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“O pai a abandonou grávida, mas ela não vai correr atrás da pensão porque é muito GUERREIRA e vai criar sem a ajuda dele”

“Ela é uma GUERREIRA, suportou anos de abuso por causa dos filhos.”

“Ela chegou à diretoria mesmo com todo machismo, *provou* ser tão capaz quanto os homens para chegar lá. Que GUERREIRA!”

É curioso como a nomenclatura de guerreira nesses casos traz pouca ou nenhuma reflexão sobre a guerra. Vamos falar abertamente? Nosso inimigo é o machismo. E é difícil negar que ele não esteja por trás da celebração de mulheres que, para vencê-lo, abriram mão dos seus próprios direitos. São essas mulheres, as que encontram caminhos alternativos às custas da sua própria integridade e paz de espírito, que são celebradas – como se não fosse necessário enfrentar e combater esse sistema de injustiças.

Para começar, não estamos de forma alguma dizendo que essas mulheres não são fortes e determinadas. Elas são – e muito. A gente sabe porque a luta contra o machismo é mesmo uma guerra diária e nós fazemos tudo o que está ao nosso alcance para vencê-la. Mas o pagamento da pensão é uma obrigação do pai – e chamar os homens à essa responsabilidade é um direito garantido por lei, não há demérito nenhum em fazê-lo. Nenhuma mulher deve sentir-se na obrigação de submeter-se à violência doméstica – precisamos de políticas públicas que as acolham, protejam e punam agressores. E chegar ao topo da carreira não deve ser mais sacrificante para uma mulher do que é para um homem – e são as empresas que devem proporcionar isso ativamente por meio de medidas que eliminem diferenças de gênero no ambiente de trabalho.

Nós aprendemos que é bom e bonito silenciar e superar os desafios “apesar de tudo”, mas as únicas que estão lidando com o dano físico, mental e financeiro disso tudo somos nós. É do nosso bolso (no qual já entra menos dinheiro que no dos homens) que sai o valor necessário para criar o filho, é a nossa carne que sofre com a violência física e é a nossa personalidade e a nossa saúde mental que estão em risco quando delas precisamos abdicar para ter sucesso profissional.

Essa conversa precisa mudar. Vamos celebrar as mulheres, sim, mas vamos falar sobre os seus verdadeiros inimigos nessa guerra e criar estratégias para combatê-los. Chega de carregarmos sozinhas o peso dessa injustiça e sermos parabenizadas por sermos fortes quando essa é a nossa única opção. Vamos ser fracas e sentir raiva e exigir, sempre, a dignidade que merecemos como seres humanos, sem precisar provar para ninguém que sabemos sofrer nesse silêncio que nunca nos protegeu. #RaivaComRazão

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primeiroassedio

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Para a minha fala no TEDxSão Paulo sobre a campanha Chega de Fiu Fiu, precisei juntar coragem. Contei, no Auditório do MASP, sobre minha história com violência sexual não apenas para o público de 450 pessoas, mas também para câmeras que eternizariam o momento – aos 11 anos, escutei comentários grotescos sobre meu corpo de um estranho na rua.

Falar sobre o #PrimeiroAssedio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. “O que será que eu fiz para provocar isso?”, me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Naquele mesmo palco, desabafei sobre isso: apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, só consegui voltar a falar sobre ele 16 anos depois. Aos 27 anos, ao ver, pela primeira vez em toda minha vida, uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos de forma pública, em post no Facebook, tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Decidi ali que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #primeiroassedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade! E, infelizmente, o caso do MasterChef Jr. jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

 

HASHTAG TRANSFORMAÇÃO

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.  Ela não é operada por um super vilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero,  que é preciso esquecer,  que “o que passou,  passou”,  e que reclamar disso é  “vitimismo”.  Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano,  então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.
É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse. Descobrem-se,  enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância.  E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag  #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo. Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

 

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Demos ali a largada em um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, até em 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

 

Os depoimentos recebidos até então pela campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio sexual em locais públicos já mostravam que o problema começava cedo, mas não há precedentes na quantidade de histórias recebidas sobre a prevalência desse problema na infância.  Recebemos depoimentos de mulheres que lembram ter passado por abusos com até cinco anos de idade.

 

Ao ler isso, a reação inicial de muitos é acreditar que ela foi vítima de um pedófilo, o que isola e minimiza a questão da cultura de pedofilia em que vivemos – retratada com louvor por seus próprios representantes na ocasião dos ataques à menina do programa de televisão.  Existe uma desinformação muito conveniente para os homens em relação à gravidade das “brincadeiras” com pedofilia,  estupro e assédio que os deixa confortáveis o suficiente para reproduzi-las sem se preocupar com as consequências.

ANÁLISE

Até a meia-noite de domingo, a hashtag foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos a constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

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A seguir, veja a cloud de palavras mais citadas nesse grupo de tweets:

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Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico – e grande parte dos crimes, 65%, são cometidos por conhecidos. Ou seja, aqueles em que mais deveríamos confiar. Adentramos, então, nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas.  Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem.  Nesse caso,  para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar,  mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe,  sim,  e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas,  mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

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Parece simples, mas não é. A fronteira entre o estupro e o sexo ainda está embaçada na cabeça de muita gente. O hit Blurred Lines, sucesso absoluto na voz do cantor Robin Thicke em parceria com o rapper Pharrell, é basicamente uma ode à violência sexual. Pra se ter uma ideia, o Projeto Unbreakable, que reúne fotos de vítimas de estupro segurando cartazes com o que seus agressores diziam na hora da violência, conseguiu recriar a letra da música apenas com imagens previamente publicadas.

A popularidade desse tipo de canção é um forte indício da identificação ou da conformidade do público com essa abordagem. “Eu sei que você quer”, “A maneira como me segura, deve estar querendo mais”: a canção (e a sociedade?) está lotada de suposições equivocadas sobre o desejo da mulher. Ela é considerada apenas parte interessante, mas não interessada, pois em nenhum momento perguntam o que ela quer.

Consentimento é a certeza de que as duas (ou mais) pessoas estão dispostas a participar de uma interação afetiva. Do flerte ao sexo, qualquer tipo de aproximação entre um casal só pode ter sucesso caso ambos estejam absolutamente certos do desejo do outro em estar ali. É preciso ter um entendimento inequívoco da vontade de ambos – tanto de um para o outro, quanto individualmente (ou seja, se VOCÊ quer mesmo que isso aconteça).

Relacionamentos, sejam de uma noite ou para a vida inteira, não devem ser encarados como uma obrigação, mas como uma escolha. Independente dos motivos que levam duas pessoas a ficar juntas, o ideal é que eles venham de dentro, que sejam genuínos e pessoais. Consentir é diferente de “deixar” ou “dar permissão”: é verdadeiramente querer e desejar que aquilo aconteça.

O consentimento só pode ser dado por livre e espontânea vontade. Todo ato íntimo proveniente de ameaça, coerção e intimidação é considerado estupro. Por isso, antes de continuarmos nosso papo sobre consentimento, precisamos primeiro acabar com alguns mitos sobre violência sexual:

Mito 1 – Estupro só acontece em vielas escuras e são cometidos por tarados malucos que vivem atrás de moitas

A maioria dos estupros é cometida por pessoas conhecidas pelas vítimas, muitas vezes em suas próprias casas e por seus parceiros íntimos. Por mais desagradável que esse pensamento seja, é preciso encarar a realidade de que é preciso muito mais que “evitar andar sozinha à noite” para evitar ser violentada.

Mito 2 – Mulheres provocam o estupro por se vestirem de maneira sexy

“Mas ela está pedindo!”. Não, ninguém pede para ser estuprada e nem todas as vítimas estão de saia curta. A única pessoa responsável por um estupro é o estuprador. Os homens (que geralmente são os aqueles percebidos como perpetrores desse tipo de violência) não são bestas selvagens e deveriam se ofender com a acusação de que não podem se controlar ao ver um decote. Uma mulher deve ser livre para vestir o que quiser sem temer ser violentada por isso.

Mito 3 – Mulheres que bebem ou se drogam estão pedindo pra ser estupradas

A vulnerabilidade que acompanha o entorpecimento não implica que a mulher esteja disponível para fazer sexo. Se ela está inconsciente ou parece incapaz de tomar uma decisão, tal como dar consentimento, é estupro. Beber não é crime, estupro sim.

Mito 4 –Se a vítima não gritou, fugiu ou se machucou, então não é estupro

Qualquer relação sexual sem consentimento é estupro. Não é necessário nada além disso para que essa situação configure como violência sexual. Em muitos casos, a vítima coopera com o estuprador por temer pela própria vida, ou por consequência de sua personalidade ou da situação, não têm coragem ou força de reagir, sentindo-se paralisadas pelo pavor. Esse tipo de questionamento transfere a responsabilidade de evitar o estupro para a vítima – e, como já dissemos anteriormente, o único culpado pelo estupro é o estuprador.

Mito 5 – Se a vítima não reclama ou dá queixa logo em seguida, não é estupro.

Um estupro pode provocar sentimentos de vergonha e culpa tão grandes que impedem a vítima de falar sobre o assunto. Ainda mais vivendo em uma sociedade que tenta justificar o estupro de todas as formas (vide esses mitos!) e constantemente transfere a culpa

Mito 6 – Estupro de prostituta não conta

A prostituição é baseada fundamentalmente no consenso em praticar atos sexuais em troca de dinheiro.  O que passa desse acordo é estupro.

 

Ok, então… como consentir e como obter consentimento?

Comunicação! Comunicação! Comunicação! Para ser eficaz, o consentimento deve ser expresso de maneira ativa e voluntária, por meio de palavras ou ações que indiquem o desejo mútuo de participar de uma atividade sexual. Confira abaixo algumas reflexões importantes sobre consentimento:

– Ambiguidade não ajuda em nada. Sim é sim e não é não. É importante é respeitar esses limites quando dados pelo seu parceiro ou parceira.

– Sentiu desconforto para dizer não? Sinal vermelho! É um forte indicativo de intimidação e medo – coisas que não combinam com momentos de intimidade nos quais devemos nos sentir seguras para expressar nossos desejos.

– Se o parceiro ou parceira está hesitando, o ideal é não ir adiante com o contato íntimo. Consentimento é ter absoluta certeza de que o que está acontecendo naquele momento é algo que os envolvidos desejam verdadeiramente. Talvez é não.

– Consentimento para um ato sexual específico não significa que todos as outras formas de interação íntima estão liberadas.

– Mesmo depois que o consentimento tenha se estabelecido entre o casal, ambos são livres para mudar de ideia em qualquer momento do ato sexual.

– Caso isso aconteça, seja por palavras ou ações, a relação deve ser interrompida imediatamente. Ainda que o “não” tenha soado meio indeciso ou confuso, ele deve ser respeitado como uma quebra do acordo prévio. E sem consentimento, sem sexo.

– Especialmente entre casais que já se relacionam a mais tempo, o consentimento deve ser obtido toda vez em que houver atividade sexual. A intimidade pode levar a deduções que nem sempre são corretas e, consequentemente, levar a experiências desagradáveis.

– Ser casado com a vítima não exime o marido de ser um criminoso. A inglesa Sarah Tetley, por exemplo, foi estuprada mais de 300 vezes pelo marido enquanto dormia. Ela trouxe sua história a público recentemente para aumentar a conscientização sobre o abuso.

– Silêncio, falta de resistência verbal ou física e relações anteriores não são sinônimos de consentimento, bem como tipos de roupa, flertar, um drink, um jantar ou qualquer outro gasto com alguém, também não significam que ele ou ela consentiu em fazer sexo com você.

– Usar drogas ou beber não impedem deliberadamente uma pessoa de consentir em fazer sexo, mas certos níveis de intoxicação a tornam incapaz de tomar essa decisão.

– Consentimento não se obtém com o uso de força (literal ou implicitamente), ameaças, intimidação e coerção.

– É sempre OK dizer não. Seja por que você não tá afim, por causa de religião, por ter medo de pegar uma doença, se quiser ir devagar ou só ver a pessoa como amigo e não como parceiro sexual. Se você acha que tem que consentir, então a escolha não é mais sua.

Sexo é pra ser divertido e empoderador. Falar sobre isso, também. Respeitar o consentimento é uma das responsabilidades de quem tem uma vida sexual ativa. Não se trata de preciosismo, mas de tomar cuidado para não ultrapassar os limites do seu parceiro e transformar um momento prazeroso em uma experiência traumática.

 


Arte:  Emily North

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Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

a garota do hímen ½ rompido

 

lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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olga cancer mama utero

olga cancer mama utero

 

O câncer de mama e o câncer de colo de útero são duas das principais causas de mortalidade das mulheres no Brasil. Esses temas deveriam ser considerados temas de extrema importância para a saúde pública, mas ainda são negligenciados. A Dra. Ana Luiza Antunes Faria escreveu sobre sua experiência como ginecologista e mastologista, abordando esses e outros temas relacionados à saúde da mulher:

Era para ser apenas mais uma tarde de consultas, mais uma rotina do trabalho, mas nem sempre é assim, a vida nos surpreende e me deparei com uma amiga querida, quase uma meia irmã, angustiada com um Papanicolau. Para mim, um exame de rastreamento de câncer de colo do útero tão simples, tão comum. Para ela, o exame que poderia mudar a vida. Ela veio cheia de angústias e medos inexplorados. Então escrevi esse texto na tentativa de tentar conversar um pouco sobre os medos e angústias que fazem parte da vida de muitas outras mulheres em relação à sua saúde.

Não vou começar falando sobre câncer. Vou começar falando sobre o Sistema Único de Saúde, o SUS.

Me apaixonei pelo SUS ainda na faculdade, pelas enormes possibilidades de aprendizado e tratamento que ele oferecia quando ainda era aluna de Medicina para mim e para a pequena população de Itajubá, Minas Gerais, que era atendida no hospital Escola do qual eu fazia parte — sim, em alguns lugares ele funciona. Ao prestar a prova de residência em São Paulo, somos obrigados a estudar o SUS e tive certeza de que é um sistema bem estruturado, talvez um dos sistemas de saúde mais bonitos no mundo.

O SUS é universal, gratuito e integrado. Poucos países no mundo possuem sistema de saúde com essas características. Ele é organizado de forma hierárquica, como uma pirâmide, para que todos tenham acesso a um médico de família, que conhece os problemas locais e a população, para ir se tornando cada vez mais complexo com hospitais terciários, conforme a necessidade de pessoas doentes, que deveriam ser minoria.

Tenho certeza de que aqui muitas pessoas estão virando a cara, quase tremendo na cadeira, pois estamos cansados de ver reportagens sobre pacientes em macas no corredor do hospital, sobre pacientes com câncer que não conseguem tratamento, e a pergunta naturalmente vem: por que o SUS não funciona na prática como deveria? E por que a saúde feminina é tão negligenciada?

A minha conclusão é simples: falta educação.

A população não sabe usar o SUS, não foram educados. Os médicos, que deveriam ser os educadores, muitas vezes também não sabem ou não respeitam o sistema. Os políticos desviam o dinheiro que deveria ir para a saúde pública e não investem no médico para fazer parte do SUS. Não há a educação e o investimento necessários em nenhuma etapa. E qual a consequência disso? Mal uso, desperdício do dinheiro, filas e pacientes mal assistidos.

O problema não é o SUS e sim o uso que fazemos dele. Vou explicar melhor: o rastreamento do câncer do colo do útero acontece através da colpocitologia oncótica (conhecido como exame Papanicolau). Ele é capaz de detectar células alteradas que podem sugerir câncer. Segundo o Ministério da Saúde no Brasil, as mulheres que possuem dois exames negativos (normais), deveriam fazer o seu exame a cada dois anos e não mais anualmente. Mas o que vemos é que as mesmas mulheres que aderem às campanhas são aquelas que retornam todo ano para coletar o “Papa”, mesmo que já tenham dois exames normais, enquanto há mulheres no Nordeste que nunca se submeteram ao exame. Ou seja, não estamos fazendo um rastreamento populacional e sim coletando exames no mesmo grupo de mulheres. Nesse caso, não reduziremos o câncer nem a mortalidade, não teremos condições para mudar a realidade. Diferentemente disso, na Holanda, as mulheres são convocadas pelo governo a coletar na data certa o seu exame de rotina. A data e período é estipulado pelo sistema e as mulheres aderem e aceitam, porque foram educadas, porque confiam no sistema de saúde.

Outro exemplo é o gasto que temos com ultrassonografias de mama e transvaginal. Diversos estudos demonstraram que ambos os exames não são os ideais para rastreamento de câncer ginecológico. Mas só no ano passado, foram gastos milhões de reais em ultrassonografias de mama, solicitadas pelo médico, por queixas como dor na mama e medo de câncer pela paciente. Esse pedido gerou mais consultas, mais exames e gastos, além de aumentar a fila para o exame para pacientes que realmente necessitam dele. Pacientes e sistema, todos saem perdendo.

Vejo que muitos exames são solicitados sem necessidade. As brasileiras que comparecem em consultas acreditam que o atendimento foi incompleto se não fizerem a ultrassonografia, e o médico, que está sobrecarregado com o número de atendimentos acaba por solicitar o exame, que passa a substituir o exame clínico, a conversa. E sobrecarrega ainda mais o sistema.

O dinheiro é mal gasto e no final a conta não fecha.

Além disso, a evolução da medicina diagnóstica, dos exames de laboratório, não pode nos fazer esquecer a relação médico/paciente. Exames são importantes, mas devem ser complementares. E não podemos nos tornar reféns deles.

Mamógrafos são mal distribuídos. A região sudeste concentra o maior número de aparelhos, mas eles estão quebrados e sem manutenção. E quando a paciente consegue realizar o exame, a dificuldade é conseguir um atendimento médico para mostrar o resultado — o que retarda o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama que está quase gritando naquela “chapa” da mamografia e o mais impressionante é que muitos desses tumores são palpáveis e poderiam ter sido diagnosticados durante o exame físico.

Em nosso país, na qual 30-40% dos cânceres de mama são diagnosticados em fase avançada, o exame clínico e o autoexame são tão importantes quanto a mamografia. Orientar a paciente a apalpar as mamas e mostrar para o seu médico nódulos que tenham notado pode sim mudar a realidade de várias mulheres no diagnóstico de câncer de mama no Brasil, onde nem todas conseguem realizar a mamografia.

Não há médicos nos postos de saúde de comunidade, não há médicos de família. E por quê? Pois os poucos que ainda se aventuram a fazer parte do SUS são esquecidos lá, sem plano de carreia, sem apoios para atualização profissional, sem metas dadas claras pelo governo. São médicos que, muitas vezes, não possuem ferramentas para realizar seu trabalho. Na Inglaterra, o governo distribuiu bônus quando o médico consegue diminuir a taxa de diabetes da população que assiste, o médico trabalha com plano de carreira estabelecido e, muitas vezes, perto de casa.

Diante dessa realidade, só me resta falar do políticos. Poucos deles usam o sistema de saúde, poucos o entendem e nós ficamos sem saber quais seriam as estratégias para melhorias. Mais médicos? Talvez, sim. Mais postos? Com certeza. Mas o mais importante: mais atendimento de qualidade, com menos desperdício — não importa se por cubanos ou brasileiros.

Estamos em ano de eleição e não cansamos de reclamar nos últimos dois anos sobre o sistema de saúde e a entrada de mais médicos estrangeiros. Vem aqui a minha pergunta: qual é o plano de saúde que seu candidato esta apresentando? O que ele vai fazer nos próximos anos, qual a meta, como acompanhar e cobrar? Você sabe? E aqui entra novamente a educação. Nós carecemos de educação política e é nessa hora que poderíamos lutar por mudanças, pois a ideia do SUS é linda. A gestão, não.

A negligência ao funcionamento ideal do SUS começa quando negligenciamos as eleições. O sistema público de saúde, que assegura a saúde da mulher, e a política andam de mãos dadas. Não nos esqueçamos disso. Não ignoremos isso. A responsabilidade é do governo, mas também de todas nós. Podemos começar a modificar isso com informação e com o nosso voto.

breastfeeding


 

Ana Luiza Antunes Faria é Ginecologista e Obstetra pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Mastologista da equipe do Hospital Perola Byington – Centro de Referência de Saúde da Mulher. Gostaria de entrevistá-la? Ana faz parte do banco de dados do projeto Entreviste Uma Mulher.  

Arte: Adara Sánchez Aguiano

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i love feminism

i love feminism

As leitoras da OLGA respondem: Como o feminismo mudou a sua vida?

E, conforme prometido, Jessyca Camila foi sorteada e será premiada com o livro Americanah, da escritora feminista Chimamanda Ngozi Adichie, cuja versão brasileira acaba de ser lançada pela Companhia das Letras.
Agradecemos a todas bravas mulheres que dividiram suas histórias com a gente.

*

Eu devia odiar o feminismo. Depois do feminismo, tudo ficou mais difícil. Situações rotineiras e antes automáticas passaram a ser mais difíceis. Toda a minha conduta, meus pensamentos, minhas crenças, meus (pre)conceitos, tudo passou a ser questionado. O riso já não sai mais pra maioria das piadas. A convivência com a família ficou mais difícil. Os namorados perdem a graça fácil. Soube do imenso sofrimento que eu causava a outras pessoas repetindo coisas que pra mim pareciam normais. Hoje tenho preocupação constante em não agravar seu sofrimento e sinto de perto o quão cruel é ser julgado por pessoas que acreditam conhecer a vontade divina. Tive que me afastar de muitas pessoas. Muitas pessoas se afastaram de mim. Passei a me magoar mais com as pessoas que eu amo. Mas, incrivelmente, a cada dia que eu olho pra trás e vejo que tenho trilhado um caminho sem volta, me sinto mais feliz. É impressionante como enxergar a opressão me trouxe a liberdade. Como enxergar as coisas além do meu umbigo e questionar minhas atitudes me trouxe a paz, pois sei que eu posso contribuir positivamente com outras pessoas, mesmo se for só um pouquinho por dia. Eu vou fazer 20 anos nessa sexta feira, e quando eu penso em feminismo só consigo pensar em agradecer por tê-lo descoberto ainda tão jovem. Saber que vou poder fundamentar toda minha vida e minhas relações com as pessoas de forma mais consciente, estruturada em pilares muito importantes que com o feminismo tenho construído, me deixa muito feliz. Escrevo esse pequeno relato bem emocionada, pois sou eternamente grata ao Think Olga por ser o estopim dessa mudança na minha vida, por ser o meu primeiro contato com o feminismo. São as coisas que eu tenho aprendido através do compartilhamento de conteúdo e experiências online que vou levar pra vida toda. — Jessyca Camila

*
Fui obrigada a amadurecer muito cedo, pois vivi em um ambiente de violência doméstica. Na infância, essa violência era menos ostensiva, por ser disfarçada de “educação de menina”: como se comportar, que roupas vestir, o que desejar. Na adolescência, quando comecei a questionar as imposições, a violência se tornou evidente e insuportável – toda a tentativa de quebrar os padrões era vista como afronta, e virou rotina escutar que “mulher apanha porque provoca”. Nesse momento, ao entrar em contato com pessoas que trabalhavam com direitos humanos, descobri o feminismo, movimento mudou a minha vida radicalmente: proporcionou força para combater a violência que eu vivenciava e me ensinou a buscar relacionamentos de qualidade. Hoje em dia, convivo com pessoas que me respeitam; escolho melhor as minhas companhias; tenho a chance de construir a minha subjetividade livremente. — Raissa Alencar de Sá Barbosa
*
Sou mulher, negra, cabelo crespo, bissexual, tive enormes problemas de autoestima. Sempre me sucumbia diante do machismo. Deixava que todos esses pitaco nas minhas relações. Eu tinha medo de encarar o mundo. Quando o feminismo entrou na minha vida, uma porta se abriu – não que os problemas tivessem acabado. Mas eu havia me encontrado. E me tornado mais forte. Se não fosse o feminismo, eu jamais conseguiria suportar- aquela fatídica vez em que fui estuprada. Se não fosse o feminismo, eu ainda estaria naturalizando todas as reproduções maldosas e opressoras desse sistema. Se não fosse o feminismo, eu não estaria aqui hoje. O feminismo vive em mim. E eu sou grata por isso – Sendo combativa, lutando pelo os meus direitos e pelos os direitos de todas as mulheres — Dayana Pinto
*
Em 2010, mudei de cidade para fazer o doutorado. Quase 4 meses depois me vi decidindo seguir com uma gravidez não-planejada. Aí potência do machismo caiu sobre mim com menos compaixão do que nunca: a orientadora propôs aborto, o programa de pós sonegou informações, descobri a violência obstétrica e vivi o assédio moral dentro da academia brasileira. Negra, de origem pobre, vítima de abuso sexual na infância, já sabia que ser respeitada custava muita luta. Mas foi em busca de fazer valer meu direito de escolher ser mãe e acadêmica com dignidade que o feminismo se tornou essencial. Me inundei de blogs e livros feministas, encontrei meus pares, a cura para minhas dores e força para impor ao mundo uma verdade: lugar de mulher é onde ela quiser. — Soraya S.
*
Não sei se o texto se encaixa na proposta, pois é mais sobre como percebi que havia algo anormal na visão machista da minha família.. 🙂 Vou contar sobre quando decidi ser feminista, ainda que não soubesse explicar o que isso significava. Sempre passei os sábados na casa dos meus avós. Meu avô me pegava logo cedo, e eu ficava durante o dia com eles, até meus pais me buscarem à noite, enquanto jantava uma sopa fumegante e deliciosa. Foi assim durante anos, até que meu avô morreu e eu passei uns dias com a minha avó, para ela se acostumar com a nova rotina. Na primeira noite, eu separei os pratos e colheres para a janta, enquanto ela terminava o banho. De repente ela pegou com um guardanapo de pano e uma assadeira de pizza. Eu estranhei. Perguntei: “ué, não vamos tomar sopa?” E ela: “não, credo, eu odeio sopa”. Nunca mais me esqueci dessa frase, nem de tudo que eu sou e quero. — Camila Mendes
*
Eu devia ter uns 5 anos quando ia em festas com a minha avó e alguém me disse que eu não podia fazer algo pois eu já era uma ‘mocinha’. Por algum tempo tive um pouco de raiva dessa palavra ‘mocinha’. Com a chegada da menarca, vish: – adivinha quem já virou ‘mocinha’? Engraçado, eu fui moça desde os 5 anos e nunca adulta o suficiente para terem comigo uma conversa sobre a vida, sobre sexo. E a mocinha aqui, entrou na vida sexual sem saber que sexo é sobre prazer para os dois. Com o feminismo eu descobri que fui estuprada. Mas com o ele eu também descobri que posso sentir prazer e que não preciso ter vergonha disso. O feminismo me empoderou e me fez sentir na responsabilidade de informar pessoas, transformar meninas em mulheres, e não em mocinhas. — Isabela Magalhães
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O feminismo mudou minha vida, a princípio, de forma a aceitar-me como mulher. Que a liderança e iniciativa que eu sentia dentro de mim não era algo masculinizado, ou ligado ao gênero. Depois, a compreender minha sexualidade, meus desejos e vontades. Me fez preocupar com meus estudos, meu futuro e as consequências dele para outras pessoas. Me ajudou a escolher engenharia (mecânica) que, agora ainda mais que antes, me encanta e me faz perceber que não existe profissões ligadas a um certo gênero. Me fez abrir a mente para outros espaços, ideias e necessidades de outras pessoas em geral. As feministas me dão forças para aguentar os dias puxados e a insegurança nos espaços públicos. Sou eternamente grata, e isso me faz querer retribuir. — Maria Vitoria Sikora

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Em um ano, o feminismo fez por mim aquilo que a análise não conseguiu em vários pontos: me ajudou a começar a juntar os pedacinhos da minha autoestima quebrada. Eu sempre sofri com uma insegurança terrível, paralisante. Sempre me achei gorda, feia, chata, desinteressante, burra. O feminismo vem me ajudando, pouco a pouco, a ver beleza em mim mesma. As mulheres que conheci dentro do movimento me deram uma rede de apoio, me fizeram sentir parte de uma comunidade que só quer o meu bem. O movimento (e, especialmente, a militância) não é perfeito e tem muito a melhorar, mas eu só tenho a agradecer a todas as irmãs que vêm me ajudando a me mudar pra melhor — Camila Lafratta

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O feminismo me proporciona, diariamente, o que a sociedade fez questão de me tirar até então: segurança. Na rua, em família, no trabalho, em relacionamentos. Ele me deu degraus para enxergar além, me deu poderes que me trouxeram confiança e iluminou questões que eu não encontrava solução nas respostas da sociedade. O feminismo, para mim, é uma aula diária. É aprender a me reconhecer e reconhecer meu valor. É, mais ainda, aprender a reconhecer minhas irmãs e o valor de cada uma – sem julgamentos, sem questionamentos, sem diferenças. O feminismo me deixa segura porque ele me mostra: não estou sozinha. Mesmo a sociedade dizendo o oposto, ele grita mais alto: não estamos erradas. O feminismo me deu a chance de andar de mãos dadas com mulheres incríveis em uma mesma direção – para, juntas, abraçarmos todas as outras que precisarem. — Mayara Potenza

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Já fui uma pessoa mergulhada em ignorância. Já estive tão cega pelos meus privilégios que cheguei a a acreditar que oportunidade era algo que todas tinham, que só não alcançavam porque não queriam. Já achei que feminismo era algo ultrapassado, que não não existia mais espaço para ele na sociedade, que mulheres já tinham conquistado seu espaço. Eu errei. Errei de maneira grotesca, bati com a cara no fundo do poço. Levantei e vi as outras mulheres; vi pelo que elas passavam, vi como eu havia sido protegida e entendi: não acabou. Aprendi a ter empatia, o famoso se colocar nos pés dos outros, e aprendi que meu privilégio era ilusão. Eu sou todas aquelas mulheres, que elas são eu. Que o que machuca uma machuca todas, porque somos todas irmãs. — Maria Clara Madrigano

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Por três anos, tive uma empresa e convivi diariamente grande parte do tempo com homens. Nas reuniões de diretoria, geralmente, eu era a única mulher entre 10 ou 12 homens. Nos almoços no dia a dia, eu sempre estava com pelo menos uns 2 ou 3 homens e dificilmente com alguma mulher. Eram meus amigos e eu achava muito legal me considerar ‘um dos meninos’. Mas uma frase frequentemente me lembrava de que, na verdade, eu não era: ‘Tá de TPM?’. Quando tentava defender minhas opiniões nas reuniões de trabalho e ouvia isso, achava que realmente o problema era comigo. Os meninos não têm TPM e, por mais que uma discussão profissional entre homens seja tensa, por mais que cada um tenha seus caprichos e defenda veementemente suas posições, por mais que briguem feito crianças da quinta série, seu posicionamento assertivo não será sempre atribuído à oscilação dos seus hormônios. Isso me irritava, mas pra mim, no fundo eu deveria mesmo estar errada, eu não tinha tanta experiência quanto eles, eu não sabia me posicionar, eu deveria ter falado de outra forma, eu realmente deveria estar me exaltando por causa da influência das fases da lua. Um dos meus primeiros contatos com o feminismo foi por meio da campanha ‘Chega de Fiu Fiu’, mas não relacionei a campanha a essa palavra que eu mal tinha noção do que era. Na mesma época, participei de um evento sobre empreendedorismo feminino e, procurando saber mais sobre o assunto, logo me deparei com o livro da Sheryl Sandberg, que me mostrou como muitas das situações que vivi no trabalho eram machistas, apesar de ter trabalhado grande parte do tempo com equipes em que a maioria das pessoas eram mulheres. Com o ‘Faça acontecer’, percebi o que significa equidade entre os gêneros e que, por mais que a mulher tenha conquistado direitos e maior participação na sociedade, no fundo ela ainda é vista, em primeiro lugar, como uma ‘mulherzinha’, no sentido estereotipado da palavra, e precisa se esforçar mais e se provar melhor, mais capaz, mais séria, mais profissional do que qualquer homem para receber a mesma valorização, para ser ouvida. Hoje, meu olhar está mais apurado, tenho procurado identificar espaços onde a mulher poderia ter mais voz e refletir sobre o porque de elas não terem tanto destaque, mesmo desempenhando papéis semelhantes aos dos homens. Isso me levou ao desenvolvimento de um projeto para dar visibilidade a mulheres empreendedoras e líderes, que possam servir de exemplo e estimular outras a seguirem o mesmo caminho. Agora, ser a única mulher em uma sala cheia de homens é, pra mim, sinal de que algo está errado e não mais um motivo de orgulho e espero poder ajudar a mudar esse cenário tão comum. — Vivian Vianna

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Eu fui criada, como a maioria das mulheres, pra competir com outras mulheres. E só com as mulheres. Qual é mais bonita, quem tem a roupa mais descolada e o cabelo mais arrumado, quem arruma um namorado primeiro, quem casa primeiro. As mulheres têm dificuldade em se amar. A gente aprende desde cedo a apontar o dedo pra outras mulheres e a julgar a vida delas. O feminismo me ensinou a enxergar beleza no diferente e a julgar menos. O feminismo me trouxe amor. Amor próprio, amor pelos outros, mas, principalmente, pelas outras. Pelas mulheres. O feminismo me ensinou a amar as mulheres. — Mariana Arantes Fulfaro

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O meu feminismo me ensinou, acima de todos os ensinamentos, a me aceitar. Acredito que, mesmo quando eu não entendia muito o que era, o feminismo sempre esteve em mim. Sempre parecia que havia algo de errado, mas segundo a sociedade, era comigo. Mas quando eu descobri o feminismo, aprendi que o que estava errado é esta forma patriarcal que a sociedade pensa, e utiliza com relação ao comportamento e o convívio com as mulheres, e não eu. Eu aprendi a me aceitar do jeito que eu sou, que eu não devo respeito a ninguém porque ele é meu por direito. Descobri que eu não preciso mudar para conquistar meus objetivos profissionais e relacionamentos. E isso me deu confiança e amor próprio. Eu descobri quem eu realmente sou. E devo ao feminismo essa ciência dos meus gostos e dos meus objetivos na vida, e também das minhas opiniões. O feminismo me fez ir muito além da minha aceitação pessoal. O feminismo me fez aceitar a condição de ser mulher e ir para frente com isso. — Karoline Gomes

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O feminismo mudou minha vida na perspectiva de me fazer enxergar as mulheres não como inimigas, mas como parceiras, o que fez com que eu aumentasse o meu grupo de amigas. Me fez enxergar que muitas vezes estamos reféns do machismo mas, que podemos lutar contra ele. Mudou minha vida quando eu descobri que tenho apenas vinte anos mas, posso começar agora a fazer muito pela minha geração e pelas próximas, para que minha filha não precise sofrer por ser mulher, para que ela possa viver em um mundo em que ela tenha as mesmas oportunidades de um homem. O feminismo mudou minha vida porque a partir dele, eu descobri que meu corpo não define quem eu sou, o feminismo me ensinou que minhas ideias definem quem eu sou. — Amaralina do Carmo

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Eu sou feminista desde que me conheço por gente, pois nasci numa família de muitos homens, e sempre tive que ser meio ‘macho’ para sobreviver. Hoje sei que não é mais necessário. Minha mãe era dona de casa, e teve 8 filhos, era dependente financeiramente do meu pai e fazia alguns trabalhos (forrar botões, salgadinhos, doces), para ter os trocados dela. Antes de casar minha mãe era uma mulher independente também, e migrou de Pelotas (cidade Natal até Porto Alegre), lá ela foi morar com um tio, anos depois conheceu meu pai e se casou, porque foi atormentava pela família (anos 40 do século passado), tudo era muuuito difícil. Ela ajudava na igreja, e era a típica católica para ajudar os pobres, doentes, fracos, trabalhava que nem uma condenada com 8 filhos, uma época sem microondas, sem secadores, lavadora de pratos, etc. Enfim, minha mãe sempre me ensinou a ser indenpendente financeiramente, a estudar, e aos 19  anos sai de casa e nunca mais voltei. ela me ensinou a nunca aceitar desaforo de homens, e a me respeitar. Sinto que ser femista faz parte de mim, não conseguiria ser o contrário. Mas sempre tive que me provar no mundo dos homens. Hoje não tenho que provar mais nada, ser feminista é ser eu mesma e dizer o que penso em meu nome, e em nome de mulheres oprimidas por uma sociedade machista, doa a quem doar, minha voz não se calará. — Bebete Indarte

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Quando eu ainda não sabia o que significava a palavra feminismo e muito menos que este existia, uma vozinha lá no fundo do meu ser questionava: ‘’Por que só tu tens que ajudar nos afazeres domésticos se tem mais dois irmãos que podem fazer o mesmo?’’ ‘’Por que a tua minha mãe depende e sofre nas mãos de um homem?’’ Felizmente, conheci o movimento e percebi que existem mais mulheres com ideais semelhantes aos meus. E ainda mais, que tinham sofrido muito mais do que eu sofri. E aquela minha vozinha tornou-se um clamor desesperado ‘’Lute por você, mas, principalmente, por elas!’’ — Luciana Souza

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Demorei pra enviar porque não sabia pôr em palavras. O feminismo me tornou um ser humano completo, ainda que em constante construção. Minha educação não foi tão sexista quanto a das minhas amigas, então alguns conceitos deturpados como competição entre mulheres me eram desconhecidos. Acho que o feminismo deu um nome e um norte a algo que sempre senti e pelo o qual sempre defendi, mas nunca tinha sido por mim descrito. Ele me fez enxergar meus privilégios e a ausência de vários direitos que ainda matam mulheres e que nos tornam “cidadãs de segunda classe” pra muita gente. O feminismo é a chave de grilhões dolorosos que ainda mutilam e tiram a esperança das mulheres de serem consideradas seres humanos. Os tijolos machistas e racistas que nos constroem, porque infelizmente somos criadas neste mundo, foram e ainda estão sendo derrubados. Ser feminista também me fez ser tolerante comigo mesma. — Sybylla

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Não mudou, definiu! Virgem aos 22 anos, fui conhecer o feminismo na Faculdade (USP – ECA), com uma ginecologista porreta que nos prescrevia a pílula, com intervalos para o corpo descansar, e com a Marilena Chauí, falando sobre Spinoza. Nem imaginávamos o que era feminismo. Éramos felizes, fazíamos amor livre, sonhávamos com ética e felicidade.  Não éramos tristes, feias, feministas. Éramos mulheres querendo amar e ser amadas! — Andréa Nogueira

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Estava grávida pela segunda vez, mas não tinha filhos. Minha primeira gestação “não foi pra frente”, como dizem por aí, apesar de eu nunca ter entendido direito tal uso para essa expressão. Eu realizava consultas com o senhor obstetra, um desses figurões que deixam as mulheres constrangidas, com vontade de dizer “sim, senhor!” o tempo todo. Achava que gostava dele, apesar de ter tratado meu aborto como quem descarta um dente de leite. A culpa era minha. Sim, o mundo todo dizia que a culpa era minha, mesmo que ninguém usasse essas palavras. O feto não estava se alimentando direito, eu fiz muito exercício físico (kung fu não combina com garotas, menina!), meus hormônios estavam desregulados, meus genes não eram os melhores. Ouvi todo o tipo de coisa, e a culpa era minha, obviamente, e a sacanagem era que eu nem podia dizer em voz alta porque sabia que viria uma avalanche de olhares de pena. O senhor obstetra acompanhou todo a minha segunda gravidez. Sentia que eu ia lá só para provar a ele que podia ter um filho, podia levar uma gravidez até o fim. Ele recomendava meia o dia inteiro e eu passava mal de calor só de pensar. Não usei. Muito creme, nas nádegas, pernas, barriga e seios. Toneladas de creme. Passei, às vezes. Comer só o suficiente. Se der vontade de comer muito, não o faça, de jeito nenhum. Sentia tanto enjoo que a recomendação era inútil. O senhor obstetra dizia que meu marido precisava me desejar após a gravidez, então eu não podia ter varizes e estrias, nem ficar gorda. O que mais incomoda hoje é que eu achava que tinha sentido, na época. Quando estava de 36 semanas, percebi todos os sinais de que o senhor obstetra me colocaria numa sala de cirurgia e faria uma cesariana, a despeito do que fosse acontecer, e da minha vontade. Paciente não tem esse negócio de vontade! Conversei com uma amiga que eu percebia sempre engajada na causa por partos mais humanos. Podia jurar que eu já tinha dado risada dela numa roda de conversa, considerando-a uma maluquinha que pensa que está vivendo numa tribo indígena. Muito descolado para o meu gosto. Ela foi direto ao ponto: “você quer parir, de verdade?”. Sempre achei que a resposta fosse óbvia, que eu faria o que fosse melhor para meu filho e para mim. Eu só não sabia que esse papo de “que seja o melhor na hora” é uma grande armadilha. Tem muita gente envolvida, do senhor obstetra ao hospital e plano de saúde. Recebi um número de telefone que mudou minha vida. Conheci uma equipe de médicas humanizadas. Após duas semanas, meu filho nasceu. Durante o trabalho de parto, eu podia gritar, podia comer, podia andar, podia chorar, vomitar, xingar, bater. Eu pari meu menino. Senti seu cheiro e calor, dei o peito e ele mamou. Entendi que meu corpo podia e eu tinha todo o direito de viver aquele momento como desejasse. Vi respeito na minha equipe, em relação a mim e ao meu garoto. Sinto muito por tantas mulheres que sofrem violência obstétrica, sendo ridicularizadas, humilhadas e subjugadas. Elas não podem gritar, porque não gritaram na hora de fazer. Elas não podem tomar decisões, porque não são ninguém para fazer isso. Nada de parto normal porque pode rasgar tudo lá embaixo e como vai ser quando tiver relações? Devem preservar os seios, então não podem dar de mamar por muito tempo. Seios são para o marido. Não coma demais! Não esqueça as meias e cremes! Não grite! Não vá parir! Não amamente! … E leve maquiagem para sair bem nas fotos após a cirurgia! — Cláudia Coimbra

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Aos 14, grávida: me casaram. Ela nasceu e morreu 30 dias depois.Fingiram que nada aconteceu. Aos 21, me apaixonei, desabei em um romance que durou 8 anos. Um pesadelo. Aos 24, grávida. Pílulas: 2 cirurgias,6 meses de complicações.Culpa. Aos 27, grávida. Quis muito. Casei, agarrei o emprego pra sustentar filho e marido. Unha feia, bagunça, cansaço, culpas, amor, família. Mudamos pro sítio dele e saí do emprego. Ele procurou por uma travesti, perdi o desejo. Surgiu a misoginia. Me afundei em fumaça, frustração e humilhações diárias. Nunca pude tomar pílulas. Mais uma vez, gravidez. Escolhi não ter, ele pagou médico e distribuiu ofensas. Me expulsou de casa. Mergulhei no feminismo, joguei muita coisa fora, fui embora e renasci. — Thalita Prado

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Eu achava que minhas curvas eram feias e deviam ser escondidas. Eu achava que estar em um relacionamento abusivo era o preço a se pagar por ser amada. Eu achava que ser mulher era amar incondicionalmente. O feminismo mudou a minha vida. Eu entendi que não importa o que pensam ou o que querem que eu pense a respeito do meu corpo, mas como eu me relaciono com ele. Entendi que amar é diferente de se submeter à violência. Entendi, como se fosse loucura pensar isso antes, que sou humana.  O feminismo me mostrou que tem muita coisa fora do lugar no mundo, que há muito desrespeito e opressão escondida em atitudes quase banais, mas que posso lavar o rosto, erguer a cabeça, me amar e exigir respeito. — Eugenia Silva

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Desde que me entendi como feminista, minha raiva em relação à outras mulheres arrefeceu de uma maneira incrível. Não olho mais as meninas que passam procurando defeitos no seu modo de vestir, se maquiar, falar, sorrir. Acho todas bonitas, com ou sem maquiagem, de saia, calça ou bermuda, lendo um livro ou conversando com a amiga. Elogio internamente o “look do dia” e a coragem de, diariamente – e mesmo sem saber -,  colaborar com a causa, indo contra tudo que nos manda ficar quieta, ficar parada, obedecer, baixar a cabeça, ouvir desaforo, pegando trem, indo trabalhar, tomando suas decisões, vestindo o que prefere, ganhando seu dinheiro, estudando e vivendo a vida como ela deve ou pode ser vivida. — Livia Lara

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Um dia acreditei na monogamia instituída pelo patriarcado e nos papéis sociais de gênero. Eu pensava que deveria ser responsável pelas tarefas domésticas ainda que trabalhasse. Me sentia feliz em planejar o casamento com meu  primeiro namorado e por ele briguei com a minha melhor amiga e a odiei por disputa-lo comigo. Se não tivesse conhecido o feminismo jamais teria me graduado (casaria antes), os sonhos da pós graduação sequer teriam passado pela minha cabeça. Morar no Rio de Janeiro sozinha não seria algo desejado. Morar na Cidade do México para fazer um doutorado sanduiche seria uma proposta inusitada. E escrever e militar denunciando feminicídios no Brasil seria uma abstração. O feminismo mudou a minha vida. E pra muito melhor. — Izabel Solyszko

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Eu comecei a abrir meu mundo para o feminismo tardiamente, mas nunca tarde demais. Tenho dividido minhas descobertas com amigas, irmãs, porque quero que elas sintam a libertação que tenho descoberto. O feminismo é a luta pela igualdade dos sexos, mas, principalmente, pelo ideal de as mulheres serem vistas e tratadas como seres humanos. Parece extremo, exagerado, assumir que nossa realidade não é essa? Eu concordaria com o extremo disso até pouco tempo atrás, mas comecei a prestar atenção, a ler textos, a ler atitudes, a ler o que a publicidade ilustra como ideal do feminino, e o tanto que esses meios não nos representam. Sinto-me como que desperta, com os sentidos aguçados, é um novo mundo que se abriu. Depois de olhar para fora, e de ouvir e discutir com mulheres que estão nessa luta há mais tempo, comecei a olhar para mim mesma, e relembrei tantos e tantos momentos de autossabotagem e tristeza pelos quais passei, por “achar” que estava errada, inapropriada, ou não me dando ao respeito, quando poderia focar toda essa energia na tentativa de entender quem eu era. Inapropriado é um adjetivo de atitudes femininas, é inapropriado falar palavrão, é inapropriado transar sem compromisso, é inapropriado falar alto, é inapropriado ficar bêbada. Eu enxergava várias barreiras impostas às meninas, e como consequência entedia que os meninos eram responsáveis por ganhar seus privilégios, quando na verdade eles os recebiam como regra ao nascer com seus pintinhos. No mais, percebi que existe um mundo dentro de mim, e preciso aceitá-lo e compreendê-lo quanto antes, mas existe também um mundo de diferenças e injustiças para fora de mim. Eu sou branca, mulher, heterossexual, existe uma realidade ainda menos privilegiada que a minha. Pessoas morrem por causa do machismo, mas pessoas morrem por causa do racismo e pessoas morrem por causa da homofobia. Descobri que não é não levar na boa, quebrar o clima, ser muito radical, não achar graça nas piadas que tenham esses problemas sociais como base. De novo: pessoas estão morrendo, a piada não cabe aqui, ela é perigosa e perpetua esse problema. No feminismo eu descobri a sororidade, uma palavra que não deveria ser desconhecida, porque muito importante. Sororidade é a irmandade entre as mulheres. O contrário do que acontece na vida real, em que somos encorajadas a competir umas com as outras, desde muito novas. Consigo identificar essa competição na minha própria vida: com 7 anos eu já me sentia compelida a ser mais bonita para chamar a atenção do garotinho da minha sala, o mesmo garotinho que me chamou de gorda e quebrou meu pequeno coração em pedacinhos. Eu não sabia, naquele momento, que ele era um layout de babaca, minha certeza era que tinha algo errado comigo. Temos essa facilidade de abraçar nossas falhas, somos o erro, filhas de Eva, que mordeu a maçã e cagou tudo, nós somos ensinadas a pedir desculpas por qualquer coisa, antes mesmo de cogitarmos que não estamos erradas e, de novo, inadequadas. Somos isoladas em nossas pequenas ilhas, sem poder confiar umas nas outras, porque a outra pode roubar “nosso homem”. Nossas amizades crescem em cima dessa terra podre de desconfiança e competição, então seguimos soprando a vela da amiga, querendo sobressair como a mais gata na balada (!). Estou chegando aos 30, assim como a maioria das minhas amigas. Percebi há pouco que hoje nos elogiamos de forma sincera e com frequência, e isso não acontecia na adolescência, ainda estávamos naquele triste ciclo vicioso. Percebi como, juntas, somos mais fortes, juntas nos defendemos, nos empoderamos. O feminismo é um lugarzinho mais quente. — Vanessa Grigoletto

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Nunca achei que me encaixava como “feminista”, apesar de concordar com várias idéias propostas por esse movimento, até que li o discurso Chimamanda Ngoiz Adichie e me identifiquei. O feminismo mudou a ideia que eu tinha sobre mim, coisas como o movimento “chega de fiu-fiu”, a aceitação de como eu sou e de que eu posso ser mulher e dizer “não” , coisas simples que me fizeram pensar ” ei, você não está errada” mas, o melhor de tudo foi saber que eu não estou sozinha. — Samara Oliveira

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Na minha vida, o feminismo já era existente e muito presente mesmo sem eu saber direito. Desde muito pequena eu já não aceitava o fato de eu ter que lavar a louça e arrumar minhas coisas e meus primos homens não ou o porque eles tinham roupas e brinquedos considerados “de meninos” e eu não podia ter/brincar. Sem falar da minha infância e adolescência e o sofrimento da não aceitação do meu próprio corpo, eu o detestava e por muitas vezes eu desejei morrer ou ser homem por conta disto. Até que então, por meio de artigos e livros sobre o feminismo a ficha caiu, por completa. Sou eternamente grata por essa descoberta, mesmo que absolutamente óbvia e simples, eu comecei a olhar o mundo por um outro viés, enxergava coisas que antes seriam impossíveis de perceber, o machismo se tornou muito mais claro. Ganhei uma nova expectativa de vida, de que mulheres não estão fadadas a serem donas de casa e nem dependentes de seus maridos ou sequer precisam se casar (realidade de praticamente todas as mulheres da minha família), entendi que sou linda exatamente do jeito que sou e fiz tudo isso sozinha, pois meus familiares são totalmente machistas. Sei que sem o feminismo, eu seria incapaz de compreender o motivo de eu não concordar com várias coisas. Seria incapaz de enxergar o abuso sexual implícito de cada comercial de cerveja, seria incapaz de compreender o porque que a lesbofobia e a homofobia são tão recorrentes no mundo e várias outras coisas que eu apenas percebi depois que entendi que eu já era feminista antes mesmo de saber o que o feminismo significava. — Geovana Silva.

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Respondo logo no início. Mudou para melhor, muito melhor! Sofri violência sexual. Uma marca para a vida. Mas para o meu namorado (hoje ex) foi como se contasse um fato qualquer da vida. E isso doeu. Assim como doeu quando ele disse que gostava de me “desfilar”, porque sou bonita e causaria inveja. Fui um objeto que foi dopado e violentado por um homem, e depois um objeto de exposição para outro. Não queria ser um objeto, não sou coisa pra se mostrar, sou pessoa para respeitar! Cansada disso, o feminismo foi entrando de mansinho, de maneira orgânica na minha vida, mostrando que não sou prêmio para exibição, que não sou obrigada a aceitar as cantadas na rua, a desigualdade, a coisificação. O feminismo me levou a buscar a igualdade, a vencer preconceitos, a perceber a força que eu tenho para mudar. Buscar a igualdade da mulher me fez perceber a sociedade excludente, não somente com a mulher, mas com a cor e opção sexual. O feminismo me fez querer a igualdade da mulher, do negro do LGBT. Me fez entender o que é igualdade e como deve ser. Outro dia mesmo em uma conversa com um homem, quando disse que queremos direitos iguais, ouço em resposta: “mais?” Sim, mais. Quero o direito de sair de casa vestida de moletom ou de shortinho e decote. Quero o direito de ser tratada de forma igual e de ter um salário igual ao dos homens no ambiente de trabalho. Quero o direito de não usar maquiagem porque a mídia diz que preciso. Quero o direito de andar na rua sem ouvir cantadas, sem ser objeto. Quero o direito de me emputecer e estar de mau-humor e não falarem que é TPM. Quero o direito de namorar um homem. E depois uma mulher. E quero o direito de ser respeitada por isso. Quero o direito de transar com quem eu quiser. E não ser desumanizada. Quero o direito de não transar com ninguém, e não ser chamada de puritana. Quero o direito de ser dona de casa por opção. E não ser chamada de Amélia. Quero o direito de ser vista como igual. Quero o direito aos meus direitos. E devo isso ao feminismo. Devo também o fato de nunca mais falar que uma pessoa fraca é “mulherzinha” ou “veadinho”, ou falar que trabalho mal feito é “trabalho de preto”. Devo ao feminismo a perda dos meus preconceitos, dos dogmas pré-concebidos, das ofensas que sempre tratei como uma piada ou brincadeira. Antes não notava o machismo, e hoje é impossível não vê-lo. Não percebia que ele está atrás até do que parece um elogio no ambiente de trabalho, já que o “perfeito, querida, muito bem” não seria “perfeito, querido, muito bem”.  Mas acho que a maior dívida que tenho com o feminismo é a união de todas estas percepções e noções, é a realização da minha força como mulher, o meu empoderamento que segue dia após dia, com a sororidade, que me levou a conhecer muitos feminismos, e todos, mesmo que de forma diferente, buscando a mesma coisa. A IGUALDADE. — Thanee Degasperi

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O meu feminismo não é só meu, é de tod@s. É daquelas que se culpam por não ser  ‘a namorada perfeita’ ou a gostosa do pedaço. É dos homens que oprimem por mero “costume”, do garoto que não quer ser o “macho alfa”, é de HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS, de TOD@S. Meu feminismo é ABERTO, acolhe aos pais, mães, filhos, filhas e qualquer um que deseje uma sociedade mais justa, mais igualitária. O meu feminismo é DIALÉTICO, argumentativo, e cheio de debates questionadores que buscam mudar as estruturas de vida de nossa sociedade. O meu feminismo é LIBERTÁRIO,  removedor de estigmas e conflitos internos que nos amarram à uma imagem, um modo de agir, de pensar, de sentir. O meu feminismo me diz pra ser quem eu sou e não o que os demais querem que eu seja. No meu feminismo, seres humanos são PESSOAS, seu desenvolvimento vai muito além de seu gênero, sexualidade ou genitália. O meu feminismo ensinou-me sobre liberdade, equidade, SORORIDADE: palavra  bonita, diferente, mas que envolve sentimentos que não foram cultivados, até então, em minha vida. Ele me abriu os olhos, a mente e o coração. Mudou minha vida, meu relacionamento com o mundo e comigo mesma, criou laços com diferentes causas e me motivou ao ativismo. Meu feminismo é sobre AMOR… à mim mesma, ao meu corpo, às minhas escolhas e ao meu papel no mundo. É sobre EMPATIA, me faz compreender a dor do meu semelhante, me solidariza com el@, independente de ser algo distante da minha vida. Me faz sentir as amarras das minhas companheiras, por mais que não sejam as mesmas que me prendem. Assim, sinto as dores do parto violento sem nunca ter gestado, a homofobia sem  que eu questione minha sexualidade e o racismo sem que  considere minha cor. O meu feminismo é COLETIVO, em todos os sentidos. Na academia, leva o nome de LivraElas, coletivo feminista dentro da Universidade; na prática me leva às ruas pra reivindicar direitos e conscientizar sobre a revolução. O meu feminismo é REVOLUCIONÁRIO, quebra paradigmas, abala estruturas e construiu internamente o espaço para o florescimento de uma nova flor:  uma nova Florencia. O meu feminismo não é NORMAL, nem meu, nem possui VERDADES. Meu feminismo é só mais uma forma de ver o mundo sem preconceito, limitações ou qualquer coisa que me impeça de ser, naturalmente, EU. No meu feminismo somos livres, somos leves, somos loucas, somos tudo aquilo que queremos ser, ou apenas SERES HUMANOS. — Florencia Guarch
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O feminismo mudou a minha vida por que me disse o óbvio, mas que às vezes é tão difícil de enxergar. Me conscientizou de que não é normal eu ser subjulgada pelo simples fato de ser mulher; que o machismo mata (literalmente); que homens e mulheres são diferentes mas não devem ser desiguais, que o patriarcado ainda está ai, escolhendo as roupas que vestimos, os lugares por onde andamos, as profissões que exercemos, com quem e quando podemos gozar, até os sonhos que podemos (ou não) sonhar. O feminismo mudou  a minha vida ao passo que me deu a missão de mudar essa realidade tão perversa que nos cerca, me conscientizando que todas nós podemos ser uma célula revolucionária por um mundo melhor para as nossas filhas, netas e demais gerações.  — Amanda Carneiro
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O meu feminismo se parece como dar à luz a uma nova personalidade. Com a capacidade de assumir os acontecimentos do passado, iluminar e adotar um sentido que antes não existiam. Lembrando a primeira vez que vi um cara com uma ereção. Eu tinha 12 anos e fui obrigada a vê-lo. Voltava da escola pelos becos de um bairro tranquilo em Buenos Aires e ele me chamou insistentemente do outro lado da rua. O pequeno horror foi suavizado pela minha mãe: “coisas que acontecem”, disse, enquanto eu não parava de chorar. Meu feminismo aparece quando não aceito o assédio como algo normal que irá suceder ad eternum, algo que muitas outras meninas vivenciam e aceitam por que “sempre foi assim”. Então meu feminismo emerge em cada cantinho onde posso desnaturalizar uma injustiça — Florencia Goldsman
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Eu era uma Livia completamente diferente da que eu sou hoje. A minha visão de mundo, desde que me reconheci feminista e comecei a estudar e ler sobre, mudaram completamente. No que diz respeito ao próprio machismo, mas também, ao racismo, ao classicismo, a homofobia. Nunca fui nada disso, mas eu entendi o que é lutar e porque lutar por isso e pra isso. Sigamos a luta. Eles não passarão. — Livia Siqueira
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O feminismo me fez e me faz mais forte a cada dia. Mais forte pra olhar pra mim e perceber quando sou oprimida, mais forte pra olhar pro lado e perceber que minha irmã é oprimida, mais forte pra erguer a cabeça e resistir à opressão: me trouxe a sororidade quando mais precisei. Vivi um relacionamento opressor sem perceber, e não foi fácil conseguir olhar pra mim, pro meu companheiro, e admitir isso; sem o feminismo talvez eu não resistisse tão fortemente, me vitimizasse e aceitasse meu destino de “ser mulher”, aceitasse a natureza do homem e a minha loucura imposta por sua razão, me calasse diante do patriarcado e aprisionasse minha liberdade, que hoje quero plena. Sem o feminismo, eu teria perdido minha essência de ser livre e de ser mulher. — Isadora Laguna Soares
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O feminismo me fez menina, moça, mulher. Me acordou e abriu meu olhos. Parei de olhar pro meu próprio umbigo, e enxerguei o mundo em geral, não só o das mulheres e também de toda a minoria. Me tornei gente e aprendi a ter força e nao me deixa calar. Agradeço sempre por ter conhecido o feminismo. Apesar de ser nova ja sei a importância dele pro mundo. Espero aprender cada vez mais com ele. O feminismo e toda essa luta por igualdade é minha vida. — Enilse Viriato
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Eu conheci o feminismo por meio da minha irmã, após termos uma conturbada discussão com o nosso pai. Depois do calor do momento, fomos conversando, e mencionei que eu e minhas colegas de classe vínhamos passando ( e ainda passamos) por situações machistas. E, depois  do que minha irmã contou, eu me modifiquei e fui percebendo várias coisas. Quero listar duas delas aqui, pois são de suma importância na minha vida:
1- Desde cedo, muitas meninas vão recebendo de presente o mesmo tipo de presente: cor de rosa, que as ensinam a cuidar da casa e blá blá blá. Tipo, mulheres são muito mais que isso, mulheres são independentes, tem autonomia e habilidade para ser muito mais do que uma simples dona de casa. Deviam ensinar isso as nossas meninas.
2-Existe beleza de todas as formas (e mulheres se arrumam para si mesmas, não para agradar os outros) . Muitas revistas de adolescentes têm aquele padrão da garota magérrima, branca.  Alôô! Desde quando é assim? Cada menina é bonita de um jeito, não importa o peso, não importa a cor. Infelizmente, isso não é muito divulgado atualmente. Chega de esteriótipos! — Melissa D’Arienzo
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Entrei de cabeça num relacionamento com um cara bem mais velho, que se mostrou abusivo. Aconteceram tantas coisas ruins e ele me fez tanto mal que passei a falar cada vez menos. Comecei a me fechar, como numa “concha”, como dizia minha mãe – que até tentou me salvar disso, mas eu estava com a autoestima tão baixa, tão carente e tão envolvida que não permiti que ela me ajudasse. Chegou uma hora que parei de falar. Parei. Comecei a travar. Não conseguia mais debater, defender um ponto de vista, colocar minha opinião. Mesmo com a mente fervilhando, mesmo com bons argumentos, eu travava. Suava frio, a pressão baixava e eu não conseguia mais falar. Parecia um pesadelo. E eu fiquei assim por quase 10 anos. (…) Um dia apareceu na tl do meu facebook um convite para a Marcha das Vadias na minha cidade. Atraída pelo nome, fui pesquisar do que se tratava. Meu coração começou a bater forte, me fazia lembrar os protestos que eu organizava na adolescência. Chamei várias amigas para irem comigo, mas nenhuma aceitou. No dia da Marcha, não tinha com quem deixar minha filha nem uma amiga com quem ir. Pensei em desistir, mas refletindo percebi que tinha na minha filha de apenas 8 meses a melhor companhia que eu poderia desejar. Coloquei ela no carrinho e fui para a concentração. Ver todas aquelas moças empoderadas, gritando frases feministas, fazendo cartazes… aquilo tudo mexeu demais comigo. Foi ali que me dei conta de que eu era feminista, de que eu sou feminista! Muitas delas vieram conversar comigo, trocamos ideias sobre o feminismo, mas mais ouvi do que falei. Além de ainda estar travada, estava emocionada demais pra conseguir dizer muito. A hora do almoço se aproximava e a marcha propriamente dita não começava. Comecei a ficar aflita porque não queria ir embora, queria fazer parte daquilo ali, mas precisava fazer o almoço da minha filha. Vendo que não tinha como ficar mais, decidi ir embora com um cartaz pregado no carrinho dela e andar bem devagar. “Por um mundo onde minha filha seja livre”, escrevi numa cartolina. Fiquei mais um pouco e então comecei minha marcha simbólica e silenciosa. Nossa marcha. As pessoas olhavam curiosas, me paravam para perguntar do que se tratava, pediam para fotografar. E então começaram a me rodear, pra saber mais. E eu comecei a falar. Comecei a explicar, a dizer, a debater, a rebater. Só me dei conta disso quando já estava chegando perto de casa. Eu tinha falado pra várias pessoas o que eu penso, sinto, falado sobre o que eu acredito. Eu tinha falado. Não conseguia acreditar. Fui cuidar da comida e da Olívia, só à noite consegui sentar no computador para ver as notícias e os comentários sobre a Marcha. Pra minha surpresa, a foto do cartaz no carrinho estava em diversos grupos, páginas e blogs. Pessoas diferentes fotografaram e publicaram a foto, que foi compartilhada com frases muito bacanas. Aquilo me emocionou demais e me encheu de uma esperança absurda, coisa que eu não sentia há tanto tempo que não sabia quanto. Se eu tinha medo pela minha filha, agora também tinha esperança e começava a ter coragem pra lutar e tentar mudar as coisas. Porque eu podia sim me unir a outras mulheres e lutar por um mundo melhor pra todas nós. A partir dali, as coisas mudaram muito. Eu voltei a falar e me posicionar e, claro, isso não passou despercebido. As pessoas ficaram muito surpresas e até assustadas com essa “nova” atitude, não compreendiam. Passei a ser tratada com hostilidade e agressividade, inclusive por familiares, que me viam como uma feminista louca e histérica. Foi tão opressor que a coragem foi sumindo, comecei a me sentir desanimada e com medo de viver um novo inferno. Eu estava quase desistindo dessa minha voz quando no espaço de apenas uma semana presenciei três episódios de violência contra mulheres nos quais pude de alguma forma interferir e até ajudar. Entendi que não tinha mais como voltar atrás e me calar, não dava pra desistir da minha voz e do feminismo. Por mim, por minha filha e pelas outras mulheres. Decidi então escrever um longo post no Facebook sobre isso e pedi a todos meus contatos que lessem. Entre muitas coisas, escrevi: “Deixei que me silenciassem uma vez, mas isso não vai acontecer de novo. Se você não concorda com o que digo ou escrevo, sinta-se à vontade para se afastar, me tirar do seu feed ou me deletar. Eu não vou parar de falar”. Amizades se desfizeram, mas por incrível que pareça as coisas só melhoraram a partir dali. O feminismo devolveu minha voz, e junto com ela parte do que eu sou, da minha essência. Me devolveu a esperança, a coragem e a força pra lutar por aquilo que acredito. Um mês depois da Marcha, com apenas 9 meses, minha filha começou a falar. Achei simbólico. Uma das primeiras coisas que ensinei ela a dizer foi: não é não. E agora, com o feminismo, espero ajuda-la a jamais se fazer silenciar. — Ana Barcellos
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Quando um amigo me deu o livro que abordava a temática do feminismo, jamais poderia imaginar a bomba que colocava em minhas mãos. A leitura lenta, preguiçosa, a princípio se mostrava só como um interesse meramente didático. Decidi, com o tempo, pesquisar mais, afinal, uma semente tinha sido brotada. Curti algumas páginas no facebook e comecei a ler todo o material que aparecia e foi assim que o feminismo mudou de lado, cá na cuca. E do interesse histórico/pedagógico, foi surgindo uma dúvida aqui, uma crítica ali e então, percebi, que eu já estava absurdamente envolvida com essa causa que é minha, só esteve amortecida todo esse tempo. — Jacqueline Lino Cavalcante
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​O meu feminismo despertou a busca por novas ideias. Ideias contrarias as de que cresci sonhando. Sonhava em casar, ter filhos, me dedicar ao marido. Com o amadurecimento, já a partir de 30 me deparei com outra realidade. 1°) E se eu não quiser ter filhos?​ A reposta da sociedade quase unanime: toda mulher precisa ter filhos. 2°) E se eu quiser me separar? A reposta da sociedade era sempre você precisa mudar seu pensamento, pois sua vida de casada é ótima, com todo mundo é assim mesmo. Em fim: porque não ser independente, ter sonhos diferentes, buscar minha felicidade trabalhando só pra mim, com tempo pra fazer tudo como quero, na hora em que quero. Sem compromisso com filhos ou marido, dedicando meu amor ao que eu realmente gosto? Daí descobri há apenas dois anos: SOU FEMINISTA. Me reconheci, e procuro acompanhar o estilo de vida de quem também é assim. Resultado: estou feliz! — Debinha
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natachacortez_

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A violência contra as mulheres na internet é um grave questão, com reais consequências na vida offline. Já falamos sobre isso aqui mesmo na OLGA quando entrevistamos Marta Trzcinska, advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres. “É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime”, afirmou Marta sobre as práticas de assédio no ambiente virtual. Para o youPix 2014, montamos uma mesa com especialistas sobre o tema. Uma delas era Nana Queiroz, que criou a campanha Não Mereço Ser Estuprada e, mesmo assim, recebeu ameaças. “Uma delas dizia ‘prepara o Hipoglós! Vou meter meu pau tão forte em você que minhas bolas vão sair pela sua boca'”, conta. O usuário foi denunciado por Nana para a Polícia Federal e, ao ser localizado pelas autoridades, disse: “o problema é que ela não tem nenhum humor”.

Violência e assédio online é costumeiramente visto como “brincadeira”, “piada”. Não é. Esses abusos afastam as mulheres de suas atividades — por medo, por vergonha — e as isolam do seu direito de livre expressão. E apesar da internet ser sim um espaço belicoso para todos que a navegam, há uma enorme diferença na forma com que homens e mulheres são atingidos por essa questão problemática. Em 2006, pesquisadores da Universidade de Maryland criaram vários perfis falsos em salas de bate-papo. Usuários com nomes femininos receberam, em média, 100 mensagens violentas e de cunho sexual por dia. Usuários com nomes masculinos, apenas 3,7.

O próprio youPix publicou ontem, quarta (7), a matéria Ofensas, machismo e estereótipos: a difícil vida das mulheres no YouTube com os variados tipos de abordagem que as internautas recebem. Anita Sarkeesian e Caroline Criado Perez viraram vítimas cujos casos chamou a atenção do mundo todo. Ambas receberam ameaças de estupro e até de morte por simplesmente se proporem a criar projetos feministas. A primeira gravou programas no YouTube para falar sobre as características machistas dos videogames. A segunda criou uma campanha para que o Bank of England colocasse uma figura feminina em uma das notas de Libra.

No entanto, as mulheres nem precisam ser autoras de projetos feministas para virarem alvos de agressão. Qualquer exposição na net pode resultar em xingamentos, críticas tresloucadas à aparência e, claro, nos mais variados assédios sexuais. Lauren Mayberry, da banda escocesa Chvrches, escreveu um depoimento para o The Guardian sobre a ocasião quando, pela página oficial da banda, tentou abordar o assunto das mensagens sexistas e inconvenientes direcionadas a ela. O que Lauren escutou de volta foram coisas como “Isso não é cultura do estupro. Você vai saber o que é cultura do estupro quando eu estiver te estuprando, vagabunda” e “Sei o endereço da sua casa e vou passar aí para comer sua bunda e você vai amar, sua safada”.

Essa reação ainda mais violenta à uma denuncia não é novidade e já foi até cunhada de a Lei de Watson: “cada vez que você denuncia a violência [de gênero], ela se intensifica”. O mandamento ganhou o sobrenome de Rebecca Watson, que foi ao Twitter reclamar de uma cantada inadequada que recebeu durante uma convenção de ateus e virou vítima de ofensas descomedidas. Até o famoso biólogo evolutivo e ateu praticante Richard Dawkins entrou na briga e, em tom sarcástico, desdenhou da experiência machista que Rebecca viveu.

O custo para a sociedade é imenso: a brutalidade online mina a dignidade das mulheres, deslegitima suas vozes como cidadãs e as reduzem a corpos sexualizados e objetificados. Isso as afasta de discussões online e suprime suas opiniões e contribuições para a sociedade, seja um blog de conteúdo feminista, seja um vlog de moda ou dieta. E apesar da gravidade do problema, ele ainda não é levado a sério pelas empresas de redes socais, a polícia e o poder público.

Hoje, 7 de agosto, é o 8o aniversário da Lei Maria da Penha. Ela foi uma tremenda vitória feminina, mas que trata somente da violência doméstica e familiar, deixando de lado outras formas de abuso que vitimam mulheres. Nesse leque ainda não contemplado pelo poder público estão, entre eles, o feminicídio (o Ministério Público de São Paulo lançará campanha para que o senado inclua o crime no código penal), o assédio sexual (que o código penal enquadra como crime apenas no ambiente de trabalho, ignorando o local público) e a violência online. Esta última encontra dificuldade de ser vista como tal até mesmo pelas próprias empresas de redes sociais, os novos palcos de linchamentos de minorias. Não é clara, por exemplo, a estratégia de combate à misoginia do Facebook, plataforma que agrega muitas páginas sexistas e até mesmo criminosas. Quando denunciadas, a empresa envia comunicados automáticos, às vezes em questões de segundos, negando a retirada do conteúdo. Só as derruba, enfim, quando as denúncias são feitas em massa — tática também utilizada por machistas para tirar páginas feministas. O Twitter também é tão leviano quando se trata dessas questões que, mesmo após as mais violentas denúncias de machismo online, achou por bem, no fim do ano passado, rever a sua política do botão block. Ou seja, as pessoas bloqueadas ainda poderiam ler a timeline do usuário que as bloqueou. A resolução foi revertida em questão de dias, mas tratou-se de uma afronta às feministas que, por anos, tornam pública e conhecida a violência que ali vivem.

Enquanto as autoridades não tomam uma atitude, as mulheres podem se unir para revidar. Em primeiro lugar, saiba como agir se você for vítima de violência online. E, se vir alguém sofrendo essa violência em algum lugar da internet, junte-se, instrua, explique e, de maneira alguma, encare isso como algo que nunca poderá ser mudado.

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Arte: Natacha Côrtez

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Em junho, o Google lançou uma série de programas para incentivar as mulheres a aprenderem computação. Houve distribuição de cursos grátis na Code School para a ala feminina e a iniciativa Made With Code, voltada para meninas, com o objetivo de mostrar a elas que é possível fazer o que mais gostam — de pulseiras a aplicativos, passando por filmes e smartphones — por meio da programação. Somente neste último projeto, o Google está investindo 50 milhões de dólares nos próximos três anos. Incrível! Mas, peraí, por que o Google subitamente está tão interessado nas mulheres?

A justificativa é bonita. “Não é segredo que a diversidade não é o forte da comunidade da tecnologia, e nós estamos sempre atrás de oportunidades que ajudem a mudar isso. Hoje, um quarto das vagas de Tecnologia de Informação são de mulheres, e mulheres negras representam apenas 3% das cientistas e engenheiras. A situação é clara: temos um longo percurso a seguir para criar uma comunidade mais diversa, aberta e inclusiva”, disse o Google.

Talvez o Google tenha reparado que a porcentagem de mulheres nas turmas de ciência da computação e na área de tecnologia seja ridícula (inclusive na própria empresa), ou tenha reconhecido que mulheres podem ser tão boas, ou até melhores, que homens na tecnologia, a exemplo de algumas mulheres inspiradoras como Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook), Marissa Mayer (executiva-chefe do Yahoo!) ou Virginia Rometty (presidente da IBM).

Fato é que sim, nós estamos em menor número na computação e isso é absurdo. Segundo o Censo 2010, o último levantamento do IBGE com essas informações, as mulheres representam apenas um quarto das 520 mil pessoas que trabalham com computação no Brasil. Para piorar, de acordo com o mesmo senso, o salário médio das mulheres no setor de TI é 34% menor do que o dos homens, e, nos cargos de chefia, elas ganhavam 65% a menos!

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A explicação para isso está relacionada ao motivo pelo qual as mulheres ficaram ao largo do desenvolvimento da ciência e da tecnologia até agora. Vejamos o que aconteceu com a ciência como um todo até aqui. Quantas mulheres engenheiras ou cientistas você pode citar agora sem pestanejar? Imagino que poucas, na maioria dos casos. É que historicamente as mulheres não se vincularam à tecnologia e à ciência por questões sociais. Esperava-se que as mulheres cuidassem da família e, como “procriadoras”, estivessem sempre ligadas à maternidade, que sempre foi pintada de cor-de-rosa, diga-se.

A figura feminina sempre esteve relacionada com o artístico, artesanal, o delicado — valores estigmatizados em gêneros. Essa ideia pode parecer distante para você agora, mas já parou para reparar o que sua sobrinha está ganhando de Natal em comparação ao seu sobrinho, por exemplo? Possivelmente um ferro de passar de plástico, uma cozinha equipada de brinquedo ou bonecas. E o menino com seus legos, pistas de corrida e videogames. Quem está sendo estimulado a quê?

Há um ótimo vídeo que fala sobre por que os pais deveriam estimular suas filhas a serem mais do que bonitas: basicamente porque 66% das meninas no Ensino Fundamental dizem que gostam de matemática e ciência, mas apenas 18% das engenheiras são mulheres nos Estados Unidos.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Esse problema tem a ver com a criação dos filhos, mas não é só isso. Em 2013, pesquisadores da Universidade de Yale publicaram um estudo dizendo que físicos, químicos e biólogos tendem a ver de uma forma mais favorável os homens do que as mulheres quando os dois grupos têm as mesmas qualificações. Meg Urry, diretora do centro de Astronomia e Astrofísica de Yale, disse que vê muitas mulheres deixando a Física não por não serem talentosas o bastante, mas por causa do desencorajamento de se sentir “menosprezada, desconfortável e de encontrar barreiras no caminho para o sucesso”.

Meg também diz que as mulheres não aprenderam a se gabar dos seus feitos como os homens, tendem a internalizar fracassos enquanto os homens colocam a culpa em alguém e são socializadas a reagir aos outros e considerar suas ideias sempre. “Não pergunte o que nós pensamos, não tente formar consenso. Apenas bata na mesa e nos diga o que fazer”, disse um colega certa vez a Meg. Mas muitas mulheres não foram educadas a se comportar dessa maneira ou não gostam de agir assim, seja por motivos de personalidade ou por serem julgadas quando o fazem (homens são “assertivos”, mulheres são “vacas”).

O resultado? Apenas um quarto dos físicos com PhD nos EUA são mulheres, apenas 14% dos professores de Física do país são mulheres, e o número cai vertiginosamente quando se considera hispânicas ou negras. No Brasil não é diferente: segundo um levantamento feito pelo GLOBO, dos 112 jovens cientistas eleitos membros afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) apenas 29 são mulheres. A situação fica ainda mais assustadora quando se considera que o número de cientistas mulheres é praticamente o mesmo que de homens, segundo o CNPq.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa, Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio Loreal/Unesco ano passado, viveu esse problema na pele e aponta uma causa principal: as características da carreira, como viajar bastante (a responsabilidade pelos filhos novamente cai sobre nossos ombros) e a necessidade de ser agressiva, o que nem sempre combina com o perfil das cientistas. Márcia também acha que a imagem da profissão torna a carreira desinteressante para as meninas, é passada uma ideia de que cientistas são nerds sem vida social, o que não é verdade.

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É válido aqui evocar Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo: “A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: a biologia, psicologia experimental, etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo a ‘igualdade dentro da diferença’. Essa fórmula, que fez fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizaram em relação aos negros dos EUA as leis de Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações”. Ou ninguém aqui ouviu falar das pesquisas que falam sobre as diferenças entre o ‘cérebro masculino’ e o ‘cérebro feminino'”?

Acontece uma situação muito parecida com a programação — e saber programar é MUITO importante no mundo em que vivemos. Se até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que programação deveria ser ensinada nas escolas, e Sandberg deixou bem claro que essa habilidade está se tornando cada vez mais necessária no mundo de hoje, está na hora de incentivar as meninas a serem programadoras de suas próprias vidas.

Quer mais um motivo? Porque os programadores são conhecidos por programar soluções para eles mesmos. Ou seja, se apenas homens estiverem no comando da tecnologia, veremos muito menos resoluções de problemas que atingem as mulheres – que já são muitos, convenhamos.

Manter a noção de que mulheres não tem a ver com as Ciências Exatas é uma tradição problemática que não apenas está excluindo as mulheres da elaboração do futuro como também está desperdiçando talentos. Exemplos são os maiores poderes de influência, e a tendência é que quanto mais mulheres trabalharem com tecnologia, mais meninas serão encorajadas a irem atrás de seus interesses na área. Por isso, uma boa forma de mudar padrões comportamentais é esclarecer e insistir que existe outro caminho, que outras pessoas conseguiram, que temos modelos para inspiração.

Podemos começar pelo Brasil. Claudia Melo, Ph.D. em Ciência da Computação, trabalha com  projetos de desenvolvimento de software há 15 anos e hoje é Diretora de Tecnologia da ThoughtWorks Brasil. Camila Achutti, com apenas 22 anos, é diretora nacional do Technovation Challenge Brasil, uma iniciativa apoiada pelo Google para incentivar meninas a serem empreendedoras da tecnologia, e fundadora do Mulheres na Computação, um site de apoio, incentivo e difusão da participação feminina no mundo da tecnologia. Luciana Fujii Pontello, entusiasta e usuária de software livre desde 2003 e desenvolvedora de software na GNOME.

Para as mais novas, temos as meninas do For You, aplicativo de combate ao slut shaming, que, ainda no Ensino Médio orientadas por Juliana Monteiro, usaram a tecnologia para solucionar um problema comum no colégio, o vazamento de fotos íntimas e consequente bullying contra as vítimas. Quer mais? Tome Luana Lara Lopes, bailarina de 18 anos do Teatro Bolshoi, que vai estudar Engenharia no MIT com o objetivo de criar robôs com movimentos tão delicados quanto os da dança.

A programação é o ingrediente para cada site, software, jogo e produto digital. Sabemos que não há outro caminho além do da tecnologia, com um futuro à nossa frente bordado com miniaturização dos chips, aliados à conectividade da internet em todo tipo de objeto cotidiano. Se as mulheres não começarem a cavar seu espaço agora, ficaremos ao largo na história mais uma vez. Os homens ainda são maioria nos cursos de engenharia e ciência da computação, mas as mulheres estão provando que programação também é coisa de mulher, oras. Está na hora de acabar com o estereótipo de programador homem, nerd e sem vida social. Entre tantos outros avanços, conquistamos — muito recentemente — o voto, direito ao divórcio e a pílula anticoncepcional… Agora é a vez de usar a programação em prol do empoderamento das mulheres.

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 Para quem se empolgou com a ideia, aí vão algumas dicas:

Codecademy, uma instituição educacional que te ensina a programar de uma maneira fácil, grátis, em português e de casa.

– O projeto Scratch, do MIT, disponível no nosso maravilhoso português brasileiro,  permite ao usuário fazer seus projetos online sem precisar baixar outros programas e sem exigir conhecimento da linguagem de programação.

– Se você fala em inglês, pode se engraçar com a Made With Code, do Google, uma iniciativa cheia de projetos, eventos e comunidades para você participar e aprender a amar a programação.

– A fofa Try Ruby, além de ser uma graça, tem tutoriais e exercícios para te ensinar a programar, mas só está disponível em inglês 🙁

– Quer um abraço, uma palavra de conforto, um “vai lá que cê consegue”? Fala com a comunidade das Mulheres na Computação.

– Conheça o MariaLab,  um espaço mais receptivo às mulheres na área de ciência e tecnologia. Mulheres de fora da área, que queiram conhecer mais sobre tecnologia, podem começar, ali, seus estudos e trocas sem medo. O projeto ainda está em construção, mas vale iniciar contato com suas criadoras.

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As ilustrações foram feitas especialmente para este post por Vanessa Kinoshita. <3

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soccer 2

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É 2014, ano de Copa de Mundo no Brasil, ano em que finalmente o racismo começa a ser tratado com a devida atenção no futebol. Infelizmente, ainda não se pode dizer o mesmo sobre a misoginia, o machismo e o androcentrismo. E o futebol sabe transitar entre estes últimos três como poucos (sem falar na homofobia).
Há oito anos, comecei minha trajetória como jornalista esportiva. Já passei por estádios onde não havia banheiro feminino, já ouvi torcidas de cidades do interior me chamarem de nomes nada legais apenas por eu ser a única mulher com um microfone na mão à beira do campo, já deixei de fazer uma cobertura no exterior aos 20 e poucos anos porque acharam que eu “não saberia me virar” (Oi? Eu viajo sozinha pelo mundo desde os 16).
Nos últimos tempos, acabei me voltando também para o uso das redes sociais e as estratégias digitais no futebol. Sempre usei a Heineken como um ótimo exemplo de criatividade para ações que unem on e offline. Estava indo bem, a Heineken. Até esta semana. A marca de cerveja lançou uma campanha em conjunto com a Shoestock para fazer uma liquidação de sapatos exatamente na hora da final da Champions League, que acontece neste sábado, na pegada “uhu, vamos ajudar sua mulher a te deixar livrinho para o jogo”.
Os pressupostos dos quais partem essa campanha são todos de chorar, a começar pela assunção de que “sua mulher não gosta de futebol”. Pode ser que não fosse permitido a ela desenvolver esse gosto (assim como pela engenharia e pela calça comprida) lá em 1950, mas a campanha foi lançada nesta semana, mesmo. 2014.
Nestes anos de trabalho com futebol e automobilismo, sempre senti que faltava, para mim, um espaço onde eu pudesse falar sobre estas experiências (são normais? Como lidar?), onde eu pudesse conhecer outras mulheres que passam pelo mesmo que eu e compartilham a paixão por futebol. É muito comum o estado de negação. Passei bons anos achando que “não, imagina, eu nunca tinha passado por nenhuma experiência de machismo”. Aham. Foi só o tempo e um pouco mais de maturidade que me fizeram enxergar, para poder lidar de uma forma mais realista e mais proveitosa.
Pensando nisso, em conjunto com as mulheres incríveis da Casa de Lua, é que resolvemos promover a roda de conversa “Mulheres no Futebol: jogando, torcendo, cobrindo” na próxima segunda-feira, dia 26, às 20h lá mesmo na casa (Rua Engenheiro Francisco de Azevedo, 216, metrô Vila Madalena – São Paulo). Você pode confirmar presença e chamar mais gente através do evento no Facebook.
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Vanessa Ruiz é jornalista com passagens por rádio, revista e web, sempre transitando entre o Esporte e temas transversais. 

Arte: Mark Brooks e Nayara Perone
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olga 01

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Numa quinta-feira chocha de abril, daquelas que nada prometem, navegava despretensiosamente por um site de notícias, quando me deparei com a propaganda de um evento intitulado “Mulheres Líderes: Evolução e Perspectivas no Mercado Brasileiro”. Não havia uma descrição muito detalhada, mas dizia o anúncio que a sede de uma organização internacional sem fins lucrativos, chamada Women in Latin America Leadership – W.I.L.L., seria inaugurada em São Paulo naquele dia. O que mais me chamou a atenção, confesso, foi a participação confirmada de uma das mulheres mais proeminentes do cenário empresarial brasileiro: Luiza Trajano, fundadora da rede de varejo Magazine Luiza. Na mesma hora me inscrevi, e não deu outra. Ao lado da embaixadora Maria Celina Rodrigues e da jornalista Mônica Waldvogel, Luiza conquistou o público – formado não só por mulheres, mas por homens também – com sua informalidade inteligentíssima. Aproveitou para destacar as iniciativas pró-mulheres de classes mais baixas da sua empresa e colocou em debate um tema muito importante, mas ainda pouco discutido: as controversas cotas para mulheres em conselhos administrativos de empresas. “Quando um executivo completa 60 anos, é chamado para integrar os conselhos. Já as mulheres da mesma idade se aposentam ou são mandadas embora”, reclamou.

 

“As cotas são um processo transitório para acertar uma desigualdade histórica.” – Luiza Trajano, presidente da Magazine Luiza

 

Em meio a opiniões apaixonadas e ponderadas sobre o assunto, ouvi também descrições de trajetórias incríveis, de mulheres que seguiram crescendo em ambientes essencialmente masculinos e chegaram a assumir cargos executivos de empresas em que os funcionários são predominantemente homens. Andrea Alvares, por exemplo, assumiu aos 28 anos a diretoria geral da unidade de Snacks da Pepsico no Brasil, se tornando a primeira diretora mulher da empresa. Já Elisabeth Farina, presidente da ÚNICA (União da Indústria de Cana de Açúcar), estudou Economia numa classe em que as mulheres ainda representavam apenas 20% da turma e foi uma das poucas a fazer parte do seu corpo acadêmico.

É verdade que o movimento feminista proporcionou muitos avanços na vida das mulheres nas últimas décadas, inclusive o aumento daquelas que ingressam em universidades no mundo todo: o número cresceu mais de 50% desde 1980 – na América Latina e Caribe, para cada 100 homens, há 127 mulheres que entram no ensino superior. Porém, ainda existe uma quebra muito grande quando chega o momento de ela ingressar no mercado de trabalho: apenas 19% das mulheres graduadas de fato são empregadas. É uma perda trágica para a economia, e as causas são as mais diversas – algumas vezes, é uma escolha das próprias mulheres, muitas delas ainda habituadas às velhas convenções sociais.

 

“Quem educa uma menina, educa uma nação” – Slogan da campanha da Unicef para o Dia Internacional das Meninas, celebrado pela ONU

 

Mesmo para aquelas que ingressam no mercado de trabalho, a pressão social permanece estarrecedora. A economista americana Sylvia Hewlett, professora da Universidade de Columbia, descobriu, por exemplo, que, ainda hoje, quanto mais bem-sucedido for o homem, maior a probabilidade de ele se casar e ter filhos – sendo que com as mulheres ocorre o oposto. A falta de tempo de uma executiva para uma relação afetiva não é bem vista pelos homens, enquanto muitas mulheres ainda aceitam operar como apoio à carreira masculina, mesmo que elas tenham aspirações profissionais maiores. O resultado: 40% das executivas bem-sucedidas no trabalho não têm filhos, ante apenas 19% dos homens.

A associação entre ter sucesso e abdicar da vida pessoal faz com que muitas mulheres optem por não crescer profissionalmente, o que colabora indiretamente para que apenas 7% das mulheres latino-americanas ocupem as tão visadas cadeiras dos conselhos administrativos das empresas – o topo das posições de comando –, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Não à toa, muitas mulheres influentes, como Luiza Trajano, levantam a bandeira das cotas em conselhos. Essa participação feminina limitada motivou, em 2010, a criação de um projeto de lei que prevê o estabelecimento de cotas gradativas para mulheres – 10% em 2016, 20% em 2018, 30% em 2020 e 40% em 2022.

 

“Cota não é sinônimo de incompetência” – Irene Natividad, presidente da Corporate Women Directors International

 

De autoria da senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE), o projeto defende que o porcentual mínimo de mulheres em conselhos de administração seja obrigatório no serviço público (empresas estatais e de economia mista) e opcional nas empresas privadas. Ele já passou pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado e chegou a ser discutido na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas ainda precisa de ajustes antes que possa ser apreciado pelas duas Casas do Congresso Nacional. Como impasse adicional, a proposta também envolve diversos conflitos de interesses, como toda discussão sobre a adoção de cotas como medida paliativa de incentivo à inserção de grupos minoritários em ambientes historicamente pouco acessíveis. Nesse caso, mesmo algumas feministas, defensoras dos direitos das mulheres, são contra a iniciativa. Para clarear um pouco essas opiniões, selecionei abaixo alguns pontos levantados pelos críticos ao projeto, rebatidos por aqueles que são a favor:

CONTRA

– As cotas são uma interferência indevida do governo na liberdade das empresas decidirem por quem serão dirigidas. – As cotas obrigam as companhias a se livrarem de conselheiros competentes e experientes para dar lugar a pessoas menos qualificadas.

– O crescimento e desenvolvimento das mulheres deve vir por demanda e mérito e não por imposição de uma lei.

– As cotas têm efeito limitado no ambiente de trabalho das empresas: as conselheiras não participariam do dia a dia dos negócios.

– A participação ínfima das mulheres nos conselhos reflete seu número reduzido em cargos executivos, e as empresas buscam conselheiros experientes.

– As empresas teriam problemas hoje para preencher cotas em conselhos, pois não estão preparadas, não recrutaram mulheres pensando nisso.

A FAVOR

– A legislação pode melhorar o atual processo de seleção de pessoas – que costuma replicar e perpetuar as iniquidades existentes.

– Já existem conselheiros profissionais, que são treinados para o cargo e sem experiência efetiva de gestão. Mesmo entre aqueles experientes nem todos são de fato bons.

– As cotas são uma forma de corrigir uma desigualdade no topo das empresas e permitir às mulheres alcançarem postos de liderança mais rapidamente.

– A presença de mulheres no “topo” ajuda a quebrar estereótipos e convencer o resto da pirâmide corporativa de que elas podem ser boas líderes.

– Muitas empresas já reconhecem que a diversidade de gênero nos conselhos amplia as perspectivas e os ângulos dos quais os problemas são analisados.

– As empresas vão precisar sair à caça de mulheres com qualificação e capacidade de liderança, e perceberão que elas sempre existiram.

 

“Somos agregadoras e conciliadoras. Precisamos compartilhar mais nossas habilidades e ser mais participativas” – Chieko Aoki, fundadora e presidente da Blue Tree Hotels, eleita pela Forbesuma das executivas mais poderosas do Brasil

 

Experiências no exterior também contam a favor da iniciativa:

– Em 1993, Israel foi pioneiro ao estabelecer que 30% dos cargos de conselho de administração fossem ocupados por mulheres.

– Em 2003, a Noruega obrigou empresas públicas e privadas de capital aberto a ocuparem 40% dos assentos de seus conselhos com mulheres em até 5 anos.

– Em 2007, a Espanha estabeleceu um prazo de oito anos para que as companhias pudessem se adaptar a uma política semelhante.

– Em 2011, foi a vez da França, que passou a exigir não só a reserva de cotas, mas também a paridade salarial entre homens e mulheres.

– No mesmo ano, a Bélgica determinou que as companhias deveriam ocupar um terço de assentos em conselhos por mulheres até 2017.

– A mesma regra foi estabelecida na Holanda e na Itália, com um prazo de adaptação das companhias à regra até 2015.

– Outros países passaram a adotar o sistema em estatais, tais como: Dinamarca, Finlândia, Austrália e Islândia.

 

“Não deveria haver tanta testosterona em uma sala onde decisões importantes são tomadas” – Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI

 

Quando a Noruega adotou lei semelhante, os críticos diziam que as empresas não conseguiriam encontrar profissionais com talento ou experiência para preencher as cotas femininas, ficariam sem rumo e perderiam produtividade, o PIB encolheria e o nível de emprego cairia. Na época, a média de presença de mulheres era de 7%. Das 611 empresas sujeitas às novas regras, 470 não tinham nenhuma mulher em seu corpo de diretores. Quase uma década depois da aprovação das cotas, as previsões de um cataclismo corporativo não se confirmaram. Em meio à crise econômica, a Noruega vai surpreendentemente bem – o PIB do país cresce mais do que o brasileiro.

Essas constatações não só fizeram a Noruega se tornar um exemplo para outros europeus na adoção de cotas para as mulheres no topo das empresas, mas também arrastaram o país para o centro de um acalorado debate sobre o papel que a União Europeia (UE) deve desempenhar no tema. Em 2012, a Comissão Europeia propôs uma Diretiva que estabelece que todas as companhias abertas nos países membros com ações listadas em Bolsa de Valores e que possuam mais de 250 trabalhadores devem destinar 40% dos assentos em conselhos de administração para mulheres até 2020. O Parlamento europeu aprovou a proposta de Diretiva no final de 2013, por 459 votos a 148.

 

“Precisamos mudar a ideia geral de composição de família: as mulheres devem entrar no mercado de trabalho, e os homens devem entrar em casa também!” – Marise Barroso, presidente da Masisa

 

Uma pesquisa da McKinsey & Co. mostra ainda que companhias que contam com mulheres no comitê executivo apresentam resultados melhores: a média de retorno sobre o patrimônio líquido das empresas com presença feminina no comitê foi, em 2011, 44% superior à daquelas que contam apenas com a participação de homens. Entre executivos e CEOs ouvidos pela consultoria, 60% acreditam que as mulheres fazem a diferença na performance das empresas, graças à sua capacidade de inspirar e motivar equipes, além de desenvolver pessoas e criar um bom ambiente de trabalho. Com elas no comando, as empresas acessam um banco maior de talentos, agregam diferentes opiniões e percepções para os debates e colaboram com uma reflexão melhor a respeito do processo de tomada de decisões pelos consumidores.

Com tantos dados, tendo a acreditar que uma lei nesse sentido possa ser um empurrão necessário para que as mais empresas apostem nas mulheres de forma mais imediata. Somado a isso, claro, deve haver uma conscientização para que as empresas de fato incorporem processos e programas voltados para a equidade – de recrutamento e desenvolvimento. Seria imprescindível estabelecer um plano de carreira para aumentar o número de mulheres em cargos de gerência, cada vez mais preparadas para atuar como conselheiras, mas dando a elas flexibilidade de horários, capacitação por meio de modelos de liderança, orientação para gestão de tempo e networking. Além disso, as próprias mulheres devem confiar mais em si, para tomar melhores decisões e realizar negociações mais justas. Elas devem assumir a responsabilidade pelo seu crescimento e aproveitar aquilo que têm de melhor.

Em tempo: Nunca aspirei uma carreira corporativa, nem imaginava um dia estar aqui escrevendo sobre esse tema tão distante da minha realidade. Sou apaixonada mesmo é pelo terceiro setor, mas, por incrível que pareça, foi ele quem me aproximou dessa área de negócios. Recentemente, assumi parte de um projeto de carreira cujo objetivo é essencialmente orientar, informar e inspirar jovens profissionais – o que me fez conhecer mais a fundo esse mundo tão injusto com as mulheres – como tantos outros. Desde então, meu esforço quase diário é me aproximar de lideranças femininas que possam servir de exemplo e dar dicas para aquelas que ainda estão começando na vida profissional e aspiram uma carreira corporativa.

Se você também gostou do tema e quer saber mais das discussões que estão rolando sobre mulheres em cargos de liderança, indico fortemente o livro Lean In, da COO do Facebook, Sheryl Sandberg – um belo manifesto a favor das mulheres que querem ascender nas corporações. E outros dois livros que trazem insights interessantes sobre por que muitas vezes as próprias mulheres impõem obstáculos à sua carreira e dão dicas sobre como valorizar mais seu trabalho e negociar melhores cargos e salários: Women Don’t Ask: The High Cost of Avoiding Negotiation and Positive Strategies for Change e Ask for It! How Women Can Use the Power of Negotiation to Get What They Really Want – ambos das autoras Linda Babcock e Sara Lascherver. Boa leitura!


Cecília Araújo estudou Comunicação Social na UFMG e em, São Paulo, se especializou em Jornalismo Literário. Na época, pensava em escrever sobre cultura em revista, mas acabou se tornando repórter de internacional. Foi nas viagens e entrevistas que descobriu sua paixão por direitos humanos e a internet. No ano passado, largou a redação para mergulhar no terceiro setor. Fez um curso de Negócios Sociais no Yunus Social Business Center no Brasil e hoje é responsável pela reformulação do Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, que em breve estará de cara nova – e com mais mulheres líderes representadas!

Colagem: Mariano Peccinetti

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