olga cancer mama utero

olga cancer mama utero

 

O câncer de mama e o câncer de colo de útero são duas das principais causas de mortalidade das mulheres no Brasil. Esses temas deveriam ser considerados temas de extrema importância para a saúde pública, mas ainda são negligenciados. A Dra. Ana Luiza Antunes Faria escreveu sobre sua experiência como ginecologista e mastologista, abordando esses e outros temas relacionados à saúde da mulher:

Era para ser apenas mais uma tarde de consultas, mais uma rotina do trabalho, mas nem sempre é assim, a vida nos surpreende e me deparei com uma amiga querida, quase uma meia irmã, angustiada com um Papanicolau. Para mim, um exame de rastreamento de câncer de colo do útero tão simples, tão comum. Para ela, o exame que poderia mudar a vida. Ela veio cheia de angústias e medos inexplorados. Então escrevi esse texto na tentativa de tentar conversar um pouco sobre os medos e angústias que fazem parte da vida de muitas outras mulheres em relação à sua saúde.

Não vou começar falando sobre câncer. Vou começar falando sobre o Sistema Único de Saúde, o SUS.

Me apaixonei pelo SUS ainda na faculdade, pelas enormes possibilidades de aprendizado e tratamento que ele oferecia quando ainda era aluna de Medicina para mim e para a pequena população de Itajubá, Minas Gerais, que era atendida no hospital Escola do qual eu fazia parte — sim, em alguns lugares ele funciona. Ao prestar a prova de residência em São Paulo, somos obrigados a estudar o SUS e tive certeza de que é um sistema bem estruturado, talvez um dos sistemas de saúde mais bonitos no mundo.

O SUS é universal, gratuito e integrado. Poucos países no mundo possuem sistema de saúde com essas características. Ele é organizado de forma hierárquica, como uma pirâmide, para que todos tenham acesso a um médico de família, que conhece os problemas locais e a população, para ir se tornando cada vez mais complexo com hospitais terciários, conforme a necessidade de pessoas doentes, que deveriam ser minoria.

Tenho certeza de que aqui muitas pessoas estão virando a cara, quase tremendo na cadeira, pois estamos cansados de ver reportagens sobre pacientes em macas no corredor do hospital, sobre pacientes com câncer que não conseguem tratamento, e a pergunta naturalmente vem: por que o SUS não funciona na prática como deveria? E por que a saúde feminina é tão negligenciada?

A minha conclusão é simples: falta educação.

A população não sabe usar o SUS, não foram educados. Os médicos, que deveriam ser os educadores, muitas vezes também não sabem ou não respeitam o sistema. Os políticos desviam o dinheiro que deveria ir para a saúde pública e não investem no médico para fazer parte do SUS. Não há a educação e o investimento necessários em nenhuma etapa. E qual a consequência disso? Mal uso, desperdício do dinheiro, filas e pacientes mal assistidos.

O problema não é o SUS e sim o uso que fazemos dele. Vou explicar melhor: o rastreamento do câncer do colo do útero acontece através da colpocitologia oncótica (conhecido como exame Papanicolau). Ele é capaz de detectar células alteradas que podem sugerir câncer. Segundo o Ministério da Saúde no Brasil, as mulheres que possuem dois exames negativos (normais), deveriam fazer o seu exame a cada dois anos e não mais anualmente. Mas o que vemos é que as mesmas mulheres que aderem às campanhas são aquelas que retornam todo ano para coletar o “Papa”, mesmo que já tenham dois exames normais, enquanto há mulheres no Nordeste que nunca se submeteram ao exame. Ou seja, não estamos fazendo um rastreamento populacional e sim coletando exames no mesmo grupo de mulheres. Nesse caso, não reduziremos o câncer nem a mortalidade, não teremos condições para mudar a realidade. Diferentemente disso, na Holanda, as mulheres são convocadas pelo governo a coletar na data certa o seu exame de rotina. A data e período é estipulado pelo sistema e as mulheres aderem e aceitam, porque foram educadas, porque confiam no sistema de saúde.

Outro exemplo é o gasto que temos com ultrassonografias de mama e transvaginal. Diversos estudos demonstraram que ambos os exames não são os ideais para rastreamento de câncer ginecológico. Mas só no ano passado, foram gastos milhões de reais em ultrassonografias de mama, solicitadas pelo médico, por queixas como dor na mama e medo de câncer pela paciente. Esse pedido gerou mais consultas, mais exames e gastos, além de aumentar a fila para o exame para pacientes que realmente necessitam dele. Pacientes e sistema, todos saem perdendo.

Vejo que muitos exames são solicitados sem necessidade. As brasileiras que comparecem em consultas acreditam que o atendimento foi incompleto se não fizerem a ultrassonografia, e o médico, que está sobrecarregado com o número de atendimentos acaba por solicitar o exame, que passa a substituir o exame clínico, a conversa. E sobrecarrega ainda mais o sistema.

O dinheiro é mal gasto e no final a conta não fecha.

Além disso, a evolução da medicina diagnóstica, dos exames de laboratório, não pode nos fazer esquecer a relação médico/paciente. Exames são importantes, mas devem ser complementares. E não podemos nos tornar reféns deles.

Mamógrafos são mal distribuídos. A região sudeste concentra o maior número de aparelhos, mas eles estão quebrados e sem manutenção. E quando a paciente consegue realizar o exame, a dificuldade é conseguir um atendimento médico para mostrar o resultado — o que retarda o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama que está quase gritando naquela “chapa” da mamografia e o mais impressionante é que muitos desses tumores são palpáveis e poderiam ter sido diagnosticados durante o exame físico.

Em nosso país, na qual 30-40% dos cânceres de mama são diagnosticados em fase avançada, o exame clínico e o autoexame são tão importantes quanto a mamografia. Orientar a paciente a apalpar as mamas e mostrar para o seu médico nódulos que tenham notado pode sim mudar a realidade de várias mulheres no diagnóstico de câncer de mama no Brasil, onde nem todas conseguem realizar a mamografia.

Não há médicos nos postos de saúde de comunidade, não há médicos de família. E por quê? Pois os poucos que ainda se aventuram a fazer parte do SUS são esquecidos lá, sem plano de carreia, sem apoios para atualização profissional, sem metas dadas claras pelo governo. São médicos que, muitas vezes, não possuem ferramentas para realizar seu trabalho. Na Inglaterra, o governo distribuiu bônus quando o médico consegue diminuir a taxa de diabetes da população que assiste, o médico trabalha com plano de carreira estabelecido e, muitas vezes, perto de casa.

Diante dessa realidade, só me resta falar do políticos. Poucos deles usam o sistema de saúde, poucos o entendem e nós ficamos sem saber quais seriam as estratégias para melhorias. Mais médicos? Talvez, sim. Mais postos? Com certeza. Mas o mais importante: mais atendimento de qualidade, com menos desperdício — não importa se por cubanos ou brasileiros.

Estamos em ano de eleição e não cansamos de reclamar nos últimos dois anos sobre o sistema de saúde e a entrada de mais médicos estrangeiros. Vem aqui a minha pergunta: qual é o plano de saúde que seu candidato esta apresentando? O que ele vai fazer nos próximos anos, qual a meta, como acompanhar e cobrar? Você sabe? E aqui entra novamente a educação. Nós carecemos de educação política e é nessa hora que poderíamos lutar por mudanças, pois a ideia do SUS é linda. A gestão, não.

A negligência ao funcionamento ideal do SUS começa quando negligenciamos as eleições. O sistema público de saúde, que assegura a saúde da mulher, e a política andam de mãos dadas. Não nos esqueçamos disso. Não ignoremos isso. A responsabilidade é do governo, mas também de todas nós. Podemos começar a modificar isso com informação e com o nosso voto.

breastfeeding


 

Ana Luiza Antunes Faria é Ginecologista e Obstetra pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Mastologista da equipe do Hospital Perola Byington – Centro de Referência de Saúde da Mulher. Gostaria de entrevistá-la? Ana faz parte do banco de dados do projeto Entreviste Uma Mulher.  

Arte: Adara Sánchez Aguiano

Compartilhar
i love feminism

i love feminism

As leitoras da OLGA respondem: Como o feminismo mudou a sua vida?

E, conforme prometido, Jessyca Camila foi sorteada e será premiada com o livro Americanah, da escritora feminista Chimamanda Ngozi Adichie, cuja versão brasileira acaba de ser lançada pela Companhia das Letras.
Agradecemos a todas bravas mulheres que dividiram suas histórias com a gente.

*

Eu devia odiar o feminismo. Depois do feminismo, tudo ficou mais difícil. Situações rotineiras e antes automáticas passaram a ser mais difíceis. Toda a minha conduta, meus pensamentos, minhas crenças, meus (pre)conceitos, tudo passou a ser questionado. O riso já não sai mais pra maioria das piadas. A convivência com a família ficou mais difícil. Os namorados perdem a graça fácil. Soube do imenso sofrimento que eu causava a outras pessoas repetindo coisas que pra mim pareciam normais. Hoje tenho preocupação constante em não agravar seu sofrimento e sinto de perto o quão cruel é ser julgado por pessoas que acreditam conhecer a vontade divina. Tive que me afastar de muitas pessoas. Muitas pessoas se afastaram de mim. Passei a me magoar mais com as pessoas que eu amo. Mas, incrivelmente, a cada dia que eu olho pra trás e vejo que tenho trilhado um caminho sem volta, me sinto mais feliz. É impressionante como enxergar a opressão me trouxe a liberdade. Como enxergar as coisas além do meu umbigo e questionar minhas atitudes me trouxe a paz, pois sei que eu posso contribuir positivamente com outras pessoas, mesmo se for só um pouquinho por dia. Eu vou fazer 20 anos nessa sexta feira, e quando eu penso em feminismo só consigo pensar em agradecer por tê-lo descoberto ainda tão jovem. Saber que vou poder fundamentar toda minha vida e minhas relações com as pessoas de forma mais consciente, estruturada em pilares muito importantes que com o feminismo tenho construído, me deixa muito feliz. Escrevo esse pequeno relato bem emocionada, pois sou eternamente grata ao Think Olga por ser o estopim dessa mudança na minha vida, por ser o meu primeiro contato com o feminismo. São as coisas que eu tenho aprendido através do compartilhamento de conteúdo e experiências online que vou levar pra vida toda. — Jessyca Camila

*
Fui obrigada a amadurecer muito cedo, pois vivi em um ambiente de violência doméstica. Na infância, essa violência era menos ostensiva, por ser disfarçada de “educação de menina”: como se comportar, que roupas vestir, o que desejar. Na adolescência, quando comecei a questionar as imposições, a violência se tornou evidente e insuportável – toda a tentativa de quebrar os padrões era vista como afronta, e virou rotina escutar que “mulher apanha porque provoca”. Nesse momento, ao entrar em contato com pessoas que trabalhavam com direitos humanos, descobri o feminismo, movimento mudou a minha vida radicalmente: proporcionou força para combater a violência que eu vivenciava e me ensinou a buscar relacionamentos de qualidade. Hoje em dia, convivo com pessoas que me respeitam; escolho melhor as minhas companhias; tenho a chance de construir a minha subjetividade livremente. — Raissa Alencar de Sá Barbosa
*
Sou mulher, negra, cabelo crespo, bissexual, tive enormes problemas de autoestima. Sempre me sucumbia diante do machismo. Deixava que todos esses pitaco nas minhas relações. Eu tinha medo de encarar o mundo. Quando o feminismo entrou na minha vida, uma porta se abriu – não que os problemas tivessem acabado. Mas eu havia me encontrado. E me tornado mais forte. Se não fosse o feminismo, eu jamais conseguiria suportar- aquela fatídica vez em que fui estuprada. Se não fosse o feminismo, eu ainda estaria naturalizando todas as reproduções maldosas e opressoras desse sistema. Se não fosse o feminismo, eu não estaria aqui hoje. O feminismo vive em mim. E eu sou grata por isso – Sendo combativa, lutando pelo os meus direitos e pelos os direitos de todas as mulheres — Dayana Pinto
*
Em 2010, mudei de cidade para fazer o doutorado. Quase 4 meses depois me vi decidindo seguir com uma gravidez não-planejada. Aí potência do machismo caiu sobre mim com menos compaixão do que nunca: a orientadora propôs aborto, o programa de pós sonegou informações, descobri a violência obstétrica e vivi o assédio moral dentro da academia brasileira. Negra, de origem pobre, vítima de abuso sexual na infância, já sabia que ser respeitada custava muita luta. Mas foi em busca de fazer valer meu direito de escolher ser mãe e acadêmica com dignidade que o feminismo se tornou essencial. Me inundei de blogs e livros feministas, encontrei meus pares, a cura para minhas dores e força para impor ao mundo uma verdade: lugar de mulher é onde ela quiser. — Soraya S.
*
Não sei se o texto se encaixa na proposta, pois é mais sobre como percebi que havia algo anormal na visão machista da minha família.. 🙂 Vou contar sobre quando decidi ser feminista, ainda que não soubesse explicar o que isso significava. Sempre passei os sábados na casa dos meus avós. Meu avô me pegava logo cedo, e eu ficava durante o dia com eles, até meus pais me buscarem à noite, enquanto jantava uma sopa fumegante e deliciosa. Foi assim durante anos, até que meu avô morreu e eu passei uns dias com a minha avó, para ela se acostumar com a nova rotina. Na primeira noite, eu separei os pratos e colheres para a janta, enquanto ela terminava o banho. De repente ela pegou com um guardanapo de pano e uma assadeira de pizza. Eu estranhei. Perguntei: “ué, não vamos tomar sopa?” E ela: “não, credo, eu odeio sopa”. Nunca mais me esqueci dessa frase, nem de tudo que eu sou e quero. — Camila Mendes
*
Eu devia ter uns 5 anos quando ia em festas com a minha avó e alguém me disse que eu não podia fazer algo pois eu já era uma ‘mocinha’. Por algum tempo tive um pouco de raiva dessa palavra ‘mocinha’. Com a chegada da menarca, vish: – adivinha quem já virou ‘mocinha’? Engraçado, eu fui moça desde os 5 anos e nunca adulta o suficiente para terem comigo uma conversa sobre a vida, sobre sexo. E a mocinha aqui, entrou na vida sexual sem saber que sexo é sobre prazer para os dois. Com o feminismo eu descobri que fui estuprada. Mas com o ele eu também descobri que posso sentir prazer e que não preciso ter vergonha disso. O feminismo me empoderou e me fez sentir na responsabilidade de informar pessoas, transformar meninas em mulheres, e não em mocinhas. — Isabela Magalhães
*
O feminismo mudou minha vida, a princípio, de forma a aceitar-me como mulher. Que a liderança e iniciativa que eu sentia dentro de mim não era algo masculinizado, ou ligado ao gênero. Depois, a compreender minha sexualidade, meus desejos e vontades. Me fez preocupar com meus estudos, meu futuro e as consequências dele para outras pessoas. Me ajudou a escolher engenharia (mecânica) que, agora ainda mais que antes, me encanta e me faz perceber que não existe profissões ligadas a um certo gênero. Me fez abrir a mente para outros espaços, ideias e necessidades de outras pessoas em geral. As feministas me dão forças para aguentar os dias puxados e a insegurança nos espaços públicos. Sou eternamente grata, e isso me faz querer retribuir. — Maria Vitoria Sikora

*

Em um ano, o feminismo fez por mim aquilo que a análise não conseguiu em vários pontos: me ajudou a começar a juntar os pedacinhos da minha autoestima quebrada. Eu sempre sofri com uma insegurança terrível, paralisante. Sempre me achei gorda, feia, chata, desinteressante, burra. O feminismo vem me ajudando, pouco a pouco, a ver beleza em mim mesma. As mulheres que conheci dentro do movimento me deram uma rede de apoio, me fizeram sentir parte de uma comunidade que só quer o meu bem. O movimento (e, especialmente, a militância) não é perfeito e tem muito a melhorar, mas eu só tenho a agradecer a todas as irmãs que vêm me ajudando a me mudar pra melhor — Camila Lafratta

*

O feminismo me proporciona, diariamente, o que a sociedade fez questão de me tirar até então: segurança. Na rua, em família, no trabalho, em relacionamentos. Ele me deu degraus para enxergar além, me deu poderes que me trouxeram confiança e iluminou questões que eu não encontrava solução nas respostas da sociedade. O feminismo, para mim, é uma aula diária. É aprender a me reconhecer e reconhecer meu valor. É, mais ainda, aprender a reconhecer minhas irmãs e o valor de cada uma – sem julgamentos, sem questionamentos, sem diferenças. O feminismo me deixa segura porque ele me mostra: não estou sozinha. Mesmo a sociedade dizendo o oposto, ele grita mais alto: não estamos erradas. O feminismo me deu a chance de andar de mãos dadas com mulheres incríveis em uma mesma direção – para, juntas, abraçarmos todas as outras que precisarem. — Mayara Potenza

*

Já fui uma pessoa mergulhada em ignorância. Já estive tão cega pelos meus privilégios que cheguei a a acreditar que oportunidade era algo que todas tinham, que só não alcançavam porque não queriam. Já achei que feminismo era algo ultrapassado, que não não existia mais espaço para ele na sociedade, que mulheres já tinham conquistado seu espaço. Eu errei. Errei de maneira grotesca, bati com a cara no fundo do poço. Levantei e vi as outras mulheres; vi pelo que elas passavam, vi como eu havia sido protegida e entendi: não acabou. Aprendi a ter empatia, o famoso se colocar nos pés dos outros, e aprendi que meu privilégio era ilusão. Eu sou todas aquelas mulheres, que elas são eu. Que o que machuca uma machuca todas, porque somos todas irmãs. — Maria Clara Madrigano

*

Por três anos, tive uma empresa e convivi diariamente grande parte do tempo com homens. Nas reuniões de diretoria, geralmente, eu era a única mulher entre 10 ou 12 homens. Nos almoços no dia a dia, eu sempre estava com pelo menos uns 2 ou 3 homens e dificilmente com alguma mulher. Eram meus amigos e eu achava muito legal me considerar ‘um dos meninos’. Mas uma frase frequentemente me lembrava de que, na verdade, eu não era: ‘Tá de TPM?’. Quando tentava defender minhas opiniões nas reuniões de trabalho e ouvia isso, achava que realmente o problema era comigo. Os meninos não têm TPM e, por mais que uma discussão profissional entre homens seja tensa, por mais que cada um tenha seus caprichos e defenda veementemente suas posições, por mais que briguem feito crianças da quinta série, seu posicionamento assertivo não será sempre atribuído à oscilação dos seus hormônios. Isso me irritava, mas pra mim, no fundo eu deveria mesmo estar errada, eu não tinha tanta experiência quanto eles, eu não sabia me posicionar, eu deveria ter falado de outra forma, eu realmente deveria estar me exaltando por causa da influência das fases da lua. Um dos meus primeiros contatos com o feminismo foi por meio da campanha ‘Chega de Fiu Fiu’, mas não relacionei a campanha a essa palavra que eu mal tinha noção do que era. Na mesma época, participei de um evento sobre empreendedorismo feminino e, procurando saber mais sobre o assunto, logo me deparei com o livro da Sheryl Sandberg, que me mostrou como muitas das situações que vivi no trabalho eram machistas, apesar de ter trabalhado grande parte do tempo com equipes em que a maioria das pessoas eram mulheres. Com o ‘Faça acontecer’, percebi o que significa equidade entre os gêneros e que, por mais que a mulher tenha conquistado direitos e maior participação na sociedade, no fundo ela ainda é vista, em primeiro lugar, como uma ‘mulherzinha’, no sentido estereotipado da palavra, e precisa se esforçar mais e se provar melhor, mais capaz, mais séria, mais profissional do que qualquer homem para receber a mesma valorização, para ser ouvida. Hoje, meu olhar está mais apurado, tenho procurado identificar espaços onde a mulher poderia ter mais voz e refletir sobre o porque de elas não terem tanto destaque, mesmo desempenhando papéis semelhantes aos dos homens. Isso me levou ao desenvolvimento de um projeto para dar visibilidade a mulheres empreendedoras e líderes, que possam servir de exemplo e estimular outras a seguirem o mesmo caminho. Agora, ser a única mulher em uma sala cheia de homens é, pra mim, sinal de que algo está errado e não mais um motivo de orgulho e espero poder ajudar a mudar esse cenário tão comum. — Vivian Vianna

*

Eu fui criada, como a maioria das mulheres, pra competir com outras mulheres. E só com as mulheres. Qual é mais bonita, quem tem a roupa mais descolada e o cabelo mais arrumado, quem arruma um namorado primeiro, quem casa primeiro. As mulheres têm dificuldade em se amar. A gente aprende desde cedo a apontar o dedo pra outras mulheres e a julgar a vida delas. O feminismo me ensinou a enxergar beleza no diferente e a julgar menos. O feminismo me trouxe amor. Amor próprio, amor pelos outros, mas, principalmente, pelas outras. Pelas mulheres. O feminismo me ensinou a amar as mulheres. — Mariana Arantes Fulfaro

*

O meu feminismo me ensinou, acima de todos os ensinamentos, a me aceitar. Acredito que, mesmo quando eu não entendia muito o que era, o feminismo sempre esteve em mim. Sempre parecia que havia algo de errado, mas segundo a sociedade, era comigo. Mas quando eu descobri o feminismo, aprendi que o que estava errado é esta forma patriarcal que a sociedade pensa, e utiliza com relação ao comportamento e o convívio com as mulheres, e não eu. Eu aprendi a me aceitar do jeito que eu sou, que eu não devo respeito a ninguém porque ele é meu por direito. Descobri que eu não preciso mudar para conquistar meus objetivos profissionais e relacionamentos. E isso me deu confiança e amor próprio. Eu descobri quem eu realmente sou. E devo ao feminismo essa ciência dos meus gostos e dos meus objetivos na vida, e também das minhas opiniões. O feminismo me fez ir muito além da minha aceitação pessoal. O feminismo me fez aceitar a condição de ser mulher e ir para frente com isso. — Karoline Gomes

*

O feminismo mudou minha vida na perspectiva de me fazer enxergar as mulheres não como inimigas, mas como parceiras, o que fez com que eu aumentasse o meu grupo de amigas. Me fez enxergar que muitas vezes estamos reféns do machismo mas, que podemos lutar contra ele. Mudou minha vida quando eu descobri que tenho apenas vinte anos mas, posso começar agora a fazer muito pela minha geração e pelas próximas, para que minha filha não precise sofrer por ser mulher, para que ela possa viver em um mundo em que ela tenha as mesmas oportunidades de um homem. O feminismo mudou minha vida porque a partir dele, eu descobri que meu corpo não define quem eu sou, o feminismo me ensinou que minhas ideias definem quem eu sou. — Amaralina do Carmo

*

Eu sou feminista desde que me conheço por gente, pois nasci numa família de muitos homens, e sempre tive que ser meio ‘macho’ para sobreviver. Hoje sei que não é mais necessário. Minha mãe era dona de casa, e teve 8 filhos, era dependente financeiramente do meu pai e fazia alguns trabalhos (forrar botões, salgadinhos, doces), para ter os trocados dela. Antes de casar minha mãe era uma mulher independente também, e migrou de Pelotas (cidade Natal até Porto Alegre), lá ela foi morar com um tio, anos depois conheceu meu pai e se casou, porque foi atormentava pela família (anos 40 do século passado), tudo era muuuito difícil. Ela ajudava na igreja, e era a típica católica para ajudar os pobres, doentes, fracos, trabalhava que nem uma condenada com 8 filhos, uma época sem microondas, sem secadores, lavadora de pratos, etc. Enfim, minha mãe sempre me ensinou a ser indenpendente financeiramente, a estudar, e aos 19  anos sai de casa e nunca mais voltei. ela me ensinou a nunca aceitar desaforo de homens, e a me respeitar. Sinto que ser femista faz parte de mim, não conseguiria ser o contrário. Mas sempre tive que me provar no mundo dos homens. Hoje não tenho que provar mais nada, ser feminista é ser eu mesma e dizer o que penso em meu nome, e em nome de mulheres oprimidas por uma sociedade machista, doa a quem doar, minha voz não se calará. — Bebete Indarte

*

Quando eu ainda não sabia o que significava a palavra feminismo e muito menos que este existia, uma vozinha lá no fundo do meu ser questionava: ‘’Por que só tu tens que ajudar nos afazeres domésticos se tem mais dois irmãos que podem fazer o mesmo?’’ ‘’Por que a tua minha mãe depende e sofre nas mãos de um homem?’’ Felizmente, conheci o movimento e percebi que existem mais mulheres com ideais semelhantes aos meus. E ainda mais, que tinham sofrido muito mais do que eu sofri. E aquela minha vozinha tornou-se um clamor desesperado ‘’Lute por você, mas, principalmente, por elas!’’ — Luciana Souza

*

Demorei pra enviar porque não sabia pôr em palavras. O feminismo me tornou um ser humano completo, ainda que em constante construção. Minha educação não foi tão sexista quanto a das minhas amigas, então alguns conceitos deturpados como competição entre mulheres me eram desconhecidos. Acho que o feminismo deu um nome e um norte a algo que sempre senti e pelo o qual sempre defendi, mas nunca tinha sido por mim descrito. Ele me fez enxergar meus privilégios e a ausência de vários direitos que ainda matam mulheres e que nos tornam “cidadãs de segunda classe” pra muita gente. O feminismo é a chave de grilhões dolorosos que ainda mutilam e tiram a esperança das mulheres de serem consideradas seres humanos. Os tijolos machistas e racistas que nos constroem, porque infelizmente somos criadas neste mundo, foram e ainda estão sendo derrubados. Ser feminista também me fez ser tolerante comigo mesma. — Sybylla

*

Não mudou, definiu! Virgem aos 22 anos, fui conhecer o feminismo na Faculdade (USP – ECA), com uma ginecologista porreta que nos prescrevia a pílula, com intervalos para o corpo descansar, e com a Marilena Chauí, falando sobre Spinoza. Nem imaginávamos o que era feminismo. Éramos felizes, fazíamos amor livre, sonhávamos com ética e felicidade.  Não éramos tristes, feias, feministas. Éramos mulheres querendo amar e ser amadas! — Andréa Nogueira

*

Estava grávida pela segunda vez, mas não tinha filhos. Minha primeira gestação “não foi pra frente”, como dizem por aí, apesar de eu nunca ter entendido direito tal uso para essa expressão. Eu realizava consultas com o senhor obstetra, um desses figurões que deixam as mulheres constrangidas, com vontade de dizer “sim, senhor!” o tempo todo. Achava que gostava dele, apesar de ter tratado meu aborto como quem descarta um dente de leite. A culpa era minha. Sim, o mundo todo dizia que a culpa era minha, mesmo que ninguém usasse essas palavras. O feto não estava se alimentando direito, eu fiz muito exercício físico (kung fu não combina com garotas, menina!), meus hormônios estavam desregulados, meus genes não eram os melhores. Ouvi todo o tipo de coisa, e a culpa era minha, obviamente, e a sacanagem era que eu nem podia dizer em voz alta porque sabia que viria uma avalanche de olhares de pena. O senhor obstetra acompanhou todo a minha segunda gravidez. Sentia que eu ia lá só para provar a ele que podia ter um filho, podia levar uma gravidez até o fim. Ele recomendava meia o dia inteiro e eu passava mal de calor só de pensar. Não usei. Muito creme, nas nádegas, pernas, barriga e seios. Toneladas de creme. Passei, às vezes. Comer só o suficiente. Se der vontade de comer muito, não o faça, de jeito nenhum. Sentia tanto enjoo que a recomendação era inútil. O senhor obstetra dizia que meu marido precisava me desejar após a gravidez, então eu não podia ter varizes e estrias, nem ficar gorda. O que mais incomoda hoje é que eu achava que tinha sentido, na época. Quando estava de 36 semanas, percebi todos os sinais de que o senhor obstetra me colocaria numa sala de cirurgia e faria uma cesariana, a despeito do que fosse acontecer, e da minha vontade. Paciente não tem esse negócio de vontade! Conversei com uma amiga que eu percebia sempre engajada na causa por partos mais humanos. Podia jurar que eu já tinha dado risada dela numa roda de conversa, considerando-a uma maluquinha que pensa que está vivendo numa tribo indígena. Muito descolado para o meu gosto. Ela foi direto ao ponto: “você quer parir, de verdade?”. Sempre achei que a resposta fosse óbvia, que eu faria o que fosse melhor para meu filho e para mim. Eu só não sabia que esse papo de “que seja o melhor na hora” é uma grande armadilha. Tem muita gente envolvida, do senhor obstetra ao hospital e plano de saúde. Recebi um número de telefone que mudou minha vida. Conheci uma equipe de médicas humanizadas. Após duas semanas, meu filho nasceu. Durante o trabalho de parto, eu podia gritar, podia comer, podia andar, podia chorar, vomitar, xingar, bater. Eu pari meu menino. Senti seu cheiro e calor, dei o peito e ele mamou. Entendi que meu corpo podia e eu tinha todo o direito de viver aquele momento como desejasse. Vi respeito na minha equipe, em relação a mim e ao meu garoto. Sinto muito por tantas mulheres que sofrem violência obstétrica, sendo ridicularizadas, humilhadas e subjugadas. Elas não podem gritar, porque não gritaram na hora de fazer. Elas não podem tomar decisões, porque não são ninguém para fazer isso. Nada de parto normal porque pode rasgar tudo lá embaixo e como vai ser quando tiver relações? Devem preservar os seios, então não podem dar de mamar por muito tempo. Seios são para o marido. Não coma demais! Não esqueça as meias e cremes! Não grite! Não vá parir! Não amamente! … E leve maquiagem para sair bem nas fotos após a cirurgia! — Cláudia Coimbra

*

Aos 14, grávida: me casaram. Ela nasceu e morreu 30 dias depois.Fingiram que nada aconteceu. Aos 21, me apaixonei, desabei em um romance que durou 8 anos. Um pesadelo. Aos 24, grávida. Pílulas: 2 cirurgias,6 meses de complicações.Culpa. Aos 27, grávida. Quis muito. Casei, agarrei o emprego pra sustentar filho e marido. Unha feia, bagunça, cansaço, culpas, amor, família. Mudamos pro sítio dele e saí do emprego. Ele procurou por uma travesti, perdi o desejo. Surgiu a misoginia. Me afundei em fumaça, frustração e humilhações diárias. Nunca pude tomar pílulas. Mais uma vez, gravidez. Escolhi não ter, ele pagou médico e distribuiu ofensas. Me expulsou de casa. Mergulhei no feminismo, joguei muita coisa fora, fui embora e renasci. — Thalita Prado

*

Eu achava que minhas curvas eram feias e deviam ser escondidas. Eu achava que estar em um relacionamento abusivo era o preço a se pagar por ser amada. Eu achava que ser mulher era amar incondicionalmente. O feminismo mudou a minha vida. Eu entendi que não importa o que pensam ou o que querem que eu pense a respeito do meu corpo, mas como eu me relaciono com ele. Entendi que amar é diferente de se submeter à violência. Entendi, como se fosse loucura pensar isso antes, que sou humana.  O feminismo me mostrou que tem muita coisa fora do lugar no mundo, que há muito desrespeito e opressão escondida em atitudes quase banais, mas que posso lavar o rosto, erguer a cabeça, me amar e exigir respeito. — Eugenia Silva

*

Desde que me entendi como feminista, minha raiva em relação à outras mulheres arrefeceu de uma maneira incrível. Não olho mais as meninas que passam procurando defeitos no seu modo de vestir, se maquiar, falar, sorrir. Acho todas bonitas, com ou sem maquiagem, de saia, calça ou bermuda, lendo um livro ou conversando com a amiga. Elogio internamente o “look do dia” e a coragem de, diariamente – e mesmo sem saber -,  colaborar com a causa, indo contra tudo que nos manda ficar quieta, ficar parada, obedecer, baixar a cabeça, ouvir desaforo, pegando trem, indo trabalhar, tomando suas decisões, vestindo o que prefere, ganhando seu dinheiro, estudando e vivendo a vida como ela deve ou pode ser vivida. — Livia Lara

*

Um dia acreditei na monogamia instituída pelo patriarcado e nos papéis sociais de gênero. Eu pensava que deveria ser responsável pelas tarefas domésticas ainda que trabalhasse. Me sentia feliz em planejar o casamento com meu  primeiro namorado e por ele briguei com a minha melhor amiga e a odiei por disputa-lo comigo. Se não tivesse conhecido o feminismo jamais teria me graduado (casaria antes), os sonhos da pós graduação sequer teriam passado pela minha cabeça. Morar no Rio de Janeiro sozinha não seria algo desejado. Morar na Cidade do México para fazer um doutorado sanduiche seria uma proposta inusitada. E escrever e militar denunciando feminicídios no Brasil seria uma abstração. O feminismo mudou a minha vida. E pra muito melhor. — Izabel Solyszko

*

Eu comecei a abrir meu mundo para o feminismo tardiamente, mas nunca tarde demais. Tenho dividido minhas descobertas com amigas, irmãs, porque quero que elas sintam a libertação que tenho descoberto. O feminismo é a luta pela igualdade dos sexos, mas, principalmente, pelo ideal de as mulheres serem vistas e tratadas como seres humanos. Parece extremo, exagerado, assumir que nossa realidade não é essa? Eu concordaria com o extremo disso até pouco tempo atrás, mas comecei a prestar atenção, a ler textos, a ler atitudes, a ler o que a publicidade ilustra como ideal do feminino, e o tanto que esses meios não nos representam. Sinto-me como que desperta, com os sentidos aguçados, é um novo mundo que se abriu. Depois de olhar para fora, e de ouvir e discutir com mulheres que estão nessa luta há mais tempo, comecei a olhar para mim mesma, e relembrei tantos e tantos momentos de autossabotagem e tristeza pelos quais passei, por “achar” que estava errada, inapropriada, ou não me dando ao respeito, quando poderia focar toda essa energia na tentativa de entender quem eu era. Inapropriado é um adjetivo de atitudes femininas, é inapropriado falar palavrão, é inapropriado transar sem compromisso, é inapropriado falar alto, é inapropriado ficar bêbada. Eu enxergava várias barreiras impostas às meninas, e como consequência entedia que os meninos eram responsáveis por ganhar seus privilégios, quando na verdade eles os recebiam como regra ao nascer com seus pintinhos. No mais, percebi que existe um mundo dentro de mim, e preciso aceitá-lo e compreendê-lo quanto antes, mas existe também um mundo de diferenças e injustiças para fora de mim. Eu sou branca, mulher, heterossexual, existe uma realidade ainda menos privilegiada que a minha. Pessoas morrem por causa do machismo, mas pessoas morrem por causa do racismo e pessoas morrem por causa da homofobia. Descobri que não é não levar na boa, quebrar o clima, ser muito radical, não achar graça nas piadas que tenham esses problemas sociais como base. De novo: pessoas estão morrendo, a piada não cabe aqui, ela é perigosa e perpetua esse problema. No feminismo eu descobri a sororidade, uma palavra que não deveria ser desconhecida, porque muito importante. Sororidade é a irmandade entre as mulheres. O contrário do que acontece na vida real, em que somos encorajadas a competir umas com as outras, desde muito novas. Consigo identificar essa competição na minha própria vida: com 7 anos eu já me sentia compelida a ser mais bonita para chamar a atenção do garotinho da minha sala, o mesmo garotinho que me chamou de gorda e quebrou meu pequeno coração em pedacinhos. Eu não sabia, naquele momento, que ele era um layout de babaca, minha certeza era que tinha algo errado comigo. Temos essa facilidade de abraçar nossas falhas, somos o erro, filhas de Eva, que mordeu a maçã e cagou tudo, nós somos ensinadas a pedir desculpas por qualquer coisa, antes mesmo de cogitarmos que não estamos erradas e, de novo, inadequadas. Somos isoladas em nossas pequenas ilhas, sem poder confiar umas nas outras, porque a outra pode roubar “nosso homem”. Nossas amizades crescem em cima dessa terra podre de desconfiança e competição, então seguimos soprando a vela da amiga, querendo sobressair como a mais gata na balada (!). Estou chegando aos 30, assim como a maioria das minhas amigas. Percebi há pouco que hoje nos elogiamos de forma sincera e com frequência, e isso não acontecia na adolescência, ainda estávamos naquele triste ciclo vicioso. Percebi como, juntas, somos mais fortes, juntas nos defendemos, nos empoderamos. O feminismo é um lugarzinho mais quente. — Vanessa Grigoletto

*

Nunca achei que me encaixava como “feminista”, apesar de concordar com várias idéias propostas por esse movimento, até que li o discurso Chimamanda Ngoiz Adichie e me identifiquei. O feminismo mudou a ideia que eu tinha sobre mim, coisas como o movimento “chega de fiu-fiu”, a aceitação de como eu sou e de que eu posso ser mulher e dizer “não” , coisas simples que me fizeram pensar ” ei, você não está errada” mas, o melhor de tudo foi saber que eu não estou sozinha. — Samara Oliveira

*

Na minha vida, o feminismo já era existente e muito presente mesmo sem eu saber direito. Desde muito pequena eu já não aceitava o fato de eu ter que lavar a louça e arrumar minhas coisas e meus primos homens não ou o porque eles tinham roupas e brinquedos considerados “de meninos” e eu não podia ter/brincar. Sem falar da minha infância e adolescência e o sofrimento da não aceitação do meu próprio corpo, eu o detestava e por muitas vezes eu desejei morrer ou ser homem por conta disto. Até que então, por meio de artigos e livros sobre o feminismo a ficha caiu, por completa. Sou eternamente grata por essa descoberta, mesmo que absolutamente óbvia e simples, eu comecei a olhar o mundo por um outro viés, enxergava coisas que antes seriam impossíveis de perceber, o machismo se tornou muito mais claro. Ganhei uma nova expectativa de vida, de que mulheres não estão fadadas a serem donas de casa e nem dependentes de seus maridos ou sequer precisam se casar (realidade de praticamente todas as mulheres da minha família), entendi que sou linda exatamente do jeito que sou e fiz tudo isso sozinha, pois meus familiares são totalmente machistas. Sei que sem o feminismo, eu seria incapaz de compreender o motivo de eu não concordar com várias coisas. Seria incapaz de enxergar o abuso sexual implícito de cada comercial de cerveja, seria incapaz de compreender o porque que a lesbofobia e a homofobia são tão recorrentes no mundo e várias outras coisas que eu apenas percebi depois que entendi que eu já era feminista antes mesmo de saber o que o feminismo significava. — Geovana Silva.

*

Respondo logo no início. Mudou para melhor, muito melhor! Sofri violência sexual. Uma marca para a vida. Mas para o meu namorado (hoje ex) foi como se contasse um fato qualquer da vida. E isso doeu. Assim como doeu quando ele disse que gostava de me “desfilar”, porque sou bonita e causaria inveja. Fui um objeto que foi dopado e violentado por um homem, e depois um objeto de exposição para outro. Não queria ser um objeto, não sou coisa pra se mostrar, sou pessoa para respeitar! Cansada disso, o feminismo foi entrando de mansinho, de maneira orgânica na minha vida, mostrando que não sou prêmio para exibição, que não sou obrigada a aceitar as cantadas na rua, a desigualdade, a coisificação. O feminismo me levou a buscar a igualdade, a vencer preconceitos, a perceber a força que eu tenho para mudar. Buscar a igualdade da mulher me fez perceber a sociedade excludente, não somente com a mulher, mas com a cor e opção sexual. O feminismo me fez querer a igualdade da mulher, do negro do LGBT. Me fez entender o que é igualdade e como deve ser. Outro dia mesmo em uma conversa com um homem, quando disse que queremos direitos iguais, ouço em resposta: “mais?” Sim, mais. Quero o direito de sair de casa vestida de moletom ou de shortinho e decote. Quero o direito de ser tratada de forma igual e de ter um salário igual ao dos homens no ambiente de trabalho. Quero o direito de não usar maquiagem porque a mídia diz que preciso. Quero o direito de andar na rua sem ouvir cantadas, sem ser objeto. Quero o direito de me emputecer e estar de mau-humor e não falarem que é TPM. Quero o direito de namorar um homem. E depois uma mulher. E quero o direito de ser respeitada por isso. Quero o direito de transar com quem eu quiser. E não ser desumanizada. Quero o direito de não transar com ninguém, e não ser chamada de puritana. Quero o direito de ser dona de casa por opção. E não ser chamada de Amélia. Quero o direito de ser vista como igual. Quero o direito aos meus direitos. E devo isso ao feminismo. Devo também o fato de nunca mais falar que uma pessoa fraca é “mulherzinha” ou “veadinho”, ou falar que trabalho mal feito é “trabalho de preto”. Devo ao feminismo a perda dos meus preconceitos, dos dogmas pré-concebidos, das ofensas que sempre tratei como uma piada ou brincadeira. Antes não notava o machismo, e hoje é impossível não vê-lo. Não percebia que ele está atrás até do que parece um elogio no ambiente de trabalho, já que o “perfeito, querida, muito bem” não seria “perfeito, querido, muito bem”.  Mas acho que a maior dívida que tenho com o feminismo é a união de todas estas percepções e noções, é a realização da minha força como mulher, o meu empoderamento que segue dia após dia, com a sororidade, que me levou a conhecer muitos feminismos, e todos, mesmo que de forma diferente, buscando a mesma coisa. A IGUALDADE. — Thanee Degasperi

*

O meu feminismo não é só meu, é de tod@s. É daquelas que se culpam por não ser  ‘a namorada perfeita’ ou a gostosa do pedaço. É dos homens que oprimem por mero “costume”, do garoto que não quer ser o “macho alfa”, é de HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS, de TOD@S. Meu feminismo é ABERTO, acolhe aos pais, mães, filhos, filhas e qualquer um que deseje uma sociedade mais justa, mais igualitária. O meu feminismo é DIALÉTICO, argumentativo, e cheio de debates questionadores que buscam mudar as estruturas de vida de nossa sociedade. O meu feminismo é LIBERTÁRIO,  removedor de estigmas e conflitos internos que nos amarram à uma imagem, um modo de agir, de pensar, de sentir. O meu feminismo me diz pra ser quem eu sou e não o que os demais querem que eu seja. No meu feminismo, seres humanos são PESSOAS, seu desenvolvimento vai muito além de seu gênero, sexualidade ou genitália. O meu feminismo ensinou-me sobre liberdade, equidade, SORORIDADE: palavra  bonita, diferente, mas que envolve sentimentos que não foram cultivados, até então, em minha vida. Ele me abriu os olhos, a mente e o coração. Mudou minha vida, meu relacionamento com o mundo e comigo mesma, criou laços com diferentes causas e me motivou ao ativismo. Meu feminismo é sobre AMOR… à mim mesma, ao meu corpo, às minhas escolhas e ao meu papel no mundo. É sobre EMPATIA, me faz compreender a dor do meu semelhante, me solidariza com el@, independente de ser algo distante da minha vida. Me faz sentir as amarras das minhas companheiras, por mais que não sejam as mesmas que me prendem. Assim, sinto as dores do parto violento sem nunca ter gestado, a homofobia sem  que eu questione minha sexualidade e o racismo sem que  considere minha cor. O meu feminismo é COLETIVO, em todos os sentidos. Na academia, leva o nome de LivraElas, coletivo feminista dentro da Universidade; na prática me leva às ruas pra reivindicar direitos e conscientizar sobre a revolução. O meu feminismo é REVOLUCIONÁRIO, quebra paradigmas, abala estruturas e construiu internamente o espaço para o florescimento de uma nova flor:  uma nova Florencia. O meu feminismo não é NORMAL, nem meu, nem possui VERDADES. Meu feminismo é só mais uma forma de ver o mundo sem preconceito, limitações ou qualquer coisa que me impeça de ser, naturalmente, EU. No meu feminismo somos livres, somos leves, somos loucas, somos tudo aquilo que queremos ser, ou apenas SERES HUMANOS. — Florencia Guarch
*
O feminismo mudou a minha vida por que me disse o óbvio, mas que às vezes é tão difícil de enxergar. Me conscientizou de que não é normal eu ser subjulgada pelo simples fato de ser mulher; que o machismo mata (literalmente); que homens e mulheres são diferentes mas não devem ser desiguais, que o patriarcado ainda está ai, escolhendo as roupas que vestimos, os lugares por onde andamos, as profissões que exercemos, com quem e quando podemos gozar, até os sonhos que podemos (ou não) sonhar. O feminismo mudou  a minha vida ao passo que me deu a missão de mudar essa realidade tão perversa que nos cerca, me conscientizando que todas nós podemos ser uma célula revolucionária por um mundo melhor para as nossas filhas, netas e demais gerações.  — Amanda Carneiro
*
O meu feminismo se parece como dar à luz a uma nova personalidade. Com a capacidade de assumir os acontecimentos do passado, iluminar e adotar um sentido que antes não existiam. Lembrando a primeira vez que vi um cara com uma ereção. Eu tinha 12 anos e fui obrigada a vê-lo. Voltava da escola pelos becos de um bairro tranquilo em Buenos Aires e ele me chamou insistentemente do outro lado da rua. O pequeno horror foi suavizado pela minha mãe: “coisas que acontecem”, disse, enquanto eu não parava de chorar. Meu feminismo aparece quando não aceito o assédio como algo normal que irá suceder ad eternum, algo que muitas outras meninas vivenciam e aceitam por que “sempre foi assim”. Então meu feminismo emerge em cada cantinho onde posso desnaturalizar uma injustiça — Florencia Goldsman
*
Eu era uma Livia completamente diferente da que eu sou hoje. A minha visão de mundo, desde que me reconheci feminista e comecei a estudar e ler sobre, mudaram completamente. No que diz respeito ao próprio machismo, mas também, ao racismo, ao classicismo, a homofobia. Nunca fui nada disso, mas eu entendi o que é lutar e porque lutar por isso e pra isso. Sigamos a luta. Eles não passarão. — Livia Siqueira
*
O feminismo me fez e me faz mais forte a cada dia. Mais forte pra olhar pra mim e perceber quando sou oprimida, mais forte pra olhar pro lado e perceber que minha irmã é oprimida, mais forte pra erguer a cabeça e resistir à opressão: me trouxe a sororidade quando mais precisei. Vivi um relacionamento opressor sem perceber, e não foi fácil conseguir olhar pra mim, pro meu companheiro, e admitir isso; sem o feminismo talvez eu não resistisse tão fortemente, me vitimizasse e aceitasse meu destino de “ser mulher”, aceitasse a natureza do homem e a minha loucura imposta por sua razão, me calasse diante do patriarcado e aprisionasse minha liberdade, que hoje quero plena. Sem o feminismo, eu teria perdido minha essência de ser livre e de ser mulher. — Isadora Laguna Soares
*
O feminismo me fez menina, moça, mulher. Me acordou e abriu meu olhos. Parei de olhar pro meu próprio umbigo, e enxerguei o mundo em geral, não só o das mulheres e também de toda a minoria. Me tornei gente e aprendi a ter força e nao me deixa calar. Agradeço sempre por ter conhecido o feminismo. Apesar de ser nova ja sei a importância dele pro mundo. Espero aprender cada vez mais com ele. O feminismo e toda essa luta por igualdade é minha vida. — Enilse Viriato
*
Eu conheci o feminismo por meio da minha irmã, após termos uma conturbada discussão com o nosso pai. Depois do calor do momento, fomos conversando, e mencionei que eu e minhas colegas de classe vínhamos passando ( e ainda passamos) por situações machistas. E, depois  do que minha irmã contou, eu me modifiquei e fui percebendo várias coisas. Quero listar duas delas aqui, pois são de suma importância na minha vida:
1- Desde cedo, muitas meninas vão recebendo de presente o mesmo tipo de presente: cor de rosa, que as ensinam a cuidar da casa e blá blá blá. Tipo, mulheres são muito mais que isso, mulheres são independentes, tem autonomia e habilidade para ser muito mais do que uma simples dona de casa. Deviam ensinar isso as nossas meninas.
2-Existe beleza de todas as formas (e mulheres se arrumam para si mesmas, não para agradar os outros) . Muitas revistas de adolescentes têm aquele padrão da garota magérrima, branca.  Alôô! Desde quando é assim? Cada menina é bonita de um jeito, não importa o peso, não importa a cor. Infelizmente, isso não é muito divulgado atualmente. Chega de esteriótipos! — Melissa D’Arienzo
*
Entrei de cabeça num relacionamento com um cara bem mais velho, que se mostrou abusivo. Aconteceram tantas coisas ruins e ele me fez tanto mal que passei a falar cada vez menos. Comecei a me fechar, como numa “concha”, como dizia minha mãe – que até tentou me salvar disso, mas eu estava com a autoestima tão baixa, tão carente e tão envolvida que não permiti que ela me ajudasse. Chegou uma hora que parei de falar. Parei. Comecei a travar. Não conseguia mais debater, defender um ponto de vista, colocar minha opinião. Mesmo com a mente fervilhando, mesmo com bons argumentos, eu travava. Suava frio, a pressão baixava e eu não conseguia mais falar. Parecia um pesadelo. E eu fiquei assim por quase 10 anos. (…) Um dia apareceu na tl do meu facebook um convite para a Marcha das Vadias na minha cidade. Atraída pelo nome, fui pesquisar do que se tratava. Meu coração começou a bater forte, me fazia lembrar os protestos que eu organizava na adolescência. Chamei várias amigas para irem comigo, mas nenhuma aceitou. No dia da Marcha, não tinha com quem deixar minha filha nem uma amiga com quem ir. Pensei em desistir, mas refletindo percebi que tinha na minha filha de apenas 8 meses a melhor companhia que eu poderia desejar. Coloquei ela no carrinho e fui para a concentração. Ver todas aquelas moças empoderadas, gritando frases feministas, fazendo cartazes… aquilo tudo mexeu demais comigo. Foi ali que me dei conta de que eu era feminista, de que eu sou feminista! Muitas delas vieram conversar comigo, trocamos ideias sobre o feminismo, mas mais ouvi do que falei. Além de ainda estar travada, estava emocionada demais pra conseguir dizer muito. A hora do almoço se aproximava e a marcha propriamente dita não começava. Comecei a ficar aflita porque não queria ir embora, queria fazer parte daquilo ali, mas precisava fazer o almoço da minha filha. Vendo que não tinha como ficar mais, decidi ir embora com um cartaz pregado no carrinho dela e andar bem devagar. “Por um mundo onde minha filha seja livre”, escrevi numa cartolina. Fiquei mais um pouco e então comecei minha marcha simbólica e silenciosa. Nossa marcha. As pessoas olhavam curiosas, me paravam para perguntar do que se tratava, pediam para fotografar. E então começaram a me rodear, pra saber mais. E eu comecei a falar. Comecei a explicar, a dizer, a debater, a rebater. Só me dei conta disso quando já estava chegando perto de casa. Eu tinha falado pra várias pessoas o que eu penso, sinto, falado sobre o que eu acredito. Eu tinha falado. Não conseguia acreditar. Fui cuidar da comida e da Olívia, só à noite consegui sentar no computador para ver as notícias e os comentários sobre a Marcha. Pra minha surpresa, a foto do cartaz no carrinho estava em diversos grupos, páginas e blogs. Pessoas diferentes fotografaram e publicaram a foto, que foi compartilhada com frases muito bacanas. Aquilo me emocionou demais e me encheu de uma esperança absurda, coisa que eu não sentia há tanto tempo que não sabia quanto. Se eu tinha medo pela minha filha, agora também tinha esperança e começava a ter coragem pra lutar e tentar mudar as coisas. Porque eu podia sim me unir a outras mulheres e lutar por um mundo melhor pra todas nós. A partir dali, as coisas mudaram muito. Eu voltei a falar e me posicionar e, claro, isso não passou despercebido. As pessoas ficaram muito surpresas e até assustadas com essa “nova” atitude, não compreendiam. Passei a ser tratada com hostilidade e agressividade, inclusive por familiares, que me viam como uma feminista louca e histérica. Foi tão opressor que a coragem foi sumindo, comecei a me sentir desanimada e com medo de viver um novo inferno. Eu estava quase desistindo dessa minha voz quando no espaço de apenas uma semana presenciei três episódios de violência contra mulheres nos quais pude de alguma forma interferir e até ajudar. Entendi que não tinha mais como voltar atrás e me calar, não dava pra desistir da minha voz e do feminismo. Por mim, por minha filha e pelas outras mulheres. Decidi então escrever um longo post no Facebook sobre isso e pedi a todos meus contatos que lessem. Entre muitas coisas, escrevi: “Deixei que me silenciassem uma vez, mas isso não vai acontecer de novo. Se você não concorda com o que digo ou escrevo, sinta-se à vontade para se afastar, me tirar do seu feed ou me deletar. Eu não vou parar de falar”. Amizades se desfizeram, mas por incrível que pareça as coisas só melhoraram a partir dali. O feminismo devolveu minha voz, e junto com ela parte do que eu sou, da minha essência. Me devolveu a esperança, a coragem e a força pra lutar por aquilo que acredito. Um mês depois da Marcha, com apenas 9 meses, minha filha começou a falar. Achei simbólico. Uma das primeiras coisas que ensinei ela a dizer foi: não é não. E agora, com o feminismo, espero ajuda-la a jamais se fazer silenciar. — Ana Barcellos
*
Quando um amigo me deu o livro que abordava a temática do feminismo, jamais poderia imaginar a bomba que colocava em minhas mãos. A leitura lenta, preguiçosa, a princípio se mostrava só como um interesse meramente didático. Decidi, com o tempo, pesquisar mais, afinal, uma semente tinha sido brotada. Curti algumas páginas no facebook e comecei a ler todo o material que aparecia e foi assim que o feminismo mudou de lado, cá na cuca. E do interesse histórico/pedagógico, foi surgindo uma dúvida aqui, uma crítica ali e então, percebi, que eu já estava absurdamente envolvida com essa causa que é minha, só esteve amortecida todo esse tempo. — Jacqueline Lino Cavalcante
*
​O meu feminismo despertou a busca por novas ideias. Ideias contrarias as de que cresci sonhando. Sonhava em casar, ter filhos, me dedicar ao marido. Com o amadurecimento, já a partir de 30 me deparei com outra realidade. 1°) E se eu não quiser ter filhos?​ A reposta da sociedade quase unanime: toda mulher precisa ter filhos. 2°) E se eu quiser me separar? A reposta da sociedade era sempre você precisa mudar seu pensamento, pois sua vida de casada é ótima, com todo mundo é assim mesmo. Em fim: porque não ser independente, ter sonhos diferentes, buscar minha felicidade trabalhando só pra mim, com tempo pra fazer tudo como quero, na hora em que quero. Sem compromisso com filhos ou marido, dedicando meu amor ao que eu realmente gosto? Daí descobri há apenas dois anos: SOU FEMINISTA. Me reconheci, e procuro acompanhar o estilo de vida de quem também é assim. Resultado: estou feliz! — Debinha
Compartilhar
bey

bey

Toda essa discussão sobre o feminismo ou não feminismo da Beyoncé (que precede a apresentação no VMA do último domingo, mas se intensificou depois) me deixa com muita preguiça — ideologia não se fiscaliza, não tem manual de regras rígidas. Tentar impor o que o feminismo deveria ou não deveria ser já contradiz a minha própria ideia de feminismo. 

 
Salvo alguns poucos debates respeitosos e construtivos, parece que a maioria dos argumentos contra Beyoncé é tão desavisado que, na melhor das hipóteses, soam bastante ingênuos.

 
Mas mais do que com preguiça, uma parte dessa discussão me deixa mesmo é furiosa: é por conta de equívocos semânticos/políticos/ideológicos como esses que eu mesma demorei tanto tempo para me assumir como feminista. Acreditava que a palavra era complexa e obscura demais — fazia parte de um vocabulário que não me pertencia. 
 
Não se tratava apenas do receio em vesti-la e parecer chata — colocar a cool girl em risco, essa personagem que todas nós, em algum momento, já desejamos ou tentamos ser. Mas, muito além, o que me distanciava mesmo do feminismo era o fato de que eu não me sentia merecedora de tal “título”: não participava de manifestações políticas sobre os direitos das mulheres, não liderava abaixo-assinados ou me engajava nas causas, não me identificava com boa parte do discurso (nem com o conteúdo, nem com o tom)… e por aí vai. 
 
Só quando se tornou urgente, sendo eu uma pessoa minimamente consciente do mundo do qual faço parte, ler e conhecer mais profundamente o que estava por trás do termo é que percebi, envergonhada, que o que me separava do feminismo, acima de tudo, era apenas a minha própria ignorância.
 
Voltando à Beyoncé e ao seu feminismo “imperfeito”: como a Juliana Cunha questionou em um post no seu perfil do Facebook, qual feminista não tem suas contradições? E por que isso invalidaria a luta dessas mulheres, apenas por que elas não se encaixam no padrão da feminista ideal (de novo um padrão)? 
 
Não faz sentido que uma ideia que defenda a liberdade, inclusive a liberdade de sermos imperfeitas, acabe por nos aprisionar em mais um de tantos estereótipos: “essa sim é feminista padrão A de qualidade. Aquela outra é um B ou C. Já aquela nem feminista é.”
 
A gente tende a hierarquizar e a classificar tudo. É muito difícil apenas aceitar as diferenças, inclusive de vivências e percepções desse conceito que não tem mesmo nada de absoluto. Mas aceitar esse desafio é um caminho que pode nos fazer pessoas melhores. 
 
O feminismo é um conceito em formação e transformação e estamos nos formando e transformando junto com ele.
 
Não sou a fã mais fervorosa da Beyoncé. Admiro e respeito seu talento como show woman e gosto especialmente do seu último álbum. Ainda que ela seja uma mulher linda, rica e bem-sucedida nos falando que Pretty Hurts, também é verdade que toda mulher — inclusive Beyoncé, Gisele Bündchen, _________ (insira aqui o nome da mulher que você acha a mais incrível e maravilhosa do mundo) — inclusive as mulheres que estão dentro dos padrões, todas também sabem o quanto dói a imposição de uma beleza idealizada: ninguém nunca se encaixa completamente, ou nunca se encaixa sem sacrifício.
 
Mas não estou aqui pra falar em defesa das mulheres mais privilegiadas. Estou pra falar em defesa de todas nós. Ou, ao menos, em defesa de mim mesma. Para contar por que é que eu me encantei pelos poucos minutos que Beyoncé dominou o palco do VMA — porque, entre outras coisas, ela conseguiu levar a milhões de garotas, especialmente adolescentes, a voz da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e um trecho de seu emocionante TED We should all be feminists, no qual Adichie diz (tradução livre): 
 
“Nós ensinamos as garotas a se encolher, a tentar ser menores do que são. Nós dizemos para as garotas: ‘Você pode ter ambições, mas não demais. Você pode ser bem-sucedida, mas não demais. Do contrário, vocês vão assustar os homens.’ Porque eu sou uma mulher, é esperado que eu sonhe em me casar. É esperado que eu faça escolhas em minha vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. O casamento pode até ser uma fonte de alegria e amor e apoio mútuo, mas por que nos ensinam a desejar o casamento e não ensinam aos garotos a mesma coisa? Nós educamos nossas garotas para competir umas com as outras — não para trabalhos ou conquistas profissionais, o que acho que poderia até ser uma coisa boa — mas competir pela atenção dos homens. Nós ensinamos as garotas que elas não podem ser seres sexuais da mesma maneira que os garotos são. Feminista — a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.” 
 
Se as críticas dizem que Beyoncé é privilegiada demais, certamente Chimamanda Ngozi Adichie não é. Negra, nascida em um país pobre como a Nigéria, a escritora precisou enfrentar um mundo machista, racista e com recursos limitados para se tornar a autora premiada e consagrada de hoje. 
 
Ainda assim, poucos a conhecem. Especialmente se compararmos a quem conhece e acompanha o trabalho de Beyoncé. Portanto, ter levado a voz de Adichie a pessoas e ambientes onde ela provavelmente jamais chegaria, para mim, já é algo para se aplaudir de pé.
 
Outra das críticas que li ao feminismo de Beyoncé é a de que ela se comportaria como um objeto sexual, contribuindo para a objetificação e hiper-sexualização da mulher. Mas, gente, me digam com honestidade: você que assistiu à apresentação do VMA, você que assistiu a qualquer show dela acha que é mesmo possível chamá-la de objeto sexual sem cometer injustiça? Por que tudo que eu vejo em cima do palco é um sujeito sexual. Não vejo nada de passividade. Vejo alguém que desperta desejo, sim. Mas que também canta e dança sobre o desejo, inclusive o seu próprio. Essa é a grande diferença — e é disso também que o trecho de Adichie fala: as mulheres são serem sexuais. E sendo donas do seu corpo, das suas escolhas e do seu desejo, não são objetos. São sujeitos. 
 
 
Estou em um momento pessoal vulnerável e isso também pode ter contribuído para que essa apresentação em especial me comovesse. Um momento que eu havia escolhido viver de maneira reservada, mas essa discussão me trouxe a esse texto e acabei escolhendo falar também de mim. Recentemente, descobri uma lesão relativamente grave no útero, que podia ou não ser maligna. Depois de fazer muitos exames e ficar como uma barata tonta entre laboratórios e clínicas, passei por um tratamento doloroso, com muitos efeitos colaterais. Agora, encontrei uma médica maravilhosa, humana e sensível (quem precisar de indicação de uma ginecologista incrível, fale comigo!), que me deu segurança e tranquilidade para enfrentar essa fase de uma outra forma. Se a hipótese de perder o útero era algo que me assombrava até poucos dias, agora provavelmente vou me recuperar sem ter de passar por uma cirurgia mais agressiva. 
 
No fim do ano passado, minha mãe teve câncer e precisou remover o útero, os ovários, as trompas e alguns linfonodos. Hoje ela está ótima — teve uma recuperação impressionante, em grande parte mérito dela mesma. Mas foi um período duro. E embora nossos quadros sejam um pouco diferentes, é difícil não comparar — vivi tudo de perto com ela. Sei que, mesmo depois de ter duas filhas adultas, e de estar entrando na menopausa, minha mãe sofreu ao abrir mão de uma parte de seu corpo que ela considerava parte também do que a fazia ser uma mulher. Foi incrível acompanhar a constatação dela de que isso não era verdade — agora, talvez, ela seja mais mulher do que nunca, especialmente depois de ter enfrentado essa batalha com tanta força e coragem. É inevitável citar aqui Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher. Torna-se mulher.”
 
Pois bem, no meu caso, passado o susto e caminhando para a fase final do meu tratamento, tive de lidar por algumas semanas com todos os tipos de fantasmas internos e externos. Sou recém-casada e constantemente cobrada por amigos que têm filhos e que parecem ansiosos em saber quando teremos os nossos.
 
Não sabíamos. Nem quando teríamos, nem se teríamos. Meu marido e eu concordamos que só o tempo vai nos trazer essa resposta. E, felizmente, não temos pressa alguma, nenhum dos dois, em encontrá-la. É difícil que um casal concorde sobre isso, mas até aqui, que sorte, nós concordamos.
 
Estamos vivendo a alegria do primeiro ano de casamento, do primeiro sobrinho, curtindo os filhos dos amigos que estão chegando e, por enquanto, estamos felizes assim. Não sentimos que falta algo, nem que não falta nada, mas não consideramos ser pais agora.
 
É difícil ter de responder sempre que sim, gostamos muito de crianças, e que sim, gostamos muito um do outro, mas que não sabemos se teremos filhos. Um dia, quem sabe, descobriremos. 
 
Mas não saber trazia consigo a possibilidade do sim que, mesmo que distante, era algo com que eu gostaria de contar. Uma escolha que eu não gostaria de perder. A hipótese de perder o útero tão cedo mudava tudo. A adoção continuaria sendo possível, e é uma opção maravilhosa que jamais descartei — mesmo antes de tudo isso. Mas pensar que poderia não ter a chance de ficar grávida e abrir mão de todo imaginário que cerca esse momento foi mais pesado para mim do que eu imaginei que seria — mesmo para alguém que não romantiza a gravidez.
 
Pelo andar da carruagem, parece que não, não perderei — nem o útero, nem com ele a liberdade de escolha. Vou fazer uma pequena cirurgia que não vai comprometer a minha capacidade potencial de ser mãe. E logo estarei bem e recuperada.
 
Mas a questão é que muitas mulheres têm um prognóstico diferente. E é delas que quero falar, porque estive entre elas — e ainda posso estar. Todas nós estamos ou estivemos vulneráveis de uma maneira ou de outra.
 
Durante esse período, pensei em todos os amigos que nos perguntavam, sem saber o que se passava, quando seria a nossa vez. Independente do meu quadro delicado de saúde, seria e foi constrangedor ter de responder. 
 
A pressão social que existe sobre um casal, especialmente sobre a mulher, para que ela se torne mãe, é um dos maiores pesos com os quais temos que conviver. Para a sociedade, uma mulher que não quer ou não pode ter filhos é uma mulher incompleta.
bey
 
Conto tudo isso pra voltar a Beyoncé: enquanto todos se lembram de que ela é cercada de privilégios —  a empresária bem-sucedida, a  cantora premiada, a mulher linda e a mãe afetuosa, essa figura quase mítica também teve um aborto espontâneo e, depois, passou por depressão pós-parto. Onde está a mãe infalível aqui, a mulher flawless? 
 
Beyoncé não nasceu rica, nem loira. Seu cabelo não é liso — nem sequer ondulado como estava no palco do VMA (olha só para essas fotos mais naturais postadas em seu perfil no Instagram: aqui, aqui e aqui) . Beyoncé é negra, ainda que tenha a pele clara, e nasceu em uma família de classe média, em Houston, no Texas, com todas — ou quase todas — dificuldades que esse contexto traz consigo (veja aqui uma foto dela em 1988 e outra em 1989, também postadas em seu Instagram). Se ela tem talento, inteligência e carisma que tornaram o caminho até aqui um pouco mais fácil, que sorte a dela. Mas se hoje é uma das mulheres mais influentes do mundo, a verdade é que nem sempre foi assim. Então podemos considerar que talvez Beyoncé tenha sim mais condições do que a gente imagina para falar sobre dor, depressão, opressão, ditadura de beleza e também, por que não, feminismo.
 
As minhas fotos no Instagram certamente não mostram os dias difíceis que tive com o tratamento, nem os momentos de angústia e dor física. Mostram sim pequenos momentos de alegria, conforto e alívio que esse mesmo período permitiu. É importante a gente se lembrar de que conhece apenas uma parte da vida das pessoas — pela internet, então, uma parte muito pequena. E que a vida pode ser boa também, para todos nós, mesmo nos dias ruins.
 
Meu marido tem sido super companheiro. Minha família tem me dado muito amor. E também tive sorte ao receber carinho e apoio no trabalho.
 
Se antes desse texto, escolhi viver essa fase de maneira discreta também foi por que tenho dificuldade em compartilhar a dor. É fácil pra mim aceitar que meus amigos se alegrem e se interessem pelas minhas pequenas conquistas e felicidades diárias. Pelas minhas gatas, viagens, leituras, descobertas e bons momentos. Mas também sinto que todos temos momentos difíceis e meus amigos têm os seus. A frase: “Seja gentil. Todo mundo que você conhece está enfrentando uma batalha” nunca fez tanto sentido para mim.
 
Citando um personagem de Robin Williams no drama One Hour Photo, que mencionei em outro texto recente: “ninguém fotografa o que gostaria de esquecer”.
 
No meu Instagram, estão os momentos que eu gostaria de lembrar. Mas a vida não é feita apenas deles. Uma vez, Beyoncé disse que quando assiste a si mesma no palco, também pensa: uau, essa é a mulher que eu gostaria de ser. A própria Bey admite: a cantora, dançarina, performance girl, é uma personagem. Produzida, maquiada, ensaiada, editada. Uma parte dela, sem dúvida, mas não tudo que ela é.
 
Portanto quando Beyoncé lhe parecer privilegiada demais, ainda que seja verdade, que tal a gente se lembrar disso também?
 
E vamos parar de pedir a carteirinha dela como feminista, por favor. Cobrar que as mulheres se “encaixem”, que se casem, que sejam mães é muito cruel. Mas também não faz sentido cobrar mulheres que fizeram essas escolhas, do casamento e da maternidade, como se não fossem feministas porque escolheram um caminho mais “conservador”.
 
Essas críticas transformaram o feminismo numa caricatura de si mesmo, que não o representa.
 
Ter liberdade para ser a mulher que você quiser ser — é disso que se trata. Trocar uma regra pela outra não significa progresso algum. 
 
Se o feminismo é a ideia radical de que mulheres também são gente — como me disse certa vez uma amiga querida — acho que todos que são mais ou menos razoáveis são feministas. A maioria ainda só não descobriu. 
 
Por isso a importância de ações como essa da Beyoncé — que simplificam/desmistificam o feminismo e nos deixam mais confortáveis em assumi-lo como parte natural das nossas vidas. Ou como a Clara Averbuck escreveu depois do VMA: já pode sair do armário, galera. Tá liberado. 🙂

 


Fabiane Secches é criadora e editora da Confeitaria, uma publicação independente sobre cultura, cinema, literatura, artes e comportamento. Saiu do armário há dois anos, quando finalmente entendeu que era feminista desde sempre. Uma feminista imperfeita e cheia de contradições, mas, ainda assim, uma feminista.
Compartilhar
natachacortez_

natachacortez_

A violência contra as mulheres na internet é um grave questão, com reais consequências na vida offline. Já falamos sobre isso aqui mesmo na OLGA quando entrevistamos Marta Trzcinska, advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres. “É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime”, afirmou Marta sobre as práticas de assédio no ambiente virtual. Para o youPix 2014, montamos uma mesa com especialistas sobre o tema. Uma delas era Nana Queiroz, que criou a campanha Não Mereço Ser Estuprada e, mesmo assim, recebeu ameaças. “Uma delas dizia ‘prepara o Hipoglós! Vou meter meu pau tão forte em você que minhas bolas vão sair pela sua boca'”, conta. O usuário foi denunciado por Nana para a Polícia Federal e, ao ser localizado pelas autoridades, disse: “o problema é que ela não tem nenhum humor”.

Violência e assédio online é costumeiramente visto como “brincadeira”, “piada”. Não é. Esses abusos afastam as mulheres de suas atividades — por medo, por vergonha — e as isolam do seu direito de livre expressão. E apesar da internet ser sim um espaço belicoso para todos que a navegam, há uma enorme diferença na forma com que homens e mulheres são atingidos por essa questão problemática. Em 2006, pesquisadores da Universidade de Maryland criaram vários perfis falsos em salas de bate-papo. Usuários com nomes femininos receberam, em média, 100 mensagens violentas e de cunho sexual por dia. Usuários com nomes masculinos, apenas 3,7.

O próprio youPix publicou ontem, quarta (7), a matéria Ofensas, machismo e estereótipos: a difícil vida das mulheres no YouTube com os variados tipos de abordagem que as internautas recebem. Anita Sarkeesian e Caroline Criado Perez viraram vítimas cujos casos chamou a atenção do mundo todo. Ambas receberam ameaças de estupro e até de morte por simplesmente se proporem a criar projetos feministas. A primeira gravou programas no YouTube para falar sobre as características machistas dos videogames. A segunda criou uma campanha para que o Bank of England colocasse uma figura feminina em uma das notas de Libra.

No entanto, as mulheres nem precisam ser autoras de projetos feministas para virarem alvos de agressão. Qualquer exposição na net pode resultar em xingamentos, críticas tresloucadas à aparência e, claro, nos mais variados assédios sexuais. Lauren Mayberry, da banda escocesa Chvrches, escreveu um depoimento para o The Guardian sobre a ocasião quando, pela página oficial da banda, tentou abordar o assunto das mensagens sexistas e inconvenientes direcionadas a ela. O que Lauren escutou de volta foram coisas como “Isso não é cultura do estupro. Você vai saber o que é cultura do estupro quando eu estiver te estuprando, vagabunda” e “Sei o endereço da sua casa e vou passar aí para comer sua bunda e você vai amar, sua safada”.

Essa reação ainda mais violenta à uma denuncia não é novidade e já foi até cunhada de a Lei de Watson: “cada vez que você denuncia a violência [de gênero], ela se intensifica”. O mandamento ganhou o sobrenome de Rebecca Watson, que foi ao Twitter reclamar de uma cantada inadequada que recebeu durante uma convenção de ateus e virou vítima de ofensas descomedidas. Até o famoso biólogo evolutivo e ateu praticante Richard Dawkins entrou na briga e, em tom sarcástico, desdenhou da experiência machista que Rebecca viveu.

O custo para a sociedade é imenso: a brutalidade online mina a dignidade das mulheres, deslegitima suas vozes como cidadãs e as reduzem a corpos sexualizados e objetificados. Isso as afasta de discussões online e suprime suas opiniões e contribuições para a sociedade, seja um blog de conteúdo feminista, seja um vlog de moda ou dieta. E apesar da gravidade do problema, ele ainda não é levado a sério pelas empresas de redes socais, a polícia e o poder público.

Hoje, 7 de agosto, é o 8o aniversário da Lei Maria da Penha. Ela foi uma tremenda vitória feminina, mas que trata somente da violência doméstica e familiar, deixando de lado outras formas de abuso que vitimam mulheres. Nesse leque ainda não contemplado pelo poder público estão, entre eles, o feminicídio (o Ministério Público de São Paulo lançará campanha para que o senado inclua o crime no código penal), o assédio sexual (que o código penal enquadra como crime apenas no ambiente de trabalho, ignorando o local público) e a violência online. Esta última encontra dificuldade de ser vista como tal até mesmo pelas próprias empresas de redes sociais, os novos palcos de linchamentos de minorias. Não é clara, por exemplo, a estratégia de combate à misoginia do Facebook, plataforma que agrega muitas páginas sexistas e até mesmo criminosas. Quando denunciadas, a empresa envia comunicados automáticos, às vezes em questões de segundos, negando a retirada do conteúdo. Só as derruba, enfim, quando as denúncias são feitas em massa — tática também utilizada por machistas para tirar páginas feministas. O Twitter também é tão leviano quando se trata dessas questões que, mesmo após as mais violentas denúncias de machismo online, achou por bem, no fim do ano passado, rever a sua política do botão block. Ou seja, as pessoas bloqueadas ainda poderiam ler a timeline do usuário que as bloqueou. A resolução foi revertida em questão de dias, mas tratou-se de uma afronta às feministas que, por anos, tornam pública e conhecida a violência que ali vivem.

Enquanto as autoridades não tomam uma atitude, as mulheres podem se unir para revidar. Em primeiro lugar, saiba como agir se você for vítima de violência online. E, se vir alguém sofrendo essa violência em algum lugar da internet, junte-se, instrua, explique e, de maneira alguma, encare isso como algo que nunca poderá ser mudado.

*

Arte: Natacha Côrtez

Compartilhar
ada02

ada02

Em junho, o Google lançou uma série de programas para incentivar as mulheres a aprenderem computação. Houve distribuição de cursos grátis na Code School para a ala feminina e a iniciativa Made With Code, voltada para meninas, com o objetivo de mostrar a elas que é possível fazer o que mais gostam — de pulseiras a aplicativos, passando por filmes e smartphones — por meio da programação. Somente neste último projeto, o Google está investindo 50 milhões de dólares nos próximos três anos. Incrível! Mas, peraí, por que o Google subitamente está tão interessado nas mulheres?

A justificativa é bonita. “Não é segredo que a diversidade não é o forte da comunidade da tecnologia, e nós estamos sempre atrás de oportunidades que ajudem a mudar isso. Hoje, um quarto das vagas de Tecnologia de Informação são de mulheres, e mulheres negras representam apenas 3% das cientistas e engenheiras. A situação é clara: temos um longo percurso a seguir para criar uma comunidade mais diversa, aberta e inclusiva”, disse o Google.

Talvez o Google tenha reparado que a porcentagem de mulheres nas turmas de ciência da computação e na área de tecnologia seja ridícula (inclusive na própria empresa), ou tenha reconhecido que mulheres podem ser tão boas, ou até melhores, que homens na tecnologia, a exemplo de algumas mulheres inspiradoras como Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook), Marissa Mayer (executiva-chefe do Yahoo!) ou Virginia Rometty (presidente da IBM).

Fato é que sim, nós estamos em menor número na computação e isso é absurdo. Segundo o Censo 2010, o último levantamento do IBGE com essas informações, as mulheres representam apenas um quarto das 520 mil pessoas que trabalham com computação no Brasil. Para piorar, de acordo com o mesmo senso, o salário médio das mulheres no setor de TI é 34% menor do que o dos homens, e, nos cargos de chefia, elas ganhavam 65% a menos!

ada04

 

A explicação para isso está relacionada ao motivo pelo qual as mulheres ficaram ao largo do desenvolvimento da ciência e da tecnologia até agora. Vejamos o que aconteceu com a ciência como um todo até aqui. Quantas mulheres engenheiras ou cientistas você pode citar agora sem pestanejar? Imagino que poucas, na maioria dos casos. É que historicamente as mulheres não se vincularam à tecnologia e à ciência por questões sociais. Esperava-se que as mulheres cuidassem da família e, como “procriadoras”, estivessem sempre ligadas à maternidade, que sempre foi pintada de cor-de-rosa, diga-se.

A figura feminina sempre esteve relacionada com o artístico, artesanal, o delicado — valores estigmatizados em gêneros. Essa ideia pode parecer distante para você agora, mas já parou para reparar o que sua sobrinha está ganhando de Natal em comparação ao seu sobrinho, por exemplo? Possivelmente um ferro de passar de plástico, uma cozinha equipada de brinquedo ou bonecas. E o menino com seus legos, pistas de corrida e videogames. Quem está sendo estimulado a quê?

Há um ótimo vídeo que fala sobre por que os pais deveriam estimular suas filhas a serem mais do que bonitas: basicamente porque 66% das meninas no Ensino Fundamental dizem que gostam de matemática e ciência, mas apenas 18% das engenheiras são mulheres nos Estados Unidos.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Esse problema tem a ver com a criação dos filhos, mas não é só isso. Em 2013, pesquisadores da Universidade de Yale publicaram um estudo dizendo que físicos, químicos e biólogos tendem a ver de uma forma mais favorável os homens do que as mulheres quando os dois grupos têm as mesmas qualificações. Meg Urry, diretora do centro de Astronomia e Astrofísica de Yale, disse que vê muitas mulheres deixando a Física não por não serem talentosas o bastante, mas por causa do desencorajamento de se sentir “menosprezada, desconfortável e de encontrar barreiras no caminho para o sucesso”.

Meg também diz que as mulheres não aprenderam a se gabar dos seus feitos como os homens, tendem a internalizar fracassos enquanto os homens colocam a culpa em alguém e são socializadas a reagir aos outros e considerar suas ideias sempre. “Não pergunte o que nós pensamos, não tente formar consenso. Apenas bata na mesa e nos diga o que fazer”, disse um colega certa vez a Meg. Mas muitas mulheres não foram educadas a se comportar dessa maneira ou não gostam de agir assim, seja por motivos de personalidade ou por serem julgadas quando o fazem (homens são “assertivos”, mulheres são “vacas”).

O resultado? Apenas um quarto dos físicos com PhD nos EUA são mulheres, apenas 14% dos professores de Física do país são mulheres, e o número cai vertiginosamente quando se considera hispânicas ou negras. No Brasil não é diferente: segundo um levantamento feito pelo GLOBO, dos 112 jovens cientistas eleitos membros afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) apenas 29 são mulheres. A situação fica ainda mais assustadora quando se considera que o número de cientistas mulheres é praticamente o mesmo que de homens, segundo o CNPq.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa, Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio Loreal/Unesco ano passado, viveu esse problema na pele e aponta uma causa principal: as características da carreira, como viajar bastante (a responsabilidade pelos filhos novamente cai sobre nossos ombros) e a necessidade de ser agressiva, o que nem sempre combina com o perfil das cientistas. Márcia também acha que a imagem da profissão torna a carreira desinteressante para as meninas, é passada uma ideia de que cientistas são nerds sem vida social, o que não é verdade.

ada03

É válido aqui evocar Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo: “A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: a biologia, psicologia experimental, etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo a ‘igualdade dentro da diferença’. Essa fórmula, que fez fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizaram em relação aos negros dos EUA as leis de Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações”. Ou ninguém aqui ouviu falar das pesquisas que falam sobre as diferenças entre o ‘cérebro masculino’ e o ‘cérebro feminino'”?

Acontece uma situação muito parecida com a programação — e saber programar é MUITO importante no mundo em que vivemos. Se até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que programação deveria ser ensinada nas escolas, e Sandberg deixou bem claro que essa habilidade está se tornando cada vez mais necessária no mundo de hoje, está na hora de incentivar as meninas a serem programadoras de suas próprias vidas.

Quer mais um motivo? Porque os programadores são conhecidos por programar soluções para eles mesmos. Ou seja, se apenas homens estiverem no comando da tecnologia, veremos muito menos resoluções de problemas que atingem as mulheres – que já são muitos, convenhamos.

Manter a noção de que mulheres não tem a ver com as Ciências Exatas é uma tradição problemática que não apenas está excluindo as mulheres da elaboração do futuro como também está desperdiçando talentos. Exemplos são os maiores poderes de influência, e a tendência é que quanto mais mulheres trabalharem com tecnologia, mais meninas serão encorajadas a irem atrás de seus interesses na área. Por isso, uma boa forma de mudar padrões comportamentais é esclarecer e insistir que existe outro caminho, que outras pessoas conseguiram, que temos modelos para inspiração.

Podemos começar pelo Brasil. Claudia Melo, Ph.D. em Ciência da Computação, trabalha com  projetos de desenvolvimento de software há 15 anos e hoje é Diretora de Tecnologia da ThoughtWorks Brasil. Camila Achutti, com apenas 22 anos, é diretora nacional do Technovation Challenge Brasil, uma iniciativa apoiada pelo Google para incentivar meninas a serem empreendedoras da tecnologia, e fundadora do Mulheres na Computação, um site de apoio, incentivo e difusão da participação feminina no mundo da tecnologia. Luciana Fujii Pontello, entusiasta e usuária de software livre desde 2003 e desenvolvedora de software na GNOME.

Para as mais novas, temos as meninas do For You, aplicativo de combate ao slut shaming, que, ainda no Ensino Médio orientadas por Juliana Monteiro, usaram a tecnologia para solucionar um problema comum no colégio, o vazamento de fotos íntimas e consequente bullying contra as vítimas. Quer mais? Tome Luana Lara Lopes, bailarina de 18 anos do Teatro Bolshoi, que vai estudar Engenharia no MIT com o objetivo de criar robôs com movimentos tão delicados quanto os da dança.

A programação é o ingrediente para cada site, software, jogo e produto digital. Sabemos que não há outro caminho além do da tecnologia, com um futuro à nossa frente bordado com miniaturização dos chips, aliados à conectividade da internet em todo tipo de objeto cotidiano. Se as mulheres não começarem a cavar seu espaço agora, ficaremos ao largo na história mais uma vez. Os homens ainda são maioria nos cursos de engenharia e ciência da computação, mas as mulheres estão provando que programação também é coisa de mulher, oras. Está na hora de acabar com o estereótipo de programador homem, nerd e sem vida social. Entre tantos outros avanços, conquistamos — muito recentemente — o voto, direito ao divórcio e a pílula anticoncepcional… Agora é a vez de usar a programação em prol do empoderamento das mulheres.

*

 Para quem se empolgou com a ideia, aí vão algumas dicas:

Codecademy, uma instituição educacional que te ensina a programar de uma maneira fácil, grátis, em português e de casa.

– O projeto Scratch, do MIT, disponível no nosso maravilhoso português brasileiro,  permite ao usuário fazer seus projetos online sem precisar baixar outros programas e sem exigir conhecimento da linguagem de programação.

– Se você fala em inglês, pode se engraçar com a Made With Code, do Google, uma iniciativa cheia de projetos, eventos e comunidades para você participar e aprender a amar a programação.

– A fofa Try Ruby, além de ser uma graça, tem tutoriais e exercícios para te ensinar a programar, mas só está disponível em inglês 🙁

– Quer um abraço, uma palavra de conforto, um “vai lá que cê consegue”? Fala com a comunidade das Mulheres na Computação.

– Conheça o MariaLab,  um espaço mais receptivo às mulheres na área de ciência e tecnologia. Mulheres de fora da área, que queiram conhecer mais sobre tecnologia, podem começar, ali, seus estudos e trocas sem medo. O projeto ainda está em construção, mas vale iniciar contato com suas criadoras.

*

As ilustrações foram feitas especialmente para este post por Vanessa Kinoshita. <3

Compartilhar
soccer 2

soccer 2
É 2014, ano de Copa de Mundo no Brasil, ano em que finalmente o racismo começa a ser tratado com a devida atenção no futebol. Infelizmente, ainda não se pode dizer o mesmo sobre a misoginia, o machismo e o androcentrismo. E o futebol sabe transitar entre estes últimos três como poucos (sem falar na homofobia).
Há oito anos, comecei minha trajetória como jornalista esportiva. Já passei por estádios onde não havia banheiro feminino, já ouvi torcidas de cidades do interior me chamarem de nomes nada legais apenas por eu ser a única mulher com um microfone na mão à beira do campo, já deixei de fazer uma cobertura no exterior aos 20 e poucos anos porque acharam que eu “não saberia me virar” (Oi? Eu viajo sozinha pelo mundo desde os 16).
Nos últimos tempos, acabei me voltando também para o uso das redes sociais e as estratégias digitais no futebol. Sempre usei a Heineken como um ótimo exemplo de criatividade para ações que unem on e offline. Estava indo bem, a Heineken. Até esta semana. A marca de cerveja lançou uma campanha em conjunto com a Shoestock para fazer uma liquidação de sapatos exatamente na hora da final da Champions League, que acontece neste sábado, na pegada “uhu, vamos ajudar sua mulher a te deixar livrinho para o jogo”.
Os pressupostos dos quais partem essa campanha são todos de chorar, a começar pela assunção de que “sua mulher não gosta de futebol”. Pode ser que não fosse permitido a ela desenvolver esse gosto (assim como pela engenharia e pela calça comprida) lá em 1950, mas a campanha foi lançada nesta semana, mesmo. 2014.
Nestes anos de trabalho com futebol e automobilismo, sempre senti que faltava, para mim, um espaço onde eu pudesse falar sobre estas experiências (são normais? Como lidar?), onde eu pudesse conhecer outras mulheres que passam pelo mesmo que eu e compartilham a paixão por futebol. É muito comum o estado de negação. Passei bons anos achando que “não, imagina, eu nunca tinha passado por nenhuma experiência de machismo”. Aham. Foi só o tempo e um pouco mais de maturidade que me fizeram enxergar, para poder lidar de uma forma mais realista e mais proveitosa.
Pensando nisso, em conjunto com as mulheres incríveis da Casa de Lua, é que resolvemos promover a roda de conversa “Mulheres no Futebol: jogando, torcendo, cobrindo” na próxima segunda-feira, dia 26, às 20h lá mesmo na casa (Rua Engenheiro Francisco de Azevedo, 216, metrô Vila Madalena – São Paulo). Você pode confirmar presença e chamar mais gente através do evento no Facebook.
soccer3

Vanessa Ruiz é jornalista com passagens por rádio, revista e web, sempre transitando entre o Esporte e temas transversais. 

Arte: Mark Brooks e Nayara Perone
Compartilhar
olga 01

olga 01
Numa quinta-feira chocha de abril, daquelas que nada prometem, navegava despretensiosamente por um site de notícias, quando me deparei com a propaganda de um evento intitulado “Mulheres Líderes: Evolução e Perspectivas no Mercado Brasileiro”. Não havia uma descrição muito detalhada, mas dizia o anúncio que a sede de uma organização internacional sem fins lucrativos, chamada Women in Latin America Leadership – W.I.L.L., seria inaugurada em São Paulo naquele dia. O que mais me chamou a atenção, confesso, foi a participação confirmada de uma das mulheres mais proeminentes do cenário empresarial brasileiro: Luiza Trajano, fundadora da rede de varejo Magazine Luiza. Na mesma hora me inscrevi, e não deu outra. Ao lado da embaixadora Maria Celina Rodrigues e da jornalista Mônica Waldvogel, Luiza conquistou o público – formado não só por mulheres, mas por homens também – com sua informalidade inteligentíssima. Aproveitou para destacar as iniciativas pró-mulheres de classes mais baixas da sua empresa e colocou em debate um tema muito importante, mas ainda pouco discutido: as controversas cotas para mulheres em conselhos administrativos de empresas. “Quando um executivo completa 60 anos, é chamado para integrar os conselhos. Já as mulheres da mesma idade se aposentam ou são mandadas embora”, reclamou.

 

“As cotas são um processo transitório para acertar uma desigualdade histórica.” – Luiza Trajano, presidente da Magazine Luiza

 

Em meio a opiniões apaixonadas e ponderadas sobre o assunto, ouvi também descrições de trajetórias incríveis, de mulheres que seguiram crescendo em ambientes essencialmente masculinos e chegaram a assumir cargos executivos de empresas em que os funcionários são predominantemente homens. Andrea Alvares, por exemplo, assumiu aos 28 anos a diretoria geral da unidade de Snacks da Pepsico no Brasil, se tornando a primeira diretora mulher da empresa. Já Elisabeth Farina, presidente da ÚNICA (União da Indústria de Cana de Açúcar), estudou Economia numa classe em que as mulheres ainda representavam apenas 20% da turma e foi uma das poucas a fazer parte do seu corpo acadêmico.

É verdade que o movimento feminista proporcionou muitos avanços na vida das mulheres nas últimas décadas, inclusive o aumento daquelas que ingressam em universidades no mundo todo: o número cresceu mais de 50% desde 1980 – na América Latina e Caribe, para cada 100 homens, há 127 mulheres que entram no ensino superior. Porém, ainda existe uma quebra muito grande quando chega o momento de ela ingressar no mercado de trabalho: apenas 19% das mulheres graduadas de fato são empregadas. É uma perda trágica para a economia, e as causas são as mais diversas – algumas vezes, é uma escolha das próprias mulheres, muitas delas ainda habituadas às velhas convenções sociais.

 

“Quem educa uma menina, educa uma nação” – Slogan da campanha da Unicef para o Dia Internacional das Meninas, celebrado pela ONU

 

Mesmo para aquelas que ingressam no mercado de trabalho, a pressão social permanece estarrecedora. A economista americana Sylvia Hewlett, professora da Universidade de Columbia, descobriu, por exemplo, que, ainda hoje, quanto mais bem-sucedido for o homem, maior a probabilidade de ele se casar e ter filhos – sendo que com as mulheres ocorre o oposto. A falta de tempo de uma executiva para uma relação afetiva não é bem vista pelos homens, enquanto muitas mulheres ainda aceitam operar como apoio à carreira masculina, mesmo que elas tenham aspirações profissionais maiores. O resultado: 40% das executivas bem-sucedidas no trabalho não têm filhos, ante apenas 19% dos homens.

A associação entre ter sucesso e abdicar da vida pessoal faz com que muitas mulheres optem por não crescer profissionalmente, o que colabora indiretamente para que apenas 7% das mulheres latino-americanas ocupem as tão visadas cadeiras dos conselhos administrativos das empresas – o topo das posições de comando –, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Não à toa, muitas mulheres influentes, como Luiza Trajano, levantam a bandeira das cotas em conselhos. Essa participação feminina limitada motivou, em 2010, a criação de um projeto de lei que prevê o estabelecimento de cotas gradativas para mulheres – 10% em 2016, 20% em 2018, 30% em 2020 e 40% em 2022.

 

“Cota não é sinônimo de incompetência” – Irene Natividad, presidente da Corporate Women Directors International

 

De autoria da senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE), o projeto defende que o porcentual mínimo de mulheres em conselhos de administração seja obrigatório no serviço público (empresas estatais e de economia mista) e opcional nas empresas privadas. Ele já passou pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado e chegou a ser discutido na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas ainda precisa de ajustes antes que possa ser apreciado pelas duas Casas do Congresso Nacional. Como impasse adicional, a proposta também envolve diversos conflitos de interesses, como toda discussão sobre a adoção de cotas como medida paliativa de incentivo à inserção de grupos minoritários em ambientes historicamente pouco acessíveis. Nesse caso, mesmo algumas feministas, defensoras dos direitos das mulheres, são contra a iniciativa. Para clarear um pouco essas opiniões, selecionei abaixo alguns pontos levantados pelos críticos ao projeto, rebatidos por aqueles que são a favor:

CONTRA

– As cotas são uma interferência indevida do governo na liberdade das empresas decidirem por quem serão dirigidas. – As cotas obrigam as companhias a se livrarem de conselheiros competentes e experientes para dar lugar a pessoas menos qualificadas.

– O crescimento e desenvolvimento das mulheres deve vir por demanda e mérito e não por imposição de uma lei.

– As cotas têm efeito limitado no ambiente de trabalho das empresas: as conselheiras não participariam do dia a dia dos negócios.

– A participação ínfima das mulheres nos conselhos reflete seu número reduzido em cargos executivos, e as empresas buscam conselheiros experientes.

– As empresas teriam problemas hoje para preencher cotas em conselhos, pois não estão preparadas, não recrutaram mulheres pensando nisso.

A FAVOR

– A legislação pode melhorar o atual processo de seleção de pessoas – que costuma replicar e perpetuar as iniquidades existentes.

– Já existem conselheiros profissionais, que são treinados para o cargo e sem experiência efetiva de gestão. Mesmo entre aqueles experientes nem todos são de fato bons.

– As cotas são uma forma de corrigir uma desigualdade no topo das empresas e permitir às mulheres alcançarem postos de liderança mais rapidamente.

– A presença de mulheres no “topo” ajuda a quebrar estereótipos e convencer o resto da pirâmide corporativa de que elas podem ser boas líderes.

– Muitas empresas já reconhecem que a diversidade de gênero nos conselhos amplia as perspectivas e os ângulos dos quais os problemas são analisados.

– As empresas vão precisar sair à caça de mulheres com qualificação e capacidade de liderança, e perceberão que elas sempre existiram.

 

“Somos agregadoras e conciliadoras. Precisamos compartilhar mais nossas habilidades e ser mais participativas” – Chieko Aoki, fundadora e presidente da Blue Tree Hotels, eleita pela Forbesuma das executivas mais poderosas do Brasil

 

Experiências no exterior também contam a favor da iniciativa:

– Em 1993, Israel foi pioneiro ao estabelecer que 30% dos cargos de conselho de administração fossem ocupados por mulheres.

– Em 2003, a Noruega obrigou empresas públicas e privadas de capital aberto a ocuparem 40% dos assentos de seus conselhos com mulheres em até 5 anos.

– Em 2007, a Espanha estabeleceu um prazo de oito anos para que as companhias pudessem se adaptar a uma política semelhante.

– Em 2011, foi a vez da França, que passou a exigir não só a reserva de cotas, mas também a paridade salarial entre homens e mulheres.

– No mesmo ano, a Bélgica determinou que as companhias deveriam ocupar um terço de assentos em conselhos por mulheres até 2017.

– A mesma regra foi estabelecida na Holanda e na Itália, com um prazo de adaptação das companhias à regra até 2015.

– Outros países passaram a adotar o sistema em estatais, tais como: Dinamarca, Finlândia, Austrália e Islândia.

 

“Não deveria haver tanta testosterona em uma sala onde decisões importantes são tomadas” – Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI

 

Quando a Noruega adotou lei semelhante, os críticos diziam que as empresas não conseguiriam encontrar profissionais com talento ou experiência para preencher as cotas femininas, ficariam sem rumo e perderiam produtividade, o PIB encolheria e o nível de emprego cairia. Na época, a média de presença de mulheres era de 7%. Das 611 empresas sujeitas às novas regras, 470 não tinham nenhuma mulher em seu corpo de diretores. Quase uma década depois da aprovação das cotas, as previsões de um cataclismo corporativo não se confirmaram. Em meio à crise econômica, a Noruega vai surpreendentemente bem – o PIB do país cresce mais do que o brasileiro.

Essas constatações não só fizeram a Noruega se tornar um exemplo para outros europeus na adoção de cotas para as mulheres no topo das empresas, mas também arrastaram o país para o centro de um acalorado debate sobre o papel que a União Europeia (UE) deve desempenhar no tema. Em 2012, a Comissão Europeia propôs uma Diretiva que estabelece que todas as companhias abertas nos países membros com ações listadas em Bolsa de Valores e que possuam mais de 250 trabalhadores devem destinar 40% dos assentos em conselhos de administração para mulheres até 2020. O Parlamento europeu aprovou a proposta de Diretiva no final de 2013, por 459 votos a 148.

 

“Precisamos mudar a ideia geral de composição de família: as mulheres devem entrar no mercado de trabalho, e os homens devem entrar em casa também!” – Marise Barroso, presidente da Masisa

 

Uma pesquisa da McKinsey & Co. mostra ainda que companhias que contam com mulheres no comitê executivo apresentam resultados melhores: a média de retorno sobre o patrimônio líquido das empresas com presença feminina no comitê foi, em 2011, 44% superior à daquelas que contam apenas com a participação de homens. Entre executivos e CEOs ouvidos pela consultoria, 60% acreditam que as mulheres fazem a diferença na performance das empresas, graças à sua capacidade de inspirar e motivar equipes, além de desenvolver pessoas e criar um bom ambiente de trabalho. Com elas no comando, as empresas acessam um banco maior de talentos, agregam diferentes opiniões e percepções para os debates e colaboram com uma reflexão melhor a respeito do processo de tomada de decisões pelos consumidores.

Com tantos dados, tendo a acreditar que uma lei nesse sentido possa ser um empurrão necessário para que as mais empresas apostem nas mulheres de forma mais imediata. Somado a isso, claro, deve haver uma conscientização para que as empresas de fato incorporem processos e programas voltados para a equidade – de recrutamento e desenvolvimento. Seria imprescindível estabelecer um plano de carreira para aumentar o número de mulheres em cargos de gerência, cada vez mais preparadas para atuar como conselheiras, mas dando a elas flexibilidade de horários, capacitação por meio de modelos de liderança, orientação para gestão de tempo e networking. Além disso, as próprias mulheres devem confiar mais em si, para tomar melhores decisões e realizar negociações mais justas. Elas devem assumir a responsabilidade pelo seu crescimento e aproveitar aquilo que têm de melhor.

Em tempo: Nunca aspirei uma carreira corporativa, nem imaginava um dia estar aqui escrevendo sobre esse tema tão distante da minha realidade. Sou apaixonada mesmo é pelo terceiro setor, mas, por incrível que pareça, foi ele quem me aproximou dessa área de negócios. Recentemente, assumi parte de um projeto de carreira cujo objetivo é essencialmente orientar, informar e inspirar jovens profissionais – o que me fez conhecer mais a fundo esse mundo tão injusto com as mulheres – como tantos outros. Desde então, meu esforço quase diário é me aproximar de lideranças femininas que possam servir de exemplo e dar dicas para aquelas que ainda estão começando na vida profissional e aspiram uma carreira corporativa.

Se você também gostou do tema e quer saber mais das discussões que estão rolando sobre mulheres em cargos de liderança, indico fortemente o livro Lean In, da COO do Facebook, Sheryl Sandberg – um belo manifesto a favor das mulheres que querem ascender nas corporações. E outros dois livros que trazem insights interessantes sobre por que muitas vezes as próprias mulheres impõem obstáculos à sua carreira e dão dicas sobre como valorizar mais seu trabalho e negociar melhores cargos e salários: Women Don’t Ask: The High Cost of Avoiding Negotiation and Positive Strategies for Change e Ask for It! How Women Can Use the Power of Negotiation to Get What They Really Want – ambos das autoras Linda Babcock e Sara Lascherver. Boa leitura!


Cecília Araújo estudou Comunicação Social na UFMG e em, São Paulo, se especializou em Jornalismo Literário. Na época, pensava em escrever sobre cultura em revista, mas acabou se tornando repórter de internacional. Foi nas viagens e entrevistas que descobriu sua paixão por direitos humanos e a internet. No ano passado, largou a redação para mergulhar no terceiro setor. Fez um curso de Negócios Sociais no Yunus Social Business Center no Brasil e hoje é responsável pela reformulação do Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, que em breve estará de cara nova – e com mais mulheres líderes representadas!

Colagem: Mariano Peccinetti

Compartilhar
olga bonitice

olga bonitice

A atriz Kristen Stewart constantemente vira alvo de críticas por não ter o hábito de sorrir em fotos. Alguns dizem que é ruim para os negócios e que ela contribui para que a indústria e o público em geral a percebam como uma pessoa antipática. Sua aparência séria a faz parecer infeliz, dizem, ainda que mesmo sem mostrar os dentes ela seja considerada uma das mais belas atrizes de Hollywood. Em uma entrevista para a Vanity Fair, ela comentou o assunto:

“Eu tenho sido muito criticada por não estar com uma aparência perfeita em todas as fotos. Eu aguento muita merda por isso. Mas isso não me envergonha. Na verdade, tenho orgulho. Se eu saísse perfeita nas fotos o tempo inteiro, as pessoas que estivessem no mesmo ambiente que eu, ou no tapete vermelho, pensariam ‘Como é falsa!’. Esse pensamento me envergonha tanto que eu fico com cara de merda em metade das fotos, mas que se foda. O que importa pra mim é que as pessoas saiam dali e digam, ‘Ela era legal. Ela se divertiu. Ela foi sincera.'”

A honestidade da atriz diante das lentes inspirou um artigo do The Grindstone que defendeu seu direito de não sorrir o tempo todo. Afinal, o seu trabalho não é o de aparentar felicidade em entrevistas e tapetes vermelhos, mas interpretar personagens da melhor maneira possível. Contanto que seja ótima nos papéis que aceitar, pouco devia importar a forma como posa para fotógrafos e paparazzi.

Principalmente porque, da ala masculina, isso não é cobrado. O artigo cita James Franco, que quase não sorriu quando foi apresentador da cerimônia do Oscar em 2012. Além disso, é muito comum que atores não sorriam em pré-estreias, e nem por isso achamos que estão aborrecidos com alguma coisa. Eles estão isentos do que eu gosto de chamar de a cultura da bonitice: a constante obrigação feminina de estar sempre bela e à revelia de suas próprias emoções – que devem, de fato, resumir-se a uma só: a alegria, sempre expressa em um sorriso que, se não constante, deve ser fácil de obter.

Nem mesmo quem está no topo da sua carreira escapa da pressão da cultura da bonitice. Todo ano, um artista é convidado para o show do intervalo do Super Bowl, o maior evento midiático dos Estados Unidos. É a final do campeonato da National Football League e tornou-se um fenômeno tão imenso que o intervalo comercial das partidas é o mais caro do mundo, com marcas desembolsando US$ 4 milhões por 30 segundos no ar. Em 2013, foi a vez da Beyoncé se apresentar.

Ser escolhido para cantar no Super Bowl é um ponto alto na carreira de qualquer músico. Nomes como Diana Ross, os Rolling Stones, Madonna e Paul McCartney já se apresentaram para os milhões de espectadores do Halftime Show. O show da Beyoncé, para 108 milhões de pessoas, foi impecável. Não havia dúvidas de que ela arrasou. Mas nem mesmo tamanha honraria impediu a assessoria da cantora de entrar em contato com o Buzzfeed após o espetáculo, solicitando para que fossem retiradas desta matéria algumas fotos do show que não a favoreciam.

Ou seja: essa incessante busca pela perfeição chega ao cúmulo de que os registros de uma mulher (que após anos de exposição na mídia já nem precisa provar mais nada em relação à sua aparência) dançando, obviamente despreocupada com a maneira como vai aparecer nas fotos e, por isso, fazendo caretas e poses estranhas, sejam vistos como negativos para a sua imagem.

O contra-ataque

Por outro lado, algumas personalidades do show business estão se rebelando contra essa opressão. Em 2011, as atrizes britânicas Emma Thompson, Kate Winslet e Rachel Weisz formaram a  British Anti-Cosmetic Surgery League, ou seja, a Liga Britânica Anti-Cirurgia Plástica, se colocando abertamente contra o uso de botox e outras plásticas para mulheres acima dos 50 anos – intervenções cujo objetivo nada mais é do privar as mulheres de emoções faciais. Emma, a mais velha das três, na época afirmou: “Estamos nesse terrível mundo impulsionado pela jovialidade no qual todo mundo precisa aparentar ter 30 aos 60”.

Elas estão certas. O envelhecimento da mulher é indesejado, especialmente no cinema. Um estudo da Vulture com dez grandes atores de Hollywood  revelou que, nos seus principais filmes nos quais tinham um par romântico, conforme eles iam entrando nos 40, 50 ou 60 anos, suas parceiras em geral se mantiveram entre 20 e 30 e poucos anos.

Outras atrizes, como Jennifer Lawrence e Claire Danes, por exemplo, também já deixaram claro que não se importam com a polícia da beleza. A primeira se tornou um símbolo para muitas mulheres ao adotar uma postura de porta-voz da normalidade em Hollywood. Jennifer sempre fala sobre o seu amor por comida e não tem medo de usar seu rosto para se expressar. Seus trejeitos já lhe renderam um Tumblr dedicado às suas expressões faciais, o Faces of Jennifer Lawrence.

Já Claire Danes é mais reservada, porém fez questão se posicionar quanto às críticas e à chacota virtual em torno de sua cara de choro. Interpretando a oficial da CIA Carrie Mathison no seriado Homeland, ela constantemente faz cenas em que aparece às lágrimas. A entrega com que interpreta a personagem levam a atriz a ficar com uma aparência que, pela falta de hábito em ver mulheres verdadeiramente em prantos na televisão, causou estranhamento em muita gente.

Ao ser perguntada sobre a polêmica pela revista Glamour, Claire deu risada:

“Bem, é verdade, ela se emociona bastante. Mas eu acho que, na verdade, os sentimentos são difíceis para as pessoas. Acho que elas ficam desconfortáveis por demonstrações irrestritas de emoções. Mas, sabe como é, esse é o meu trabalho. Eu não tenho esses medos. Eu nunca realmente me preocupei em estar bonita na tela. Simplesmente não é o meu jeito. Estou preocupada é se estou interpretando um belo personagem.”

A modelo Cara Delevingne é mais uma que faz bom uso de sua popularidade para questionar os padrões estabelecidos. O movimento que ela está fazendo com suas selfies cheias de personalidade no Instagram e com a sua maneira despojada de lidar com as câmeras é comparável ao de Twiggy e Gisele Bundchen em suas épocas. Cara não tem medo de ficar vesga, torta e agir de maneira absolutamente divertida. Ela não teme perder contratos ou fãs ao se vestir como um cachorro quente ou fazer caretas. A sua audácia, na verdade, tem sido recompensada com mais empresas que desejam ter a personalidade da moça associada às suas marcas e projetos. “Eu tento ser real e manter a minha vida real. Não espero que ninguém ache que sou perfeita, porque eu não sou”, já declarou.

Esse cobrança, porém, não está restrita ao show business. Não importa se a mulher é recepcionista ou CEO de uma grande empresa: o mundo espera que ela sorria e ostente o tempo todo aquela aparência “natural” que somente uma miríade de recursos artificiais podem proporcionar. Até porque natural de verdade é ter rugas, olheiras, espinhas, dobrinhas, caretas, linhas de expressão, pés de galinha, bigode chinês, frizz no cabelo, sobrancelhas grossas (ou finas!), cílios pequenos e tantas outras coisas que as mulheres são ensinadas a esconder com técnicas que aprendem a aceitar como rotina desde a adolescência – e, em alguns casos, até da infância.

A revolução das caras-lavadas

O lado bom é que esse cenário está mudando. Nos últimos anos, além do surgimento de celebridades que se declaram abertamente contra os padrões de beleza,  a internet deu espaço para que a insatisfação feminina com a obrigação de estar sempre impecável tomasse forma de movimentos que ajudam as mulheres a despertar quanto a essas imposições sociais.

Recentemente, a Leandra Medine escreveu um post com os motivos pelos quais ela não usa maquiagem. Ela tem um blog, que já virou livro, chamado The Men Repeller, cuja proposta é vestir-se de maneira “ofensiva” que resultará em repelir os membros do sexo oposto. Ela defende a liberdade feminina de vestir o que quiser sem se preocupar se isso vai atrair os homens ou não. É a moda que não necessariamente valoriza o corpo da forma como estamos acostumadas a entender essa valorização, mas que representa e dá destaque à personalidade da mulher. Em seu texto, a Leandra declara: 

“A razão pela qual eu não uso maquiagem é porque sou preguiçosa. E não me leve a mal – eu sou sou tão otária pelo mais novo ‘creme anti-idade milagroso’ quanto qualquer um. Só porque eu não uso lá muita maquiagem não quer dizer que eu não acredito em uma pele bonita (…) Ainda mais importante que isso, eu estou confortável com a minha aparência. Eu não odeio o que vejo quando olho no espelho. Mesmo que legiões não concordem. Eu aceitei o reflexo que me é fielmente devolvido por seus bônus e suas falhas. Eu sei que há grossas olheiras sob meus olhos. Aprendi a apreciá-las. Eu notei que meu nariz vai ficando um pouco mais torto quase que mensalmente. Tudo bem. Eu sei que há rugas prontas para tomar seus lugares como residentes de longo prazo na minha testa a qualquer momento. Meu pai também tem dessas, e eu acho cativante.”

Abrir mão da maquiagem está se tornando uma forma de retomar a liberdade feminina de mostrar o seu rosto como ele é, limpo, e não sentir vergonha por isso. O blog Girls With Style lançou a campanha Terça Sem Make, em que as leitoras postam selfies sem maquiagem. A ideia é não usar maquiagem às terças-feiras e registrar o feito nas redes sociais usando a hashtag #terçasemmake.

Nuta Vasconcellos, jornalista de moda e uma das criadoras do GWS, contou que a repercussão da campanha tem sido positiva. “Descobrimos que tem muita mulher querendo quebrar esse ciclo. Muitas garotas postam suas fotos no Instagram só com a hasgtag, mas muitas dividem também as suas histórias. E ficamos super emocionadas ao nos darmos conta de quanto esses pequenos movimentos fazem grandes transformações.”

Entre as histórias compartilhadas, está a da moça cujo próprio namorado nunca a tinha visto sem maquiagem. “Ela acordava antes dele pra se maquiar”, revela Nuta. Outro caso marcante foi o de uma garota com muitos seguidores no Instagram que aderiu à campanha e assumiu que tem uma mancha no rosto que ninguém conhecia, pois sempre a escondia com base, corretivo e afins.

Para a blogueira, a maquiagem hoje é muito mais que um acessório de beleza. “Deixou de ser uma brincadeira gostosa e se tornou obrigação. Acreditamos que tudo o que uma mulher NÃO precisa é mais uma regra de como deve ser sou corpo, seu rosto, seu cabelo. Várias empresas tem como norma a funcionária mulher estar maquiada. Faz parte do uniforme. Parece besteira, mas a mensagem por de trás disso é muito forte. É como dizer que uma mulher não está apresentável sem maquiagem.”

Dessa forma, elas acabam entrando em um ciclo vicioso. Além do trabalho, nos fins de semana também querem estar bonitas (= se maquiar) para sair, ver os amigos e namorar, e assim a maquiagem se torna uma rotina diária. “A pele nunca descansa, nunca respira e o mais grave: você passa a cada dia se achar mais e mais feia sem make, afinal, você quase nunca está sem”, enfatiza Nuta.

Vale lembrar que o Girls With Style e a #terçasemmake não querem acabar com o uso desse recurso. “Não somos contra a make! Também usamos e amamos, o que somos contra é a escravidão. Essa obrigação de estar maquiada para estar ‘apresentável’ caso contrário vão te perguntar se você está doente ou dizer que você está pálida.”

Até porque a maquiagem pode, sim, ser uma grande aliada na busca da auto-estima. A marca de comésticos Dermablend lançou uma interessante campanha na qual convidou duas mulheres,  Cheri Lindsay e Cassandra Bankson, que sofrem de vitiligo e acne severa, respectivamente, para contar suas experiências com a maquiagem. Ambas falaram sobre como o uso dela as ajudou a conquistar uma aparência que as deu mais confiança. No vídeo, Cheri diz: “Escolhi buscar uma alternativa. Algo que pudesse colocar no meu rosto e ajudasse as pessoas a ver além do choque inicial de ‘oh, o rosto dela é branco, mas ela é uma garota negra!’, algo que as fizesse literalmente ver através disso e enxergar quem eu sou como pessoa. Isso me tornou uma pessoa mais acessível.”

Outro movimento da internet que está revertendo a lógica da bonitice são as uglies, selfies que retraram as mulheres fazendo uma cara bem feia – a pior que conseguir, se possível. O fato é que tirar uma boa foto de si mesma dá muito mais trabalho do que parece. São muitas tentativas e erros até que se encontre a iluminação, o ângulo e o look almejados. Foi com uma certa insatisfação com esse compromisso que nasceram as uglies. O Tumblr Pretty Girls Making Ugly Faces, por exemplo, reúne uma coleção de fotos de seguidoras que toparam o desafio de fazer uma selfie perfeitinha e uma bem feia. As duas são colocadas lado a lado, fazendo um antes-e-depois. Pode ser enviada só a foto com careta também, contanto que ela esteja bem caprichada.

Por trás dessas iniciativas, reside uma mensagem muito forte: a de que as mulheres estão cansadas, mas não se importam mais de parecer cansadas. Atrás de cada sorriso, de cada camada de base e de cada picadinha de toxina botulínica está escondido um desejo de agradar aos outros que custa às mulheres tempo, dinheiro, energia e um enorme desgaste emocional.

Mas a cada uglie, a cada #terçasemmake e cada vez que uma mulher busca a liberdade de ser quem ela é e encontra beleza nisso, estamos enfraquecendo a intensidade dessa tirania e ficando menos cegas para o fato de que a única verdadeira necessidade que temos é a de ser feliz. E para satisfazê-la talvez seja preciso perder menos tempo com maquiagens, sorrisos forçados e emoções escondidas para agradar os outros, e mais tempo tentando descobrir como agradar e ser fiel a si mesma.


 

Ilustração: Laura Callaghan

Compartilhar
olga skull

olga skull

[ATENÇÃO: Post com linguagem explícita de violência]

Checar as estatísticas deste site, como o número de visitas diárias e de onde vêm esses leitores, é algo que faço com frequência. Conforme o blog foi acumulando posts, – e, muitos deles, sobre violência conta a mulher – essa xeretada passou a me trazer desconforto, choque e medo.

Existe uma seção onde dá para conferir os termos de buscas usados pelos usuários que os levaram às nossas páginas. E qual não foi a minha infeliz surpresa quando notei que alguém chegou até a Olga pela procura “como estuprar uma menina e pegando na rua”? Foi a primeira vez que vi algo relacionado à violência sexual contra a mulher ali, mas tampouco foi a última. Tirei um print. O que será que essa pessoa pensou ao cair em um blog que tem como uma das bandeiras justamente a luta contra a violência sexual?

Busca violencia 06

De lá para cá, fui colecionando as barbaridades que ali apareciam. Inspirada pelo Women Under Siege, projeto de jornalismo investigativo que luta contra o estupro em zonas de conflito, decidi também transformar essas informações em post. Divido aqui as buscas de internautas que mostram como o estupro e o assédio é visto não apenas com naturalidade, mas como algo estimulante. Há ainda citações de pedofilia: as “novinhas”com que fantasiam são, na verdade, crianças de 10, 11 anos.

O “interessante” da internet é que ela revela o comportamento – e até os pensamentos íntimos – das pessoas. Não é possível saber com certeza se elas querem se excitar, se são pesquisadores (!), psicopatas ou criminosos em potencial. Mas o material que recolhi é uma demonstração de que a agressão sexual contra mulheres e crianças é, de várias maneiras, algo bastante próximo, que está em mais lugares do que imaginamos. 

“Talvez você pense que se trata mais de fantasias (tanto masculinas, quanto femininas) do que de experiências reais. Mas é importante termos consciência de que isso é o que está na mente das pessoas. Esses são os pensamentos que algumas delas conseguem controlar só até chegar na internet, onde poderão procurar mais informações a respeito. São ideias e impulsos que mal se contêm”, escreveu Lauren Wolfe, diretora do Women Under Siege.

Existem fetiches envolvendo dominação e que não deixam vítimas. Mas não é o que essas procuras revelam. O que elas descrevem são crimes. E muitas demonstram uma intenção de torná-los real: buscam por dicas e informações de como a violência deve ser cometida. Ainda assim, poderia ficar só no âmbito da imaginação, mas sabemos que não é o caso: como vocês podem ver na seção de depoimentos do Chega de Fiu Fiu, são agressões bastante comuns. E aí, percebo que não à toa essas pessoas chegaram aqui.  

Abaixo, as buscas em seus termos originais. 

Estupro

olga busca violencia estupro

Assédio sexual

olga busca violencia assedio

Pedofilia

olga busca violencia pedo

Compartilhar
criancas-3

criancas-3

No último domingo, a empresa GoldieBlox – que cria brinquedos com o objetivo de aguçar o interesse de meninas pela ciência – fez história ao veicular o primeiro comercial feminista do intervalo do Superbowl. Na propaganda, garotas recolhem bonecas, miniaturas de utensílios domésticos, castelos e tiaras (tudo rosa!) e literalmente os mandam para o espaço. A mensagem é clara: chega de estereotipar a infância! Abaixo, a publicitária Luíse Bello escreve, com um olhar pessoal, sobre a relação entre consumo e infância, tema que inspirou seu trabalho de conclusão de curso.


Sou a caçula de três irmãos — duas meninas e um menino. Muito antes de aprender sobre o feminismo e a pensar sobre a questão da mulher, tive a chance de observar desde o berço e em primeira mão a desigualdade na criação de filhos de gêneros diferentes.

Nunca ganhei uma bola. Bola é coisa de menino. Não existe o equivalente de bola para meninas. Uma bola não faz nada se você não fizer algo com ela – o que é tremendamente estimulante para a imaginação. É um brinquedo simples, mas completo para vários tipos de jogos. Um menino quando ganha uma bola é incentivado a correr, jogar, se movimentar, até a praticar esportes por diversão.

Acho que a minha irmã chegou a ter uma bola de vôlei, mas foi somente após demonstrar interesse pelo esporte. Definitivamente, não é a primeira coisa que nos vem à mente quando vamos presentear uma menina. Para meninas, tudo tem que ser rosa, de princesa, de casinha. Nada que as deixe suadas ou descabeladas.

Mas as coisas não são assim porque os pais são ruins em essência para com as mulheres: é a nossa sociedade leva adiante valores ultrapassados por pura inércia. E não existe propagador maior de tais valores que o mercado de produtos infantis, cujo papel na infância de crianças expostas a horas de anúncios em todos os meios de comunicação diariamente é, no mínimo, fundamental.

Durante a infância, a fronteira entre coisas de menino e menina é robusta. A criança que ultrapassá-la será questionada, julgada, quiçá até examinada, e se tornará motivo de forte preocupação. O que será de uma menina que não gosta de bonecas? Ou de rosa? Ou de brincar de mamãe?

criancas-1

Desde muito cedo, as principais brincadeiras oferecidas para meninas são simulações do que é esperado que ela se torne na vida adulta. Menina só brinca de ser mulherzinha.  A Barbie ter um emprego, por exemplo, é algo tão grande na vida da personagem que produzem bonecas exclusivas com o tema de seus trabalhos. O acessório mais desejado pelas meninas, porém, não é a régua T da Barbie arquiteta ou o estetoscópio da Barbie médica, e sim o Ken, o marido, aquele que tornará a Barbie uma mulher casada e plena. Contanto que haja o Ken, sua Barbie nem precisa ser aquela que tem um emprego.

E quando não é a Barbie, são bonecas bebês que colocam as meninas no papel de mãe. Hoje em dia há bonecas que fazem até cocô, para que as pequenas possam ter uma ideia mais realista do que é ter um filho. Sempre achei isso cruel: qual é o prazer de colocar meninas nessa tarefa de trocar fraldas desde a infância?

Há quem diga que isso é o instinto materno aflorando desde cedo, que a menina quer imitar a própria mãe. Pode ser, é verdade que as crianças realmente gostam de imitar os comportamentos de adulto, mas será que isso ser estimulado a esse ponto?

Se é assim, porque não existe o Max Steel Veterinário e o Ben 10 Advogado? Não existem brinquedos masculinos que estimulem os meninos a ser pais ou a agir como adultos. Dos meninos é esperado que queiram derrotar o mal e salvar o mundo. Os seus bonecos voam, lutam, piscam, e tem até antagonistas, os vilões (vendidos separadamente, é claro) com os quais seus personagens entrarão em combates imaginários magníficos. E quando não são bonecos, são carrinhos, aviões, armas, autoramas. O menino nunca é colocado no papel de mero trabalhador, mas de herói. Nem inimigos a Barbie tem: não há conflitos em seu mundo perfeito.

criancas-2

Até nos comerciais de calçados para crianças essa diferença é clara. Os sapatinhos dos meninos são apresentados como sendo resistentes, para acompanhar ritmo de muitas aventuras. Os anúncios exibem garotos escalando pedras, correndo, explorando o mundo com seu tênis e sandálias licenciados por algum personagem.

Já os calçados de meninas têm brilho, salto, um detalhe dourado, tons de rosa, lilás…  São apenas bonitos. Os anúncios mostram meninas vaidosas,  orgulhosas de seus lindos calçados novos que não são feitos para entrar em contato com terra ou lama, pois isso provavelmente os estragaria. Os sapatos de menina servem para incrementar o visual. E só!

E cada vez mais cedo as meninas largam as bonecas para cuidar de si mesmas. Não é à toa que o mercado de cosméticos infantis cresce a passos largos. São maquiagens, esmaltes, xampus e condicionadores exclusivos para que elas possam adotar o quanto antes os hábitos que levarão para a vida inteira.

Quando olho para trás sei que não tive uma infância sofrida. Fui feliz com as minhas Barbies e bonecas que amei com todo meu coração de mãe-menina. Mas hoje sei que tudo aquilo não era tão natural quanto me parecia na época. Como uma grande parte das mulheres, eu também fui encurralada desde criança nesse labirinto cor de rosa. Afinal, é o que as pessoas nas quais eu mais confiava me ofereciam, é o que aprendi na escola, é o que a televisão reiterava com seus anúncios separados para meninos e meninas.

Minhas boas memórias, porém, não me impedem de questionar tudo o que eu poderia ter sido se me tivessem oferecido possibilidades diferentes. Se desde pequena eu fosse estimulada a acreditar que poderia vencer o mal e derrotar vilões;  se eu pudesse copiar outros papéis femininos além de mãe/princesa/esposa; se meus brinquedos e jogos me levassem a explorar o mundo, e não me adequar a ele. Talvez seja esse o caminho para que as meninas descubram muito antes do que eu, por exemplo, o poder e a força do sexo feminino.


As ilustrações, feitas com carinho especialmente para este post, são da artista e designer Vanessa Kinoshita.

Compartilhar