chegadefiufiu_depoimentos

Na campanha Chega de Fiu Fiu, mulheres e homens debatem o assédio sexual nas ruas. Se quiser contribuir com sua história, escreva para olga@thinkolga.com

ELAS

D.L
“Já faz uns 2 anos isso, quando eu estava para fazer 15 anos, eu estava no pátio sob o prédio esperando uma colega descer, pois íamos na padaria comer um salgado. Começou a chover e ela avisou pelo interfone que não poderia ir para cuidar do irmão e primo, então saí pra ir visitar um outro amigo; enquanto falava no telefone e saía do prédio dela, o vizinho se masturbava na janela e me chavama. Comentei isso com minha amiga a qual conversava e coloquei o guarda-chuva de lado, para que não visse o rosto dele de novo. Alguns meses depois, eu estava esperando essa mesma amiga e quando saí da portaria para esperar ela descer, esse mesmo homem estava nu na escada fazendo a mesma coisa. Avisei a ela que não iria mais ficar ali e, depois que contei o que ele fazia, ela riu e saiu andando. Perguntei a outro vizinho, um amigo nosso, e ele disse que o homem era pedófilo e que já tentou assediar até mesmo o irmão mais novo dele. Meus amigos que moravam naquele prédio e nos vizinhos ficaram preocupados porque passei dias sem descer, porque fiquei traumatizada. Algumas pessoas me perguntam porque mesmo de brincadeira, não gosto quando amigos(as) me tocam.”

N.L

Tenho 16 anos e desde que meu pai foi embora de casa, quando eu tinha 2 anos, moro apenas com a minha mãe. Por mais incrível e guerreira que essa mulher seja, sempre senti falta de um pai presente. Tanto que aos 6 anos, minha mãe começou a namorar um cara, e eu logo pensei que seria como um pai para mim. Pensei errado. Alguns meses depois ele começou a ficar me encarando e a fazer insinuações estranhas para mim, mas eu não entendia. Sempre fui ingênua e acredito muito, até hoje, na humanidade. Talvez por isso acabo me frustrando tanto. Um ano depois ele começou a bater nela, as vezes em mim, sem motivo real e, paralelamente, enquanto ela trabalhava, comecei a sofrer abusos por parte dele, era molestada. Mesmo não entendendo o que tudo significava, eu sentia uma mistura de nojo e medo, demorei alguns meses para juntar coragem e contar para ela o que ocorria, o que foi a gota d’água para ela denunciá-lo na delegacia da mulher e nunca mais o vimos.
 Tudo estava tranquilo, eu ia sempre de transporte escolar com as outras crianças para a escola, até que aos 15 anos comecei a estudar longe e tive que ir de ônibus coletivo à escola e estranhava os olhares de alguns homens para mim. Até pensava se talvez houvesse algo errado com a minha roupa, mas não estavam sujas e nunca usei roupas consideradas “indecentes” para a sociedade.
 A forma como alguns caras olham, os comentários que fazem, me lembram muito o homem nojento que tive a infelicidade de conhecer aos 6 anos de idade. Principalmente há algumas semanas atrás, quando estava sentada no banco do ônibus e um homem parou ao meu lado e começou a se esfregar em mim. Eu não acreditava no que estava acontecendo, sou apenas uma menina de 16 anos, indo à escola para conseguir conquistar meus sonhos e dar orgulho à minha mãe. Tive vontade de empurrá-lo, gritar, mas apenas tentei me afastar um pouco, estava presa lá e me sentia tão envergonhada e suja, que não consegui reagir. Uma mulher percebeu e comentou com um homem ao lado, e eu fiquei esperançosa que ele fosse me ajudar, mas simplesmente fez um gesto como se fosse normal e virou as costas. A minha sorte é que a mesma mulher comentou algo sobre isso em voz alta e o cara saiu de perto. Não tive coragem nem de olhar para o rosto do homem, e depois que saí do ônibus fiquei com a sensação de que o cara poderia ser qualquer um na rua, ou que os homens na rua poderiam ser iguais a ele.
 Um dos poucos dias que reclamei de uma abordagem grotesca, me responderam “Quem mandou ser gostosa?” . A partir da puberdade, as mulheres começam a ter seios e bunda maiores, qual é a nossa culpa nisso? Nossa culpa é ter nascido mulheres? Até nos países em que mulheres usam burcas, chegam a ser estupradas. O contexto da roupa não é desculpa para atos assim. Isso é falta de respeito, é doença, e o pior é que muitos tratam como algo normal. Pode até ser comum, mas normal não é.
 Evito  sair no horário em que ocorreu isso comigo, antes de sair tenho medo de que minha roupa modele demais o meu corpo e que encontre mais um cara nojento por aí. Faço tudo o que tenho que fazer, normalmente, mas já ocorreu algumas vezes, como hoje, de eu lembrar do que já me aconteceu e ter crise de choro, não conseguir sair de casa e pegar um ônibus, com medo de que ocorra novamente. O jeito é enfrentar isso, fazer a diferença, entender que é algo muito mais frequente do que parece ser e que não podemos ficar passivas diante de atos de tantas pessoas covardes e doentes. “

Cibele P.

“Num ponto do caminho veio um “bando” de garotos sem que eu percebesse e bateram na minha bunda, passaram a mão em mim como se eu fossem cegos tateando algo e me ofenderam com palavras nojentas, muito nojentas. No primeiro momento me senti acuada e sem reação (talvez por que eram muitos), a não ser berrar que mataria eles e como eles foram filhos da puta!”

V. F.
“Quando eu tinha 10 anos estava numa feira de artesanato. Vestia calça jeans e um top laranja. A feira estava cheia e enquanto eu olhava alguns colares, um homem tentava abrir passagem por trás de mim, sem conseguir, já que levou uns 5 minutos para sair. Pelo menos foi isso que eu achava. Quando cheguei em casa e contei sobre isso levei bronca da minha mãe que me mandou tirar aquela roupa e tomar banho imediatamente. Comecei a chorar, pois finalmente havia entendido que o homem estava se esfregando em mim e não abrindo passagem.”

Laís S.
“Atualmente tenho 18 anos, mas, desde os 14 anos, um rapaz bem mais velho que mora na minha rua, somente algumas casas depois da minha, começou a soltar piadinhas sempre que eu passava por ele. Além do constrangimento provocado pelas piadas indecentes, estas eram gritadas no meio da rua, na frente de quaisquer pessoas que estivessem por perto, o que me constrangia mais ainda. Por causa de todo esse constrangimento, passei a ficar com medo de sair sozinha de casa, pois, na maioria das vezes, tinha que passar pelo sujeito e ser assediada publicamente. Assim, passei a utilizar um outro caminho para chegar em casa, muito mais longo do que o de costume, perdendo, assim, minha liberdade de locomoção. Hoje em dia ainda sinto medo quando passo por ele na rua, porém, não desvio mais o caminho e ele não diz mais nada quando passo – felizmente acho que se cansou de tanto ignorá-lo.”

Milena
“Eu trabalhava em São Paulo, pegava o trem em Santo André as 6:30am que sempre estava cheio, um belo dia ao entrar no trem não consegui ficar proximo a porta ou a algum apoio, fiquei pela inercia entre as pessoas sem ter aonde me segurar, estava de roupa de trabalho normal, com uma mochila a frente do meu corpo. Um pouco depois que o trem partiu da estação comecei a sentir uma mão subindo a minha perna, comecei a sentir nojo daquilo e de tanta raiva eu acabei gritando: a pessoa que está subindo a mão na minha perna pode fazer o favor de tirar??? para todo o vagão ouvir, senti  a mão sumir e eu novamente gritei: muito obrigada! e o vagão me aplaudiu, nesse momento chegamos a outra estação e um casal proximo a porta perguntou aonde eu iria descer e pediu para que eu ficasse entre eles caso o safado aprontasse de novo. Foi uma sensação horrível, eu não sei o que me deu para ter gritado, sou muito controlada, estava me sentindo tão invadida naquele momento que o grito saiu como libertação para aquela situação, tive muita vontade de chorar.”

Anna C. B.
“Aí por 19:30 horas, resolvi dar um breve passeio na beira da praia. Esta praia que eu frequento é muito tranquila e sempre me senti segura. Bem, dobrando a primeira esquina após a rua da minha casa, vi uma moto saindo de uma garagem e percebi que ela diminuiu a velocidade como se quisesse esperar eu passar na sua frente. Discretamente, fui ao outro lado da calçada e logo escutei um “Nossa… princesa!”. Me senti incomodada, mas ao ver que havia mais de uma pessoa circulando pela rua, me senti um pouco mais segura. Continuei caminhando e cheguei na beira da praia, fiquei um tempinho por lá (…) decidi voltar para casa. Andando, eis que surge novamente uma moto, aquela moto. Ela passa por mim rapidamente e solta um “Linda, hein?!” e foi. Comecei a acelerar o passo, pois já estava começando a escurecer e já não havia tanta gente na rua. Novamente fingi que nada fosse, mas continuei caminhando, mas também não queria mostrar que estava com medo. Escutei o ronco da moto voltando. Por mais que algumas poucas pessoas estivessem por perto, o motoqueiro não se sentiu intimidado para parar do meu lado e me chamar de “Princesa!”. Eu acelerei meu passo mais ainda. Parou, chamou, passou, chamou novamente… e voltou! Aí parou na minha frente e disse “Linda, tá com medo, hein, Princesa? Tá com medo?”. Não bastou assediar, ele jogou na minha cara a insegurança que eu estava sentindo. E eu precisei demonstrar que estava com medo, saltei para o lado e nem conseguia olhar para a direção dele. Medo, medo mesmo. Parecia que a rua não tinha mais fim e que todas as pessoas haviam sumido. Minha vontade mais profunda era de soltar uma resposta à altura, mas e aí?! É claro que eu não deveria, não naquela hora, não naquele momento, não sozinha. Finalmente o final da rua chegou, corri até minha casa, tenho certeza que ele não viu onde entrei. Mas senti uma fragilidade imensa, nossa palavra feminina e cansada desse tipo de comportamento já deveria bastar, mas infelizmente é pouco. Me senti diminuída e com medo de ser estuprada, machucada. Por mais que isso tudo tenha acontecido em minutos e que ele não tenha encostado um dedo em mim, esse episódio ficou gravado na minha memória, junto com a revolta de eu não poder me defender e de ele ter demonstrado o quanto se divertiu assistindo ao meu medo. Não deveria ser assim.”

Carolina E.
“Bem, tenho 15 anos e já me assediaram muitas vezes, infelizmente, como qualquer outra mulher que relata aqui… Enfim, eu já fui estuprada com uns 9 anos de idade, dentro de casa, e o marmanjo estupido era o melhor amigo do meu pai! Eu não tinha corajem pra contar pra ninguém. E eu me dizia que nunca mais iria acontecer algo comigo porque eu iria matar o cara… Mas no ano passado, eu estava viajando de ônibus com minha irmã e minha mãe, estávamos no ultimo assento, ou seja, atrás das cadeiras tinha um espaço lá… No ônibus tinha uns caras que ficavam quieto lá, eu nem cheguei a me preocupar com algo, e tirei um cochilo, e de repente acordei com uma mão na minha coxa, o braço vinha atras da cadeira, me dei conta de que minha blusa de botão tava aberta além do botão da calça jeans, que ainda bem, era apertado. Eu gelei, não me mexia, fiquei olhando ao redor até que eu num movimento rápido fui ligar a luz em cima da poltrona. O cara correu na hora, mas eu vi quem era. E tive de contar pra minha mãe. Bem, na primeira vez que sofri com isso, eu não disse nada, e nessa, eu falei, chorando. Uma lição que aprendi é que você nunca deve ficar quieta se te molestarem, você quieta vai estar sempre com um peso enorme na mente.”

Claire P.
“Eu tinha uns doze anos (reta e inocente em tudo), e decidi ir na Pracinhaatrás de casa fazer uma pesquisa para a lição de Ciências da escola. Eu estava sozinha, mas não me preocupei muito com a rua vazia porque era de tarde e não estava longe de casa. Nas duas quadras que atravessei, um cara de bicicleta começou a me seguir: toda vez que eu mudava de calçada, ele ia atrás. Um tempinho depois, ele se adiantou e quando me aproximei, ele me mostrou o pênis, enquanto o acariciava. Lembro dele dizer alguma coisa que não entendi. Foi tão traumatizante que saí correndo pra casa – tomando o caminho mais longo, apavorada. Lembro claramente do desespero, e da vontade que tinha de gritar para que qualquer um que passasse na rua me ajudasse – mas fiquei calada.”

Cintia V. S.
“Eu devia ter nove anos de idade a primeira vez que ouvi um gracejo na rua. Nunca esqueci, pois não sabia do que se tratava, nem o que eu havia feito de errado para passar por aquela situação. Eu fui à padaria comprar pão, bem perto da minha casa, e, na volta, um homem, que tinha idade para ser, no mínimo, meu pai falou ‘tesão, gostosa’. Cheguei em casa chorando. A minha mãe veio saber o que tinha acontecido. Eu contei a ela e ela, no maior embaraço, me explicou. Eu nem sabia o que era tesão! Lembro até hoje de ter ouvido ela contar a história ao meu pai e ele, homem nascido na década de 1940 e criado no interior do Rio Grande do Sul dizendo: ‘Ela já está chamando a atenção dos homens. Devemos evitar que sai sozinha na rua’.”

M. A.
“A vez que eu era ainda uma adolescente, passei na esquina de casa e um grupo de meninos mencionou palavras baixas pra mim. Abri a porta de casa e entrei chorando e com raiva.  Então, quando eu vi a matéria hoje, pensei ‘nossa, tudo o que eu sempre penso e não sei expressar’. Resolvi tomar coragem e compartilhar uma de suas imagens da campanha em apoio. Até pensei que alguém poderia não entender, ou pensar que eu estava me achando. Não deu outra… postei e advinha o primeiro comentário que chegou: ‘tá se achando em negrinha’. Meu próprio marido, acredita!”
L.
No final de 2012 eu fui à um dermatologista. Era minha primeira consulta com ele.  Tudo ia normal na consulta, até que ele pediu para eu ficar só de lingerie. Achei estranho, já que a reação que reclamei não aconteceu no corpo inteiro, apenas no pescoço. Ele retrucou dizendo que precisava ver se eu tinha manchas pelo corpo. Como qualquer outra pessoa que procura um profissional, eu não coloquei em dúvida a teoria dele e acabei fazendo o que me pediu. O meu desgosto foi ver que ele fazia questão de tocar-me. Isso me incomodava tanto que só queria não estar ali. O mais perturbador foi quando, de repente, ele puxa meu soutien para frente e analisa meus seios, fazendo um comentário sobre os meus mamilos (pequenos, escuros e BONITOS!) e, não feliz o bastante, começou a perguntar da minha vida pessoal.”

Maria B. L
“Uma vez eu estava voltando para casa, andando, quando três meninos passaram por mim e começaram a falar “Que é isso!”, “Vem cá, novinha”, “Se eu te pego…”; acontece também muitas vezes de motoristas de caminhão buzinarem (quando estou com as amigas eu tenho mais coragem para responder com um “Me respeita, tarado”). Mas o fato que me magoou foi quando ‘amigos’ me desrespeitaram. Uma vez, dentro da sala de aula, nós estávamos conversando e algum deles me beliscou, brincando, e eu dei um grito porque havia doido, quando eu fiz isso um outro garoto falou ‘Se ela grita assim com isso, imagina na cama?’ e os outros começaram a rir como se fosse algo realmente muito engraçado. Eu não fiquei calada! Falei poucas e boas, me revoltei. E ele só respondeu ‘É por isso que tu é chata’.”

Camila V.
“Minha casa está em reforma e meus pais me deixaram com a tarefa de pagar os pedreiros. Não tive coragem porque, apesar de eu ser filha do patrão, eles sempre olham e eu me sinto vulnerável e indefesa na minha própria casa. Desde criança, faço questão de ficar feia para não ser notada e isso é uma anulação muito grande.”

Carina M.
“Uma vez, aos 18 anos, estava numa rua conhecida pela quantidade de bares e pela forte presença do publico jovem à noite. Estava bem cheia de gente, e eu e minhas amigas, sabendo que sempre tem um engraçado que tenta nos segurar pelo braço, estavamos nos segurando umas nas outras pela alça do cinto ou pela mão, andando em fila. Como eu era a ultima, um homem tentou agarrar meu braço, mas eu escorreguei da mão dele e escapuli. Em seguida, senti um tapa forte atras da minha cabeça e ouvi um monte de xingamentos. Por alguns segundos não entendi nada, depois continuei em frente, morrendo de medo de ser agredida novamente.

Eu tinha 20 anos e tinha que sair de casa muito cedo pra pegar o ônibus que me levava à faculdade. Por volta das 5h30 da manhã, as ruas estavam desertas e ainda estava escuro. Eu estava andando por uma rua relativamente iluminada, mas deserta, e um homem estava andando na calçada na minha frente. Como eu estivesse com pressa e com medo, tentei ultrapassa-lo. Ele se voltou subitamente contra mim e enfiou a mão entre minhas pernas – eu estava com uma saia até o joelho. Eu gritei desesperadamente e comecei a bater nele sem nenhum critério. Ele saiu correndo. Eu continuei chorando e gritando, desesperada, acordando a vizinhança; e continuei o caminho até o ponto de ônibus. Agradeci mil vezes por estar usando um absorvente externo na hora, mas mesmo assim, até hoje eu me lembro daquela sensação nojenta da mão dele em mim.”

Amanda D.
“Eu costumava pedalar pelo meu bairro todos os dias, uns 8 km mais ou menos. Num desses dias eu estava numa descida, ou seja, com bastante velocidade. Ao me aproximar do semáforo, um rapaz que estava panfletando quase se joga na minha frente pra me chamar de ‘linda, gostosa’. Eu estava rápido, me assustei e gritei “sai pião!”. Ora, a possibilidade de perder o equilíbrio com aquela pessoa na minha frente e cair no asfalto era grande. Nunca gostei dessas cantadas e geralmente respondo. Nesse dia, na metade do meu percurso, meu pedal quebrou. Tive de andar cerca de 4 km andando, trazendo a bicicleta comigo. Ao passar de novo pelo semáforo (muito tempo depois) o mesmo cara estava lá. E de longe ele me viu. E percebi que eu estava, naquele momento, sem poder subir na bicicleta, completamente indefesa. A cada passo eu percebia que ele estava muito indignado, que ele possivelmente iria me atacar. Fiquei com medo. Não tinha como fugir. Minha imensa sorte foi que o transporte dele chegou na mesma hora. A van parou, ele subiu e fui passando. Mesmo assim ele me xingou de piranha, subindo na van, com outras pessoas ao redor. Imagino o que ele teria feito se a van não tivesse chegado…”

Barbara G.
“Meu corpo nunca foi lá essas coisas, não que eu não goste dele, sou magra, pequena e tenho corpo de 16 anos. Os meninos da minha idade não davam em cima de mim. Mas os homens mais velhos falavam coisas obscenas para mim, o que me dava muito nojo e eu me sentia culpada. Um conhecido sempre que me encontrava me abraçava e roçava o pau na minha perna, até o dia que eu mandei ele roçar na mãe dele e ele parou, não sem antes dizer  ‘achei que você gostava’. Estava no 2º ano, tinha 15 anos,  andando com uma amiga de mãos dadas, um cara no carro parou, bem perto. Ficou gritando ‘Vocês precisam é ser bem comidas, vem aqui que eu como vocês’ e ninguém na rua fez nada, eramos apenas amigas, andando juntas com medo dos homens e estar de mãos dadas nos dava segurança. O pior é que estávamos perto de um hospital militar e os caras ficaram soltando gracinha pra gente também.

Patrícia J.
“Estava indo para minha casa no domingo à tarde, por volta das 16h. Desci do ônibus em uma avenida movimentada da Lapa, em São Paulo, e estava subindo a rua do meu prédio. Comecei a ouvir um bando de homens gritando ao mesmo tempo: Assobios, “Fiu, Fiu”, “Gostosa! Gostosa!” Conforme eu andava e me distanciava deles, os gritos aumentavam: “Você é gostosa!”, “Ô, gostosa!”. Não olhei para trás, nem sei dizer quantos eram. Pelo menos dois, com certeza. Mas acho que estavam em 3 ou 4. Apertei o passo para chegar mais rápido ao meu prédio. Como os gritos ficavam cada vez mais altos, tive medo de que eles estivessem me seguindo. A rua estava vazia, então fiquei muito nervosa. Foi aí que ouvi o pior “adjetivo” de todos: “Caralhuda!”. Nessa hora fiquei com muito medo. Por sorte, nesse exato momento, um rapaz saiu da casa dele em direção a um carro estacionado do outro lado da rua. Quando saiu e ouviu a gritaria ofensiva, ele conversou comigo, comentando como a atitude era ridícula. Acho que a presença dele inibiu o bando, que parou de gritar. Cheguei na minha casa ainda trêmula de medo e pensando em nunca mais usar aquele vestido…”

Natália D.
“Tenho 22 anos, todos os dias quando vou para o ponto de ônibus pegar o transporte para o trabalho por volta das 11h30, tem um senhor bem de idade sentado no ponto, fumando um cigarro, já bastante debilitado com dificuldades até para andar, ele mora em frente ao ponto de ônibus. Nesse horário não tem ninguém no ponto só ele, e na maioria dos dias eu vou com o fone de ouvido então não escuto nada. Um certo dia esqueci o fone, quando cheguei o senhor estava lá, e de repente ouvi ele resmungar algumas coisas, não entendi direito e parei para prestar atenção, quando prestei atenção ele estava falando VÁRIAS palavras obscenas para mim, na hora me deu um ódio tão grande, nojo e constrangimento, mas o que eu poderia fazer?”

Laura C.
“Tenho 18 anos e estou no terceiro ano da escola. Desde o primeiro ano do ensino médio, o porteiro da escola é o mesmo. Como vou a pé para a escola, dava bom dia para ele e ele me respondia, educadamente. Ao decorrer do segundo ano os “bom dias” passaram para “você esta linda hoje” ou até “você é a menina mais bonita da escola”. Isso já não era apropriado e me deixava desconfortável, mas também não era ofensivo. Entretanto, um dia passou dos limites: ‘você deve ficar linda de biquíni’. Um dia, cheguei atrasada na escola e ele abriu a porta para mim. Nisso, pegou na minha mão e fez um gesto que muita gente não conhece, mas existe! Passou o dedo indicador na palma da minha mão, que significa- vamos transar – (muitos homens fazem isso no carnaval, por exemplo). Falei com a coordenação e ele continua na porta da escola. Tenho que passar por ele todos os dias. E o pior é que ele trabalha tanto para os mais velhos como para CRIANÇAS!”

Lorena B.
“Era uma calourada de um curso universitário. Uma certa hora, um cara chega pra mim, já se impondo querendo me beijar. Eu disse que não. Ele insistiu. Continuei dizendo que não, e ele continuou a insistir. Quando eu consegui sair dele, ele começou a me xingar: piranha, essa menina é uma piranha.”

Ursulla M.
“O pior assédio que já sofri foi quando estava dentro do ônibus e vários torcedores entraram no veículo, gritando, batendo no teto, fazendo terrorismo. Eu estava com medo, mas sob controle, até que eles começaram a gritar: ” Ô branquinha, vou comer seu cu.” Eu fiquei apavorada, e um senhor que estava sentado ao meu lado, que não era desse grupo de torcedores, falou que ia descer no próximo ponto e que poderia “me escoltar”. Eu desci em um ponto que não era o meu, aos prantos e nunca mais peguei ônibus em dia de jogo.”

Camila B.
“Eu tinha 14 anos e estava de férias, mas havia ficado na minha cidade do interior do Rio Grande do Sul. Acompanhada da minha melhor amiga, atravessamos a cidadezinha para curtir a piscina do clube. Era verão, usávamos saias, mas mal tínhamos corpos formados. De repente um homem passou de bicicleta ao nosso lado e falou alguma coisa que não conseguimos compreender. Ele fez questão de dar a volta, se aproximou devagarinho, pedalando com o pau pra fora da bermuda. Ele batia punheta e sussurrava “pau duro! pau duro!”, se aproximando da gente. Foi nojento. Não sabíamos se deveríamos correr ou fazer de conta que nada estava acontecendo. Sempre fico pensando o que aquele homem seria capaz de fazer se eu estivesse sozinha… Me dá medo só de pensar.”

Carolina C.
“Eu tinha 10/11 anos e vestia uma blusinha branca de malha do tipo baby look, nada de especial: nem muito larga, nem justa (quanto menos provocante!). Meus seios estavam começando a crescer, mas eu ainda não usava sutiã. Foi quando um taxista já bem mais velho disse que eu tinha uns “limõezinhos” lindos. Quis chorar, bater naquele pedófilo asqueroso, sumir do mundo… Senti  como se eu tivesse provocado usando uma roupa inconveniente e mudei muito minha maneira de vestir. ”

Débora B.
“Hoje tenho 17 anos, mas tudo aconteceu quando eu tinha 15. Nunca fui de frequentar baladas e festas do tipo, mas fui com umas amigas por pura insistência. Ao atravessar a pista lotada, eu e minhas amigas estávamos andando em fila, de mãos dadas, e eu estava por último. No meio da escuridão e da confusão da festa, um grupo de meninos me cercaram e passaram a mão na minha bunda, na minha vagina e, não sei como, abriram meu sutiã e apalparam meus seios. Fiquei desesperada e, quando consegui me soltar, corri ao encontro das minhas amigas e chorei como nunca, em desespero. Ninguém que tenha visto a situação tentou me ajudar, ao contrário, ouvi risadas e xingamentos. Depois do acontecido, fiquei relembrando a situação por semanas e nunca mais fui em nenhuma balada e festas do tipo. Me sinto humilhada até hoje, e consigo lembrar com clareza do sentimento de inferioridade que me invadiu na hora.”

Alice F.
“A minha é essa: num dia de chuva torrencial em São Paulo, o trânsito ficou impossível, como sempre. O corredor de ônibus da Av. Rebouças parou e todos os passageiros desciam dos ônibus para ir a pé. Eu estava toda molhada por causa da chuva, quando passaram por mim uns caras dizendo “Tá molhadinha? Vem cá que te esquento”. Eu não respondi e continuei andando.”

Paula P.
“Durante um carnaval na praia eu e minhas amigas estávamos andando em um lugar muito cheio tentando chegar em uma barraquinha. Um homem chegou em mim, me cantando e me segurando. Eu falei que não queria e tentei sair andando atrás de minhas amigas que continuaram seguindo e não olharam para trás. Eu tentei fugir e ele me segurando e eu falando que não queria ficar com ele. Ele me agarrou e me beijou.”

Nadja F.
“Acabo de voltar de uma simples ida ao mercado, num sábado de sol, numa avenida movimentada. E qual não é a minha surpresa (não, realmente não é surpresa) ao ser rodeada por dois homens que tranquilamente ao longo do percurso que fazíamos na mesma calçada, falam todo tipo de gracinhas e obscenidades pra mim. Perfeitamente normal para todos ao redor inclusive que notaram, o meu olhar constrangido, a minha cabeça baixa e o meu passo cada vez mais acelerado. Eles se aproximavam cada vez mais e quanto mais eu acelerava o passo mais eles aceleravam também. Quando pude, desviei bruscamente do caminho, não com medo, com muita raiva. Pra ter que ouvir muito mais sacanagem e muito mais alto. Tudo normal, como um sábado qualquer de sol numa avenida movimentada. Resolvi desabafar aqui pois pra qualquer pessoa que eu disser, até mesmo a minha mãe ou alguns amigos mais próximos (não por maldade, por ignorância mesmo, por costume, sei lá) vão me perguntar: “Ah, mas você tava com roupa decotada?” Não, não estava, num dia de calor eu evito sair com roupas decotadas pra não ter que passar por isso. Foda-se, e seu eu tivesse? Bom, comecei a pensar, e ainda tô pensando e ainda tô com muita raiva de isso ser normal. E esse tipo de atitude gera um mal que não é só momentâneo, é gradativo e crescente, pois antes eu lidava com mais calma, mais serenidade talvez. Mas hoje isso afeta o meu equilíbrio. Tenho cada vez mais raiva. Isso reascende velhos fantasmas. E além disso, percebi outra coisa: Não uso mais brincos faz um tempão. Parece um detalhe bobo né?  Descobri ontem ao perceber que um dos furos da minha orelha estava fechando. Também não tenho me maquiado muito. Não sou um avião, um  mulherão, nunca fui, mas inconscientemente estava buscando ser cada vez menos atraente para evitar esse tipo de situação ao qual estamos todos acostumadas. Não quero parecer dramática, sei que pode ser mais leve, e por isso mesmo quis desabafar, pra transformar esse desconforto em energia, em ação, em mudança. Por onde eu começo? Não quero deixar de ser mulher, feminina, de ver minha força estampada no espelho, pra me fazer invisível e evitar problemas.”

Aline B.
“Trabalho do lado de uma obra e normalmente vou almoçar sozinha. O bairro onde eu trabalho normalmente é tranquilo de andar. Mas esse prédio em construção transformou meu horário de almoço em um tormento. Toda vez que passo na frente, pq é caminho pro restaurante tenho que escutar milhares de ofensas dessas pessoas. Em um dia eu estava mais nervosa que o normal e mostrei o dedo e mandei um dos pedreiros ir se fuder. Agora como se não bastasse, toda vez que ele me vê, vem pedir desculpas, num tom irônico. Já não sei mais que faço, só quero que essa obra acabe para eu poder ter paz!”

Andrea C.
“Estava no Bairro de Sta. Cecilia (São Paulo), por volta das 19h30, conversando com um amigo, aguardando o farol de pedestres abrir, vinha vindo um homem, de meia idade, ele se posicionou entre eu e meu amigo cortando nossa conversa, então olhei para ele e sorri com certa ironia. Aí, ele deu um tapa na minha bunda e saiu andando. Na hora consegui dar uma guarda-chuvada, mas não foi tão forte quanto eu gostaria. Ele continuou andando e rindo, gritei “escroto”. Ele falou umas coisas que não entendi, acho que estava bêbado.  Morri de raiva até agora. É humilhante. Na hora me senti um lixo, depois veio a raiva. Já costumo andar com cara brava e os olhos voltados para o chão para evitar contatos visuais, o que é um saco. Depois do caso, continuei o caminho ao metrô com ainda mais medo de olhar em volta. É triste. Felizmente meu amigo não reagiu com o gênero ‘machão’, ‘eu vou te salvar’, porque não é isso que a gente precisa, ele ficou sem reação também.”

Jucileide F. 
“Um dia estava andando na rua para encontrar um amigo, no meio da tarde, no Butantã, quando um homem que andava atrás de mim começou a gemer. Morri de medo, pensei que ele iria me abusar sexualmente. Corri e encontrei meu amigo aos prantos. O homem tinha sumido, não me atentei para onde foi, queria fugir daquela situação horrível. Além desta outras situações me incomodam enormemente, como quando homens passar e falam absurdos como: ‘que bucetão!’, ‘bundona, ‘delícia huuummm’. As buzinas também me incomodam, pior do que se dirigir à uma mulher com um comentário que invade sua privacidade, seu espaço e sua paz, é fazer dessa invasão uma alusão à imagem de que mulher tem interesse pelos bens dos homens. Como se uma buzina faria ela se arrastar aos seus pés. Digo e repito: seu elogio é um insulto, uma agressão e um desrespeito.”

J. C.
“Tenho 17 anos, e estou terminando o 3º ano do ensino médio. Estudo na mesma escola desde o primeiro ano, e há mais ou menos um ano atrás um professor começou a me assediar. Ele me enviava emails por uma conta fake falando sobre sonhos eróticos que ele tinha comigo, vivia me abraçando pelos corredores (e isso era até normal por que ele abraçava todos os alunos), a diferença é que ele falava coisas no meu ouvido, como “Eu estou louco pra pegar nos seus seios”, ou “Você está a cada dia mais gostosa”… coisas assim, e eu ficava super constrangida, e tinha medo que ninguém acreditasse em mim, ou de contar pra alguém por que eu não tinha como provar que ele fazia isso. Há 3 meses saí da escola. O pior de tudo é que ele é um ótimo professor e todos gostam dele. Ele também é casado, e teve uma filha recentemente. Ainda tenho vontade de denuncia-lo por que se ele fez isso comigo, fará com outras alunas também, mas infelizmente sou tomada pelo medo. As pessoas podem até achar que nossa sociedade está sendo sufocada pelo politicamente correto, mas não é apenas uma cantada, são coisas sérias, constrangedoras e que geram uma série de coisas ruins para as mulheres.”

D. K.
“No começo desse ano, fui e um rodeio com uma amiga e meu namorado. Chegando lá nós tivemos que nos separar na entrada para sermos revistados, mas a fila para homens estava muito maior do que a fila para mulheres, então eu combinei com o meu namorado que nós iríamos direto para o camarote, já que os meus outros amigos já estavam lá e tanto eu quanto a minha amiga já estávamos preocupadas, pois se mesmo com o meu namorado já tínhamos escutado algumas cantadas horríveis, imagine então sem ele! Quando chegamos lá, eu fui pegar o meu celular na bolsa, pra ligar pro meu primo, pois ele que estava com os nosso ingressos, quando eu estava abrindo a bolsa a minha amiga me agarrou pelo braço, me puxando pra trás, na mesma eu senti uma mãe pegando na minha bunda e me puxando pra frente, quando eu vi havia uma roda de garotos nos cercando, eu dei um passo pra trás e senti outro corpo atrás de mim, comecei a entrar em pânico, pois os garotos eram enormes, já estavam cheirando a bebida e nos mandando “parar de fazer cu doce” e outras coisas horríveis. Bem nessa hora o meu namorado chegou e me puxou, mandando os garotos ficaram longe da gente, mas é claro que se eles têm coragem de agarrar duas garotas a força não há problema nenhum em bater em um garoto, né !? Meu namorado apanhou de todos, 6 contra 1, enquanto eu e a minha amiga não pudemos fazer nada pra ajudá-lo, eles só pararam quando alguns amigos meus chegaram e entraram na briga, foi horrível e quando os seguranças do local chegaram meu namorado já tava desmaiado, meus amigos todos machucados e aqueles nojentos já tinham fugido e os seguranças nem foram atrás deles.”

Vanessa B.

“Fui ao centro comercial da minha cidade (moro em Itu, interior de São Paulo), fazia calor nesse dia e por isso estava usando um short. As calçadas estavam lotadas de mulheres, crianças e senhores de idade mas nenhuma dessas presenças impediram um homem que deveria ter por volta de 26 anos de idade, trajado de roupa esportiva e “falando ao celular” de me seguir e esfregar em mim o pênis dele, na hora a única reação que tive foi apertar o passo e despistá-lo, mas novamente ele me alcançou e repetiu essa atitude asquerosa. Ele me seguiu na rua principal inteira e chegando perto de uma rua menos movimentada ele se escondeu em um estacionamento e me esperou pra dar o “bote”.  Sei lá porque mas eu peguei meu celular e fingi que estava conversando com alguém sobre o que estava acontecendo, ai ele sumiu rapidinho. O pior de tudo foi a reação dos meus pais, do meu irmão e do meu namorado ao saberem do ocorrido, eles simplesmente disseram que a culpa era minha (oi?) por eu estar usando um short, que eu chamei atenção e como ele não me conhece vai me achar fácil e ter esse tipo de atitude.. Fiquei extremamente confusa com o que eles me disseram, mas eu sei que eu não tive culpa de nada. Eu tenho o DIREITO de me vestir da forma que eu quero, eu tenho o direito de ser respeitada, um simples short jeans não é um código que diz que eu quero ser tratada feito um objeto sexual. Já fui assediada por homens em diversas situações, até mesmo quando eu estava doente dentro de um hospital, mesmo usando um uniforme escolar, então essa história que a agente provoca os homens pelo tipo de roupa que usamos é só mais uma desculpa dessa sociedade machista que trata a mulher como um objeto sexual, um pedaço de carne e nada mais.” 

N.
“Fui em uma balada e quando minha amiga estava ficando com um garoto (eu namoro,então estava ali por perto,dançando,enfim) um grupo de 3 meninos me cerca falando coisas do tipo ‘é agora hein!! tá na hora!!’ não entendi nada e respondi que namorava.Um deles me segurou pelos pulsos e outro pela cintura,achei que fosse uma brincadeira sem graça e fiquei sem reação até que sinto que o terceiro menino (que eu nunca vou saber o rosto) passou a mão por baixo do meu vestido na minha vagina.O menino soltou minhas mãos e eu corri,não conseguia gritar,xingar,bater ou nenhuma das coisas que sempre jurei que faria caso isso acontecesse comigo. Me senti culpada por usar um vestido curto,senti raiva do policial que não podia fazer nada.Só consegui cair em mim e chorar quase uma hora depois.”

Michele M.
“Ano passado as 20hs eu estava de bicicleta e cruzei com um homem que tirou seu pau pra fora da calça, e balançou-o em minha direção. Aconteceu em uma rua de muito trânsito de carros, saí gritando “pega o tarado”, acho que ninguém nem me escutou, aí mais pra frente cruzei com um casal e contei o acontecido. Muito medo.  O mesmo aconteceu à 19 anos atrás (eu tinha 15 anos) em Joinville ao meio-dia, no centro da cidade – eu estava caminhando na calçada e um cara que vinha na minha direção mostrou o pau ereto. Foi rápido, o tempo dele me cruzar. Foi chocante pra mim porém não tive coragem de contar aos meus pais logo que isso aconteceu.”

Camile F. E.
“A última vez que lembro de ter sofrido assédio na rua (foram incontáveis vezes, desde mais ou menos 8 anos de idade – hoje tenho 23), ocorreu num bar. Sentei em uma mesa, onde havia um conhecido, e fiquei uns 15 minutos conversando com os colegas dele. Ao sair da mesa, depois de me despedir e parecer que estava tudo bem, um dos colegas desse cara grita: – TCHAU, GOSTOSA! Aquilo me deixou tão furiosa, que voltei na mesma hora para a mesa, apontei o dedo na cara dele e o xinguei de tanta coisa que nem me lembro mais. Disse que nunca mais ele falasse algo do tipo pra nenhuma mulher, que aquilo era um desrespeito, uma violência e saí chamando-o de “machista babaca”, com meu conhecido – tão machista quanto, me pedindo desculpas e ele estupefato na mesa. Terminei revoltada, mas ao mesmo tempo orgulhosa de mim mesmo, por ter tido coragem em reagir.”

Isabella A.
“Estava numa balada em Seul e lá o agarramento nas baladas é tenso. Mil caras colocam a mão no seu ombro e na sua cintura tentando dançar com vc. Mas o que me deixou com muita raiva foi que eu tava tentando passar no meio da galera pra ir no banheiro. A boate tava cheia. Do nada uma mão que até hoje eu não sei daonde veio, agarrou a minha bunda. Mas nao foi tipo só passou a mão, ele realmente agarrou a minha bunda. Eu fiquei muito traumatizada, foi horrível.”

Antonielle M.
“Foi em 2011, eu estava andando num gramado entre a biblioteca e o prédio da minha universidade, umas 18h, quando três caras bêbados e sem camisa apareceram no meu caminho, me cercaram e começam a me chamar de gostosa. Apertei o passo e falei que eles deveriam ter mais respeito comigo. Um deles perguntou onde estava minha aliança para eu ter respeito. O outro disse que teria respeito comigo me fudendo. Corri em direção ao prédio, chorando, e liguei para a polícia. Eu ia fazer uma prova às 19h e foi bem difícil manter a concentração.”

Renata T. B.
“Aconteceu aos 12 anos: Moro perto de um parque muito grande, com espaço pra trilhas e área para pic nic. Certa vez minha mãe e minha tia levaram eu e minha prima pra passar a tarde no parque. Estávamos andando a frente (eu e minha prima) quando um cara começou a nos seguir de longe, após algum tempo minha mãe e minha tia perceberam e chamaram os guardas e os avisaram do tarado que estava “seguindo as meninas”. Os guardas acharam que elas falavam de duas jovens que estavam perto e um deles falou “mas entenda o cara, elas estão provocando” (perto de nós havia duas moças de uns 20 anos, de roupa mais justa), minha mãe quase espancou o guarda, revoltada.”

Natasha
“Quando eu era pequena, tinha no máximo uns 7 anos, fui brincar com uma amiga minha na casa dos avós dela. Fomos até um quartinho que ficava no fundo da casa para pegar umas panelas antigar para brincar, e o avô dela foi até lá para nos ajudar a achar o que procurávamos. Bom, isso foi o que ele disse à avó dela, não é? Enquanto a minha amiga se pendurava numa cadeira e tentava pegar uma caixa em cima do armário, ele, sem desviar os olhos da janela do quartinho que dava para o quintal e para a porta da cozinha, onde a mulher dele estava, se abaixou e começou a apalpar minha bunda. Eu sei que eu entrei em desespero, fiquei sem reação, parada, e sem saber o que fazer. Falei para minha amiga que não queria mais brincar, e fui correndo para minha casa, que é do lado da casa deles. Nunca mais sequer falei com essa minha amiga com medo de que ela me convidasse novamente para ir brincar na casa dos avós dela. Tenho um pavor enorme de ser assediada. Quando vou à praia ou à piscina não tenho coragem de tirar a saída de banho por vergonha de que os outros fiquem olhando para mim. Eu tenho noção do meu corpo, e eu já chamo atenção sem me expor, por essa razão fico com medo de me vestir da maneira que gosto.”

Bel
“Tenho 20 anos. Certa vez, fui assediada dentro de um consultório médico. De um oftalmologista de 63 anos. Eu entrei sozinha na sala, embora minha tia tivesse me acompanhado até a sala de espera. Sente na cadeira, e ele ficou de frente para mim sentado também, fazendo os exames nos meus olhos. Eu estava de shorts. De repente, ele simplesmente tirou os olhos do aparelho onde fazia o exame e me disse: “Aí você mata o véio, hein?”. Na hora fiquei sem reação alguma, paralisada, com os olhos cheios d’água, com medo de me manisfestar e ele fazer alguma coisa comigo dentro do consultório. A consulta terminou, saí e fui em direção a minha tia, ela perguntou se eu não ia marcar a reconsulta eu disse que não. Quando entramos no carro, comecei a chorar desesperadamente, muito assustada e com nojo. Liguei para os meus pais, e em seguida fui com a minha mãe na delegacia fazer um B.O. O delegado, felizmente, ficou do meu lado e também indignado com o episódio. Processei o nojento do médico. Minha revolta era tão grande, que não conseguia entender o que tinha acontecido. Era como se a roupa que eu usava, justificasse o comportamento asqueroso daquele ser. Como se não bastasse, dias depois do “digníssimo doutor” receber a intimação em sua clínica, recebo uma ligação da coitada da esposa deste cara. Me intimando, querendo saber o que tinha acontecido, e insinuando/querendo saber se eu tinha processado ele para envolver dinheiro na história (como se eu tivesse processado para tentar tirar grana deles). Processei ela também. No dia das audiências (tanto dele como a dela), nada demais aconteceu…destinaram uma quantia $$ a uma instituição feminina de combate ao câncer da minha cidade, e nem crime este ato foi considerado. Enquanto a bonitona na esposa dele, no dia da audiência estava la toda enfurecida, parece que não pelo fato de eu ter processado ela, mas sim pelo fato de ter dito essas coisas terríveis contra o maridinho dela, achando tudo um absurdo conforme meu advogado falava. ”

Daniela C. F.
“Estava no centro de BH com meu namorado voltando para casa quando passamos por garis que recolhiam o lixo. Três deles passaram por nós e por uma mulher que estava à nossa frente. Eles riam e a chamavam de gostosa com a maior violência nas palavras, projetando a pélvis pra frente como se fossem comê-la ali mesmo. Daí eu gritei “tarados!” e fiquei olhando para trás. Eles olharam para mim com uma grande interrogação, sem saber como reagir. Eu vi que eles ficaram desconcertados com meu grito. Meu namorado chamou minha atenção dizendo que eu não deveria fazer isso e eu retruquei que fiz de impulso e porque sabia que estava acompanhada e que se estivesse sozinha eu não teria coragem de gritar daquele jeito porque tenho medo da reação que isso pode causar. É péssimo sabermos que não podemos reagir a uma violência como o machismo em determinadas situações porque corremos risco de uma violência física. Mas naquele dia eu gostei de provocar aquele ar de estranhamento naqueles homens que nunca devem ter sido repreendidos por ‘elogiarem’ uma mulher.”

Elisa C.
“Não passa um dia em que nao escuto alguma cantada. Moro num bairro em Belo Horizonte que está crescendo e por isso é difícil passar por mais de um quarteirão sem passar por uma obra lotada de homens que as vezes gritam algo do alto do prédio em construção. Todos os dias ando cerca de um quilometro dentro do meu bairro para pegar um ônibus e poderia andar um pouco menos se não fizesse questão de desviar de todas as obras do caminho só para não ouvir cantadas. Uma vez estava no ônibus, indo encontrar meu namorado e estava sentada no assento do corredor e comecei a perceber que o cara ao lado sussurrava algo, mas achei que ele estava cantando uma musica, porém ao prestar mais atenção ele descrevia em detalhes a roupa que eu estava usando e como a tiraria se pudesse. Felizmente, já chegava ao meu ponto, fingi que nada ouvi, me levantei e torci para ele não descesse no mesmo ponto que eu. Evito sair depois que anoitece, evito passar por ruas desertas, desvio o caminho quando preciso pegar uma rua mais deserta e me visto com roupas que escondam o meu corpo quando estou a pé, só uso vestidos, shorts ou decotes quando estou acompanhada ou de carro. É revoltante não podermos ter nenhuma liberdade, é exaustivo viver com medo.”

Tatiana S. V.
” Sou muito simples e mesmo assim continuo a ouvir barbaridades. Como em um domingo, passando no calçadão da minha cidade, um homem se aproximou do meu ouvido e disse: “Te jogo na cama e te faço uma puta”. Aquilo me constrangeu e me amedrontou. Hoje tenho 21 anos, não vou a festas, bares e tenho medo de acontecer comigo o que já ocorreu. Outro exemplo, ando muito de ônibus, um dia, ônibus lotado, pessoas amontoadas, não tem muito o que fazer. Um rapaz estava encostando em mim, de início pensei que eles estava com uma pochete, mas quando olhei pra trás, percebi que ele estava tendo uma ereção e estava encostando em mim com cara de prazer?! Fiquei irritadíssima e virei pro cobrador e falei: ” Esse homem está me assediando”. O cobrador nada fez, o rapaz passou a roleta e foi assediar outra garota.”

Janaina
“Quando eu tinha 19 anos, eu fazia cursinho pré-vestibular no centro da cidade (Belo Horizonte/MG). Para chegar lá, eu (e muita gente) tinha que passar por uma passagem entre uma banca de jornal e um prédio – ou era isso ou caminhar na avenida. Um dia, na hora do almoço, passando por ali, percebi alguém sussurrando no meu ouvido grosserias de baixíssimo calão, que nem me atrevo a repetir. O amontoado de gente não andava e foi me dando medo daquele homem me passar a mão. Então, tomada de raiva e indignação, forcei a passagem e, assim que saí do espaço apertado, bati nele com toda a força usando meu caderno. No entanto, ele começou a me xingar e me estapear na cara – logo depois, saiu correndo na direção contrária. Comecei a gritar palavrões e a xingá-lo o mais alto que pude, disse para ele falar aquilo para a mãe e as filhas dele e tudo mais – ninguém na rua entendeu nada e nem fez nada. Entrei no cursinho, chamei um amigo numa sala vazia e passei boa parte da tarde tremendo e chorando no colo dele. Mesmo tendo descontado, isso me dói até hoje. Nesse dia eu não estava de saia, nem short, nem roupa curta, nem decote, nem maquiagem, nem salto, nem nada. E, ainda que estivesse, não seria motivo. Infelizmente, hoje em dia penso dez vezes antes de usar a roupa que eu gosto quando saio, pois sei que estou sujeita a todo tipo de violência só pelo que estou vestindo. Ando sempre de cabeça baixa e desviando de grupos de homens para não ser constrangida, como sempre fui desde que entrei na adolescência. Morro de medo de pegar táxis sozinha e, no ônibus, jamais sento no canto do banco, especialmente se na ponta estiver um homem.”

Larissa P.
“Um dia desses eu havia saído da faculdade e estava indo a pé para minha casa casa. Mais ou menos na metade do caminho ouvi uma sequência de ‘psius’, mas não olhei para trás. Então, fui surpreendida por um homem que me encostou na parede de um mercadinho de esquina. Então ele me segurou e começou a dizer para eu não gritar e ficar ‘paradinha’. Passava aquelas mãos nojentas em mim, tentou tirar minhas roupas e me arrastar para o carro, eu dava gritos desesperados. Então como um anjo da guarda, um moço que estava no mercadinho apareceu e puxou o cara que estava me agarrando e começou a discutir com ele. O agressor então correu para dentro do seu carro e partiu. Saí correndo desesperadamente e nem ao menos agradeci àquele homem que me SALVOU. Já estou cansada de andar na rua e ter medo de todo e qualquer homem que me olhe de maneira ‘estranha’. Mal posso me vestir da forma que gosto, tenho que esconder meu corpo porque tenho MEDO! Estou cansada disso.”


Andrea H.
Estava indo para um médico, peguei um taxista perto da região da Paulista em um hotel e sentei na frente ao lado dele e dei as direções. Como não gosto de silêncios constrangedores dei continuidade a conversa dele. De algum modo, a conversa começou a virar sobre sexo, eu fiquei constrangidíssima e tentava falar o menos possível, pois sou recatada e acho este assunto muito íntimo para falar com estranhos.  Ele começa a contar unilateralmente sobre as aventuras dele com senhoras, como o assunto é normal e deveria ser conversado trivialmente entre pessoas etc. Pessoalmente, a covardia me fez não pedir ele para parar o táxi antes, sou daquelas que tem medo de parecer mal educada. Ao chegar no hotel, ele pára o táxi , me olha de cima a baixo examinando meu corpo e pergunta se já trai meu namorado, se gostaria de… Assustada respondo “Nunca. Está aqui (o dinheiro), bom trabalho”. Ele me olha de cima a baixo, pega o dinheiro e responde  “Bom pra ele, tchau”. Nunca havia sido tão invadida na minha vida, fui ao médico tremendo, voltei para casa a pé na chuva de medo de pegar outro táxi e chorei até não poder mais no colo do meu namorado, perguntando se não seria a roupa (nada mais que uma camiseta e um shorts no joelho), se eu que não cortei a conversa cedo, se não deveria ter sentado atrás no carro: a culpa as avessas que nada mais é que a prova de como o machismo é forte em nossa sociedade.”

Ana S. P.
“Tenho 17 anos e não saio depois das 19h desacompanhada nem para ir ao mercado. De todos os assédios, dois tipos de caso me incomodam profundamente. A primeira, meu uniforme da escola é colegial, há dois anos não uso a saia e a meia 3/4, mas já tive a saia levantada por uma muleta, já fui apalpada, e era “encoxada” quase todos os dias no ônibus. O pior disso, é que sendo fetiche ou não, se você anda com uma roupa de colegial na rua, só tem uma razão: você é colegial. Isso significa que você não deve ter nem 18 anos, e isso não impede ninguém de olhar, como pode?! A segunda coisa que me irrita são os policiais. Uma vez eu saí com uma amiga, ela tinha uns 18 e eu ainda 16, dois policiais acharam que éramos namoradas e começaram a desfiar comentários como ‘depois é estuprada e não sabe porque, tem que aprender mesmo’. Se respondêssemos seria desacato, e quem ouviu nada pôde fazer também. Era sair de perto e tentar esquecer, e sabe se lá quantas meninas ouviram coisas assim antes ou depois de nós e ‘fugiram” também. Essa coisa toda é tão absurda que é a vítima tem de se esconder ou fugir (olha que eu não vou nem falar na lógica do estuprador de que ‘ela deu motivo’).”

Amanda M.
“Antes que me xinguem, quero deixar bem claro que não sou uma baranga mal comida, mal resolvida ou misandrica. Sou uma menina, como sua filha, sua irmã ou como tua mãe um dia já foi. E de antemão, não é que eu não goste de receber elogios. Em festas, reuniões com amigos ou bares, em momentos propícios e de preferência por pessoas de idade próxima a minha, eles são super bem vindos.

Tenho quinze anos e desde os treze que tenho noção que a rua não é de todos coisa nenhuma. O espaço público é machista em seus detalhes e sutilezas. Descobri isso no dia em que dei um “boa tarde” pra um rapaz parado na rua do meu curso de inglês e de volta recebi um “você até serve pra fazer uma espanhola”.

NINGUÉM, seja homem ou mulher, pode me intimidar, constranger ou incomodar dessa forma. Eu tenho o DIREITO de freqüentar as ruas com um sorriso de orelha a orelha sem ter que ouvir comentários sobre minha bunda ou meus seios. Existe apenas algo de MUITO errado em uma sociedade na qual mulheres sentem receio de passar em frente a uma obra.

O grande problema do assedio na rua é que ele parte de alguém que você não conhece. E se você não conhece, não sabe o que esperar. E quando você não sabe o que esperar de alguém mais velho, mais forte e/ou em maior número que acabou de gritar “que peitão” na sua direção… Bom, é desesperador. Seja numa esquina movimentada, num ponto de ônibus vazio ou numa rua escura.

Há dois meses sai pra passear com a minha prima – mais nova ainda que eu – quando paramos pra comprar água num posto onde meu pai costuma abastecer o carro. Na saída da loja de conveniência, indo atravessar de volta pro calçadão, um grupo de frentistas sentados no meio fio, rindo, gritavam “gostosas”.

Eu estava de calça jeans e com uma blusa sem decote. Era dia e eu não estava desacompanhada. Mas pra eles, isso não era nada. Que ameaça eu podia apresentar?

Pensei em fazer o que me foi ensinado: abaixar a cabeça, apertar o passo e rezar pro sinal abrir logo. Mas, pra infelicidade dos frentistas, naquela sexta feira eu tinha tido o prazer de assistir uma aula sobre falocracia. HÁ HÁ, frentistas. Acordei a rebelde dentro de mim, dei meia volta, entrei na loja e chamei o gerente. Ensaiei o discurso enquanto o aguardava. Algo sobre machistas, assédio e incitação a pedofilia. Foi lindo de ver. Ei, minas, estamos juntas nessa.”

Marcella G.
“Tenho 25 anos, mas devia ter uns 12 ou 13 quando eu descobri que andar de short na rua não era mais uma boa idéia. Peis é, mais de 10 anos tendo que aguentar essa baixaria. Saio do trabalho às 20h, sozinha, a avenida tem até bastante movimento, mas a iluminação é ruim e na maioria das vezes o ponto de ônibus está vazio no horário. A única coisa que salva é o movimento da igreja próxima. Estava eu num desses dias, esperando para atravessar a rua, e um homem vem andando pela mesma calçada. Já deu aquela gelada básica, né! Você sozinha na rua escura e vem um cara na sua direção, é até involuntário ficar alerta. Quando ele passou na frente da igreja e fez o sinal da cruz, aliviou um pouco. Cara religioso, né, vai respeitar. QUEM DISSE? Não deu nem um segundo do sinal da cruz e já veio aquela assobiadinha desgraçada. Fiquei atônita por alguns segundos, cadê o tal do “não cobiçarás a mulher do próximo”? Depois até pensei que devia ter falado alguma coisa do tipo “Deus ta vendo!”, mas pra que? Eu estava preocupada demais em sair do trabalho sozinha à noite, atravessar uma rua escura, pegar um ônibus num ponto vazio e chegar em casa bem.”

Amanda
Em um final de tarde, por volta das 17h30, enquanto andava sozinha a caminho da faculdade, em uma rua paralela a uma avenida da minha cidade, um grupo de 7 garotos, creio que a faixa etária não passava de 22 anos, me seguiram. A rua só possuía pouca movimentação de carro e quase nenhuma de pedestres, o que causou uma especie de panico dentro de mim, quando percebi que eles estavam bem próximo e me seguindo. Eles se aproximam ainda mais, e começaram a falar diversas besteiras. Contando o que eles iriam fazer comigo, sexualmente falando, de todas as maneiras e com as “sacanagens mais podres”. Uns falavam e os outros davam risada, como se a “piada” fosse mesmo engraçada. Este foi o momento em que meu coração acelerou de vez e apertei o passo ainda mais, para chegar em um ponto onde houvesse pedestres. Mas a rua parecia não ter fim. Os poucos carros que passavam me viam acuada, andando rápido e nenhum deles parou. Quando finalmente a rua acabou e eu consegui chegar perto de uma família que saia de um mercado próximo desta rua. Então o grupo dispersou e felizmente eles sequer tocaram em mim.  O que mais me afetou neste dia não foram as palavras podres que eles falaram quase ao pé do meu ouvido, mas como o ser humano pode causar um sentimento de repressão e impotência em outro e ver graça nisto.”

Aline
“Quando eu tinha 15 anos (e corpo de 10) estava voltando do supermercado quando me deparei com um carro estacionado quase em frente a minha casa. Na hora achei até que fosse visita, mas quando passei ao lado dele, me deparei com um homem se masturbando dentro dele e me chamando de várias coisas que hoje graças a Deus já me esqueci. Homem esse que outras vezes já havia olhado pra mim ao passar por aquelas bandas. Fiquei muito assustada e lembro que permaneci em casa durante meses sem sequer colocar o pé na rua e quando resolvi contar pro meus pais (pois já vinha sofrendo esse tipo de assédio já tinha dias e até existia um cara que me vigiava na esquina de casa antes de eu ir pra escola) eles me disseram que isso era coisa da minha cabeça e que as pessoas tinham coisas mais importantes pra fazer que ficar mexendo com criança na rua. Hoje (já com 24 anos) não aceito nenhum tipo de agressão (mesmo que seja um assovio) e tento sempre combater esse machismo presente em nossa cultura.”

Mona
“Uma amiga minha postou esses dias no Facebook uma foto na academia, de legging e regata. De prontidão um garoto comentou ‘gostosa, queria pegar você’ e outras coisas (daí pra pior). É claro que eu vendo isso repreendi o menino, mas logo depois me aparece uma MULHER e comenta: ‘A garota deu liberdade e ele que tá errado?’ Deu liberdade? Pois é, viva a sociedade machista.”

Natália
A primeira vez que fui chamada de ‘gostosa’ na rua foi aos 11 anos, assim que menstruei. Eu voltava da escola, quando passei em frente a uma vidraçaria e cerca de cinco meninos de bicicleta começaram a gritar ‘gostosa’. Aquilo foi como um caco de vidro sendo enfiado nos meus ouvidos. Eu tinha deixado de ser uma criança, passei a ser uma ‘gostosa’. Comecei a chorar muito e continuei chorando até chegar em casa. Quando entrei, minha mãe perguntou, desesperada, o que havia acontecido. Eu contei e seu desespero passou. Ela disse: ‘por que você está chorando, então? Isso é bom. Quer dizer que te acharam bonita.’ Não sei se entendi o absurdo que ela tinha acabado de dizer de primeira, mas aquilo me marcou. Eu nunca consegui entender o motivo que levam os homens a acharem que é legal mexer com mulheres na rua, interferindo na liberdade de ir e vir de cada uma, afetando o dia a dia de pessoas, só porque elas não têm pênis. Eu não quero ser gostosa. Não quero receber logios’ no metrô, nem no ônibus, nem na banca de jornal. Quero vestir o meu short curto e não ser advertida de que depois das 20h é perigoso mostrar as pernas. Quero que as mães das meninas de 11 anos não achem divertido e lisonjeador um homem cantá-las na volta do colégio.”

Ariadne
“Quando tinha cerca de 14 anos, na escola, estudava com um rapaz que sempre foi muito folgado com as meninas, porém, na minha sala, havia meninas que davam tal liberdade. Certo dia, ele estava perto do lixo rodando o caderno com um lápis, fui até lá para jogar  qualquer coisa que não me lembro e quando virei de costas, ele passou o caderno por entre as minhas nádegas. Aquilo me ferveu o sangue! Xinguei bastante mas ele não se importou, pelo contrário, deu risada! Na época eu namorava meu primeiro namorado, contei para ele e no dia posterior, teve confusão na escola. Meu ex-namorado o segurou na parede e eu dei um belo soco na cara do  engraçadinho e disse que aquilo era por mim e pelas outras. Cruzei com este rapaz algumas vezes depois de anos, até hoje sinto uma enorme raiva e vontade de repetir o soco. Não aceito nenhum tipo de “fiufiu” ou cantada. E detalhe: não estou dentro dos “padrões” de beleza e não me visto com roupas curtas (não que isso justifique, claro!).”

Veridiana
“desde que comecei a entrar na puberdade e meu corpo foi se desenvolvendo eu escuto comentários, assobios de homens pelas ruas. E o pior é que no começo eu achava que estava errada em usar calça jeans com uma camiseta, sempre achei que o problema era comigo. Até que comecei a frequentar a academia, daí o assédio se tornou insuportável. Eu já cheguei a colocar moletom, “sainha”, tudo para tentar amenizar essa situação constrangedora e mesmo assim não adiantou. Não desiste do esporte, porém hoje em dia a academia fica duas quadras de onde moro e mesmo assim tenho que ir de carro para lá, pois me incomoda muito esse tipo de situação. Me sinto desconfortável e desprotegida em saber que não posso andar tranquila pelas ruas, simplesmente pelo fato de ser mulher.”

Jacquelyne
“Um dia eu estava indo para a casa de um namorado que eu tive, e estava garoando.
Passei em frente de um boteco e ouvi: ‘Nossa que delicia, me fura com esse peitinhos!’. Eu achei aquilo tão nojento e abusivo que voltei para tirar satisfações… E então um homem com um copo de cerveja na mão me disse: ‘Se vc me bater, vai apanhar também’. Meu desejo não era de bater nele e sim de poder passar por onde eu quiser sem ser ofendida. Nós começamos a discutir. Eu o xinguei de nojento, sujo, etc. E ele se desculpou. Eu fiquei com muito medo dele me bater, ou algo assim. Mas eu tinha que dizer aquilo que entalado estava na minha garganta, aquilo que eu acumulei por ter me calado diante de tantas situações similares.”

Jacquelyne
“Uma vez eu tinha indo visitar uma amiga, e ao lado da casa dela tinha dois homens conversando no portão. Um deles disse: ‘Oi, se quiser entrar aqui em casa pra tomar alguma coisa… Um chá, um suco, um banho…’.
Os dois homens riram, eu ignorei e entrei na casa da minha amiga. Fiquei com muita raiva. Depois de uma meia hora, me despedi da minha amiga e os dois ainda estavam no portão. Eu suspirei, revirei os olhos e engoli seco, passei por entre os dois e novamente o cara não hesitou em demonstrar sua “masculinidade-virilidade” para o amigo e mandou um “fiu fiu”. Eu não pude aguentar. Eu tenho o mesmo direito de andar pela calçada como qualquer outra pessoa, sem ser importunada por quem quer que seja. Então eu disse sem olhar para trás: “Sai fora”. E ele ficou louco de raiva, me chamou de vadia, de tranqueira, de vagabunda, disse que eu tava “me achando”, etc… A raiva e indignação tomaram conta de mim. Comecei a discutir com ele. Quem ele pensava que era pra me xingar, me ofender e me humilhar desse jeito na frente de todo mundo? Então como eu não calei a boca e nem abaixei a cabeça… Ele perguntou se eu queria apanhar e me empurrou no chão. Eu me senti tão humilhada, tão indefesa, era uma sensação de abuso muito forte. Mas o pior foi não poder fazer nada. O amigo dele pediu pra ele me deixar em paz e eu fui pra casa toda suja e chorando de ódio, todo mundo me olhou com cara de pena naquele dia e quando cheguei em casa ouvi da minha avó: ‘A culpa foi sua, você não pode responder pra eles’.”

Suellen
Eu tinha 11 anos de idade, foi a primeira vez que mexeram comigo. Morava em São Paulo, numa avenida movimentada, e minha escola ficava a apenas duas quadras. No começo do ano letivo (5ª série) começamos a ter treino de handball no final da tarde. Como estava acostumada a voltar sozinha na hora do almoço, minha mãe e eu não vimos problema em que eu voltasse sozinha no final da tarde, por volta de 17:30h. No primeiro dia do treino, quando parei na faixa de pedestres em frente a escola para esperar o sinal abrir, com o uniforme de educação física, um cara do meu lado me encarou e disse “que buceta gostosa”. Caramba, nem peito tinha direito, nem tinha menstruado ainda! Comecei a chorar desesperadamente e fiquei sem reação, não consegui atravessar a rua e ir embora, com medo. Uma mulher que estava esperando o filho sair da escola viu, veio até mim e me ofereceu carona. Ela me deixou na porta do meu prédio. Eu nunca mais fui treinar handball.”

Marcella
“Uma vez, andando na orla da Praia de Santos na Ponta da Praia (bairro nobre) ao meio dia de um dia de semana, um homem passou por mim de bicicleta, falou algo. Eu não respondi, continuei andando, ele saiu me xingando, muito bravo. Vi quando ele parou num arbusto de uma praça logo a frente. Continuei, apertei o passo, passei por ele. Mais a frente ele me alcançou em sua bicicleta e, sem olhar para trás, para mim, esticou a mão esquerda em direção ao meu rosto e passou nele uma gosma branca… Na hora não entendi o que tinha acontecido. Segundos depois, ao sentir o cheiro do líquido entendi o que ele tinha feito. Limpei meu rosto com a blusa e, humilhada, comecei a chorar pela rua, caminhando os 2 km que faltava para meu destino. Ao chegar na casa do meu namorado tirei a blusa, o short, a calcinha e joguei tudo no lixo, enojada. Contei para meu namorado o que tinha acontecido e ele chorou comigo.”

Andreia
“Semana passada estava descendo uma avenida no centro, não tinha muita gente por causa das férias de julho. Fui perseguida por um homem de uns 30 anos, que ficou sussurrando obscenidades (só entendi o que ele estava falando quando já tinha caminhado umas 2 quadras). Virei pra olhar pra ele e ele desviou o olhar. Aí vi um homem mais à frente e apertei o passo pra ultrapassá-lo. O assediador ficou pra trás. Mais pra frente tinha uma delegacia da mulher, entrei e perguntei se podia fazer uma denúncia, mas disseram que não, porque não tinha o nome do cara nem nada, e que não poderiam sair de lá porque estavam de plantão. Disseram que se acontecesse de novo era pra ligar pro 190 que a viatura mais próxima viria.”

Karoline
“Um dia, eu estava voltando da faculdade e reparei em alguns usuário de drogas que sempre estavam por lá, com pena de toda a situação, mais a frente, vi duas crianças, dois meninos, brincando na beira de um canal, enquanto a mãe usava drogas do outro lado da rua, e fiquei com o coração apertado, tinha acabado de pensar “Nossa, eles devem estar há dias sem tomar um banho ou comer direito”, quando passei por elas, foi aí que ouvi um deles falar “Vai!” e o outro se levantou e APERTOU a minha bunda. Não, ele não passou a mão, não deu um tapa (o que não seria menos repugnante), ele levantou e apertou a minha bunda a ponto de me fazer parar. Contei para algumas amigas e elas riram, acharam a situação engraçada. Crianças? Qual é?! Mas eu só conseguia pensar o que aqueles meninos iam se tornar quando crescessem. Pensei até mais adiante, imaginei como seria se eu tivesse uma filha que viesse a estudar na mesma faculdade que eu, ou trabalhasse por ali e um dia encontrasse aqueles meninos, já homens.”

Ellora
“‘Tenho 20 anos e um dia eu estava numa balada aqui na minha cidade, quando me dirigi ao bar, um homem de mais ou menos uns 30 anos de idade, veio falar comigo completamente alcoolizado, me dando cantadas, e eu respondi com frieza e sai de perto dele. Ok, depois de uma hora mais ou menos, ele apareceu do nada e começou a me ofender e partiu pra cima de mim dizendo que eu deveria respeitá-lo e não tratá-lo da forma como fiz, pois eu não sabia com quem eu estava falando. Sendo que até onde sei, moro em um país livre e não sou obrigada a aceitar que homens me vejam como um pedaço de carne e digam que devo respeitá-los quando não recebi respeito algum. Enfim, fiquei assustada, pois ele grudou em mim de uma forma que achei que ele fosse me bater, tanto é que no momento, entrei no meio de um grupo de homens e pedi que eles me ajudassem e na hora eles já tiraram o cara de perto de mim, mas ele continuou insistindo, até que minhas amigas tiveram que chamar o segurança para que ele pudesse separar o homem e eu pudesse sair dali. Me senti totalmente constrangida e humilhada com essa situação.'”

Amanda
“Tinha 12 anos na época e estudava na sexta série, frequentemente os meus colegas meninos faziam “brincadeiras” bobas com as meninas. Até que um dia fizeram comigo, um dos meus colegas passou a mão na minha bunda, descaradamente, como se fosse natural e eu fosse gostar daquilo. Na hora fiquei sem reação, não sabia como agir. Só lembro de ter  ficado muito brava, e de tanta raiva chegavam escorrer lágrimas dos olhos. Fui diretamente falar com a diretora e explicar o que tinha acontecido, para que ela fizesse alguma coisa. Contudo, quando cheguei na sala dela comecei a chorar de tal  maneira que  não conseguia pronunciar nem uma palavra. Acho que foi naquele momento que caiu a ficha. Fiquei com raiva de mim , me senti culpada por aquilo ter acontecido, suja, não entendia como ele se sentia no direito de tocar no meu corpo sem a minha permissão, como se eu fosse um objeto, que pudesse ser tocado a hora que quisessem.”

Laura
“Quando eu tinha 13 anos, um homem que trabalhava próximo de casa sempre mexia comigo. Em um domingo de manhã, o bairro estava deserto, eu estava na rua de casa quando ele surgiu do nada, me segurou por trás e me encostou na parede, ficou me apalpando e disse que era pra eu ficar quieta e ir com ele, fiquei tão assustada que não tive reação. Tinha um estacionamento perto de onde isso aconteceu, o vigia do estacionamento viu o que estava acontecendo e saiu gritando e correndo atrás do cara, mas ele conseguiu fugir. O vigia me acompanhou até em casa, perguntou se eu queria que ele falasse com meus pais, mas eu estava com tanta vergonha que pedi pra ele não contar para ninguém. Dias depois eu vi o cara de novo e ele continuou mexendo comigo, só parou quando contei a três amigos mais velhos, eles foram atrás do cara e ameaçaram ele. Nunca mais o vi, mas passei meses sem sair de casa sozinha e até hoje lembro da vergonha e da sensação de impotência. ”

Nhayr
“Eu já levei um tapa na bunda bem forte, seguido de um comentário chulo de um motoqueiro(desconhecido por mim) na rua da minha casa. Fui agredida, humilhada e acho que atitudes como essa deveriam ser penalizadas. Basta de assédios públicos e atos de violência contra mulher!!!”

Juliana
“Tenho 16 anos. Eu e minhas colegas realizamos uma pesquisa com as alunas do Ensino Médio e 8ª série sobre essas questões [de assédio]. Fizemos às meninas uma série de perguntas sobre esse tema, e uma delas foi ‘já recebeste uma cantada que te desrespeitou?’ e 80% das meninas responderam que sim. Na pesquisa, havia uma questão dissertativa perguntando se elas acreditavam que vivíamos em uma sociedade machista e 98% das meninas concordaram. Ok, eu já esperava esses resultados. Depois disso, realizamos um debate em sala de aula sobre isso e toda vez que eu expressava minha opinião as minhas colegas faziam expressões de desaprovação pois me achavam muito ‘radical’. Me chamaram de ‘feminista louca’, e já me disseram até que ‘protestar pelo direito de se vestir que nem uma vadia não dá, né?’. Eu fico apavorada, porque nós todas sofremos com tudo isso. Somos humilhadas ao caminhar nas ruas e uma em cada cinco de nós já sofreu ou sofrerá abuso sexual e/ou estupro. Mesmo assim, continuam defendendo valores patriarcais e não apoiam as lutas feministas. Fico meio perdida, com vontade de mudar tudo isso mas sem saber o que fazer porque o machismo está dentro da cabeça de muitas mulheres. Por onde a gente começa?”

Mariana
“Para além de ouvir absurdos na rua, teve um episódio em especial que me revoltou. Há uns anos, eu tava voltando pra casa a pé, sozinha, da Vila Madalena (SP). Era umas 22h. No meio do caminho, um carro com três caras diminuiu a velocidade pra acompanhar meu ritmo e começaram a falar comigo. Perguntaram meu nome, queriam que eu falasse com eles, cheio das gracinhas, “elogios” e risadas. E de repente, no meio dessas falas, o motorista jogou o carro pra calçada, pra bloquear o meu caminho! Atravessei a rua correndo e me escondi dentro de um bar. Eles não chegaram a descer do carro, quando viram que eu atravessei, saíram com o carro e continuaram o caminho deles. Mas eu fiquei tão revoltada!! Tremia de medo e de ódio! Mas continuo voltando pra casa a pé, continuo sem ter carro. Me recuso a não poder andar sozinha pela minha própria cidade (ou qualquer outro lugar!) simplesmente por ser mulher!”

Maria Sadrsg
“Um dia entrei na sala de aula e o prof de Direito Criminal, uma autoridade em SP, me olhou de um jeito e falou umas bobagens na frente de toda a sala.Reclamei na sala e fui xingada. Reclamei na Direção da Universidade e tive de me desculpar por ter respondido a ofensa dele responder interpelação judicial sob ameaça de processo de difamação dele! A classe e as mulheres acharam válido um nojento infeliz fazer aquilo! Só pq é autoridade! Alguns acham lisonjeiro e até vantajoso submeter-se e submeter as mulheres a esse tratamento degradante!”

Cris B.
“É muito triste pensar que isso é o “normal” em nossa sociedade. Quando eu tinha uns 18 anos, estava no interior caminhando e veio um cara na minha direção e simplesmente apertou meus seios. Eu fiquei tão horrorizada e sai pela cidade procurando saber quem era o sujeito. Pois pra minha surpresa, as pessoas da minha própria família riram e disseram que era um homem que tinha problemas mentais… Aí, fiquei eu pensando: por que ele tem problemas mentais tenho que aceitar isso?”

Nana
“Morando 5 anos em Barcelona me dei conta que, por ser brasileira, terei esse ‘medo’ ou me sentirei intimidada eternamente. Aqui ninguém mexe com você, as poucas vezes que aconteceu era latino americano. Nunca tinha pensando o quanto isso é cultural… Várias situações já me provaram esse medo presente no nosso sangue, tipo caminhar sozinha de saia e salto e passar por um grupo de moleques e não acontecer nada… absolutamente nada.”

ELES

Gabriel F.
Eu nunca entendi a ideia por trás das cantadas. Nunca aprendi a ‘passar cantada’, seja na rua, na boate, na faculdade ou na fila do banco. Isso me rendeu ser chamado muitas vezes de ‘viadinho’ ou apenas ter minha sexualidade posta em discussão por passar longos tempos solteiro (sem ‘pegar ninguém’) e não ser desesperado por ‘pegar mulher’.

Também nunca conheci nenhuma mulher que se vangloriasse pelas cantadas recebidas pela vida. As poucas que falavam, eram em tom de indignação e revolta com as situações que passavam. Aprendi que cantadas “em mulher dos outros” é sacanagem, afinal meu pai passava mal de raiva se alguém olhasse duas vezes pra minha mãe, e depois ainda a culpava pelas cantadas/olhadas/fiu-fius que recebia.
Pro meu relato fazer mais sentido, preciso adicionar que sou branco, e minha família pertence à classe média. Fui criado com meu pai contando (enquanto ria) de “cantadas toscas” que ele presenciava durante o dia a dia. Sempre associando esse tipo de comportamento à pedreiros ou porteiros (eufemismo pra negros e nordestinos de baixa escolaridade e classe social baixa), mas isso é assunto pra outro debate. Mas meu pai, por ser homem branco de classe média, nunca faria tal coisa, no máximo ria do circo feito pelos “mais atrasados”. Nenhuma palavra de compaixão pela vítima do assédio.
Mas por outro lado, passar devagar com o carro perto de uma mulher, e dar duas buzinadas de leve, não era problema nenhum. Afinal, que mulher não gosta de um carro? Mas ele sempre alertou pros riscos de fazer isso com as mulheres mais pobres (negros e nordestinos, só que agora na versão feminina) pois essas não tinham nada na vida, e eram “doidas para fazer um filho” com alguem que tivesse dinheiro, só pra viver às custas do filho (pq na favela dá pra viver com pouco dinheiro, alegava ele).
Eu confesso que fiquei com (mais) nojo de todas essas coisas que lembrei enquanto escrevia o relato. Cansei desse lixo hipócrita que os homens héteros estão reduzidos atualmente. E também renego a ideia de que diretos iguais pra ambos os sexos se traduza em estimulo as mulheres adotarem o mesmo lamentável comportamento masculino. Existem muitos homens que também se envergonham dessa cultura nojenta de objetificação, muitos de nós que também não aguentamos mais a pressão social que nos empurra pra sermos ‘máquinas de sexo’, ‘pegadores’ e afins. Existem muitos de nós que estão calados, mas que não concordamos com a nojeira que nossos semelhantes estão fazendo.”


Mateus M.
“Cerca de três meses depois de toda essa introdução ao feminismo, tive uma experiência curiosa. Estava com a minha mãe em uma associação resolvendo problemas de documentação de um lote, era manhã cedo e eu tinha uma prova dentro de duas horas, mas estava do outro lado da cidade. Estava de sandália, bermuda, camisa branca, e quando já eram oito da manhã, saí do escritório com ela e fui andando na rua, para chegar o mais rápido possível ao ponto de ônibus. Minha única preocupação era chegar a tempo para minha prova de final de semestre. Então, de repente, um barulho começou, que a princípio julguei fossem pássaros — estávamos numa região com bastante área verde. Só que não eram. Três garis, todas mulheres, vinham varrendo a avenida no seu trabalho matutino, quando começaram a dirigir-me cantadas. De início, eu não entendi o que diziam; quem notou foi minha mãe. Coisas do tipo: “Ô lá em casa!”“Moreno de branco é que eu gosto”“Ô gostosura” etc. A cena foi de tal modo insólita que eu não soube como reagir. Minha mãe abraçou-me e continuamos caminhando. Cheguei à faculdade atrasado e fiz minha prova, mas um pouco consternado. Quando tive tempo para respirar melhor, é que notei: o acontecimento não foi uma mera brincadeira e em nada me divertiu. Lá no fundo, eu me sentira acuado. E não, não havia, ao menos em tese, a possibilidade de que elas representassem qualquer risco à minha integridade física. Mas é como se alguém tivesse me forçado a ser visto em um ângulo por que eu não lhes permitira olhar: como objeto sexual. Essa experiência ajudou-me a dimensionar o medo e o sofrimento que uma mulher pode sentir quando recebe “atenção” indesejada. Não ouso comparar minha ocorrência inócua com o assédio real, e muitas vezes fatal, que elas sofrem diariamente. Não obstante, encaro-a como uma das muitas microexperiências que me propiciaram a compreensão do outro (em especial, da outra) e me engajaram na luta contra esse tipo de comportamento desagradável e violento.”

Rogério S.
“Lembro-me de uma vez em que eu estava voltando de uma festa que acabou lá pelas tantas da madrugada. A rua estava deserta, e eu vi uma mulher andando na minha frente. Não havia mais ninguém na rua, só eu e ela. Ao perceber que o ambiente estava favorável, eu comecei a dizer toda sorte de absurdos a essa mulher, todos os insultos e piadinhas de mau gosto possíveis e imagináveis. E quanto mais a mulher ficava apavorada por não ter a quem recorrer e andava rápido para fugir de mim (ela certamente pensou que seria estuprada se eu conseguisse alcançá-la), mais eu dizia as coisas mais impublicáveis do mundo – e me divertia sadicamente com isso. Alguns metros depois, três amigos dela vinham andando no sentido contrário e, ao ver isso, ela correu e se atirou nos braços deles para escapar daquele terrorismo psicológico que eu estava fazendo com ela. Gravei na mente até o momento em que ela suspirou de alívio.

Ao notar que aqueles três cabras eram amigos dela, desta vez quem correu fui eu. Afinal de contas, se ela dissesse a eles o que eu fiz, eles poderiam vir atrás de mim para me dar porrada. Relutei pacas em dar esse depoimento aqui. Nem sei se você vai lê-lo, mas foi a forma que eu encontrei de exorcizar os meus fantasmas e me tornar menos machista. Já melhorei bastante (o fato narrado aconteceu há cerca de doze anos; eu tinha 18 na época), mas ainda preciso mudar mais”


Marcelo
“Comigo já aconteceu várias vezes da mulher ficar ofendida com um olhar, é complicado, eu entendo ela e sei que é minha culpa, de alguma forma, mas de coração não faço de maldade, é carência e vc vê uma pessoa do sexo oposto na sua frente atraente, vc esta absurdamente carente, é algo automático, é subconsciente, qdo vc vê já olhou. Não consigo saber a maneira que eu olho, pq não consigo me ver de fora, olhando para pessoa pra saber, mas deve ser de maneira desrespeitosa acredito eu. Depois que acontece fico triste comigo msm, mas é complicado.”

Clayton
“Outro dia parei o carro e buzinei para minha esposa. Ela não reconheceu o carro e saiu andando rápido, desesperada. A rua estava escura e ela achou que seria atacada. Precisei sair correndo atrás dela para explicar que estava tudo bem. Quando ela percebeu que não estava em perigo, me abraçou e quase desmaiou. Estava sem fôlego. Eu lamento que tantas mulheres sejam obrigadas a conviver com esse medo. Parabéns pelo artigo e por combater o machismo, tão presente em nossa cultura.”

C. Pelizzon
“Apesar de falarem que mulher gosta de ser assediada na rua, todo homem sabe que mulher não gosta disso. Mexer com mulher na rua, seja agarrando, seja falando qualquer coisa, seja olhando de um jeito constrangedor, tem uma única razão: homem faz isso porque (acha que) pode. E também tem um único objetivo: ‘colocar as mulheres no lugar delas’ por meio da agressão. Sou homem e peço desculpas por isso. Então eu respondo às mulheres acima e ao post: sabemos que dá nojo, sabemos que nenhuma mulher fica com tesão. O objetivo não é esse. As mulheres devem lutar para que isso mude, mas os homens devem ajudá-las nessa luta também.”

Cristiano
“Eu como homem me sinto envergonhado por tais atitudes do que se dizem ‘homens’. Infelizmente se não mudarmos a maneira como educamos nossos meninos, acabaremos perpetuando essa selvageria por muitos e muitos anos. Quantas vezes tiraram sarro a minha cara e até me chamaram de gay por não chamar uma garota de gostosa, não curto ficar fazendo essas brincadeiras de mau gosto, não fui educado dessa maneira, graças a Deus meu pai me ensinou que toda mulher merece respeito, pois se eu falto com respeito, outros faltaram com sua mulher. Mas também não é só não chamar um garota ou mulher de gostosa, mas também se omitir em meio a isso é mais uma agressão.”

27 comments on “Depoimentos

  1. Nhayr
    30 de julho de 2013 at 18:24

    Eu já levei um tapa na bunda bem forte, seguido de um comentário chulo de um motoqueiro(desconhecido por mim) na rua da minha casa. Fui agredida, humilhada e acho que atitudes como essa deveriam ser penalizadas. Basta de assédios públicos e atos de violência contra mulher!!!

  2. LucieneArroio
    5 de agosto de 2013 at 17:09

    Luciene
    Certa vez estava no Metrô e um cara que estava longe gritou “O vc de branco, é bu…tuda,hein? Uma outra vez estava andando na rua e um cara que vinha no sentido contrário agarrou e apertou a minha coxa. Uma noite estava saindo da faculdade à noite e um homem veio por trás de mim e passou a mão entre as minhas pernas. Já fui seguida na saída da escola e um homem me jogou contra um muro. Consegui sair correndo. Estudas ou trabalhar à noite é um perigo. Trabalhei em comércio muito tempo, e os clientes homens acham estão comprando você junto.

  3. Elaine
    6 de agosto de 2013 at 11:52

    Acho que se fosse só um fiu-fiu não teria problema , até mesmo por que muitas mulheres precisam disso pra se sentirem bem consigo mesmas , mas o problema é que esse fiu-fiu vem segui do insultos que na cabeça de algumas pessoas são elogios , coisas agressivas que vão de um simples ” Gostosa ” a um contato físico forçado .
    Deixo aqui a minha indignação a esses homens que não sabem respeitar e conquistar uma mulher de verdade .

    • Verena
      7 de agosto de 2013 at 04:14

      Quem são essss muitas mulheres que precisam de fiu fiu pra se sentirem bem, meu Deus??? Quem??? Não conheço NENHUMA, absolutamente N-E-N-H-U-M-A… Querida, você tem sérios problemas de machismo e auto estima baixa, se acredita mesmo nisso… O fiu fiu é uma agressão sem propósito, simplesmente isso… agressão leve, ok, comparando com as palavras de baixo calão e as insinuações sexuais… mas agressão leve tb é agressão…
      Quando vc passa por um cara bonito você buzina? Assobia? Faz favor… eles só fazem isso porque acham que é normal e aceitável e porque pessoas como VOCÊ acham isso normal…

  4. Tatiane S.V.
    6 de agosto de 2013 at 14:34

    Tatiane
    ” Aos 17 anos fui molestada sexualmente por meu namorado. Não queria fazer sexo com ele, mas isso não foi impedimento. Ele me segurou e disse: “Não estou fazendo nada que você não queira”. Eu fiquei em estado de choque, pois alguém que eu confiava me traía daquela maneira. Um homem que se achou no direito de me violar, como se aquilo fosse a minha vontade. Não consegui gritar, me desvencilhar, apenas chorei. Até hoje ando na rua com medo de encontrá-lo de novo.Não uso as roupas que gosto, porque para os homens isso é motivo de falar besteiras. Sou muito simples e mesmo assim continuo a ouvir barbaridades. Como em um domingo, passando no calçadão da minha cidade, um homem se aproximou do meu ouvido e disse: “Te jogo na cama e te faço uma puta”. Aquilo me constrangeu e me amedrontou. Hoje tenho 21 anos, não vou a festas, bares e tenho medo de acontecer comigo o que já ocorreu. Outro exemplo, ando muito de ônibus, um dia, ônibus lotado, pessoas amontoadas, não tem muito o que fazer. Um rapaz estava encostando em mim, de início pensei que eles estava com uma pochete, mas quando olhei pra trás, percebi que ele estava tendo uma ereção e estava encostando em mim com cara de prazer?! Fiquei irritadíssima e virei pro cobrador e falei: ” Esse homem está me assediando”. O cobrador nada fez, o rapaz passou a roleta e foi assediar outra garota. Esse machismo que a sociedade impõe a tod@s nós em nossa criação é absurdo. Termos medo de sair à rua, de namorar, é inconcebível. Eu transo com quem eu quiser, mas EU tenho que querer, ninguém escolhe pra mim. Não é porque eu namoro que tenho que transar. Somente na hora que eu me sentir preparada e confiante pra isso.
    Digo a todas as meninas, não tenham medo de dizer NÃO, é uma escolha de vocês. E se o homem só vai continuar namorando você se transarem, mete o pé na bunda. Pois isso não é condição para um sentimento verdadeiro. Isso é consequência.”
    Beijos a todas e valeu pelo espaço…

    • veronica
      7 de setembro de 2013 at 02:19

      “Te jogo na cama e te faço uma puta”. Na hora a gente nao pensa, mas a resposta ideal seria “já fizeram isso com a tua mãe, né?”

    • veronica
      7 de setembro de 2013 at 02:27

      Gostei de ler os depoimentos dos rapazes. Me comovo em ler as palavras dos representantes da parcela ‘agressora’ mostrando que nos compreendem, que sabem como nos sentimos, de como vivemos em constantes pânico e pressão psicológica ao simplesmente andar na rua de nossa cidade.

      Eu gosto de praticar exercícios ao ar livre e a praia é a minha academia. Mas enquanto qualquer um (homem, disposto a encarar dias cinzentos e frios) consegue manter a rotina de exercícios mesmo depois do fim do verão, eu não consigo. E não é o frio que me afasta. A praia fica bem mais vazia e eu, sendo a única mulher ali, imagina o risco que corro e a dificuldade em me exercitar de forma relaxada, pois fico o tempo todo preocupada, cuidando cada cantinho, cada pessoa que vem em minha direção. Adquiri a habilidade em controlar o movimento de gente a 100, 200m de distância.
      Já vi muito tarado nas minhas andanças e vou relatar alguns:
      – dos que colocam o pinto pra fora da calça eu perdi a conta;
      – dos q se masturbam olhando mulher de biquini, também perdi a conta – certa vez eu estava na minha tomando meu sol e ouvi alguém gemendo ou grunhindo atrás de mim nas dunas e quando olhei, era um desses… me enrolei na canga furiosa por não ter como reagir, indignada por ser invadida assim, assustada por motivos óbvios, e zarpei dali pra perto de um casal pra acabar de me recompor e ir embora;
      – outra vez eu tava sentada de bermuda e sem camiseta, mas de maiô (veja só, longe de ser seminua!) e estacionou um carro perto de mim e o motorista ficou lá dentro, mas pela janela de vidro escuro eu consegui notar movimentos estranhos dele com a própria mão. Olhei fixamente enquanto vestia a camiseta e quando ele notou que eu notei, o movimento da mão parou e o carro saiu. “FDP!” pensei;
      – outra vez um carro parou bem na minha frente. Manobrou de forma em que eu (imagino) ficasse visível no retrovisor. Estranhei ainda o fato de que a luz de ré permanecia ligada por muito tempo, tambem a luz do freio acendia eapagava, ou seja, o carro tava meio ligado. Juntei 2+2 e pensei: “é comigo”. Mas tava tranquila porque havia um grupo de rapazes ali perto. Depois de alguns minutos, porta foi semiaberta (quando a pessoa só puxa a maçaneta mas não abre a porta). Logo, os rapazes foram pro mar e eu fiquei quase sozinha ali (tinha gente nas imediações). A porta semiaberta estava só esperando que os rapazes saíssem e começou a abrir ao mesmo tempo em que eu me levantava pra ir embora dali, porque quando vi que os rapazes saíram eu resolvi sair também, nao ia ficar ali esperando pra descobrir o que ia acontecer. Quando peguei minha bike e passei pela lateral do carro (nao tinha como não passar) a porta abriu mais ainda e vi que o motorista tava completamente pelado! e quem era o alvo? e se eu tivesse ignorado os sinais (manobra insistente e as luzes), sei lá o que teria acontecido; se eu fosse uma boba alegre achando que era o principe encantado num corolla tomando coragem pra vir falar comigo (como há de ter muitas por aí)? O pior é que a gente nunca sabe se essa gente anda armada, se vai te agarrar e te obrigar a entrar no carro sob ameaça.. vai saber! Logo adiante vi uma menina toda “gostosona” pedalando de shortinho curtíssimo, empinada, toda se mostrando. Nao tive dúvidas. Parei ela e descrevi o carro e contei a cena. Ela se desempinou e ficou atenta.
      Sempre que vejo alguma moça sozinha em áreas afastadas na praia, eu aviso “olha, toma cuidado, vai pra onde tem gente, já vi muito tarado, não dá colher pro azar”.

      Ando muito atenta. Se cruzo com algum que eu ache q vai fazer gracinha, eu faço cara feia, puxo um catarro e cuspo no chão (sério, ao menos pareço nojenta) e encaro. Acho que não dá pra se encolher. Pior é que a gente responde, eles retrucam com deboche e a gente fica ainda mais impotente.

      Aprendi a ser neurótica. Passar o tempo todo preocupada, sem relaxar. Mas aprendi a desconfiar de todos, a farejar ao longe. Se acerto ou nao, nao sei, mas não dou mole, tô sempre antenada. Sou capaz de responder com grosseria até se algum conhecido me cumprimentar e eu não reconhecer à primeira vista, pois pra mim todos são suspeitos e tô sempre na defensiva.

      Esse site tá de parabéns. Poderia ter uma seção onde as mulheres que conseguiram reagir com sucesso a um assédio pudessem dividir isso com a gente, pra quem sabe nos dar idéias de respostas e também pra gente lavar a alma.

      desculpem o texto longo, mas os acontecimentos são muitos.

  5. Rogério Santos
    6 de agosto de 2013 at 21:15

    Escrevi esse comentário em resposta ao texto (http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2010/12/de-quem-e-o-abuso-de-autoridade.html em dezembro de 2010, e resolvi publicar aqui porque acho pertinente

    “Putzz!! Li esse post ontem, e fiquei até agora pensando nas merdas que eu já fiz por aí. Lola, eu já fiz tudo isso (que vergonha!!).

    Lembro-me de uma vez em que eu estava voltando de uma festa que acabou lá pelas tantas da madrugada. A rua estava deserta, e eu vi uma mulher andando na minha frente. Não havia mais ninguém na rua, só eu e ela. Ao perceber que o ambiente estava favorável, eu comecei a dizer toda sorte de absurdos a essa mulher, todos os insultos e piadinhas de mau gosto possíveis e imagináveis. E quanto mais a mulher ficava apavorada por não ter a quem recorrer e andava rápido para fugir de mim (ela certamente pensou que seria estuprada se eu conseguisse alcançá-la), mais eu dizia as coisas mais impublicáveis do mundo – e me divertia sadicamente com isso. Alguns metros depois, três amigos dela vinham andando no sentido contrário e, ao ver isso, ela correu e se atirou nos braços deles para escapar daquele terrorismo psicológico que eu estava fazendo com ela. Gravei na mente até o momento em que ela suspirou de alívio.

    Ao notar que aqueles três cabras eram amigos dela, desta vez quem correu fui eu. Afinal de contas, se ela dissesse a eles o que eu fiz, eles poderiam vir atrás de mim para me dar porrada.

    Relutei pacas em dar esse depoimento aqui. Nem sei se você vai lê-lo, mas foi a forma que eu encontrei de exorcizar os meus fantasmas e me tornar menos machista. Já melhorei bastante (o fato narrado aconteceu há cerca de doze anos; eu tinha 18 na época), mas ainda preciso mudar mais.”

  6. Larissa
    11 de agosto de 2013 at 00:03

    Sofri assédio em um ônibus há algumas semanas atrás. Eu estava em um ônibus que fazia o trajeto entre minha casa e o estágio da manhã (eram umas 9:00). Estava extremamente cansada, acabei dormindo no ônibus, na cadeira do corredor. Quando percebi, havia um homem ao meu lado, depois senti algo duro esfregando em meu ombro. O homem estava esfregando seu órgão genital em meu ombro, e percebi que ele estava excitado. Levantei na hora e o homem foi para o fundo do ônibus quase correndo e fez cara de que não sabia de nada. Havia um policial militar fardado dentro do ônibus, o homem que me assediou ficou ao lado dele depois que fugiu para o fundo do ônibus. O ônibus estava quase vazio e o policial em pé. Com certeza viu o que aconteceu. Olhei para o policial desesperada por alguns minutos e ele simplesmente me encarou de volta, e fez absolutamente nada. Eu estava desnorteada, chegou meu ponto e desci. Não sei como fui aos meus dois estágios nesse dia. Cheguei em casa, contei pra minha mãe (chorando) o que havia acontecido, e ela falou que a culpa era minha por ter dormido no ônibus. Se a culpa era minha, desculpa por trabalhar em dois horários e estar cansada a ponto de apagar no ônibus!! É “claro” que a culpa é toda “minha”!!!!! O que mais me deixa indignada é a certeza da impunidade, o cara ser capaz de assediar uma mulher dormindo com um policial dentro do ônibus. E o policial se limitar a me encarar, com o agressor ao meu lado. Comecei a ir para o estágio fazendo outro itinerário, não conseguiria encarar de novo as pessoas que costumavam pegar este ônibus neste horário comigo.

    • Larissa
      11 de agosto de 2013 at 00:05

      Corrigindo: final da penúltima linha: “com o agressor ao SEU lado”

  7. Maria
    12 de agosto de 2013 at 20:37

    Tenho 16 anos, issok aconteceu recentemente.
    Eu estava na ilha num condominio fechado, e estava no carro de um “amigo meu”, estavamos conversando ja era tarde e faltava pouco tempo pra ele me levar pra casa, ate que ele resolveu ir pra um lugar escondido, isolado, e trancou as portas- nesse momento eu comecei a me desesperar, mas n tinha nada q eu pudesse fazer, eu n podia sair sozinha pela rua deserta de noite- enfim, ele comecou a me agarrar falando que me achava linda e eu negava com todas as letras, mas isso so o incentivava a continuar, e me agarrar.. Eu beijei ele achando q seria o bastante pra ele me deixar em paz, quando ele comecou a tirar minha roupa e a roupa dele e me estuprou da maneira mais cruel que eu poderia imaginar. A pior parte é que para ele “eu estava pedindo”, “la no fundo eu queria”, “toda mulher amanuma pica”. E foi assim q eu perdi minha virgindade, e ate hj eu nao tive coragem de contar isso a ninguem com medo de ser julgada.

    • Camila
      10 de setembro de 2013 at 14:51

      Maria, eu acho que você deve denunciar esse “amigo”. Pois quem estupra uma vez e sai impune, certamente fará outras vezes. Ele sabia que vc não queria, ele continuou pq é um monstro machista. Força, não tenha medo de ser julgada, nós já somos julgadas todos os dias apenas por termos nascido mulheres. Força. Abraços.

  8. N.
    13 de agosto de 2013 at 23:11

    Queria ter dado um depoimento,mas acabou o prazo..Cantadas na rua,na balada,no mercado,enfim,isso já é uma coisa que me acostumei a baixar a cabeça,por mais absurdo que seja.Porém, a menos de um mês aconteceu algo comigo que não compartilhei com ninguém (somente uma amiga que estava junto).Fui em uma balada e quando minha amiga estava ficando com um garoto (eu namoro,então estava ali por perto,dançando,enfim) um grupo de 3 meninos me cerca falando coisas do tipo ”é agora hein!! tá na hora!!” não entendi nada e respondi que namorava.Um deles me segurou pelos pulsos e outro pela cintura,achei que fosse uma brincadeira sem graça e fiquei sem reação até que sinto que o terceiro menino (que eu nunca vou saber o rosto) passou a mão por baixo do meu vestido na minha vagina.O menino soltou minhas mãos e eu corri,não conseguia gritar,xingar,bater ou nenhuma das coisas que sempre jurei que faria caso isso acontecesse comigo. Me senti culpada por usar um vestido curto,senti raiva do policial que não podia fazer nada.Só consegui cair em mim e chorar quase uma hora depois.. Chega de fiu fiu

  9. J.F.
    10 de setembro de 2013 at 14:18

    Eu tinha uns 16,17 anos e estava voltando a pé da escola com uma colega por volta das 12h30. Era um dia de sol, mas eu estava usando uma blusa cacharrel, justamente para evitar assédios. Passamos então por uma rua em que havia uma oficina, quando de repente ouço “Nossa senhora, que peitão gostoso!”. Fiquei extremamente constrangida, ignorei e continuei andando. Aquela situação permaneceu na minha cabeça por semanas, enquanto eu sentia raiva de mim mesma por não ter conseguido nem ao menos xingar o filho da p*.

  10. Daniele
    10 de setembro de 2013 at 16:10

    Eu amo sair pras festas ,baladas, oque me deixa constrangida é o fato de ter sempre uns idiotas pra acabar com a alegria,vou contar um fato que aconteceu no ano passado, sábado á noite saí com uma amigas pra comemorar o aniversário de uma delas, até aí tudo bem, entramos na festa e começamos a dançar,logo de cara , apareceu 2 homens do nada e começaram a passar a mão ,uma delas nem ligou, mas eu tratei logo de tirar essa mão nojenta, dizendo ”eu só vim pra curtir a festa, mesmo assim o cara insistia em ficar comigo dessa vez a força , e como eu fazia defesa pessoal , o empurrei ,a aniversariante acabou prendendo meus braços porque eu ia bater na cara dele pra valer, ia virar ”homem” por alguns minutos, mas ainda bem que eles acabaram indo embora, como se nãop bastasse, na saída da festa me veio um cara num carro , perguntando quanto valeria o programa, aí eu mandei pra aquele lugar, pessoal foi horrível esse dia,atualmente eu uso fone de ouvido com o som no talo, assim não ouço mais besteiras,seja dentro ou fora das festas

  11. Caroline Lorusso
    10 de setembro de 2013 at 17:24

    Meninas, assim como em todos estes depoimentos, já sofri inúmeras situações constrangedoras e que podemos chamar sim de violência contra mulheres. Também escuto histórias como estas todos os dias. Achei esta iniciativa do blog muito bacana e acho que poderíamos começar a colocar nome dos lugares, linhas de ônibus, nome de parques, nome de ruas, nome das boates e construtoras e começar a pensar em alguma iniciativa que possa mudar este cenário de violência. Exigir policiamento, revisão nas leis, falar sobre o assunto em escolas e na televisão. No Brasil no ano passado, o número de estupros cresceu muito. Só em Bauru, li que chegou este aumento chegou a 300%. Temos a Lei Maria da Penha, mas as providências para cumpri-la não são tomadas. Tanto que as estatísticas mostram que os crimes de estupro geralmente são cometidos por reincidentes. Vivemos em um cenário de guerra. O caso daquela menina que foi estuprada em um ônibus, se repetiu na Índia, mas lá a população se revoltou, fez um levante e os criminosos podem ser condenados a pena de morte. Acredito sim que iniciativas, educação, discussão e punições severas podem melhorar as coisas. Espero que possamos encontrar um caminho! E exigir sim que as coisas mudem! #mudaBrasil#violênciacontraasmulheres#olga

  12. Lara
    10 de setembro de 2013 at 19:08

    Saí pra almoçar sozinha um dia desses, estava com uma saia preta e meia calça escura, grossa, fio 120 (vcs repararam que, embora a gente saiba que a roupa não tem nada a ver, estamos sempre tentando nos justificar, do tipo “não estava com uma roupa provocante?”). Tinha uns caras fazendo uma entrega em um restaurante, um deles se aproximou de mim e disse “Bom dia, linda!”. Passei reto, ele correu na minha frente e repetiu: “Eu disse bom dia, você não vai responder não?” E veio se aproximando de mim. Não aguentei e respondi “Eu nem te conheço, o que te faz pensar que eu preciso te dirigir a palavra?” e apertei o passo. Ele começou a xingar, me chamar de metida, mal comida, vagabunda, eu virei e comecei a xingá-lo também, mostrei o dedo do meio e ouvi: “Vem cá que eu te dou o que vc está me mostrando”. Saí tão atarantada que quase fui atropelada ao atravessar a rua, o cara continuou xingando lá atrás, a rua toda parada, vários seguranças (que aliás, não perdem a chance de falar alguma barbaridade – a janela da minha sala fica bem em cima de onde eles se reúnem para “trabalhar” e escuto todas as gracinhas, piadas, “elogios” que eles fazem para as mulheres que passam – agora nem olho na cara deles, tenho nojo e raiva), observando, e ninguém falou um “a”. Engraçado que esse tipo de homem, que acha que vc está aberta a receber qqer baboseira que eles queiram te dizer, são os mesmos homens (BABACAS) que acham que estuprador tem que morrer na cadeia. Ninguém percebe a relação entre uma coisa e outra não?

  13. Calina
    10 de setembro de 2013 at 22:09

    Tenho 15 anos mas na época tinha 13, estava indo para um curso a tarde, e estava muito calor. Coloquei um vestido (que era até os joelhos) e sai de casa. Quando entrei no terminal de ônibus, um senhor cobrador do ônibus passou por mim e disse “Você já está gostosa com esse vestido, imagina sem” e saiu rindo, depois disso, já fiquei muito brava, e me senti até arrependida de ter sentido calor e ter usado aquele vestido. Fiquei me sentindo mal no ônibus, ofendida, e quando estava quase chegando na aula, uma senhora passou do meu lado e falou “Vê se isso é roupa de sair de casa, tá pedindo para ser estuprada” me diz senhora, existe um tipo de roupa certa para ser estuprada? Como se não bastasse homens machistas, existe uma coisa que consegue ser pior ainda, mulheres machistas. Quando entrei na aula, a secretária do curso ficou me olhando com uma expressão de “Isso é roupa de sair de casa”, eu já estava muito incomodada, me sentindo mal..até que entrei na minha aula (que era particular, com uma professora) e ela me olhou e me disse “Você não tem medo de sair de casa assim? Os homens não ficam mexendo com você? Teu pai sabe que você sai assim de casa?” ASSIM COMO, DE VESTIDO? Eu fiquei tão brava mas tão brava que assisti aquela aula obrigada e liguei para logo para minha mãe, para ela me buscar, pois não aguentava mais todos aqueles desaforos. Hoje em dia, eu sinto calor, e só uso vestido se for com meia calça escura, para não mostrar as pernas e ter que passar por aquilo de novo, fico pensando “Quem eles acham que são para ficar falando da minha roupa ou da maneira que saio de casa?”. Vivemos numa sociedade onde se você sente calor é declarada puta.

  14. Julia
    18 de setembro de 2013 at 05:00

    são tantos casos que, lendo os relatos, vou lembrando aos poucos.
    – devia ter uns 17 anos, e, voltando da balada pela manhã, peguei um ônibus pra casa. eu estava de saia e meia arrastão. um velho sentou do meu lado, apalpou minha coxa e perguntou se eu gostava de sexo. fiquei desconsertada e fui falar com o cobrador. ele deu risada e falou pro velho “ficar mais de boa”. só voltei a usar meia calça ha um ano. tenho 31 anos.
    – descendo a brigadeiro pro ponto de onibus, ouvi um “GOSTOSA, VOU TE PEGAR”. a rua tava vazia, eram umas 20h e eu só consegui sair correndo. o cara veio correndo atras, ele era enorme. vi uma porta de um hotel (tipo motel de rua mesmo), e entrei na hora. corri pra recepção, e só sai de la com o porteiro me escoltando. tremi a noite toda.
    – voltava de onibus de belo horizonte para são paulo em um onibus leito. no meio da noite, acordei e vi que o sujeito do meu lado estava dormindo de conchinha comigo. pensei que fosse instinto dele – vai saber, o sujeito dorme com a mulher todo dia, etc. soltei a mão dele, mas a situação ficou assim a noite inteira. foram oito horas nisso. não tinha outra poltrona para eu me mudar.
    – voltava de taxi de um bar da vila madalena ano passado. sempre sou simpática com taxistas, gosto de conversar. lá pelas tantas, ele desviou o caminho e ia pegar a raposo tavares. me convidou a ir pro motel. falei que não, ele disse que tinha dado tres voltas na frente do bar e tinha me visto mais cedo, e queria me ver pelada. dei 50 reais na mão dele e desci do taxi em movimento.
    – uma vez no taxi com um namorado, o taxista comentou com a gente: “mulher que senta na frente quer dar. já chego metendo a mão”.
    – descendo uma rua da liberdade, um policial deu bom dia pra mim. respondi educadamente bom dia, e ele fala “bom dia, coisa linda”. falei que ele não tinha direito de falar comigo daquele jeito, ele disse que era autoridade, eu xinguei ele de abusado, ele disse que eu estava desacatando a autoridade. eu disse que ele tava me desacatando, xinguei de escroto e sai andando.
    – descendo a frei caneca umas 20h, ha um ano, tinha um moleque de uns 20 anos atras de mim. aos poucos ele foi se aproximando. quando vejo, ele tava socando a garrafa de vodka que ele segurava no meio das minhas pernas, com muita força. virei pra tras e falei um monte. olhei pra moça do lado, que viu tudo. ela riu e disse “aiai, jovens. não podem ver uma moça bonita”.
    – andando por uma avenidona, um carro começou a reduzir a velocidade e ficou andando na mesma velocidade que eu. ele não parava de falar merda, mandando eu entrar no carro dele, etc. fui ignorando. uma fila de carros se formou atras dele. geral buzinando. quando ele decide passar, uns três carros que estavam buzinando, gritam pra mim “O VAGABUNDA, FICA SE MOSTRANDO E ATRAPALHA O TRANSITO”
    – nessa mesma avenida, voltava pra casa e estava chovendo. eu estava sem guarda chuva, e era uma puta chuva. tava correndo, e de repente, uns quatro caras me cercaram no ponto de onibus. era umas 18h. eu nem olhei pra eles, só tentava achar um lado pra virar e sair dali. não via nada na chuva, só as pernas deles. empurrei todos e virei prum lado. atolei meu pé na lama até a altura da canela. todo mundo do ponto riu. sai chorando de lá.

  15. Déia Cardillo
    4 de outubro de 2013 at 08:21

    Sempre sofri muto assedio pois comecei a me desenvolver com uns 11 anos, sofri muitas cantadas (digo sofri pq TODAS são vulgares me ofenderam e me envergonharam), mais acho que a pior foi aos 15 anos quando estava indo pro colégio e um cara/nojento me parou na rua pra pedir informação, quando estava informando a rua eu percebi que ele estava com o pau de fora e se masturbando, assim que ele percebeu que eu vi ele começou a me chamar de gostosa e dizer que queria muito me comer, sai rápido de perto dele e fui correndo pro colégio apavorada e com medo de ele me seguir, NUNCA mais me esqueci disso.

    E as mais comuns são as do tipo …

    – Gostosa que bucetão, sou louco pra te chupar.

    Hj já sou adulta e não consigo não xingar um nojento desse, mais confesso que tenho medo de andar sozinha ou com minha filha na rua a noite, não me sinto tranquila.

  16. tatiane ruy soares gaudio
    19 de janeiro de 2014 at 23:03

    Várias vezes sofri assédios e algumas vezes já fui desrespeitada no trânsitos. No trânsito a poucos dias atrás quando não vi o carro ao lado dando seta e com isso não permiti a passagem ouvi: SUA VAGABUNDA, PUTA e SEM VERGONHA tinha que ser mulher, da próxima saiu do carro e te encho de porrada, foi horrível, me senti amarrada, meus dois filhos homens pequenos estavam no carro, na hora fiquei com medo e vergonha, depois pensei, são as mulheres que geram e muitas e muitas mesmo criamos filhos homem, parei o carro e conversei com eles sobre o que tinha acontecido, como tinha me sentido e que nunca na vida deles tratassem mulher nenhuma daquela forma. Acredito que se toda mãe, avó, tia, madrinha e irmã ensinasse o seus meninos homens desde pequenos a respeitar as mulheres esse tipo de desrespeito não estaria acontecendo.

  17. marielfernandes
    19 de fevereiro de 2014 at 23:22

    Cheguei aqui por conta do outro post “O retrato da violência nas buscas online” e fiquei primeiro sem fala. Depois, me veio uma certa repulsa dessa gente fora de controle, inconscientes e reféns do desejo. Não tem nada de moralismos reprimidos no que falo. Apenas a constatação, triste, de que é preciso luta contra os violentos. Lutas como a tua, que precisam ser valorizadas e ampliadas ao máximo possível.

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