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Por muito tempo, fazer algo “como uma garota” foi considerado pejorativo. Infelizmente, para algumas pessoas, isso ainda é visto como sinônimo de fraqueza, vulnerabilidade ou falta de técnica. Nada disso tem qualquer fundamento na realidade e o uso dessa expressão de forma depreciativa está com os dias contados. Após uma linda campanha da Always que valoriza o que é feito como uma garota (#LikeAGirl), a ilustradora, desenvolvedora de jogos e gamer Kaol Porfírio, do Rio Grande do Sul, criou uma série de ilustrações chamada Fight Like a Girl, ou Lute Como Uma Garota. Nela, estão representadas guerreiras famosas da ficção, para provar que as mulheres também podem ser lutadoras impiedosas e inspiradoras.

Em sua página do Facebook, Kaol já desenhou Sarah Connor, Xena, Mulan e Beatrix Kiddo. Ela nos concedeu uma entrevista na qual fala sobre a série e sua experiência como mulher no mundo dos games, cuja famosa misoginia é desafiada diariamente por garotas no mundo inteiro que lutam por seu direito e sua voz em uma indústria que é em boa parte financiada por elas. A convite do Think Olga, Kaol fez uma edição especial do Fight Like a Girl só com feministas famosas. Confira abaixo as ilustras e a nossa conversa com a artista.

Pussy Riot

Como você avalia a participação feminina na indústria dos games na atualidade?

A participação feminina na industria de jogos é muito baixa. Normalmente em cursos de jogos ou de especializando na área as mulheres fazem parte de 5% dos alunos, e acredito que não deva passar dos 20% em empresas. A industria de jogos ainda é bastante nova, eu tenho esperança a presença de mulheres na industria de jogos aumente. Um movimento chamado #1ReasonWhy reuniu vários desabafos de desenvolvedoras de jogos e com eles dá para ter uma grande ideia quao hostil é a área e quanto amor você precisa ter para trabalhar na mesma.

 

Há muitas críticas sobre a forma sexualizada como as personagens de games são retratadas. Qual sua visão sobre essas críticas? São fundamentadas?

A sexualização excessiva e a objetificação de personagens femininas nos jogos não tem nada de diferente de qualquer industria de enterimento focada no publico masculino, muita vezes com a desculpa de ser apenas “fantasia” ou “liberdade do design”. Mas o que realmente acontece é a mulher sendo retratada como um objeto apenas para agradar o publico masculino, ignorando totalmente as jogadoras, que pelos últimos números do ESA, são 48% do publico. Sem falar que na maioria das vezes, as personagens não possuem nenhum valor pra trama, estão ali para “enfeite”. A mulher é, na maioria das vezes, mal representada nos jogos.

Rosa

O que as mulheres podem fazer para poder conquistar mais espaço na indústria dos games, que ainda é entendida como uma indústria masculina?

Vejo muitas mulheres se destacando na industria, isso dá força e encoraja. Na ultima Global Game Jam (evento onde desenvolvedores se reúnem para produzir jogos em 48 horas) o vídeo de abertura do evento contou com um trecho onde a desenvolvedora brasileira Amora Bettany, da Miniboss, trouxe um discuso de desconstrução bastante claro, e acredito que isso tenha atingido muitas pessoas, e quem sabe, feito elas saírem das suas “caixinhas”. Mulheres como ela, mostram que é possivel mudar o ambiente e conquistar seu espaço, sendo um exemplo para as próximas.

 

Você já sofreu algum tipo de preconceito no seu trabalho como game developer? Em caso positivo, por favor nos conte. Em caso negativo, já testemunhou alguma outra mulher sofrer preconceito?

Em um evento de jogos é comum de acontecer das pessoas me ignorarem, acreditando que estou ali apenas para “acompanhar meu namorado”. E essa reclamação não é só minha, veio de uma amiga, em um evento, que se sentiu ignorada em conversas. Eu tento sempre estar com pessoas que me conhecem e que confio, e como game developer, aqui no sul, temos uma associação de devs – adjogosrs -bastante unida, o que me deixa bastante tranquila na área. Já como gamer, a coisa muda. Somos tratadas extremamente mal em jogos online. Escondo sempre minha foto de perfil, minha voz e evito chat. Já fui chamada de muita coisas, simplesmente pelo fato de ser mulher.  Além claro, de cantadas e mais cantadas. É cansativo e humilhante.

 

Gloria Steinem e Dorothy Pitman Hughes

 

Por que você decidiu fazer a série FIGHT LIKE A GIRL? E por que você acha que ela fez tanto sucesso?

Iniciei a “Fight Like a Girl” com o proposito de desabafo, e acredito que muitas mulheres se identificaram com a série pelo mesmo motivo. Meu desejo é homenagear mulheres fortes que podemos nos orgulhar, que mesmo fictícias, inspiram a vida de muitas pessoas. Não havia nenhuma intensão de sucesso. Na verdade eu nunca imaginei que iria ter o feedback que estou tendo com a série. É gratificante e inesperado. Iniciei e publiquei. Em uma semana ganhei mil curtidas e muitos comentários, tanto de elogios quanto de pedidos. Foi então que notei o quanto mulheres se identificaram e precisavam lembram que sim, existem mulheres que lutam!

 

Quais são as próximas personagens a serem retratadas na série? Há pedidos das leitoras? Quem elas querem que apareça?

Existem muitos pedidos, muito emocionantes. Um dos mais pedidos foi da Korra, da série Avatar. Eu não imaginava que uma personagem de uma série pudesse ter ajudado tantas mulheres de tantas formas diferentes. Noto que a maioria são personagens já antigas, como por exemplo a protagonista de Kill Bill e a Xena. A lista ainda está grande e por isso não sei até quando a série vai.

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olga dieta

A vida tem dessas. Por uma razão ou outra, a gente engorda. Lentamente, de repente. A criança gordinha engorda mais ainda, a magrinha muda de figura. A mãe dá à luz e não recupera o peso e a atleta que engorda ao parar de treinar – ou mesmo treinando. Acontece.

Acontece. E quando menos percebe, você está lá, se escondendo na hora da foto com os amigos, evitando ir à praia. Querendo sair para pedalar, mas se sentindo feia nas roupas de ginástica. Adiando a compra de roupas novas até a perda de peso. Deixando um bom pedaço da vida pra depois – depois, quando o peso baixar.

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E aí você se motiva, faz uma dieta. Perde um pouco de peso, compra umas roupas novas. Recebe muitos elogios. Mas, antes de chegar ao peso que você queria, acaba engordando de novo. Você fica frustrada, se sentindo miserável. Não se reconhece no espelho, pensa que a verdadeira “você” está ali debaixo das dobrinhas, daquela zona de conflito ao redor da cintura. Você tem receio de começar outra dieta e falhar novamente. Mas a família enche o saco, as amigas estão sempre falando de dieta. Você sente a pressão. Então você tenta de novo. E o ciclo se repete. Algum emagrecimento, vontade incontrolável de comer certos alimentos, episódios de perda de controle, ganho de peso, reinício da dieta. Para 95% das pessoas, a perda de peso que advém desse ciclo não é duradoura. Muitas ganham mais peso do que tinham no início. Por quê?

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A verdade é que não foi você quem falhou. Sim. A dieta é quem falhou com você. As pessoas que disseram que perder peso era simplesmente questão de disciplina e força de vontade é que falharam com você. Ninguém disse que seria tão difícil, ninguém disse que as taxas de sucesso eram irrisórias. E, principalmente, ninguém disse que não era necessário. Que, em termos de beleza, tem espaço pra todo mundo, todo tipo de corpo. E que, em termos de saúde, dá pra ser saudável em qualquer tamanho. Por que ninguém disse nada disso? É uma boa pergunta. Uma das respostas possíveis é que muita gente lucra em cima da insegurança das pessoas, de vender soluções para problemas que não existem. A indústria da dieta movimenta pelo menos 6 bilhões de dólares por ano.

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Para investigar essa forma de ver a questão – uma mudança de paradigma em que a obesidade deixa de ser doença e em que ser gordo deixa de ser o problema – é que escrevi a reportagem Chega de Dieta, matéria de capa da revista Vida Simples, edição 139, de dezembro. Queria entender um pouco mais sobre a nossa relação com o peso e porque é tão difícil, afinal, controlá-lo. As descobertas foram surpreendentes. Tão surpreendentes que, junto com a reportagem, decidimos lançar uma campanha: #chegadedieta. Porque o primeiro passo para a gente se cuidar mais, e ter mais saúde, é sair do ciclo danoso das dietas.

Olga Vida Simples Chega de Dieta

Algumas das coisas que descobri na reportagem:

Não é preciso ser magro para ser saudável. Muitas pessoas acima do peso ou obesas têm índices excelentes de saúde. Pesquisas mostram que os hábitos, como comer bem e se exercitar, são mais importantes para a saúde do que o peso em si.

Dietas não adiantam. Cerca de 95% das pessoas que fazem algum tipo de dieta – qualquer tipo, das mais mirabolantes às mais sensatas – recuperam o peso em até cinco anos. Dietas funcionam bem para perder peso no curto prazo. Mas, no longo prazo, quase todo mundo ganha o peso de volta.

Dietas podem fazer você engordar. A maioria das pessoas que faz dieta não recupera apenas o peso que perdeu, mas mais um pouco. As dietas bagunçam o mecanismo de regulação de peso do nosso corpo, o “setpoint”, e por isso podem fazer com que engordemos mais do que antes.

Dietas fazem mal. Elas são associadas com várias doenças que dizemos ser causadas pela obesidade, como hipertensão, diabetes e doenças coronárias. Algumas fazem mais mal que outras, e quanto menos individualizadas e mais radicais forem, pior.

A privação é irmã gêmea da compulsão. Se a gente se proíbe de comer algo ou restringe a alimentação, isso gera um desejo incontrolável por essas comidas. O pensamento de que alguns alimentos são “bons” e outros são “ruins” em si é sempre prejudicial.

Ouvir nosso corpo é importante. Se tem algo que podemos dizer sobre nutrição e saúde é que cada corpo é único e tem suas peculiaridades. Alguns alimentos farão bem a algumas pessoas e muito mal a outras. É importante ouvir o corpo, nos apercebermos dos sinais dele, principalmente os de fome e saciedade.

Ser gordo não é moralmente errado. Nós julgamos severamente as pessoas gordas, como se fosse uma escolha ser gordo, como se fosse uma questão de força de vontade. Ainda que fosse – e não é – ninguém teria o direito de nos julgar, avaliar e criticar por isso. O mesmo vale para as pessoas magras – não é bacana julgá-las, ou ao corpo delas.

Ninguém precisa ser saudável se não quiser. Não é da conta de ninguém dar palpite sobre nossa saúde, sobre como levamos a vida. Se, mesmo sabendo que exercícios e uma alimentação mais equilibrada ajudam a melhorar a saúde, você não quiser adotar esses hábitos, a escolha é só sua, de mais ninguém.

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Tem isso – e mais um monte de coisas, como a relação – muitas vezes emocional – que estabelecemos com o alimento. Para modificar a relação que temos com a comida, e com o peso, o primeiro passo é sair desse ciclo: chega de dieta. Aquele número na balança não diz nada sobre você, seu valor, sua saúde. Aceitar-se, entender que tudo bem ter o corpo que se tem, é mais importante. Vamos nos libertar da balança, parar de odiar nosso corpo. E, então, abrir espaço para uma vida mais feliz, com mais auto-aceitação, auto-compaixão. O único peso extra é a culpa.


Jeanne Callegari é editora-assistente da revista Vida Simples e está tentando, cada vez mais, ter uma relação mais pacífica com o peso e a comida.

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Os depoimentos a seguir mostram que, apesar dessas mulheres estarem em lados diferentes do espectro do peso, suas vivências são parecidas. E as dores também. A partir daí, percebemos que o problema não é o formato do nosso corpo e sim os julgamentos e a necessidade de nos enquadrarmos em uma perfeição inexistente.


Kátia Kohane, estudante de história na USP, é autora do blog Diário De Uma Magra

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A ditadura da beleza não poupa nenhuma mulher, e comigo não foi diferente. Sofri pressão por não usar maquiagem, não alisar o cabelo, ter seios pequenos, por não me depilar, por causa da acne e um sem-número de outros. Porém, passei por uma situação menos frequente e pouco discutida: uma avalanche de críticas por ser magra “demais”.

Minha família é toda bastante magra, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Apesar disso, meus pais me levaram, desde a minha infância, para diversas especialidades médicas em busca do motivo de eu ser tão magra. Lembro de estar na ala pediátrica do hospital, onde me entretinha com vários ursinhos pintados nas paredes, cada qual com seus pares de balões de festa, aguardando o diagnóstico que iria me salvar. Eu tinha que ter vermes, baixa absorção de nutrientes, hipertireoidismo, alguma coisa que justificasse o meu sub-peso.

Era só descobrir o que era, que eu estaria justificada e legitimada, e só bastaria tomar alguns remédios, que o escárnio das pessoas passaria. Mas os diagnósticos de todos os muitos exames que eu fiz ao longo da minha infância e início da adolescência foram unânimes: a minha saúde era perfeita.

Na escola, não faltaram apelidos, gozações e críticas. Gente supostamente muito, mas muito bem-intencionada, preocupada exclusivamente com a minha saúde, vinha me fazer as perguntas e os comentários mais invasivos. Usava calças extras por baixo do uniforme e, sobretudo, comia. Comia muito, toda a junk food que podia encontrar.

Fui bastante acusada de ter anorexia. Isso mostra a falta de empatia que a sociedade tem por mulheres e meninas anoréxicas: quando suspeitavam que eu tinha anorexia, eu precisava me defender da acusação de que estava doente. Eu tinha que mostrar que era assim mesmo, que era natural, que estava tudo bem! Se fosse preocupação com a minha saúde, por que não me ofereceram psicólogo, psiquiatra, ajuda para conversar com os meus pais a respeito? Ter anorexia é estar errada e merecer ser punida, criticada, debochada. Não surpreende que tantas jovens morram sem jamais procurar ajuda.

Nunca tive a doença, mas com tantas acusações resolvi pesquisar sobre o assunto. Descobri tudo o que podia e achei que comer em público e com freqüência afastaria a suspeita, mas estava enganada. As pessoas, como antes era o meu caso, não sabiam o que a anorexia é. Dar demonstrações, que para quem entende do assunto são claras, de que eu não era doente não adiantava, porque essas demonstrações que para qualquer pessoa minimamente bem informada provariam que eu não era anoréxica, para o senso comum simplesmente não eram compreendidas.

O lado bom é que com tudo isso me aproximei de garotas anoréxicas e bulímicas, senti uma profunda solidariedade e, com isso, consegui ser útil a algumas delas. Luto para que o movimento feminista as inclua em suas reivindicações, como já faz com as mulheres que se recusam a tentar emagrecer.

Um caso que me marcou foi já no Ensino Médio, quando eu ouvia comentários diários de um rapaz a respeito dos meus braços serem finos. Comecei a usar a jaqueta do uniforme da escola todos os dias, inclusive no calor, e tive que ouvir dele que eu estava sendo “ridícula”, que eu não deveria ligar com o que “os outros” pensam. Quem seriam esses outros – ele e mais quem? Porque eu é que tinha a obrigação de não me importar – não era ele quem tinha a obrigação de não fazer comentários negativos sobre o meu corpo, dar risada, expor isso para as nossas amigas em comum.

Já ouvi que estava no curso certo, o de história, porque “quem gosta de osso é arqueólogo”, que eu sou uma “árvore seca” e que nunca vou poder ter filhos, que não preciso de guarda-chuva porque posso desviar dos pingos, que não sirvo nem para limpar os dentes já que daria um palito muito fino, para não falar em várias coisas repetitivas, como “tem garota de 12 anos que é mais mulher que você”, “mulher é que nem churrasco, pra ser gostosa tem que ter uma gordurinha”, “parece aquelas modelos famintas”, “parece aquelas crianças que passam fome na África”, etc.

Antes que vocês perguntem, eu tenho 1,63m e peso 42kg.

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Resisti ao bullying escolar até depois de formada, mas, no cursinho, desmoronei. “Não preciso agradar ninguém, quem quiser me amar vai gostar de mim independente da minha aparência” já não fazia mais sentido diante da pressão do mercado de trabalho para que eu fosse maquiada, alisada, esbranquiçada, plastificada para as entrevistas de emprego, se quisesse passar em alguma delas. E eu queria, eu precisava. Minha família não tinha dinheiro uma universidade particular, e passar numa pública era a minha única chance de ter um futuro melhor.

Foi então que comecei uma saga por modificar cada milímetro do meu corpo – eu já não queria mais ser a coitadinha que não tem onde pegar, que ninguém vai querer, que é um favor beijar, que é osso para dar aos cachorros roerem. Não importa quantos médicos dissessem que a minha saúde era perfeita, ninguém iria acreditar se eu dissesse, não é? Então vamos mudar isso. Recebi todos os diagnósticos de olho que se possa sonhar – anoréxica, bulímica, aidética, portadora de hipertireoidismo, de vermes, mas sobretudo de ruindade. Sou magra de ruim, e meu corpo era um reflexo do meu caráter errado.

Então resolvi ter um aspecto saudável: me entupi de açúcar e gordura, comecei a fumar maconha, comprei abridores de apetite em farmácias de esquina sem receita. Todos começaram a me elogiar, dizer como eu havia mudado, exceto pela minha mãe, que cada dia mais alarmada, certa vez descobriu os remédios que eu escondia no guarda-roupas.

Foi então que meus pais começaram uma maratona, me levando à casa de vários tios e tias, cada um com suas próprias histórias para contar sobre o quanto se arrependiam de ter começado a tomar abridores de apetite, anabolizantes, corticóides de um sem-número de outros para ganhar peso. Eles sabiam que só me contar as suas próprias histórias não bastaria. Com tantos parentes que passaram pelo mesmo me falando das consequências que tiveram de longo prazo, me convenceram a parar. Meu peso caiu quase que para o de sempre, sem que eu tivesse feito o menor esforço para emagrecer. Não havia jeito, era uma tendência genética mesmo.

Hoje faço algumas pequenas coisas por auto-aceitação corporal. Por exemplo, um piercing no umbigo, por conta da minha barriga ser bem chapada (mas nunca negativa!). Estou aprendendo a fazer pulseiras, já que eu nunca encontro finas o bastante para os meus braços – fazer artesanato é terapêutico e eu posso até ganhar um pouco de dinheiro extra com isso. Não evito mais fazer atividade física, e hoje tenho um grande prazer em dançar e pretendo fazer capoeira quando puder.

“Mas não é isso que eu vejo – os homens gostam das magras, só há roupas para elas, não há desfiles com mulheres gordas e assim por diante”. Então você precisa começar a olhar para além dos seus horizontes. Não é em todo o mundo, nem em todos os âmbitos sociais que a sua visão está correta. A ditadura da magreza não é eterna, não é universal e não existe à parte do recorte de classe social.

Ela começou após a revolução industrial, é muito mais forte nos países protestantes do que nos católicos e pesa muito mais sobre as mulheres das classes alta e média-alta do que nas mulheres pobres. Na periferia, magreza é sinônimo de fome, não de academias. De gente que passa necessidade, não vontade. De gente que não come por miséria, não por vaidade. Mulher magérrima e branca é vista como linda, magérrima e negra é vista como faminta e miserável. O padrão de beleza não é o mesmo em todos os setores da sociedade.

Não se esqueça, também, que as mulheres com anorexia e/ou bulimia estão morrendo para serem magras, “princesas, borboletas, plumas, bolhas de sabão”. Morrendo porque acreditam que não podem ser amadas se não forem magérrimas. Chamar elas de feias não é fazer nada que a sociedade não já faça. Xingá-las de “ósseas, esqueléticas, dead girls are skinny, tripas” não acrescenta nada na vida delas, não lhes dá saúde e não diminui os lucros das indústrias de dietas, academias, roupas.

Todo corpo feminino está errado para a sociedade. Que o movimento feminista seja, ao contrário, um espaço em que todo corpo feminino seja respeitado – com ossos mais ou menos aparentes, somos todas mulheres igualmente dignas de respeito.


Mariana Zambon, formada em Letras pela USP, é tradutora, adepta da filosofia de saúde em qualquer tamanho e praticante do amor próprio e defensora da beleza sem padrões.

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Gostaria de deixar bem claro que esse não é um texto sobre saúde ou uma inspiração para alguém que deseja emagrecer, ou uma história de superação, tampouco se trata de um mimimi sobre como seria legal se os padrões de beleza ou de saúde fossem invertidos. É apenas uma série de reflexões sobre o que é, para mim, ser uma mulher gorda.

Gordinha, fofinha, cheinha, plus size… Nenhum desses termos me representa. Eu sou Gorda. Assim mesmo, com G maiúsculo e com todas essas cinco letras pesadas (!). Algumas mulheres se ofendem com esse adjetivo, mas se você parar para pensar, significa apenas uma característica física e não deveria ser um termo tão detestado. Eu não me importo que me chamem de gorda. Mas, nem sempre foi assim tão simples não sofrer com o estigma desse termo.

Após 31 anos convivendo e aprendendo a lidar com o sobrepeso, concluí, a duras penas, que essa palavra pesa muito mais do que os quilos que compõem a minha estrutura física e que o estigma social é mais prejudicial à saúde do que os “perigos da obesidade”.

O que significa ser gorda?

Ser gorda é ruim, ser gorda é ser feia, ser gorda é feio. Por que isso é algo que aterroriza e assombra tanto a grande maioria das mulheres? Eu poderia discorrer a respeito da indústria da beleza, ou dos inatingíveis padrões estéticos que são impostos sobre as mulheres, ou mesmo sobre como isso é apenas mais uma das formas usadas pela sociedade para nos manter sob controle e sempre preocupadas em agradar aos homens, mas não. Quero falar sobre como é ser gorda, sob o meu ponto de vista.

A mulher que engorda é vista como desleixada, como alguém que não cuida da saúde, nem da aparência, até mesmo como perdedora e coitadinha. Ser gorda, na nossa cultura, é estar à margem do que é considerado aceitável e desejável. De modo geral, as pessoas me olham e pensam que bastaria eu fazer uma dieta e um plano de exercícios para ter o corpo ideal. É engraçado como todo mundo se transforma em especialista em nutrição e endocrinologia ao olhar para uma gorda. Ninguém sequer supõe que você já tenha tentado seguir esse modelo e que ele não trouxe muitos resultados, porque a limitada visão de quem nos julga assume que é impossível ser gorda e ser saudável e que se você continua gorda depois de adotar uma alimentação balanceada e praticar atividades físicas, bem, você com certeza está fazendo algo errado ou não é dedicada o suficiente. O que me leva ao próximo tópico:

A Gorda boa versus a Gorda má

A Gorda boazinha é aquela que vive fazendo dietas, que está sempre insatisfeita com o corpo e buscando a redenção através da perda de peso, é aquela que não ousa comer nada que engorde na frente dos outros, não repete os pratos, abaixa a cabeça quando lhe criticam, que sempre se veste de forma a disfarçar o seu tamanho. É a gorda aceitável – sem celulites exageradas, sem estrias aparentes, sexy, curvilínea e voluptuosa. A gorda boazinha é aquela que sempre busca emagrecer e, por isso, tem direito de ser gorda, ou a que é gorda por algum problema de saúde que não foge ao seu controle – hipotireoidismo, por exemplo.

A Gorda má é aquela que não faz nada disso, que sorri ao usar um short curto e mostrar a celulite para o mundo, é aquela que é feliz, se ama, aceita seu próprio corpo e não se preocupa em agradar a ninguém além dela mesma. A gorda má não tem o corpo em formato de violão, não se desculpa por não fazer dietas, repete os pratos, gosta de comer e não esconde isso, não vive em função da aparência e faz suas escolhas de saúde sem levar em conta o que dizem ser certo ou errado. É uma mulher que se libertou da opressão, e que as pessoas não conseguem compreender porque pensam: como é possível alguém ser feliz e encontrar satisfação sem estar buscando o corpo ideal?

Depois de muitos anos sendo a gorda boazinha, eu decidi que estava na hora de virar a mesa e parar de me culpar por existir. Eu sou a gorda má, corram para as colinas! Aqui um exemplo de como as gordas más chocam a sociedade.

A eterna vontade de desaparecer

Eu lutei com a balança a maior parte da minha vida. Fiz todas as dietas que me apresentavam, tomei remédios malucos, fiz reeducação alimentar – que sigo até hoje – pratiquei incontáveis modalidades esportivas e continuo praticando exercícios com frequência. Mas cheguei a um ponto em que a aceitação é o único caminho a ser seguido. Vou falar sobre isso mais adiante.

Na época do colégio, eu desmaiava pelo menos uma vez por semana, por passar fome, para tentar emagrecer. Minha mãe ficou horrorizada com aquilo e me deu uma bronca. Ela me disse que nada justificava eu prejudicar a minha saúde daquele jeito – o que me deixou ainda mais confusa, pois, na minha cabeça de menina de treze anos, eu só poderia ser saudável se fosse magra, como os médicos me disseram. Daí, decidi que eu iria voltar a me alimentar direito, para não desmaiar mais, porém comecei a entender que a comida me fazia voltar àquele tamanho que significava doença, não importava o quanto eu me exercitasse. Eu não conseguia compreender o porquê meu corpo me tratava tão mal e me fazia passar tanta vergonha. Eu me odiava todos os dias, desejava sair de dentro de mim, nascer de novo.

Eu cresci com a noção de que gordas só servem para serem amigas, ou então para uma noite divertida, mas só se ninguém ficar sabendo. É claro que, quando eu me tornei adulta, descobri que tudo isso era mentira, mas o estrago já estava feito e as inseguranças se instalaram dentro de mim, e luto com elas até hoje. Às vezes tenho a impressão de que terei que batalhar contra tudo isso para o resto da vida. Passei longos anos presa à ideia de que existe uma pessoa magra dentro de mim, e que eu preciso libertá-la, e, então, vou poder viver minha vida ao máximo. Mas isso eu também descobri ser uma das grandes mentiras que nos contam quando somos jovens.

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Mulher e gorda, duplamente oprimida

Ser uma mulher gorda é algo que realmente exige muito da gente, emocionalmente falando. Aos catorze anos, me apaixonei platonicamente por um garoto lindo que jogou um balde de água fria na minha cabeça com a seguinte frase: “Sabe, você tem o rosto muito bonito. Se emagrecesse, com certeza eu ficaria com você”. Então, adivinhem o que fiz? Exato! Voltei a desmaiar algumas vezes por mês.

Seria muito maçante continuar contando todas as histórias tristes, sobre as vezes que ouvi de “amigas” que eu não deveria dizer não pra um cara que queria ficar comigo só porque eu era gorda e tinha que aproveitar todas as chances; sobre todas as vezes em que fiquei meio presa na catraca de um ônibus; sobre as vezes que tentei comprar alguma roupa e nada me serviu; sobre todos os dias que deixei de ir à praia por medo de ser humilhada; as incontáveis vezes em que fui abordada na rua com panfletos de clínicas de emagrecimento e produtos como Herbalife; dos dias em que saí para comer e vi pessoas me encarando enquanto eu tentava desfrutar de um sorvete ou alguma comida calórica… A lista é grande!

Gordofobia e a desculpa da saúde

Não importa o quanto você malhe na academia, se a sua alimentação é saudável, ou se você se ama e se cuida, o fato de você ousar ocupar mais espaço no mundo do que a sociedade permite e aceita é motivo para ser odiada. Sendo uma gorda boa ou má, sempre terá alguém pegando no seu pé e dizendo o quanto você precisa perder peso, transformando a sua vida num diagnóstico de doenças terríveis que irão te consumir caso sua cintura não meça menos do que 90 cm.

A gordura é demonizada, a obesidade é muito mais encarada como sinônimo de falta de saúde do que a magreza. Claro que o fato de eu ser gorda tem a ver com esse ponto de vista, mas vamos combinar que há muito mais gente preocupada com a ‘saúde’ das mulheres gordas do que em engordar as magras. E isso tem afetado cada vez mais meninas mais jovens, que aderem a todo tipo de projetos verão e se matam (literalmente) para tentar alcançar os objetivos de saúde. Cada vez mais pessoas, em especial as mulheres, entram em depressão por se sentirem inadequadas e culpadas por não conseguirem emagrecer.

Ao contrário do que se pensa, ridicularizar a gordura e torna-la a principal vilã da saúde não fará com que os gordos deixem de ser gordos, isso é algo que só aumenta o estigma e complica ainda mais a vida de quem já passa por tanto constrangimento.

Ser gorda é ruim, mas eu gosto

O que eu quero que você saiba é que eu não me importo em ser gorda. Eu gosto das minhas dobras, do meu rosto redondinho, da maneira como meu corpo preenche um vestido ou uma calça, do meu umbigo grande e da minha barriga positiva. Mas nem sempre foi assim e, ainda que eu me goste muito e procure me cercar de aceitação e positividade, existe dentro de mim o fantasma da inadequação. E esse eu acredito que não seja um companheiro apenas das gordas, mas de todas as mulheres.

Lembra que eu disse que voltaria a falar sobre aceitação? Hoje, a comunidade do “fat acceptance” (algo como aceitação da gordura, em português) tem crescido muito e isso tem me ajudado a me empoderar e aceitar como mulher e gorda. Blogs como The Militant Baker, GabiFreshEntre Topetes e Vinis, o trabalho da Negahamburguer, todas essas lindas me ajudam a seguir nessa batalha diária contra os pensamentos aos quais fui exposta a vida toda. Elas me mostram que é possível sobreviver a tudo isso.

Todos os seres humanos têm direito à felicidade. Ter uma vida digna, feliz, completa e satisfatória não deve depender do formato do seu corpo. Aceitar quem você é não é se conformar com o que vê no espelho e achar que “tudo bem” ser daquele jeito ou achar que alguém vai te amar “apesar de”. Se alguém te ama, não tem essa de “apesar de”, e sim “por causa de”. Aliás, isso também vale para o amor próprio. Então, aceitar a mim mesma significa que seja lá qual o corpo que eu tenha, a condição em que me encontre, eu estarei de bem comigo mesma. É isso o que me mantém viva e disposta a lutar para acabar com os preconceitos que existem por aí com relação a ser uma mulher gorda.


As ilustrações, feitas com carinho especialmente para este post, são da artista e designer
Vanessa Kinoshita.

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olga ju romano

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Eu sempre fui a gordinha da turma. Até quando era magra, sempre tive formas e, talvez por ser baixinha, sempre fui mais larga que as outras meninas. No balé, eu era a das coxas grossas. No vôlei, tinha braço grande. No colégio, era a “gorda, baleia, saco de areia”. Como toda criança crescendo, essas diferenças foram moldando minha personalidade. Eram olhares e palavras maldosas, cada uma a sua maneira, querendo dizer: você tem que ser magra. Crescer em um mundo onde as pessoas sempre esperam que você seja outra coisa que não você mesma é assustador. Felizmente, sempre tive apoio em casa e elogios nunca me faltaram para equilibrar o que eu não tinha fora. Em casa, eu cresci ouvindo que era mais importante ser boa do que ser bonita – mas que vaidade não matava ninguém. E isso me ajudou muito a criar uma barreira lógica contra críticas. Mas a adolescência chega para todo mundo e, com ela, uma vontade irrefreável de se encaixar, de “ser legal”.

Francamente, até a adolescência, ser a gorda nunca me pareceu ruim. E foi lá, aos 14 anos, quando comecei a tomar um remédio para espinhas, cheio de efeitos colaterais psicológicos, que me esqueci por algum tempo o que era importante de verdade. De repente, a vida só tinha sentido se eu fosse magra e nada mais importava – um sentimento semelhante, imagino, ao de quem tem anorexia e bulimia. Se eu fosse magra seria legal, seria desejável, seria popular, teria amigos, sairia para baladas, seria finalmente igual a todas as outras meninas. E foi assim que passei os 2 anos mais infelizes da minha vida. Anos aos quais eu não gostaria de voltar jamais.

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Fiquei magra, sim. Cheguei a vestir 36 – hoje visto 50. Mas passar todas as horas do dia tentando me transformar em uma coisa que eu não era me tornou uma pessoa tão amarga e tão fechada no meu próprio mundo, que nenhum dos benefícios de ser magra foi conquistado, a não ser o de entrar em uma calça menor. Depois de parar o remédio e me recuperar, me fortalecer psicológicamente, comecei a analisar a situação pela qual passei. Amigos de verdade só querem o seu bem, independente do número da sua calça. Relacionamentos não se sustentam pelas aparências – aliás, amor tem mais a ver com o que tem dentro do que o que tem por fora – e é muita futilidade acreditar que alguém deve te amar pela sua aparência. Enfim, o colégio acabou, entrei no cursinho e na faculdade e descobri a diversidade da vida. Sair da sua bolha, pode ser uma experiência maravilhosa. Fanáticos por religião, drogados, depressivos, hedonistas, indecisos, mau caráter… Cada um com uma personalidade e com um corpo diferente e ninguém, absolutamente ninguém, igual. Pensei “Graças a Deus, aqui sou normal”. Como não tinha um padrão, comecei a descobrir o que de verdade eu gostava. Estilo de música, roupas, hobbies, exercícios, livros, etc. Desenvolvi minha personalidade em cima de tudo que eu me sentia confortável e aprendi a dizer “eu gosto disso” ao mesmo tempo em que aprendi a respeitar quem não gostava e principalmente de quem gostava do que eu odiava.

Eu sempre amei moda e beleza e, desde que me dou por gente, leio revistas femininas. Por incrível que pareça, sempre entendi as modelos das revistas simplesmente como manequins, como cabides. Então, sempre achei que moda era para mim também, já que eu gostava e me sentia parte daquele mundo. A minha família também sempre teve uma veia fashion e um faro apurado para pechinchas – vou à 25 de março e ao Bom Retiro desde criança. Sempre me ensinaram a combinar as roupas, a discernir tecidos bons dos ruins, a saber o valor real de uma peça, etc. Quando cresci, para mim era uma conta lógica: preciso de uma roupa bonita e que caiba em mim. Não faço muitas reflexões em cima disso. Aprendi simplesmente a usar truques para adaptar as peças ao meu corpo gordinho. Sem ficar remoendo o fato de meu corpo ser gordo e, sim, me concentrando em como resolver as peças.

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Foi na faculdade, quando eu realmente aceitei e encarei minha personalidade, que comecei a me vestir com personalidade, com a minha personalidade. As pessoas começaram a elogiar minhas roupas e penteados e passaram a dividir suas dúvidas fashion comigo. Pensei: por que não fazer um blog para compartilhar os meus truques? Em momento nenhum eu pensei “blog plus size”. Ele começou como um blog para meninas fora do padrão, que precisavam se valer de pequenos truques para aprender a combinar e vestir moda. A denominação plus size veio só depois e veio das leitoras, não de mim. E foi tão natural, para mim, quebrar essas regras bobas tipo “gorda não pode usar branco” ou “gorda não deve usar listras horizontais”, simplesmente porque eu já usava e as pessoas já elogiavam. Não que eu precisasse dos elogios, mas concorda que se você usa uma coisa e as pessoas gostam, aquilo está bom em você não importa o que as regras digam? Adicione a isto o fato de que eu, Juliana Romano, tenho um seriíssimo problema com autoridades. Odeio que me digam o que fazer e como fazer. Me sinto um macaco de laboratório. Me dê uma limitação e eu lhe mostro como contorná-la. É isso. Eu gosto de criar possibilidades para situações impossíveis. Então se você me disser que gorda não fica bem com um tipo de roupa, eu fico absolutamente motivada a provar que eu sou gorda e que eu posso ficar bem com essa roupa, sim! E acho que foi essa rebeldia que transformou o blog no ”estopim”. As mulheres são tão reprimidas por tudo na vida, que precisavam de um grito de liberdade. Acho que eu consegui despertar uma força que toda mulher tem dentro de si, a vontade de ser livre sabe? De fazer o que bem entender?

Quando eu comecei, não tinha muita coisa sobre esse assunto. Hoje em dia tem um boom do plus size em todos os lugares. Pessoalmente, acho ótimo em partes. São tantos blogs gringos mostrando moda para pessoas fora dos padrões – não só gordas. Os blogs de beleza e as meninas que fazem, também não se encaixam nos padrões. Aliás, se tem uma coisa que já é democrática é a beleza. Todo mundo pode usar tudo! Acho maravilhoso. Algumas lojas, como a Flaminga, por exemplo, tem um quiz para você ver o estilo do seu corpo e um tabela que você preenche suas medidas, para ajudar na hora das compras a encontrar uma peça que vai cair bem no seu tipo de corpo. E não é você que tem que se encaixar na modelagem. As lojas de departamento também têm aumentado a grade de numeração das peças e criado coleções plus. Mas ainda tenho minhas dúvidas se segregar é evoluir. Eu não quero aplicativos, lojas, coleções e etc plus sizes. Eu quero que tudo seja mais abrangente. Eu quero uma grade de tamanhos maior, quero revistas com imagens corporais diferentes, quero que a atriz gorda da novela não faça o papel da gorda, mas que faça qualquer outro papel que exija uma boa atriz como ela. Eu gostaria que o termo plus size deixasse se existir. Aí então teríamos uma moda democrática. Uma sociedade democrática. Aí então, uma mulher que vista acima do 46 deixaria de ser diferente e seria simplesmente normal. Eu visto 50 e não sou mais especial que uma menina que veste 38 só porque sou gorda e como mais. Eu não preciso de uma coleção “especial”.

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Claro, toda evolução exige um processo de mudança e adaptação. Tenho notado um movimento vindo da gringa, de capas com mulheres mais “reais”. Com gordurinhas, barriguinha, flacidez, etc. Embora eu note que é tudo feito com muito medo ainda. Ninguém sabe bem o limite do ofensivo. Quando a gente pode chamar uma mulher de gorda? Quando ela é plus size? É superdifícil por enquanto. Explico: plus size é uma nomenclatura da moda, para classificar peças que estejam acima do 46. Consequentemente, qualquer mulher que use 46 ou mais é plus size. E isso independe de sua aparência ou do seu peso. Já achar que a palavra gorda é ofensiva, é puro preconceito. Se eu estiver falando de uma menina e for descrever sua aparência, vou dizer, por exemplo: “ah, ela é magra, alta, tem cabelos castanhos e pele morena”, certo? Então, porque eu não posso me descrever como “uma gorda, baixa, de cabelos longos castanhos e lisos, com a pele branca”. Por que a minha característica física é ofensiva? Tem todo um pensamento que nos é imposto desde a nossa infância, de que a mulher deve ser magra e por isso a palavra gorda virou ofensa. Mas na verdade é só uma característica e evitar falar a palavra “gorda” é preconceituoso. Já a palavra gordinha, é só um jeito de amenizar o choque que as pessoas levam com a palavra gorda. Eu não me sinto ofendida quando as pessoas me chamam de gordinha, da mesma forma que não me sinto quando me chamam de gorda ou de plus size. Mas que é um jeito de amenizar uma outra palavra que elas acreditam ser ofensiva e que isso carrega uma dose de preconceito, isso sim. Quer dizer, “olha, você está acima do peso, mas eu não te acho tão ruim para te chamar de gorda”. E, desculpa, mas eu não sou menos capaz que nenhuma mulher magra. Eu sou uma mulher inteligente, tenho amigos, um bom senso de humor, um coração mole, fiz faculdade, gosto de ler, gosto de filmes antigos, faço penteados… Eu tenho tantas outras características além do fato de ser gorda, que para mim é ofensivo ser resumida somente ao meu peso e minha aparência. O meu peso e minha aparência são tão pequenos perto da mulher que eu sou…

Peso, aliás, é algo que deixou de me incomodar há 6 ou 7 anos… Quando subi na balança pela última vez! Números podem ser cruéis com a nossa autoestima. Você olha no espelho e roupa está linda, mas aí você lembra seu peso e parece impossível se amar com todos aqueles números. Então hoje eu subo só na balança do médico, virada de costas e peço para que ele mantenha sigilo absoluto daquele valor. Que ele calcule a minha alimentação e o que eu devo fazer para manter minha saúde, mas que só mexa no peso caso seja absolutamente necessário. E para você ver como a mídia e as pessoas usam como desculpa a saúde para impor um padrão: eu visto 50, tenho dobrinhas na maior parte do corpo, peso sei lá quanto e minha endocrinologista (presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, por sinal) diz que eu não preciso emagrecer nada se eu não quiser. Beijos, sociedade, sou gorda e saudável! Qual a desculpa para eu não poder usar o que eu quiser agora, mesmo?!


Juliana Romano, jornalista e autora do blog Entre Topetes e Vinis, desafiou as “regrinhas fashion” de consultoras, stylists e revistas de moda… E ganhou!

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