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Toda essa discussão sobre o feminismo ou não feminismo da Beyoncé (que precede a apresentação no VMA do último domingo, mas se intensificou depois) me deixa com muita preguiça — ideologia não se fiscaliza, não tem manual de regras rígidas. Tentar impor o que o feminismo deveria ou não deveria ser já contradiz a minha própria ideia de feminismo. 

 
Salvo alguns poucos debates respeitosos e construtivos, parece que a maioria dos argumentos contra Beyoncé é tão desavisado que, na melhor das hipóteses, soam bastante ingênuos.

 
Mas mais do que com preguiça, uma parte dessa discussão me deixa mesmo é furiosa: é por conta de equívocos semânticos/políticos/ideológicos como esses que eu mesma demorei tanto tempo para me assumir como feminista. Acreditava que a palavra era complexa e obscura demais — fazia parte de um vocabulário que não me pertencia. 
 
Não se tratava apenas do receio em vesti-la e parecer chata — colocar a cool girl em risco, essa personagem que todas nós, em algum momento, já desejamos ou tentamos ser. Mas, muito além, o que me distanciava mesmo do feminismo era o fato de que eu não me sentia merecedora de tal “título”: não participava de manifestações políticas sobre os direitos das mulheres, não liderava abaixo-assinados ou me engajava nas causas, não me identificava com boa parte do discurso (nem com o conteúdo, nem com o tom)… e por aí vai. 
 
Só quando se tornou urgente, sendo eu uma pessoa minimamente consciente do mundo do qual faço parte, ler e conhecer mais profundamente o que estava por trás do termo é que percebi, envergonhada, que o que me separava do feminismo, acima de tudo, era apenas a minha própria ignorância.
 
Voltando à Beyoncé e ao seu feminismo “imperfeito”: como a Juliana Cunha questionou em um post no seu perfil do Facebook, qual feminista não tem suas contradições? E por que isso invalidaria a luta dessas mulheres, apenas por que elas não se encaixam no padrão da feminista ideal (de novo um padrão)? 
 
Não faz sentido que uma ideia que defenda a liberdade, inclusive a liberdade de sermos imperfeitas, acabe por nos aprisionar em mais um de tantos estereótipos: “essa sim é feminista padrão A de qualidade. Aquela outra é um B ou C. Já aquela nem feminista é.”
 
A gente tende a hierarquizar e a classificar tudo. É muito difícil apenas aceitar as diferenças, inclusive de vivências e percepções desse conceito que não tem mesmo nada de absoluto. Mas aceitar esse desafio é um caminho que pode nos fazer pessoas melhores. 
 
O feminismo é um conceito em formação e transformação e estamos nos formando e transformando junto com ele.
 
Não sou a fã mais fervorosa da Beyoncé. Admiro e respeito seu talento como show woman e gosto especialmente do seu último álbum. Ainda que ela seja uma mulher linda, rica e bem-sucedida nos falando que Pretty Hurts, também é verdade que toda mulher — inclusive Beyoncé, Gisele Bündchen, _________ (insira aqui o nome da mulher que você acha a mais incrível e maravilhosa do mundo) — inclusive as mulheres que estão dentro dos padrões, todas também sabem o quanto dói a imposição de uma beleza idealizada: ninguém nunca se encaixa completamente, ou nunca se encaixa sem sacrifício.
 
Mas não estou aqui pra falar em defesa das mulheres mais privilegiadas. Estou pra falar em defesa de todas nós. Ou, ao menos, em defesa de mim mesma. Para contar por que é que eu me encantei pelos poucos minutos que Beyoncé dominou o palco do VMA — porque, entre outras coisas, ela conseguiu levar a milhões de garotas, especialmente adolescentes, a voz da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e um trecho de seu emocionante TED We should all be feminists, no qual Adichie diz (tradução livre): 
 
“Nós ensinamos as garotas a se encolher, a tentar ser menores do que são. Nós dizemos para as garotas: ‘Você pode ter ambições, mas não demais. Você pode ser bem-sucedida, mas não demais. Do contrário, vocês vão assustar os homens.’ Porque eu sou uma mulher, é esperado que eu sonhe em me casar. É esperado que eu faça escolhas em minha vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. O casamento pode até ser uma fonte de alegria e amor e apoio mútuo, mas por que nos ensinam a desejar o casamento e não ensinam aos garotos a mesma coisa? Nós educamos nossas garotas para competir umas com as outras — não para trabalhos ou conquistas profissionais, o que acho que poderia até ser uma coisa boa — mas competir pela atenção dos homens. Nós ensinamos as garotas que elas não podem ser seres sexuais da mesma maneira que os garotos são. Feminista — a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.” 
 
Se as críticas dizem que Beyoncé é privilegiada demais, certamente Chimamanda Ngozi Adichie não é. Negra, nascida em um país pobre como a Nigéria, a escritora precisou enfrentar um mundo machista, racista e com recursos limitados para se tornar a autora premiada e consagrada de hoje. 
 
Ainda assim, poucos a conhecem. Especialmente se compararmos a quem conhece e acompanha o trabalho de Beyoncé. Portanto, ter levado a voz de Adichie a pessoas e ambientes onde ela provavelmente jamais chegaria, para mim, já é algo para se aplaudir de pé.
 
Outra das críticas que li ao feminismo de Beyoncé é a de que ela se comportaria como um objeto sexual, contribuindo para a objetificação e hiper-sexualização da mulher. Mas, gente, me digam com honestidade: você que assistiu à apresentação do VMA, você que assistiu a qualquer show dela acha que é mesmo possível chamá-la de objeto sexual sem cometer injustiça? Por que tudo que eu vejo em cima do palco é um sujeito sexual. Não vejo nada de passividade. Vejo alguém que desperta desejo, sim. Mas que também canta e dança sobre o desejo, inclusive o seu próprio. Essa é a grande diferença — e é disso também que o trecho de Adichie fala: as mulheres são serem sexuais. E sendo donas do seu corpo, das suas escolhas e do seu desejo, não são objetos. São sujeitos. 
 
 
Estou em um momento pessoal vulnerável e isso também pode ter contribuído para que essa apresentação em especial me comovesse. Um momento que eu havia escolhido viver de maneira reservada, mas essa discussão me trouxe a esse texto e acabei escolhendo falar também de mim. Recentemente, descobri uma lesão relativamente grave no útero, que podia ou não ser maligna. Depois de fazer muitos exames e ficar como uma barata tonta entre laboratórios e clínicas, passei por um tratamento doloroso, com muitos efeitos colaterais. Agora, encontrei uma médica maravilhosa, humana e sensível (quem precisar de indicação de uma ginecologista incrível, fale comigo!), que me deu segurança e tranquilidade para enfrentar essa fase de uma outra forma. Se a hipótese de perder o útero era algo que me assombrava até poucos dias, agora provavelmente vou me recuperar sem ter de passar por uma cirurgia mais agressiva. 
 
No fim do ano passado, minha mãe teve câncer e precisou remover o útero, os ovários, as trompas e alguns linfonodos. Hoje ela está ótima — teve uma recuperação impressionante, em grande parte mérito dela mesma. Mas foi um período duro. E embora nossos quadros sejam um pouco diferentes, é difícil não comparar — vivi tudo de perto com ela. Sei que, mesmo depois de ter duas filhas adultas, e de estar entrando na menopausa, minha mãe sofreu ao abrir mão de uma parte de seu corpo que ela considerava parte também do que a fazia ser uma mulher. Foi incrível acompanhar a constatação dela de que isso não era verdade — agora, talvez, ela seja mais mulher do que nunca, especialmente depois de ter enfrentado essa batalha com tanta força e coragem. É inevitável citar aqui Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher. Torna-se mulher.”
 
Pois bem, no meu caso, passado o susto e caminhando para a fase final do meu tratamento, tive de lidar por algumas semanas com todos os tipos de fantasmas internos e externos. Sou recém-casada e constantemente cobrada por amigos que têm filhos e que parecem ansiosos em saber quando teremos os nossos.
 
Não sabíamos. Nem quando teríamos, nem se teríamos. Meu marido e eu concordamos que só o tempo vai nos trazer essa resposta. E, felizmente, não temos pressa alguma, nenhum dos dois, em encontrá-la. É difícil que um casal concorde sobre isso, mas até aqui, que sorte, nós concordamos.
 
Estamos vivendo a alegria do primeiro ano de casamento, do primeiro sobrinho, curtindo os filhos dos amigos que estão chegando e, por enquanto, estamos felizes assim. Não sentimos que falta algo, nem que não falta nada, mas não consideramos ser pais agora.
 
É difícil ter de responder sempre que sim, gostamos muito de crianças, e que sim, gostamos muito um do outro, mas que não sabemos se teremos filhos. Um dia, quem sabe, descobriremos. 
 
Mas não saber trazia consigo a possibilidade do sim que, mesmo que distante, era algo com que eu gostaria de contar. Uma escolha que eu não gostaria de perder. A hipótese de perder o útero tão cedo mudava tudo. A adoção continuaria sendo possível, e é uma opção maravilhosa que jamais descartei — mesmo antes de tudo isso. Mas pensar que poderia não ter a chance de ficar grávida e abrir mão de todo imaginário que cerca esse momento foi mais pesado para mim do que eu imaginei que seria — mesmo para alguém que não romantiza a gravidez.
 
Pelo andar da carruagem, parece que não, não perderei — nem o útero, nem com ele a liberdade de escolha. Vou fazer uma pequena cirurgia que não vai comprometer a minha capacidade potencial de ser mãe. E logo estarei bem e recuperada.
 
Mas a questão é que muitas mulheres têm um prognóstico diferente. E é delas que quero falar, porque estive entre elas — e ainda posso estar. Todas nós estamos ou estivemos vulneráveis de uma maneira ou de outra.
 
Durante esse período, pensei em todos os amigos que nos perguntavam, sem saber o que se passava, quando seria a nossa vez. Independente do meu quadro delicado de saúde, seria e foi constrangedor ter de responder. 
 
A pressão social que existe sobre um casal, especialmente sobre a mulher, para que ela se torne mãe, é um dos maiores pesos com os quais temos que conviver. Para a sociedade, uma mulher que não quer ou não pode ter filhos é uma mulher incompleta.
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Conto tudo isso pra voltar a Beyoncé: enquanto todos se lembram de que ela é cercada de privilégios —  a empresária bem-sucedida, a  cantora premiada, a mulher linda e a mãe afetuosa, essa figura quase mítica também teve um aborto espontâneo e, depois, passou por depressão pós-parto. Onde está a mãe infalível aqui, a mulher flawless? 
 
Beyoncé não nasceu rica, nem loira. Seu cabelo não é liso — nem sequer ondulado como estava no palco do VMA (olha só para essas fotos mais naturais postadas em seu perfil no Instagram: aqui, aqui e aqui) . Beyoncé é negra, ainda que tenha a pele clara, e nasceu em uma família de classe média, em Houston, no Texas, com todas — ou quase todas — dificuldades que esse contexto traz consigo (veja aqui uma foto dela em 1988 e outra em 1989, também postadas em seu Instagram). Se ela tem talento, inteligência e carisma que tornaram o caminho até aqui um pouco mais fácil, que sorte a dela. Mas se hoje é uma das mulheres mais influentes do mundo, a verdade é que nem sempre foi assim. Então podemos considerar que talvez Beyoncé tenha sim mais condições do que a gente imagina para falar sobre dor, depressão, opressão, ditadura de beleza e também, por que não, feminismo.
 
As minhas fotos no Instagram certamente não mostram os dias difíceis que tive com o tratamento, nem os momentos de angústia e dor física. Mostram sim pequenos momentos de alegria, conforto e alívio que esse mesmo período permitiu. É importante a gente se lembrar de que conhece apenas uma parte da vida das pessoas — pela internet, então, uma parte muito pequena. E que a vida pode ser boa também, para todos nós, mesmo nos dias ruins.
 
Meu marido tem sido super companheiro. Minha família tem me dado muito amor. E também tive sorte ao receber carinho e apoio no trabalho.
 
Se antes desse texto, escolhi viver essa fase de maneira discreta também foi por que tenho dificuldade em compartilhar a dor. É fácil pra mim aceitar que meus amigos se alegrem e se interessem pelas minhas pequenas conquistas e felicidades diárias. Pelas minhas gatas, viagens, leituras, descobertas e bons momentos. Mas também sinto que todos temos momentos difíceis e meus amigos têm os seus. A frase: “Seja gentil. Todo mundo que você conhece está enfrentando uma batalha” nunca fez tanto sentido para mim.
 
Citando um personagem de Robin Williams no drama One Hour Photo, que mencionei em outro texto recente: “ninguém fotografa o que gostaria de esquecer”.
 
No meu Instagram, estão os momentos que eu gostaria de lembrar. Mas a vida não é feita apenas deles. Uma vez, Beyoncé disse que quando assiste a si mesma no palco, também pensa: uau, essa é a mulher que eu gostaria de ser. A própria Bey admite: a cantora, dançarina, performance girl, é uma personagem. Produzida, maquiada, ensaiada, editada. Uma parte dela, sem dúvida, mas não tudo que ela é.
 
Portanto quando Beyoncé lhe parecer privilegiada demais, ainda que seja verdade, que tal a gente se lembrar disso também?
 
E vamos parar de pedir a carteirinha dela como feminista, por favor. Cobrar que as mulheres se “encaixem”, que se casem, que sejam mães é muito cruel. Mas também não faz sentido cobrar mulheres que fizeram essas escolhas, do casamento e da maternidade, como se não fossem feministas porque escolheram um caminho mais “conservador”.
 
Essas críticas transformaram o feminismo numa caricatura de si mesmo, que não o representa.
 
Ter liberdade para ser a mulher que você quiser ser — é disso que se trata. Trocar uma regra pela outra não significa progresso algum. 
 
Se o feminismo é a ideia radical de que mulheres também são gente — como me disse certa vez uma amiga querida — acho que todos que são mais ou menos razoáveis são feministas. A maioria ainda só não descobriu. 
 
Por isso a importância de ações como essa da Beyoncé — que simplificam/desmistificam o feminismo e nos deixam mais confortáveis em assumi-lo como parte natural das nossas vidas. Ou como a Clara Averbuck escreveu depois do VMA: já pode sair do armário, galera. Tá liberado. 🙂

 


Fabiane Secches é criadora e editora da Confeitaria, uma publicação independente sobre cultura, cinema, literatura, artes e comportamento. Saiu do armário há dois anos, quando finalmente entendeu que era feminista desde sempre. Uma feminista imperfeita e cheia de contradições, mas, ainda assim, uma feminista.
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natachacortez_

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A violência contra as mulheres na internet é um grave questão, com reais consequências na vida offline. Já falamos sobre isso aqui mesmo na OLGA quando entrevistamos Marta Trzcinska, advogada norueguesa especialista em direitos das mulheres. “É um problema de saúde pública, é um problema para a democracia e deve ser tratado seriamente como um crime”, afirmou Marta sobre as práticas de assédio no ambiente virtual. Para o youPix 2014, montamos uma mesa com especialistas sobre o tema. Uma delas era Nana Queiroz, que criou a campanha Não Mereço Ser Estuprada e, mesmo assim, recebeu ameaças. “Uma delas dizia ‘prepara o Hipoglós! Vou meter meu pau tão forte em você que minhas bolas vão sair pela sua boca'”, conta. O usuário foi denunciado por Nana para a Polícia Federal e, ao ser localizado pelas autoridades, disse: “o problema é que ela não tem nenhum humor”.

Violência e assédio online é costumeiramente visto como “brincadeira”, “piada”. Não é. Esses abusos afastam as mulheres de suas atividades — por medo, por vergonha — e as isolam do seu direito de livre expressão. E apesar da internet ser sim um espaço belicoso para todos que a navegam, há uma enorme diferença na forma com que homens e mulheres são atingidos por essa questão problemática. Em 2006, pesquisadores da Universidade de Maryland criaram vários perfis falsos em salas de bate-papo. Usuários com nomes femininos receberam, em média, 100 mensagens violentas e de cunho sexual por dia. Usuários com nomes masculinos, apenas 3,7.

O próprio youPix publicou ontem, quarta (7), a matéria Ofensas, machismo e estereótipos: a difícil vida das mulheres no YouTube com os variados tipos de abordagem que as internautas recebem. Anita Sarkeesian e Caroline Criado Perez viraram vítimas cujos casos chamou a atenção do mundo todo. Ambas receberam ameaças de estupro e até de morte por simplesmente se proporem a criar projetos feministas. A primeira gravou programas no YouTube para falar sobre as características machistas dos videogames. A segunda criou uma campanha para que o Bank of England colocasse uma figura feminina em uma das notas de Libra.

No entanto, as mulheres nem precisam ser autoras de projetos feministas para virarem alvos de agressão. Qualquer exposição na net pode resultar em xingamentos, críticas tresloucadas à aparência e, claro, nos mais variados assédios sexuais. Lauren Mayberry, da banda escocesa Chvrches, escreveu um depoimento para o The Guardian sobre a ocasião quando, pela página oficial da banda, tentou abordar o assunto das mensagens sexistas e inconvenientes direcionadas a ela. O que Lauren escutou de volta foram coisas como “Isso não é cultura do estupro. Você vai saber o que é cultura do estupro quando eu estiver te estuprando, vagabunda” e “Sei o endereço da sua casa e vou passar aí para comer sua bunda e você vai amar, sua safada”.

Essa reação ainda mais violenta à uma denuncia não é novidade e já foi até cunhada de a Lei de Watson: “cada vez que você denuncia a violência [de gênero], ela se intensifica”. O mandamento ganhou o sobrenome de Rebecca Watson, que foi ao Twitter reclamar de uma cantada inadequada que recebeu durante uma convenção de ateus e virou vítima de ofensas descomedidas. Até o famoso biólogo evolutivo e ateu praticante Richard Dawkins entrou na briga e, em tom sarcástico, desdenhou da experiência machista que Rebecca viveu.

O custo para a sociedade é imenso: a brutalidade online mina a dignidade das mulheres, deslegitima suas vozes como cidadãs e as reduzem a corpos sexualizados e objetificados. Isso as afasta de discussões online e suprime suas opiniões e contribuições para a sociedade, seja um blog de conteúdo feminista, seja um vlog de moda ou dieta. E apesar da gravidade do problema, ele ainda não é levado a sério pelas empresas de redes socais, a polícia e o poder público.

Hoje, 7 de agosto, é o 8o aniversário da Lei Maria da Penha. Ela foi uma tremenda vitória feminina, mas que trata somente da violência doméstica e familiar, deixando de lado outras formas de abuso que vitimam mulheres. Nesse leque ainda não contemplado pelo poder público estão, entre eles, o feminicídio (o Ministério Público de São Paulo lançará campanha para que o senado inclua o crime no código penal), o assédio sexual (que o código penal enquadra como crime apenas no ambiente de trabalho, ignorando o local público) e a violência online. Esta última encontra dificuldade de ser vista como tal até mesmo pelas próprias empresas de redes sociais, os novos palcos de linchamentos de minorias. Não é clara, por exemplo, a estratégia de combate à misoginia do Facebook, plataforma que agrega muitas páginas sexistas e até mesmo criminosas. Quando denunciadas, a empresa envia comunicados automáticos, às vezes em questões de segundos, negando a retirada do conteúdo. Só as derruba, enfim, quando as denúncias são feitas em massa — tática também utilizada por machistas para tirar páginas feministas. O Twitter também é tão leviano quando se trata dessas questões que, mesmo após as mais violentas denúncias de machismo online, achou por bem, no fim do ano passado, rever a sua política do botão block. Ou seja, as pessoas bloqueadas ainda poderiam ler a timeline do usuário que as bloqueou. A resolução foi revertida em questão de dias, mas tratou-se de uma afronta às feministas que, por anos, tornam pública e conhecida a violência que ali vivem.

Enquanto as autoridades não tomam uma atitude, as mulheres podem se unir para revidar. Em primeiro lugar, saiba como agir se você for vítima de violência online. E, se vir alguém sofrendo essa violência em algum lugar da internet, junte-se, instrua, explique e, de maneira alguma, encare isso como algo que nunca poderá ser mudado.

*

Arte: Natacha Côrtez

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Em junho, o Google lançou uma série de programas para incentivar as mulheres a aprenderem computação. Houve distribuição de cursos grátis na Code School para a ala feminina e a iniciativa Made With Code, voltada para meninas, com o objetivo de mostrar a elas que é possível fazer o que mais gostam — de pulseiras a aplicativos, passando por filmes e smartphones — por meio da programação. Somente neste último projeto, o Google está investindo 50 milhões de dólares nos próximos três anos. Incrível! Mas, peraí, por que o Google subitamente está tão interessado nas mulheres?

A justificativa é bonita. “Não é segredo que a diversidade não é o forte da comunidade da tecnologia, e nós estamos sempre atrás de oportunidades que ajudem a mudar isso. Hoje, um quarto das vagas de Tecnologia de Informação são de mulheres, e mulheres negras representam apenas 3% das cientistas e engenheiras. A situação é clara: temos um longo percurso a seguir para criar uma comunidade mais diversa, aberta e inclusiva”, disse o Google.

Talvez o Google tenha reparado que a porcentagem de mulheres nas turmas de ciência da computação e na área de tecnologia seja ridícula (inclusive na própria empresa), ou tenha reconhecido que mulheres podem ser tão boas, ou até melhores, que homens na tecnologia, a exemplo de algumas mulheres inspiradoras como Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook), Marissa Mayer (executiva-chefe do Yahoo!) ou Virginia Rometty (presidente da IBM).

Fato é que sim, nós estamos em menor número na computação e isso é absurdo. Segundo o Censo 2010, o último levantamento do IBGE com essas informações, as mulheres representam apenas um quarto das 520 mil pessoas que trabalham com computação no Brasil. Para piorar, de acordo com o mesmo senso, o salário médio das mulheres no setor de TI é 34% menor do que o dos homens, e, nos cargos de chefia, elas ganhavam 65% a menos!

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A explicação para isso está relacionada ao motivo pelo qual as mulheres ficaram ao largo do desenvolvimento da ciência e da tecnologia até agora. Vejamos o que aconteceu com a ciência como um todo até aqui. Quantas mulheres engenheiras ou cientistas você pode citar agora sem pestanejar? Imagino que poucas, na maioria dos casos. É que historicamente as mulheres não se vincularam à tecnologia e à ciência por questões sociais. Esperava-se que as mulheres cuidassem da família e, como “procriadoras”, estivessem sempre ligadas à maternidade, que sempre foi pintada de cor-de-rosa, diga-se.

A figura feminina sempre esteve relacionada com o artístico, artesanal, o delicado — valores estigmatizados em gêneros. Essa ideia pode parecer distante para você agora, mas já parou para reparar o que sua sobrinha está ganhando de Natal em comparação ao seu sobrinho, por exemplo? Possivelmente um ferro de passar de plástico, uma cozinha equipada de brinquedo ou bonecas. E o menino com seus legos, pistas de corrida e videogames. Quem está sendo estimulado a quê?

Há um ótimo vídeo que fala sobre por que os pais deveriam estimular suas filhas a serem mais do que bonitas: basicamente porque 66% das meninas no Ensino Fundamental dizem que gostam de matemática e ciência, mas apenas 18% das engenheiras são mulheres nos Estados Unidos.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Esse problema tem a ver com a criação dos filhos, mas não é só isso. Em 2013, pesquisadores da Universidade de Yale publicaram um estudo dizendo que físicos, químicos e biólogos tendem a ver de uma forma mais favorável os homens do que as mulheres quando os dois grupos têm as mesmas qualificações. Meg Urry, diretora do centro de Astronomia e Astrofísica de Yale, disse que vê muitas mulheres deixando a Física não por não serem talentosas o bastante, mas por causa do desencorajamento de se sentir “menosprezada, desconfortável e de encontrar barreiras no caminho para o sucesso”.

Meg também diz que as mulheres não aprenderam a se gabar dos seus feitos como os homens, tendem a internalizar fracassos enquanto os homens colocam a culpa em alguém e são socializadas a reagir aos outros e considerar suas ideias sempre. “Não pergunte o que nós pensamos, não tente formar consenso. Apenas bata na mesa e nos diga o que fazer”, disse um colega certa vez a Meg. Mas muitas mulheres não foram educadas a se comportar dessa maneira ou não gostam de agir assim, seja por motivos de personalidade ou por serem julgadas quando o fazem (homens são “assertivos”, mulheres são “vacas”).

O resultado? Apenas um quarto dos físicos com PhD nos EUA são mulheres, apenas 14% dos professores de Física do país são mulheres, e o número cai vertiginosamente quando se considera hispânicas ou negras. No Brasil não é diferente: segundo um levantamento feito pelo GLOBO, dos 112 jovens cientistas eleitos membros afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) apenas 29 são mulheres. A situação fica ainda mais assustadora quando se considera que o número de cientistas mulheres é praticamente o mesmo que de homens, segundo o CNPq.

Márcia Cristina Bernardes Barbosa, Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio Loreal/Unesco ano passado, viveu esse problema na pele e aponta uma causa principal: as características da carreira, como viajar bastante (a responsabilidade pelos filhos novamente cai sobre nossos ombros) e a necessidade de ser agressiva, o que nem sempre combina com o perfil das cientistas. Márcia também acha que a imagem da profissão torna a carreira desinteressante para as meninas, é passada uma ideia de que cientistas são nerds sem vida social, o que não é verdade.

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É válido aqui evocar Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo: “A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: a biologia, psicologia experimental, etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo a ‘igualdade dentro da diferença’. Essa fórmula, que fez fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizaram em relação aos negros dos EUA as leis de Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações”. Ou ninguém aqui ouviu falar das pesquisas que falam sobre as diferenças entre o ‘cérebro masculino’ e o ‘cérebro feminino'”?

Acontece uma situação muito parecida com a programação — e saber programar é MUITO importante no mundo em que vivemos. Se até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que programação deveria ser ensinada nas escolas, e Sandberg deixou bem claro que essa habilidade está se tornando cada vez mais necessária no mundo de hoje, está na hora de incentivar as meninas a serem programadoras de suas próprias vidas.

Quer mais um motivo? Porque os programadores são conhecidos por programar soluções para eles mesmos. Ou seja, se apenas homens estiverem no comando da tecnologia, veremos muito menos resoluções de problemas que atingem as mulheres – que já são muitos, convenhamos.

Manter a noção de que mulheres não tem a ver com as Ciências Exatas é uma tradição problemática que não apenas está excluindo as mulheres da elaboração do futuro como também está desperdiçando talentos. Exemplos são os maiores poderes de influência, e a tendência é que quanto mais mulheres trabalharem com tecnologia, mais meninas serão encorajadas a irem atrás de seus interesses na área. Por isso, uma boa forma de mudar padrões comportamentais é esclarecer e insistir que existe outro caminho, que outras pessoas conseguiram, que temos modelos para inspiração.

Podemos começar pelo Brasil. Claudia Melo, Ph.D. em Ciência da Computação, trabalha com  projetos de desenvolvimento de software há 15 anos e hoje é Diretora de Tecnologia da ThoughtWorks Brasil. Camila Achutti, com apenas 22 anos, é diretora nacional do Technovation Challenge Brasil, uma iniciativa apoiada pelo Google para incentivar meninas a serem empreendedoras da tecnologia, e fundadora do Mulheres na Computação, um site de apoio, incentivo e difusão da participação feminina no mundo da tecnologia. Luciana Fujii Pontello, entusiasta e usuária de software livre desde 2003 e desenvolvedora de software na GNOME.

Para as mais novas, temos as meninas do For You, aplicativo de combate ao slut shaming, que, ainda no Ensino Médio orientadas por Juliana Monteiro, usaram a tecnologia para solucionar um problema comum no colégio, o vazamento de fotos íntimas e consequente bullying contra as vítimas. Quer mais? Tome Luana Lara Lopes, bailarina de 18 anos do Teatro Bolshoi, que vai estudar Engenharia no MIT com o objetivo de criar robôs com movimentos tão delicados quanto os da dança.

A programação é o ingrediente para cada site, software, jogo e produto digital. Sabemos que não há outro caminho além do da tecnologia, com um futuro à nossa frente bordado com miniaturização dos chips, aliados à conectividade da internet em todo tipo de objeto cotidiano. Se as mulheres não começarem a cavar seu espaço agora, ficaremos ao largo na história mais uma vez. Os homens ainda são maioria nos cursos de engenharia e ciência da computação, mas as mulheres estão provando que programação também é coisa de mulher, oras. Está na hora de acabar com o estereótipo de programador homem, nerd e sem vida social. Entre tantos outros avanços, conquistamos — muito recentemente — o voto, direito ao divórcio e a pílula anticoncepcional… Agora é a vez de usar a programação em prol do empoderamento das mulheres.

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 Para quem se empolgou com a ideia, aí vão algumas dicas:

Codecademy, uma instituição educacional que te ensina a programar de uma maneira fácil, grátis, em português e de casa.

– O projeto Scratch, do MIT, disponível no nosso maravilhoso português brasileiro,  permite ao usuário fazer seus projetos online sem precisar baixar outros programas e sem exigir conhecimento da linguagem de programação.

– Se você fala em inglês, pode se engraçar com a Made With Code, do Google, uma iniciativa cheia de projetos, eventos e comunidades para você participar e aprender a amar a programação.

– A fofa Try Ruby, além de ser uma graça, tem tutoriais e exercícios para te ensinar a programar, mas só está disponível em inglês 🙁

– Quer um abraço, uma palavra de conforto, um “vai lá que cê consegue”? Fala com a comunidade das Mulheres na Computação.

– Conheça o MariaLab,  um espaço mais receptivo às mulheres na área de ciência e tecnologia. Mulheres de fora da área, que queiram conhecer mais sobre tecnologia, podem começar, ali, seus estudos e trocas sem medo. O projeto ainda está em construção, mas vale iniciar contato com suas criadoras.

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As ilustrações foram feitas especialmente para este post por Vanessa Kinoshita. <3

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É 2014, ano de Copa de Mundo no Brasil, ano em que finalmente o racismo começa a ser tratado com a devida atenção no futebol. Infelizmente, ainda não se pode dizer o mesmo sobre a misoginia, o machismo e o androcentrismo. E o futebol sabe transitar entre estes últimos três como poucos (sem falar na homofobia).
Há oito anos, comecei minha trajetória como jornalista esportiva. Já passei por estádios onde não havia banheiro feminino, já ouvi torcidas de cidades do interior me chamarem de nomes nada legais apenas por eu ser a única mulher com um microfone na mão à beira do campo, já deixei de fazer uma cobertura no exterior aos 20 e poucos anos porque acharam que eu “não saberia me virar” (Oi? Eu viajo sozinha pelo mundo desde os 16).
Nos últimos tempos, acabei me voltando também para o uso das redes sociais e as estratégias digitais no futebol. Sempre usei a Heineken como um ótimo exemplo de criatividade para ações que unem on e offline. Estava indo bem, a Heineken. Até esta semana. A marca de cerveja lançou uma campanha em conjunto com a Shoestock para fazer uma liquidação de sapatos exatamente na hora da final da Champions League, que acontece neste sábado, na pegada “uhu, vamos ajudar sua mulher a te deixar livrinho para o jogo”.
Os pressupostos dos quais partem essa campanha são todos de chorar, a começar pela assunção de que “sua mulher não gosta de futebol”. Pode ser que não fosse permitido a ela desenvolver esse gosto (assim como pela engenharia e pela calça comprida) lá em 1950, mas a campanha foi lançada nesta semana, mesmo. 2014.
Nestes anos de trabalho com futebol e automobilismo, sempre senti que faltava, para mim, um espaço onde eu pudesse falar sobre estas experiências (são normais? Como lidar?), onde eu pudesse conhecer outras mulheres que passam pelo mesmo que eu e compartilham a paixão por futebol. É muito comum o estado de negação. Passei bons anos achando que “não, imagina, eu nunca tinha passado por nenhuma experiência de machismo”. Aham. Foi só o tempo e um pouco mais de maturidade que me fizeram enxergar, para poder lidar de uma forma mais realista e mais proveitosa.
Pensando nisso, em conjunto com as mulheres incríveis da Casa de Lua, é que resolvemos promover a roda de conversa “Mulheres no Futebol: jogando, torcendo, cobrindo” na próxima segunda-feira, dia 26, às 20h lá mesmo na casa (Rua Engenheiro Francisco de Azevedo, 216, metrô Vila Madalena – São Paulo). Você pode confirmar presença e chamar mais gente através do evento no Facebook.
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Vanessa Ruiz é jornalista com passagens por rádio, revista e web, sempre transitando entre o Esporte e temas transversais. 

Arte: Mark Brooks e Nayara Perone
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olga 01

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Numa quinta-feira chocha de abril, daquelas que nada prometem, navegava despretensiosamente por um site de notícias, quando me deparei com a propaganda de um evento intitulado “Mulheres Líderes: Evolução e Perspectivas no Mercado Brasileiro”. Não havia uma descrição muito detalhada, mas dizia o anúncio que a sede de uma organização internacional sem fins lucrativos, chamada Women in Latin America Leadership – W.I.L.L., seria inaugurada em São Paulo naquele dia. O que mais me chamou a atenção, confesso, foi a participação confirmada de uma das mulheres mais proeminentes do cenário empresarial brasileiro: Luiza Trajano, fundadora da rede de varejo Magazine Luiza. Na mesma hora me inscrevi, e não deu outra. Ao lado da embaixadora Maria Celina Rodrigues e da jornalista Mônica Waldvogel, Luiza conquistou o público – formado não só por mulheres, mas por homens também – com sua informalidade inteligentíssima. Aproveitou para destacar as iniciativas pró-mulheres de classes mais baixas da sua empresa e colocou em debate um tema muito importante, mas ainda pouco discutido: as controversas cotas para mulheres em conselhos administrativos de empresas. “Quando um executivo completa 60 anos, é chamado para integrar os conselhos. Já as mulheres da mesma idade se aposentam ou são mandadas embora”, reclamou.

 

“As cotas são um processo transitório para acertar uma desigualdade histórica.” – Luiza Trajano, presidente da Magazine Luiza

 

Em meio a opiniões apaixonadas e ponderadas sobre o assunto, ouvi também descrições de trajetórias incríveis, de mulheres que seguiram crescendo em ambientes essencialmente masculinos e chegaram a assumir cargos executivos de empresas em que os funcionários são predominantemente homens. Andrea Alvares, por exemplo, assumiu aos 28 anos a diretoria geral da unidade de Snacks da Pepsico no Brasil, se tornando a primeira diretora mulher da empresa. Já Elisabeth Farina, presidente da ÚNICA (União da Indústria de Cana de Açúcar), estudou Economia numa classe em que as mulheres ainda representavam apenas 20% da turma e foi uma das poucas a fazer parte do seu corpo acadêmico.

É verdade que o movimento feminista proporcionou muitos avanços na vida das mulheres nas últimas décadas, inclusive o aumento daquelas que ingressam em universidades no mundo todo: o número cresceu mais de 50% desde 1980 – na América Latina e Caribe, para cada 100 homens, há 127 mulheres que entram no ensino superior. Porém, ainda existe uma quebra muito grande quando chega o momento de ela ingressar no mercado de trabalho: apenas 19% das mulheres graduadas de fato são empregadas. É uma perda trágica para a economia, e as causas são as mais diversas – algumas vezes, é uma escolha das próprias mulheres, muitas delas ainda habituadas às velhas convenções sociais.

 

“Quem educa uma menina, educa uma nação” – Slogan da campanha da Unicef para o Dia Internacional das Meninas, celebrado pela ONU

 

Mesmo para aquelas que ingressam no mercado de trabalho, a pressão social permanece estarrecedora. A economista americana Sylvia Hewlett, professora da Universidade de Columbia, descobriu, por exemplo, que, ainda hoje, quanto mais bem-sucedido for o homem, maior a probabilidade de ele se casar e ter filhos – sendo que com as mulheres ocorre o oposto. A falta de tempo de uma executiva para uma relação afetiva não é bem vista pelos homens, enquanto muitas mulheres ainda aceitam operar como apoio à carreira masculina, mesmo que elas tenham aspirações profissionais maiores. O resultado: 40% das executivas bem-sucedidas no trabalho não têm filhos, ante apenas 19% dos homens.

A associação entre ter sucesso e abdicar da vida pessoal faz com que muitas mulheres optem por não crescer profissionalmente, o que colabora indiretamente para que apenas 7% das mulheres latino-americanas ocupem as tão visadas cadeiras dos conselhos administrativos das empresas – o topo das posições de comando –, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Não à toa, muitas mulheres influentes, como Luiza Trajano, levantam a bandeira das cotas em conselhos. Essa participação feminina limitada motivou, em 2010, a criação de um projeto de lei que prevê o estabelecimento de cotas gradativas para mulheres – 10% em 2016, 20% em 2018, 30% em 2020 e 40% em 2022.

 

“Cota não é sinônimo de incompetência” – Irene Natividad, presidente da Corporate Women Directors International

 

De autoria da senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE), o projeto defende que o porcentual mínimo de mulheres em conselhos de administração seja obrigatório no serviço público (empresas estatais e de economia mista) e opcional nas empresas privadas. Ele já passou pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado e chegou a ser discutido na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas ainda precisa de ajustes antes que possa ser apreciado pelas duas Casas do Congresso Nacional. Como impasse adicional, a proposta também envolve diversos conflitos de interesses, como toda discussão sobre a adoção de cotas como medida paliativa de incentivo à inserção de grupos minoritários em ambientes historicamente pouco acessíveis. Nesse caso, mesmo algumas feministas, defensoras dos direitos das mulheres, são contra a iniciativa. Para clarear um pouco essas opiniões, selecionei abaixo alguns pontos levantados pelos críticos ao projeto, rebatidos por aqueles que são a favor:

CONTRA

– As cotas são uma interferência indevida do governo na liberdade das empresas decidirem por quem serão dirigidas. – As cotas obrigam as companhias a se livrarem de conselheiros competentes e experientes para dar lugar a pessoas menos qualificadas.

– O crescimento e desenvolvimento das mulheres deve vir por demanda e mérito e não por imposição de uma lei.

– As cotas têm efeito limitado no ambiente de trabalho das empresas: as conselheiras não participariam do dia a dia dos negócios.

– A participação ínfima das mulheres nos conselhos reflete seu número reduzido em cargos executivos, e as empresas buscam conselheiros experientes.

– As empresas teriam problemas hoje para preencher cotas em conselhos, pois não estão preparadas, não recrutaram mulheres pensando nisso.

A FAVOR

– A legislação pode melhorar o atual processo de seleção de pessoas – que costuma replicar e perpetuar as iniquidades existentes.

– Já existem conselheiros profissionais, que são treinados para o cargo e sem experiência efetiva de gestão. Mesmo entre aqueles experientes nem todos são de fato bons.

– As cotas são uma forma de corrigir uma desigualdade no topo das empresas e permitir às mulheres alcançarem postos de liderança mais rapidamente.

– A presença de mulheres no “topo” ajuda a quebrar estereótipos e convencer o resto da pirâmide corporativa de que elas podem ser boas líderes.

– Muitas empresas já reconhecem que a diversidade de gênero nos conselhos amplia as perspectivas e os ângulos dos quais os problemas são analisados.

– As empresas vão precisar sair à caça de mulheres com qualificação e capacidade de liderança, e perceberão que elas sempre existiram.

 

“Somos agregadoras e conciliadoras. Precisamos compartilhar mais nossas habilidades e ser mais participativas” – Chieko Aoki, fundadora e presidente da Blue Tree Hotels, eleita pela Forbesuma das executivas mais poderosas do Brasil

 

Experiências no exterior também contam a favor da iniciativa:

– Em 1993, Israel foi pioneiro ao estabelecer que 30% dos cargos de conselho de administração fossem ocupados por mulheres.

– Em 2003, a Noruega obrigou empresas públicas e privadas de capital aberto a ocuparem 40% dos assentos de seus conselhos com mulheres em até 5 anos.

– Em 2007, a Espanha estabeleceu um prazo de oito anos para que as companhias pudessem se adaptar a uma política semelhante.

– Em 2011, foi a vez da França, que passou a exigir não só a reserva de cotas, mas também a paridade salarial entre homens e mulheres.

– No mesmo ano, a Bélgica determinou que as companhias deveriam ocupar um terço de assentos em conselhos por mulheres até 2017.

– A mesma regra foi estabelecida na Holanda e na Itália, com um prazo de adaptação das companhias à regra até 2015.

– Outros países passaram a adotar o sistema em estatais, tais como: Dinamarca, Finlândia, Austrália e Islândia.

 

“Não deveria haver tanta testosterona em uma sala onde decisões importantes são tomadas” – Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI

 

Quando a Noruega adotou lei semelhante, os críticos diziam que as empresas não conseguiriam encontrar profissionais com talento ou experiência para preencher as cotas femininas, ficariam sem rumo e perderiam produtividade, o PIB encolheria e o nível de emprego cairia. Na época, a média de presença de mulheres era de 7%. Das 611 empresas sujeitas às novas regras, 470 não tinham nenhuma mulher em seu corpo de diretores. Quase uma década depois da aprovação das cotas, as previsões de um cataclismo corporativo não se confirmaram. Em meio à crise econômica, a Noruega vai surpreendentemente bem – o PIB do país cresce mais do que o brasileiro.

Essas constatações não só fizeram a Noruega se tornar um exemplo para outros europeus na adoção de cotas para as mulheres no topo das empresas, mas também arrastaram o país para o centro de um acalorado debate sobre o papel que a União Europeia (UE) deve desempenhar no tema. Em 2012, a Comissão Europeia propôs uma Diretiva que estabelece que todas as companhias abertas nos países membros com ações listadas em Bolsa de Valores e que possuam mais de 250 trabalhadores devem destinar 40% dos assentos em conselhos de administração para mulheres até 2020. O Parlamento europeu aprovou a proposta de Diretiva no final de 2013, por 459 votos a 148.

 

“Precisamos mudar a ideia geral de composição de família: as mulheres devem entrar no mercado de trabalho, e os homens devem entrar em casa também!” – Marise Barroso, presidente da Masisa

 

Uma pesquisa da McKinsey & Co. mostra ainda que companhias que contam com mulheres no comitê executivo apresentam resultados melhores: a média de retorno sobre o patrimônio líquido das empresas com presença feminina no comitê foi, em 2011, 44% superior à daquelas que contam apenas com a participação de homens. Entre executivos e CEOs ouvidos pela consultoria, 60% acreditam que as mulheres fazem a diferença na performance das empresas, graças à sua capacidade de inspirar e motivar equipes, além de desenvolver pessoas e criar um bom ambiente de trabalho. Com elas no comando, as empresas acessam um banco maior de talentos, agregam diferentes opiniões e percepções para os debates e colaboram com uma reflexão melhor a respeito do processo de tomada de decisões pelos consumidores.

Com tantos dados, tendo a acreditar que uma lei nesse sentido possa ser um empurrão necessário para que as mais empresas apostem nas mulheres de forma mais imediata. Somado a isso, claro, deve haver uma conscientização para que as empresas de fato incorporem processos e programas voltados para a equidade – de recrutamento e desenvolvimento. Seria imprescindível estabelecer um plano de carreira para aumentar o número de mulheres em cargos de gerência, cada vez mais preparadas para atuar como conselheiras, mas dando a elas flexibilidade de horários, capacitação por meio de modelos de liderança, orientação para gestão de tempo e networking. Além disso, as próprias mulheres devem confiar mais em si, para tomar melhores decisões e realizar negociações mais justas. Elas devem assumir a responsabilidade pelo seu crescimento e aproveitar aquilo que têm de melhor.

Em tempo: Nunca aspirei uma carreira corporativa, nem imaginava um dia estar aqui escrevendo sobre esse tema tão distante da minha realidade. Sou apaixonada mesmo é pelo terceiro setor, mas, por incrível que pareça, foi ele quem me aproximou dessa área de negócios. Recentemente, assumi parte de um projeto de carreira cujo objetivo é essencialmente orientar, informar e inspirar jovens profissionais – o que me fez conhecer mais a fundo esse mundo tão injusto com as mulheres – como tantos outros. Desde então, meu esforço quase diário é me aproximar de lideranças femininas que possam servir de exemplo e dar dicas para aquelas que ainda estão começando na vida profissional e aspiram uma carreira corporativa.

Se você também gostou do tema e quer saber mais das discussões que estão rolando sobre mulheres em cargos de liderança, indico fortemente o livro Lean In, da COO do Facebook, Sheryl Sandberg – um belo manifesto a favor das mulheres que querem ascender nas corporações. E outros dois livros que trazem insights interessantes sobre por que muitas vezes as próprias mulheres impõem obstáculos à sua carreira e dão dicas sobre como valorizar mais seu trabalho e negociar melhores cargos e salários: Women Don’t Ask: The High Cost of Avoiding Negotiation and Positive Strategies for Change e Ask for It! How Women Can Use the Power of Negotiation to Get What They Really Want – ambos das autoras Linda Babcock e Sara Lascherver. Boa leitura!


Cecília Araújo estudou Comunicação Social na UFMG e em, São Paulo, se especializou em Jornalismo Literário. Na época, pensava em escrever sobre cultura em revista, mas acabou se tornando repórter de internacional. Foi nas viagens e entrevistas que descobriu sua paixão por direitos humanos e a internet. No ano passado, largou a redação para mergulhar no terceiro setor. Fez um curso de Negócios Sociais no Yunus Social Business Center no Brasil e hoje é responsável pela reformulação do Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, que em breve estará de cara nova – e com mais mulheres líderes representadas!

Colagem: Mariano Peccinetti

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olga bonitice

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A atriz Kristen Stewart constantemente vira alvo de críticas por não ter o hábito de sorrir em fotos. Alguns dizem que é ruim para os negócios e que ela contribui para que a indústria e o público em geral a percebam como uma pessoa antipática. Sua aparência séria a faz parecer infeliz, dizem, ainda que mesmo sem mostrar os dentes ela seja considerada uma das mais belas atrizes de Hollywood. Em uma entrevista para a Vanity Fair, ela comentou o assunto:

“Eu tenho sido muito criticada por não estar com uma aparência perfeita em todas as fotos. Eu aguento muita merda por isso. Mas isso não me envergonha. Na verdade, tenho orgulho. Se eu saísse perfeita nas fotos o tempo inteiro, as pessoas que estivessem no mesmo ambiente que eu, ou no tapete vermelho, pensariam ‘Como é falsa!’. Esse pensamento me envergonha tanto que eu fico com cara de merda em metade das fotos, mas que se foda. O que importa pra mim é que as pessoas saiam dali e digam, ‘Ela era legal. Ela se divertiu. Ela foi sincera.'”

A honestidade da atriz diante das lentes inspirou um artigo do The Grindstone que defendeu seu direito de não sorrir o tempo todo. Afinal, o seu trabalho não é o de aparentar felicidade em entrevistas e tapetes vermelhos, mas interpretar personagens da melhor maneira possível. Contanto que seja ótima nos papéis que aceitar, pouco devia importar a forma como posa para fotógrafos e paparazzi.

Principalmente porque, da ala masculina, isso não é cobrado. O artigo cita James Franco, que quase não sorriu quando foi apresentador da cerimônia do Oscar em 2012. Além disso, é muito comum que atores não sorriam em pré-estreias, e nem por isso achamos que estão aborrecidos com alguma coisa. Eles estão isentos do que eu gosto de chamar de a cultura da bonitice: a constante obrigação feminina de estar sempre bela e à revelia de suas próprias emoções – que devem, de fato, resumir-se a uma só: a alegria, sempre expressa em um sorriso que, se não constante, deve ser fácil de obter.

Nem mesmo quem está no topo da sua carreira escapa da pressão da cultura da bonitice. Todo ano, um artista é convidado para o show do intervalo do Super Bowl, o maior evento midiático dos Estados Unidos. É a final do campeonato da National Football League e tornou-se um fenômeno tão imenso que o intervalo comercial das partidas é o mais caro do mundo, com marcas desembolsando US$ 4 milhões por 30 segundos no ar. Em 2013, foi a vez da Beyoncé se apresentar.

Ser escolhido para cantar no Super Bowl é um ponto alto na carreira de qualquer músico. Nomes como Diana Ross, os Rolling Stones, Madonna e Paul McCartney já se apresentaram para os milhões de espectadores do Halftime Show. O show da Beyoncé, para 108 milhões de pessoas, foi impecável. Não havia dúvidas de que ela arrasou. Mas nem mesmo tamanha honraria impediu a assessoria da cantora de entrar em contato com o Buzzfeed após o espetáculo, solicitando para que fossem retiradas desta matéria algumas fotos do show que não a favoreciam.

Ou seja: essa incessante busca pela perfeição chega ao cúmulo de que os registros de uma mulher (que após anos de exposição na mídia já nem precisa provar mais nada em relação à sua aparência) dançando, obviamente despreocupada com a maneira como vai aparecer nas fotos e, por isso, fazendo caretas e poses estranhas, sejam vistos como negativos para a sua imagem.

O contra-ataque

Por outro lado, algumas personalidades do show business estão se rebelando contra essa opressão. Em 2011, as atrizes britânicas Emma Thompson, Kate Winslet e Rachel Weisz formaram a  British Anti-Cosmetic Surgery League, ou seja, a Liga Britânica Anti-Cirurgia Plástica, se colocando abertamente contra o uso de botox e outras plásticas para mulheres acima dos 50 anos – intervenções cujo objetivo nada mais é do privar as mulheres de emoções faciais. Emma, a mais velha das três, na época afirmou: “Estamos nesse terrível mundo impulsionado pela jovialidade no qual todo mundo precisa aparentar ter 30 aos 60”.

Elas estão certas. O envelhecimento da mulher é indesejado, especialmente no cinema. Um estudo da Vulture com dez grandes atores de Hollywood  revelou que, nos seus principais filmes nos quais tinham um par romântico, conforme eles iam entrando nos 40, 50 ou 60 anos, suas parceiras em geral se mantiveram entre 20 e 30 e poucos anos.

Outras atrizes, como Jennifer Lawrence e Claire Danes, por exemplo, também já deixaram claro que não se importam com a polícia da beleza. A primeira se tornou um símbolo para muitas mulheres ao adotar uma postura de porta-voz da normalidade em Hollywood. Jennifer sempre fala sobre o seu amor por comida e não tem medo de usar seu rosto para se expressar. Seus trejeitos já lhe renderam um Tumblr dedicado às suas expressões faciais, o Faces of Jennifer Lawrence.

Já Claire Danes é mais reservada, porém fez questão se posicionar quanto às críticas e à chacota virtual em torno de sua cara de choro. Interpretando a oficial da CIA Carrie Mathison no seriado Homeland, ela constantemente faz cenas em que aparece às lágrimas. A entrega com que interpreta a personagem levam a atriz a ficar com uma aparência que, pela falta de hábito em ver mulheres verdadeiramente em prantos na televisão, causou estranhamento em muita gente.

Ao ser perguntada sobre a polêmica pela revista Glamour, Claire deu risada:

“Bem, é verdade, ela se emociona bastante. Mas eu acho que, na verdade, os sentimentos são difíceis para as pessoas. Acho que elas ficam desconfortáveis por demonstrações irrestritas de emoções. Mas, sabe como é, esse é o meu trabalho. Eu não tenho esses medos. Eu nunca realmente me preocupei em estar bonita na tela. Simplesmente não é o meu jeito. Estou preocupada é se estou interpretando um belo personagem.”

A modelo Cara Delevingne é mais uma que faz bom uso de sua popularidade para questionar os padrões estabelecidos. O movimento que ela está fazendo com suas selfies cheias de personalidade no Instagram e com a sua maneira despojada de lidar com as câmeras é comparável ao de Twiggy e Gisele Bundchen em suas épocas. Cara não tem medo de ficar vesga, torta e agir de maneira absolutamente divertida. Ela não teme perder contratos ou fãs ao se vestir como um cachorro quente ou fazer caretas. A sua audácia, na verdade, tem sido recompensada com mais empresas que desejam ter a personalidade da moça associada às suas marcas e projetos. “Eu tento ser real e manter a minha vida real. Não espero que ninguém ache que sou perfeita, porque eu não sou”, já declarou.

Esse cobrança, porém, não está restrita ao show business. Não importa se a mulher é recepcionista ou CEO de uma grande empresa: o mundo espera que ela sorria e ostente o tempo todo aquela aparência “natural” que somente uma miríade de recursos artificiais podem proporcionar. Até porque natural de verdade é ter rugas, olheiras, espinhas, dobrinhas, caretas, linhas de expressão, pés de galinha, bigode chinês, frizz no cabelo, sobrancelhas grossas (ou finas!), cílios pequenos e tantas outras coisas que as mulheres são ensinadas a esconder com técnicas que aprendem a aceitar como rotina desde a adolescência – e, em alguns casos, até da infância.

A revolução das caras-lavadas

O lado bom é que esse cenário está mudando. Nos últimos anos, além do surgimento de celebridades que se declaram abertamente contra os padrões de beleza,  a internet deu espaço para que a insatisfação feminina com a obrigação de estar sempre impecável tomasse forma de movimentos que ajudam as mulheres a despertar quanto a essas imposições sociais.

Recentemente, a Leandra Medine escreveu um post com os motivos pelos quais ela não usa maquiagem. Ela tem um blog, que já virou livro, chamado The Men Repeller, cuja proposta é vestir-se de maneira “ofensiva” que resultará em repelir os membros do sexo oposto. Ela defende a liberdade feminina de vestir o que quiser sem se preocupar se isso vai atrair os homens ou não. É a moda que não necessariamente valoriza o corpo da forma como estamos acostumadas a entender essa valorização, mas que representa e dá destaque à personalidade da mulher. Em seu texto, a Leandra declara: 

“A razão pela qual eu não uso maquiagem é porque sou preguiçosa. E não me leve a mal – eu sou sou tão otária pelo mais novo ‘creme anti-idade milagroso’ quanto qualquer um. Só porque eu não uso lá muita maquiagem não quer dizer que eu não acredito em uma pele bonita (…) Ainda mais importante que isso, eu estou confortável com a minha aparência. Eu não odeio o que vejo quando olho no espelho. Mesmo que legiões não concordem. Eu aceitei o reflexo que me é fielmente devolvido por seus bônus e suas falhas. Eu sei que há grossas olheiras sob meus olhos. Aprendi a apreciá-las. Eu notei que meu nariz vai ficando um pouco mais torto quase que mensalmente. Tudo bem. Eu sei que há rugas prontas para tomar seus lugares como residentes de longo prazo na minha testa a qualquer momento. Meu pai também tem dessas, e eu acho cativante.”

Abrir mão da maquiagem está se tornando uma forma de retomar a liberdade feminina de mostrar o seu rosto como ele é, limpo, e não sentir vergonha por isso. O blog Girls With Style lançou a campanha Terça Sem Make, em que as leitoras postam selfies sem maquiagem. A ideia é não usar maquiagem às terças-feiras e registrar o feito nas redes sociais usando a hashtag #terçasemmake.

Nuta Vasconcellos, jornalista de moda e uma das criadoras do GWS, contou que a repercussão da campanha tem sido positiva. “Descobrimos que tem muita mulher querendo quebrar esse ciclo. Muitas garotas postam suas fotos no Instagram só com a hasgtag, mas muitas dividem também as suas histórias. E ficamos super emocionadas ao nos darmos conta de quanto esses pequenos movimentos fazem grandes transformações.”

Entre as histórias compartilhadas, está a da moça cujo próprio namorado nunca a tinha visto sem maquiagem. “Ela acordava antes dele pra se maquiar”, revela Nuta. Outro caso marcante foi o de uma garota com muitos seguidores no Instagram que aderiu à campanha e assumiu que tem uma mancha no rosto que ninguém conhecia, pois sempre a escondia com base, corretivo e afins.

Para a blogueira, a maquiagem hoje é muito mais que um acessório de beleza. “Deixou de ser uma brincadeira gostosa e se tornou obrigação. Acreditamos que tudo o que uma mulher NÃO precisa é mais uma regra de como deve ser sou corpo, seu rosto, seu cabelo. Várias empresas tem como norma a funcionária mulher estar maquiada. Faz parte do uniforme. Parece besteira, mas a mensagem por de trás disso é muito forte. É como dizer que uma mulher não está apresentável sem maquiagem.”

Dessa forma, elas acabam entrando em um ciclo vicioso. Além do trabalho, nos fins de semana também querem estar bonitas (= se maquiar) para sair, ver os amigos e namorar, e assim a maquiagem se torna uma rotina diária. “A pele nunca descansa, nunca respira e o mais grave: você passa a cada dia se achar mais e mais feia sem make, afinal, você quase nunca está sem”, enfatiza Nuta.

Vale lembrar que o Girls With Style e a #terçasemmake não querem acabar com o uso desse recurso. “Não somos contra a make! Também usamos e amamos, o que somos contra é a escravidão. Essa obrigação de estar maquiada para estar ‘apresentável’ caso contrário vão te perguntar se você está doente ou dizer que você está pálida.”

Até porque a maquiagem pode, sim, ser uma grande aliada na busca da auto-estima. A marca de comésticos Dermablend lançou uma interessante campanha na qual convidou duas mulheres,  Cheri Lindsay e Cassandra Bankson, que sofrem de vitiligo e acne severa, respectivamente, para contar suas experiências com a maquiagem. Ambas falaram sobre como o uso dela as ajudou a conquistar uma aparência que as deu mais confiança. No vídeo, Cheri diz: “Escolhi buscar uma alternativa. Algo que pudesse colocar no meu rosto e ajudasse as pessoas a ver além do choque inicial de ‘oh, o rosto dela é branco, mas ela é uma garota negra!’, algo que as fizesse literalmente ver através disso e enxergar quem eu sou como pessoa. Isso me tornou uma pessoa mais acessível.”

Outro movimento da internet que está revertendo a lógica da bonitice são as uglies, selfies que retraram as mulheres fazendo uma cara bem feia – a pior que conseguir, se possível. O fato é que tirar uma boa foto de si mesma dá muito mais trabalho do que parece. São muitas tentativas e erros até que se encontre a iluminação, o ângulo e o look almejados. Foi com uma certa insatisfação com esse compromisso que nasceram as uglies. O Tumblr Pretty Girls Making Ugly Faces, por exemplo, reúne uma coleção de fotos de seguidoras que toparam o desafio de fazer uma selfie perfeitinha e uma bem feia. As duas são colocadas lado a lado, fazendo um antes-e-depois. Pode ser enviada só a foto com careta também, contanto que ela esteja bem caprichada.

Por trás dessas iniciativas, reside uma mensagem muito forte: a de que as mulheres estão cansadas, mas não se importam mais de parecer cansadas. Atrás de cada sorriso, de cada camada de base e de cada picadinha de toxina botulínica está escondido um desejo de agradar aos outros que custa às mulheres tempo, dinheiro, energia e um enorme desgaste emocional.

Mas a cada uglie, a cada #terçasemmake e cada vez que uma mulher busca a liberdade de ser quem ela é e encontra beleza nisso, estamos enfraquecendo a intensidade dessa tirania e ficando menos cegas para o fato de que a única verdadeira necessidade que temos é a de ser feliz. E para satisfazê-la talvez seja preciso perder menos tempo com maquiagens, sorrisos forçados e emoções escondidas para agradar os outros, e mais tempo tentando descobrir como agradar e ser fiel a si mesma.


 

Ilustração: Laura Callaghan

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olga skull

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[ATENÇÃO: Post com linguagem explícita de violência]

Checar as estatísticas deste site, como o número de visitas diárias e de onde vêm esses leitores, é algo que faço com frequência. Conforme o blog foi acumulando posts, – e, muitos deles, sobre violência conta a mulher – essa xeretada passou a me trazer desconforto, choque e medo.

Existe uma seção onde dá para conferir os termos de buscas usados pelos usuários que os levaram às nossas páginas. E qual não foi a minha infeliz surpresa quando notei que alguém chegou até a Olga pela procura “como estuprar uma menina e pegando na rua”? Foi a primeira vez que vi algo relacionado à violência sexual contra a mulher ali, mas tampouco foi a última. Tirei um print. O que será que essa pessoa pensou ao cair em um blog que tem como uma das bandeiras justamente a luta contra a violência sexual?

Busca violencia 06

De lá para cá, fui colecionando as barbaridades que ali apareciam. Inspirada pelo Women Under Siege, projeto de jornalismo investigativo que luta contra o estupro em zonas de conflito, decidi também transformar essas informações em post. Divido aqui as buscas de internautas que mostram como o estupro e o assédio é visto não apenas com naturalidade, mas como algo estimulante. Há ainda citações de pedofilia: as “novinhas”com que fantasiam são, na verdade, crianças de 10, 11 anos.

O “interessante” da internet é que ela revela o comportamento – e até os pensamentos íntimos – das pessoas. Não é possível saber com certeza se elas querem se excitar, se são pesquisadores (!), psicopatas ou criminosos em potencial. Mas o material que recolhi é uma demonstração de que a agressão sexual contra mulheres e crianças é, de várias maneiras, algo bastante próximo, que está em mais lugares do que imaginamos. 

“Talvez você pense que se trata mais de fantasias (tanto masculinas, quanto femininas) do que de experiências reais. Mas é importante termos consciência de que isso é o que está na mente das pessoas. Esses são os pensamentos que algumas delas conseguem controlar só até chegar na internet, onde poderão procurar mais informações a respeito. São ideias e impulsos que mal se contêm”, escreveu Lauren Wolfe, diretora do Women Under Siege.

Existem fetiches envolvendo dominação e que não deixam vítimas. Mas não é o que essas procuras revelam. O que elas descrevem são crimes. E muitas demonstram uma intenção de torná-los real: buscam por dicas e informações de como a violência deve ser cometida. Ainda assim, poderia ficar só no âmbito da imaginação, mas sabemos que não é o caso: como vocês podem ver na seção de depoimentos do Chega de Fiu Fiu, são agressões bastante comuns. E aí, percebo que não à toa essas pessoas chegaram aqui.  

Abaixo, as buscas em seus termos originais. 

Estupro

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Assédio sexual

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Pedofilia

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criancas-3

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No último domingo, a empresa GoldieBlox – que cria brinquedos com o objetivo de aguçar o interesse de meninas pela ciência – fez história ao veicular o primeiro comercial feminista do intervalo do Superbowl. Na propaganda, garotas recolhem bonecas, miniaturas de utensílios domésticos, castelos e tiaras (tudo rosa!) e literalmente os mandam para o espaço. A mensagem é clara: chega de estereotipar a infância! Abaixo, a publicitária Luíse Bello escreve, com um olhar pessoal, sobre a relação entre consumo e infância, tema que inspirou seu trabalho de conclusão de curso.


Sou a caçula de três irmãos — duas meninas e um menino. Muito antes de aprender sobre o feminismo e a pensar sobre a questão da mulher, tive a chance de observar desde o berço e em primeira mão a desigualdade na criação de filhos de gêneros diferentes.

Nunca ganhei uma bola. Bola é coisa de menino. Não existe o equivalente de bola para meninas. Uma bola não faz nada se você não fizer algo com ela – o que é tremendamente estimulante para a imaginação. É um brinquedo simples, mas completo para vários tipos de jogos. Um menino quando ganha uma bola é incentivado a correr, jogar, se movimentar, até a praticar esportes por diversão.

Acho que a minha irmã chegou a ter uma bola de vôlei, mas foi somente após demonstrar interesse pelo esporte. Definitivamente, não é a primeira coisa que nos vem à mente quando vamos presentear uma menina. Para meninas, tudo tem que ser rosa, de princesa, de casinha. Nada que as deixe suadas ou descabeladas.

Mas as coisas não são assim porque os pais são ruins em essência para com as mulheres: é a nossa sociedade leva adiante valores ultrapassados por pura inércia. E não existe propagador maior de tais valores que o mercado de produtos infantis, cujo papel na infância de crianças expostas a horas de anúncios em todos os meios de comunicação diariamente é, no mínimo, fundamental.

Durante a infância, a fronteira entre coisas de menino e menina é robusta. A criança que ultrapassá-la será questionada, julgada, quiçá até examinada, e se tornará motivo de forte preocupação. O que será de uma menina que não gosta de bonecas? Ou de rosa? Ou de brincar de mamãe?

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Desde muito cedo, as principais brincadeiras oferecidas para meninas são simulações do que é esperado que ela se torne na vida adulta. Menina só brinca de ser mulherzinha.  A Barbie ter um emprego, por exemplo, é algo tão grande na vida da personagem que produzem bonecas exclusivas com o tema de seus trabalhos. O acessório mais desejado pelas meninas, porém, não é a régua T da Barbie arquiteta ou o estetoscópio da Barbie médica, e sim o Ken, o marido, aquele que tornará a Barbie uma mulher casada e plena. Contanto que haja o Ken, sua Barbie nem precisa ser aquela que tem um emprego.

E quando não é a Barbie, são bonecas bebês que colocam as meninas no papel de mãe. Hoje em dia há bonecas que fazem até cocô, para que as pequenas possam ter uma ideia mais realista do que é ter um filho. Sempre achei isso cruel: qual é o prazer de colocar meninas nessa tarefa de trocar fraldas desde a infância?

Há quem diga que isso é o instinto materno aflorando desde cedo, que a menina quer imitar a própria mãe. Pode ser, é verdade que as crianças realmente gostam de imitar os comportamentos de adulto, mas será que isso ser estimulado a esse ponto?

Se é assim, porque não existe o Max Steel Veterinário e o Ben 10 Advogado? Não existem brinquedos masculinos que estimulem os meninos a ser pais ou a agir como adultos. Dos meninos é esperado que queiram derrotar o mal e salvar o mundo. Os seus bonecos voam, lutam, piscam, e tem até antagonistas, os vilões (vendidos separadamente, é claro) com os quais seus personagens entrarão em combates imaginários magníficos. E quando não são bonecos, são carrinhos, aviões, armas, autoramas. O menino nunca é colocado no papel de mero trabalhador, mas de herói. Nem inimigos a Barbie tem: não há conflitos em seu mundo perfeito.

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Até nos comerciais de calçados para crianças essa diferença é clara. Os sapatinhos dos meninos são apresentados como sendo resistentes, para acompanhar ritmo de muitas aventuras. Os anúncios exibem garotos escalando pedras, correndo, explorando o mundo com seu tênis e sandálias licenciados por algum personagem.

Já os calçados de meninas têm brilho, salto, um detalhe dourado, tons de rosa, lilás…  São apenas bonitos. Os anúncios mostram meninas vaidosas,  orgulhosas de seus lindos calçados novos que não são feitos para entrar em contato com terra ou lama, pois isso provavelmente os estragaria. Os sapatos de menina servem para incrementar o visual. E só!

E cada vez mais cedo as meninas largam as bonecas para cuidar de si mesmas. Não é à toa que o mercado de cosméticos infantis cresce a passos largos. São maquiagens, esmaltes, xampus e condicionadores exclusivos para que elas possam adotar o quanto antes os hábitos que levarão para a vida inteira.

Quando olho para trás sei que não tive uma infância sofrida. Fui feliz com as minhas Barbies e bonecas que amei com todo meu coração de mãe-menina. Mas hoje sei que tudo aquilo não era tão natural quanto me parecia na época. Como uma grande parte das mulheres, eu também fui encurralada desde criança nesse labirinto cor de rosa. Afinal, é o que as pessoas nas quais eu mais confiava me ofereciam, é o que aprendi na escola, é o que a televisão reiterava com seus anúncios separados para meninos e meninas.

Minhas boas memórias, porém, não me impedem de questionar tudo o que eu poderia ter sido se me tivessem oferecido possibilidades diferentes. Se desde pequena eu fosse estimulada a acreditar que poderia vencer o mal e derrotar vilões;  se eu pudesse copiar outros papéis femininos além de mãe/princesa/esposa; se meus brinquedos e jogos me levassem a explorar o mundo, e não me adequar a ele. Talvez seja esse o caminho para que as meninas descubram muito antes do que eu, por exemplo, o poder e a força do sexo feminino.


As ilustrações, feitas com carinho especialmente para este post, são da artista e designer Vanessa Kinoshita.

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olga clique indignacao

olga clique indignacao

No fim do ano, minha lista de resolução tinha apenas um item: em 2014, não mais distribuirei cliques de indignação. Sabe aquela matéria que alimenta o preconceito latente contra negros, mulheres, pobres, ciclistas, gordos, homossexuais, pessoas de direita ou de esquerda? São aqueles textos que você sabe que estão errados por mil razões, e até compartilha o link, mas só para poder mostrar todas as falácias que eles trazem. Pois é, isso mesmo é que não vai rolar no meu 2014.

Não quero mais compartilhar e dar audiência (a minha e a dos outros) para textos mal-intencionados. Para muitos colunistas e jornalistas (e tuiteiros e celebridades da internet), qualquer polêmica é vista como positiva, mesmo que envolva até insultos a outras pessoas. Os exemplos são inúmeros e incluem talvez a maioria dos autores mais populares na internet. Mas eu não vou citar aqui porque, como eu já disse, não vou dar mais cliques de indignação para ninguém.

Ideias e posturas com que não concordamos, quando ricas em argumentação e escritas com o mínimo de respeito ao seu leitor, sempre fizeram parte do jornalismo, da internet, das relações humanas e são bem-vindas. Mas os textos aos que me refiro, os mendigos de cliques, vivem do desprezo das pessoas. Escrevem para chocar, não para provocar um novo debate, e suspeito até que não acreditam de verdade no que publicam. Nas gírias de internet, o nome disso é trolada. Qualquer pessoa experiente em fóruns online sabe que a primeira regra é não alimentar esse tipo de disparate perverso. Mas os colunistas chamam isso de “ser polêmico” – algo que tem uma conotação positiva – quando, na verdade, estão apenas reforçando preconceitos e reavivando discussões que já deveriam ter sidos superadas há decadas.

Acontece que nosso clique na matéria por raiva e revolta vale o mesmo que um clique legítimo, de um leitor que reitera tais pensamentos. Um clique é só um número a mais na audiência e na publicidade, não importa se você gostou ou foi humilhado. Então esses escritores-trolls recebem qualquer audiência de braços abertos e ganham dinheiro com a nossa fúria.

Portanto, decidi ignorar. Neste ano, não alimentarei os pombos. É dar munição para que caguem na sua cabeça. E tenhamos assim um feliz 2014. 

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olga katia mari

Os depoimentos a seguir mostram que, apesar dessas mulheres estarem em lados diferentes do espectro do peso, suas vivências são parecidas. E as dores também. A partir daí, percebemos que o problema não é o formato do nosso corpo e sim os julgamentos e a necessidade de nos enquadrarmos em uma perfeição inexistente.


Kátia Kohane, estudante de história na USP, é autora do blog Diário De Uma Magra

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A ditadura da beleza não poupa nenhuma mulher, e comigo não foi diferente. Sofri pressão por não usar maquiagem, não alisar o cabelo, ter seios pequenos, por não me depilar, por causa da acne e um sem-número de outros. Porém, passei por uma situação menos frequente e pouco discutida: uma avalanche de críticas por ser magra “demais”.

Minha família é toda bastante magra, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Apesar disso, meus pais me levaram, desde a minha infância, para diversas especialidades médicas em busca do motivo de eu ser tão magra. Lembro de estar na ala pediátrica do hospital, onde me entretinha com vários ursinhos pintados nas paredes, cada qual com seus pares de balões de festa, aguardando o diagnóstico que iria me salvar. Eu tinha que ter vermes, baixa absorção de nutrientes, hipertireoidismo, alguma coisa que justificasse o meu sub-peso.

Era só descobrir o que era, que eu estaria justificada e legitimada, e só bastaria tomar alguns remédios, que o escárnio das pessoas passaria. Mas os diagnósticos de todos os muitos exames que eu fiz ao longo da minha infância e início da adolescência foram unânimes: a minha saúde era perfeita.

Na escola, não faltaram apelidos, gozações e críticas. Gente supostamente muito, mas muito bem-intencionada, preocupada exclusivamente com a minha saúde, vinha me fazer as perguntas e os comentários mais invasivos. Usava calças extras por baixo do uniforme e, sobretudo, comia. Comia muito, toda a junk food que podia encontrar.

Fui bastante acusada de ter anorexia. Isso mostra a falta de empatia que a sociedade tem por mulheres e meninas anoréxicas: quando suspeitavam que eu tinha anorexia, eu precisava me defender da acusação de que estava doente. Eu tinha que mostrar que era assim mesmo, que era natural, que estava tudo bem! Se fosse preocupação com a minha saúde, por que não me ofereceram psicólogo, psiquiatra, ajuda para conversar com os meus pais a respeito? Ter anorexia é estar errada e merecer ser punida, criticada, debochada. Não surpreende que tantas jovens morram sem jamais procurar ajuda.

Nunca tive a doença, mas com tantas acusações resolvi pesquisar sobre o assunto. Descobri tudo o que podia e achei que comer em público e com freqüência afastaria a suspeita, mas estava enganada. As pessoas, como antes era o meu caso, não sabiam o que a anorexia é. Dar demonstrações, que para quem entende do assunto são claras, de que eu não era doente não adiantava, porque essas demonstrações que para qualquer pessoa minimamente bem informada provariam que eu não era anoréxica, para o senso comum simplesmente não eram compreendidas.

O lado bom é que com tudo isso me aproximei de garotas anoréxicas e bulímicas, senti uma profunda solidariedade e, com isso, consegui ser útil a algumas delas. Luto para que o movimento feminista as inclua em suas reivindicações, como já faz com as mulheres que se recusam a tentar emagrecer.

Um caso que me marcou foi já no Ensino Médio, quando eu ouvia comentários diários de um rapaz a respeito dos meus braços serem finos. Comecei a usar a jaqueta do uniforme da escola todos os dias, inclusive no calor, e tive que ouvir dele que eu estava sendo “ridícula”, que eu não deveria ligar com o que “os outros” pensam. Quem seriam esses outros – ele e mais quem? Porque eu é que tinha a obrigação de não me importar – não era ele quem tinha a obrigação de não fazer comentários negativos sobre o meu corpo, dar risada, expor isso para as nossas amigas em comum.

Já ouvi que estava no curso certo, o de história, porque “quem gosta de osso é arqueólogo”, que eu sou uma “árvore seca” e que nunca vou poder ter filhos, que não preciso de guarda-chuva porque posso desviar dos pingos, que não sirvo nem para limpar os dentes já que daria um palito muito fino, para não falar em várias coisas repetitivas, como “tem garota de 12 anos que é mais mulher que você”, “mulher é que nem churrasco, pra ser gostosa tem que ter uma gordurinha”, “parece aquelas modelos famintas”, “parece aquelas crianças que passam fome na África”, etc.

Antes que vocês perguntem, eu tenho 1,63m e peso 42kg.

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Resisti ao bullying escolar até depois de formada, mas, no cursinho, desmoronei. “Não preciso agradar ninguém, quem quiser me amar vai gostar de mim independente da minha aparência” já não fazia mais sentido diante da pressão do mercado de trabalho para que eu fosse maquiada, alisada, esbranquiçada, plastificada para as entrevistas de emprego, se quisesse passar em alguma delas. E eu queria, eu precisava. Minha família não tinha dinheiro uma universidade particular, e passar numa pública era a minha única chance de ter um futuro melhor.

Foi então que comecei uma saga por modificar cada milímetro do meu corpo – eu já não queria mais ser a coitadinha que não tem onde pegar, que ninguém vai querer, que é um favor beijar, que é osso para dar aos cachorros roerem. Não importa quantos médicos dissessem que a minha saúde era perfeita, ninguém iria acreditar se eu dissesse, não é? Então vamos mudar isso. Recebi todos os diagnósticos de olho que se possa sonhar – anoréxica, bulímica, aidética, portadora de hipertireoidismo, de vermes, mas sobretudo de ruindade. Sou magra de ruim, e meu corpo era um reflexo do meu caráter errado.

Então resolvi ter um aspecto saudável: me entupi de açúcar e gordura, comecei a fumar maconha, comprei abridores de apetite em farmácias de esquina sem receita. Todos começaram a me elogiar, dizer como eu havia mudado, exceto pela minha mãe, que cada dia mais alarmada, certa vez descobriu os remédios que eu escondia no guarda-roupas.

Foi então que meus pais começaram uma maratona, me levando à casa de vários tios e tias, cada um com suas próprias histórias para contar sobre o quanto se arrependiam de ter começado a tomar abridores de apetite, anabolizantes, corticóides de um sem-número de outros para ganhar peso. Eles sabiam que só me contar as suas próprias histórias não bastaria. Com tantos parentes que passaram pelo mesmo me falando das consequências que tiveram de longo prazo, me convenceram a parar. Meu peso caiu quase que para o de sempre, sem que eu tivesse feito o menor esforço para emagrecer. Não havia jeito, era uma tendência genética mesmo.

Hoje faço algumas pequenas coisas por auto-aceitação corporal. Por exemplo, um piercing no umbigo, por conta da minha barriga ser bem chapada (mas nunca negativa!). Estou aprendendo a fazer pulseiras, já que eu nunca encontro finas o bastante para os meus braços – fazer artesanato é terapêutico e eu posso até ganhar um pouco de dinheiro extra com isso. Não evito mais fazer atividade física, e hoje tenho um grande prazer em dançar e pretendo fazer capoeira quando puder.

“Mas não é isso que eu vejo – os homens gostam das magras, só há roupas para elas, não há desfiles com mulheres gordas e assim por diante”. Então você precisa começar a olhar para além dos seus horizontes. Não é em todo o mundo, nem em todos os âmbitos sociais que a sua visão está correta. A ditadura da magreza não é eterna, não é universal e não existe à parte do recorte de classe social.

Ela começou após a revolução industrial, é muito mais forte nos países protestantes do que nos católicos e pesa muito mais sobre as mulheres das classes alta e média-alta do que nas mulheres pobres. Na periferia, magreza é sinônimo de fome, não de academias. De gente que passa necessidade, não vontade. De gente que não come por miséria, não por vaidade. Mulher magérrima e branca é vista como linda, magérrima e negra é vista como faminta e miserável. O padrão de beleza não é o mesmo em todos os setores da sociedade.

Não se esqueça, também, que as mulheres com anorexia e/ou bulimia estão morrendo para serem magras, “princesas, borboletas, plumas, bolhas de sabão”. Morrendo porque acreditam que não podem ser amadas se não forem magérrimas. Chamar elas de feias não é fazer nada que a sociedade não já faça. Xingá-las de “ósseas, esqueléticas, dead girls are skinny, tripas” não acrescenta nada na vida delas, não lhes dá saúde e não diminui os lucros das indústrias de dietas, academias, roupas.

Todo corpo feminino está errado para a sociedade. Que o movimento feminista seja, ao contrário, um espaço em que todo corpo feminino seja respeitado – com ossos mais ou menos aparentes, somos todas mulheres igualmente dignas de respeito.


Mariana Zambon, formada em Letras pela USP, é tradutora, adepta da filosofia de saúde em qualquer tamanho e praticante do amor próprio e defensora da beleza sem padrões.

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Gostaria de deixar bem claro que esse não é um texto sobre saúde ou uma inspiração para alguém que deseja emagrecer, ou uma história de superação, tampouco se trata de um mimimi sobre como seria legal se os padrões de beleza ou de saúde fossem invertidos. É apenas uma série de reflexões sobre o que é, para mim, ser uma mulher gorda.

Gordinha, fofinha, cheinha, plus size… Nenhum desses termos me representa. Eu sou Gorda. Assim mesmo, com G maiúsculo e com todas essas cinco letras pesadas (!). Algumas mulheres se ofendem com esse adjetivo, mas se você parar para pensar, significa apenas uma característica física e não deveria ser um termo tão detestado. Eu não me importo que me chamem de gorda. Mas, nem sempre foi assim tão simples não sofrer com o estigma desse termo.

Após 31 anos convivendo e aprendendo a lidar com o sobrepeso, concluí, a duras penas, que essa palavra pesa muito mais do que os quilos que compõem a minha estrutura física e que o estigma social é mais prejudicial à saúde do que os “perigos da obesidade”.

O que significa ser gorda?

Ser gorda é ruim, ser gorda é ser feia, ser gorda é feio. Por que isso é algo que aterroriza e assombra tanto a grande maioria das mulheres? Eu poderia discorrer a respeito da indústria da beleza, ou dos inatingíveis padrões estéticos que são impostos sobre as mulheres, ou mesmo sobre como isso é apenas mais uma das formas usadas pela sociedade para nos manter sob controle e sempre preocupadas em agradar aos homens, mas não. Quero falar sobre como é ser gorda, sob o meu ponto de vista.

A mulher que engorda é vista como desleixada, como alguém que não cuida da saúde, nem da aparência, até mesmo como perdedora e coitadinha. Ser gorda, na nossa cultura, é estar à margem do que é considerado aceitável e desejável. De modo geral, as pessoas me olham e pensam que bastaria eu fazer uma dieta e um plano de exercícios para ter o corpo ideal. É engraçado como todo mundo se transforma em especialista em nutrição e endocrinologia ao olhar para uma gorda. Ninguém sequer supõe que você já tenha tentado seguir esse modelo e que ele não trouxe muitos resultados, porque a limitada visão de quem nos julga assume que é impossível ser gorda e ser saudável e que se você continua gorda depois de adotar uma alimentação balanceada e praticar atividades físicas, bem, você com certeza está fazendo algo errado ou não é dedicada o suficiente. O que me leva ao próximo tópico:

A Gorda boa versus a Gorda má

A Gorda boazinha é aquela que vive fazendo dietas, que está sempre insatisfeita com o corpo e buscando a redenção através da perda de peso, é aquela que não ousa comer nada que engorde na frente dos outros, não repete os pratos, abaixa a cabeça quando lhe criticam, que sempre se veste de forma a disfarçar o seu tamanho. É a gorda aceitável – sem celulites exageradas, sem estrias aparentes, sexy, curvilínea e voluptuosa. A gorda boazinha é aquela que sempre busca emagrecer e, por isso, tem direito de ser gorda, ou a que é gorda por algum problema de saúde que não foge ao seu controle – hipotireoidismo, por exemplo.

A Gorda má é aquela que não faz nada disso, que sorri ao usar um short curto e mostrar a celulite para o mundo, é aquela que é feliz, se ama, aceita seu próprio corpo e não se preocupa em agradar a ninguém além dela mesma. A gorda má não tem o corpo em formato de violão, não se desculpa por não fazer dietas, repete os pratos, gosta de comer e não esconde isso, não vive em função da aparência e faz suas escolhas de saúde sem levar em conta o que dizem ser certo ou errado. É uma mulher que se libertou da opressão, e que as pessoas não conseguem compreender porque pensam: como é possível alguém ser feliz e encontrar satisfação sem estar buscando o corpo ideal?

Depois de muitos anos sendo a gorda boazinha, eu decidi que estava na hora de virar a mesa e parar de me culpar por existir. Eu sou a gorda má, corram para as colinas! Aqui um exemplo de como as gordas más chocam a sociedade.

A eterna vontade de desaparecer

Eu lutei com a balança a maior parte da minha vida. Fiz todas as dietas que me apresentavam, tomei remédios malucos, fiz reeducação alimentar – que sigo até hoje – pratiquei incontáveis modalidades esportivas e continuo praticando exercícios com frequência. Mas cheguei a um ponto em que a aceitação é o único caminho a ser seguido. Vou falar sobre isso mais adiante.

Na época do colégio, eu desmaiava pelo menos uma vez por semana, por passar fome, para tentar emagrecer. Minha mãe ficou horrorizada com aquilo e me deu uma bronca. Ela me disse que nada justificava eu prejudicar a minha saúde daquele jeito – o que me deixou ainda mais confusa, pois, na minha cabeça de menina de treze anos, eu só poderia ser saudável se fosse magra, como os médicos me disseram. Daí, decidi que eu iria voltar a me alimentar direito, para não desmaiar mais, porém comecei a entender que a comida me fazia voltar àquele tamanho que significava doença, não importava o quanto eu me exercitasse. Eu não conseguia compreender o porquê meu corpo me tratava tão mal e me fazia passar tanta vergonha. Eu me odiava todos os dias, desejava sair de dentro de mim, nascer de novo.

Eu cresci com a noção de que gordas só servem para serem amigas, ou então para uma noite divertida, mas só se ninguém ficar sabendo. É claro que, quando eu me tornei adulta, descobri que tudo isso era mentira, mas o estrago já estava feito e as inseguranças se instalaram dentro de mim, e luto com elas até hoje. Às vezes tenho a impressão de que terei que batalhar contra tudo isso para o resto da vida. Passei longos anos presa à ideia de que existe uma pessoa magra dentro de mim, e que eu preciso libertá-la, e, então, vou poder viver minha vida ao máximo. Mas isso eu também descobri ser uma das grandes mentiras que nos contam quando somos jovens.

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Mulher e gorda, duplamente oprimida

Ser uma mulher gorda é algo que realmente exige muito da gente, emocionalmente falando. Aos catorze anos, me apaixonei platonicamente por um garoto lindo que jogou um balde de água fria na minha cabeça com a seguinte frase: “Sabe, você tem o rosto muito bonito. Se emagrecesse, com certeza eu ficaria com você”. Então, adivinhem o que fiz? Exato! Voltei a desmaiar algumas vezes por mês.

Seria muito maçante continuar contando todas as histórias tristes, sobre as vezes que ouvi de “amigas” que eu não deveria dizer não pra um cara que queria ficar comigo só porque eu era gorda e tinha que aproveitar todas as chances; sobre todas as vezes em que fiquei meio presa na catraca de um ônibus; sobre as vezes que tentei comprar alguma roupa e nada me serviu; sobre todos os dias que deixei de ir à praia por medo de ser humilhada; as incontáveis vezes em que fui abordada na rua com panfletos de clínicas de emagrecimento e produtos como Herbalife; dos dias em que saí para comer e vi pessoas me encarando enquanto eu tentava desfrutar de um sorvete ou alguma comida calórica… A lista é grande!

Gordofobia e a desculpa da saúde

Não importa o quanto você malhe na academia, se a sua alimentação é saudável, ou se você se ama e se cuida, o fato de você ousar ocupar mais espaço no mundo do que a sociedade permite e aceita é motivo para ser odiada. Sendo uma gorda boa ou má, sempre terá alguém pegando no seu pé e dizendo o quanto você precisa perder peso, transformando a sua vida num diagnóstico de doenças terríveis que irão te consumir caso sua cintura não meça menos do que 90 cm.

A gordura é demonizada, a obesidade é muito mais encarada como sinônimo de falta de saúde do que a magreza. Claro que o fato de eu ser gorda tem a ver com esse ponto de vista, mas vamos combinar que há muito mais gente preocupada com a ‘saúde’ das mulheres gordas do que em engordar as magras. E isso tem afetado cada vez mais meninas mais jovens, que aderem a todo tipo de projetos verão e se matam (literalmente) para tentar alcançar os objetivos de saúde. Cada vez mais pessoas, em especial as mulheres, entram em depressão por se sentirem inadequadas e culpadas por não conseguirem emagrecer.

Ao contrário do que se pensa, ridicularizar a gordura e torna-la a principal vilã da saúde não fará com que os gordos deixem de ser gordos, isso é algo que só aumenta o estigma e complica ainda mais a vida de quem já passa por tanto constrangimento.

Ser gorda é ruim, mas eu gosto

O que eu quero que você saiba é que eu não me importo em ser gorda. Eu gosto das minhas dobras, do meu rosto redondinho, da maneira como meu corpo preenche um vestido ou uma calça, do meu umbigo grande e da minha barriga positiva. Mas nem sempre foi assim e, ainda que eu me goste muito e procure me cercar de aceitação e positividade, existe dentro de mim o fantasma da inadequação. E esse eu acredito que não seja um companheiro apenas das gordas, mas de todas as mulheres.

Lembra que eu disse que voltaria a falar sobre aceitação? Hoje, a comunidade do “fat acceptance” (algo como aceitação da gordura, em português) tem crescido muito e isso tem me ajudado a me empoderar e aceitar como mulher e gorda. Blogs como The Militant Baker, GabiFreshEntre Topetes e Vinis, o trabalho da Negahamburguer, todas essas lindas me ajudam a seguir nessa batalha diária contra os pensamentos aos quais fui exposta a vida toda. Elas me mostram que é possível sobreviver a tudo isso.

Todos os seres humanos têm direito à felicidade. Ter uma vida digna, feliz, completa e satisfatória não deve depender do formato do seu corpo. Aceitar quem você é não é se conformar com o que vê no espelho e achar que “tudo bem” ser daquele jeito ou achar que alguém vai te amar “apesar de”. Se alguém te ama, não tem essa de “apesar de”, e sim “por causa de”. Aliás, isso também vale para o amor próprio. Então, aceitar a mim mesma significa que seja lá qual o corpo que eu tenha, a condição em que me encontre, eu estarei de bem comigo mesma. É isso o que me mantém viva e disposta a lutar para acabar com os preconceitos que existem por aí com relação a ser uma mulher gorda.


As ilustrações, feitas com carinho especialmente para este post, são da artista e designer
Vanessa Kinoshita.

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