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Três anos de prisão: esta é a pena que uma mulher que tenha feito aborto pode ser condenada a cumprir. Quem a ajudou pode pegar quatro anos na cadeia. Com exceção de casos em que o aborto é legalizado (gravidez em decorrência de estupro; único meio de salvar a vida da mãe; ou feto anencéfalo), o aborto é considerado crime no nosso país.  Ainda assim, ele é praticado clandestinamente por milhares de mulheres anualmente, por um simples fato: é uma questão de saúde e da vida das brasileiras. A estimativa da Anis – Instituto de Bioética, é de que uma em cada cinco mulheres terá abortado até os 40 anos. Isso quer dizer que pessoas muito próximas de você, ou você mesma, já abortaram.

Com o objetivo de descriminalizar uma prática tão recorrente na vida das brasileiras, quatro advogadas protocolaram uma ação no Supremo Tribunal Federal aproveitando o último 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A relatora designada, ou seja, a pessoa responsável pelo andamento da ação, é a ministra Rosa Weber.

O primeiro passo da relatora foi pedir informações a órgãos e autoridades responsáveis pela lei, como Câmara dos Deputados e Senado Federal, e também à Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da República. Esse é o andamento do pedido de medida liminar, o que significa um pedido de urgência, identificando o risco da saúde pública e das mulheres, para que se impeça qualquer prisão em flagrante, ou o andamento de processos em curso. “A urgência se justifica pelo fato de mulheres se submeterem a abortos todos os dias”, explica Gabriela Rondon, da Anis – Instituto de Bioética, uma das advogadas responsáveis pela ação. Em regra, a ministra aguarda receber as informações solicitadas para poder decidir sobre a urgência e colocar o processo em pauta.

Por enquanto, não é possível prever quanto tempo vai levar até uma resolução nem qual se ela será positiva, mas não há dúvidas quanto a necessidade de descriminalização imediata. “O que mais mata não é o fato das mulheres fazerem o aborto, em sua maioria por medicamento, mas as complicações posteriores, quando a precariedade dos serviços age”, explica Maria das Dores Nunes, médica ginecologista, obstetra e pesquisadora. De acordo com seus estudos com famílias de adolescentes que morreram após um aborto, o que matou essas meninas foi a recepção preconceituosa ou desqualificada que levou a diagnósticos errados. Este atendimento também é muitas vezes  tardio, pois as mulheres têm medo de procurar o serviço médico e contar que cometeram algo que ainda é um crime.

Conversamos com três militantes envolvidas nesta luta – Debora Diniz, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética; Luciana Boiteux, PSOL, uma das advogadas responsáveis pela ação e Maria das Dores Nunes, médica ginecologista e obstetra e pesquisadora – para entender o que a descriminalização do aborto pode fazer por mim, por você e por todas as mulheres – e como podemos participar desta importante mudança.

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O que a descriminalização vai mudar na vida e na saúde das brasileiras?

  • Debora Diniz, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética.

Um ponto inicial é entender o que significa descriminalizar. O aborto é um crime no Brasil, pelo qual uma mulher pode ir presa. Então, descriminalizar não é tornar obrigatório, não é banalizar o aborto – as mulheres que um dia precisam fazê-lo estão conscientes da seriedade desta decisão. Descriminalizar significa não levar essa mulher à cadeia, não prendê-la. Mas não é transformá-lo em método de planejamento familiar como tantos outros que possam estar acessíveis. É assumir que, pelas mais variadas razões, em algum momento da vida uma mulher possa ter que enfrentar essa decisão, tomar essa decisão, sem ter medo de ir pra cadeia por isso, nem recorrer a práticas clandestinas, que põem sua vida em risco. É preciso deixar claro que é uma necessidade de saúde, que está inscrita num tabu, mas que não é vista assim em determinados países nem por quem precisa recorrer a ela em algum momento da vida. Descriminalizar é devolver o aborto como uma necessidade de saúde e um cuidado de saúde para as mulheres.

  • Luciana Boiteux, PSOL, uma das advogadas responsáveis pela ação

A criminalização não impede que mulheres abortem: quem tem melhores condições paga por um aborto seguro, enquanto as que não podem pagar morrem em clínicas clandestinas ou por tentativas solitárias. Descriminalizar quer dizer retirar o crime do código penal, que é o que o Supremo pode decidir e essa é a primeira luta. Mas depois vem a legalização, o que quer dizer tornar o serviço legal e oferecido, implementado como política pública de garantia de acesso. Isso é o que queremos no fim.

Não sendo mais crime, esperamos que essas mulheres possam se sentir acolhidas, respeitadas, respaldadas pelo poder público. Esperamos que isso possa reduzir o número de mortes maternas, considerando inclusive que muitas mulheres que morrem por complicações decorrentes de um aborto são chefes de família.

  • Maria das Dores Nunes, médica ginecologista e obstetra e pesquisadora

Sei que há um comportamento discriminatório, inclusive no grupo de profissionais médicos, que leva a um atendimento com descaso às mulheres que chegam no serviço de saúde com complicações após abortos. Deixar de ser crime leva a um tratamento com mais dignidade, mais respeito à autonomia e diminuição da discriminação das mulheres – principalmente pobres, negras, adolescentes. Pensar nessa possibilidade é pensar que muitas mulheres possam deixar de morrer.

O que vai mudar nas redes de apoio de mulheres?

DD – Elas vão poder sair da clandestinidade, vão poder existir de fato. O que há hoje é uma rede clandestina de mulheres que se cuidam, se apoiam, mas no medo, no segredo, procurando serviços de saúde muitas vezes de maneira tardia. Isso vai permitir que, ao chegarem a um serviço de saúde, o atendimento seja adequado e elas possam saber o que fazer para não passar novamente por essa experiência, por exemplo. Porque hoje as mulheres escondem quando fazem e os profissionais de saúde perdem uma oportunidade de orientá-las, o que inclusive pode reduzir a taxa de aborto no Brasil.

LB –  Ser uma atividade ilegal dificulta o apoio, porque qualquer pessoa está sujeita à lei penal se ajuda uma mulher. Assim, outras mulheres são colocadas sob risco de incriminação e toda essa relação se torna uma conduta ilícita. Ao descriminalizar, esta solidariedade se torna menos difícil.

MDN – Vai acontecer uma mudança no serviços ao direito das mulheres – e a rede de apoio ajudará na vigilância disso. Se elas desejam interromper a gestação e é um direito garantido por lei, caberá exigir qualidade desses serviços, que passarão a ser olhados de maneira mais humanizada. Facilitará para que pais e familiares entendam que têm que cuidar e possam retirar o peso moral e religioso do julgamento sobre o aborto.

Será muito importante a divulgação da descriminalização pelas redes de apoio para que chegue a mais gente, para que as mulheres nos interiores do país tenham acesso à informação.

O que podemos fazer, enquanto cidadãs, para ajudar a pressionar por uma resolução?

DD – A primeira coisa é começar a falar mais sobre o aborto para tirá-lo desse lugar como se fosse algo estranho na vida das mulheres, porque não é. Ele é comum.

Então precisamos começar a contar as histórias de aborto (com mais de 8 anos, pois não estão mais sujeitos a crime) de uma maneira diferente: as mulheres fazem aborto, sobrevivem, têm filhos, não entram em sofrimento eterno sobre isso. Não é, por isso, uma experiência feliz, mas não precisa ser algo que envolva medo da prisão e medo de morrer.

O aborto está no Supremo e nunca tivemos um momento assim no país. É nosso momento de mudar a lei a favor da autonomia das mulheres. Precisamos nos mobilizar quando esse tema entrar em pauta.

LB – Teremos uma data para promover um grande debate: 28 de setembro, Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina. É essencial que muitas mulheres tragam a conversa para as redes, postem e divulguem a descriminalização como algo a favor da vida das mulheres. É preciso haver uma outra forma para lidar com esse debate sem interdição e sem preconceito. A reação das pessoas depende muito da pergunta que se faz: você criminalizaria uma mulher por aborto?

MDN –  É muito importante termos conhecimento da realidade do Brasil. Mulheres abortam, é fato. As pobres padecem. As que ficam com graves sequelas, como perdas de órgãos e infecções graves, são as que têm filhos, pobres, que sustentam a família. Se elas morrem, a família fica desassistida. Precisamos conversar que mesmo descriminalizado, o aborto não é uma situação cômoda, é uma decisão difícil, mas que precisa ser possível.

Nina Neves é jornalista freelancer. Escreve e estuda sobre temas de direitos humanos, gênero, cultura e sexualidade. 

Arte: Kaye Blegvad.

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De acordo com o anúncio do Cartoon Netwoork ao site da revista Entertainment Weekly, o clássico desenho animado Meninas Super Poderosas não será mais sobre um trio. A equipe de super heroínas ganhará uma nova integrante em um episódio especial que vai ao ar no dia 17 de setembro. Esta nova personagem ainda não teve seu nome ou aparência divulgados, mas a audiência tem motivos para crer que será negra –  em função da escolha da cantora Toya Delazy para dar voz à nova heroína e também por conta da imagem abaixo, vazada pela versão russa do canal, com as originais Florzinha, Lindinha e Docinho com uma figura desconhecida. Mesmo antes dessas confirmações, e sem saber se esta seria uma mudança fixa ou uma publicidade momentânea para o canal, as reações dos fãs renderam muitos comentários na internet. O site de cultura nerd Digital Spy elencou reações negativas e positivas à notícia. As positivas, tratavam sobre representatividade, mas as negativas que ganharam destaque no título do artigo. Alguns fóruns de nerdices online chegaram a abrir tópicos onde é “permitido ser racista” para comentar a imagem vazada, pois, como defendem alguns comentários, “as cores não estão certas” e por isso precisam ser criticadas.

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Recentemente, a atriz Anna Diop também foi alvo de comentários racistas por aceitar o papel da heroína Estelar na série live-action de Jovens Titãs, da DC Comics. Estelar é uma alienígena de pele laranja e globos oculares verdes. Ou seja, nenhum traço ou indicação de raça, pelo menos não no mundo dos seres humanos. Mesmo assim, fãs dos quadrinhos e da equipe de heróis, que conta com um personagem originalmente negro, alegam que Anna não seria adequada pois Estelar tem cabelos ruivos.

Estas reações desqualificam uma das características mais fascinantes sobre ficção científica: o uso de mundos imaginários em séries, filmes, quadrinhos, games, animações e livros do gênero e sem limites para demonstrar como combater problemas da sociedade no mundo real. Na verdade, parece que a ficção científica e a cultura nerd, ambientes dominados por homens, são cheios de regras e uma delas é: as mulheres negras não são bem vindas.

Claro que este pode ser um problema unicamente de gênero, como demonstrou a versão feminina do deus/herói Thor para os quadrinhos da Marvel. Pior ainda quando  existe uma personificação dessa mulher que ocupa o lugar considerado masculino, como na escalação de Jodie Whittaker para viver a nova encarnação de Doctor Who na série aclamada de mesmo nome. A BBC britânica demorou mais de 50 anos para selecionar uma mulher para a posição, mas as reações parecem ter vindo do período em que a série estreou. “Ninguém quer uma TARDIS cheia de sutiãs”, “O politicamente correto não deveria existir no espaço” e “Viagem no tempo é para homens, somente homens” foram alguns dos comentários que viralizaram junto com a notícia. O jornal Daily Mail chegou a publicar fotos nuas da atriz em outra obra que protagonizou, chamando-a de “Doctor Nude”. Isso sem listar as montagens colocando a atriz em posições sexualizadas em cenários da série.

Mesmo com essa resistência dos homens, as produtoras, emissoras e autores não querem mais ficar em cima do muro com relação a diversidade de gênero. A deusa dos quadrinhos tomou o lugar de Thor e Jodie ainda vai ser uma Doctor, com estreia prevista para dezembro. Para além das posições masculinas, as mulheres também estão passando a ser donas de suas próprias histórias originais de ficção científica, como em Orphan Black, onde Tatiana Maslany interpreta brilhantemente mais de 10 clones diferentes.

Mas as críticas recebidas por atrizes negras que também estão ocupando espaço nesse mundo ainda são preocupantes, pois demonstram que mulheres, ainda que com muita insistência, podem até ser bem vindas nas narrativas, mas isso é mais fácil quando são brancas. Como no caso da existência de uma Hermione Granger – a melhor amiga do bruxo Harry Potter – de pele negra.

As reações à notícia de que Noma Dumezweni daria vida a personagem na peça de teatro “A Criança Amaldiçoada”, que dá continuidade à saga Harry Potter depois da história contada nos livros e no cinema, não pareceram dignas de um grupo de fãs que, segundo o estudo publicado no Journal of Applied Social Psychology, crescem mais tolerantes e menos preconceituosos por lerem a série. A autora J.K Rowling teve que se pronunciar no Twitter, para lembrar aos fãs que nos livros, Hermione é descrita da seguinte forma: “olhos castanhos, cabelo crespo e muito inteligente” e destacando que a cor da pele nunca fora especificada e sendo assim, tanto Emma Watson, a primeira Hermione, quanto Noma seriam fisicamente qualificadas para o papel e a nova atriz não estragaria a “essência” da personagem, como muitos argumentaram para não soar racistas.

É importante destacar que tal revolta vem de, em sua maioria, homens brancos e isso diz muito sobre o quanto a representatividade importa. Primeiro, pelas mudanças que produtoras e autores têm procurado trazer para suas obras, a fim de agradar todos os consumidores e não só uma parcela deles. Mas também pois importa a ponto de causar revolta quando ela é dada para um grupo minorizado que antes nunca foi protagonista. Importa a ponto de fazer um grupo acreditar em uma vida onde é capaz de tudo e outro, acreditar no contrário.  

Imagens:

A nova Menina Super Poderosa / Cartoon Netwoork
Versão de Estelar no game Injustice / Divulgação
Noma Dumezweni como Hermione Granger para “A Criança Amaldiçoada” / Divulgação

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O assediador Biel não existe mais. Na verdade, ele nunca existiu. É o que garante Gah, como agora ele quer ser chamado. Ciente de que não conseguiria se desprender das acusações para seguir sua carreira, o cantor reaparece apontando que tudo, desde a agressão até o pedido de desculpas, foram feitos sob influência de um personagem.

Longe de ser convincente, um vídeo lançado por Biel para apresentar sua nova fase é uma tentativa desesperada de anular o passado ou fugir de suas responsabilidades. Mas falhou nessa missão, pois mostra para o público que o personagem inventado é, na verdade, Gah, que não só não está constrangido ou arrependido pelos seus atos no passado, como também os defende. A verdade é que nada apaga a #ViolênciaEmDobro sofrida pela jornalista Giulia Bressani, primeiro no momento do assédio por parte de Biel e depois por meio de todo tipo de retaliação sofrida, incluindo sua demissão do portal IG, quando fez a acusação e exigiu respeito no ambiente de trabalho. E toda a punição, jurídica ou de mídia, que o agressor veio recebendo desde então merece ser destacada, em um mundo em que homens se livram facilmente de acusações quando são famosos.

Mas, ainda que nos esforcemos para acreditar que qualquer personagem um dia tenha sido exigido de Biel em nome do sucesso, o questionamento principal a ser feito em um momento de redenção e evolução pessoal deveria ser: por que esta persona criada é um homem assediador e agressivo?

O currículo do ator José Mayer, veterano das novelas da Rede Globo, está repleto de personagens que demonstram um ciclo vicioso, de uma cultura que normaliza agressores, mostrando-os como “cafajestes” ou “mulherengos”, e vê o assédio como algo da natureza masculina. Não é a toa que ele acreditou que poderia sair ileso de uma acusação de assédio com a mesma desculpa do “personagem” e acabou demonstrando como funciona o gaslight na prática. Em sua primeira declaração sobre o depoimento da figurinista Su Tonani, denunciando o assédio nos bastidores da Rede Globo, Mayer alegou que a vítima estava fazendo confusão com seu personagem Tião, na época no ar na novela “A Lei do Amor”. Depois da péssima repercussão do caso, o ator, agora afastado de atividades na emissora, foi forçado a assumir o ato e pedir desculpas formalmente.

Este ideal de masculinidade ajudou a impulsionar a carreira de Mayer nos anos 80 e a de Biel atualmente, mas também foi responsável por manchar a imagem de ambos os artistas. A ideia de atribuir o assédio a um personagem, como uma tentativa de reparar os próprios danos, pode não ter funcionado para melhorar as imagens de Biel e Mayer – mas está funcionando para construir a de Dudu Camargo.

Se hoje o jornalista e apresentador de 19 anos está sendo disputado por emissoras, a ponto de ter propostas para apresentar seu próprio programa de auditório, é por causa da proteção que o dono do SBT, Sílvio Santos, tem dado a ele. Dudu foi incentivado a assediar a atriz e apresentadora Maísa durante um dos programas do Dono do Baú. Com a justificativa de que deveria haver um romance entre os dois, Sílvio Santos transmitiu o #PrimeiroAssédio de uma menina de 15 anos em rede nacional.

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Maísa tem sido forte e resistente diante da insistência da mídia em reviver a briga que teve com Dudu nas gravações e nos bastidores do SBT, mesmo sem o apoio da emissora, para a qual trabalha desde a infância. Enquanto a imprensa divulga rumores sobre o fim da carreira de Maísa, o portal Comunique-se, especializado em comunicação e jornalismo, analisa o futuro de Dudu e o aconselha, para que ele aproveite seu potencial de apresentador, a não se “perder no personagem que ele mesmo está criando”. E aparentemente, o problema não estaria na misoginia desse suposto personagem, mas sim no “humor” dele, para que este fator não fique no caminho de notícias sérias.

Com uma persona que assedia sendo construída já no início de sua carreira, Dudu teria ainda mais facilidade de culpar um personagem por este ou mais atos agressivos que podem vir a acontecer, se nada for feito sobre isso imediatamente. Passar a ouvir a vítima ao invés de dar voz para justificativas como as de Biel, Mayer ou da mídia sobre Dudu, é um passo importante.

A atriz Maria Schneider nunca teve voz nos bastidores de Último Tango em Paris, tampouco foi levada a sério em um das suas últimas entrevistas, quando acusou o ator Marlon Brando, com quem contracenou no filme, e o diretor Bernardo Bertolucci de estupro por causa da cena conhecida como “cena da manteiga”. Somente em 2013, quando o diretor assumiu o crime, dizendo que havia combinado a cena com Brando sem avisar Maria, o caso tomou a atenção que merecia. Porém, nada aconteceu com Bertolucci, que buscou justificar o crime dizendo que o cometeu em nome da arte, pois queria ter a reação de Maria como mulher e não como atriz.

O que os homens da vida real querem provar ao falar de seus personagens machistas, vai muito além de suas próprias condutas. Estes argumentos podem colocar as mulheres que os denunciam como loucas e assim continua os livrando de punição. Mas, embora tentem, eles nunca vão anular o fato que o assédio ou agressão sofridos são reais e existe punição.

Para continuarmos lutando contra assédio e violência de gênero, participe da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente na Benfeitoria e ganhe recompensas! Saiba mais: bit.ly/OLGA-na-benfeitoria.

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“Manual do politicamente correto”. Este comentário chegou até nós em resposta ao nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado e, apesar do tom negativo, quase como uma acusação, ele nos ajudou. Ajudou a reafirmar a nossa missão com esse projeto e a necessidade dele. Como podemos nos opor ao termo “politicamente correto”, quando não se refere a  nada mais do que a algo… Correto!?

Respondemos prontamente que, se trabalhar por uma comunicação que seja justa e respeitosa para grupos minorizados socialmente é ser “politicamente correto” não queremos ser incorretas. Principalmente quando a ideia do tal politicamente incorreto vem disfarçada de uma falsa liberdade de imprensa.  

E, neste Dia da Liberdade de Imprensa, questionamos: liberdade de que imprensa? Para que público?

Hoje encontramos muitos veículos – a Olga inclusa – que buscam a representatividade, profundidade e, principalmente, pluralidade de uma sociedade representada nas notícias. Mas este trabalho independente não isenta os jornalistas de buscarem pelas mesmas mudanças em suas redações. Na verdade, esta visão independente, longe de ser uma concorrência para grandes empresas de comunicação, é o que está pautando a grande mídia e acordando seu público.

As revistas voltadas para adolescentes não mais publicam perfis de garotas “para casar” ou “para pegar” sem serem questionadas quanto a essa visão machista sobre a conduta da mulher, uma faísca para repensar se esse tipo de questionamento é realmente uma  pauta, pra começo de conversa. As revistas de moda não mais são bem vistas por falar de novas tendências sem ter mulheres diversas vestindo-as. Os jornais mais tradicionais não mais falam sobre violência de gênero sem acender debates nas caixas de comentários. E todas estas mudanças, para diferentes veículos, significa o mesmo: mais do que nunca, é preciso assumir a responsabilidade de informar de maneira imparcial e respeitosa.

Por isso o Minimanual de Jornalismo Humanizado traz maus exemplos da prática jornalística, derrubando a antiética que vem com a máscara do “politicamente incorreto” para mostrar as maneiras corretas de se falar sobre gênero, pessoas com deficiência e racismo.  

Estamos conscientes do quão longe o Minimanual ainda precisa ir para evitar manchetes e reportagens que diminuem mulheres e as violências que sofreram, como “Espancada ao reagir a cantada morre após quatro meses de internação”, publicada pelo G1 ao falar de Michelle Ferreira Ventura, no ano passado. Ou ainda, “Mulher arrastada pela polícia morre no Rio de Janeiro”, como muitos veículos se referiram a Cláudia Silva Ferreira em 2014.

Sabemos também o quanto a atenção da mídia (ou a falta dela) para pautas de grupos minorizados diminui o conhecimento da população sobre estes grupos. Um dos maiores exemplos disso foi o episódio em que o prefeito de São Paulo virou manchete ao dizer que doaria seu primeiro salário para “crianças defeituosas”, provando a utilidade do Minimanual até para quem não é comunicólogo.

Mas também presenciamos debate e mudanças efetivas que acontecem a partir dos conhecimentos que compartilhamentos por meio dessa ferramenta.

No ano passado, um editor da Folha de S.Paulo alterou o conteúdo de uma matéria que trazia MC Biel se pronunciando sobre o episódio de assédio a jornalista Giulia Bressani, repórter do portal IG na época. Foram inseridas aspas da jornalista e, consequentemente, um novo ponto de vista, narrando o que ela e a editora que a defendeu sofreram (ambas foram demitidas pouco mais de um mês depois da denúncia). A matéria também cresceu ao falar sobre resistência, citando o movimento Jornalistas contra o assédio, que surgiu por conta este caso.

Entre outros trabalhos, este combate contra o incorreto na mídia por meio do Minimanual nos fez finalistas do Prêmio Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico.

Para nós, as conquistas e as decepções são grandes sinais da importância de apontarmos as falhas que encontramos. De não nos calarmos diante da grandeza da tão falada mídia de massa. Por meio de uma comunicação mais justa e humanizada, educamos para construir um mundo mais justo.

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É de se esperar que, em um reality show como o Big Brother, um caso de violência de gênero em relacionamento abusivo não passe despercebido. E na edição 2017, não passou. A audiência percebeu muitas agressões sofridas pela participante Emilly Araújo por parte de Marcos Harter, e fez pressão para que a Rede Globo acionasse a Delegacia da Mulher. Depois de apurar as imagens das câmeras, a polícia decidiu por expulsar Marcos da competição para continuar a investigação.

Mas, embora tidas as intimidações, os gritos, as marcas roxas pelo corpo e tudo mais que ela sofreu possam claramente categorizar violência para muitos, o problema não ficou tão claro para Emilly, ativando mais uma violência sofrida: a culpabilização da vítima.

Este infográfico, que traduzimos da Amnistia Internacional Madrid, demonstra que muitas agressões são invisíveis para a vítima – e até mesmo para pessoas que acompanham o relacionamento de fora. Caso contrário, não haveria uma parcela de telespectadores se pronunciando contra a expulsão de Marcos, argumentando que não houve crime, que as intimidações eram “normais” ou “parte do romance”.  

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Sendo o #BBB17 um programa que torna, de repente, pessoas anônimas em populares no horário nobre da maior emissora do país, Marcos poderia se encaixar facilmente no perfil de um homem inconformado com o fim de um relacionamento e que usa seu status e influência adquiridos com a fama para sair impune das acusações.  

Mas a máxima #MexeuComUmaMexeuComTodas faz a diferença quando se observa a pressão exercida no reality. Afinal, se a percepção do problema é difícil até para a vítima, a luta por justiça é ainda mais nebulosa. O caso de Emilly foi discutido abertamente por ter sido televisionado – quantos são os casos de violência que passam invisíveis e silenciosos por mulheres em todo o Brasil? Quantos deles saem impunes?

Da suspeita de estupro na edição de 2012, que resultou na expulsão do ex-participante Daniel (https://glo.bo/2o6hmfx), para a expulsão de Marcos na edição que está no ar atualmente, a discussão avançou. Dessa vez o programa teve com Emilly uma atitude que não teve com Monique no passado, tornando pública a visita da Delegacia da Mulher aos estúdios para interrogação e fazendo um pronunciamento oficial. Porém, ainda considera “supostas” as agressões que foram registradas por câmeras e, aparentemente, não pensa em medidas mais rigorosas para proteger mulheres na casa em outras edições que possam acontecer.     

Por isso é tão importante que Emilly tenha podido contar com um público que meteu a colher no que poderia passar como “brigas de casal”, impedindo que os abusos chegassem à ponta do iceberg. Contou também com o apoio da participante Vivian Amorim, que de forma madura e sensata, está ajudando Emilly a visualizar os abusos que ficavam escondidos debaixo d’água. “Não precisa ter intenção de machucar, agressão é agressão”, explicou ela no programa.  

E, quando sair do confinamento, poderá ver os tantos relatos nas hashtags #EuViviUmRelacionamentoAbusivo e #MasEleNuncaMeBateu, levantadas em apoio a ela e justamente para mostrar para quem ainda tem dúvida que também existe violência psicológica, e que, em outras casas, bem menos vigiadas, outras mulheres também podem estar precisando de ajuda.

Não somos desesperançosas quanto à punição para agressores. Já até apontamos alguns momentos importantes e simbólicos para estas mudanças. Contudo, a necessidade de insistência e de combater a relativização das violências não nos deixa iludir ou simplesmente esperar por mudanças. Cobraremos atitudes de instituições e da justiça até que não seja necessário cobrar. Até que não seja necessário que uma mulher sofra publicamente em nome da conscientização coletiva.

Arte: Xuan Loc Xuan.

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Quando recebi o convite para escrever um texto apresentando o livro Mulher, raça e classe da professora, pesquisadora e militante Angela Davis, senti um frio na barriga.

Esse livro é uma das principais referências para pesquisadoras e ativistas do feminismo negro no mundo inteiro. O que dizer sobre uma obra com essa importância histórica para tantas mulheres?

Acho que eu gostaria, então, de usar esse espaço para trazer algumas questões importantes para pensarmos juntas.

Primeira delas: feminismo não é espaço de disputa de saberes ou etnias. Feminismo é espaço de análise, reflexão e enfrentamento à opressão. E sim, é preciso racializar a discussão nesse campo, porque realidades diferentes exigem enfrentamentos diferentes.

Sabe qual é o ponto de partida para pensar essa realidade? A escravidão no Brasil. Sim, a escravidão moldou efetivamente a forma como indivíduos brancos e negros se percebem na sociedade brasileira. Mesmo que o mito da democracia racial diga que não, vivemos permanentemente uma tensão racial que se expressa em índices horríveis sobre a população negra, onde o pior dos piores índices retrata o cotidiano das mulheres negras.

O processo de luta para enfrentamento da opressão está ligado a dois fatores: 1. Empatia com a causa a partir de demandas reais e subjetivas, e 2. Compreensão que é preciso mudar essa realidade.

Nesse sentido, Mulher, raça e classe é um livro que parte das questões que Davis também vivencia, por ser uma mulher negra, ao mesmo tempo que ela potencializa essa experiência num método de análise da realidade da mulher negra, latina e indígena norte-americana.

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Esse é um livro obrigatório para qualquer mulher que se acredite feminista. Seja porque ele é rico em elementos para compreendermos a dimensão de raça e classe no debate feminista, seja porque ele foi escrito por uma das maiores intelectuais negras (senão a única) da filosofia política na modernidade, e que está viva e atuando nas trincheiras do feminismo e dos direitos humanos.

Se você é uma mulher negra, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente, faça rodas de debate e discussão. Para nós, mulheres negras, compartilhar conhecimento entre nós é um gesto de amor.

Se você é uma mulher branca, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente para outras mulheres brancas, faça rodas de conversa sobre os livros, procure compreender, por meio da genialidade de Davis, porque em alguns momentos gênero nos une e raça nos divide.

Sabe, a Angela Davis sempre diz que nossa missão revolucionária e feminista é romper com toda e qualquer forma de cisão, seja de gênero, de raça ou de classe. Na minha opinião, sabe como vamos fazer isso? Quando entendermos que a história tem dois lados e a realidade é um mosaico.

Que nada nos defina, a não ser a liberdade.

Awetu!

Jaqueline Conceição foi indicada em 2016 na lista de Mulheres Inspiradoras da ONG Think Olga, é graduada em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário São Camilo e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Articuladora do Coletivo Di Jejê, pesquisa à luz da Teoria Crítica da Sociedade, especialmente as contribuições de Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno e Angela Y. Davis. Possui publicações sobre gênero, funk, juventude, racismo, sistema prisional e políticas sociais (artigos autorais e traduções) em revistas científicas e revistas de circulação não acadêmica.

Para saber mais:

Leia: Mulher, raça e classe. Angela Davis. 1ª edição brasileira. São Paulo: Boitempo: 2016.Curso On Line O pensamento de Clique aqui para mais informações sobre o curso “Pensamento de Angela Davis”, do Coletivo Di Jejê

Arte: Dicionário Aurélia.

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Nascer com a pele escura não nos torna negros, assim como nascer do sexo feminino, não nos torna mulheres. Tanto a identidade de gênero quanto a identidade racial são construções sociais numa sociedade como a brasileira, profundamente machista e marcadamente racista, onde carregar essas duas marcas não é a melhor tarefa do mundo.

A minha trajetória pessoal, até o momento em que escrevo esse texto, é marcada por muita dor, mas também de crescimento e mudanças. E decidi compartilhar essa jornada com todas vocês, leitoras da Think Olga, por que acredito que, dividindo o peso, se torna mais leve e por que, juntas, vamos mais longe.

Em 2012, eu entrei no mestrado na PUC-SP, um dos melhores programas de pós graduação em Educação do Brasil. Foi nos elevadores da PUC, que eu entendi o que era ser negra e o valor social que isso tem. Toda minha família é negra, sim é verdade. Meus amigos e amigas de infância também, colegas de escola, as pessoas que eu mais quero bem, como meus filhos. Mas isso nunca, em momento nenhum da minha vida, foi motivo de dor ou vergonha, muito pelo contrário, sempre foi motivo de orgulho, a pele escura e os traços negroides no corpo. Até que, nesses dois anos, como mestranda numa das universidades mais elitizadas de São Paulo, eu entendi e aprendi o que quer dizer SER NEGRA.

Com muita frequência, as outras mulheres brancas, na grande maioria professoras e já senhoras, me perguntavam coisas sobre meu trabalho: “que horas você vai trocar o lixo do banheiro?, “avise para sua chefe que acabou o material de limpeza do banheiro” ou “por que você está sem uniforme?”. Eu não entendia bem de onde elas tiravam a ideia de que eu era faxineira, afinal, lá estava eu com meus livros, mochilas, notebook e olheiras, características típicas de qualquer pós graduando. Um dia, em um bate papo informal com uma professora do meu programa, eu ouvi o seguinte comentário: “Quanto é sua bolsa integral paga pelo Governo, só R$ 1.500? Nossa, minha doméstica ganha mais que isso e ainda é registrada, hein?”. Foi só depois de ouvir isso que entendi qual era a raiz da questão: eu mulher negra, só poderia estar naquele espaço, se fosse como serviçal, como faxineira, como doméstica. Não como uma aluna e nunca como uma professora.

Isso, para mim, foi uma chamada a realidade, uma chamada para a verdade: as mulheres negras no Brasil, valem quase nada, por que são nada. Quem liga para tia da limpeza ou a senhora do café?

Num primeiro momento, eu quis largar o mestrado, faltava menos de um ano para eu terminar, me doía muito voltar pra lá e ter aula com a professora que me humilhou tão duramente. De fato, não consegui terminar a disciplina dela. Mas eu precisava terminar, por que precisava da bolsa integral. Dos R$ 1.500 pagos pelo Governo Federal.

Eu terminei o mestrado com louvor, tirei 9,5 na banca final de defesa e comecei uma jornada em busca do autoconhecimento. Afinal, quem sou eu, mulher negra? Li muita coisa, pesquisei muito coisa, apesar de toda a dor, o mestrado me deu o gosto pelo fazer acadêmico. Nesse processo, conheci Angela Davis e que ler os textos dela é mais do que mera leitura. É um mergulho na visão de mundo dessa mulher extraordinária, ou melhor: dessa mulher negra extraordinária.

Existe no Brasil uma necessidade de aprofundamento sobre o pensamento da Angela Davis e meus dois anos de pesquisa sobre ela me deram um pequeno saber no campo. A partir disso, surgiram convites para palestras, debates e cursos, o que contribuir para o nascimento do Coletivo Di Jejê: um espaço de multiplicação de conhecimento sobre a mulher negra, feito por uma mulher negra, para as mulheres negras.

Em pouco tempo a procura triplicou: de uma turma de 7 pessoas, passei a atender 30 pessoas. Tudo na minha casa mesmo, na minha garagem/quintal. Em 2016, continuamos com os encontros “Vivências sobre a mulher negra” nos formatos presencial e a distância.

A cada encontro, todas aquelas mulheres negras, me traziam força, beleza e resistência para as minhas lutas diárias, para as minhas dores, para os meus medos, para os meus sonhos. Cada mulher negra que me procurava depois, pedindo orientação para sua pesquisa de graduação, para seu projeto de mestrado ou para desabafar uma dor, um sofrimento, alimentavam em mim a certeza de que, mesmo sem saber como, eu deveria continuar.

Me lembro de um curso que ministrei na Universidade Federal de Santa Catarina onde, no final, uma jovem negra da Baixada Fluminense, aluna de robótica, veio me dizer chorando que naquela semana ela havia pensando em se matar, mas que a minha palestra sobre Angela Davis, fez ela perceber que, se eu consegui, ela também vai conseguir superar suas dores. Devo confessar que escrevo isso chorando, por que, no auge das crises na PUC, eu também pensei em me matar.

Conto para vocês toda essa história para dizer que hoje o Coletivo Di Jejê precisa  continuar existindo e crescendo, precisa do apoio e a colaboração de todas e todos que acreditam que o conhecimento liberta e emancipa. Liberta das amarras que a sociedade colocou em nossas cabeças, emancipa por que nos ajuda a entender quem somos e o que podemos ser.

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Eu acredito nisso, eu vivo por isso. Essa tem sido minha luta, minha jornada nos últimos três anos. Ser a ponte que atravessa qualquer rio e que permite que outras mulheres negras marcadas, assim como eu, pela dor da invisibilidade social e histórica, possam significar suas vidas em prol do crescimento de si mesmas, de seus filhos, de suas comunidades.

Estamos agora iniciando nossa campanha de doação de bolsas para os cursos presenciais e a distância, que serão oferecidos pelo Coletivo Di Jejê em 2017. Você pode contribuir com nosso trabalho por meio de doações de bolsas de estudos ou patrocínio para nossos cursos. Basta preencher o formulário e entramos em contato.

*Jaque Conceição tem 31 anos, é mãe de dois meninos, professora e pesquisadora, filha de santo. Há três anos, fundou o Coletivo Di Jejêeu e, em 2016, é uma de nossas Mulheres Inspiradoras.

Arte: thinkcommon.

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A fotógrafa paulista Nair Benedicto (1940), em sua última mostra “Fé Menina” (São Paulo), exibiu trabalhos que ilustram sua percepção sobre o universo feminino através de um olhar provocadoramente etéreo e sensual, um olhar que legitima o prazer, a devoção e o estado de existir de suas protagonistas. Considerada uma das maiores fotógrafas do país, Nair Benedicto expôs uma coletânea de fotos em preto e branco e em cores que busca retratar a condição feminina desde os anos 1970 até a atualidade e cujo foco está direcionado e apoiado na figura fundamental da mulher em cada clique, pois segundo ela: “Mulher sempre foi um tema recorrente no meu trabalho. Eu considero esses registros fotográficos um pout pourri sobre a realidade da mulher brasileira, que é mostrada em diferentes situações: na prisão, em passeatas, em aldeias indígenas e no carnaval”.

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Louvação à Iemanjá na Cidade de Praia Grande (São Paulo), 1978

A vibração, a dramaticidade e a potência que acompanham os conteúdos das fotos de Nair Benedicto são intensificadas pelo efeito óptico que os elementos visuais em preto e branco produzem entre si. Essa mescla viceral entre o conteúdo/mensagem e a forma retratada em cada foto permite ao observador ter acesso a uma combinação de percepções díspares e, ao mesmo tempo, complementares entre si como a noção de distanciamento e de proximidade, de movimento e estaticidade, de simbologia conservadora e libertária, da devoção/recato e do profano/prazeroso. E nesse universo de pulsação vital, Nair Benedicto captura a figura feminina, que ocupa a posição cêntrica na cena e se deixa registrar sem filtros em um momento particular e simbólico de sua existência.

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Pagadora de promessa em Aparecida do Norte (São Paulo), 1981

A aptidão que Nair tem em abstrair uma determinada cena de seu espaço-tempo e de projetá-la em nosso presente estimula a imaginação do observador que busca decifrá-la e interpretá-la a partir de sua própria realidade. A fim de aprofundar o significado que as imagens passam a ter para si, esse observador tende a “scannear”, a perambular sobre cada detalhe do plano fotográfico e esse, segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991), é um caminho complexo que o olhar tende a seguir: um caminho formado e delimitado em parte pela própria estrutura da imagem e em outra parte pelas intenções do observador. Devido a essa ação de “scanner“, o significado de cada imagem passa a apresentar tanto a intenção da própria imagem, em seu particular microcosmo narrativo, quanto a do observador, em seu macrocosmo social, fazendo com que cada imagem forneça complexos de símbolos conotativos.

Ou seja, cada imagem abre espaço para variadas interpretações e intenções – dependendo justamente do olhar de quem a scannea e a decifra. E cada imagem de Nair Benedicto nos permite deambular pelo recorte de um determinado universo particular que ela capturou com seu olhar e nos oferece. A cada imagem registrada somos levadas a um instante de convivência e interação com as mulheres ali representadas e podemos, através de nossa leitura em “scanner”, preenchê-la com nossas próprias intenções, interpretações e experiências.

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Tesão no Forró do Mário Zan (São Paulo) 1978

Enquanto o olhar do observador capta um elemento após o outro do plano da imagem, ele passa a estabelecer relações de significados entre esses elementos internos em si, entre esses elementos e outras imagens já vistas anteriormente que lhe marcaram profundamente, entre esses elementos e a realidade do próprio observador. Nesse movimento que aponta tanto para o universo interno quanto para o externo da imagem ali retratada encontra-se um mundo mágico: um mundo onde tudo acaba se repetindo e interligando o passado ao presente; onde tudo compõe um contexto de significados variados e interconectados a partir do olhar de cada observador.

Nesse sentido, a abordagem do universo feminino pela lente de Nair Benedicto aponta para um mundo mágico porque retoma e conecta o passado ao presente através da representação de temáticas recorrentes e pertencentes ao universo feminino. Numa espécie de eterno retorno ao contexto do feminino e seus enclaves ainda existentes, especialmente na abordagem e na evocação de „o prazer é nosso sim e não há razão para repressão alguma“ ou „essa é a fé menina – minha constituição natural e da qual não devo me envergonhar“ Nair Benedicto trabalha a estética de ser fêmea, de ser mulher sem medo ou repressão alheia.

A magia das imagens de Nair Benedicto encontra-se também presente na inusitada combinação entre a ambientação etérea e a realisticamente brutal, como no retrato das mulheres do sisal. Uma magia que aponta o poder transformador da fotografia na qual acredita a artista, já que “Por meio dela (fotografia), procuro chamar a atenção para questões que considero relevantes para a sociedade”.

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Mulheres trabalhando no sisal (Bahia), 1985

No pequeno documentário abaixo, ouvimos Nair Benedicto falar especialmente de dois trabalhos audiovisuais que lhe marcaram: “O prazer é nosso” e “Não quero ser a próxima”.

*Todas as fotos divulgadas foram gentilmente cedidas pela Imã Foto Galeria, onde Nair Benedicto teve uma mostra exposta de julho 2015 a abril 2016.

*Referência a Vilém Flusser provém do livro “Für eine Philosophie der Fotografie” (Sobre uma filosofia da fotografia).

Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

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Arte Pedia Robinson

Gina Vieira Pontes
Gina Vieira Pontes

Gina Vieira Ponte nasceu em uma família de seis filhos, de mãe negra mineira e pai branco cearense. Os dois se encontraram no Distrito Federal, para onde se mudaram em busca de emprego e melhores condições de vida, ele vendedor ambulante, ela empregada doméstica. Formaram um lar em Ceilândia e ensinaram aos filhos que a educação era a chave para uma vida melhor. Viver o analfabetismo na pele fez os dois falarem sobre a escola como um privilégio que, se bem aproveitado, garantiria superpoderes aos filhos, poderes capazes de tirá-los da situação de privações econômicas para a vida que eles sonhassem. Porém, quando finalmente entrou na escola aos sete anos de idade, a pequena Gina não encontrou o conto de fadas que sonhava mas um ambiente carregado de racismo, no qual seus colegas caçoavam de seu cabelo e a excluíam de grupos e apresentações por causa de suas roupas puídas e seus sapatos velhos. “Meu sonho era ser uma criança invisível porque eu acreditava que se isso acontecesse eu não sofreria as agressões tão recorrentes”, conta.

Tudo mudou no ano seguinte, quando foi aluna da professora Creusa, uma mulher negra como ela. Certo dia, Creusa pegou Gina no colo. Sua primeira reação foi se encolher porque até então proximidade física na escola era sinônimo de violência. Mas era carinho. Diante da chacota dos colegas, Creusa elogiava as tranças de Gina, dizia que ela era linda, silenciando o racismo em sala de aula. Creusa passou a incluir Gina em todas as apresentações e aos poucos seu olhar sensível a transformou completamente. Gina passou a se dedicar compulsivamente aos estudos para retribuir a esperança depositada nela pela professora. Ávida pela atenção de Creusa – que trabalhava muito com escrita autoral, colando cartazes com ilustrações para que as crianças escrevessem uma história sobre o desenho – Gina se antecipava e passou a praticar a escrita fora da sala de aula para se aprimorar. Inconscientemente, usou a escrita para elaborar o racismo e as outras discriminações que passava através de diários. “Ter me apropriado da escrita foi decisivo para minha formação. Eu não tinha condições de frequentar um acompanhamento psicológico, mas a escrita se tornou meu espaço de organização das questões que me afetavam”, diz Gina. O olhar de Creusa impactou tanto Gina que ela mudou sua perspectiva sobre si e ganhou confiança. Concluiu que a coisa mais importante que um adulto poderia fazer na vida era marcar uma criança como Creusa havia lhe marcado. Passou, então, a sonhar em ser professora.

Anos mais tarde, Creusa é homenageada por Gina como mulher inspiradora
Anos mais tarde, Creusa é homenageada por Gina como mulher inspiradora

Não foi nada fácil a jornada até se tornar professora. Sem dinheiro para frequentar um curso preparatório para o magistério (formação para ser professora da época), montou um grupo de estudos com amigas e acabou sendo aprovada de primeira, entrando na profissão de professora já aos 19 anos. “A educação transformou minha história como minha mãe dizia que iria transformar. Em pouco tempo, meus pais não puderam mais trabalhar e eu me tornei responsável pela renda da família”, conta. No entanto, passados oito anos de experiência a frustração com o sistema escolar começou a pesar. “Comecei a perceber que a escola é uma estrutura repressora que não incentiva os jovens a estar na escola e fiz um processo de resignificação da minha identidade como professora”, diz. O foco na aprovação no vestibular, como se a vida se resumisse a ser aprovado em provas, a incomodava.

Para ela, o foco na aprovação negligencia outras habilidades das crianças e adolescentes – como criatividade, imaginação, habilidades sócio-afetivas, a capacidade de ser empático – e isso gera uma série de problemas como a falta de diálogo, a dificuldade de conviver dentro da diversidade e prejudica um desempenho efetivo ao focar demais na cópia e não dar condições de os jovens se apropriarem de conhecimentos capazes de transformar suas histórias. Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) corroboram a reflexão de Gina. De acordo com a última avaliação do programa, dois em cada três alunos brasileiros de 15 anos não conseguem interpretar situações que exigem apenas deduções diretas da informação dada. “Alguma coisa está errada nesse sistema que nem me olha como sujeito, não observa minha subjetividade, minha identidade, minha história e também não me dá condições de me apropriar dos conhecimentos que vão me ajudar a transformar minha história. Então precisamos repensar esse modelo educacional, sobretudo neste contexto em que vivemos, muito marcado pelas novas tecnologias”, afirma Gina.

Em uma tentativa de se aproximar ainda mais de seus alunos, nativos digitais, Gina passou a frequentar mais as redes sociais e lá se deparou com suas alunas de 13 anos postando vídeos em que dançavam sensualmente e recebendo comentários ofensivos dos meninos, sem considerá-los ofensivos. “Quando percebi minha aluna reproduzindo um referencial feminino colocado nas grandes mídias eu fui olhar para minha própria história e me dei conta de que o grande diferencial da minha vida foi ter tido a chance de viver com grandes mulheres”, diz. Na mesma época, Gina teve acesso ao material de apoio didático sobre igualdade de gênero oferecido pela Secretaria das Mulheres do Sindicato dos Professores. Ao estudar gênero, Gina percebeu que tinha como missão desvelar o machismo e mostrar como ele opera na sociedade brasileira. Somando as referências femininas de sua vida com os estudos de gênero, Gina teve a ideia de criar o projeto interdisciplinar Mulheres Inspiradoras junto com as turmas do 9º ano do Centro de Ensino Fundamental de Ceilândia.

Gina e seus alunos no lançamento do livro que conta as histórias das mulheres inspiradoras de suas vidas
Gina e seus alunos no lançamento do livro que conta as histórias das mulheres inspiradoras de suas vidas

O projeto consistia em várias etapas, começando com a apresentação de um vídeo mostrando mulheres com muita exposição na mídia e de mulheres importantes para a história do Brasil e do mundo que não são tão conhecidas assim. Em seguida, Gina trabalhou com a leitura de livros que traziam exemplos de mulheres fortes e de diferentes classes sociais, etnias, faixas etárias e níveis de escolarização, como O Diário de Anne Frank, Eu Sou Malala, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada e Não Vou Mais Lavar os Pratos. Ao mesmo tempo, a sala foi dividida em grupos com tarefa de apresentar um trabalho sobre uma mulher inspiradora da lista composta por Gina, que incluía Anne Frank, Carolina Maria de Jesus, Cora Coralina, Irena Sendler, Lygia Fagundes Telles, Malala, Maria da Penha, Nise da Silveira, Rosa Parks e Zilda Arns. Gina também levou mulheres inspiradoras para a sala de aula, incluindo Creusa Pereira dos Santos Lima, sua antiga professora e referência feminina. Por último, os alunos tiveram que escolher alguma mulher inspiradora de seu círculo pessoal para entrevistar e fazer um texto contando sua história. A maioria eram avós, mães e líderes de igrejas da região, contando a própria Gina.

“O que mais me emocionou foi ouvir de uma aluna que a partir do projeto ela descobriu que também quer ser uma mulher que carrega uma grande história. Uma outra aluna me disse que constatou a partir do projeto que essa história de mulher ser o sexo frágil é uma grande mentira porque, ao estudar a biografia da 10 grandes mulheres, descobriu que a mulher é uma fortaleza”, conta. O projeto foi tão intenso que superou as expectativas e transformou a própria identidade de Gina, que parou de alisar o cabelo e passou a afirmar sua negritude com o crespo natural. Gina conversou com suas alunas negras sobre isso e duas meninas seguiram o exemplo e também fizeram a transição capilar. “Elas passaram a ter plena consciência de quão poderosas elas são e percebi uma incidência infinitamente menor de fotos e vídeos sensuais nas redes sociais”, conclui. O projeto Mulheres Inspiradoras foi o vencedor de cinco prêmios em escala nacional e internacional, entre eles o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos em 2014 e o Primeiro Prêmio Ibero-americano de Educação em Direitos Humanos “Óscar Arnulfo Romero”, promovido pela Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) em 2015. As histórias dos alunos também foram publicadas em um livro, lançado em março deste ano. Agora, a ideia é ampliar o projeto ao capacitar mais professores para aplicá-lo em outras escolas.

Confira abaixo dois vídeos sobre o projeto:

Arte: Pedia Robinson.

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Vó precisamos falar de aborto. Eu sei que a senhora é mãe de seis filhos e que cuidou deles praticamente sozinha depois que seu marido alcoólatra te abandonou. Eu sei que você mesmo na dificuldade, mesmo com pouco dinheiro, nunca pensou em abandoná-los, ou não tê-los, mas precisamos falar sobre isso. Eu mesma acho que não teria coragem de abortar, talvez em caso de um estupro. Mas nunca me vi nessa situação e tenho muito medo só em  pensar. Vó precisamos falar de aborto, porque mesmo eu não abortando eu não me acho melhor do que elas, mais correta, mas digna, mais amada por Deus.

Vó, você sabia que o aborto ilegal mata uma mulher a cada dois dias no Brasil? Segundo dados da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2013,  foram mais de 150 mil casos de mulheres internadas por complicações em abortos induzidos no país, a maioria preta e pobre. Você sabia que elas são como a gente, cada uma com a sua história e vivência. Muitas mulheres que decidem interromper uma gravidez são cristãs, algumas são adolescentes que tem medo de assumir para a família que engravidaram antes do casamento, medo do julgamento deles, dos amigos, da igreja. Outras são mulheres casadas, com filhos, mas não desejam mais um, tem mulher pobre, tem mulher preta, tem mulher branca, tem mulher com o dinheiro. Muitas mulheres, muitas histórias, muitos motivos.

Vó, você sabia que métodos contraceptivos falham né? Não são 100% seguros. Lembro da minha mãe contar que ela ficou gravida de mim quando meu pai não quis usar camisinha e acabou gozando dentro. Você lembra disso? Aconteceu com você? Poderia ser qualquer uma de nós. Você sabia que segundo o código penal brasileiro, a mulher grávida que abortar é punida com pena de prisão até 3 anos? Do outro lado, muitos homens metem o pé, não querem filhos, não apoiam suas companheiras, e nada acontece com eles. Imagina enfrentar toda essa dor, medo e angustia e ainda ser presa? Em vez de ser acolhida. Você sabia que mulheres vão continuar abortando mesmo que você seja contra? E elas continuaram morrendo, principalmente as pobres. E a vida dessas mulheres que estão morrendo ? O que a gente faz? Ignora?

Vó, esses dias escutei de uma amiga que ela era contra o aborto porque não queria que os “impostos dela pagasse aborto para putas”. Vó aquilo me doeu tanto. Primeiro porque a complexidade da história de uma mulher é muito mais profunda do que categorizá-la em Puta X Santa e segundo porque o sistema público de saúde gasta mais com curetagem e com as internações por complicações decorrentes do aborto clandestino do que gastaria se o aborto fosse legalizado no Brasil. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de curetagens pós-aborto ou puerpério,  se manteve nos últimos anos (190 mil em 2013, 187 mil em 2014 e 181 mil em 2015) enquanto o número de AMIUs, que é o esvaziamento do útero por aspiração manual intrauterina, aumentou (5.704 em 2013, 8.168 em 2014 e 10.623 em 2015). O custo, somando ambos os procedimentos, foi de R$ 40,4 milhões.

Vó, você sabia que se o aborto fosse legalizado no Brasil teria regras. Não seria de qualquer jeito. Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer. Não teria mais um mercado clandestino sem respeito nenhum a vida da mulher, que seria capaz de interromper uma gravidez em qualquer período gestacional. Aborto é questão de saúde pública e não de polícia. Junto com a legalização do aborto viria acompanhamento médico, psicológico e social. Lá no Uruguai isso já acontece desde 2012, e eles tem experimentado quedas tanto no número de mortes maternas quanto no número de abortos realizados.

Vó, você sabia que o aborto é crime muito mais por uma questão moral, que pune somente mulheres, mais do que pelo respeito a vida. Eu sei que você acredita que a vida acontece desde a sua concepção, lá no embriãozinho. E você não precisa deixar de acreditar nisso. Mas a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico. Você não precisa ser a favor do aborto, precisa ser A FAVOR QUE CADA MULHER POSSA TER O DIREITO DE DECIDIR O QUE FAZER COM SEU CORPO.

Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida dessas mulheres que morrem todos os dias em clinicas clandestinas. Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida das mulheres que sobrevivem a essa experiência traumática cheia de sequelas no corpo e na alma. Se realmente somos a favor da vida temos que respeitar a escolha das mulheres, respeitar a autonomia que cada uma de nós devemos ter sobre nossos corpos e acolher- las.

Vó, pela vida e pelo amor eu acredito que todxs as mulheres devem ter o direito de decidir, se querem ou não, terem filhxs.


Thamyra Thâmara é jornalista, social mídia, fotógrafa, afrofuturista e a idealizadora do GatoMídia.

Arte:  Ana Núñez

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