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Quando recebi o convite para escrever um texto apresentando o livro Mulher, raça e classe da professora, pesquisadora e militante Angela Davis, senti um frio na barriga.

Esse livro é uma das principais referências para pesquisadoras e ativistas do feminismo negro no mundo inteiro. O que dizer sobre uma obra com essa importância histórica para tantas mulheres?

Acho que eu gostaria, então, de usar esse espaço para trazer algumas questões importantes para pensarmos juntas.

Primeira delas: feminismo não é espaço de disputa de saberes ou etnias. Feminismo é espaço de análise, reflexão e enfrentamento à opressão. E sim, é preciso racializar a discussão nesse campo, porque realidades diferentes exigem enfrentamentos diferentes.

Sabe qual é o ponto de partida para pensar essa realidade? A escravidão no Brasil. Sim, a escravidão moldou efetivamente a forma como indivíduos brancos e negros se percebem na sociedade brasileira. Mesmo que o mito da democracia racial diga que não, vivemos permanentemente uma tensão racial que se expressa em índices horríveis sobre a população negra, onde o pior dos piores índices retrata o cotidiano das mulheres negras.

O processo de luta para enfrentamento da opressão está ligado a dois fatores: 1. Empatia com a causa a partir de demandas reais e subjetivas, e 2. Compreensão que é preciso mudar essa realidade.

Nesse sentido, Mulher, raça e classe é um livro que parte das questões que Davis também vivencia, por ser uma mulher negra, ao mesmo tempo que ela potencializa essa experiência num método de análise da realidade da mulher negra, latina e indígena norte-americana.

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Esse é um livro obrigatório para qualquer mulher que se acredite feminista. Seja porque ele é rico em elementos para compreendermos a dimensão de raça e classe no debate feminista, seja porque ele foi escrito por uma das maiores intelectuais negras (senão a única) da filosofia política na modernidade, e que está viva e atuando nas trincheiras do feminismo e dos direitos humanos.

Se você é uma mulher negra, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente, faça rodas de debate e discussão. Para nós, mulheres negras, compartilhar conhecimento entre nós é um gesto de amor.

Se você é uma mulher branca, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente para outras mulheres brancas, faça rodas de conversa sobre os livros, procure compreender, por meio da genialidade de Davis, porque em alguns momentos gênero nos une e raça nos divide.

Sabe, a Angela Davis sempre diz que nossa missão revolucionária e feminista é romper com toda e qualquer forma de cisão, seja de gênero, de raça ou de classe. Na minha opinião, sabe como vamos fazer isso? Quando entendermos que a história tem dois lados e a realidade é um mosaico.

Que nada nos defina, a não ser a liberdade.

Awetu!

Jaqueline Conceição foi indicada em 2016 na lista de Mulheres Inspiradoras da ONG Think Olga, é graduada em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário São Camilo e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Articuladora do Coletivo Di Jejê, pesquisa à luz da Teoria Crítica da Sociedade, especialmente as contribuições de Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno e Angela Y. Davis. Possui publicações sobre gênero, funk, juventude, racismo, sistema prisional e políticas sociais (artigos autorais e traduções) em revistas científicas e revistas de circulação não acadêmica.

Para saber mais:

Leia: Mulher, raça e classe. Angela Davis. 1ª edição brasileira. São Paulo: Boitempo: 2016.Curso On Line O pensamento de Clique aqui para mais informações sobre o curso “Pensamento de Angela Davis”, do Coletivo Di Jejê

Arte: Dicionário Aurélia.

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