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“Manual do politicamente correto”. Este comentário chegou até nós em resposta ao nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado e, apesar do tom negativo, quase como uma acusação, ele nos ajudou. Ajudou a reafirmar a nossa missão com esse projeto e a necessidade dele. Como podemos nos opor ao termo “politicamente correto”, quando não se refere a  nada mais do que a algo… Correto!?

Respondemos prontamente que, se trabalhar por uma comunicação que seja justa e respeitosa para grupos minorizados socialmente é ser “politicamente correto” não queremos ser incorretas. Principalmente quando a ideia do tal politicamente incorreto vem disfarçada de uma falsa liberdade de imprensa.  

E, neste Dia da Liberdade de Imprensa, questionamos: liberdade de que imprensa? Para que público?

Hoje encontramos muitos veículos – a Olga inclusa – que buscam a representatividade, profundidade e, principalmente, pluralidade de uma sociedade representada nas notícias. Mas este trabalho independente não isenta os jornalistas de buscarem pelas mesmas mudanças em suas redações. Na verdade, esta visão independente, longe de ser uma concorrência para grandes empresas de comunicação, é o que está pautando a grande mídia e acordando seu público.

As revistas voltadas para adolescentes não mais publicam perfis de garotas “para casar” ou “para pegar” sem serem questionadas quanto a essa visão machista sobre a conduta da mulher, uma faísca para repensar se esse tipo de questionamento é realmente uma  pauta, pra começo de conversa. As revistas de moda não mais são bem vistas por falar de novas tendências sem ter mulheres diversas vestindo-as. Os jornais mais tradicionais não mais falam sobre violência de gênero sem acender debates nas caixas de comentários. E todas estas mudanças, para diferentes veículos, significa o mesmo: mais do que nunca, é preciso assumir a responsabilidade de informar de maneira imparcial e respeitosa.

Por isso o Minimanual de Jornalismo Humanizado traz maus exemplos da prática jornalística, derrubando a antiética que vem com a máscara do “politicamente incorreto” para mostrar as maneiras corretas de se falar sobre gênero, pessoas com deficiência e racismo.  

Estamos conscientes do quão longe o Minimanual ainda precisa ir para evitar manchetes e reportagens que diminuem mulheres e as violências que sofreram, como “Espancada ao reagir a cantada morre após quatro meses de internação”, publicada pelo G1 ao falar de Michelle Ferreira Ventura, no ano passado. Ou ainda, “Mulher arrastada pela polícia morre no Rio de Janeiro”, como muitos veículos se referiram a Cláudia Silva Ferreira em 2014.

Sabemos também o quanto a atenção da mídia (ou a falta dela) para pautas de grupos minorizados diminui o conhecimento da população sobre estes grupos. Um dos maiores exemplos disso foi o episódio em que o prefeito de São Paulo virou manchete ao dizer que doaria seu primeiro salário para “crianças defeituosas”, provando a utilidade do Minimanual até para quem não é comunicólogo.

Mas também presenciamos debate e mudanças efetivas que acontecem a partir dos conhecimentos que compartilhamentos por meio dessa ferramenta.

No ano passado, um editor da Folha de S.Paulo alterou o conteúdo de uma matéria que trazia MC Biel se pronunciando sobre o episódio de assédio a jornalista Giulia Bressani, repórter do portal IG na época. Foram inseridas aspas da jornalista e, consequentemente, um novo ponto de vista, narrando o que ela e a editora que a defendeu sofreram (ambas foram demitidas pouco mais de um mês depois da denúncia). A matéria também cresceu ao falar sobre resistência, citando o movimento Jornalistas contra o assédio, que surgiu por conta este caso.

Entre outros trabalhos, este combate contra o incorreto na mídia por meio do Minimanual nos fez finalistas do Prêmio Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico.

Para nós, as conquistas e as decepções são grandes sinais da importância de apontarmos as falhas que encontramos. De não nos calarmos diante da grandeza da tão falada mídia de massa. Por meio de uma comunicação mais justa e humanizada, educamos para construir um mundo mais justo.

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É de se esperar que, em um reality show como o Big Brother, um caso de violência de gênero em relacionamento abusivo não passe despercebido. E na edição 2017, não passou. A audiência percebeu muitas agressões sofridas pela participante Emilly Araújo por parte de Marcos Harter, e fez pressão para que a Rede Globo acionasse a Delegacia da Mulher. Depois de apurar as imagens das câmeras, a polícia decidiu por expulsar Marcos da competição para continuar a investigação.

Mas, embora tidas as intimidações, os gritos, as marcas roxas pelo corpo e tudo mais que ela sofreu possam claramente categorizar violência para muitos, o problema não ficou tão claro para Emilly, ativando mais uma violência sofrida: a culpabilização da vítima.

Este infográfico, que traduzimos da Amnistia Internacional Madrid, demonstra que muitas agressões são invisíveis para a vítima – e até mesmo para pessoas que acompanham o relacionamento de fora. Caso contrário, não haveria uma parcela de telespectadores se pronunciando contra a expulsão de Marcos, argumentando que não houve crime, que as intimidações eram “normais” ou “parte do romance”.  

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Sendo o #BBB17 um programa que torna, de repente, pessoas anônimas em populares no horário nobre da maior emissora do país, Marcos poderia se encaixar facilmente no perfil de um homem inconformado com o fim de um relacionamento e que usa seu status e influência adquiridos com a fama para sair impune das acusações.  

Mas a máxima #MexeuComUmaMexeuComTodas faz a diferença quando se observa a pressão exercida no reality. Afinal, se a percepção do problema é difícil até para a vítima, a luta por justiça é ainda mais nebulosa. O caso de Emilly foi discutido abertamente por ter sido televisionado – quantos são os casos de violência que passam invisíveis e silenciosos por mulheres em todo o Brasil? Quantos deles saem impunes?

Da suspeita de estupro na edição de 2012, que resultou na expulsão do ex-participante Daniel (https://glo.bo/2o6hmfx), para a expulsão de Marcos na edição que está no ar atualmente, a discussão avançou. Dessa vez o programa teve com Emilly uma atitude que não teve com Monique no passado, tornando pública a visita da Delegacia da Mulher aos estúdios para interrogação e fazendo um pronunciamento oficial. Porém, ainda considera “supostas” as agressões que foram registradas por câmeras e, aparentemente, não pensa em medidas mais rigorosas para proteger mulheres na casa em outras edições que possam acontecer.     

Por isso é tão importante que Emilly tenha podido contar com um público que meteu a colher no que poderia passar como “brigas de casal”, impedindo que os abusos chegassem à ponta do iceberg. Contou também com o apoio da participante Vivian Amorim, que de forma madura e sensata, está ajudando Emilly a visualizar os abusos que ficavam escondidos debaixo d’água. “Não precisa ter intenção de machucar, agressão é agressão”, explicou ela no programa.  

E, quando sair do confinamento, poderá ver os tantos relatos nas hashtags #EuViviUmRelacionamentoAbusivo e #MasEleNuncaMeBateu, levantadas em apoio a ela e justamente para mostrar para quem ainda tem dúvida que também existe violência psicológica, e que, em outras casas, bem menos vigiadas, outras mulheres também podem estar precisando de ajuda.

Não somos desesperançosas quanto à punição para agressores. Já até apontamos alguns momentos importantes e simbólicos para estas mudanças. Contudo, a necessidade de insistência e de combater a relativização das violências não nos deixa iludir ou simplesmente esperar por mudanças. Cobraremos atitudes de instituições e da justiça até que não seja necessário cobrar. Até que não seja necessário que uma mulher sofra publicamente em nome da conscientização coletiva.

Arte: Xuan Loc Xuan.

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Quando recebi o convite para escrever um texto apresentando o livro Mulher, raça e classe da professora, pesquisadora e militante Angela Davis, senti um frio na barriga.

Esse livro é uma das principais referências para pesquisadoras e ativistas do feminismo negro no mundo inteiro. O que dizer sobre uma obra com essa importância histórica para tantas mulheres?

Acho que eu gostaria, então, de usar esse espaço para trazer algumas questões importantes para pensarmos juntas.

Primeira delas: feminismo não é espaço de disputa de saberes ou etnias. Feminismo é espaço de análise, reflexão e enfrentamento à opressão. E sim, é preciso racializar a discussão nesse campo, porque realidades diferentes exigem enfrentamentos diferentes.

Sabe qual é o ponto de partida para pensar essa realidade? A escravidão no Brasil. Sim, a escravidão moldou efetivamente a forma como indivíduos brancos e negros se percebem na sociedade brasileira. Mesmo que o mito da democracia racial diga que não, vivemos permanentemente uma tensão racial que se expressa em índices horríveis sobre a população negra, onde o pior dos piores índices retrata o cotidiano das mulheres negras.

O processo de luta para enfrentamento da opressão está ligado a dois fatores: 1. Empatia com a causa a partir de demandas reais e subjetivas, e 2. Compreensão que é preciso mudar essa realidade.

Nesse sentido, Mulher, raça e classe é um livro que parte das questões que Davis também vivencia, por ser uma mulher negra, ao mesmo tempo que ela potencializa essa experiência num método de análise da realidade da mulher negra, latina e indígena norte-americana.

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Esse é um livro obrigatório para qualquer mulher que se acredite feminista. Seja porque ele é rico em elementos para compreendermos a dimensão de raça e classe no debate feminista, seja porque ele foi escrito por uma das maiores intelectuais negras (senão a única) da filosofia política na modernidade, e que está viva e atuando nas trincheiras do feminismo e dos direitos humanos.

Se você é uma mulher negra, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente, faça rodas de debate e discussão. Para nós, mulheres negras, compartilhar conhecimento entre nós é um gesto de amor.

Se você é uma mulher branca, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente para outras mulheres brancas, faça rodas de conversa sobre os livros, procure compreender, por meio da genialidade de Davis, porque em alguns momentos gênero nos une e raça nos divide.

Sabe, a Angela Davis sempre diz que nossa missão revolucionária e feminista é romper com toda e qualquer forma de cisão, seja de gênero, de raça ou de classe. Na minha opinião, sabe como vamos fazer isso? Quando entendermos que a história tem dois lados e a realidade é um mosaico.

Que nada nos defina, a não ser a liberdade.

Awetu!

Jaqueline Conceição foi indicada em 2016 na lista de Mulheres Inspiradoras da ONG Think Olga, é graduada em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário São Camilo e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Articuladora do Coletivo Di Jejê, pesquisa à luz da Teoria Crítica da Sociedade, especialmente as contribuições de Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno e Angela Y. Davis. Possui publicações sobre gênero, funk, juventude, racismo, sistema prisional e políticas sociais (artigos autorais e traduções) em revistas científicas e revistas de circulação não acadêmica.

Para saber mais:

Leia: Mulher, raça e classe. Angela Davis. 1ª edição brasileira. São Paulo: Boitempo: 2016.Curso On Line O pensamento de Clique aqui para mais informações sobre o curso “Pensamento de Angela Davis”, do Coletivo Di Jejê

Arte: Dicionário Aurélia.

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thinkcommon

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Nascer com a pele escura não nos torna negros, assim como nascer do sexo feminino, não nos torna mulheres. Tanto a identidade de gênero quanto a identidade racial são construções sociais numa sociedade como a brasileira, profundamente machista e marcadamente racista, onde carregar essas duas marcas não é a melhor tarefa do mundo.

A minha trajetória pessoal, até o momento em que escrevo esse texto, é marcada por muita dor, mas também de crescimento e mudanças. E decidi compartilhar essa jornada com todas vocês, leitoras da Think Olga, por que acredito que, dividindo o peso, se torna mais leve e por que, juntas, vamos mais longe.

Em 2012, eu entrei no mestrado na PUC-SP, um dos melhores programas de pós graduação em Educação do Brasil. Foi nos elevadores da PUC, que eu entendi o que era ser negra e o valor social que isso tem. Toda minha família é negra, sim é verdade. Meus amigos e amigas de infância também, colegas de escola, as pessoas que eu mais quero bem, como meus filhos. Mas isso nunca, em momento nenhum da minha vida, foi motivo de dor ou vergonha, muito pelo contrário, sempre foi motivo de orgulho, a pele escura e os traços negroides no corpo. Até que, nesses dois anos, como mestranda numa das universidades mais elitizadas de São Paulo, eu entendi e aprendi o que quer dizer SER NEGRA.

Com muita frequência, as outras mulheres brancas, na grande maioria professoras e já senhoras, me perguntavam coisas sobre meu trabalho: “que horas você vai trocar o lixo do banheiro?, “avise para sua chefe que acabou o material de limpeza do banheiro” ou “por que você está sem uniforme?”. Eu não entendia bem de onde elas tiravam a ideia de que eu era faxineira, afinal, lá estava eu com meus livros, mochilas, notebook e olheiras, características típicas de qualquer pós graduando. Um dia, em um bate papo informal com uma professora do meu programa, eu ouvi o seguinte comentário: “Quanto é sua bolsa integral paga pelo Governo, só R$ 1.500? Nossa, minha doméstica ganha mais que isso e ainda é registrada, hein?”. Foi só depois de ouvir isso que entendi qual era a raiz da questão: eu mulher negra, só poderia estar naquele espaço, se fosse como serviçal, como faxineira, como doméstica. Não como uma aluna e nunca como uma professora.

Isso, para mim, foi uma chamada a realidade, uma chamada para a verdade: as mulheres negras no Brasil, valem quase nada, por que são nada. Quem liga para tia da limpeza ou a senhora do café?

Num primeiro momento, eu quis largar o mestrado, faltava menos de um ano para eu terminar, me doía muito voltar pra lá e ter aula com a professora que me humilhou tão duramente. De fato, não consegui terminar a disciplina dela. Mas eu precisava terminar, por que precisava da bolsa integral. Dos R$ 1.500 pagos pelo Governo Federal.

Eu terminei o mestrado com louvor, tirei 9,5 na banca final de defesa e comecei uma jornada em busca do autoconhecimento. Afinal, quem sou eu, mulher negra? Li muita coisa, pesquisei muito coisa, apesar de toda a dor, o mestrado me deu o gosto pelo fazer acadêmico. Nesse processo, conheci Angela Davis e que ler os textos dela é mais do que mera leitura. É um mergulho na visão de mundo dessa mulher extraordinária, ou melhor: dessa mulher negra extraordinária.

Existe no Brasil uma necessidade de aprofundamento sobre o pensamento da Angela Davis e meus dois anos de pesquisa sobre ela me deram um pequeno saber no campo. A partir disso, surgiram convites para palestras, debates e cursos, o que contribuir para o nascimento do Coletivo Di Jejê: um espaço de multiplicação de conhecimento sobre a mulher negra, feito por uma mulher negra, para as mulheres negras.

Em pouco tempo a procura triplicou: de uma turma de 7 pessoas, passei a atender 30 pessoas. Tudo na minha casa mesmo, na minha garagem/quintal. Em 2016, continuamos com os encontros “Vivências sobre a mulher negra” nos formatos presencial e a distância.

A cada encontro, todas aquelas mulheres negras, me traziam força, beleza e resistência para as minhas lutas diárias, para as minhas dores, para os meus medos, para os meus sonhos. Cada mulher negra que me procurava depois, pedindo orientação para sua pesquisa de graduação, para seu projeto de mestrado ou para desabafar uma dor, um sofrimento, alimentavam em mim a certeza de que, mesmo sem saber como, eu deveria continuar.

Me lembro de um curso que ministrei na Universidade Federal de Santa Catarina onde, no final, uma jovem negra da Baixada Fluminense, aluna de robótica, veio me dizer chorando que naquela semana ela havia pensando em se matar, mas que a minha palestra sobre Angela Davis, fez ela perceber que, se eu consegui, ela também vai conseguir superar suas dores. Devo confessar que escrevo isso chorando, por que, no auge das crises na PUC, eu também pensei em me matar.

Conto para vocês toda essa história para dizer que hoje o Coletivo Di Jejê precisa  continuar existindo e crescendo, precisa do apoio e a colaboração de todas e todos que acreditam que o conhecimento liberta e emancipa. Liberta das amarras que a sociedade colocou em nossas cabeças, emancipa por que nos ajuda a entender quem somos e o que podemos ser.

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Eu acredito nisso, eu vivo por isso. Essa tem sido minha luta, minha jornada nos últimos três anos. Ser a ponte que atravessa qualquer rio e que permite que outras mulheres negras marcadas, assim como eu, pela dor da invisibilidade social e histórica, possam significar suas vidas em prol do crescimento de si mesmas, de seus filhos, de suas comunidades.

Estamos agora iniciando nossa campanha de doação de bolsas para os cursos presenciais e a distância, que serão oferecidos pelo Coletivo Di Jejê em 2017. Você pode contribuir com nosso trabalho por meio de doações de bolsas de estudos ou patrocínio para nossos cursos. Basta preencher o formulário e entramos em contato.

*Jaque Conceição tem 31 anos, é mãe de dois meninos, professora e pesquisadora, filha de santo. Há três anos, fundou o Coletivo Di Jejêeu e, em 2016, é uma de nossas Mulheres Inspiradoras.

Arte: thinkcommon.

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A fotógrafa paulista Nair Benedicto (1940), em sua última mostra “Fé Menina” (São Paulo), exibiu trabalhos que ilustram sua percepção sobre o universo feminino através de um olhar provocadoramente etéreo e sensual, um olhar que legitima o prazer, a devoção e o estado de existir de suas protagonistas. Considerada uma das maiores fotógrafas do país, Nair Benedicto expôs uma coletânea de fotos em preto e branco e em cores que busca retratar a condição feminina desde os anos 1970 até a atualidade e cujo foco está direcionado e apoiado na figura fundamental da mulher em cada clique, pois segundo ela: “Mulher sempre foi um tema recorrente no meu trabalho. Eu considero esses registros fotográficos um pout pourri sobre a realidade da mulher brasileira, que é mostrada em diferentes situações: na prisão, em passeatas, em aldeias indígenas e no carnaval”.

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Louvação à Iemanjá na Cidade de Praia Grande (São Paulo), 1978

A vibração, a dramaticidade e a potência que acompanham os conteúdos das fotos de Nair Benedicto são intensificadas pelo efeito óptico que os elementos visuais em preto e branco produzem entre si. Essa mescla viceral entre o conteúdo/mensagem e a forma retratada em cada foto permite ao observador ter acesso a uma combinação de percepções díspares e, ao mesmo tempo, complementares entre si como a noção de distanciamento e de proximidade, de movimento e estaticidade, de simbologia conservadora e libertária, da devoção/recato e do profano/prazeroso. E nesse universo de pulsação vital, Nair Benedicto captura a figura feminina, que ocupa a posição cêntrica na cena e se deixa registrar sem filtros em um momento particular e simbólico de sua existência.

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Pagadora de promessa em Aparecida do Norte (São Paulo), 1981

A aptidão que Nair tem em abstrair uma determinada cena de seu espaço-tempo e de projetá-la em nosso presente estimula a imaginação do observador que busca decifrá-la e interpretá-la a partir de sua própria realidade. A fim de aprofundar o significado que as imagens passam a ter para si, esse observador tende a “scannear”, a perambular sobre cada detalhe do plano fotográfico e esse, segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991), é um caminho complexo que o olhar tende a seguir: um caminho formado e delimitado em parte pela própria estrutura da imagem e em outra parte pelas intenções do observador. Devido a essa ação de “scanner“, o significado de cada imagem passa a apresentar tanto a intenção da própria imagem, em seu particular microcosmo narrativo, quanto a do observador, em seu macrocosmo social, fazendo com que cada imagem forneça complexos de símbolos conotativos.

Ou seja, cada imagem abre espaço para variadas interpretações e intenções – dependendo justamente do olhar de quem a scannea e a decifra. E cada imagem de Nair Benedicto nos permite deambular pelo recorte de um determinado universo particular que ela capturou com seu olhar e nos oferece. A cada imagem registrada somos levadas a um instante de convivência e interação com as mulheres ali representadas e podemos, através de nossa leitura em “scanner”, preenchê-la com nossas próprias intenções, interpretações e experiências.

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Tesão no Forró do Mário Zan (São Paulo) 1978

Enquanto o olhar do observador capta um elemento após o outro do plano da imagem, ele passa a estabelecer relações de significados entre esses elementos internos em si, entre esses elementos e outras imagens já vistas anteriormente que lhe marcaram profundamente, entre esses elementos e a realidade do próprio observador. Nesse movimento que aponta tanto para o universo interno quanto para o externo da imagem ali retratada encontra-se um mundo mágico: um mundo onde tudo acaba se repetindo e interligando o passado ao presente; onde tudo compõe um contexto de significados variados e interconectados a partir do olhar de cada observador.

Nesse sentido, a abordagem do universo feminino pela lente de Nair Benedicto aponta para um mundo mágico porque retoma e conecta o passado ao presente através da representação de temáticas recorrentes e pertencentes ao universo feminino. Numa espécie de eterno retorno ao contexto do feminino e seus enclaves ainda existentes, especialmente na abordagem e na evocação de „o prazer é nosso sim e não há razão para repressão alguma“ ou „essa é a fé menina – minha constituição natural e da qual não devo me envergonhar“ Nair Benedicto trabalha a estética de ser fêmea, de ser mulher sem medo ou repressão alheia.

A magia das imagens de Nair Benedicto encontra-se também presente na inusitada combinação entre a ambientação etérea e a realisticamente brutal, como no retrato das mulheres do sisal. Uma magia que aponta o poder transformador da fotografia na qual acredita a artista, já que “Por meio dela (fotografia), procuro chamar a atenção para questões que considero relevantes para a sociedade”.

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Mulheres trabalhando no sisal (Bahia), 1985

No pequeno documentário abaixo, ouvimos Nair Benedicto falar especialmente de dois trabalhos audiovisuais que lhe marcaram: “O prazer é nosso” e “Não quero ser a próxima”.

*Todas as fotos divulgadas foram gentilmente cedidas pela Imã Foto Galeria, onde Nair Benedicto teve uma mostra exposta de julho 2015 a abril 2016.

*Referência a Vilém Flusser provém do livro “Für eine Philosophie der Fotografie” (Sobre uma filosofia da fotografia).

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

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Arte Pedia Robinson

Gina Vieira Pontes
Gina Vieira Pontes

Gina Vieira Ponte nasceu em uma família de seis filhos, de mãe negra mineira e pai branco cearense. Os dois se encontraram no Distrito Federal, para onde se mudaram em busca de emprego e melhores condições de vida, ele vendedor ambulante, ela empregada doméstica. Formaram um lar em Ceilândia e ensinaram aos filhos que a educação era a chave para uma vida melhor. Viver o analfabetismo na pele fez os dois falarem sobre a escola como um privilégio que, se bem aproveitado, garantiria superpoderes aos filhos, poderes capazes de tirá-los da situação de privações econômicas para a vida que eles sonhassem. Porém, quando finalmente entrou na escola aos sete anos de idade, a pequena Gina não encontrou o conto de fadas que sonhava mas um ambiente carregado de racismo, no qual seus colegas caçoavam de seu cabelo e a excluíam de grupos e apresentações por causa de suas roupas puídas e seus sapatos velhos. “Meu sonho era ser uma criança invisível porque eu acreditava que se isso acontecesse eu não sofreria as agressões tão recorrentes”, conta.

Tudo mudou no ano seguinte, quando foi aluna da professora Creusa, uma mulher negra como ela. Certo dia, Creusa pegou Gina no colo. Sua primeira reação foi se encolher porque até então proximidade física na escola era sinônimo de violência. Mas era carinho. Diante da chacota dos colegas, Creusa elogiava as tranças de Gina, dizia que ela era linda, silenciando o racismo em sala de aula. Creusa passou a incluir Gina em todas as apresentações e aos poucos seu olhar sensível a transformou completamente. Gina passou a se dedicar compulsivamente aos estudos para retribuir a esperança depositada nela pela professora. Ávida pela atenção de Creusa – que trabalhava muito com escrita autoral, colando cartazes com ilustrações para que as crianças escrevessem uma história sobre o desenho – Gina se antecipava e passou a praticar a escrita fora da sala de aula para se aprimorar. Inconscientemente, usou a escrita para elaborar o racismo e as outras discriminações que passava através de diários. “Ter me apropriado da escrita foi decisivo para minha formação. Eu não tinha condições de frequentar um acompanhamento psicológico, mas a escrita se tornou meu espaço de organização das questões que me afetavam”, diz Gina. O olhar de Creusa impactou tanto Gina que ela mudou sua perspectiva sobre si e ganhou confiança. Concluiu que a coisa mais importante que um adulto poderia fazer na vida era marcar uma criança como Creusa havia lhe marcado. Passou, então, a sonhar em ser professora.

Anos mais tarde, Creusa é homenageada por Gina como mulher inspiradora
Anos mais tarde, Creusa é homenageada por Gina como mulher inspiradora

Não foi nada fácil a jornada até se tornar professora. Sem dinheiro para frequentar um curso preparatório para o magistério (formação para ser professora da época), montou um grupo de estudos com amigas e acabou sendo aprovada de primeira, entrando na profissão de professora já aos 19 anos. “A educação transformou minha história como minha mãe dizia que iria transformar. Em pouco tempo, meus pais não puderam mais trabalhar e eu me tornei responsável pela renda da família”, conta. No entanto, passados oito anos de experiência a frustração com o sistema escolar começou a pesar. “Comecei a perceber que a escola é uma estrutura repressora que não incentiva os jovens a estar na escola e fiz um processo de resignificação da minha identidade como professora”, diz. O foco na aprovação no vestibular, como se a vida se resumisse a ser aprovado em provas, a incomodava.

Para ela, o foco na aprovação negligencia outras habilidades das crianças e adolescentes – como criatividade, imaginação, habilidades sócio-afetivas, a capacidade de ser empático – e isso gera uma série de problemas como a falta de diálogo, a dificuldade de conviver dentro da diversidade e prejudica um desempenho efetivo ao focar demais na cópia e não dar condições de os jovens se apropriarem de conhecimentos capazes de transformar suas histórias. Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) corroboram a reflexão de Gina. De acordo com a última avaliação do programa, dois em cada três alunos brasileiros de 15 anos não conseguem interpretar situações que exigem apenas deduções diretas da informação dada. “Alguma coisa está errada nesse sistema que nem me olha como sujeito, não observa minha subjetividade, minha identidade, minha história e também não me dá condições de me apropriar dos conhecimentos que vão me ajudar a transformar minha história. Então precisamos repensar esse modelo educacional, sobretudo neste contexto em que vivemos, muito marcado pelas novas tecnologias”, afirma Gina.

Em uma tentativa de se aproximar ainda mais de seus alunos, nativos digitais, Gina passou a frequentar mais as redes sociais e lá se deparou com suas alunas de 13 anos postando vídeos em que dançavam sensualmente e recebendo comentários ofensivos dos meninos, sem considerá-los ofensivos. “Quando percebi minha aluna reproduzindo um referencial feminino colocado nas grandes mídias eu fui olhar para minha própria história e me dei conta de que o grande diferencial da minha vida foi ter tido a chance de viver com grandes mulheres”, diz. Na mesma época, Gina teve acesso ao material de apoio didático sobre igualdade de gênero oferecido pela Secretaria das Mulheres do Sindicato dos Professores. Ao estudar gênero, Gina percebeu que tinha como missão desvelar o machismo e mostrar como ele opera na sociedade brasileira. Somando as referências femininas de sua vida com os estudos de gênero, Gina teve a ideia de criar o projeto interdisciplinar Mulheres Inspiradoras junto com as turmas do 9º ano do Centro de Ensino Fundamental de Ceilândia.

Gina e seus alunos no lançamento do livro que conta as histórias das mulheres inspiradoras de suas vidas
Gina e seus alunos no lançamento do livro que conta as histórias das mulheres inspiradoras de suas vidas

O projeto consistia em várias etapas, começando com a apresentação de um vídeo mostrando mulheres com muita exposição na mídia e de mulheres importantes para a história do Brasil e do mundo que não são tão conhecidas assim. Em seguida, Gina trabalhou com a leitura de livros que traziam exemplos de mulheres fortes e de diferentes classes sociais, etnias, faixas etárias e níveis de escolarização, como O Diário de Anne Frank, Eu Sou Malala, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada e Não Vou Mais Lavar os Pratos. Ao mesmo tempo, a sala foi dividida em grupos com tarefa de apresentar um trabalho sobre uma mulher inspiradora da lista composta por Gina, que incluía Anne Frank, Carolina Maria de Jesus, Cora Coralina, Irena Sendler, Lygia Fagundes Telles, Malala, Maria da Penha, Nise da Silveira, Rosa Parks e Zilda Arns. Gina também levou mulheres inspiradoras para a sala de aula, incluindo Creusa Pereira dos Santos Lima, sua antiga professora e referência feminina. Por último, os alunos tiveram que escolher alguma mulher inspiradora de seu círculo pessoal para entrevistar e fazer um texto contando sua história. A maioria eram avós, mães e líderes de igrejas da região, contando a própria Gina.

“O que mais me emocionou foi ouvir de uma aluna que a partir do projeto ela descobriu que também quer ser uma mulher que carrega uma grande história. Uma outra aluna me disse que constatou a partir do projeto que essa história de mulher ser o sexo frágil é uma grande mentira porque, ao estudar a biografia da 10 grandes mulheres, descobriu que a mulher é uma fortaleza”, conta. O projeto foi tão intenso que superou as expectativas e transformou a própria identidade de Gina, que parou de alisar o cabelo e passou a afirmar sua negritude com o crespo natural. Gina conversou com suas alunas negras sobre isso e duas meninas seguiram o exemplo e também fizeram a transição capilar. “Elas passaram a ter plena consciência de quão poderosas elas são e percebi uma incidência infinitamente menor de fotos e vídeos sensuais nas redes sociais”, conclui. O projeto Mulheres Inspiradoras foi o vencedor de cinco prêmios em escala nacional e internacional, entre eles o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos em 2014 e o Primeiro Prêmio Ibero-americano de Educação em Direitos Humanos “Óscar Arnulfo Romero”, promovido pela Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) em 2015. As histórias dos alunos também foram publicadas em um livro, lançado em março deste ano. Agora, a ideia é ampliar o projeto ao capacitar mais professores para aplicá-lo em outras escolas.

Confira abaixo dois vídeos sobre o projeto:

Arte: Pedia Robinson.

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Vó precisamos falar de aborto. Eu sei que a senhora é mãe de seis filhos e que cuidou deles praticamente sozinha depois que seu marido alcoólatra te abandonou. Eu sei que você mesmo na dificuldade, mesmo com pouco dinheiro, nunca pensou em abandoná-los, ou não tê-los, mas precisamos falar sobre isso. Eu mesma acho que não teria coragem de abortar, talvez em caso de um estupro. Mas nunca me vi nessa situação e tenho muito medo só em  pensar. Vó precisamos falar de aborto, porque mesmo eu não abortando eu não me acho melhor do que elas, mais correta, mas digna, mais amada por Deus.

Vó, você sabia que o aborto ilegal mata uma mulher a cada dois dias no Brasil? Segundo dados da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2013,  foram mais de 150 mil casos de mulheres internadas por complicações em abortos induzidos no país, a maioria preta e pobre. Você sabia que elas são como a gente, cada uma com a sua história e vivência. Muitas mulheres que decidem interromper uma gravidez são cristãs, algumas são adolescentes que tem medo de assumir para a família que engravidaram antes do casamento, medo do julgamento deles, dos amigos, da igreja. Outras são mulheres casadas, com filhos, mas não desejam mais um, tem mulher pobre, tem mulher preta, tem mulher branca, tem mulher com o dinheiro. Muitas mulheres, muitas histórias, muitos motivos.

Vó, você sabia que métodos contraceptivos falham né? Não são 100% seguros. Lembro da minha mãe contar que ela ficou gravida de mim quando meu pai não quis usar camisinha e acabou gozando dentro. Você lembra disso? Aconteceu com você? Poderia ser qualquer uma de nós. Você sabia que segundo o código penal brasileiro, a mulher grávida que abortar é punida com pena de prisão até 3 anos? Do outro lado, muitos homens metem o pé, não querem filhos, não apoiam suas companheiras, e nada acontece com eles. Imagina enfrentar toda essa dor, medo e angustia e ainda ser presa? Em vez de ser acolhida. Você sabia que mulheres vão continuar abortando mesmo que você seja contra? E elas continuaram morrendo, principalmente as pobres. E a vida dessas mulheres que estão morrendo ? O que a gente faz? Ignora?

Vó, esses dias escutei de uma amiga que ela era contra o aborto porque não queria que os “impostos dela pagasse aborto para putas”. Vó aquilo me doeu tanto. Primeiro porque a complexidade da história de uma mulher é muito mais profunda do que categorizá-la em Puta X Santa e segundo porque o sistema público de saúde gasta mais com curetagem e com as internações por complicações decorrentes do aborto clandestino do que gastaria se o aborto fosse legalizado no Brasil. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de curetagens pós-aborto ou puerpério,  se manteve nos últimos anos (190 mil em 2013, 187 mil em 2014 e 181 mil em 2015) enquanto o número de AMIUs, que é o esvaziamento do útero por aspiração manual intrauterina, aumentou (5.704 em 2013, 8.168 em 2014 e 10.623 em 2015). O custo, somando ambos os procedimentos, foi de R$ 40,4 milhões.

Vó, você sabia que se o aborto fosse legalizado no Brasil teria regras. Não seria de qualquer jeito. Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer. Não teria mais um mercado clandestino sem respeito nenhum a vida da mulher, que seria capaz de interromper uma gravidez em qualquer período gestacional. Aborto é questão de saúde pública e não de polícia. Junto com a legalização do aborto viria acompanhamento médico, psicológico e social. Lá no Uruguai isso já acontece desde 2012, e eles tem experimentado quedas tanto no número de mortes maternas quanto no número de abortos realizados.

Vó, você sabia que o aborto é crime muito mais por uma questão moral, que pune somente mulheres, mais do que pelo respeito a vida. Eu sei que você acredita que a vida acontece desde a sua concepção, lá no embriãozinho. E você não precisa deixar de acreditar nisso. Mas a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico. Você não precisa ser a favor do aborto, precisa ser A FAVOR QUE CADA MULHER POSSA TER O DIREITO DE DECIDIR O QUE FAZER COM SEU CORPO.

Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida dessas mulheres que morrem todos os dias em clinicas clandestinas. Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida das mulheres que sobrevivem a essa experiência traumática cheia de sequelas no corpo e na alma. Se realmente somos a favor da vida temos que respeitar a escolha das mulheres, respeitar a autonomia que cada uma de nós devemos ter sobre nossos corpos e acolher- las.

Vó, pela vida e pelo amor eu acredito que todxs as mulheres devem ter o direito de decidir, se querem ou não, terem filhxs.


Thamyra Thâmara é jornalista, social mídia, fotógrafa, afrofuturista e a idealizadora do GatoMídia.

Arte:  Ana Núñez

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#ElaFazAcontecer. Facebook. Data 08/06/2016. Foto: Zé Carlos Barretta/Divulgação Facebook.

#ElaFazAcontecer. Facebook. Data 08/06/2016. Foto: Zé Carlos Barretta/Divulgação Facebook.
#ElaFazAcontecer. Facebook. Data 08/06/2016. Foto: Zé Carlos Barretta/Divulgação Facebook.

Quando assistimos a filmes e desenhos bem antigos que retratam o futuro é comum ver roupas prateadas, carros voadores e casas autolimpantes. 16 anos após a virada do ano 2000 e, ainda longe de ver isso como uma realidade plena, ao sonhar outros sonhos para o futuro que nos espera, podemos ser mais realistas. Não imaginamos nada tão ousado quanto nossos antepassados, mas estaremos felizes se chegarmos, algum dia, a finalmente ter a tão sonhada equidade de gênero.

Seria muito ousado? Para a ONU, vamos chegar lá em 81 anos. Mas, no que depender das mulheres, ainda antes. Elas estão fazendo história e conquistando avanços muito importantes nesse caminho: são maioria no ingresso e na conclusão de cursos superiores e entre doutores formados no exterior, entre 2002 e 2013 o número de mulheres empregadoras aumentou 19% (para os homens o aumento foi de apenas 3%), etc.

Isso não acontece porque mulheres são mais especiais, mais guerreiras, mais resilientes. Ainda que muitas tenham mesmo essas qualidades, isso é o mínimo o que o mercado de trabalho exige delas, sempre. Criado, pensado e comandado por homens, maioria absoluta entre executivos e altos cargos de poder nas empresas e governos, incapazes de estabelecer políticas públicas e internas que sejam sensíveis ao fato de que a realidade de uma empregada é diferente da de um empregado.

Ainda que algumas leis estabeleçam certos direitos femininos, como a licença maternidade e a criminalização do assédio sexual, elas são impotentes para tirar da trajetória profissional das mulheres o machismo ainda arraigado na sociedade, tornando-se elas, também, obstáculos à nossa contratação, a sermos preteridas em promoções, perdermos projetos, ganhar menos que os homens, etc. Tudo isso enquanto continuamos sendo vistas como as únicas responsáveis pelos cuidados do lar e dos filhos. Ou seja, enfrentamos bem mais dificuldades que seus colegas homens em suas carreiras.

Isso sem falar nas barreiras internas construídas socialmente. Mulheres são levadas a acreditar que têm menos capacidade que os homens, precisam se esforçar mais que eles para alcançar o mesmo prestígio, sentem-se menos confortáveis para negociar salários e aumentos, etc. Nesse cenário, quem consegue ir mais longe: nós ou eles?

 

VIRANDO O JOGO E FAZENDO HISTÓRIA

Diante de tantos obstáculos na corrida para o sucesso, muitas estão simplesmente abandonando a pista e criando seu próprio jogo. O empreendedorismo surge e tem se mostrado uma solução possível para elas e seus resultados são revolucionários. Não é um caminho fácil, mas é uma ferramenta importante para atingir a equidade de gênero.

Ao abrir seu próprio negócio, uma mulher não apenas tem a oportunidade de lançar no mercado uma empresa na qual ela mesma gostaria de trabalhar, cujo olhar sobre seu papel e o de suas funcionárias é carregado por sua própria experiência, mas também ajuda a virar o jogo no número de empresas comandadas por elas.

Entretanto, pelo fato de muitas recorrerem a essa saída por pura necessidade, essas iniciativas costumam ser menos inovadoras e suas líderes menos preparadas para fazê-las crescer e prosperar. Quando tudo o que se quer é equilibrar sua rotina diária e/ou o cuidado com os filhos com uma carreira rentável, existem menos estímulos para ousar e ir além no seu negócio – outro privilégio dos homens, que têm o respaldo da sociedade para se preocupar apenas com suas próprias ambições.

Mas o fato é um só: elas são muitas e em cada vez maior número empreendendo e fazendo história. Ao apoiar e incentivar as mulheres líderes e empreendedoras, estamos apoiando uma sociedade mais justa. Na Think Olga, a Olga Mentoring – Escola de Líderes reuniu no ano passado, em São Paulo, oito mulheres com projetos incríveis e as preparou para levá-los adiante, com aulas de marketing, negócios e uma batalha de pitchs.

Outra boa novidade é que o Facebook – uma das empresas mais inovadoras do mundo e na qual Sheryl Sandberg, famosa pelo seu movimento a favor da liderança das mulheres em corporações e autora do movimento Lean In, é COO – lançou um programa chamado #ElaFazHistória, cuja missão é valorizar, divulgar e fortalecer o trabalho de mulheres líderes nas mais diferentes áreas, de todo o Brasil. E, sendo o empoderamento feminino nos negócios uma das bases da Olga, faz todo o sentido apoiarmos essa importante ação. O #ElaFazHistória tem três passos:

 

Conscientização
Trazer dados atualizados sobre o empreendedorismo feminino no Brasil e no mundo.

 

Celebração
Um portal para mulheres indicarem mulheres que as inspiram e cujas histórias merecem ser conhecidas.

 

Capacitação
Eventos nas cinco regiões do Brasil com oficinas e palestras para mulheres

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Assim, vamos abrindo cada vez mais espaço e jogando luz sobre mulheres que estão, literalmente, fazendo história. De grandes empresárias que já chegaram lá a pequenas empreendedoras com apenas um site na internet, elas são a chuva que vai erodir a montanha de machismo que há séculos nos impede de chegar no topo.

E é o nosso dever e trabalho dar a elas mais visibilidade, contar os seus feitos: hoje temos espaço para, nós mesmas, valorizarmos o trabalho umas das outras. Grandes empreendedoras, artistas e inventoras do passado tiveram os seus nomes esquecidos por uma história escrita por e para homens. Com #ElaFazHistória, nos inspiramos nas próprias mulheres para fazer algo novo e que acreditamos ser incrível. Nosso desejo é que isso inspire você também, mulher, a fazer o mesmo.

Deixamos aqui nossas indicações para #ElaFazHistória:

 

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Éramos poucas na esplanada, em breve seremos nenhuma. Um homem não apenas ocupará o lugar da primeira presidenta eleita no Brasil, como também exonerará as poucas ministras a liderar pastas no governo. Os novos ministros, chamados “Homens de Temer”, definitivamente não representam as mulheres brasileiras.

Para piorar, as Secretarias das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, já combalidas por terem sido amalgamadas, serão abarcadas por um certo Ministério da Justiça e da Cidadania – perdendo ainda mais espaço e poder.

Não há motivo para temer as mulheres. A equidade de gênero é uma tendência mundial. Segundo dados da ONU, o número de mulheres parlamentares praticamente dobrou nos últimos 10 anos – elas ainda representam apenas 22% dos parlamentares no mundo inteiro, mas o número segue aumentando rápido.

No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau não só apenas estabeleceu um número equivalente de homens e mulheres em seu gabinete, como abriu espaço também para negros, aborígenes pessoas com deficiência e outras minorias historicamente excluídas de espaços de poder. Nos EUA, a candidata Hillary Clinton já declarou que tomará medidas similares como promessa de campanha – ou seja, a presença igualitária de mulheres é tida como um aspecto positivo.

E é não apenas isso, mas uma aplicação de simples lógica: somos uma metade da população e parimos a outra metade. É impossível acreditar que não houvesse uma mulher capaz de assumir um ministério que fosse. Ainda que antes estivéssemos longe de uma situação ideal, havia espaço para algumas poucas de nós exercermos poder em áreas cruciais do governo. Hoje, nem isso.

Lamentamos o vexame, mas não seremos combatidas pelo machismo ou atropeladas pelo retrocesso. As mulheres ainda são o futuro da política brasileira e vamos mostrar nosso poder nas ruas, nas urnas, na luta.

Leia mais:

Ministério de Temer deve ser o primeiro sem mulheres desde Geisel


Arte: Shigeo Fukuda

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“A cor está para o Brasil como o gelo está para a população do Alasca.” – Hélio Santos.

As narrativas de pessoas negras não são as mesmas, mas possuem diversas semelhanças. Não seria diferente no quesito acadêmico e intelectual: crescemos acreditando que não sabemos nada, ou popularmente dizendo, que somos burros. Com essa percepção que baseia nosso intelecto como limitado, somos sabotados muitas vezes por nós mesmos ao acreditarmos que não somos intelectuais, inteligentes ou capazes o suficiente para sermos reconhecidos. Esse sentimento de “autossabotagem” nos espreita, essa sensação foi introjetada por nós negros, seja no inconsciente fruto da inferiorização racista seja na autoestima que se reflete na rotineira insegurança para certas atividades nas quais não costumamos nos ver, essa introjeção nos limita e nos frustra.

Na escola, alunos negros tendem a receber um tratamento diferente dos demais, um descaso velado. Isso já se dá pela seleção feita pelo racismo institucional que priva alunos negros de maioria pobre do acesso a uma educação de qualidade, essa que fica restrita as classes altas. O aluno negro está alheio às condições plenas de desenvolvimento, afastado dos meios que o tornariam qualificado e competitivo. Paralelo a isso o aluno negro mesmo em meios onde a maioria é negra, sofre com ofensas racistas dos coleguinhas, quanto mais escura sua pele e mais evidente são os traços “lidos” como negros, as agressões tendem a ser constantes e ferozes.

“O professor estava corrigindo as tarefas. Ele tinha terminado e falou que a gente podia conversar. A gente foi conversar e eu estava com o colega do lado. Ele chegou e cuspiu em mim”.

Esse é um relato de um jovem de 14 anos, sobre um caso que aconteceu em novembro de 2015. Provando que a violência sistêmica e estrutural que o racismo apresenta no Brasil reflete o ambiente das escolas, até mesmo por partes dos seus professores, inclusive, muitos isentam-se dos esforços na implementação da lei 10.639:

Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Eu sei que a vida dos professores em escolas públicas é difícil, a profissão é desvalorizada, exaustiva e mal remunerada, estudei nesses locais de estrutura precária minha vida toda até o ensino superior. Porém eu não vou negar que existe racismo por parte de alguns, dos alunos e da direção. Que essa lei não se implementa também por desinteresse e desconhecimento dos próprios agentes da educação sobre o que seria uma educação com foco racial, e quando isso é debatido em reuniões de professores, muitos partem para ignorância e racismo, julgando o contéudo como opcional, secundário e descartável. Já se passaram mais de 10 anos e não temos uma lei que vai impactar a vida principalmente dos alunos negros sendo implementada e efetivamente aplicada e esses alunos negros, portanto, continuam sendo a maioria nos números de baixo desempenho e consequente evasão escolar.

Estima-se que mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos não frequentam a sala de aula, segundo informações do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do UNICEF. O perfil dos adolescentes fora da escola no Brasil englobam em sua maioria adolescentes negros e pobres. Sendo assim, a evasão escolar é mais do que uma questão de classe social, ela envolve raça, a falta de discussões raciais, a distância da realidade dos jovens negros e frequentes violências geram o afastamento desde da vida escolar até a manutenção do lugar negro fora do ambiente acadêmico.

Mesmo quando criança eu já percebia que deveria me esforçar mais que os demais: seja sempre duas vezes melhor.

Meninas aprendem logo cedo que precisam ser melhores que meninos na escola, afinal eles sempre serão “os caras da matématica”, das exatas, do raciocínio lógico e rápido, mesmo que você seja a aluna que tenha passado mais vezes nas Olímpiadas de Matemática da sua escola. A mulher que se destaca em alguns campos acadêmicos não é tomada como exemplo a ser seguido pelas demais, mas como exceção, temos então um grande problema no quesito representatividade. Com o negro não é diferente, a complexidade da forma como o racismo agiu na nossa sociedade nesses quase 400 anos de escravidão, deixa muitas vezes passar que intelectuais como Luiz Gama sofreram o racismo que o impedia de estar como aluno numa sala de aula do Curso de Direito do Largo do São Francisco – hoje denominada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Gama, por conta do racismo era obrigado a escutar as aulas de fora da sala de aula, pois era impedido, por conta de sua cor, de compartilhar aquele ambiente com os demais alunos do seu curso.

A pergunta é: Quantos como Luiz Gama não ficaram da porta pra fora e nunca puderam exercer sua plena capacidade intelectual por isso? Nunca puderam estar [dentro] de forma legítima e presente usufruindo de todas as potencialidades daquele ambiente acadêmico. Não pode haver avaliação justa numa situação desigual em oportunidades e diferenciada em tratamentos.

Precisamos entender tais conceitos de gênero e raça que nos assolam durante os períodos da vida escolar, para compreender como se dá a narrativa da mulher negra no ensino acadêmico e porque os cursos superiores ainda contam com maioria branca. São duas opressões, que se realimentam e se somam criando uma situação onde não devemos ser duas vezes melhor – isso era ingenuidade minha quando criança: temos que ser quatro, dez, mil vezes melhores para possivelmente se destacar, já que nem isso é garantido. O sistema meritocrático que garante para alguns uma rápida ascensão profissional e salarial, não funciona para nós que nascemos negros. Eu fui ensinada a me exigir obsessivamente, pois as barreiras que enfrentaria eram maiores, da mesma forma que fui encorajada a esconder minha inteligência. Eu sofria literalmente por cada erro, provas com notas não tão altas, tarefas com resultado não tão positivo, eu me exigia a perfeição…

Eu não sou o símbolo que vem ao imaginário quando se pensa na boa educação e consequentemente não sou o modelo do que é ser intelectualizado. A permanência universitária se torna difícil não só pelas questões materiais, mas também pelo psicológico fragilizado pela destruição da autoestima de nós negros, não é à toa que desenvolvemos as chamadas crises de ansiedade. Quando se é colocado num ambiente onde as pessoas a sua volta não têm as mesmas preocupações, demandas, dilemas, obstáculos e dificuldades que você, a tendência é que o sujeito se cobre mais para estar no mesmo nível, mesmo que haja uma impossibilidade socio-instrumental desse parâmetro se equalizar. Pois o passado conta, a vida na escola pública pesa, a aula de inglês que não existiu é cobrada, aquela lacuna constante que fazia todo mundo ficar pelo menos uma vez por semana sem aula, a renda no limite, o intercâmbio que sua posição não forneceu, o mercado de trabalho pós cotas, Prouni/Fies é complicado para quem precisa pagar por cursos e especializações caríssimas para se tornar um profissional competitivo.

Então sim, temos alunos negros depressivos, mentalmente fragilizados, com síndrome do pânico e crises de ansiedade além de outras doenças e transtornos psicológicos graves que minam a vida social e reduzem a qualidade de vida do seu portador.

Isso é frescura? Alguns podem achar que sim. Mas me diga como podemos acreditar em nós, quando ninguém mais acredita? Quais os impactos disso sobre nossa mente?

Será que sou capaz? Será que mereço? Será que sou uma farsa?

“A mulher negra, ela pode cantar, ela pode dançar, ela pode cozinhar, ela pode se prostituir, mas escrever, não, escrever é uma coisa… é um exercício que a elite julga que só ela tem esse direito.” – Conceição Evaristo.

No imaginário de jovens negros essas perguntas permeiam uma realidade autopunitiva. Algumas pessoas apontarão isso como mera falta de autoestima ou falta de vontade, eu vejo como consequências de um estado racista, que chegou a privar o negro do acesso à educação e ainda hoje faz isso de forma indireta, tanto que precisou de cotas para o nosso ingresso ser “simbólico”. A intelectualidade para o negro ainda é negada ou repleta de ressalvas, pois uma das alcunhas racistas sobre a definição dessa, é que ela é inerente ao ensino acadêmico, não que o branco venha exercendo a intelectualidade. No Brasil, cada vez mais, a pessoa vista como intelectual se mostra alienada ou despreparada para entender questões que envolvem raça, classe e gênero. O intelectual pode não ter o diploma, assim como o diplomado não é necessariamente o intelectual. O exercício da intelectualidade também requer uma nova visão sobre a universidade e como o ensino se mostra ainda retrógrado, elitizado e limitado.

A busca pela academia é uma busca de legitimação, por isso defender a importância do acesso acadêmico para negros no Brasil é também uma questão que envolve garantir a vivência da intelectualidade como algo pleno e fidedigno.

O que esconde esses nomes e suas produções intelectuais é o racismo. Não existe outra justificativa plausível, assim como muitos intelectuais negros para serem aceitos são primeiro embranquecidos. Os que falam diretamente sobre racismo são os que mais tendem a ser “escondidos” dos olhos de todos. Esses que acabam inclusive sendo só fonte de estudos para alunos negros que se mostram interessados em suas narrativas e produções.

 

Indicação de leitura:

http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/10/16465-50747-1-PB.pdf?5adc52

http://www.geledes.org.br/professores-sao-suspeitos-de-cuspir-em-aluno-e-de-racismo-em-escola/


Stephanie Ribeiro é militante do movimento feminista negro e estudante de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Arte: Manjit Thapp

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