirada’, precisa ser sexualizada para dar prazer ao homem, para citar apenas dois estereótipos que as brasileiras carregam”, afirma a repórter do Brasil Post Gabriela Loureiro sobre o convite de Luciano Huck a solteiras cariocas que queriam arranjar “o gringo dos sonhos”. Mulheres, fiquem com os gringos que quiserem, se quiserem. Desejos e decisões pessoais não devem ser justificativas para que formadores de opinião reforcem e propaguem estereótipos.

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Meninas em Jogo
Durante três meses, na jornalista Andrea Dip e o quadrinista De Maio percorreram estradas do Ceará em busca da teia da exploração sexual de meninas para a Copa.

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Copa do Mundo, torneio de homens?
“Que linha imaginária as exclui da imagem tão masculina da Copa do Mundo, se são tantas e em posições tão essenciais à realização do megaevento?”, questiona a autora Marília Moschkovich. “Não veremos as mulheres que ficarão em casa com as crianças enquanto os maridos jogam futebol, assistem futebol, comentam futebol. Não veremos as mulheres trancadas na cozinha fazendo a pipoca para a família inteira, nem veremos as mulheres lavando louças enquanto o resto da casa sai às ruas para comemorar vitória com vuvuzelas de todos os tamanhos e cores. Não veremos as mulheres que trabalham nas empresas patrocinadoras ganhando 70% do salário de seus colegas homens. Nem veremos as que deixaram de ser promovidas porque desejavam um dia ter filhos. Não veremos as meninas oferecidas como produto em serviços sexuais.”

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Machismo: e se fosse um pedreiro?
Dois torcedores gringos beijaram duas repórteres durante transmissão ao vivo de matérias. “O assédio é uma questão de poder, de lembrar às mulheres que somos ‘apenas’ mulheres. Por isso ele é humilhante, indigno, violento – ainda que venha na forma de um beijo com risadinhas”, critica a jornalista Marília Moschkovich.

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Copa do Mundo 2014: publicitários apostam em campanhas de TV sexistas (em inglês)
“É o sinal de que um torneio futebolístico está próximo: propagandas em massa retratando mulheres como estraga-prazeres que detestam esportes e homens como tolos que só querem saber de gols e peitos”, diz o jornal Independent.

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A mulher brasileira existe, mas não para satisfazê-los
“Uma amiga foi assediada na rua por estrangeiros que vieram para a Copa. Outro estrangeiro achou por bem agarrar e beijar uma repórter, enquanto ela trabalhava, de forma que ela não teve sequer escolha se queria ou não aquele contato físico. No clipe oficial da Copa, o foco da câmera na bunda de passistas que rodeiam o cantor estrangeiro dão uma pista de onde vem a ideia de que o corpo da mulher brasileira, especialmente da mulher negra, existe para ser admirado. Está ali à disposição”, escreve Aline Valek.

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Arte: Irina Bogos

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mapa cdff

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Quais são os locais mais perigosos para as mulheres? Que tipo de violência elas sofrem em cada cidade? Existem poucos dados que ajudem a responder essa pergunta, mas a campanha Chega de Fiu Fiu, que luta contra o assédio sexual em locais públicos, quer tentar agora desvendá-los. Para isso, está lançando o Mapa Chega de Fiu Fiu, uma ferramenta colaborativa para mapear os pontos mais críticos de violência contra mulheres no Brasil. Cada uma pode registrar o caso e o local da violência que recebeu. Com isso, as próprias vítimas ou testemunhas das agressões vão, unidas, nos ajudar a levantar esses dados.O mapa conta com as seguintes categorias: assédio verbal, assédio físico, ameaça, intimidação (stalking), atentado ao pudor (masturbação em público), estupro, violência doméstica, exploração sexual. Acreditamos que para se discutir violência de gênero devemos contemplar também as interseccionalidades. Por isso, acrescentamos racismo, homofobia e transfobia como categorias.

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Como funciona?

– Ao acessar o mapa, o usuário clica nos botões “compartilhe sua história” ou “denuncie o que viu”. Na etapa seguinte, procura o endereço onde a violência ocorreu e marca um pin. Como a ferramente utiliza o Google Maps, a localização pode ser bastante específica. Se o usuário não se lembrar do número específico da rua, pode ajustar a altura da localidade manualmente com o mouse.

– Há um espaço para desenvolver detalhes do ocorrido. Caso tenha recorrido a amparo público ou privado sem sucesso, solicitamos à vítima que notifique no testemunho. Exemplos: a oficiais da Delegacia da Mulher se recusaram a lavrar o boletim de ocorrência; os seguranças e proprietário de uma casa noturna negaram prestar auxílio.

– Contamos também com um pequeno questionário sócio-econômico, baseado no questionário do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nenhuma das opções é obrigatória (a resposta automática às questões é “prefiro não dizer”). No entanto, estimulamos o usuário respondê-las, pois conseguiríamos dados ainda mais específicos.

– Os pins (como chamamos as marcações dos testemunhos) não exibirão nome, nem e-mail do usuário. Tais dados estarão disponíveis somente para os administradores do mapa. Mesmo assim, há a opção de participar anonimamente.

– É possível checar os pins por região. Na home do mapa, há a caixa de busca “pesquise por uma cidade”.

– Os números gerais são acessíveis a todos e podem ser exportados na seção Dados.

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Por que um mapa?

Nossa proposta de registrar os locais problemáticos do Brasil relativos à violência contra mulher não é podar ainda mais a liberdade das vítimas e apontar espaços públicos e privados onde ela não deve ir. Nosso olhar, na verdade, é o de transformação. Ao conhecer esses pontos críticos, podemos entender o motivo que os levam a assim ser: é uma rua com iluminação escassa? É uma casa noturna com segurança falha? Somente compreendendo tais questões é que podemos buscar mudanças – e não apenas no setor privado, mas também no público. Sim, com dados na mão podemos pressionar também instituições governamentais a olharem com mais atenção para a violência contra a mulher.

Precisamos de você

Os dados só terão impacto se forem representativos e corretos. E para conseguirmos essa relevância, precisamos da participação constante dos usuários. Participe, divida sua história, divulgue o mapa. Sua contribuição é muito importante – para você e todos que lutam contra a violência de gênero.

Denuncie

O mapa não substitui denúncias oficiais de violência contra a mulher. Pedimos que denunciem também nas Delegacias de Defesa da Mulher e na Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180. A Secretaria de Políticas para as Mulheres também recebe depoimentos nos seguinte e-mails: ouvidoria@spm.gov.br e spmulheres@spmulheres.gov.br.

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Caia na farra, mas não caia na ideia de que se pode tudo no Carnaval.  Ainda mais quando esse “tudo” inclui diversas formas de violência contra a mulher. Na internet, já surgiram diversos alertas e campanhas contra o assédio sexual durante a festa – entre elas, uma da revista masculina VIP, para onde tive a oportunidade de escrever um texto sobre a Chega de Fiu Fiu. Veja abaixo:

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Revista VIP – Não seja escroto neste carnaval

Campanha voltada para o público masculino. Boa iniciativa. E não sejam escrotos neste carnaval, nem nunca!

“No carnaval, pode tudo” é uma frase que deveria dar arrepios em qualquer um. A festa, por vezes, mascara a violência sexual que muitas mulheres sofrem durante a celebração do feriado. Puxões, encoxadas, beijos forçados, mão boba, um tapinha que “não dói”… Quem nunca ouviu falar dessas histórias?

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Página do Facebook Acontece Comigo – No Carnaval, a fantasia é minha. O corpo é meu.

O espaço divulga vídeos sobre violência contra a mulher e depoimento de vítimas de assédio como o acima.

Como resultado dessa cultura machista e opressora, o carnaval para as mulheres acaba sendo, muitas vezes, justamente o contrário da liberdade. Vítimas de diversas violações e atrocidades, se sentem acuadas. O cenário carnavalesco se transforma em espetáculo de opressão.

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Governo da Paraíba – Não mascare a violência contra as mulheres

Feliz de finalmente ver o poder público se engajando neste debate.

No Carnaval não pode tudo. Por isso lançamos a campanha “Não mascare a violência contra as mulheres”. Se você presenciar ou sofrer esse tipo de violência, denuncie. 

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Um dia ainda viro cartunista – Carnaval: alegria, orgia e bacanal COM CONSETIMENTO, por favor.

Página da cartunista Didi Helene, que divulgou ilustração em apoio à campanha do Acontece Comigo.

“Você quer?”, “Posso?” e “Sim, eu quero”, não custa nada. 
#ficaadica sempre (não só pro carnaval!).

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Marcha das Vadias (Recife) – Quero brincar como quiser! 

A página do movimento está publicando diversas imagens contestando a violência sexual.

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olga violencia

olga violencia
Conheci a Marta Trzcinska, uma advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres, na XII Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, da CEPAL. Em uma palestra, ela falou sobre as práticas de assédio e discriminação online contra as mulheres. Fiquei feliz de saber que alguém estava acompanhando mais de perto esse problema, pensando nos efeitos que ele causa às mulheres e em soluções de curto e longo prazo.

Claro que a violência online é apenas um desdobramento da violência cotidiana que sofremos nas ruas, no trabalho ou em nossas casas. E assim como as outras, ela não tem sido levada muito a sério, a não ser em casos que ganham grande repercussão nacional, como as fotos vazadas da atriz Carolina Dieckmann e da filha do Renato Gaúcho. O cyber-bullying ou o online harassment são práticas disseminadas na rede, mas ele é praticado de formas diferentes dependendo do sexo das pessoas.

Durante a campanha Chega de Fiu Fiu, a Juliana recebeu uma série de ameaças de estupro e teve sua aparência física colocada em debate. Um acontecimento lamentável que me chamou a atenção para a reprodução da prática que busca desqualificar argumentos e ideias pelo sexo da pessoa. A Marilena Chauí, lá na década de 1980, disse que a desigualdade, em suas diferentes formas, cria o problema do silêncio incompetente, que é o medo das pessoas manifestar suas opiniões em debates públicos por achar que não entendem ou não podem entender do assunto pela posição desigual que ocupam na sociedade.

A violência e agressão contra as mulheres em espaços de debate pode levar ao silenciamento de suas vozes. Quando a violência online é dirigida aos atributos físicos ou sexuais das mulheres, deixa explícita a mensagem de que o espaço público não é nosso lugar. Mas nós insistimos em dizer que sim, ele é de todas nós, e a ocupá-lo. Foi sobre esses e outros temas que conversei com a Marta..

Existe diferença no assédio virtual quando as vítimas são mulheres?
Todo mundo pode sofrer com assédio online, mas há uma diferença muito grande no tipo de assédio praticado dependendo do sexo da vítima. Quando homens se manifestam em debates, fóruns ou outros espaços online, eles geralmente recebem comentários sobre serem idiotas ou não terem competência ou qualificação para falar sobre aquele assunto. As ofensas às mulheres, por outro lado, é sexualizado. São comentários sobre a aparência, o tamanho dos seus seios e ameaças de estupro ou de serem molestadas. Em 2013, um canal de TV sueco produziu um documentário sobre violência online contra mulheres. Escritoras, jornalistas e apresentadoras de talk show contaram sobre suas experiências de assédio e das ameaças que receberam por expressar suas opiniões em público. O canal de TV postou uma parte do programa no Youtube. O vídeo recebeu tantas mensagens de ódio que o canal de TV teve que bloquear os comentários. Quando um jornal escreveu um artigo sobre o que havia acontecido com o vídeo do Youtube, esse artigo também recebeu o mesmo tipo de mensagem violenta. Não havia espaço em que essa história fosse divulgada no qual esse padrão não se repetisse. Parecia impossível quebrar o ciclo de ódio.

Que ações poderiam ser construídas para evitar práticas como essas?
O maior desafio, e o mais importante, é o de conscientizar a população sobre o assunto. Para conseguir fazer isso, o fundamental é que tanto os governos quanto a mídia assumam suas responsabilidades. Nos últimos anos, a mídia da Noruega tem se comprometido a monitorar comentários com conteúdo discriminatório. Os maiores jornais do país recentemente modificaram seus sistemas para que todos os que querem participar de debates online se registrem antes com nome completo, para que possam ser identificados. O assédio sexual online não está sendo levado suficientemente a sério pela polícia e pela justiça. Se essas instituições se dedicassem a essas práticas, passariam o sinal sério de que esse comportamento não deve ser tolerado por ninguém. Também é importante aumentar o debate sobre esses tipos de crime e sobre a igualdade de gênero já nas escolas, desde cedo.

No fim de 2013, duas jovens brasileiras cometeram suicídio após terem suas fotos e vídeos íntimos divulgados na rede. Nossa legislação sobre esse tipo de crime é muito recente e a polícia sempre diz que é difícil encontrar os culpados.
É muito triste saber disso. Pela minha experiência legal, a polícia tem, ou deveria ter, todo o conhecimento técnico para encontrar as pessoas que publicam fotos e vídeos íntimos não-autorizados. Acredito que, infelizmente, seja mais uma questão de quantos recursos eles querem usar – ou são investidos pelo-Estado – para investigar esses tipos de casos.

Qual é a consequência dessa violência online para as práticas democráticas?
O problema é que a violência nunca é apenas uma questão física. Ela também envolve os direitos humanos e a liberdade de expressão. As mulheres estão sendo aterrorizadas pelos homens para deslegitimar seus argumentos e opiniões. Opiniões importantes e necessárias estão sendo silenciadas pelo assédio e discriminação online. O resultado é um déficit democrático.

Quais são os principais problemas de gênero que você ainda identifica – tanto global quanto localmente?
A igualdade de gênero é um problema imenso para todas as sociedades e países ao redor do mundo. As mulheres, em geral, têm menor acesso à educação, ao trabalho, a um sistema de saúde decente, ao aborto livre, etc. Felizmente, a maioria dos países europeus avançaram bastante em muitas dessas desigualdades. Mas a violência contra as mulheres continua sendo o maior obstáculo para a igualdade de gênero, não importa quão rico ou pobre seja o país. É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime.


A entrevista foi realizada por Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em discussões sobre trabalho e gênero.

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olga assedio

olga assedio

O país já está há semanas debatendo o assédio sexual em locais públicos. No entanto, ontem, a Mídia Ninja reportou que, durante as manifestações dos professores no Rio de Janeiro, Anne Melo foi detida por ter respondido ao assédio de um oficial do Batalhão de Choque da Polícia Militar do RJ. Ele a chamou de “gostosa”. Ela não gostou, retrucou e foi levada para o camburão por cinco PMs. Veja o vídeo.

Não estamos apenas falando de assédio sexual, mas também de abuso de autoridade. Onde está Ane Melo? O que aconteceu com ela depois da detenção, longe dos olhos dos outros manifestantes? 

O que deveria ser inaceitável, no entanto, acontece com mais frequência do que imaginamos. Abaixo, alguns relatos de assédio envolvendo policiais retirados da seção depoimentos da campanha Chega de Fiu Fiu

  • “Descendo uma rua da Liberdade, em SP, um policial deu bom dia pra mim. Respondi educadamente bom dia, e ele fala ‘bom dia, coisa linda’. Falei que ele não tinha direito de falar comigo daquele jeito, ele disse que era autoridade, eu xinguei ele de abusado, ele disse que eu estava desacatando a autoridade. Eu disse que ele tava me desacatando, xinguei de escroto e sai andando.” JULIA
  • “Às vezes alguns policiais olham e/ou mandam uma cantada. Contei uma vez de um policial para um ex namorado e ele muito ciumento ficou bravo comigo e ainda disse que eu gostava.” DANI
  • “Uma vez eu saí com uma amiga, ela tinha uns 18 e eu ainda 16, dois policiais acharam que éramos namoradas e começaram a desfiar comentários como ‘depois é estuprada e não sabe porque, tem que aprender mesmo’. Se respondêssemos seria desacato, e quem ouviu nada pôde fazer também. Era sair de perto e tentar esquecer, e sabe se lá quantas meninas ouviram coisas assim antes ou depois de nós e ‘fugiram” também.” ANA
  • No ano passado, estava procurando uma casa de sucos que ficava próxima ao Parque Trianon, na Alameda Santos, mas que por alguma razão não conseguia encontrar. Era noite e depois de ir e voltar algumas vezes, passando pela quadra do Parque escura e vazia, vi um PM e me dirigi a ele para perguntar se ele conhecia a casa de sucos ou sabia em qual quadra ficava a Peixoto Gomide (não conseguia encontrar a placa e sempre fico confusa com os totens da Paulista: é essa ou é a próxima?). Eu estava com um pouco de receio de ficar andando por ali porque sempre escuto histórias de como o Trianon é perigoso para as mulheres à noite. Vi no PM a falsa segurança que precisava para parar alguém e pedir informação. Me lembro de ter dito algo como “Com licença, o senhor por favor poderia me ajudar porque estou um pouco perdida?”. E ele “Mas o que uma moça linda como você faz andando sozinha por aqui?”, com um sorriso de canto de boca horroroso. Eu, que sempre contesto as cantadas que recebo, confesso que fiquei paralisada. Era um policial, armado, estava escuro e eu estava ali do lado de um monte de moitas do Parque Trianon. Insisti, séria, que estava procurando a Peixoto Gomide e ele insistiu no “meu doce, minha linda”. Fiquei ainda mais apavorada, mas uma senhora passou por nós e aproveitei para lhe perguntar, já que o PM só me dirigia perguntas pessoais “Está indo encontrar seu namorado? Ele te deixa andar assim sozinha?”. Ela me deu a direção e fui andando com ela, tremendo de nervoso. Estava brava por não ter reagido, brava porque sabia que o PM estava usando de sua autoridade para me dar cantadas sem que eu pudesse reagir e arrasada por ter confiado que um agente público fosse instruído a ter uma conduta minimamente decente para com os cidadãos. Mas só sei que meu medo de denunciar sem ter prova alguma – que não o meu testemunho – foi maior (que força tinha eu, sozinha?), assim como meu medo de reagir e ser presa por desacato também foi maior. Escolhi a cautela, porque tive medo das inúmeras violências que poderia sofrer. Mas é preciso cobrar da SSP uma postura clara sobre o assunto. B.C.
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Dez dias atrás, escrevemos que o assédio sexual em vias públicas era uma não-questão, um monstro invisível. Não poderíamos mais dizer o mesmo hoje. O assunto virou tema de debate em todo o país – em jornais, na internet, em programas de rádio e televisão. A violência verbal e física que as mulheres sofrem nas ruas passou de algo “natural” ou que “faz parte” para um problema a ser combatido por toda a sociedade.

Em 9 de setembro, divulgamos uma pesquisa com 7762 participantes, na qual 99,6% afirmou já terem sido  assediadas. Não era um estudo acadêmico, elaborado nos moldes tradicionais das universidades brasileiras. Mas havia sim uma metodologia consistente, que permitia tirar conclusões sobre como é feito o assédio no Brasil e que impacto ele tem sobre suas vítimas. Com um número tão grande de respostas, virou um retrato detalhado – e até assustador – da extensão do problema entre as mulheres brasileiras. Mais de 83% das mulheres afirmaram não gostar desse assédio. A maioria sentia medo de se defender, e muitas eram ofendidas ainda mais ao tentar fazê-lo.

A pesquisa tinha a pretensão de ser apenas uma luz sobre um problema – uma primeira exploração em um território ignorado. Acabou virando o estopim de algo muito maior. Nas cinco primeiras horas no ar, os resultados foram compartilhados por mais de 10 mil pessoas. Nesse mesmo dia, tivemos mais de 140 mil visualizações no Think Olga. Nos dias seguintes, centenas de milhares de pessoas compartilharam os resultados, ampliaram o debate, trouxeram novos depoimentos, agregaram informações e teorias, fizeram pontes com outros temas. Mais do que isso, abraçaram essa causa esquecida, mas tão importante. O resultado é que agora a campanha “Chega de Fiu Fiu” é apenas uma pequena parte de um movimento muito amplo direcionado a trazer dignidade à qualquer mulher que caminhe pelas ruas – não importa onde esteja ou a roupa que use.

Recebemos relatos surpreendentes. De mulheres que sofrem abusos terríveis, que passam por constrangimentos todos os dias, e não sabem o que fazer a respeito. Algumas contavam sua história pela primeira vez. Muitas culpavam a si mesmas pelo que aconteceu. Outras pediam ajuda para tentar fazer justiça. Havia também aquelas que ajudavam as demais com mensagens de coragem: “não desista, não abaixe a cabeça, você não é a culpada”.

Muitos homens também contaram a sua história. Alguns sequer sabiam que esse era um problema. Afirmavam já ter assediado mulheres, mas sem terem se dado conta do mal que causavam. Demonstravam-se arrependidos. Outros relatavam também terem sofrido assédio – tanto na rua quanto no trabalho. Nesse caso, não sentiam o medo da violência, mas mostravam-se também incomodados com o desrespeito.

E, claro, como acontece em qualquer tentativa de mudar a situação, nós e as pessoas que lutávamos contra o assédio fomos bastante atacadas. Recebemos ofensas e ameaças de violência. Inventaram interesses ocultos nos números que apenas coletamos e divulgamos na íntegra. Para alguns, estávamos tentando acabar com qualquer tipo de proximidade entre homens e mulheres. Mas existe um limite bastante claro entre um flerte saudável e uma agressão verbal e é muito bom que estejamos finalmente discutindo essa diferença.

A campanha Chega de Fiu Fiu não acaba aqui. Temos outras ações programadas, e agora com a certeza de que não estamos sozinhas nesse caminho. Agradeço às quase 8 mil mulheres que responderam nosso questionário e às muitas outras que, corajosamente, se engajaram no assunto e criaram sua própria luta na busca por mudanças e respeito. E aos homens que também estão se dispondo a inventar uma sociedade em que todos possam interagir de maneira respeitosa.

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Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

olga voce acha que ouvir cantada é algo legal

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

olga voce deixou de fazer algo com medo de assedio

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

olga voce ja trocou de roupa por medo de assedio

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

olga voce responde ao assedio

Se sim, como?

SeSim

Se não, por quê?

SeNao (1)

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

olga voce ja ouviu alguma dessas cantadas

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

olga cantada no trabalho

Que tipo de cantada você já ouviu no ambiente de trabalho?

trabalho

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

olga voce ja foi assediada na balada

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

olga ja tentaram te agarrar na balada

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

olga corpo agarrar na balada

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

olga ja passaram a mao em voce

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

olga ja passaram a mao onde

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

olga voce ja foi xingada porque disse nao as cantadas

Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

olga xingamentos

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.
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gostosa

A campanha CHEGA DE FIU FIU se propõe a combater o assédio sexual em espaços públicos. O primeiro passo foi apontar o problema, pois ele ainda é vastamente ignorado. Por isso, criamos o espaço de DEPOIMENTOS, onde mulheres (e homens!) relatam suas experiências, medos e traumas.

Agora, por iniciativa de Karin Hueck, colocamos no ar uma pesquisa que pretende dar nome, tamanho e cara a esse comportamento. Nunca vimos dados, estudos ou informações sobre intimidação sexual. Nos ajude a mudar esse cenário! Clique AQUI.

ATUALIZAÇÃO, 13/08: a pesquisa foi encerrada. Recebemos quase 8 mil respostas. Em breve, divulgaremos o resultado. Obrigada pela participação!

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olga estupro 2

olga estupro 2

A presidente Dilma Rousseff aprovou ontem (1º de agosto), sem qualquer veto, a lei que obriga os hospitais do SUS a prestar atendimento às vítimas de violência sexual. O que isso significa? A mulher violentada terá acesso a tratamento que combina auxílio psicológico, coleta de material para a realização do exame de HIV e medicação – entre eles, a pílula do dia seguinte, que deve ser tomada em até 72 horas.

Uma grande conquista para as mulheres, mas motivo de lamentação da Bancada Evangélica da Câmara. Liderados por Marcos Infeliciano, os deputados acreditavam que o trecho da lei que dizia que os hospitais devem prestar serviço de “profilaxia da gravidez” era pura apologia ao aborto. Despreparados que são, não sabem que as vítimas de estupro JÁ têm o direito de interromper a gravidez e o procedimento é garantido pelo SUS.

Precisamos falar de estupro, porque é desconcertante constatar que esses senhores, protegidos por suas religiões, não sabem o que é essa violência e continuam a perpetuar mitos sobre o assunto. Dia 28 de julho, o Padre Joãozinho escreveu no Twitter que estupro era relativo. “Onde está a definição de estupro?”, disse. AQUI, seu Padre, veja se está bom para você:

Art. 213.  Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
§ 1o  Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2o  Se da conduta resulta morte: Pena – reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.”

Ontem, magoado com a sanção presidencial da lei que garante atendimento às mulheres violentadas, Infeliciano entulhou seu Twitter com desinformações. O deputado, por exemplo, não acredita que exista sexo sem consentimento dentro do casamento. Pois extra, extra: estupro acontece dentro de casa sim!!! E muitas mulheres podem nem saber ou entender a violência a que estão sendo submetidas, pois políticos como ele disseminam ignorâncias como essa. Estupro – infelizmente – pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, inclusive homens. O governo e a sociedade, que não foram capazes de consertar a raiz do problema, são responsáveis por, no mínimo, remediar as consequências.

Depois que lançamos a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual, recebi diversos depoimentos de mulheres que foram intimidadas nas ruas. Um deles contava uma história que foi além do terrível “ô, gostosa”. A Bruna relatou, em um e-mail dolorido de ler, o estupro que sofreu aos 19 anos. Reproduzo aqui:


Eu morei a minha vida toda em cidade grande. Nunca tinha sido sequer assaltada. Quando, aos 19 anos de idade, eu mudei pra uma cidade pequena pra estudar, eu acreditei piamente no que todos diziam: “aqui não tem crime! Não acontece nada! Pode andar sossegada, bixete, que a taxa de criminalidade é zero!”. Por isso, quando faltou dinheiro pro táxi e eu estava muito cansada pra esperar uma carona, eu não hesitei e resolvi voltar a pé de uma festa. Afinal, cidade pequena de interior… Não há problema algum nisso! Todo mundo faz!

Esse foi o maior erro da minha vida. 

Quando eu estava a dois quarteirões da minha casa, um homem com uma arma se aproximou. Ele estava com o rosto coberto com um pano e só seus olhos apareciam. Ele queria dinheiro e eu não tinha. Na bolsa, uma nota de R$ 2, uma máquina fotográfica e um celular. Eu ofereci, mas ele recusou. Ele queria outra coisa. Ele disse que tinha visto minha calcinha. Fez com que eu ficasse de costas pra ele, olhando para o muro de uma casa. Subiu meu vestido e disse que ia gozar e que depois iria embora.

Eu rezei tanto, mas Deus não me ouviu. Eu queria mais que tudo que um policial passasse ali, que alguém acordasse e fosse na rua. Eu queria morrer. Eu queria tanto que ele me matasse com aquela arma, atirasse e eu jamais teria de suportar aquela dor. Eu pensava nos meus pais e na dor que eles sentiriam caso eu fosse assassinada. Pensava que minha irmã… Mas eu queria morrer!

Não pude reagir porque não queria causar esse sofrimento a minha família. Mas eu rezava pra morrer, já que aquilo estava acontecendo e não ia parar! Esse foi o momento que eu percebi o quanto eu os amo e faria qualquer coisa por eles. Porque se eu achasse que eles superariam isso, eu teria reagido, corrido, morrido.

Nada no mundo vale aquilo, nada! A saúde mental deles pela minha foi a “troca” que eu fiz! Por que Deus não me ouviu? Por quê? Pra quem é ateu ou não-religioso, isso pode não ter importância! Pra mim, teve toda importância do mundo! Eu sempre fui religiosa e eu briguei com Deus nessa hora! Rompi com Ele, na verdade. Hoje, estamos retomando nosso relacionamento, mas não acredito em um mundo sem injustiças mais! Porque eu fui injustiçada! Eu me senti abandona por Deus!

Quando ele “terminou”, ele disse que a culpa era minha, que ele só queria dinheiro, mas que eu era muito gostosa, que ele não resistiu. Ele disse que eu tinha de perdoar ele e apontou a arma na minha cabeça e disse que se eu não dissesse que eu perdoava ele, ele me mataria. Então eu disse “Eu te perdôo!” e fui embora…

Há 7 anos eu tenho um transtorno psiquiátrico que se chama Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Esta é uma condição na qual a pessoa que sofreu um trauma – no meu caso, o estupro – revive aquele momento sempre. Acordo a noite aos prantos sonhando com o momento, com aquele homem nojento. Parece que ouço ele gemendo às custas do meu corpo frágil e impotente contra aquela arma. Sinto o cheiro do suor e de álcool que ele exalava. Sinto o frio da arma na minha cabeça me paralisando.

Tem uma parte de mim que ainda me culpa, que diz que eu não deveria estar naquele lugar, naquela hora, com aquela roupa. Porque o machismo é tão forte que ele comanda a vítima! Mas hoje eu vejo que o único culpado foi ele! Ele que reproduziu esse modelo pronto e estúpido de machismo. Ele não questionou o que ensinaram pra ele! Ele nunca elaborou um pensamento quanto a isso. Ele que me viu como um pedaço de carne e não como uma mulher, que tem sonhos, vontades e desejos! Ele é um criminoso e eu sou a vítima! Isso pode parecer óbvio, mas não é assim que as pessoas em geral vêem.

Eu – infelizmente – não tive a coragem necessária para procurar uma delegacia e me submeter a um exame de corpo de delito. Eu só queria tomar banho e esquecer que tudo aquilo tinha acontecido! A verdade é que se eu pudesse, eu voltaria atrás e não andaria naquele lugar com aquela roupa. Mas a verdade maior ainda é que nós deveríamos poder andar como quisermos e termos segurança pra isso!

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CHEGA DE FIU FIU é uma campanha contra o assédio sexual.

No texto “Não me chame de gostosa”, a apresentadora da Mix Tv Marina Santa Helena falou à OLGA sobre assédio sexual, problema vivenciado por 90% das mulheres. O tema é bastante delicado, mas assim que Marina teve a coragem de trazê-lo à tona, outras mulheres dividiram suas histórias. Muitas são agredidas fisicamente, choram, sentem medo de andar nas ruas, convivem com traumas por anos.

Homens também deram seus testemunhos. O leitor Clayton, por exemplo, contou o seguinte episódio: “Outro dia parei o carro e buzinei para minha esposa. Ela não reconheceu o carro e saiu andando rápido, desesperada. A rua estava escura e ela achou que seria atacada. Precisei sair correndo atrás dela para explicar que estava tudo bem. Quando ela percebeu que não estava em perigo, me abraçou e quase desmaiou. Estava sem fôlego.”

No entanto, os relatos tristes não sensibilizaram todos. Algumas pessoas, ofendidas, tiveram reações injustas e cruéis. “Mal-amada”, “mal-comida”, “ande de burca”, “nem é tão gostosa assim para tanto chororô”, “bando de frescas”, “chamo de gostosa mesmo, não tô nem aí para vocês” foram algumas dos comentários que o post da Marina recebeu. Teve aqueles que afirmaram que “o mundo está muito chato, não se pode nem mais dar cantadas”. Hm, e o “mundo chato” das mulheres que se acostumam desde cedo a caminhar olhando para o chão? Um deles ousou dizer que queremos “amordaçar os homens”. Realmente, pessoal, não é disso que se tratam nossas exigências.

Quando transformamos em coisa rotineira o fato da mulher não ter espaços privados – nem mesmo serem donas do seu próprio corpo -, incentivamos a violência. E isso NÃO é normal. Vamos reforçar nossa luta contra o assédio, afinal, temos o direito andar na rua sem medo de sermos intimidadas. Para isso, manteremos o debate sobre assédio sexual vivo e frequente na campanha CHEGA DE FIU FIU. Lá na página, vamos publicar material contra a intimidação. Abaixo, um preview do que está por vir.

Divulgue, espalhe, crie oportunidades de debates… Retome sua voz! Se quiser contribuir com sua história, escreva para olga@thinkolga.com.

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