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Em um debate sobre representatividade negra e racismo na mídia, uma pessoa na plateia questionou às presentes: “Como fazer uma comunicação justa e inclusiva para mulheres negras?”

Embora eu estivesse mediando a conversa, sussurrei para minha colega que ela cuidasse do assunto, pois era delicado para mim. Como jornalista, descobri a resposta para esta pergunta já na faculdade e acreditei que poderia colocá-la em prática no mercado de trabalho. Mas logo me deparei com uma realidade de oportunidades negadas pelo racismo institucional, responsável por moldar e disseminar estereótipos de pessoas negras e não suas histórias. Precisei enfrentar muitas barreiras até me encontrar no jornalismo independente.

Logo, a pergunta me trouxe, imediatamente, lembranças e sentimentos, entre eles de raiva e impotência. Minha primeira reação foi me proteger. Porém, nem sempre um assunto que consideramos um gatilho faz somente enfraquecer. Naquele momento, me veio exatamente o contrário e, pela primeira vez em muito tempo, tive coragem de enfrentar colegas de profissão e responder: “Chame mulheres negras para falar. Abra espaço para elas escreverem, contarem suas histórias, falarem sobre si mesmas”.

Parece uma solução tão simples, mas na prática, é dizer, na cara de editoras e jornalistas, que eles são racistas em suas produções de conteúdo, que, muitas vezes, pautam questões raciais em função de uma cobrança da militâncias mas não o fazem de maneira correta. Isso acontece pois não ouvem tais cobranças, já que continuam sem dar oportunidades para que pessoas negras façam parte das redações.

Como a personagem Samantha White, da série Cara Gente Branca (Dear White People), disponível na Netflix, sempre diz e repete para seus colegas brancos: o medo, a revolta e a resistência negra ainda existem por causa dos efeitos da escravidão.

Como já apontei, esta série é para e sobre pessoas negras e as diversas questões e vivências em torno delas. Porém, Cara Gente Branca continua fazendo jus ao título, quando coloca uma mulher negra, Sam White, para falar sobre racismo estrutural diretamente para pessoas brancas. Para isso, ela usa um veículo de comunicação independente em seu campus universitário e enfrenta as confrontações com relação ao suposto “racismo reverso”. Basicamente, ela faz o que precisei reunir coragem para fazer somente uma vez, naquela mesa de debate, só que em alto e bom som em um programa de rádio periódico.

No fim das contas, a série acaba sendo sobre a importância de se reconhecer privilégios, até mesmo para pessoas brancas que se dizem “acordadas” para a existência do racismo. Uma mensagem importante é a de que amar uma pessoa negra ou se juntar à militância não livra alguém de ser racista.

Claro que ninguém quer ter este título, receber esta acusação. Não só no contexto americano que a série traz. No Brasil, 90% dos brasileiros admitem que existe preconceito de cor, mas 96% dos entrevistados se identificaram como não racistas, segundo uma pesquisa histórica do Datafolha, de 1995.

No dia da Abolição da Escravatura no país, não é estranho perceber que esta resistência a admitir a profundidade do racismo no Brasil ainda existe? Mesmo  que a conversa sobre racismo esteja sendo expandida, ainda encontramos estereótipos nocivos, a ponto de ser necessária a criação de uma parte do nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado dedicada a apontar práticas ruins e fornecer maneiras  honestas de como contar as histórias de pessoas negras e ainda a criação do projeto Entreviste um Negro, pela jornalista Helaine Martins. 

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Se ser racista é tão pesado e negativo, o que estamos fazendo para mudar isso? Melhor: o que as pessoas brancas estão fazendo para mudar isso?

Ainda paira sobre a sociedade, principalmente no Brasil, uma ideia de que preconceito de raça só acontece quando é vociferando, gritado ou caracterizado por agressões físicas, como em tempos de escravidão, apagando o fato de que somente a abolição não foi suficiente para igualar as raças.

Logo, é muito fácil se agarrar nisso para relativizar agressões que parecem pequenas, mas que são dolorosas. Em outras palavras, ainda vivemos em um mundo em que as pessoas brancas julgam o que é racismo e se mascaram para não parecerem racistas.

A Cara Gente Branca a qual a série se refere é um grupo que precisa parar de ver um apontamento de racismo como algo pessoal e aprender a ouvir quem aponta. E agora eu também me refiro a esta Cara Gente Branca, mais especificamente meus colegas de profissão, pois minha coragem não pode ficar naquela situação isolada da mesa de debates e espero ser ouvida.

A mídia e a comunicação são grandes responsáveis por propagar ideais que geram violência e segregação. Logo, está em nossas mãos, como comunicólogos, não deixar que os esforços de pessoas negras para superar gatilhos e falar sobre suas angústias sejam em vão. Retribuam com respeito e espaço de fala.

Ficar na defensiva ou buscar uma redenção por ter sido chamado de racista não resolve um problema tão grande. Mas assumir o erro e aprender com ele, sim.

Karoline Gomes é produtora de conteúdo e assistente de comunidades da ONG Think Olga.

Arte: Akilah Richards

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Quando recebi o convite para escrever um texto apresentando o livro Mulher, raça e classe da professora, pesquisadora e militante Angela Davis, senti um frio na barriga.

Esse livro é uma das principais referências para pesquisadoras e ativistas do feminismo negro no mundo inteiro. O que dizer sobre uma obra com essa importância histórica para tantas mulheres?

Acho que eu gostaria, então, de usar esse espaço para trazer algumas questões importantes para pensarmos juntas.

Primeira delas: feminismo não é espaço de disputa de saberes ou etnias. Feminismo é espaço de análise, reflexão e enfrentamento à opressão. E sim, é preciso racializar a discussão nesse campo, porque realidades diferentes exigem enfrentamentos diferentes.

Sabe qual é o ponto de partida para pensar essa realidade? A escravidão no Brasil. Sim, a escravidão moldou efetivamente a forma como indivíduos brancos e negros se percebem na sociedade brasileira. Mesmo que o mito da democracia racial diga que não, vivemos permanentemente uma tensão racial que se expressa em índices horríveis sobre a população negra, onde o pior dos piores índices retrata o cotidiano das mulheres negras.

O processo de luta para enfrentamento da opressão está ligado a dois fatores: 1. Empatia com a causa a partir de demandas reais e subjetivas, e 2. Compreensão que é preciso mudar essa realidade.

Nesse sentido, Mulher, raça e classe é um livro que parte das questões que Davis também vivencia, por ser uma mulher negra, ao mesmo tempo que ela potencializa essa experiência num método de análise da realidade da mulher negra, latina e indígena norte-americana.

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Esse é um livro obrigatório para qualquer mulher que se acredite feminista. Seja porque ele é rico em elementos para compreendermos a dimensão de raça e classe no debate feminista, seja porque ele foi escrito por uma das maiores intelectuais negras (senão a única) da filosofia política na modernidade, e que está viva e atuando nas trincheiras do feminismo e dos direitos humanos.

Se você é uma mulher negra, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente, faça rodas de debate e discussão. Para nós, mulheres negras, compartilhar conhecimento entre nós é um gesto de amor.

Se você é uma mulher branca, que pode ter acesso ao livro, leia, dê de presente para outras mulheres brancas, faça rodas de conversa sobre os livros, procure compreender, por meio da genialidade de Davis, porque em alguns momentos gênero nos une e raça nos divide.

Sabe, a Angela Davis sempre diz que nossa missão revolucionária e feminista é romper com toda e qualquer forma de cisão, seja de gênero, de raça ou de classe. Na minha opinião, sabe como vamos fazer isso? Quando entendermos que a história tem dois lados e a realidade é um mosaico.

Que nada nos defina, a não ser a liberdade.

Awetu!

Jaqueline Conceição foi indicada em 2016 na lista de Mulheres Inspiradoras da ONG Think Olga, é graduada em Pedagogia (2009) pelo Centro Universitário São Camilo e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Articuladora do Coletivo Di Jejê, pesquisa à luz da Teoria Crítica da Sociedade, especialmente as contribuições de Herbert Marcuse, Theodor W. Adorno e Angela Y. Davis. Possui publicações sobre gênero, funk, juventude, racismo, sistema prisional e políticas sociais (artigos autorais e traduções) em revistas científicas e revistas de circulação não acadêmica.

Para saber mais:

Leia: Mulher, raça e classe. Angela Davis. 1ª edição brasileira. São Paulo: Boitempo: 2016.Curso On Line O pensamento de Clique aqui para mais informações sobre o curso “Pensamento de Angela Davis”, do Coletivo Di Jejê

Arte: Dicionário Aurélia.

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