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Antes de tudo, esclareço o lugar de que falo, o lugar de Mulher com deficiência e de acadêmica, antropóloga. Desse lugar hibrido é que falo. E falo olhando para a violência que este corpo sofreu, em silêncio, ao longo da história. E do silêncio que foi produzido para que este corpo sofresse ainda mais em silêncio.

Como antropóloga, interessa-me pensar histórica e simbolicamente o corpo da mulher com deficiência e como esse corpo recebeu uma narrativa social, como uma narrativa social foi produzida a respeito desse corpo. Primeiramente, interessa-me o silêncio a que este corpo é imposto. Como foi produzido um silêncio a respeito do corpo da mulher com deficiência e de suas necessidades, especialmente de suas necessidades sexuais e reprodutivas. Um silêncio abusivo, castrador, horrível, aterrorizante.

Pensei em dividir esse bate-papo (quero muito ouvir todas vocês, comentem, escrevam), em três partes: na primeira, vou falar de dados de violência, na segunda vou falar das imagens simbólicas do corpo da mulher com deficiência, ao longo da história na narrativa social judaico cristã (o modelo religioso), e na terceira falar de deficiência e sexualidade.

Comecemos falando de violência. Quando falamos de violência e mulheres com deficiência as pessoas sempre precisam ser recordadas que temos um corpo, inclusive um corpo sexual. A narrativa social construiu um esquecimento acerca do tema, de maneira tão forte, que nosso corpo, esquecido e silenciado, é deixado nas sombras, para que os abusos aconteçam em silêncio. Estou aqui, como mulher com deficiência, disposta a quebrar o silêncio.

Cerca de 10% das mulheres do mundo vivem com uma deficiência, e nos países mais pobres, 75% das pessoas com deficiência são mulheres. No Brasil, de acordo com o Censo de 2010, mais de 25 milhões de mulheres com deficiência e quase um terço das mulheres negras tem uma deficiência.

A violência dirigida às mulheres com deficiência é um problema global. As mulheres com deficiência vivem em condições de maior isolamento social, o que amplia extremamente a possibilidade de violência e abuso. Elas têm menos chances de sucesso educacional, financeiro, profissional e social e isso também dificulta sair da condição de violência e abuso, pois inviabiliza autonomia e contato com redes que poderiam prestar ajuda. Na maioria das vezes o abuso vem de familiares, cuidadores, colegas, e isso torna denúncias um processo muito difícil. Por exemplo eu acompanhei um caso de uma senhora que o único contato com o mundo era o telefone. O cuidador, no caso o marido, desligava o telefone e ela não podia mais falar, nem do abuso que sofria. E quando falava, ela tinha medo, porque “só tinha ele” para cuidar dela.

Mulheres com deficiência sofrem abusos de todos os tipos: sexo forçado com trabalhadores, cuidadores ou outros residentes em instituições, são espancadas, esbofeteadas, ou feridas em crises, sofrem esterilização ou abortos forçados, são trancadas em quartos ou armários sozinhas, são obrigadas a banhos de gelo ou chuveiros frios como punição, são obrigadas a medicação forçada (tranquilizantes), muitas vezes obrigada a ter que se despir ou ficar nua na frente de outras pessoas, como castigo, são amarradas ou colocadas em restrição (contidas).

Numa pesquisa que realizamos em Escolas e Jovens e Adultos, na cidade de Campinas, em 2008, detectamos algumas situações: as mulheres com deficiência, mesmo sendo obrigadas a serem tocadas ou realizarem sexo contra sua vontade não percebem estar sendo abusadas ou violadas, tem grande dificuldade de sair desse processo, mulheres cegas ou com deficiência têm, proporcionalmente, duas vezes mais chances de serem abusadas ou violentadas que as sem deficiências, surdas, cinco vezes mais, e com deficiência mental de oito a nove vezes mais. Muitas famílias retiram as meninas com deficiência das escolas regulares por medo de abuso, mas são abusadas em casa, por funcionários e assistentes.

Na verdade, é preciso criar uma rede de proteção e denúncia estatal específica para a questão, apoio, inclusive de saúde mental para as famílias e medidas penais mais severas para os abusadores. Já encontrei no Facebook uma página, denunciada por mim que falava: estupre uma deficiente mental porque ela não vai saber contar. A gente precisa saber responder: Mas, nós vamos. Todas nós estamos vendo, e vamos fazer um escândalo


Adriana Dias é mestre e doutoranda em Antropologia Social (IFCH – UNICAMP), coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e membro da  American Anthropological Association, da Associação Brasileira de Cibercultura e da  Latin American Jewish Studies Association.
Arte: Manjit Thapp

 

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A convite do Think Olga, me encontrei com Claudete Alves, presidente do Sindicato da Educação Infantil, para entrevista-la sobre sua vida como militante negra e pesquisadora acadêmica, principalmente sua tese de mestrado que resultou no livro Virou Regra?. Mas sinto que devo ser completamente honesta e dizer que talvez não tenha cumprido minha missão.

Posso ter perdido meu profissionalismo logo no início de nossa conversa, quando contei para ela o que senti quando li sua pesquisa. Ou durante, quando ela falou animada sobre o quanto confia na minha geração como grande revolucionária no combate contra o racismo, principalmente por parte das mulheres negras.

Claudete escancarou por meio de sua pesquisa a questão da solidão da mulher negra, mostrando que o problema se origina do preterimento do homem negro por mulheres brancas. Ela colocou em números e constatações o que não gostaria que fosse tão real. Para muitas feministas, o livro gerou polêmica e pode ser facilmente problematizado, mas para mim o conteúdo mostrou que eu nunca tive culpa pela rejeição que sentia desde a infância.

Logo, a conversa viroupraticamente uma aula sobre resistência, militância e principalmente sobre como lidar com as pressões que eu ainda terei que enfrentar como mulher negra. Então não me entrego completamente à falha da missão pois, mesmo não tendo a postura mais profissional diante de Claudete, acredito que esta conversa (acho que chamarei assim, no lugar de “entrevista”) ainda funcionará para empoderamento e conscientização.

 

Você já começou a sua pesquisa com a intenção de falar sobre a solidão da mulher negra?

Claudete: Sou professora de educação infantil, ativista sindical e é claro, independente do posto que nó estejamos, não deixamos de ser mulheres nem negras. E já tinha esta percepção sobre a preferência entre homens negros e mulheres brancas, uma estranheza quanto a este fenômeno. Então passei a ler muitos textos, principalmente de Sueli Carneiro, Leila Gonzales, Neusa Santos… E comecei a identificar que esta era uma questão pública, social.  Procurei grupos de militância para falar sobre isso, mas percebi que era uma questão ainda muito pessoal que não saia de grupos fechados. Não havia uma ousadia para explicitar a questão.

 

A falta de ousadia por parte das mulheres negras?

Isso. Essa não ousadia me parecia ser um receio das críticas. Havia ainda uma concordância nas falas e nos grupos de que a questão deste preterimento se dava somente no extrato onde esse homem negro tinha ascendido. Na área dos esportes, do mundo artístico ou no meio acadêmico eventualmente.

O que fez com que eu definisse o tema era o incomodo que cada vez se tornava maior dessas afirmações, mesmo entre nós, de que o preterimento está apenas nestes segmentos. Eu sabia que ia além disso. Outra questão foi que, quando vereadora, priorizei três questões para meu mandato: educação infantil, questão de gênero e a questão racial e, quando fiz uma continha matemática somando minha contribuição, somei muito mais no campos sindical e racial. Achei que tinha uma dívida e que eu tinha que chutar o pau e acabar com os melindres sobre o assunto [solidão da mulher negra] que eu percebia que ainda existiam.

 

Você falou dos melindres, dos medos de se tocar no assunto… No Brasil se repete muito a máxima de que negros sentem atração por brancos e vice-versa. É questão de gosto?

Não me aprofundei na questão do gosto em meu trabalho, porque não sou da área da psicologia, embora tenha recorrido a alguns autores para entender alguns pontos. Mas quando se fala de solidão da mulher negra, não é sobre o desejável ou o factível. Não tem muito a ver com o sentimento nato, pelo menos do que pude constatar ao falar com as mulheres. É um sentimento que eu também tinha e continuo tendo, infelizmente.

O que constatei é que o homem negro não assume a mulher negra, só tem relações sexuais. Essa é a regra. E também não é verdade que os homens brancos preferem as mulheres negras para construir uma família. Os casos que ocorrem são exceções. Nunca digo que estas relações não podem acontecer. Eu falo de quando esta preferência vira regra, quando a busca já é automática, é um preterimento.

 

E hoje isso melhorou de alguma forma? Depois que você chutou o balde?

Sem demagogia nenhuma, percebi uma mudança sim. Fiquei muito feliz de ter publicado este trabalho e também dos resultados a partir dele. Tempos depois da publicação do livro, notei na maioria dos eventos onde transitavam essas mulheres que o comportamento mudou e hoje há uma leveza para tratar do assunto que antes não tinha. Para nós mulheres negras essa era uma conversa que ficava muito restrita a nosso grupo. Havia um envergonhamento.

 

Você acha que isso se dá justamente por causa dessa solidão?

Eu avalio que dois sentimentos permeavam o medo da exposição: a questão de ser ridicularizada pela mulher branca e pelo próprio homem negro e o receio de ouvir “ah, coitadinha”.

 

De ser acusada de vitimização?

Isso. Medo de se vitimizar. É interessante que quando é o branco a falar se tem créditos. Quando somos nós que falamos, aí a questão da vitimização é colocada na nossa cara. É muito brutal. Eu senti muito isso na pele. Por exemplo, lá atrás quando Elza Bercot tratou no mercado matrimonial e mostrou cientificamente que este preterimento ocorria, todo mundo aceitou. Mas quando eu fui dizer isso, fui acusada de me fazer de vítima, diziam que eu não tinha o que fazer e que eu queria macular a imagem do homem negro. A intenção sempre foi exatamente outra.

 

Qual era seu objetivo? Sua intenção?

Sempre pensando na mulher que sofria com isso. Sempre foi de dizer: negras, vamos tratar dessas dores!  É um fenômeno que temos que investigar. Se não falarmos sobre isso e não tentar encontrar os porquês, o problema não será resolvido.

 

Pelo que eu entendi – corrija-me se eu estive errada – você não culpabiliza o homem negro por este preterimento em sua pesquisa, certo?

Exatamente. Isso acontece pois o homem negro cresce aprendendo a fugir da sua identidade, para fugir também da marginalidade. Então o que ele quer em busca de uma vida decente, de aceitação? Ele quer tudo o que o homem branco, que é um padrão de beleza e de sucesso, tem. Ele quer essa mulher branca.

Não é à toa que, quando você observa o comportamento desse homem negro que se casa com uma mulher branca, percebe que ele começa a ter hábitos que ele não tinha. Hábitos de homem branco.  Mesmo sendo ele oriundo de famílias negras tradicionais. Ele vai se desculturalizando. Uma das primeiras medidas é raspar o cabelo como meio de esconder sua ancestralidade.

Então não posso responsabiliza-lo por algo cultural. Vale lembrar que não é um ou outro que faz isso. Estamos falando de um comportamento regral, sistêmico. Não estamos falando de exceções.

 

Me colocando no seu lugar, eu imagino que, mesmo que você não estivesse na mesma situação que estas mulheres entrevistadas, possa ter havido algum tipo de identificação com as histórias e as situações em que elas estavam inseridas. Deixando um pouco de lado a pesquisadora e perguntando diretamente para a mulher negra, como você se sentiu falando com elas?

Alguns momentos eram muito dolorosos. Não é fácil ouvir coisas que você vivenciou ou que poderiam ter acontecido com você. Uma história que me marcou muito aconteceu quando eu fazia pesquisa nas maternidades. Eu estava acompanhando um casal negro e a mulher era uma das minhas entrevistadas. Depois de dar à luz, ela percebeu que as outras mulheres na maternidade naquela noite tinham ganhado rosas de seus maridos. Ela me perguntou: “Porque meu marido não me deu rosas? Eu estou no meu quarto filho e nunca ganhei uma rosa. Ele parece infeliz”.

Eu senti uma dor… Eu desci, comprei flores e as levei pra ela. (Nesse momento Claudete para e tenta conter as lágrimas). Eu penso nisso e a merda é que isso não muda! Eu também não recebi flores do meu marido! Por isso eu digo que algumas solidões acontecem à dois.

 

Como você conseguiu levar seu estudo para fora dos locais de ascensão do homem negro? Sair do mundo acadêmico e encontrar mulheres da periferia?

Quando eu fechei a pesquisa, uma das decisões que eu tomei foi não entrevistar mulheres do movimento negro, mulheres militantes. Eu já conhecia o pensamento desse grupo. Eu queria conhecer a opinião da mulher negra dentro e fora da periferia e propor uma reflexão ainda não feita ou que as incomodava mas não era falado. No começo foi difícil até de convencer a moderadora do meu mestrado, mas insisti até consegui.

 

Você conseguiu a partir das constatações que fez junto com essas mulheres?

Também. A situação da solidão e da rejeição é um marcador tão grande em suas vidas que as levam desacreditar que elas tenham o direito de serem amadas.

 

Daí vem a culpabilização?

Sim. Elas acham que estão sozinhas por culpa delas e também porque os homens negros dizem isso.

 

Os homens negros acabam escapando dessa cobrança, culturamente?

Parece que é uma coisa orquestrada. Eles dizem que a mulher negra é muito conservadora, exigente, que cobra demais. Só que isso não é verdade. Eles culpam a mulher negra, por não terem uma identidade. Eu observei muitos casais de homens negros casados com mulheres brancas em que eles eram cobrados e até feitos de escravos.

 

Então a mulher branca é que seria a mulher exigente que eles tanto reclamam?

Exato, por isso que eu discordo quando eles culpabilizam a mulher negra, dizendo que elas são exigentes. Quando se observa os comportamentos, nota-se na mulher branca uma hierarquia que é herança cultural, superior ao grupo negro.

Eu acho que as pessoas que forem se aprofundar nessa investigação, têm que analisar agora o homem negro. E este trabalho tem que ser feito por mulheres negras. Não é preconceito “inverso” meu de dizer isso. É que é diferente. Se o meu trabalho tivesse sido feito por uma mulher branca, talvez não tivesse chegado a comprovação, pois, mesmo que o pesquisador precise ser isento, em algum momento, o olhar da pessoa que sente aquela dor contribui pra que realmente você decifre e direcione, saiba os caminhos que precisa percorrer.

 

Como educadora infantil, você acha que é possível detectar a solidão da mulher negra já na infância?

Apesar do foco da minha pesquisa seja no meio afetivo, não é uma solidão que acontece só nesse quesito. A criança percebe a preferência dos adultos, principalmente dos professores, por crianças brancas. Estas são mais paparicadas, recebem mais atenção que elas.

No colegial, a história se repete e começa a se perceber isso na descoberta das relações afetivas. Muitas adolescentes negras me falaram sobre como homens, negros e brancos, as usaram para iniciação sexual, mas nunca para assumir um namoro. E isso se estende no futuro, no trabalho, na mídia, na novela…

 

Ouvindo você falar da desculturalização do homem negro e da necessidade de uma pesquisa nesse ponto, gostaria de saber se você mesma não pretende continuar… 

Eu concluí o trabalho, mas não parei de fazer a pesquisa. Eu até tenho vontade de levar isso pro mestrado, mas acho que não terei saúde. Sempre peço para as mulheres mais jovens continuarem isso pra mim, pois já tive dois infartos, estou no 5.5 e não terei saúde para isso. Mas acho que vocês jovens, para continuar essa pesquisa devem falar agora com os homens negros.

 

Este seu cansaço vem da vida sua resistência acadêmica? É difícil ser negra e pesquisadora no Brasil?

Quando as pessoas olham o negro e a negras nesses espaços, já se percebe o olhar de desqualificação. Já imaginam que nossa linha de pesquisa é para falar de nossas dores e isso os incomoda. A partir do momento que, através do resultado dessas pesquisas, a gente consegue descontruir todo um pensamento racista e confortável para pessoas brancas, a branquitude se preocupa. Eu acho que essa sensação atinge todo negro e negra acadêmico.

No dia da defesa da minha dissertação a sala ficou lotada, mas majoritariamente eram negros que estavam lá. Eles acham que são problemas menores ou que nem há problemas. Mais uma vez a questão da vitimização.  Então nós temos que nos empenhar para falar da nossa história, das nossas dores, tem que ter esse confronto na academia.

 

Você sente a necessidade de se provar no mundo acadêmico?
As produções não-negras são aceitas como científicas e a nossa é considerada como achismo, há uma desqualificação. Por causa da necessidade de pesquisar comportamentos, acham que a gente não se preocupou com referenciais teóricos.

Isso acontece até por causa de nossas origens, com raríssimas exceções, contamos com formação e sustentação acadêmica ao logo da vida. Eu defendi minha dissertação com 47 anos, entrei na faculdade aos 40 pois tive que priorizar a criação dos meus filhos. É diferente de uma mulher branca que cresce com uma base, estuda jovem… Ela já vai apresentar com outra linguagem, dominando o inglês, é uma fala diferente da minha, é difícil competir com isso. E não é vitimização, é constatação.

Por isso sempre aceito falar sobre meu trabalho, acho importante falar também sobre a construção, a pesquisa. Sinto que preciso provar sempre que meu trabalho não merece um descrédito. Na universidade, consegui fazer isso pelo menos com a banca e as pessoas presentes na apresentação, que eram os mais importantes. Agradei a todos excetos aos palmiteiros.

 

Você também utiliza o termo palmiteiro?

No primeiro momento, fiquei muito resistente com o grupo de mulheres negras que começou a usar este rótulo, eu não gosto muito de rótulos. Mas por situações que tenho observado no movimento negro, eu adotei o termo também, acho que é merecido. (gargalhada)

Talvez esse choque de ser, supostamente, recriminado possa de alguma forma intensificar as intenções do movimento. Acho que a gente tem que incomodar mesmo e leva-los a uma reflexão.

Uma das coisas que está começando a incomodar também é o movimento do cabelo natural. Não que eu ache que o mais importante está fora da nossa cabeça, mas sim dentro dela.

 

Você acha que mais uma vez a mulher negra está liderando uma revolução dentro do movimento racial, por meio dos movimentos em prol do afro?

A mulher negra está sempre na vanguarda. Agora está soltando, mostrando nossa coroa. Dizendo: nós somos isso e é lindo. Os homens negros mais velhos ainda estão raspando a cabeça, mas eu acredito que a nova geração, influenciada pelo movimento da mulher negra, já começa a deixar o cabelo aparecendo também, coisa que você não via há 10 anos atrás. A mulher negra está dando um direcionamento, uma arma de militância.

 

Eu senti que você se apoia muito na nova geração de militantes negros, não é?

Eu me apoio e estou muito satisfeita com o que eu estou observando. Primeiro que na minha geração era muito difícil tratar dessas questões, tínhamos pouco espaço na graduação. Esse debate acadêmico, esse mundo de pesquisa era uma coisa muito restrita para mulheres negras. Por mais que sejamos a minoria na academia, não podemos aceitar sermos totalmente invisíveis.

 

A gente conversou e sua pesquisa também explica, que a escolha da mulher branca por parte dos homens negros vem também de uma padrão de beleza imposto pela mídia e abraçado pela sociedade. Logo, os homens negros também abraçam este padrão. Você acha que os movimentos liderados por mulheres negras, principalmente os que envolvem a estética do cabelo, pode ajudar a combater estes padrões pelo menos dentro dos relacionamentos não inter-raciais?

Com certeza. O sistema é muito inteligente e ele já percebeu e sentiu a cobrança de representar a mulher negra. Isso mais uma vez começa com a mulher negra, só que lá atrás. Aquela que não pode ingressar na faculdade mas fez de tudo para os filhos conseguirem. O resultado desse esforço é você (ela aponta firmemente para mim). Percebe a nossa satisfação de ver esse movimento? É muito gratificante ver o resultado dessa nossa resistência e determinação, um deles é esta entrevista ou este site para o qual você está escrevendo pudessem acontecer!

A juventude de hoje vai ter mais condições e facilidade de levar o debate da conscientização e novamente será protagonizado pelas mulheres negras. E acredito ainda que esta geração atual e as gerações futuras vão dar um golpe muito duro no colorismo. Este movimento é uma retomada ao pertencimento étnico-racial, de identidade.

 

A geração atual também conta muito com a internet. Você acredita nela como ferramenta de militância?

Também! As redes sociais facilitam a compreensão da importância e do encontro entre ativistas. Fica mais fácil entender o reconhecimento do seu lugar, do seu grupo étnico, de encontrar um lugar em que você pode ser feliz e não precise mudar.

Então essa coisa da juventude negra querer ir pras ruas, ocupar seu espaço, mostrar seu cabelo, falar de cotas e outras questões sociais começa daí. Estamos cobrando coisas que a sociedade branca nos deve. E a mulher negra tem direito de cobrar também o amor que nunca lhe foi dado.

 

E quanto ao movimento feminista como colaborador da ascensão da mulher negra?

O feminismo também pratica racismo. As feministas brancas não entendem a condição ímpar de ser mulher negra e a necessidade de ser plena e protagonista de nossa própria história, construir saberes e falar de nossa experiência. Em um determinado momento dentro destes grupos, me vi reduzida a uma mera levantadora de crachá para o protagonismo delas.

Já fui muito criticada por feministas por causa do meu livro. Elas diziam que todas as mulheres são sozinhas, falavam sobre amor livre e assuntos que nem chegam à mulher da periferia. Por isso me vejo no direito de criticar esse feminismo elitista.

 

 

Então que dica você daria pra mim e pra outras mulheres negras que têm essa missão de continuar o movimento e essa revolução estética?

Se amem. Ame a si mesma e se amem entre vocês. Não deixem que tirem isso de vocês e cobrem o que a sociedade lhes deve!


Karoline Gomes é jornalista formada pela Universidade Católica de Santos e repórter no site Finanças Femininas.

Arte: Njideka Akunyili Crosby

 

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Muitas foram as pautas que passaram pela minha cabeça quando fui convidada a escrever  para o Think Olga. Mas para começar resolvi me apresentar de alguma forma, falar de mim e da minha vivência. Por acreditar que é uma forma de me aproximar de vocês e de mim mesma.

Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. – Gloria Anzaldua

Passei anos da minha vida acreditando ser atraída por homens. Sendo violentada por uma sociedade que não me deixava amar as mulheres. Sendo martirizada por uma hierarquia que parece invisível e que é silenciadora. Passei anos da minha vida acreditando que só existia uma orientação sexual: a heterossexual. Que no final, ali, nas convenções que somos obrigadas a celebrar, eu deveria me submeter a ficar e estar com um homem: mesmo se eu não quisesse, mesmo se eu não desejasse.

Entre abusos, agressões físicas e psicológicas é que se deu o meu despertar . E não foi nada fácil contextualizar as relações em que eu estava inserida. Era como estar, literalmente, presa ao meu opressor. Doía muito, muito. Mas quanto mais eu sabia de mim, mais eu me fortalecia e me desmembrava da alienação ao qual me enquadravam.

Eu descobri que existe amor de verdade quando me amei, amei e fui amada por outra mulher. Eu descobri as possibilidades do meu corpo quando me amei, amei e fui amada por outra mulher. Eu me sinto um ser potencialmente mais político me assumindo lésbica.

 

Sou uma mulher negra e lésbica.

 

Ser uma mulher negra e lésbica me torna cada vez mais combativa.

Luto diariamente para viver minha identidade. Me vejo diariamente abominando a coisificação, a objetificação e a erotização que fazem dos nossos corpos. Me vejo diariamente tendo que arrombar a porta para ocupar espaços que deveriam ser meus e de minhas irmãs por direito.

Ser mulher negra e lésbica me coloca num lugar de poucos privilégios.  Sou rejeitada e invisibilizada por uma sociedade branca e heteronormativa. Sou tudo que o patriarcado enoja. Tenho medo de ver verter meu sangue nas mãos de homens que querem me transformar em “mulher de verdade.” Tenho medo de virar estatística.  Por isso denuncio: a nossa voz precisa ecoar contra o machismo, o racismo e a lesbofobia. Contra as opressões que querem nos desestabilizar.

Tenho o direito de existir. Temos. 

Somos muitas com nossas múltiplas identidades.

Sou orgulhosa de ser quem eu sou.

Sou uma mulher negra e lésbica.

“Sermos mulheres juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos garotas lésbicas juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos negras juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos mulheres negras juntas não era suficiente.

Nós éramos diferentes.

Sermos lésbicas negras juntas não era suficiente

Nós éramos diferentes.

Demorou algum tempo até percebermos que nosso lugar

Era a casa da diferença ela mesma,

Ao invés da segurança de qualquer diferença em particular”

Audre Lorde


Dayana Pinto é educadora e Co-administradora da Arquivos Feministas.

Arte: Taj Francis

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Eu cresci sendo aquela única negra da turma. É o que acontece quando você nasce em uma família e mora em bairros classe média, estuda em escolas particulares, faz curso de inglês e uma universidade federal. Passei a infância pedindo (e ganhando) a Barbie, o namorado da Barbie, o carro da Barbie, a casa da Barbie, pro Papai Noel. Na adolescência, a pretexto de diminuir o volume e “soltar” os cachos, por anos fiz relaxamento no cabelo. Em uma das idas ao salão, sofri calada enquanto sentia as queimaduras no meu couro cabeludo, afinal, eu tinha aprendido que pra ficar bonita eu precisava sofrer. E por muito, muito tempo nada disso me pareceu um problema. Ao contrário. Eu me achava privilegiada demais para reivindicar qualquer coisa, inclusive minha identidade negra. Mas o tempo – novamente ele – passou e descobri que ser uma negra de privilégios em ambientes majoritariamente brancos não é fácil e deixou marcas. Minha vida pode ter sido sim mais confortável que a de outros, mas ser uma minoria nos espaços que deveriam ser igualitários também é um tipo de opressão. Especialmente se você é uma mulher negra.

Por mais que eu estivesse entre brancos, nunca fui um deles. E isso ficava claro nos pequenos racismos do dia a dia, nas piadas que atacavam aquilo que eu tinha e tenho de mais característico. Não foram poucas as vezes em que me peguei tendo vergonha do meu cabelo, do meu nariz, desejando ser branca para que os garotos (mais tarde, os empregadores) fossem um pouquinho mais solícitos comigo. Em algum lugar ao longo do caminho eu comecei a acreditar que eu não era boa o suficiente como as outras meninas, o que quer que isso significasse. O racismo, ainda que eu não o enxergasse, me fez desconfortável em torno de meu próprio corpo. Mesmo adulta esse sentimento de inadequação me acompanhava. E até compreender que o problema não era eu, não estava em mim, muito estrago se fez.

Não sei exatamente quando consegui romper com esse ciclo e tomei consciência de como os outros me veem, mas foi de certo um percurso longo, sem direito a atalhos. Nele fui costurando minha identidade, encontrando meus pares, (re)conhecendo minha história e minha ancestralidade, juntando os pedaços da minha autoestima numa trajetória por vezes dolorosa, mas também de liberdade. Só que isso não representa um final feliz. Porque aprendi que ser uma mulher negra é, inevitavelmente, militar todos os dias. Vai ter sempre um incomodado querendo nos anular, mostrar qual é “o nosso lugar”. Basta um vacilo para pôr tudo a perder.

O estereótipo racista
Infelizmente, minha história não é única. De acordo com o IBGE, as mulheres negras representam 25% do total da população brasileira, o que corresponde a cerca de 49 milhões de pessoas. São 49 milhões de histórias diferentes de luta diária pelo resgate da autoestima. Você sabe o que é se olhar no espelho e querer ser outra? Abrir os jornais e perceber que os seus só estampam os cadernos policiais – no máximo os de cultura e entretenimento? O que é ligar a televisão e se enxergar carregada de preconceitos? Não nos vemos representadas num país de quase 53% da população autodeclarada negra. E é nessa ausência e distorção da imagem da mulher negra na mídia que o racismo mais se manifesta porque ela desempenha o papel perverso de perpetuar estereótipos. Somos as vítimas das tragédias; as mães, esposas ou irmãs dos criminosos; as mulatas do carnaval; as domésticas das telenovelas.

De fato, ainda que a desigualdade venha se reduzindo em todo o país, as mulheres negras continuam na base da pirâmide social, política e econômica. Dados do IPEA, de 2014, mostram que, mesmo com qualificação similar, a renda das mulheres negras corresponde a 56% da renda das mulheres brancas; o acesso aos direitos sociais básicos (educação, saúde, habitação) é muito mais precário; os postos de trabalhos são escassos e requerem pouca qualificação – 70% das empregadas domésticas são negras e a maioria ainda sem carteira assinada. E não para por aí: os homicídios contra negras aumentaram 54%, enquanto o de brancas diminuíram 10%, de acordo com o Mapa da Violência 2015.

Isso é resultado do preconceito e discriminação que nos excluem de determinados espaços e nos negam possibilidades por uma dupla opressão: de gênero e racial. Mas não podemos mais permitir que as representações não retratem toda a profundidade de quem somos. Queremos mais. Podemos estar em menor número, mas estamos aí nas engenharias, no jornalismo, na advocacia, no empreendedorismo, na ciência, na academia. Produzindo intelectualmente. E é por isso que representatividade importa, porque empodera. E mulher negra empoderada incomoda. Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para ver que muitas das vítimas dos casos mais recentes de racismo no Brasil foram todas mulheres que ocupam espaços nos quais, normalmente, não se veem representadas, mas que elas podem e devem ocupar. É a jornalista que aparece no principal telejornal do país orgulhosa do seu black power; a atriz protagonista de seriado na Globo; a modelo que ganhou um concurso de beleza; a estudante que cursa Medicina em uma universidade federal.

Em busca do protagonismo
Em um país cuja uma das poucas interações com a realidade e cultura negra se dá através das lentes distorcidas dos meios de comunicação, estes hegemonicamente brancos, o resultado só pode ser a difusão de um discurso fortemente racista e naturalizado. Uma pesquisa sobre a presença dos negros nas agências de publicidade no Brasil mostrou que apenas 0,74% dos cargos de alta direção são ocupados por negros. Dos 404 executivos, apenas 3 são negros. Entre as mulheres é ainda pior: nenhuma negra ocupa um cargo de gestão estratégica. O resultado a gente vê sendo veiculado todos os dias: propagandas que, quando não simplesmente ignoram mulheres e homens negros, são institucionais ou cometem equívocos próprios de quem não faz a menor ideia do que é ser negro nesse país.

O jornalismo não é diferente. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), apenas 23% dos profissionais da área são negros. É uma das profissões com a menor proporção de negros no país. E se a pluralidade não começa dentro do processo não há como encontrá-la no produto final, certo? Não é à toa que, diariamente, vemos na imprensa as demandas específicas de mais da metade da população serem ignoradas, que o termo discriminação ou preconceito são mais usados em vez de racismo, que injúria racial está mais para bullying que para crime. Entre as fontes jornalísticas, ou seja, personagens e profissionais especializadas entrevistadas, como psicólogas, antropólogas, médicas, advogadas, arqueólogas ou engenheiras, por exemplo, também somos minoria, mesmo quando questões raciais estão em pauta.

Pensando nisso, hoje nasce o projeto Entreviste um Negro, inspirado na proposta do Entreviste uma Mulher, da Think Olga: um jornalismo mais plural e que busque um equilíbrio em seus pontos de vista. O banco de fontes é colaborativo e vai aproximar mulheres e homens negros, experts nas mais diversas áreas ou que têm experiências para contar, a jornalistas que procuram fontes especializadas, seja para pautas com recorte étnico-racial ou não.

O funcionamento é básico. Se você é jornalista, é só acessar o banco de fontes e procurar pelo profissional que melhor se encaixa na sua pauta e entrar em contato diretamente com ele. Se você quer ser fonte ou indicar uma, é só mandar para o e-mail entrevisteumnegro@gmail.com nome, uma mini biografia, as áreas de expertise (os assuntos que você pode abordar numa entrevista em formato de palavra-chave), contato (site, portfólio, telefone e/ou e-mail), e cidade onde a entrevista será realizada, caso seja feita pessoalmente. E faça essa rede crescer!

A mudança só virá quando deixarmos de ser objetos e nos tornarmos sujeitos, quando a nossa presença se tornar a norma. E não apenas pela autoestima da mulher negra, mas porque isso normaliza a sua humanidade para os outros. Queremos ser protagonistas das nossas próprias histórias. Deixem que a gente fale por si. Que sejamos nós por nós. Como clama a rapper-musa-preta Tássia Reis, ouça-me.

ACESSE O BANCO DE FONTES ENTREVISTE UM NEGROhttp://bit.ly/EntrevisteUmNegro


Helaine Martins é jornalista freelancer, formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com 11 anos de experiência em assessoria de imprensa e reportagem, e pós-graduanda em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais pela ECA/USP. Fez parte da primeira turma da Olga Mentoring – Escola de Líderes.

Arte: Jeff Ötisberg

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Lembro-me como se fosse hoje das duas listras aparecendo no exame de farmácia: positivo para gravidez. Também me lembro do dia em que dei a notícia na pequena agência de publicidade onde eu trabalhava: entre os tradicionais “parabéns”, “felicidades” e “que notícia boa”, recebi também um pedido de “vamos conversar” semanas depois. Com pouco mais de dois meses de gravidez eu já estava sendo preparada para sair.

Trabalhei até poucos dias antes do meu parto. E com um recém-nascido de apenas quinze dias, lá estava eu sentada frente ao computador entregando jobs na madrugada para uma antiga cliente que me acolheu depois da demissão na agência, contratando-me por um ano para dar continuidade a trabalhos já desenvolvidos. Foi dessa forma que passei meus primeiros meses como mãe: entre mamadas, cocôs, hormônios malucos, noites mal-dormidas e jobs sendo entregues às quatro da manhã. Ao final do contrato, não houve renovação. Lá estava eu novamente, pouco dinheiro, filho no colo, sem saber o que fazer. Precisava de uma renda e não estava em condição de escolher trabalho. A grana precisava entrar. Decidi empreender.

Minha história não é única, não é rara, não é exceção. Pelo contrário. Assim como eu, não são poucas as mulheres brasileiras que estão ou já estiveram nesse mesmo lugar. Algumas demitidas como eu, outras já decididas a não voltar, outras em situação pior: sendo assediadas moralmente para pedirem demissão e darem lugar a outros profissionais mais “disponíveis”.

Fernanda Favaro, 37 anos, jornalista e tradutora, conta uma das situações de assédio moral que viveu no ambiente de trabalho: “O assédio começou assim que eu, ainda com 22 anos e recém-formada, comuniquei a gravidez. Meu chefe fez cara feia e falou: ‘Tá, mas você sabe que não posso fazer nada por você’. Isto é, ele não ia me registrar e eu ficaria sem licença-maternidade. No meu retorno ele falava dia sim dia não, pra todo mundo ouvir: ‘Gente, vamos usar camisinha, hein? Né, Fernanda?'”.

Assim como ela, Tatiane Frasquetti, 30 anos, também relata uma experiência parecida quando contava 32 semanas de gestação: “Eu trabalhava como babá e um dia minha ex-patroa chegou em mim e disse ‘depois que passar a licença você não vai voltar, né?’ – fazendo uma afirmação. Por mais que aquela já fosse uma decisão minha eu senti que ela também preferia assim. Fizemos um acordo e eu não voltei mais”.

 

Quando o mercado de trabalho fecha as portas

O mercado de trabalho brasileiro é excludente em muitos sentidos. Poderia citar diversos mas vou me ater, especificamente, à questão de gênero: uma pesquisa anual do site de empregos Catho indica que os homens ganham, em média, 30% a mais que as mulheres. Também é fato que a licença paternidade de apenas cinco dias oferece aos homens muito mais oportunidades de manutenção de suas carreiras enquanto as mulheres necessitam de uma pausa maior em função, principalmente, da amamentação que é, inclusive, outra grande divergência do nosso mercado de trabalho: a Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que a amamentação exclusiva ocorra, pelo menos, até o sexto mês de vida do bebê. A licença maternidade obrigatória no Brasil é de apenas quatro meses.

Perla Cavalcante, 38 anos, viveu de perto isso. Era Gerente Regional de uma grande empresa de varejo e quando retornou de sua licença, deparou-se com um ambiente hostil e nada acolhedor: “Voltei a trabalhar carregando uma mala com bomba, esterilizador, etiquetas, transformador, adaptadores de tomadas, vidrinhos esterilizados, bolsa térmica etc. Saía de uma a três vezes das atividades para poder ordenhar. Não viajei para uma convenção de trabalho quando minha filha tinha seis meses e me recusei a trabalhar mais que a carga horária acordada – coisa que sempre fazia antes – porque eu tinha uma bebê que era minha prioridade. Era um comportamento um tanto quanto revolucionário para uma executiva de uma empresa mega competitiva. Isso durou nove meses e então me demitiram em maio deste ano”.

Liliane de Grammont, 34 anos, bailarina durante nove anos, também relata uma experiência semelhante: “Eu era bailarina do Teatro Municipal e tive que voltar a dançar com dois meses de pós-parto. Tinha que ficar a madrugada no teatro ensaiando sem hora para ir para casa, sendo que o leite do meu bebê era contado. Não tinha local e tempo suficiente para fazer a ordenha. Pedi demissão”.

Anjaína Tamara, 36 anos, é engenheira civil e comenta também sobre as dificuldades que as mulheres negras encontram no mercado de trabalho: “Minha negritude me coloca atrás da mulher branca sob a mesma condição. O fato de eu estar inserida num ambiente mais privilegiado incomoda as pessoas. Eu sinto esse incomodo. Mas aqui, por ser uma empresa de engenharia, o que pesa mais é eu ser mulher”.

No serviço público, a situação da mulher que se torna mãe é menos pior mas também está longe de ser a ideal. Priscila Francisco, 32 anos, é funcionária de um banco estatal e explica: “Como sou concursada pedi a Licença Interesse – uma licença não-remunerada mas que me garante o concurso, posso voltar ao trabalho quando eu quiser entretanto, volto no cargo mais baixo, como escriturária”. Mães que estudam também enfrentam falta de apoio, como conta Julia*, 30 anos, formada em estatística. Ela afirma ter perdido a bolsa de seu mestrado por conta da maternidade: “Cortaram creche, minha bolsa desapareceu e, aos poucos, tive que ir me desligando. Hoje não sei se consigo retomar o que parei. Não teria acontecido se não fosse mãe”.

 

A receita da exclusão

Existem outras situações que contribuem para que o retorno das mães puérperas ao mercado de trabalho não aconteça de uma forma saudável: com apenas quatro meses de vida os bebês raramente dormem uma noite inteira. Muitas mulheres não obtêm de seus companheiros o apoio necessário nos primeiros meses de vida de seus filhos e são obrigadas a apresentar em seus empregos a mesma produtividade de antes, ainda que estejam emocionalmente frágeis e fisicamente exaustas. É fato também que o déficit de creches públicas contribui para que as mulheres da classe média se vejam pressionadas a garantir seus empregos para a manutenção do padrão de vida e da nova despesa incorporada ao orçamento doméstico: a “escolinha”.

Em relação às mulheres pobres ou em situação de vulnerabilidade, a realidade é muito pior: dados da Rede Nossa São Paulo indicam que cerca de 45% das crianças que necessitavam de uma vaga em creches da Prefeitura de São Paulo no ano de 2014 não conseguiram ter acesso aos berçários nem às escolas de educação infantil. Muitas mães são obrigadas a retornar ao mercado levando seus filhos ou precisam contar com a solidariedade de amigos, vizinhos e familiares que, muitas vezes, revezam-se nos cuidados com as crianças. Suely Cavalcanti, 30 anos, é redatora publicitária e obteve apoio da família entretanto, não conseguiu continuar em seu emprego: “Quando meu filho fez quatro meses percebemos que nossa situação financeira estava cada dia pior e que só a renda do meu marido não seria suficiente. Com dor no coração comecei a procurar emprego e um mês depois fui contratada. Meu filho tinha cinco meses e ficou sob os cuidados da minha mãe até os sete meses, quando começou a ir para o berçário. Eu não rendia o que deveria nesse período. Fui demitida quando ele completou exatamente dez meses, após ser internado com pneumonia e eu ter ficado doze dias afastada para estar com ele”.

Muitas mulheres não conseguem nenhum tipo de apoio para retornar aos seus antigos postos de trabalho, seja porque foram abandonadas por seus companheiros, seja porque não possuem nenhuma rede de auxílio. No Brasil, sem apoio, sem renda e sem oportunidade, o círculo vicioso da exclusão completa mais uma volta. “A sociedade enxerga a mãe como uma cidadã de segunda classe, de menor valor. E aí incluo as próprias colegas mulheres que escolhem não ter filhos e adoram comparar maternidade com prisão, doença, martírio. Isso só coloca as mães ainda mais pra baixo. Só cria a famosa competição feminina, muito útil pro patriarcado. O empoderamento feminino passa por isso também. Porque a maternidade é uma potência, mas pra descobri-la é preciso estar com a autoestima minimamente em dia”, completa Fernanda Favaro.

Os poucos direitos conquistados ainda não foram suficientes para que pudéssemos romper com esse modelo de exclusão. Primeiro, porque esse sistema segue dominado por homens. Depois, porque são eles que detêm o poder econômico e, por isso, ditam as regras desse mercado. “Os donos [das empresas] são pais, mas não são sensíveis nem estiveram tão próximos quando suas esposas tiveram filhos. O pensamento foi ‘curti os dias que fiquei com eles, mas preciso tocar meu negócio senão, como vou garantir o futuro do meu filho?’, diz Mariana*, 27 anos, publicitária. Ela é mãe de um menino de sete meses.

 

Sobre o Empreendedorismo Materno

Não é só de más notícias que vive o mercado de trabalho. Tem algo acontecendo. Nas entranhas das redes sociais grupos de mães estão se organizando para falar sobre assuntos que vão além dos papos convencionais das rodas de pós-parto. Uma nova economia está surgindo. E as mulheres estão começando a entender que empoderamento tem a ver com direitos mas também tem a ver com dinheiro. Aí que entra aquilo que chamamos de Empreendedorismo Materno.

“Comecei a criar roupas infantis paralelamente ao trabalho que fazia em uma agência. Quando minha filha completou dois anos e meio consegui pedir demissão pois tinha me organizado para empreender e fazer algo de que me orgulhasse, algo que me permitisse ser mãe de forma mais ‘elástica’ e principalmente porque tinha que encontrar algo mais inspirador, relevante e que valesse a pena. Mais do que somente dar conta da maternidade, vale a gente repensar o que vale a pena, em termos de legado e de coerência”, diz Rebecca Barreto, 38 anos, designer e proprietária de uma marca de roupas.

O Empreendedorismo Materno (EM) é uma modalidade de empreendedorismo que engloba micro e pequenos negócios de mulheres que, em sua maioria, fizeram essa escolha profissional em decorrência da maternidade. Segundo dados da pesquisa Perfil Maternativa – realizada em agosto deste ano com mais de 100 mulheres que participam do Maternativa, grupo e site que administro em parceria com minha amiga e pedagoga Ana Laura Castro – 78% não eram empreendedoras antes da maternidade. Segundo essa mesma pesquisa, a principal motivação para empreender é ficar mais perto dos filhos (19%), seguida por ter mais tempo (16%), autonomia financeira (16%) e mais qualidade de vida (16%).

Uma pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor em matéria divulgada pela revista PEGN, também afirma que mulheres empreendedoras são mais felizes. No Perfil Maternativa, esse dado é reforçado: 45% das mães que responderam à pesquisa informaram ter decidido empreender para realizar um sonho pessoal. “Pedi demissão, mudei de cidade e de vida para ficar mais perto da minha filha. Montei meu próprio negócio e de lá pra cá se passaram quase seis anos e me sinto muito feliz com minhas escolhas”, afirma Paula Bertone, 38 anos, estilista. Carolina Iná, também 38 anos, concorda: “Eu pedi exoneração de um emprego público efetivo de 18 anos. Com o primeiro filho voltei ao trabalho mas fiquei muito insatisfeita com a situação. Com o segundo não voltei. Resolvi que queria fazer outra coisa, ajudar outras mães que enfrentam dificuldades como eu enfrentei e trabalhar em um ritmo que me permitisse acompanhar de perto o crescimento dos meus meninos. Além do trabalho com as mães, empreender foi um jeito que encontrei de divulgar produtos incríveis, que se encaixam perfeitamente na minha concepção de vida e de consumo, que só descobri depois de virar mãe”. Atualmente, Carolina atua como consultora de aleitamento, doula pós-parto e comercializa produtos naturais e terapêuticos.

Bons ventos

Esse movimento já tem gerado frutos. O grupo Maternativa, projeto do qual sou cocriadora, tem o propósito de fomentar o empreendedorismo materno por meio da disseminação de melhores práticas de negócios, compartilhamento de informações, debates de todo tipo, sempre aliando ao grupo os propósitos feministas que permeiam nossa história enquanto mulheres. Nosso site é uma plataforma exclusiva para empreendedorismo materno onde qualquer mãe empreendedora pode publicar e divulgar seus produtos e serviços gratuitamente. Buscamos oferecer às mães acesso, ferramentas e informação para que elas possam gerir seus negócios e prosperar financeiramente estando perto de seus filhos e fazendo aquilo que gostam. Fazemos isso porque acreditamos que uma sociedade que apoia e fomenta a economia familiar também está colaborando para que mais e mais crianças possam se desenvolver com presença e cuidado. E isso tem impacto social. Porque as crianças crescem.

E não somos as únicas fazendo isso. Recentemente, um grupo de mulheres criou o site Conecte Mães que tem como objetivo unir consumidoras e empreendedoras. O blog Mãe At Work também aborda a relação entre as mães e trabalho trazendo relatos e entrevistas. A comunidade Mãe Demitida publica histórias de mulheres que perderam seus empregos após a maternidade. Essa rede de mulheres está crescendo, se fortalecendo e já tem se mostrado como um grande espaço de geração de conteúdo e fluxo financeiro: em meio a um momento econômico de pessimismo, as mães não param de comprar nem de vender.

Unidas pelas crias e pelo desejo de verem seus empreendimentos darem certo, esse movimento cria vínculos: cada vez mais mulheres estão reunindo forças e conhecimento com amizade e sororidade, transformando o sistema por dentro, movimentando uma economia paralela sempre embasadas pela colaboração, pelo respeito e pelo desejo de uma transformação verdadeira. Queremos ser vistas, percebidas e ouvidas. No passado, lutamos para entrar no mercado de trabalho. Hoje, queremos nos manter nele. E queremos que isso ocorra com respeito, com dignidade e com a garantia do direito de estar perto de nossos filhos.


Camila Conti trabalha como ilustradora, designer gráfica e é cocriadora do Maternativa, grupo de debate e portal exclusivo para o empreendedorismo materno.

Arte: Elizabeth Builes

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O fato tem cerca de dez dias (aconteceu em 29.08): em debate após sessão do filme Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis protagonizaram cenas de machismo e misoginia. A questão de aparentarem estar bêbados (e carregando garrafas de cerveja) não justifica em nenhum grau o ocorrido, mas é mais um indicativo da extensão da falta de respeito.

O fato tem dez dias, dez anos, dez minutos. É recorrente no cotidiano de quase toda mulher que ousa ocupar espaços “originariamente” masculinos – e o protagonismo no espaço de fala é um deles. Anna Muylaert é a diretora do maior sucesso do cinema brasileiro este ano – seu longa foi o brasileiro escolhido para concorrer à indicação de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016 e, como a cineasta bem pontuou em uma entrevista ao Brasil Post esta semana, “Quando você chega ao ponto em que seu filme vale dinheiro, você chega na zona masculina”. Talvez por isso, o episódio que sofreu tenha tomado grandes proporções – tanto na ação (escancarada) de Lírio e Cláudio como na repercussão, a favor da diretora, das mídias convencionais e redes sociais.

Mas nem sempre é assim. Em entrevista ao Think Olga, a publicitária e cineasta Maristela Bizarro conta que a agressão cometida por homens em relação a mulheres que exercem protagonismo da fala é, geralmente, mais camuflada e travestida de artifícios. “No caso da Anna Muylaert, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes que normalmente são feitas de formas mais sutis embora sejam tão violentas quanto”, diz.

Entre 2009 e  2012, Maristela coordenou o Cinemulher, um cineclube itinerante criado por ela e Rita Quadros para dar voz a cineastas tanto através das obras exibidas como pelo debate logo após as sessões. Deu sequência ao mesmo tipo de evento quando a WIFT (Women in Film and Television), associação mundial que promove o papel da mulher no cinema e na TV, chegou ao Brasil, em 2011. Desde então, produziu e mediou sessões seguidas de debate de filmes de diretoras consagradas, como Tata Amaral e Maria de Medeiros, e de obras menos conhecidas, como as da mostra “A Tela e as Negras”, no CEU Caminho do Mar.

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Ano passado, seu documentário Imagem Mulher foi selecionado pelo Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e você foi convidada a participar de uma mesa de discussão sobre a mulher na mídia, que é o tema do seu documentário. Como foi?

Foi como sempre costuma acontecer em eventos mistos: assim que eu e as outras mulheres da mesa fizemos nossas falas e palavra foi aberta ao público, foi um homem quem primeiro pegou o microfone. Ele teceu os comentários sobre o filme, fez críticas pesadas e uma das questões que ele levantou, e acho que é bem emblemática, foi “por que no meu documentário só tinha fala de mulheres e não tinha nenhum especialista?”. Eu disse pra ele “Olha, meu filme fala de mulheres justamente porque o espaço de fala é um espaço que é comumente exercitado pelos homens vide que neste auditório lotado e cheio de mulheres foi justamente um homem quem primeiro pegou o microfone para falar’. E, claro, isso gerou risos e comentários no auditório. Mas minhas colocações foram respeitosas, o objetivo ali não era constrangê-lo e sim situá-lo. Mas o mais interessante desse fato é que a partir da segunda mesa, quando o microfone abria para o público,  as mulheres corriam para pegá-lo. Pode parecer pouco, mas é muito significativo, falar não é pouca coisa.

 

Como assim?

As mulheres têm muitas coisas interessantes para dizer, mas ainda existe um constrangimento social e também uma culpa ancestral que nos leva a acreditar que, se formos falar, precisamos dizer algo genial. Da mulher é sempre cobrada a perfeição e por isso ela pensa mil vezes antes de falar. E nesse meio tempo, você pode ter certeza, um homem vai pegar o microfone. É importante educar os homens a respeitar o tempo de fala de uma mulher, mas não estou dizendo que isso seja função das mulheres.

 

Mas você acredita que essa seja a função da mediação, em casos como o da Anna Muylaert, por exemplo.

Sim. Em uma das exibições da mostra “A Tela e as Negras”, da WIFT, no CEU Caminho do Mar, houve uma mesa cuja discussão central era o protagonismo das mulheres como cineastas. Um homem começou a fazer intervenções sobre temas do filme que não cabiam naquele momento porque o objetivo dele era tirar o foco do protagonismo das mulheres que estavam ali como convidadas. Ele estava pouco aberto a dialogar e foi preciso uma mediação firme para que o tema da mesa não se perdesse. A mediação tem que perceber essas estratégias, tem que ser sensível à questão de gênero para conseguir identificá-las. No caso da Anna Muylaert acho que a mediação não deu conta. E olha que nem houve estratégia ali, eles foram bastante descarados, expuseram atitudes misóginas que normalmente são feitas de formas mais sutis apesar de tão violentas quanto.

 

Que estratégias são essas?

Há diversas formas do homem atrapalhar o discurso da mulher: ficar com conversa paralela, não avançar nas discussões, ficar voltando sempre no mesmo ponto para a conversa não evoluir, fazer cara de tédio e, claro, tomar o microfone e interromper sua fala. Alguns desses atos têm uma aparência sutil mas, na verdade, também são muito agressivos. É uma forma de violência muito camuflada, que pode estar travestida de liberdade de expressão ou até de afeto. O caso da Anna Muylaert, por exemplo: ele interrompeu, silenciou, fez comentários misóginos, mas é amigo, foi lá prestigiar. A fala do Claudio Assis, depois do episódio, é quase de vítima.

 

O primeiro cineclube que você criou, o Umas e Outras, tinha temática lésbica e era aberto apenas para mulheres. É o embrião do Cinemulher e, ainda assim, vocês resolveram abrir para o público masculino.

Sim, no Umas e Outras comecei a perceber que algumas questões dialogavam também com mulheres heterossexuais e comecei a ficar curiosa e interessada numa discussão sobre mulher em geral. Quando criamos o Cinemulher o público era misto porque acreditávamos que a presença masculina poderia somar. E de fato havia homens abertos a isso. Mas em três anos foram raras às vezes que, no debate, a primeira colocação partiu de uma mulher. Os homens geralmente estavam em menor número na plateia, mas eram eles que pediam primeiro o microfone. O que demonstra que os homens estão muito à vontade, mesmo quando são minoria, para exercer o protagonismo por meio da fala. É um lugar muito confortável para eles e uma prática que chega a ser natural. Por isso é tão importante a sensibilização para questão de gênero. É possível desconstruir isso. É um processo político, de desconstrução.

 

Atualmente, Maristela dá aula de redação publicitária na Universidade Fiam-Faam, onde desenvolve discussões sobre temática de gênero e segue como produtora afiliada da WIFT Brasil. Você pode assistir ao documentário Imagem Mulher, de Maristela Bizarro, no canal da produtora Cavalo Marinho, no YouTube.

 


Isabela Mena é jornalista e escreve sobre economia criativa e movimento disruptivo no Projeto Draft. Seu email é isabelamena@gmail.com

Arte: Analisa Aza

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Ser mulher neste mundo pode ser uma experiência muito solitária. Em todos os lugares, deparamos com situações que alimentam, lá dentro, os sentimentos de inadequação e impotência. Sabe as “cantadas” que você recebe de estranhos, ou aqueles “recados” inconvenientes sobre a sua aparência? Por mais que essas posturas incomodem, é relativamente fácil de acreditar que elas são naturais e que não precisa ser diferente. A julgar pela opinião da maioria, parece que o problema é só seu ‒ quando não é você mesma.

Às vezes, porém, vozes igualmente aborrecidas lhe surpreendem e insinuam a causa e o efeito de tanto isolamento. Desde muito tempo atrás, milhares de mulheres enfrentam as mesmas dificuldades sem ter noção do quanto suas vivências são semelhantes ‒ em muito, porque somos desencorajadas de externar o que pensamos e sentimos. O que aconteceria se essa multidão silenciosa descobrisse a dimensão coletiva de suas angústias? Uma vez arranjada, poderia ela formar uma frente consistente de mudança?

Essas são as perguntas fundadoras de vários projetos colaborativos que estão alcançando, em tempo recorde, enorme adesão no meio online. Idealizados por mulheres na faixa dos 20 e 30 anos, com perfis pessoais e profissionais diversos, eles apostam no potencial da rede para aplacar problemas cotidianos, mas de grande relevância política. O caráter voluntário e inclusivo ‒ nenhum deles possui fins lucrativos ou restrições de público ‒ deriva de um denominador comum importante: o apelo afetivo. Criadoras e apoiadoras abraçam as iniciativas pelo desejo de sintonizar seus valores com sua ação social, além da vontade de se conectar a outras mulheres identificadas com uma causa.

Conversamos com representantes de seis movimentos de empoderamento e mobilização feminina para saber o que anda engajando tantas usuárias na web em 2015. Confira abaixo os temas e os links para acompanhar o trabalho de cada projeto.

 

Mulheres no espelho: fortalecendo a autoimagem

Talvez poucas crises femininas simbolizem melhor os efeitos da violência de gênero do que a relação conflituosa com o próprio corpo. Praticamente o tempo inteiro, a luta contra o machismo e a misoginia é travada nessa arena privada ‒ e como é difícil resisti-los. Há sempre um ou dez quilos a perder. A pele tem manchas ‒ ou não tem o tom “certo”. O cabelo não esvoaça ou não brilha. Os seios são muito pequenos e o bumbum é muito chato. Conforme as meninas crescem, a existência em um corpo confortável parece se tornar impossível: inicia-se uma guerra contra si mesma para aniquilar a mulher real em função de um modelo inatingível que a mídia bombardeia contra todas. Quando se admite a derrota anunciada, corpo e alma estão em pedaços e nem sempre há apoio para reconstituí-los.

A publicitária baiana Teresa Rocha conhece essa narrativa. Negra e crespa, ela via, na infância, uma semelhança entre todas as figuras célebres das propagandas: o físico branco, magro e liso, bastante diferente do seu. Ter chances de sucesso passou a implicar um tempo diário para o alisamento dos cabelos. “Foi na adolescência que percebi o quanto ter autoestima impacta de forma positiva em todos os campos da vida, e que receber críticas e cobranças sobre a aparência é cruel e injusto. Desde então, tenho vontade de fazer algo a respeito”, conta. Quando encontrou ícones femininos que assumiam os cachos, motivou-se a libertar os seus ‒ e hoje, pelo Bonita Também, quer divulgar mensagens de aceitação e amor próprio a muitas outras mulheres.

“O Bonita Também quer reforçar a importância de se sentir bem e abraçar a diversidade. O que importa é ser feliz, mas se isso for fora do padrão social que tanto nos exclui, melhor ainda, porque vai gerar referência para as meninas que estão crescendo. E a gente bem sabe que mulher precisa disso”, explica Teresa. Ela gerencia um Tumblr colaborativo com histórias de mulheres que também aprenderam a amar seus corpos como são e, na página da iniciativa no Facebook, posta mensagens inspiradoras e cards ilustrando diversos tipos de beleza. “O projeto não se faz sozinho, entende?”, diz ela. “Cada pessoa que interage com um clique ajuda a fazê-lo!”. É esse pensamento que a relaxa em relação às estatísticas da rede social. Criada em dezembro de 2014, a página do Bonita Também chegou às mil curtidas orgânicas em junho deste ano. Por trás de cada uma, Teresa enxerga uma mulher celebrando a autoestima feminina e buscando o incentivo a se mostrar como é. Ela já recebe mensagens de seguidoras falando do impacto positivo da página sobre elas. “O crescimento é gradativo e devagar, mas muito válido”, afirma.

Os depoimentos do Tumblr, que revelam o peso como uma preocupação muito forte, são enviados por e-mail e ficam disponíveis para receber comentários de outras visitantes. Focada em corrigir os vácuos de representatividade, a publicitária também está atenta ao risco de endossar novas padronizações e tenta equilibrar na comunicação do projeto múltiplas variações de raça, biotipo, cabelo e outras características. A crença no potencial transformador da imagem embasa os sonhos de desenvolvimento da iniciativa. “Eu desejo que todo o material que está sendo recolhido possa tomar formato de um documentário um dia e fazer a diferença para mulheres de idades variadas, principalmente para quem está se tornando mulher agora”, conta Teresa.

 

Mulheres em trânsito: a luta pelo espaço público

A participação efetiva das mulheres na vida pública é uma das reivindicações mais antigas do feminismo. Contudo, em pleno século 21, a pauta se mantém atual pelos mecanismos que constrangem a ocupação feminina dessa esfera. Comecemos pelos obstáculos à apropriação do espaço. Laura Krebs, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que as teorias urbanistas de viés mais sociológico, com inclinação marxista, pensam a cidade como um campo de reprodução dos valores e relações da sociedade que a habita. “Assim, é inevitável entender a urbe como um ambiente machista, em que a mulher é considerada mais frágil e onde uma série de abusos ‒ verbais e/ou físicos ‒ e opressões de gênero se repetem”, afirma.

Laura é uma das idealizadoras do coletivo se essa rua fosse nossa, criado em março para denunciar a violência contra a mulher no espaço urbano e mapear o sentimento delas nas ruas. O movimento começou como uma intervenção gráfica planejada para o Dia Internacional da Mulher. Em parceria com uma colega de curso, Laura pretendia coletar relatos sobre o assunto e espalhá-los por Porto Alegre, mas logo surgiu a ideia de produzir algum material audiovisual sobre o tema. “Fomos atrás de amigas capacitadas e acabamos formando uma rede incrível de mais de 80 gurias, transformando uma ação pontual em vontade de ter um trabalho contínuo de questionamento sobre um problema tão presente”, conta.

Os depoimentos reunidos em áudio e vídeo dão conta de um transtorno que interfere na escolha das roupas para sair e até no simples ato de andar a pé. As integrantes do coletivo se reúnem quinzenalmente e sentem necessidade de criar um grupo de estudos sobre feminismo. Para o segundo semestre de 2015, elas preveem uma nova série de vídeos e a expansão de suas ações virtuais. No Facebook, o se essa rua fosse nossa disponibiliza o endereço de um formulário anônimo para o compartilhamento de casos de agressão machista em locais públicos. Mais de 26 mil pessoas acompanham a página do projeto, que acumulou mil curtidas no dia em que foi criada.

A página se popularizou ao divulgar o relato, narrado pela própria vítima, de um estupro ocorrido por volta do meio dia na região central de Porto Alegre. Segundo os dados do Facebook, a postagem alcançou mais de um milhão de usuários da rede. A repercussão da história levou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Vereadores a vistoriar toda a Rede de Proteção às Mulheres da capital gaúcha e apresentar um relatório com as constatações oficiais em maio. Para Laura, esse feito é um exemplo de empoderamento feminino e comunitário, que desafia a ideia das instituições públicas como excessivamente burocráticas e distantes da população. “Tínhamos voz e geramos resultados a partir de uma indignação coletiva e quase sempre banalizada”, diz ela.

A força da ação conjunta e cidadã é também o que inspira a jornalista Babi Souza, outra gaúcha. Afetada pelas leituras sobre colaborativismo e empreendedorismo social, foi cruzando pelo centro de Porto Alegre à noite que ela refletiu sobre o medo de circular sozinha ‒ e concebeu o Vamos juntas?, um fenômeno instantâneo no Facebook desde o dia 30 de julho. Reconhecendo a aflição peculiar das mulheres ao transitar no dia a dia, a iniciativa quer trazer mais segurança incentivando a parceria casual ou regular entre elas. Diante de situações de risco, o movimento convida cada uma a se unir com a próxima, intimidando potenciais agressores e, quem sabe, fazendo novas amizades.

A ideia de Babi foi ilustrada pela designer Vika Schmitz e postada no perfil pessoal da jornalista. Menos de duas horas depois, pessoas fora do seu círculo de amizade estavam compartilhando a imagem e buscando a página do movimento, que foi imediatamente criada. Foram cinco mil curtidas em 24 horas, e até o fechamento desta matéria, mais de 135 mil seguidores reunidos. Durante o mês de agosto, a equipe somou a social media Stephanie Evaldt começou a estudar formas de aproximar cada vez mais suas apoiadoras. Foram criados grupos por região do Brasil no Facebook e iniciado o projeto de um aplicativo para que elas possam se encontrar nas ruas.

Animada com o retorno das adeptas, Babi espera que as mais novas também sejam impactadas pela ideia do movimento. Um caso que a emociona é o de uma jovem que imprimiu cards da página e colou nas dependências da escola onde estuda. Quando encontrou um deles rasgado no lixo, fixou-o novamente e enviou-lhe a foto do cartaz. “Acho que se as meninas da idade dela entrarem em contato com a sororidade e com a ideia de amar ao próximo (aí independentemente do sexo), o futuro será muito melhor”, afirma. A jornalista acredita que as mulheres adultas não costumam “ir juntas” por medo e, principalmente, por serem ensinadas desde muito cedo a competir entre si e não confiar umas nas outras.

Babi anda com a agenda cheia divulgando o Vamos juntas? na mídia, mas concorda que em algumas entrevistas, a proposta parece se diluir em um problema mais amplo de segurança pública. Ela faz questão de ressaltar que o movimento pretende, sobretudo, estimular a associação entre mulheres. “Além disso, sinto que estamos tendo um papel importante no sentido de mostrar aos homens como é ser mulher, como não é fácil ser assediada e se sentir insegura”, pontua. As muitas mensagens que a equipe recebe deles oscilam entre gratidão e estranhamento, mostrando que boa parte da população masculina ainda não compreende as nuances de violência criadas pelo gênero. Por ora, parece mesmo mais proveitoso investir na comunicação com elas ‒ e crer que a ação suscitada será eloquente o bastante.

 

Mulheres em debate: pluralizando o diálogo

Por outro lado, a limitação espacial não se impõe somente na via pública. As mulheres também enfrentam barreiras para participar e protagonizar eventos profissionais e mesas de debate. Ainda hoje, por mais qualificadas que sejam, elas são completamente excluídas de alguns encontros. Quando questionados a respeito, os organizadores tendem a justificar a escolha dos convidados pela competência, experiência e destaque na área em que atuam. Mas será que existem tão poucas experts à disposição? Em uma sociedade desigual como a nossa, a quem serve o critério meritocrático ‒ e até que ponto ele não contribui para a permanência desse cenário?

“Quem já é privilegiado entra no ciclo vicioso da manutenção de seus privilégios sociais. Por ter mais oportunidades de praticar algo, fará aquilo melhor e mais oportunidades aparecerão”, afirma a designer e comunicadora Gabi Juns, cofundadora da Escola de Ativismo. A marginalização feminina nas rodas de conversa é um fato familiar a ela e às amigas Daniela Silva, Daniela Teixeira, Manoela Miklos e Fer Shira. Todas envolvidas em projetos de mobilização social ou ativismo online, elas perceberam que os colegas homens geralmente serviam como portavozes dos trabalhos desenvolvidos coletivamente. Talvez por isso a iniciativa Stop Man Panels, lançada em maio de 2014 à época da Convenção sobre Armas Convencionais da Organização das Nações Unidas (ONU), tenha impactado tanto o grupo: no compromisso, 79 especialistas sobre o tema da reunião se recusavam a participar de paineis que não incluíssem mulheres. “A ação dos homens teve sucesso no evento. Então pensamos, ‘por que não para todos os eventos?'”, conta Gabi.

Dessa inquietação, com o apoio conceitual e criativo de muitas outras pessoas, surgiu o compromisso #nãotemconversa. O princípio de base do movimento é a conscientização dos homens ‒ em especial os cisgêneros, heterossexuais, de classes mais altas e sem deficiências aparentes ‒ do lugar favorecido que ocupam na hierarquia social. A partir disso, eles são interpelados a promover a integração de vozes femininas aos debates por meio de um pacto solidário. “Achamos que eles também têm um papel na desconstrução do machismo. Abrir mão de privilégios de fala é algo que podem fazer”, diz Gabi. Ela e as demais criadoras do #nãotemconversa acreditam que a visão de mundo de uma mulher é indissociável de sua vivência, e, por isso, elas têm potencial para enriquecer as discussões. “Meu gênero é parte da minha construção como indivíduo, e essa construção me dá uma perspectiva única”, defende Gabi.

Já no lançamento, em 24 de junho, o compromisso foi assinado por mais de 300 pessoas e a inbox de Gabi no Facebook se encheu de mensagens de homens curiosos sobre os próximos passos. Um dos apoiadores chegou a negar participação em um programa de TV ‒ algo que as criadoras só souberam quando a apresentadora reclamou na página da campanha na rede social. O retorno surpreendeu tanto que as idealizadoras do compromisso ainda não conseguiram sistematizar e responder todas as dúvidas recebidas. Apesar de colaborarem entre si, elas não se reconhecem como equipe. “Entendemos que tivemos uma ideia, colocamos para rodar e não seremos capazes, sozinhas, de dar a continuidade necessária”, explica Gabi. Devido a isso, elas criaram o #temconversa, um grupo exclusivamente feminino no Facebook dedicado à construção coletiva do projeto e à discussão de assuntos afins. O espaço é aberto a quem quiser participar.

Contando cerca de 10 mil curtidas na rede social, o #nãotemconversa pretende agora apurar os desdobramentos do compromisso assumido na vida dos homens e na organização dos eventos. As criadoras também comemoram a replicação da campanha no combate a outras formas de opressão. No dia seguinte à criação da página no Facebook, surgiu o compromisso-irmão #nemtentaargumentar, ao qual mais de 3,5 mil pessoas já aderiram. A iniciativa partiu do Coletivo Enegrecer, ligado à militância estudantil, e convida os usuários a demandar representatividade negra, feminina e masculina, nas rodas de debate. “Um olhar negro nos apresenta a perspectiva daqueles que vêm de baixo e qualifica as elaborações a serem desenvolvidas”, afirma Moara Correa, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) e uma das idealizadoras do compromisso. Ela cuida do projeto em parceria com Cledisson Júnior, que já foi diretor de combate ao racismo da UNE e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).

O #nemtentaargumentar está em contato com as criadoras do #nãotemconversa para compartilhar tecnologia e desenvolver o próprio site para a coleta de assinaturas. Enquanto isso, no Facebook, a campanha busca denunciar o racismo institucionalizado e chamar a atenção de organizações e entidades para a ausência de palestrantes negros em seus eventos. Apesar das inúmeras reprimendas à iniciativa, Moara crê no aspecto político e construtivo do constrangimento e se diz pouco impressionada. “Há anos lidamos com a reação de conservadores que militam contra as cotas raciais no ensino superior e nos concursos públicos. Estamos vacinados”, afirma. A intenção da dupla idealizadora é ampliar o alcance do compromisso e seguir revelando a branquitude como um vetor de desigualdade social no Brasil ‒ inclusive nas intersecções entre gênero e raça. “Nosso grande desafio ‒ e aí falo enquanto mulher negra ‒ é de convencer as nossas companheiras brancas de que construir a solidariedade entre as mulheres significa, também, ceder espaços e desconstruir privilégios”, explica Moara.

 

Mulheres em gestação: a maternidade que existe

Quando a empreendedora Thais Cimino se olhou no espelho no dia seguinte ao parto de Vida, hoje com um ano e meio, assustou-se com o tamanho de seu peito. Tendo sofrido com a intensa sensibilidade nos seios durante a gravidez, ela não imaginava que sentiria tanta dor para amamentar a filha, apesar de toda a vontade e preparação. Em tese, estava tudo em ordem: a pega, a alimentação, o sono, o bebê mamava à livre demanda… Mas o desconforto piorava e Thais se sentia cada vez mais insegura. Foram muitas visitas à emergência da maternidade e à enfermeira obstetra até que ela fosse diagnosticada com um abcesso mamário, removido em uma cirurgia com anestesia geral e pós-operatório de cerca de um mês. Finalmente, Thais entendeu que não estava “fraquejando” no trabalho materno ‒ mas ainda assim, chorou por meses a fio por causa desse período.

Ela não compreendia como um processo natural como a amamentação podia ser tão desgastante, nem como poderia ser necessário um esforço sobre-humano para criar vínculo afetivo com a filha. No meio de toda a situação, estava o companheiro, com quem Thais vive na França. Atordoado com a nova condição de pai e inseguro à sua maneira, ele apoiou a parceira como pode ‒ o que para ela, infelizmente, não foi suficiente. Quando pesquisou sobre depressão pós-parto, Thais se deu conta de que muitas outras mulheres também embarcam nessa jornada sem conhecer o “lado B” da maternidade, e de que o silêncio sobre essas provações tornava o percurso ainda mais penoso. Entretanto, como admitir dor, medo ou tristeza no que deveria ser um momento de absoluta felicidade? Como arcar com o julgamento alheio ‒ e administrar a culpa por não ser a mãe perfeita?

Antes de qualquer coisa, é necessário verbalizar o que a pressão externa encerra dentro de cada uma. “A maternidade não é um conto de fadas! Ela pode ser linda, transformadora, mas para isso, as mulheres e os bebês precisam que todo o ambiente ampare esta relação e que haja dispositivos sociais e públicos que deem conta desta questão”, afirma Thais. A partir disso, ela fundou o projeto Temos que falar sobre isso, uma plataforma de desabafos anônimos em que as mães podem compartilhar suas angústias e proporcionar conforto e acolhimento a outras famílias. O objetivo é fortalecer a ideia de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um caminho para humanizar a vida materna e resgatar dentro de si a confiança na própria capacidade. Coordenado por Thais e pela terapeuta ocupacional Bruna Taño, o site também é atualizado com textos sobre temas variados, como sofrimento psicológico, dificuldades no período gravídico-puerperal e violência obstétrica.

Além da solidão e da preocupação das mães em relação a sentimentos ambivalentes, como a ausência de um amor imediato pelos filhos, os relatos enviados frequentemente abordam a violência institucional por parte de órgãos e profissionais de saúde e a dificuldade de adaptação do casal à nova vida. As postagens relacionadas à implicação paterna no cuidado também têm repercutido. Criado em maio, o projeto ainda está “vivendo o puerpério”, mas superou as expectativas de Thais ultrapassando as 250 mil visualizações no blog e os 11 mil seguidores no Facebook. O espaço de desabafos cresceu a tal ponto que profissionais de diversos ramos passaram a procurá-la para colaborar com conhecimento especializado. Hoje, catorze deles contribuem regularmente com material informativo e o projeto mantém uma parceria com o grupo carioca Do Luto à Luta, de apoio à perda gestacional. Com a colaboração do Ministério da Saúde, o Temos que falar sobre isso também disponibiliza a listagem dos Centros de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (CAPS/SUS) e fornece assistência sobre centros, grupos ou profissionais de apoio próximos às visitantes do site.

Embora a internet facilite o anonimato e a participação de mães “recém nascidas” ou com dificuldades para sair de casa, Thais reconhece a importância do contato presencial e quer alcançar as mulheres que não estão na web. Cheia de sonhos e dedicando-se exclusivamente ao projeto, ela se mostra determinada a ampliá-lo, online e offline, e busca parcerias que possam apoiar arranjos mais complexos. “Almejamos promover uma mudança de atitude e a implementação de leis que protejam à mulher de todos os tipos de violência (obstétrica, física, psicológica e institucional) durante a gravidez, o parto e o puerpério”, afirma. Quem deseja integrar a equipe de colaboradores do Temos que falar sobre isso ou ajudar no gerenciamento da iniciativa pode contatá-la pelo e-mail do site.


Stefanie Cirne é feminista de todas as horas e jornalista de ocasião formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Arte: Elizabeth Catlett

 

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Fuck YOu Marion Peck

 

A modelo, atriz e inspiração para todas nós por sua autenticidade no mundo quadrado em que vivemos, Cara Delevingne foi entrevistada por um programa matinal da cidade de Sacramento, na Califórnia. Tudo normal, exceto pelo fato dessa entrevista ter se tornado um monumento à vergonha alheia de tão desastrosa que foi. Estabeleceu-se um ambiente passivo-agressivo que, em seguida, tornou-se apenas agressivo. Quando o link de Cara é cortado, os três apresentadores começam a falar mal do comportamento da moça. Mas… o que eles esperavam?

Cara estava disposta e disponível para falar sobre o seu trabalho. Em suas redes sociais e alguns trabalhos de moda, costuma demonstrar um lado divertido e brincalhão. Como modelo, isso é lucrativo por ser diferente e ousado, e não há dúvidas de que Cara fatura com a construção dessa imagem. Se é autêntica ou inventada, nunca saberemos, mas no momento da entrevista ela não estava ali para entreter ninguém com seu jeito carismático ou agradar a audiência com brincadeiras e sorrisos. Ela é uma atriz que foi convidada para falar sobre um filme que fez. Lá, encontra apresentadores que erram seu nome e insultam sua inteligência ao perguntar se ela ao menos leu o livro que inspirou o longa. Ao se deparar com uma entrevista morna e pouco elaborada, Cara deu respostas mornas e pouco elaboradas, porém foi ela quem levou a fama de rude por não demonstrar uma animação nítida de estar ali. O terceiro apresentador chega a dizer que, ganhando o que ganha, ela tinha o dever de sorrir.

Não é de hoje, porém, que sorrisos e afetações são o mínimo esperado das mulheres, especialmente na mídia. As negras, então, sofrem ainda mais com essa pressão pois qualquer tom menos agradável e elas já caem rapidamente no estereótipo da “negra barraqueira”. Se fala com mais autoridade ou aumenta o tom de voz, “perdeu a razão”. Controlar a postura da mulher é uma sutil, porém eficaz forma de silenciamento que limita a liberdade de expressão, tolhendo emoções e adequando-as aos rígidos padrões do que é considerado feminino e masculino socialmente. Um homem que é assertivo e expressa suas opiniões com dureza sem pedir desculpas por seu comportamento, é másculo, viril, poderoso. A mulher que faz o mesmo é grosseira, machona, bruta ou descontrolada.

Dois pesos, duas medidas
O curioso é que, para sobreviver profissionalmente no mundo corporativo, a mulher ” tem que ter culhão” e “botar o pau na mesa”, expressões machistas que são sinônimos de assertividade, coragem, opinião forte, ambição, garra e outras características geralmente associadas ao sexo masculino. Elas são valorizadas no mundo do trabalho que, é óbvio, ainda não conseguiu se desvencilhar de suas raízes patriarcais. Apesar disso, toda a masculinização necessária para que uma mulher sobreviva e tenha chances de subir degraus na carreira passa a ser desvalorizada no momento em que ela os abraça. Ellen Pao, executiva do Vale do Silício cujo processo contra o machismo corporativo a alçou a manchetes no mundo inteiro, estava à frente do reddit como CEO quando a rede social passou por uma limpeza que excluiu subfóruns misóginos e racistas.

Ellen, que não se deixou intimidar ao dar esse passo contra um público cada vez mais conhecido por seu ódio ao sexo feminino, os nerds, passou então a ser retratada como uma ditadora em charges à frente de paradas militares, em cima de tanques de guerra e com suásticas começaram a pipocar pela internet. Ou seja, uma instituição masculina em essência, o exército, cujas características intrínsecas  são disciplina, rigidez, hierarquia e uso da força, torna-se absolutamente condenável quando associada à ousadia de uma mulher. Ataques sem misericórdia e sem pedidos desculpas em seguida são falhas graves na personalidade de uma mulher. Após outras crises no comando da rede social, Pao foi substituída sob diversas acusações que, semanas depois, mostraram-se falsas.

Estímulos opostos fazem parte do crescimento da maioria das mulheres – e descobrir quem realmente somos no espectro das possibilidades é uma jornada para a vida inteira. Mas, no que se refere ao comportamento, o que se espera de uma mulher, quase sempre, são simpatia e cordialidade. Do contrário, são vistas como rabugentas, metidas ou de TPM. Em um mundo de homens, a presença da mulher tem um quê de favor que jamais poderá ser pago e uma subserviência que é o mínimo esperado. A aceitação parece depender da adequação a um limitado espaço determinado e a um padrão de comportamento dócil, e qualquer passo fora da linha são lidos como sinais de rebeldia e ingratidão.

Talvez seja por isso que as mulheres tenham uma tendência muito maior a pedir desculpas do que os homens.  Mesmo quando estão certas ou em seu direito, é comum que peçam desculpas quase como um reflexo ou adotam uma postura passiva e cordial diante de acontecimentos em que um posicionamento mais firme seria adequado. A Pantene lançou uma campanha endereçada justamente a esse comportamento chamada “Not Sorry” (algo como “Sem desculpas”, em tradução livre), na qual são exibidos diversos exemplos de momentos em que as mulheres se desculpam sem necessidade.

  Um estudo americano realizado em 2010 aponta que o excesso de desculpas das mulheres se dá pelo fato de que os homens têm uma tolerância maior à agressividade do que elas – ou seja, por serem mais sensíveis, elas pensam em como a própria dureza pode afetar o próximo e se desculpam com antecedência para amenizar o incômodo. Mas até que ponto a exposição dos homens a modelos de comportamento mais agressivos e um incentivo muito maior às emoções duras, socialmente masculinizadas, influenciam nesse resultado?

Afinal, desde a infância as mulheres são apresentadas à candura como um ideal a ser alcançado. Brigar, bater, apanhar e continuar brincando não são coisas de menina, mas garotos fazem isso o tempo todo. É mais difícil criar uma carapaça quando um pesado escudo social nos é imposto para nos proteger desde cedo. Princesas fazem parte do imaginário infantil das meninas pois reúnem todas as qualidades tidas como positivas em uma mulher: são bonitas, educadas, falam baixo e cumprem seu papel social com graça e carisma. Você não imagina uma princesa falando firme com um gerente pois o seu pedido veio errado – ela provavelmente diria, sorrindo, que “deve ter havido algum engano” ou, pior ainda, mandaria o príncipe ou um criado ir resolver. Para um homem, exigir seus direitos com firmeza em uma situação dessas é algo normal, sem qualquer necessidade de colocar açúcar para não causar desconforto. Já a mulher que vive essa situação ou abraça a possibilidade de ser vista como barraqueira ou abdica de suas emoções para vestir o cabresto emocional que nos mantém na linha.

Esse comportamento possui consequências que mantêm as mulheres no atraso. A sensação de inadequação as acompanha até no mercado de trabalho. Além de estarem em menor número e ganhando salários menores que os homens, ou talvez por isso mesmo, elas sentem uma angústia muito maior na hora de lutar por cargos e salário. A professora de economia Linda Babcook, da Carnegie Mellon University, publicou em 2003 o livro Women Don’t Ask: Negotiation and the Gender Divide, no qual investigou a atitude das mulheres em relação a salários e promoções. Ela descobriu que mulheres sentem mais ansiedade na hora de pedir por promoções e mais pagamento por seu trabalho. Em seu estudo, ela descobriu que 57% dos homens que se formaram na escola de negócios da universidade negociaram seus salários iniciais, mas apenas 7% das mulheres fizeram o mesmo. Em um artigo de 2005, ela e outros dois co-autores descobriram também que mulheres que tentaram negociar com chefes homens por maiores compensações foram mais rejeitadas que homens na mesma posição – sendo que quando homens e mulheres negociavam com chefes do sexo feminino, o gênero do empregado não interferiu na reação ao pedido de aumento.

Ellen Pao, quando ainda estava no comando do reddit, tomou providências para tentar resolver esse problema. Ela instituiu um salário fixo para novos contratados. “Os homens negociam mais duramente que as mulheres e às vezes as mulheres são penalizadas por negociar”, disse Pao ao Wall Street Journal.  Sendo assim, ela concluiu que, já que os homens se dão melhor na hora de negociar salários ao entrar nas empresas, as mulheres não devem ser punidas recebendo menos simplesmente por não ter a mesma habilidade, embora sejam contratadas para executar o mesmo trabalho. A ideia possui opositores, mas é um sinal de que essa discussão está ganhando adeptos dentro das grandes empresas.

 

O perigo de ser gentil
É preciso desestigmatizar a assertividade e o desagrado feminino, inclusive, pela vulnerabilidade que eles geram também fora do âmbito profissional. Dizer “não” a um homem é uma tarefa dificílima para a mulher. Não apenas por serem programadas desde a infância a agradá-los e a satisfazer seus desejos, mas também pelo medo de parecerem rudes (característica que não é vista como atraente para o sexo feminino) e, principalmente, porque eles não estão prontos para isso. Se por um lado os homens são mais resistentes à agressividade, por outro são extremamente sensíveis à rejeição – o que piora o trabalho delas de se desvencilhar de investidas masculinas e ainda sobra muita culpa de brinde.  Some-se a isso a noção de que os corpos femininos são públicos e o mito de que as mulheres precisam de um homem para ser completas e o que sem tem é a normalização não apenas do assédio, mas também da violência que se segue em caso de negativa. Afinal, quem mandou provocar?

Um exemplo é o que aconteceu com uma redatora do Buzzfeed, Grace Spelman. Após recentemente ser citada em uma lista de mulheres mais engraçadas do Twitter, eis que surge Benjamin Schoen, apresentador de um podcast sobre Harry Potter que ela havia adicionado no Facebook aos 14 anos por ser fã dos livros de J.K. Rowling. No início de agosto, Benjamin enviou um tweet para Grace dizendo-se surpreso de saber que eles já eram amigos no Facebook – e ela educadamente favoritou a postagem, mas não respondeu. Em seguida, ele enviou mais algumas mensagens que ela nunca retornou. Querendo chamar a atenção dela, resolveu entrar em contato via inbox no Facebook:

Grace você faz um ótimo trabalho ao deixar a luz da sua personalidade brilhar online. É hiperativamente lindo. E você parece ser bem introspectiva. Então o que eu quero saber é se você quer casar comigo em um desses lugares tipo drive thru. Se você não suportar toda essa espontaneidade eu entendo que posso estar me adiantando

Estou lançando um novo podcast e adoraria que você ouvisse e, se você gostar, eu amaria que participasse de um episódio

Você me ganhou quando postou aquele vídeo do kendrick lamar

Foi quando me dei conta de que você provavelmente é definitivamente uma alma especial (ou seja “a pessoa certa”) 🙂

Esse smile foi acidentalmente assustador

Grace, que nunca havia feito mais que curtir o primeiro tweet que ele enviou, e até então esse havia sido o único contato correspondido, respondeu com um simples e direto: “Oi Ben! Obrigada pelas palavras gentis, mas na verdade eu já tenho namorado. Espero que fique bem!”. Sentindo-se desconfortável com a insistência dele, ela bloqueou Ben nas duas redes sociais. Foi o suficiente para que ele se revoltasse e enviasse o seguinte email para sua caixa de entrada:

Grace,

Quando você me excluiu do Facebook tão sorrateiramente eu fiquei tão irritado e ofendido que escrevi um texto de 1500 palavras “te colocando no seu lugar”. Mas ao invés de enviar eu salvei como rascunho, já que é minha política não enviar emails quando estou me sentindo irritado, triste ou ferido. Eu quero saber porque você fez isso comigo. Você me parece uma pessoa bem esperta e divertida e as mensagens que eu te enviei foram uma tentativa de fingir ser seu fãzinho. Eu entendo como você pode ter achado que eu estava dando em cima de você. Eu lamento que tenha ficado essa impressão. A última coisa que eu queria era deixá-la desconfortável.Eu só queria quebrar o gelo porque te acho imensamente talentosa e acho que está sendo mal utilizada no seu emprego atual. Sou um escritor, programador e empreendedor. Estava tentando ser seu amigo pois acredito que poderia ajudá-la a avançar na sua carreira. Ao publicar seu trabalho eu melhoraria meus produtos com conteúdo de qualidade.

Essas portas não estão fechadas. Se você não está interessada em trabalhar comigo e se existe alguma outra razão além de você estar ocupada, eu gostaria de saber o porquê. Eu escrevi para você no Twitter para expressar minha genuína admiração e a maneira como você me mandou ir me foder genuinamente me magoou.

Eu queria ver se podia ajudar no seu futuro, já que você havia acabado de twittar que se sentira insegura sobre ele.

Espero que me dê uma segunda chance e possa ver que posso ser útil para você.

Mais uma vez me desculpe se te deixei desconfortável. Eu te admiro Grace e honestamente tenho tido dificuldades para dormir porque não sei o que fiz para te aborrecer tanto.

Espero sinceramente que você me responda.

Quando Grace decidiu expôr a história em seu perfil no Twitter, Ben tornou-se abertamente agressivo e chegou a afimar que Grace estava “naqueles dias”.  Tudo o que ela fez foi desvencilhar-se de um completo desconhecido fazendo uso de dispositivos que existem justamente para afastar pessoas que não desejamos ver em nossas redes sociais. A dificuldade em entender a rejeição e a perseguição que isso gerou fazem parte do pesadelo que uma mulher pode viver ao rejeitar um homem. É desse suposto direito sobre a mulher escolhida que nascem fantasias como a friendzone, uma espécie de purgatório para onde vão os “caras legais” que foram rejeitados por mulheres que – oh, a crueldade! – não queriam nada além da amizade deles.

A zona da amizade realmente existe, mas não há nada de errado em ter só a amizade de uma mulher. Não devemos sexo em troca de uma paixão que não desejamos viver. E, ainda que toda essa fantasia romântica tenha partido da cabeça do homem, as mulheres é que são vistas como malvadas por colocá-los na friendzone. Dizer não, ter uma opinião contrária, mais uma vez faz das mulheres as vilãs da história. No caso da Grace, ela ainda citou o fato de ter um namorado – uma manobra básica para tentar amenizar a decepção do homem, sendo uma desculpa para o fato de não poderem ficar juntos, mas também uma das únicas formas de conseguir o respeito instantâneo deles: associando-se a outro homem já que, se estamos sozinhas, nenhuma razão parece ser suficiente para dispensar o afeto masculino.

Perto dos muitos casos de violência contra mulheres que tentaram sair de relacionamentos, a história de Grace parece simples, mas ela apenas salienta o fato de que esse sentimento de direito dos homens sobre as mulheres permeia até as interações mais superficiais. Por baixo do receio que a mulher sente ao rejeitar as investidas de um homem, está o pavor de uma violência física, uma violação sexual, do uso da força como meio para ele conseguir o que deseja. Pode parecer exagero, mas é autopreservação. E, na manifestação do pior cenário possível, é a falta de cautela da mulher é que vai para o banco dos réus.

 

Virando o jogo
Para Sheryl Sandberg, COO do Facebook, autora do livro e fundadora do movimento Lean In, as mulheres não devem se envergonhar de ter ambição e assumir posições de liderança com assertividade e firmeza. Para ela, não apenas as pessoas devem se adaptar a ver mulheres líderes, mas as próprias mulheres devem se acostumar com essa posição. Ela não acredita que os homens sejam confiantes demais, apenas que as mulheres são confiantes de menos. No livro, ela conta sua trajetória em busca dessa confiança. Mesmo quando foi considerada a quinta mulher mais poderosa do planeta pela revista Forbes, ela ainda pedia desculpas pelo próprio sucesso e sentia uma forte necessidade de agradar os outros. Com tantos estímulos conflitantes durante toda a vida, essa não é uma conclusão a que se chegue facilmente. Por isso, além do livro, o site LeanIn.org incentiva as mulheres a se reunir, se educar e estabelecer uma rede de contatos que as fortaleça profissionalmente.

Particularmente, encontrar a própria voz, se fazer ouvir e não se deixar envergonhar pela própria opinião ou pelo espaço que ocupa no mundo são passos essenciais para o empoderamento feminino. Não é uma tarefa fácil. Afinal, trata-se de uma luta contra séculos de uma socialização que limita e silencia as mulheres. O resultado, porém, pode ser magnífico e recompensador. Nas palavras de Chimamanda Ngozi Adichie, em seu discurso na faculdade de Wellesley este ano:

“No mundo inteiro, as meninas são ensinadas a serem agradáveis, a se moldarem em formas que agradem outras pessoas. Por favor, não se modifiquem para agradar outras pessoas. Não façam isso. Se alguém gosta dessa versão sua que é falsa e te diminui, essas pessoas gostam de uma forma vazia e não de você. E o mundo é tão gloriosamente vasto, multifacetado e diverso que certamente existem pessoas no mundo que vão gostar de você como você é.

 

(…) Uma última coisa sobre minha mãe. Eu e minha mãe discordamos sobre muitas coisas quando o assunto é gênero. Existem algumas coisas que minha mãe acredita que uma pessoa deve fazer apenas “por ser mulher”. Como ocasionalmente acenar e sorrir, mesmo que sorrir seja a última coisa que se queira fazer. Como estrategicamente deixar de argumentar apenas porque a outra pessoa com quem se está discutindo não é uma mulher. Como casar e ter filhos. Eu penso que tudo isso pode ser feito por algumas boas razões, mas “porque você é uma mulher” não é uma delas. Então, Turma de 2015, nunca aceitem o “porque você é uma mulher” como uma razão para fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa.”

Felizmente, mulheres como a Cara, citada lá no início do texto, já aprenderam essa lição e não se curvam mais diante das expectativas alheias sobre o comportamento feminino. Ela é divertida quando se sente divertida e foi séria quando quis ser levada a sério. Aos pouquinhos, exemplos como o dela vão mostrando para o mundo que o valor de uma mulher não se perde quando ela é agressiva, tampouco reside apenas em seu sorriso. Seu conteúdo é o mesmo e merece respeito independente da forma como é expressado. As emoções femininas dispensam juízo de valor e cabresto. Nós somos muito mais que isso.


Arte: Marion Peck

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Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar! Mesmo entre as coisas consideradas masculinas pelas quais eu era curiosa, como tiro esportivo, futebol, MMA, eletroeletrônica, economia e, finalmente, mercado financeiro, na minha mente, bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse e fazer o que quisesse.

E esse plano funcionou muito bem até meus 22 anos, quando entrei no mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. As perguntas diretas já na entrevista me instigaram. Se eu me sentiria bem em trabalhar num lugar onde todos poderiam me mandar tomar no cu a qualquer momento? Claro, eu também mando todo mundo a merda, eu tenho um monte de amigos homens, eu falo como homens, eu avalio mulheres como os homens costumam fazer (reproduzindo assim um machismo que viria anos depois a me afetar), quer mais o quê?

Após a entrevista eu conquistei a vaga, porque eu tinha o perfil e porque não sinalizei nada que pudesse ameaçar trazer problemas para o ambiente ‘dos caras’. Digo isto por que algumas das coisas que ouvi durante a minha vivência no mercado financeiro incluíram pessoas dizendo que não contratavam gays pois estes seriam ‘processos ambulantes’, já que na área se brincava muito com a homossexualidade. Outra coisa que também ouvi, de outra empresa, era que não contratavam mulheres, porque não queriam ‘mulherzinhas’ na mesa. Então posso afirmar que, além de estar dentro dos requisitos profissionais, eu precisava também não representar qualquer tipo de ameaça ao ambiente de trabalho e ao empregador.

O que eu não esperava era o lembrete constante do que eu realmente sou. Mulher. Sim, eu sou mulher, me identifico como mulher! Mas, precisava ser vista assim todo tempo? Entre meus amigos nunca tive problemas, eles não me questionavam, eles interagiam comigo porque eu era um deles. E nas horas de trabalho eu iria me sentir tranquila em ser considerada mais homem que mulher, porque isso me faria ser mais aceita, me faria fechar mais negócios falar de futebol do que de esmaltes, me traria mais contatos profissionais ir a stripclubs com outros operadores para trocar ideias sobre a situação do mercado do que convidá-los para jantar ou para tomar uma cerveja e correr o risco de ser mal interpretada.

Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não seriam meus amigos. Isto porque existia uma diferença básica entre aqueles homens e meus amigos, os últimos não eram conservadores, eles conseguiam compreender a existência de mulheres fora do eixo binário “pra casar”-”pra trepar”, ou como os operadores dizem no mercado “pra vida”-”pro game”. Eu perceberia mais tarde como é difícil para um homem conservador olhar uma mulher como eu e não conseguir encaixá-la num desses grupos e menos ainda interpretá-la.

Eu encontraria dificuldades no blending in não por que iria ser ruim para mim agir masculinamente, mas por que incomodaria os homens de negócios e eles não compreenderiam. Afinal, falar de futebol, mulheres e sexo como um homem só pode significar que eu sou lésbica, não é mesmo (como me perguntaram inúmeras vezes)? E que cara vai levar numa boa uma mulher ‘normal’ observando os operadores falarem sobre o fluxo de ações enquanto colocam dinheiro na calcinha de uma stripper? Quem quer um corpo estranho àquele ambiente expressando suas visões e opiniões num momento de descontração masculina? Quem se sente à vontade com uma colega de trabalho presente num momento em que se escancara o comportamento masculino em seu estereótipo mais conservador? O comportamento do homem que precisa da bunda e de peitos à mostra para se sentir amigo do operador e no dia seguinte comprar ativos com ele, não seria esse comportamento o mais próximo do primitivo e irracional do homem para uma área que prega e se coloca como economicamente racional? Sim. A minha presença escancararia tudo isso de uma maneira não tão clara, mas estaria pairando o incômodo.

Meu jeito direto e extrovertido causava estranhamento, ‘uma mulher não deveria falar tanta bobagem quanto nós falamos’. Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours’. Minha presença causava uma tensão sexual (não da minha parte, podem ter certeza haha) que desconcentrava, ‘uma mulher não pode usar roupas que mostram os ombros, isso nos desconcentra e os caras começam a comentar’.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher. Demorei para perceber!

“Certa vez fechei um negócio, um superior comentou ‘conseguiu, mas o que fez com o cara para fechar isso ninguém sabe’.”

“Certa vez estava falando ao telefone, um superior advertiu ‘aqui você não é menina, aqui você é operador, e operador fala grosso e impõe respeito’.”

“Certa vez estava arrumando a parte debaixo da minha camisa, havia rasgado acidentalmente, um superior reparou e se dirigiu a mim ‘tá rasgadinha, hein?’.”

“Certa vez contei que planejava me casar e um superior demarcou ‘vai casar, mas tem um DIU de 20 anos, então tudo bem’.”

“Certa vez perguntei para um operador de outra empresa por que não havia mulheres na mesa dele, ele respondeu ‘nem olhamos currículos femininos, não queremos mulherzinhas na mesa’.”

“Certa vez contei que uma operadora de outra empresa estava esperando um bebê e um superior disse ‘elas ficam mais preguiçosas depois que engravidam’.”

“Certa vez comentei que admirava uma diretora por ter chegado numa posição importante sendo mulher, um colega falou com um sorrisinho de canto ‘é verdade, ela deu certo’.”

“Certa vez levei um cliente para um happy hour para falar das operações e ele me encoxou contra o bar e disse que eu não sairia até beijá-lo porque eu sabia ‘quem ele era’.”

Esses são exemplos do que nós, mulheres, enfrentamos se decidimos trabalhar em posições masculinizadas do mercado financeiro, como operadoras (trader, broker) ou como agentes de fusões e aquisições (M&A) em bancos de investimentos. Alguns exemplos são pessoais e outros são trechos de entrevistas que coletei com outras mulheres do mercado, que podem ser lidos na íntegra em minha pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro. Porque sim, eu decidi investigar melhor essa questão das mulheres nos espaços e profissões masculinas. No processo acabei criando também um núcleo de pesquisa em gênero de raça na minha faculdade e hoje incentivo trabalhos nos temas pois sei o quanto uma simples investigação qualitativa pode revelar sobre as barreiras de determinados grupos em determinados contextos.

Foi somente quando eu não fui aceita o suficiente com meu nível de masculinidade que eu percebi que eu não deveria ter que masculinizar desde o princípio? Sim. Foi somente quando eu não fui avaliada como um estagiário homem seria que eu percebi que não bastava se esforçar apenas? Sim. Foi somente quando eu fui vista como uma lésbica por falar de sexo com a naturalidade de homem, como uma vadia por fazer aulas de pole dance e não ter vergonha disso ou como uma bocuda por responder a comentários sexistas na lata e sem medo de consequências para minha carreira que eu percebi que existe um padrão social binário do que é ser mulher e do que é ser homem e que se você não se encaixa muito bem neles você terá problemas? Sim.

A minha experiência no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira. E que, ao contrário do que me disseram em tom bem claro que “o mercado está certo e você está errada, você é que tem que mudar”, eu e outras mulheres é que temos que mudar o mercado, mesmo que seja no longo prazo. E nós vamos. Agora troque a palavra mercado por ‘mundo’ e você terá a dimensão do quanto todas as mulheres que já passaram por experiências marcantes de discriminação no mundo estão despertando, se organizando e efetivamente, alterando os ambientes em que vivem.


Itali Pedroni Collini é formada em economia pela Universidade de São Paulo, criou com sua orientadora e colegas pesquisadoras o Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça após sua experiência no mercado financeiro, participou da delegação jovem brasileira no Spring Meetings FMI e Banco mundial, trabalha na agência de rating Standard and Poor’s e nesse ano teve sua pesquisa sobre mulheres no mercado financeiro aceita 3 congressos acadêmicos internacionais

Arte: Simone Massoni

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Seria inevitável trazer qualquer expressão sobre o tema do cabelo sem falar da minha própria experiência de vida.  O interesse pelo alisamento de cabelos crespos foi, na verdade, objeto de minha pesquisa de mestrado e há bons tempos quero compartilhar os saberes que adquiri com mais pessoas, de dentro e fora do mundo acadêmico.

Em setembro de 2009 defendi meu mestrado em antropologia social e cultural na Universidade de Strasbourg, na França, cujo tema é “Alisar seus cabelos em Salvador, Brasil: uma construção pela negação?”. O fato de estar na França me permitiu abraçar um tema de importância vital em minha vida (embora eu não tivesse tanta consciência disto durante o processo) de forma não planejada, pois não era mesmo o que eu tinha em mente. O afastamento geográfico de Salvador, a cidade onde fiz meu trabalho de campo (a minha etnografia), ajudou muito a abordar a temática. Aliás, jamais teria feito algo parecido se estivesse no Brasil. Para entender com mais clareza algo nosso (ou do outro) em certas ocasiões, adquirir distância pode ser muito esclarecedor.

Talvez o mais importante e o que de fato permitiu que eu escrevesse sobre este assunto na caminhada de meu mestrado tenha sido o fato de que tudo me conduzia muito naturalmente a um verdadeiro processo de auto-análise. O querer é essencial, e eu sempre quis ser. Estava totalmente em busca de minha essência mais verdadeira quando ingressei no mestrado, então, não poderia ter sido de outra forma. E não poderia ter sido melhor.

Salvador é minha cidade natal e é o local onde me sinto realmente em casa. Sinto um amor enorme por aquele lugar, de filha mesmo, de onde brota o reconhecimento. Apesar de não morar mais ali há 16 anos, sinto que é meu território, e por isso foi difícil encará-lo de forma mais distante. Foi preciso interrogar o meu já acostumado olhar sobre minha cidade, parte fundamental deste processo de re-conhecimento.

O alisamento começou a fazer parte de minha vida quando eu fiz 15 anos. Comecei a alisar periodicamente meus cachos, como um ritual de passagem para a vida de mocinha. Conto nos dedos hoje em dia quantas pessoas de fato me encorajaram a fazer o inverso. Salvador, “território africano”, é uma cidade bastante complexa, como muitos sabemos. Os movimentos negros e o destaque da trajetória dos povos negros pelo mundo afora puderam dar à cidade uma posição muito específica entre sua privilegiada localização geográfica e as identidades negras. Ela é reconhecida (e autodeclarada) como cidade de encontro e desenvolvimento de diversos povos de origem africana aqui no Brasil.

Depois de certa idade, comecei a perceber a quantidade absurda de mulheres andando pelas ruas, ônibus, shoppings, praias, com cabelos alisados. Questionar o lugar dos cabelos e situá-los dentro de uma sociedade foi indispensável para avançar na pesquisa. E foi para Salvador que eu virei meus olhos, já há alguns anos sem alisar meu cabelo e morando fora. Duas professoras, referências externas, colocaram aquele tema em meu colo. Eu não o escolhi, ele me encontrou.

Decidi validar pelo caminho acadêmico uma problemática social enquanto tal. A intenção não era de buscar qualquer “glamour” e sim de me levar a sério e de ser levada a sério, reforçando o respeito através do qual acredito que esta questão deva ser debatida. É importante mencionar que diversos estudos científicos se propuseram a abordar a história da mestiçagem e negritude brasileiras e que essas análises foram referências fundamentais para a minha pesquisa, mas este não é o objetivo aqui. A proposta é mostrar caminhos que me ajudaram na compreensão da questão e a compartilhar um pouco da construção da beleza no Brasil e de diversas questões que se referem ao cabelo e ao corpo, reforçando hipóteses sobre as motivações de mulheres, negras ou não, que faziam alisamento em seus cabelos crespos e/ ou cacheados.

Escolhi dois salões de beleza situados em dois bairros vizinhos para realizar minha pesquisa: Liberdade e Baixa de Quintas. Liberdade é o bairro com o maior número de população que se declara afrodescendente em Salvador e é também conhecido como o segundo mais populoso (entre 400.000 e 600.000 pessoas). O primeiro salão, onde tive autorização para realizar minha pesquisa, me indicou o segundo estabelecimento, localizado no bairro Baixa de Quintas.

Considerei duas categorias centrais de salão de beleza: os “não-especializados” em cabelos crespos, que realizam todo tipo de tratamento químico para cabelos, alisamentos e diversos cuidados estéticos; e os salões afro, especializados em cabelos crespos e penteados de inspiração africana. Priorizei a pesquisa feita nos dois salões mencionados acima, não-especializados em cabelos crespos.

 

A beleza em construção

Coloquei o corpo como um dos fios condutores de uma análise dos processos histórico e sociológico da formação do povo brasileiro. Em diferentes culturas, significados e comportamentos se inscrevem no corpo. Há muitas formas de se conceber o corpo no Brasil, física e culturalmente. A influência do clima e da geografia contribui para a importância que lhe é dada, em algumas regiões mais que em outras. As praias, assim como os salões de beleza, são locais de construção da beleza corporal. Morar em cidades litorâneas pode reforçar o valor dado à aparência física, bastante reconhecida e valorizada em Salvador.

De acordo com nossa história, é possível constatar que a cor da pele esteve diretamente ligada à ascensão social entre o final do século XIX e o começo do século XX, em especial no período pós-escravidão. A mestiçagem se desenvolveu em paralelo a um ideal de embranquecimento da população brasileira com a adoção de valores da aristocracia européia pelo Brasil, que reforça uma hierarquia social também baseada na cor da pele, no formato do rosto e na textura dos cabelos. Mestiços ganharam, pouco a pouco, uma relativa importância social em detrimento dos negros, que têm a pele mais escura (aqui, faço referência a mestiços como pessoas nascidas da miscigenação entre negros e brancos). Uma verdadeira nova categoria de indivíduos estava sendo estabelecida pelas autoridades brasileiras, e dentro dela os mestiços se aproximavam da “comunidade branca”. É importante ressaltar que a miséria e carência latentes e estruturais da maior parte da população, o concubinato e a concorrência pelo controle da mão-de-obra também estão na origem da mestiçagem na América Latina.

Durante a primeira metade do século XX, a pele mais escura indicava o trabalho duro sob o sol, a pobreza, a insalubridade dos bairros populares e a promiscuidade em locais miseráveis de prostituição. A pele pálida, por sua vez, era sinônimo de prestígio social e evocava conforto, tempo livre e filiação europeia. “A raça branca serve de modelo maior aos preceitos de beleza e saúde”.

Mudar sua aparência através do alisamento dos cabelos era reflexo da valorização da(s) aparência(s) física(s) estabelecida(s) por uma população branca. A contar da época colonial e passando pela instauração destas políticas de branqueamento, a cor da pele é um elemento importante que está na origem de diversas mudanças corporais. O alisamento é uma delas.

Os cabelos crespos foram conhecidos como cabelos “difíceis” por alguns séculos, e ainda o são. Essa é uma opinião bastante conhecida e reproduzida por uma parte importante da população de Salvador (e segue além pelo nosso país). Como “filha” da cidade e dona de uma vasta cabeleira crespa, eu sei bem do “rico” repertório de registro semântico que faz menção a este tipo de cabelo. Cabelos crespos como “ruins” é a forma mais frequente de referenciá-los. Ter cabelos “duros” ou “difíceis” é bastante associado a ter cabelo “ruim”. Percebidos como um problema que precisa de solução dentro do processo histórico, político e cultural brasileiro, o cabelo crespo sempre foi considerado um elemento importante de reforço da negritude e de referência às culturas africanas. Neste processo de desenvolvimento histórico, sobretudo após a abolição da escravatura, atribuir um lugar social ao negro ainda constitui uma questão de luta e debates intensos.

Neste sentido, é bastante importante trazer para cá mais deste registro semântico. Cabelos crespos podem também ser “rebeldes” e “amansá-los” é uma solução. O uso destas palavras pode ser bastante revelador de uma relação entre natureza e cultura. O cuidado exigido pelos cabelos crespos seria algo complicado para seguir no domínio das práticas humanas. É preciso, então, domesticá-los. Muitos estudos sobre a natureza e sua apreensão pelas sociedades mostram que o homem enquanto indivíduo tem a tendência a controlar aquilo que considera “contratempos” naturais e as determinações do instinto. Em sociedades mais tradicionais, a tendência é de se reconhecer como parte de um conjunto mais vasto que não necessariamente deve controlar o ecossistema dentro do qual se está inserido, e que discriminações entre humanos e não-humanos é algo muito mais raro.[6] Neste caso, se a referência aos cabelos crespos repousa em visões que o aproximam do conceito de domesticação, eles se tornam objeto de discriminação social, colocados do lado da “natureza”. É preciso que obedeçam a um modelo de beleza adequado à essa sociedade.

Cabelos bem cuidados ou arrumados não carregam necessariamente em si um peso pejorativo. Cabelos arrumados possuem aspecto agradável e são aprovados pela maioria das pessoas. Entretanto, a palavra pode ser imbuída de negatividade: para muitas mulheres, cabelos lisos são mais arrumados do que cabelos cacheados ou crespos, o que justifica o alisamento. Em muitos casos, “arrumado” é adjetivo para o cabelo liso. Os cuidados do universo do alisamento seriam uma forma de domesticar e adaptar ao mundo moderno a parte ameaçadora da natureza.

As técnicas empregadas para o alisamento e cuidados corporais são verdadeiras fontes de análise. Marcel Maus0, antropólogo francês, dizia que o corpo é construído culturalmente e que seus atos são formados pela autoridade social: “é graças à sociedade que há uma intervenção da consciência”.As técnicas corporais, carregadas de sentidos, são transmitidas entre diferentes gerações e culturas, permitindo localizar e identificar grupos no tempo e no espaço.

Pouco a pouco, a técnica torna-se subordinada às indústrias e ao poder econômico, influenciando a indústria da beleza. O saber técnico do alisamento desenvolveu-se de acordo com a história da construção do corpo e de seus padrões de beleza no país e novas necessidades em matéria de alisamento foram criadas.

Decidi dividir as técnicas de alisamento em duas: técnicas químicas e não-químicas. A ideia não é entrar no detalhe de cada uma, mas enumerá-las para ilustrar sua importância na sociedade.

As técnicas de alisamento químicas encontradas foram:

  1. Alisamento por hidróxido de sódio;
  2. Alisamento por guanidina;
  3. Uso de amônia;
  4. Escova progressiva ou definitiva;
  5. Retoque;
  6. Formol (proibido no Brasil desde 2005).

Dentre as técnicas de alisamento não-químicas, destaquei as seguintes:

  1. Escova;
  2. Chapinha;
  3. Bóbis;
  4. Meias colantes bastante aderentes (para pés ou pernas);
  5. Ferro de passar.

O alisamento por químicas supõe que o cabelo esteja sujo antes e durante a aplicação para proteção do couro cabeludo. Muitas mulheres também reforçam essa proteção usando cremes hidratantes na base dos cabelos. A sujeira associada ao alisamento é um ponto bastante importante aqui. Apesar de encarada como um passo natural dentro do processo de alisamento, a relação com a sujeira se estabelece no dia-a-dia dessas mulheres de uma forma específica.

Ainda em relação a sujeira, os cabelos não são lavados com a mesma frequência de antes quando se faz frequentemente a escova e a chapinha para a manutenção do liso. O cabelo crespo é frequentemente associado ao sujo no discurso de muitas mulheres (apesar de o cabelo alisado agregar de fato esta característica, e não o cabelo crespo). O uso de cremes hidratantes é bastante associado à manutenção do crespo e isso causa a impressão de cabelos úmidos por mais tempo, que acumulam resíduos e são consequentemente percebidos como sujos. A questão, aqui, é de manter os cabelos úmidos ou excessivamente hidratados com a intenção de deixá-los com menos volume ou com os cachos mais definidos. Mulheres que mantêm seus cabelos crespos mais naturais (com um estilo black power por exemplo) não enfrentam esse tipo de problema. Novamente, a autoestima de assumi-los como são está no centro da questão.

O efeito do alisamento obtido pelas técnicas não químicas é bem mais rápido e com resultados considerados mais eficazes. As técnicas químicas tratam os cabelos através do tempo: quanto mais produtos químicos forem aplicados, sempre respeitando uma frequência e disciplina, mais o couro cabeludo desenvolverá raízes lisas. Combinar técnicas, portanto, é bastante freqüente para muitas e a melhor forma de manter os cabelos sempre lisos.

O alisamento requer um grande esforço para a obtenção do resultado desejado. É preciso ter tempo (para a aplicação de produtos químicos o processo pode durar até 2h30) e fazer concessões do tipo “não ir sempre à praia” ou à piscina (relembro que estamos falando de Salvador), estar mais atenta à sua transpiração (sobretudo mulheres que transpiram em excesso), abdicar de reuniões ou festas caso “o cabelo não esteja bem alisado”, levar em conta as condições meteorológicas (chuva, calor excessivo), concordar com o fato de que a prática do alisamento vai estragar (muito) os cabelos ao longo dos meses e anos… estes fatores parecem implicar, efetivamente, em uma “domesticação” do próprio corpo e dos hábitos para se chegar à uma nova aparência. Nestes casos, é esclarecedor o que disse Neusa Santos Souza sobre o reconhecimento do negro no Brasil: “o negro só pode ser reconhecido socialmente à medida que ele esquece sua identidade”.

 

Contraponto

Cabe aqui um pouquinho de outra relação com os cabelos crespos, apesar de não constituir o objeto principal deste texto. Para muitas mulheres, preservar seus cabelos crespos é motivo de orgulho e autoestima. Ao lado do bairro da Liberdade encontra-se o bairro do Curuzu, onde se localiza a sede do Ilê Aiyê, uma das mais importantes associações carnavalescas e culturais em Salvador pela valorização das culturas negras. O trabalho do Ilê Aiyê é bastante permeado pela importância da reivindicação de uma identidade negra ou afro-brasileira, de se assumir negro em uma sociedade que se constituiu de forma discriminatória em relação a essas populações. Reivindicar-se negro pode evidenciar o corpo através de roupas, acessórios e penteados de inspiração africana. Trazer em si mesmo elementos que se referem às culturas africanas reforça o vínculo com essas culturas.

É importante relembrar do caráter político das lutas contra o racismo a partir dos anos 1960 nos Estados Unidos. Estas lutas se impunham em relação a qualquer ideia de moda que negros que foram referência na militância política, artes e cultura ajudaram a colocar em evidência (Rosa Parks, Angela Davis, Jimi Hendrix, entre outros). Nos EUA, como aqui no Brasil, movimentos negros nasceram e ganharam força a partir deste momento (o Ilê Aiyê é um exemplo, fundado em 1979). Elementos da negritude podem ser considerados como parte da moda atual e isso sem dúvida reforça uma determinada aceitação e admiração social. Porém, assumir seus cabelos crespos é assumir a si mesmo e assumir invariavelmente todo o esforço feito por homens e mulheres que militaram pelos direitos dos negros e sofreram forte discriminação.

A indústria estética, em paralelo, também considera as mudanças culturais das sociedades e desenvolve produtos para a manutenção dos cabelos crespos. Alguns penteados, como tranças, são um meio de garantir respeito por seu próprio corpo e seus cabelos crespos. É uma forma de assumi-los e protegê-los sem agredi-los. O mesmo vale para o penteado black power, no qual os cabelos são usados soltos e têm a parte superior cheia, dando um formato redondo ao contorno dos cabelos acima da cabeça. Este é um penteado que começou a se dissociar da pele negra com o advento dos movimentos negros nos EUA e no Brasil, seguidos de uma evolução posterior do estatuto do negro nestes países.

 

Mudando sua aparência: causas e consequências

Os cabelos são considerados em diversas culturas como elementos marcantes da construção da beleza feminina. Eles permitem caracterizar visualmente e muito rapidamente a mulher. Definido por muitos como “a moldura do rosto”, o cabelo pode dar informações sobre as origens, pertencimento a grupos sociais e hábitos de uma pessoa, aproximando ou afastando indivíduos enquanto elementos de identidade corporal. Eles possuem uma grande capacidade de expressão simbólica vinculados a um contexto sociocultural.[11]

A mulher pode e deve decidir o que transmitir para o outro enquanto características de sua aparência física. Ela pode ansiar por uma maior aceitação social, procurando outra posição também através de sua aparência. Todos nós, mulheres e homens, estamos sujeitos a isso e o fazemos continuamente. Em Salvador, cidade onde a maioria da população se autodeclara negra ou afrodescendente, é mesmo impressionante a preponderância de mulheres com cabelos alisados. Este contínuo processo de alisamento contribui para a percepção do cabelo liso como bastante natural. Alisar os cabelos é percebido como uma forma de se colocar “em pé de igualdade” com mulheres que possuem cabelos lisos naturais. Trata-se de adaptar a aparência física para facilitar sua entrada e permanência em uma sociedade ou grupo.

Este ponto me parece de importância vital, pois me foi colocado em diversas situações onde o assunto era trabalho e empregabilidade. A vantagem do cabelo liso é o fato de que ali ele já é socialmente aceito, enquanto o cabelo crespo, em desvantagem, causa constrangimento a muitas mulheres que se veem compelidas – ou são solicitadas – a alisarem sem cabelos, tornando este processo parte de suas obrigações profissionais. Ouvi mulheres dizendo que os cabelos crespos possuem uma “aparência agressiva”, o que as impede de conquistar posições profissionais. Uma das motivações que leva a mulher a alisar seu cabelo, portanto, passa pelo acesso ao emprego e conquista de melhores posições profissionais.

Dentre outras motivações, há uma questão extremamente relevante em relação ao alisamento: a liberdade feminina. Para além do racismo estrutural brasileiro, é importante considerar a trajetória feminina dentro dos direitos cívicos e morais no Brasil. É necessário levar em conta que, durante séculos, mulheres negras e mestiças foram discriminadas de diversas formas e que ao longo desta trajetória também foram forçadas ou estimuladas a alisarem seus cabelos (a princípio, com o ferro de passar). Relembro que a formação de toda sociedade se reflete no presente e que, hoje, o alisamento vai além da questão da não-aceitação. Ele é também um processo estético acessível que pode ser feito pela decisão da própria mulher, a qualquer momento, e que a depender da técnica empregada, ele pode ser rapidamente desfeito. Muitas mulheres negras que têm uma forte consciência de sua importância social e política, no Brasil e nos EUA, acreditam e defendem o discurso de que a valorização do esforço individual é muito mais importante do que a aparência física em si, o que tira o peso do processo de alisamento.

Considerando estas inúmeras influências sobre a vida e aparência física da mulher de hoje, o que ela procura, finalmente? O alisamento pode se inscrever em duas dinâmicas diferentes: uma associada às influências que valorizam, primordialmente, a figura da mulher branca e suas características físicas e, portanto, ligada a princípios racistas. A mulher estaria influenciada por um ideal de aproximação de outra aparência física, a da mulher branca com cabelos lisos.

A outra dinâmica seria da ordem da escolha e da possibilidade de mudar sua aparência física com freqüência, o que também tem influência da moda. A mulher sempre teve a intenção de fazer-se remarcar de alguma forma, independente das barreiras culturais de sua época. Essa dinâmica é mais vinculada a um sinal de liberdade da mulher e doravante mais viável através da emancipação feminina a partir dos anos 1960.

Mas, é necessário se perguntar se a dinâmica do alisamento se inscreve sempre em uma ou outra das alternativas descritas acima. O fato é que existem limites bastante sutis em cada uma das nossas escolhas. Como definir escolhas feitas sob a influência de questões tão naturalmente complexas?

Podemos levar em conta que a maioria das decisões feitas em relação ao alisamento (e também a outras práticas estéticas) acontece dentro dos salões de beleza. As mídias exercem uma poderosa influência neste caso (programas de TV, revistas, cartazes), mas também o desejo de pertencer a um grupo social, como já foi pontuado aqui. Como contraponto, algumas mulheres negras afirmaram ter parado com o alisamento porque foram convencidas de que era preciso estar visualmente inscritas no que se entende como “ser negro”.

A opinião masculina também é um fator de muito peso. Diversas mulheres manifestaram esse ponto como uma preocupação, considerando a importância de agradá-los, parceiros fixos e potenciais. Muitas mulheres consideram que um parceiro sexual (em geral de pele mais branca) pode valorizar cabelos “mais leves” (através dos quais é mais fácil deslizar os dedos)…

Por fim, a própria competição entre mulheres é sem dúvida a considerar. Muitas de nós nos produzimos para um alguém que reside na figura de outra mulher. O seu eu feminino não está necessariamente sempre em você: em diversos casos, muitas de nós colocamo-lo fora de nós mesmas.

Gomes diz que se “o cabelo crespo é imediatamente associado ao corpo do Negro […], alguns Negros poderão interiorizar a ideia de que, desde que a gente muda a textura crespa do cabelo eles chegarão, de maneira simbólica, a embranquecer seus corpos, logo, a ‘se embranquecerem’. A força dessa mensagem é grande a ponto de ‘contaminar’ e confundir nosso próprio olhar, desviando nossa atenção de questões que foram construídas dentro do contexto da cultura e das relações de poder, no plano físico e corporal”.

Mudar sua aparência através do alisamento pode ser uma atitude subjetiva, não intencional. Sua relação com seu corpo refletirá um imaginário social. Mudar estes valores é uma construção diária, gradual e lenta, de coragem e aceitação. É possível começar, por exemplo, pela adoção de uma nova atitude de cabeleireiros, detentores e transmissores do saber técnico na área. Não se pode esquecer, entretanto, que isso entraria em conflito com a tendência do mercado cosmético que estimula o alisamento e os cabelos lisos. Neste sentido, promover outros padrões estéticos e de beleza em esferas que vão além dos salões e ambientes afro é absolutamente necessário e bem-vindo.

Estamos em 2015 (relembro que meu trabalho de pesquisa foi concluído em 2009) e é possível dizer que encontro mais pessoas nas ruas portando cabelos naturais do que antes, mesmo em Salvador. Há também um número bem maior de pessoas usando e compartilhando experiências em redes sociais, e é mais fácil ler e ouvir mulheres que têm tido mais e mais coragem para assumirem seus cabelos crespos e cacheados, mulheres que se livram de uma culpa ilusória, mulheres que aprendem a confiar mais em si mesmas e trabalharem mais suas autoestimas, mulheres e pessoas que têm se amado mais. Isso é admirável. Porém, as mesmas questões, conflitos e fantasmas persistem sim e são muito, muito atuais. É impressionante como esses padrões de beleza associados aos cabelos lisos são fortes e marcantes em nossa(s) sociedade(s) ocidental(ais). Sugiro, para aqueles que custam a acreditar em tais realidades, que tentem desenvolver suas capacidades de empatia e a se colocarem no lugar do outro. Que busquem e escutem pessoas que enfrentaram ou enfrentam tais fantasmas. Tenho certeza que cada um de nós carrega o seu… mesmo que não o assuma ou não consiga enxergá-lo.

A construção da identidade (uma noção absurdamente complexa) de uma pessoa está, sem dúvida, implicada neste processo. O corpo não é uma entidade finita: ele está sempre em construção e transformação. Existem, portanto, diferentes “categorias” de pessoas que se constroem ao longo do tempo, segundo interesses e sentimentos comuns.  O cabelo e o penteado podem servir para esconder ou afirmar um pertencimento a uma dada categoria social. É também possível ler todo este processo do ponto de vista da identidade da qual se busca fugir: o que se evita quando se alisa os cabelos?

 

Fechando uma questão tão aberta…

Construir a aparência física pela negação de seu corpo pode ser a ocasião para uma pessoa de se transformar. O alisamento é um fenômeno que possibilita a mudança da aparência física de uma mulher. O número de técnicas de alisamento e o vínculo deste procedimento com diversas problemáticas sociais reforça sua importância, dadas suas recorrência e atualidade. Ele reforça a negação de cabelos crespos dentro desta sociedade, que tem em sua origem o profundo histórico do racismo.

Qualquer estigmatização pela aparência pode conduzir a uma não-aceitação de si mesmo. A negritude pode ser, sim – e é – usada contra o negro, inclusive como reforço de outros preconceitos que estão geralmente associados à condição de pobreza e de poucas oportunidades na vida. A aparência física pode então ser objeto de um ritual, uma transformação de si mesmo, com o objetivo de conquistar mais aceitação e adequação social pelo indivíduo.

 

Quando não se tem a aparência física questionada, contrariada, é preciso sensibilidade e humanidade para se colocar no lugar daqueles que veem, escutam e, sobretudo, aprendem a acreditar que seu corpo e sua presença física são inadequados. Sua existência, atravessada por tais questionamentos, será no mínimo desarmoniosa, pois foi marcada pela rejeição. É preciso trabalhar a estima de si mesmo buscando sua essência e sua verdade.

Quando não se aprende a ser, simplesmente não se é. É, sim, simples assim. Para aqueles que pregam que tudo isto é exagero, inflamação, recalque ou racismo contra si mesmo: eu sinto muito, a ignorância dos fatos e a insensibilidade os rodeia. Eu sinto muito, mesmo, porque são estas pessoas que passarão a vida tentando apontar para o outro que ele não deve se amar como ele é. São estas as pessoas que necessitam justificar alguma superioridade que preenche um vazio qualquer, que ignoram anos de repressão daquilo que é diferente do que acreditam ser o certo. Estas pessoas acreditam que para se estar em algum lugar, é preciso no mínimo alterar a natureza do outro.

Quando não se sente algo na própria pele, convém se informar a respeito antes de julgar. A dor do outro sempre dói menos. Então, quando algo doer em você, procure entender que todos nós sentimos, sofremos e temos prazer.


Ananda Melo King é formada em comunicação social, pós-graduada em gestão de processos comunicacionais, mestre em antropologia cultural pela Université de Strasbourg e atualmente trabalha na área de responsabilidade social.

Arte: Jamilla Okubo

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