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Uma carta de ódio às mulheres é divulgada pela imprensa como se nada fosse. Nem a chacina de uma família inteira motivada por misoginia é capaz de despertar alguns veículos de imprensa para sua responsabilidade na cobertura do caso. Qual é o sentido de dar tanto valor, espaço e voz aos motivos que levaram um homem a cometer um crime tão bárbaro?

Nos comentários dos portais e espaços de convivência virtuais, o resultado óbvio: aqueles que se abertamente rejeitam o fato de que mulheres são seres humanos sentem-se fortalecidos em seu argumento e têm um novo mártir. E as matérias sobre o caso não cansam de humanizá-lo: contam sua profissão, descrevem seus sentimentos, tentam entender seus motivos. Já para Isamara Filier, sua ex-esposa, sobra apenas o título de vítima e a suspeita à boca pequena de que alguma coisa deve ter feito para merecer esse destino.

Mas se a guerra contra as mulheres chegou a esse ponto e está tão às claras é porque nós mesmas quebramos o silêncio e, assim, aprendemos, ouvindo o grito umas das outras, que estamos sendo atacadas e que devemos lutar contra isso. Por misoginia nós morremos há séculos. Hoje, porém, muitos homens se debatem e sentem muito mais ódio não por estarmos tomando seus direitos, mas porque estamos fazendo valer os nossos. Eles não estão perdendo nada que não mereçam, apenas seus privilégios e não merecem qualquer simpatia por isso.

Não é o primeiro caso de terrorismo misógino. Um dos mais emblemáticos aconteceu na Califórnia em 2014 quando o Elliot Rodger abriu fogo contra seis mulheres antes de tirar a própria vida, não sem antes deixar para trás vídeos e escritos detalhando sua frustração por não se sentir desejado pelo sexo feminino. Ele participava de fóruns na internet frequentado por homens que partilhavam da mesma opinião – bem similares a muitos espaços brasileiros onde hoje o assassino de Isamara está sendo endeusado.

É preciso despertar para o fato de que é dessa forma como hoje está composto o nosso tecido social. O que aconteceu em Campinas não foi um caso isolado, mas a manifestação explosiva do ódio às mulheres que perpassa as interações de gênero. Precisamos urgentemente que as instituições descruzem os braços para nos proteger e se coloquem abertamente contra essa mentalidade estabelecida.

Na cobertura do caso, por exemplo, mesmo uma postura neutra colabora com a disseminação desse tipo de ataque. O Brasil é o quinto país do mundo em feminicídios: nossas mulheres estão morrendo diariamente nas mãos de homens com quem se relacionaram. Existe um padrão de comportamento que merece destaque e hoje não são poucas as fontes de informação sobre o tema:

Minimanual do jornalismo humanizado – Parte 1
Dossiês Patrícia Galvão

É nesse contexto que o crime acontece e é trazendo-o a tona que vamos combater o problema pela raiz, que é o ódio pelas mulheres, sem perder tempo com as asneiras odiosas que um terrorista misógino deixou para trás. Precisamos seguir adiante, com coragem e inteligência, porque esse tipo de comportamento não é nenhuma surpresa para quem está bem informado. Não é esse o papel da imprensa, afinal?

Arte: Jarek Puczel.

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Por meio das campanhas Chega de Fiu Fiu, #MandaPrints e #PrimeiroAssedio, temos acompanhado uma evolução na discussão sobre assédio no Brasil. Seja compartilhando experiências pessoais ou em manifestos coletivos, as mulheres têm vencido o medo da culpabilização e deixando claro que cantada não é elogio, mas sim uma violência. Em mais um passo importante no combate ao assédio, a conversa começa a sair das redes sociais para chegar à justiça.

Sabemos que, para isso, é preciso combater um sistema ainda movido pela cultura do estupro – no Brasil, 40% da população acredita que mulheres precisam se dar o respeito para não serem estupradas, de acordo com o Datafolha. Contudo, alguns casos demonstram que a punição para assediadores é possível e tem acontecido.

Depois da injusta demissão da repórter do Portal iG que denunciou assédio por parte do cantor Biel, presenciamos a punição pelo ocorrido sendo direcionada ao único culpado: o agressor. Além de perder contratos para shows, campanhas e também espaço na mídia, ele foi condenado a pagar uma multa de R$ 4.400, estabelecida pelo Ministério Público para encerrar o processo. A quantia será doada para uma instituição de caridade.

Além de servir como exemplo para que estas violências não se repitam, as punições podem ajudar a manter as vítimas seguras, longe de seus agressores. Pensando nisso, a Universidade Estadual da Bahia (UNEB), afastou o professor de sociologia Alex Macedo por dois meses, enquanto as denúncias de assédio sexual de alunas do campus Eunápolis, no sul da Bahia, são investigadas.

A empresa americana de aviação Alaska Airlines expulsou um passageiro de um voo, pois todas as pessoas presentes no avião foram testemunhas do momento em que um sonoro “ooh, sexy” constrangeu uma comissária de bordo enquanto ela passava as instruções de segurança para a viagem. Uma das testemunhas, Amber Nelson, publicou a história no Facebook agradecendo à Alaska por ter levado o caso a sério e teve milhares de compartilhamentos.

Uma atitude esperada em um país que debate a cultura do estupro em função das acusações de assédio à Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos. Uma delas já está comprovada: um vídeo dos bastidores da participação de Trump no programa Access Hollywood em 2005, vazado na reta final da corrida eleitoral, mostra o empresário falando sobre como gosta de beijar ou agarrar mulheres sem consentimento – o mesmo vídeo também causou a suspensão do apresentador Billy Bush, que concorda e ri dos comentários de Trump na gravação.

Esta revelação fez Trump perder intenções de votos e até alianças dentro do próprio partido, que agora o pressiona para desistir da candidatura. Além disso, ele agora enfrenta outras acusações de assédio de mulheres que decidiram contar suas histórias motivadas pela possibilidade de ter suas vozes ouvidas.

Nunca antes na história vimos tantos homens sendo punidos profissional ou legalmente por atos de assédio. Por isso é tão importante contarmos nossas histórias e denunciarmos, pois assim colaboramos com a transformação de uma cultura de tolerância ao assédio, em busca de um entendimento de que este é um ato violento e inaceitável.

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Não há dúvidas de que o aborto, quinto maior causador de mortes maternas no Brasil, é um problema grave de saúde pública. Há diferentes estimativas sobre quantas mulheres abortam no país — segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são um milhão de brasileiras por ano, enquanto dados oficiais do governo apontam 205.855 internações decorrentes de abortos no país, a maioria delas por interrupção induzida. De acordo com a ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, o número de abortos induzidos é de quatro a cinco vezes maior que o de internações, já que nem todas as mulheres recorrem a hospitais e o fazem na ilegalidade, muitas vezes colocando sua vida em risco.

O Código Penal brasileiro prevê prisão de um a três anos para quem interrompe a gravidez propositalmente, com três exceções: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. Mesmo quando legal, não é simples ter acesso ao procedimento e, legal ou não, mulheres continuam abortando em situações precárias que muitas vezes levam à morte. Como mudar essa realidade? “Há vários caminhos para alterar esse regime perverso de enquadramento do aborto, mas o mais simples deles é afastar as religiões das leis: nenhuma mulher será forçada a fazer um aborto contra sua vontade, mas um estado laico deve garantir as formas de proteção à saúde que estão a sua disposição. Descriminalizar é proteger a saúde; descriminalizar é permitir que cada mulher, na intimidade de suas escolhas, tome suas decisões”, afirma a antropóloga Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética Anis.

Por isso, a luta pela legalização do aborto também é uma luta feminista. Queremos ter o direito de decisão sobre nossos próprios corpos independentemente de dogmas religiosos ou morais, queremos ter o direito a um tratamento de saúde. Mas como nós, mulheres da sociedade civil, podemos colaborar com essa luta? Apontamos três maneiras iniciais de fazer algo a respeito:

1) Às ruas!

No final do ano passado, dezenas de milhares de mulheres foram às ruas protestar contra o projeto de lei 5.069/2013, de autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta a interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro. O PL estabelece que os casos de estupro sejam obrigatoriamente notificados às autoridades e que as mulheres passem por um exame de corpo de delito. Protestar é importante porque mostramos que somos muitas, estamos unidas, e não vamos aceitar retrocessos.

2) Precisamos falar sobre aborto

Por ser um assunto tão tabu para a moral hegemônica, o aborto não é discutido abertamente como deveria. Muitas têm medo de serem julgadas ou até denunciadas ao falar sobre, mas uma em cada cinco mulheres já abortaram no Brasil. Ou seja, todo mundo conhece alguém que já abortou, mulheres comuns que se sentiram criminosas por não poder tomar uma decisão amparada pelo Estado. Falar sobre é importante para derrubar o mito de que aborto é algo que só “certas” mulheres fazem. “Vamos contar essas histórias de duas maneiras: rompendo a fantasia de que a mulher que aborto é uma outra distante da mulher comum, ela é a mulher comum, mas mostrando o como o aborto é um evento perturbador para as mulheres comuns pela ilegalidade. Precisamos falar mais do aborto como evento comum e retirá-lo dessa classificação ‘tabu’ imposta pelos homens para aumentar o pânico e controle. Aborto é um evento ordinário à vida reprodutiva das mulheres. Vergonhosa é sua criminalização”, afirma Debora.

3) Resistência

É inegável a manobra política e religiosa para transformar o aborto em uma questão moral. A começar pela pergunta “você é contra ou a favor do aborto?”: ninguém deve ser contra ou a favor de deixar pessoas tomarem decisões privadas sobre suas vidas seguindo sua religião ou não. A questão é: uma mulher que aborta deveria ser presa? Ou ainda: por que uma proteção à saúde da mulher é crime? “Temos que resistir, enfaticamente, às tentativas de transformar aborto em questão de opinião, pró ou contra, ou plebiscito. Nosso desafio é enquadrar o aborto em outros termos: queremos falar de mulheres, não de quando a vida humana tem início; queremos falar de tortura psicológica contra as mulheres, e não se a adoção deveria ser um dever; queremos falar de patriarcado, e não de religiões”, diz Débora. Você pode considerar errado uma mulher abortar e mesmo assim ser a favor da descriminalização do aborto para salvar vidas. O debate sobre o tema não exige respostas prontas e opinião formada sobre o início da vida ou sobre o aborto em si, já que a decisão pelo aborto é individual e íntima sem fórmulas sobre certo ou errado. Fato é que um estado democrático e laico deveria prover cuidados de saúde das mulheres e isso envolve disponibilizar o acesso ao aborto seguro a todas.

Quanto às enquetes do Senado, Débora acredita que é importante reagir e votar, mas que não é um agendamento feminista porque não é uma multidão que deveria decidir a vida privada de alguém. O que devemos fazer é enquadrar a discussão da nossa maneira e não transformar essas perguntas em enquetes, mas fazer delas agendas políticas para o feminismo. Vamos?


Arte: Victoria Pacimeo

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Até que ponto estamos dispostas a deixar pra lá? Até que ponto isso é uma escolha ou uma obrigação? A cantora Solange Knowles estava com sua família em um show da banda Kraftwerk, em Nova Orleans, Estados Unidos. Seu marido, filho, um amigo e ela estavam entre as pouquíssimas pessoas negras presentes no evento. E começaram a dançar, afinal, era um show de música eletrônica. Quatro senhoras brancas começaram a gritar para que eles se sentassem. Solange explicou que estavam dançando em um show. Foi quando começaram a jogar frutas (!) nas suas costas.

Ela escreveu um ensaio em seu site sobre a experiência, no qual descreve sua impossibilidade de reagir: “Você está cheia de raiva e em choque, compartilha essa história no Twitter, suas mãos tremem, porque você realmente deseja que essas mulheres sejam responsabilizadas de alguma forma. Você sabe que não adianta falar com elas sem que a situação saia de controle porque elas não têm qualquer respeito por você ou seu filho, e isso só vai terminar mal para você, e você sabe que não vale a pena envolver a polícia nisso.” Solange sabe que está em desvantagem por ser uma mulher negra sobre a qual recai o preconceituoso estereótipo de “barraqueiras”. Ela concluiu seu relato no Twitter dizendo: “Em espaços predominantemente brancos, não somos nós [negros] que ‘armamos barraco’. Conserte-se.”

Em outra situação, há alguns dias, a deputada Maria do Rosário presidia uma sessão da Comissão Geral na Câmara dos Deputados sobre Cultura do Estupro e Proteção às Vítimas quando o deputado Jair Bolsonaro, ignorando completamente sua autoridade, invade a mesa e passa a gritar em seu ouvido, exigindo equivocadamente um direito de resposta. Maria do Rosário não sai do sério e pede calma, tenta manter a ordem dos trabalhos e depois afirma que não será intimidada.

Na web, textos de cunho machista vira e mexe se tornam o assunto do dia e a internet divide-se entre aqueles que acham errado problematizar, pois assim eles ganham mais fama; os que problematizam; e outros que nem enxergam o machismo e acham tudo um exagero (grande maioria). Em todos os casos, parece que a melhor saída é sempre ficar em silêncio, pois qualquer reação a provocações deliberadas de pessoas privilegiadas cairá contra nós que fazemos partes de grupos minorizados. E, no fundo, às vezes nós ficamos mesmo é cansadas de tentar convencer o mundo inteiro de que somos humanas e merecemos respeito. Daí calamos.

Apesar disso, analisando esses e tantos outros casos, será que somos nós que criamos problemas ou são os outros que criam problemas com a gente? Vivemos em um mundo injusto, frequentemente saímos perdendo, e querem nos convencer de que não merecemos justiça – ou, ao menos, que é feio brigar por causa disso. Pega mal. E pode ser até que pegue, mas parte da nossa jornada como feministas é conhecer os momentos que valem a nossa indisposição e, assim, valorizar também o nosso autocuidado. #RaivaComRazão

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“O pai a abandonou grávida, mas ela não vai correr atrás da pensão porque é muito GUERREIRA e vai criar sem a ajuda dele”

“Ela é uma GUERREIRA, suportou anos de abuso por causa dos filhos.”

“Ela chegou à diretoria mesmo com todo machismo, *provou* ser tão capaz quanto os homens para chegar lá. Que GUERREIRA!”

É curioso como a nomenclatura de guerreira nesses casos traz pouca ou nenhuma reflexão sobre a guerra. Vamos falar abertamente? Nosso inimigo é o machismo. E é difícil negar que ele não esteja por trás da celebração de mulheres que, para vencê-lo, abriram mão dos seus próprios direitos. São essas mulheres, as que encontram caminhos alternativos às custas da sua própria integridade e paz de espírito, que são celebradas – como se não fosse necessário enfrentar e combater esse sistema de injustiças.

Para começar, não estamos de forma alguma dizendo que essas mulheres não são fortes e determinadas. Elas são – e muito. A gente sabe porque a luta contra o machismo é mesmo uma guerra diária e nós fazemos tudo o que está ao nosso alcance para vencê-la. Mas o pagamento da pensão é uma obrigação do pai – e chamar os homens à essa responsabilidade é um direito garantido por lei, não há demérito nenhum em fazê-lo. Nenhuma mulher deve sentir-se na obrigação de submeter-se à violência doméstica – precisamos de políticas públicas que as acolham, protejam e punam agressores. E chegar ao topo da carreira não deve ser mais sacrificante para uma mulher do que é para um homem – e são as empresas que devem proporcionar isso ativamente por meio de medidas que eliminem diferenças de gênero no ambiente de trabalho.

Nós aprendemos que é bom e bonito silenciar e superar os desafios “apesar de tudo”, mas as únicas que estão lidando com o dano físico, mental e financeiro disso tudo somos nós. É do nosso bolso (no qual já entra menos dinheiro que no dos homens) que sai o valor necessário para criar o filho, é a nossa carne que sofre com a violência física e é a nossa personalidade e a nossa saúde mental que estão em risco quando delas precisamos abdicar para ter sucesso profissional.

Essa conversa precisa mudar. Vamos celebrar as mulheres, sim, mas vamos falar sobre os seus verdadeiros inimigos nessa guerra e criar estratégias para combatê-los. Chega de carregarmos sozinhas o peso dessa injustiça e sermos parabenizadas por sermos fortes quando essa é a nossa única opção. Vamos ser fracas e sentir raiva e exigir, sempre, a dignidade que merecemos como seres humanos, sem precisar provar para ninguém que sabemos sofrer nesse silêncio que nunca nos protegeu. #RaivaComRazão

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primeiroassedio

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Para a minha fala no TEDxSão Paulo sobre a campanha Chega de Fiu Fiu, precisei juntar coragem. Contei, no Auditório do MASP, sobre minha história com violência sexual não apenas para o público de 450 pessoas, mas também para câmeras que eternizariam o momento – aos 11 anos, escutei comentários grotescos sobre meu corpo de um estranho na rua.

Falar sobre o #PrimeiroAssedio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. “O que será que eu fiz para provocar isso?”, me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Naquele mesmo palco, desabafei sobre isso: apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, só consegui voltar a falar sobre ele 16 anos depois. Aos 27 anos, ao ver, pela primeira vez em toda minha vida, uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos de forma pública, em post no Facebook, tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Decidi ali que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #primeiroassedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade! E, infelizmente, o caso do MasterChef Jr. jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

 

HASHTAG TRANSFORMAÇÃO

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.  Ela não é operada por um super vilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero,  que é preciso esquecer,  que “o que passou,  passou”,  e que reclamar disso é  “vitimismo”.  Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano,  então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.
É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse. Descobrem-se,  enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância.  E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag  #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo. Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

 

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Demos ali a largada em um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, até em 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

 

Os depoimentos recebidos até então pela campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio sexual em locais públicos já mostravam que o problema começava cedo, mas não há precedentes na quantidade de histórias recebidas sobre a prevalência desse problema na infância.  Recebemos depoimentos de mulheres que lembram ter passado por abusos com até cinco anos de idade.

 

Ao ler isso, a reação inicial de muitos é acreditar que ela foi vítima de um pedófilo, o que isola e minimiza a questão da cultura de pedofilia em que vivemos – retratada com louvor por seus próprios representantes na ocasião dos ataques à menina do programa de televisão.  Existe uma desinformação muito conveniente para os homens em relação à gravidade das “brincadeiras” com pedofilia,  estupro e assédio que os deixa confortáveis o suficiente para reproduzi-las sem se preocupar com as consequências.

ANÁLISE

Até a meia-noite de domingo, a hashtag foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos a constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

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A seguir, veja a cloud de palavras mais citadas nesse grupo de tweets:

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Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico – e grande parte dos crimes, 65%, são cometidos por conhecidos. Ou seja, aqueles em que mais deveríamos confiar. Adentramos, então, nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas.  Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem.  Nesse caso,  para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar,  mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe,  sim,  e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas,  mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

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Parece simples, mas não é. A fronteira entre o estupro e o sexo ainda está embaçada na cabeça de muita gente. O hit Blurred Lines, sucesso absoluto na voz do cantor Robin Thicke em parceria com o rapper Pharrell, é basicamente uma ode à violência sexual. Pra se ter uma ideia, o Projeto Unbreakable, que reúne fotos de vítimas de estupro segurando cartazes com o que seus agressores diziam na hora da violência, conseguiu recriar a letra da música apenas com imagens previamente publicadas.

A popularidade desse tipo de canção é um forte indício da identificação ou da conformidade do público com essa abordagem. “Eu sei que você quer”, “A maneira como me segura, deve estar querendo mais”: a canção (e a sociedade?) está lotada de suposições equivocadas sobre o desejo da mulher. Ela é considerada apenas parte interessante, mas não interessada, pois em nenhum momento perguntam o que ela quer.

Consentimento é a certeza de que as duas (ou mais) pessoas estão dispostas a participar de uma interação afetiva. Do flerte ao sexo, qualquer tipo de aproximação entre um casal só pode ter sucesso caso ambos estejam absolutamente certos do desejo do outro em estar ali. É preciso ter um entendimento inequívoco da vontade de ambos – tanto de um para o outro, quanto individualmente (ou seja, se VOCÊ quer mesmo que isso aconteça).

Relacionamentos, sejam de uma noite ou para a vida inteira, não devem ser encarados como uma obrigação, mas como uma escolha. Independente dos motivos que levam duas pessoas a ficar juntas, o ideal é que eles venham de dentro, que sejam genuínos e pessoais. Consentir é diferente de “deixar” ou “dar permissão”: é verdadeiramente querer e desejar que aquilo aconteça.

O consentimento só pode ser dado por livre e espontânea vontade. Todo ato íntimo proveniente de ameaça, coerção e intimidação é considerado estupro. Por isso, antes de continuarmos nosso papo sobre consentimento, precisamos primeiro acabar com alguns mitos sobre violência sexual:

Mito 1 – Estupro só acontece em vielas escuras e são cometidos por tarados malucos que vivem atrás de moitas

A maioria dos estupros é cometida por pessoas conhecidas pelas vítimas, muitas vezes em suas próprias casas e por seus parceiros íntimos. Por mais desagradável que esse pensamento seja, é preciso encarar a realidade de que é preciso muito mais que “evitar andar sozinha à noite” para evitar ser violentada.

Mito 2 – Mulheres provocam o estupro por se vestirem de maneira sexy

“Mas ela está pedindo!”. Não, ninguém pede para ser estuprada e nem todas as vítimas estão de saia curta. A única pessoa responsável por um estupro é o estuprador. Os homens (que geralmente são os aqueles percebidos como perpetrores desse tipo de violência) não são bestas selvagens e deveriam se ofender com a acusação de que não podem se controlar ao ver um decote. Uma mulher deve ser livre para vestir o que quiser sem temer ser violentada por isso.

Mito 3 – Mulheres que bebem ou se drogam estão pedindo pra ser estupradas

A vulnerabilidade que acompanha o entorpecimento não implica que a mulher esteja disponível para fazer sexo. Se ela está inconsciente ou parece incapaz de tomar uma decisão, tal como dar consentimento, é estupro. Beber não é crime, estupro sim.

Mito 4 –Se a vítima não gritou, fugiu ou se machucou, então não é estupro

Qualquer relação sexual sem consentimento é estupro. Não é necessário nada além disso para que essa situação configure como violência sexual. Em muitos casos, a vítima coopera com o estuprador por temer pela própria vida, ou por consequência de sua personalidade ou da situação, não têm coragem ou força de reagir, sentindo-se paralisadas pelo pavor. Esse tipo de questionamento transfere a responsabilidade de evitar o estupro para a vítima – e, como já dissemos anteriormente, o único culpado pelo estupro é o estuprador.

Mito 5 – Se a vítima não reclama ou dá queixa logo em seguida, não é estupro.

Um estupro pode provocar sentimentos de vergonha e culpa tão grandes que impedem a vítima de falar sobre o assunto. Ainda mais vivendo em uma sociedade que tenta justificar o estupro de todas as formas (vide esses mitos!) e constantemente transfere a culpa

Mito 6 – Estupro de prostituta não conta

A prostituição é baseada fundamentalmente no consenso em praticar atos sexuais em troca de dinheiro.  O que passa desse acordo é estupro.

 

Ok, então… como consentir e como obter consentimento?

Comunicação! Comunicação! Comunicação! Para ser eficaz, o consentimento deve ser expresso de maneira ativa e voluntária, por meio de palavras ou ações que indiquem o desejo mútuo de participar de uma atividade sexual. Confira abaixo algumas reflexões importantes sobre consentimento:

– Ambiguidade não ajuda em nada. Sim é sim e não é não. É importante é respeitar esses limites quando dados pelo seu parceiro ou parceira.

– Sentiu desconforto para dizer não? Sinal vermelho! É um forte indicativo de intimidação e medo – coisas que não combinam com momentos de intimidade nos quais devemos nos sentir seguras para expressar nossos desejos.

– Se o parceiro ou parceira está hesitando, o ideal é não ir adiante com o contato íntimo. Consentimento é ter absoluta certeza de que o que está acontecendo naquele momento é algo que os envolvidos desejam verdadeiramente. Talvez é não.

– Consentimento para um ato sexual específico não significa que todos as outras formas de interação íntima estão liberadas.

– Mesmo depois que o consentimento tenha se estabelecido entre o casal, ambos são livres para mudar de ideia em qualquer momento do ato sexual.

– Caso isso aconteça, seja por palavras ou ações, a relação deve ser interrompida imediatamente. Ainda que o “não” tenha soado meio indeciso ou confuso, ele deve ser respeitado como uma quebra do acordo prévio. E sem consentimento, sem sexo.

– Especialmente entre casais que já se relacionam a mais tempo, o consentimento deve ser obtido toda vez em que houver atividade sexual. A intimidade pode levar a deduções que nem sempre são corretas e, consequentemente, levar a experiências desagradáveis.

– Ser casado com a vítima não exime o marido de ser um criminoso. A inglesa Sarah Tetley, por exemplo, foi estuprada mais de 300 vezes pelo marido enquanto dormia. Ela trouxe sua história a público recentemente para aumentar a conscientização sobre o abuso.

– Silêncio, falta de resistência verbal ou física e relações anteriores não são sinônimos de consentimento, bem como tipos de roupa, flertar, um drink, um jantar ou qualquer outro gasto com alguém, também não significam que ele ou ela consentiu em fazer sexo com você.

– Usar drogas ou beber não impedem deliberadamente uma pessoa de consentir em fazer sexo, mas certos níveis de intoxicação a tornam incapaz de tomar essa decisão.

– Consentimento não se obtém com o uso de força (literal ou implicitamente), ameaças, intimidação e coerção.

– É sempre OK dizer não. Seja por que você não tá afim, por causa de religião, por ter medo de pegar uma doença, se quiser ir devagar ou só ver a pessoa como amigo e não como parceiro sexual. Se você acha que tem que consentir, então a escolha não é mais sua.

Sexo é pra ser divertido e empoderador. Falar sobre isso, também. Respeitar o consentimento é uma das responsabilidades de quem tem uma vida sexual ativa. Não se trata de preciosismo, mas de tomar cuidado para não ultrapassar os limites do seu parceiro e transformar um momento prazeroso em uma experiência traumática.

 


Arte:  Emily North

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Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

a garota do hímen ½ rompido

 

lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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olga cancer mama utero

olga cancer mama utero

 

O câncer de mama e o câncer de colo de útero são duas das principais causas de mortalidade das mulheres no Brasil. Esses temas deveriam ser considerados temas de extrema importância para a saúde pública, mas ainda são negligenciados. A Dra. Ana Luiza Antunes Faria escreveu sobre sua experiência como ginecologista e mastologista, abordando esses e outros temas relacionados à saúde da mulher:

Era para ser apenas mais uma tarde de consultas, mais uma rotina do trabalho, mas nem sempre é assim, a vida nos surpreende e me deparei com uma amiga querida, quase uma meia irmã, angustiada com um Papanicolau. Para mim, um exame de rastreamento de câncer de colo do útero tão simples, tão comum. Para ela, o exame que poderia mudar a vida. Ela veio cheia de angústias e medos inexplorados. Então escrevi esse texto na tentativa de tentar conversar um pouco sobre os medos e angústias que fazem parte da vida de muitas outras mulheres em relação à sua saúde.

Não vou começar falando sobre câncer. Vou começar falando sobre o Sistema Único de Saúde, o SUS.

Me apaixonei pelo SUS ainda na faculdade, pelas enormes possibilidades de aprendizado e tratamento que ele oferecia quando ainda era aluna de Medicina para mim e para a pequena população de Itajubá, Minas Gerais, que era atendida no hospital Escola do qual eu fazia parte — sim, em alguns lugares ele funciona. Ao prestar a prova de residência em São Paulo, somos obrigados a estudar o SUS e tive certeza de que é um sistema bem estruturado, talvez um dos sistemas de saúde mais bonitos no mundo.

O SUS é universal, gratuito e integrado. Poucos países no mundo possuem sistema de saúde com essas características. Ele é organizado de forma hierárquica, como uma pirâmide, para que todos tenham acesso a um médico de família, que conhece os problemas locais e a população, para ir se tornando cada vez mais complexo com hospitais terciários, conforme a necessidade de pessoas doentes, que deveriam ser minoria.

Tenho certeza de que aqui muitas pessoas estão virando a cara, quase tremendo na cadeira, pois estamos cansados de ver reportagens sobre pacientes em macas no corredor do hospital, sobre pacientes com câncer que não conseguem tratamento, e a pergunta naturalmente vem: por que o SUS não funciona na prática como deveria? E por que a saúde feminina é tão negligenciada?

A minha conclusão é simples: falta educação.

A população não sabe usar o SUS, não foram educados. Os médicos, que deveriam ser os educadores, muitas vezes também não sabem ou não respeitam o sistema. Os políticos desviam o dinheiro que deveria ir para a saúde pública e não investem no médico para fazer parte do SUS. Não há a educação e o investimento necessários em nenhuma etapa. E qual a consequência disso? Mal uso, desperdício do dinheiro, filas e pacientes mal assistidos.

O problema não é o SUS e sim o uso que fazemos dele. Vou explicar melhor: o rastreamento do câncer do colo do útero acontece através da colpocitologia oncótica (conhecido como exame Papanicolau). Ele é capaz de detectar células alteradas que podem sugerir câncer. Segundo o Ministério da Saúde no Brasil, as mulheres que possuem dois exames negativos (normais), deveriam fazer o seu exame a cada dois anos e não mais anualmente. Mas o que vemos é que as mesmas mulheres que aderem às campanhas são aquelas que retornam todo ano para coletar o “Papa”, mesmo que já tenham dois exames normais, enquanto há mulheres no Nordeste que nunca se submeteram ao exame. Ou seja, não estamos fazendo um rastreamento populacional e sim coletando exames no mesmo grupo de mulheres. Nesse caso, não reduziremos o câncer nem a mortalidade, não teremos condições para mudar a realidade. Diferentemente disso, na Holanda, as mulheres são convocadas pelo governo a coletar na data certa o seu exame de rotina. A data e período é estipulado pelo sistema e as mulheres aderem e aceitam, porque foram educadas, porque confiam no sistema de saúde.

Outro exemplo é o gasto que temos com ultrassonografias de mama e transvaginal. Diversos estudos demonstraram que ambos os exames não são os ideais para rastreamento de câncer ginecológico. Mas só no ano passado, foram gastos milhões de reais em ultrassonografias de mama, solicitadas pelo médico, por queixas como dor na mama e medo de câncer pela paciente. Esse pedido gerou mais consultas, mais exames e gastos, além de aumentar a fila para o exame para pacientes que realmente necessitam dele. Pacientes e sistema, todos saem perdendo.

Vejo que muitos exames são solicitados sem necessidade. As brasileiras que comparecem em consultas acreditam que o atendimento foi incompleto se não fizerem a ultrassonografia, e o médico, que está sobrecarregado com o número de atendimentos acaba por solicitar o exame, que passa a substituir o exame clínico, a conversa. E sobrecarrega ainda mais o sistema.

O dinheiro é mal gasto e no final a conta não fecha.

Além disso, a evolução da medicina diagnóstica, dos exames de laboratório, não pode nos fazer esquecer a relação médico/paciente. Exames são importantes, mas devem ser complementares. E não podemos nos tornar reféns deles.

Mamógrafos são mal distribuídos. A região sudeste concentra o maior número de aparelhos, mas eles estão quebrados e sem manutenção. E quando a paciente consegue realizar o exame, a dificuldade é conseguir um atendimento médico para mostrar o resultado — o que retarda o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama que está quase gritando naquela “chapa” da mamografia e o mais impressionante é que muitos desses tumores são palpáveis e poderiam ter sido diagnosticados durante o exame físico.

Em nosso país, na qual 30-40% dos cânceres de mama são diagnosticados em fase avançada, o exame clínico e o autoexame são tão importantes quanto a mamografia. Orientar a paciente a apalpar as mamas e mostrar para o seu médico nódulos que tenham notado pode sim mudar a realidade de várias mulheres no diagnóstico de câncer de mama no Brasil, onde nem todas conseguem realizar a mamografia.

Não há médicos nos postos de saúde de comunidade, não há médicos de família. E por quê? Pois os poucos que ainda se aventuram a fazer parte do SUS são esquecidos lá, sem plano de carreia, sem apoios para atualização profissional, sem metas dadas claras pelo governo. São médicos que, muitas vezes, não possuem ferramentas para realizar seu trabalho. Na Inglaterra, o governo distribuiu bônus quando o médico consegue diminuir a taxa de diabetes da população que assiste, o médico trabalha com plano de carreira estabelecido e, muitas vezes, perto de casa.

Diante dessa realidade, só me resta falar do políticos. Poucos deles usam o sistema de saúde, poucos o entendem e nós ficamos sem saber quais seriam as estratégias para melhorias. Mais médicos? Talvez, sim. Mais postos? Com certeza. Mas o mais importante: mais atendimento de qualidade, com menos desperdício — não importa se por cubanos ou brasileiros.

Estamos em ano de eleição e não cansamos de reclamar nos últimos dois anos sobre o sistema de saúde e a entrada de mais médicos estrangeiros. Vem aqui a minha pergunta: qual é o plano de saúde que seu candidato esta apresentando? O que ele vai fazer nos próximos anos, qual a meta, como acompanhar e cobrar? Você sabe? E aqui entra novamente a educação. Nós carecemos de educação política e é nessa hora que poderíamos lutar por mudanças, pois a ideia do SUS é linda. A gestão, não.

A negligência ao funcionamento ideal do SUS começa quando negligenciamos as eleições. O sistema público de saúde, que assegura a saúde da mulher, e a política andam de mãos dadas. Não nos esqueçamos disso. Não ignoremos isso. A responsabilidade é do governo, mas também de todas nós. Podemos começar a modificar isso com informação e com o nosso voto.

breastfeeding


 

Ana Luiza Antunes Faria é Ginecologista e Obstetra pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Mastologista da equipe do Hospital Perola Byington – Centro de Referência de Saúde da Mulher. Gostaria de entrevistá-la? Ana faz parte do banco de dados do projeto Entreviste Uma Mulher.  

Arte: Adara Sánchez Aguiano

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i love feminism

i love feminism

As leitoras da OLGA respondem: Como o feminismo mudou a sua vida?

E, conforme prometido, Jessyca Camila foi sorteada e será premiada com o livro Americanah, da escritora feminista Chimamanda Ngozi Adichie, cuja versão brasileira acaba de ser lançada pela Companhia das Letras.
Agradecemos a todas bravas mulheres que dividiram suas histórias com a gente.

*

Eu devia odiar o feminismo. Depois do feminismo, tudo ficou mais difícil. Situações rotineiras e antes automáticas passaram a ser mais difíceis. Toda a minha conduta, meus pensamentos, minhas crenças, meus (pre)conceitos, tudo passou a ser questionado. O riso já não sai mais pra maioria das piadas. A convivência com a família ficou mais difícil. Os namorados perdem a graça fácil. Soube do imenso sofrimento que eu causava a outras pessoas repetindo coisas que pra mim pareciam normais. Hoje tenho preocupação constante em não agravar seu sofrimento e sinto de perto o quão cruel é ser julgado por pessoas que acreditam conhecer a vontade divina. Tive que me afastar de muitas pessoas. Muitas pessoas se afastaram de mim. Passei a me magoar mais com as pessoas que eu amo. Mas, incrivelmente, a cada dia que eu olho pra trás e vejo que tenho trilhado um caminho sem volta, me sinto mais feliz. É impressionante como enxergar a opressão me trouxe a liberdade. Como enxergar as coisas além do meu umbigo e questionar minhas atitudes me trouxe a paz, pois sei que eu posso contribuir positivamente com outras pessoas, mesmo se for só um pouquinho por dia. Eu vou fazer 20 anos nessa sexta feira, e quando eu penso em feminismo só consigo pensar em agradecer por tê-lo descoberto ainda tão jovem. Saber que vou poder fundamentar toda minha vida e minhas relações com as pessoas de forma mais consciente, estruturada em pilares muito importantes que com o feminismo tenho construído, me deixa muito feliz. Escrevo esse pequeno relato bem emocionada, pois sou eternamente grata ao Think Olga por ser o estopim dessa mudança na minha vida, por ser o meu primeiro contato com o feminismo. São as coisas que eu tenho aprendido através do compartilhamento de conteúdo e experiências online que vou levar pra vida toda. — Jessyca Camila

*
Fui obrigada a amadurecer muito cedo, pois vivi em um ambiente de violência doméstica. Na infância, essa violência era menos ostensiva, por ser disfarçada de “educação de menina”: como se comportar, que roupas vestir, o que desejar. Na adolescência, quando comecei a questionar as imposições, a violência se tornou evidente e insuportável – toda a tentativa de quebrar os padrões era vista como afronta, e virou rotina escutar que “mulher apanha porque provoca”. Nesse momento, ao entrar em contato com pessoas que trabalhavam com direitos humanos, descobri o feminismo, movimento mudou a minha vida radicalmente: proporcionou força para combater a violência que eu vivenciava e me ensinou a buscar relacionamentos de qualidade. Hoje em dia, convivo com pessoas que me respeitam; escolho melhor as minhas companhias; tenho a chance de construir a minha subjetividade livremente. — Raissa Alencar de Sá Barbosa
*
Sou mulher, negra, cabelo crespo, bissexual, tive enormes problemas de autoestima. Sempre me sucumbia diante do machismo. Deixava que todos esses pitaco nas minhas relações. Eu tinha medo de encarar o mundo. Quando o feminismo entrou na minha vida, uma porta se abriu – não que os problemas tivessem acabado. Mas eu havia me encontrado. E me tornado mais forte. Se não fosse o feminismo, eu jamais conseguiria suportar- aquela fatídica vez em que fui estuprada. Se não fosse o feminismo, eu ainda estaria naturalizando todas as reproduções maldosas e opressoras desse sistema. Se não fosse o feminismo, eu não estaria aqui hoje. O feminismo vive em mim. E eu sou grata por isso – Sendo combativa, lutando pelo os meus direitos e pelos os direitos de todas as mulheres — Dayana Pinto
*
Em 2010, mudei de cidade para fazer o doutorado. Quase 4 meses depois me vi decidindo seguir com uma gravidez não-planejada. Aí potência do machismo caiu sobre mim com menos compaixão do que nunca: a orientadora propôs aborto, o programa de pós sonegou informações, descobri a violência obstétrica e vivi o assédio moral dentro da academia brasileira. Negra, de origem pobre, vítima de abuso sexual na infância, já sabia que ser respeitada custava muita luta. Mas foi em busca de fazer valer meu direito de escolher ser mãe e acadêmica com dignidade que o feminismo se tornou essencial. Me inundei de blogs e livros feministas, encontrei meus pares, a cura para minhas dores e força para impor ao mundo uma verdade: lugar de mulher é onde ela quiser. — Soraya S.
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Não sei se o texto se encaixa na proposta, pois é mais sobre como percebi que havia algo anormal na visão machista da minha família.. 🙂 Vou contar sobre quando decidi ser feminista, ainda que não soubesse explicar o que isso significava. Sempre passei os sábados na casa dos meus avós. Meu avô me pegava logo cedo, e eu ficava durante o dia com eles, até meus pais me buscarem à noite, enquanto jantava uma sopa fumegante e deliciosa. Foi assim durante anos, até que meu avô morreu e eu passei uns dias com a minha avó, para ela se acostumar com a nova rotina. Na primeira noite, eu separei os pratos e colheres para a janta, enquanto ela terminava o banho. De repente ela pegou com um guardanapo de pano e uma assadeira de pizza. Eu estranhei. Perguntei: “ué, não vamos tomar sopa?” E ela: “não, credo, eu odeio sopa”. Nunca mais me esqueci dessa frase, nem de tudo que eu sou e quero. — Camila Mendes
*
Eu devia ter uns 5 anos quando ia em festas com a minha avó e alguém me disse que eu não podia fazer algo pois eu já era uma ‘mocinha’. Por algum tempo tive um pouco de raiva dessa palavra ‘mocinha’. Com a chegada da menarca, vish: – adivinha quem já virou ‘mocinha’? Engraçado, eu fui moça desde os 5 anos e nunca adulta o suficiente para terem comigo uma conversa sobre a vida, sobre sexo. E a mocinha aqui, entrou na vida sexual sem saber que sexo é sobre prazer para os dois. Com o feminismo eu descobri que fui estuprada. Mas com o ele eu também descobri que posso sentir prazer e que não preciso ter vergonha disso. O feminismo me empoderou e me fez sentir na responsabilidade de informar pessoas, transformar meninas em mulheres, e não em mocinhas. — Isabela Magalhães
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O feminismo mudou minha vida, a princípio, de forma a aceitar-me como mulher. Que a liderança e iniciativa que eu sentia dentro de mim não era algo masculinizado, ou ligado ao gênero. Depois, a compreender minha sexualidade, meus desejos e vontades. Me fez preocupar com meus estudos, meu futuro e as consequências dele para outras pessoas. Me ajudou a escolher engenharia (mecânica) que, agora ainda mais que antes, me encanta e me faz perceber que não existe profissões ligadas a um certo gênero. Me fez abrir a mente para outros espaços, ideias e necessidades de outras pessoas em geral. As feministas me dão forças para aguentar os dias puxados e a insegurança nos espaços públicos. Sou eternamente grata, e isso me faz querer retribuir. — Maria Vitoria Sikora

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Em um ano, o feminismo fez por mim aquilo que a análise não conseguiu em vários pontos: me ajudou a começar a juntar os pedacinhos da minha autoestima quebrada. Eu sempre sofri com uma insegurança terrível, paralisante. Sempre me achei gorda, feia, chata, desinteressante, burra. O feminismo vem me ajudando, pouco a pouco, a ver beleza em mim mesma. As mulheres que conheci dentro do movimento me deram uma rede de apoio, me fizeram sentir parte de uma comunidade que só quer o meu bem. O movimento (e, especialmente, a militância) não é perfeito e tem muito a melhorar, mas eu só tenho a agradecer a todas as irmãs que vêm me ajudando a me mudar pra melhor — Camila Lafratta

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O feminismo me proporciona, diariamente, o que a sociedade fez questão de me tirar até então: segurança. Na rua, em família, no trabalho, em relacionamentos. Ele me deu degraus para enxergar além, me deu poderes que me trouxeram confiança e iluminou questões que eu não encontrava solução nas respostas da sociedade. O feminismo, para mim, é uma aula diária. É aprender a me reconhecer e reconhecer meu valor. É, mais ainda, aprender a reconhecer minhas irmãs e o valor de cada uma – sem julgamentos, sem questionamentos, sem diferenças. O feminismo me deixa segura porque ele me mostra: não estou sozinha. Mesmo a sociedade dizendo o oposto, ele grita mais alto: não estamos erradas. O feminismo me deu a chance de andar de mãos dadas com mulheres incríveis em uma mesma direção – para, juntas, abraçarmos todas as outras que precisarem. — Mayara Potenza

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Já fui uma pessoa mergulhada em ignorância. Já estive tão cega pelos meus privilégios que cheguei a a acreditar que oportunidade era algo que todas tinham, que só não alcançavam porque não queriam. Já achei que feminismo era algo ultrapassado, que não não existia mais espaço para ele na sociedade, que mulheres já tinham conquistado seu espaço. Eu errei. Errei de maneira grotesca, bati com a cara no fundo do poço. Levantei e vi as outras mulheres; vi pelo que elas passavam, vi como eu havia sido protegida e entendi: não acabou. Aprendi a ter empatia, o famoso se colocar nos pés dos outros, e aprendi que meu privilégio era ilusão. Eu sou todas aquelas mulheres, que elas são eu. Que o que machuca uma machuca todas, porque somos todas irmãs. — Maria Clara Madrigano

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Por três anos, tive uma empresa e convivi diariamente grande parte do tempo com homens. Nas reuniões de diretoria, geralmente, eu era a única mulher entre 10 ou 12 homens. Nos almoços no dia a dia, eu sempre estava com pelo menos uns 2 ou 3 homens e dificilmente com alguma mulher. Eram meus amigos e eu achava muito legal me considerar ‘um dos meninos’. Mas uma frase frequentemente me lembrava de que, na verdade, eu não era: ‘Tá de TPM?’. Quando tentava defender minhas opiniões nas reuniões de trabalho e ouvia isso, achava que realmente o problema era comigo. Os meninos não têm TPM e, por mais que uma discussão profissional entre homens seja tensa, por mais que cada um tenha seus caprichos e defenda veementemente suas posições, por mais que briguem feito crianças da quinta série, seu posicionamento assertivo não será sempre atribuído à oscilação dos seus hormônios. Isso me irritava, mas pra mim, no fundo eu deveria mesmo estar errada, eu não tinha tanta experiência quanto eles, eu não sabia me posicionar, eu deveria ter falado de outra forma, eu realmente deveria estar me exaltando por causa da influência das fases da lua. Um dos meus primeiros contatos com o feminismo foi por meio da campanha ‘Chega de Fiu Fiu’, mas não relacionei a campanha a essa palavra que eu mal tinha noção do que era. Na mesma época, participei de um evento sobre empreendedorismo feminino e, procurando saber mais sobre o assunto, logo me deparei com o livro da Sheryl Sandberg, que me mostrou como muitas das situações que vivi no trabalho eram machistas, apesar de ter trabalhado grande parte do tempo com equipes em que a maioria das pessoas eram mulheres. Com o ‘Faça acontecer’, percebi o que significa equidade entre os gêneros e que, por mais que a mulher tenha conquistado direitos e maior participação na sociedade, no fundo ela ainda é vista, em primeiro lugar, como uma ‘mulherzinha’, no sentido estereotipado da palavra, e precisa se esforçar mais e se provar melhor, mais capaz, mais séria, mais profissional do que qualquer homem para receber a mesma valorização, para ser ouvida. Hoje, meu olhar está mais apurado, tenho procurado identificar espaços onde a mulher poderia ter mais voz e refletir sobre o porque de elas não terem tanto destaque, mesmo desempenhando papéis semelhantes aos dos homens. Isso me levou ao desenvolvimento de um projeto para dar visibilidade a mulheres empreendedoras e líderes, que possam servir de exemplo e estimular outras a seguirem o mesmo caminho. Agora, ser a única mulher em uma sala cheia de homens é, pra mim, sinal de que algo está errado e não mais um motivo de orgulho e espero poder ajudar a mudar esse cenário tão comum. — Vivian Vianna

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Eu fui criada, como a maioria das mulheres, pra competir com outras mulheres. E só com as mulheres. Qual é mais bonita, quem tem a roupa mais descolada e o cabelo mais arrumado, quem arruma um namorado primeiro, quem casa primeiro. As mulheres têm dificuldade em se amar. A gente aprende desde cedo a apontar o dedo pra outras mulheres e a julgar a vida delas. O feminismo me ensinou a enxergar beleza no diferente e a julgar menos. O feminismo me trouxe amor. Amor próprio, amor pelos outros, mas, principalmente, pelas outras. Pelas mulheres. O feminismo me ensinou a amar as mulheres. — Mariana Arantes Fulfaro

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O meu feminismo me ensinou, acima de todos os ensinamentos, a me aceitar. Acredito que, mesmo quando eu não entendia muito o que era, o feminismo sempre esteve em mim. Sempre parecia que havia algo de errado, mas segundo a sociedade, era comigo. Mas quando eu descobri o feminismo, aprendi que o que estava errado é esta forma patriarcal que a sociedade pensa, e utiliza com relação ao comportamento e o convívio com as mulheres, e não eu. Eu aprendi a me aceitar do jeito que eu sou, que eu não devo respeito a ninguém porque ele é meu por direito. Descobri que eu não preciso mudar para conquistar meus objetivos profissionais e relacionamentos. E isso me deu confiança e amor próprio. Eu descobri quem eu realmente sou. E devo ao feminismo essa ciência dos meus gostos e dos meus objetivos na vida, e também das minhas opiniões. O feminismo me fez ir muito além da minha aceitação pessoal. O feminismo me fez aceitar a condição de ser mulher e ir para frente com isso. — Karoline Gomes

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O feminismo mudou minha vida na perspectiva de me fazer enxergar as mulheres não como inimigas, mas como parceiras, o que fez com que eu aumentasse o meu grupo de amigas. Me fez enxergar que muitas vezes estamos reféns do machismo mas, que podemos lutar contra ele. Mudou minha vida quando eu descobri que tenho apenas vinte anos mas, posso começar agora a fazer muito pela minha geração e pelas próximas, para que minha filha não precise sofrer por ser mulher, para que ela possa viver em um mundo em que ela tenha as mesmas oportunidades de um homem. O feminismo mudou minha vida porque a partir dele, eu descobri que meu corpo não define quem eu sou, o feminismo me ensinou que minhas ideias definem quem eu sou. — Amaralina do Carmo

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Eu sou feminista desde que me conheço por gente, pois nasci numa família de muitos homens, e sempre tive que ser meio ‘macho’ para sobreviver. Hoje sei que não é mais necessário. Minha mãe era dona de casa, e teve 8 filhos, era dependente financeiramente do meu pai e fazia alguns trabalhos (forrar botões, salgadinhos, doces), para ter os trocados dela. Antes de casar minha mãe era uma mulher independente também, e migrou de Pelotas (cidade Natal até Porto Alegre), lá ela foi morar com um tio, anos depois conheceu meu pai e se casou, porque foi atormentava pela família (anos 40 do século passado), tudo era muuuito difícil. Ela ajudava na igreja, e era a típica católica para ajudar os pobres, doentes, fracos, trabalhava que nem uma condenada com 8 filhos, uma época sem microondas, sem secadores, lavadora de pratos, etc. Enfim, minha mãe sempre me ensinou a ser indenpendente financeiramente, a estudar, e aos 19  anos sai de casa e nunca mais voltei. ela me ensinou a nunca aceitar desaforo de homens, e a me respeitar. Sinto que ser femista faz parte de mim, não conseguiria ser o contrário. Mas sempre tive que me provar no mundo dos homens. Hoje não tenho que provar mais nada, ser feminista é ser eu mesma e dizer o que penso em meu nome, e em nome de mulheres oprimidas por uma sociedade machista, doa a quem doar, minha voz não se calará. — Bebete Indarte

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Quando eu ainda não sabia o que significava a palavra feminismo e muito menos que este existia, uma vozinha lá no fundo do meu ser questionava: ‘’Por que só tu tens que ajudar nos afazeres domésticos se tem mais dois irmãos que podem fazer o mesmo?’’ ‘’Por que a tua minha mãe depende e sofre nas mãos de um homem?’’ Felizmente, conheci o movimento e percebi que existem mais mulheres com ideais semelhantes aos meus. E ainda mais, que tinham sofrido muito mais do que eu sofri. E aquela minha vozinha tornou-se um clamor desesperado ‘’Lute por você, mas, principalmente, por elas!’’ — Luciana Souza

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Demorei pra enviar porque não sabia pôr em palavras. O feminismo me tornou um ser humano completo, ainda que em constante construção. Minha educação não foi tão sexista quanto a das minhas amigas, então alguns conceitos deturpados como competição entre mulheres me eram desconhecidos. Acho que o feminismo deu um nome e um norte a algo que sempre senti e pelo o qual sempre defendi, mas nunca tinha sido por mim descrito. Ele me fez enxergar meus privilégios e a ausência de vários direitos que ainda matam mulheres e que nos tornam “cidadãs de segunda classe” pra muita gente. O feminismo é a chave de grilhões dolorosos que ainda mutilam e tiram a esperança das mulheres de serem consideradas seres humanos. Os tijolos machistas e racistas que nos constroem, porque infelizmente somos criadas neste mundo, foram e ainda estão sendo derrubados. Ser feminista também me fez ser tolerante comigo mesma. — Sybylla

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Não mudou, definiu! Virgem aos 22 anos, fui conhecer o feminismo na Faculdade (USP – ECA), com uma ginecologista porreta que nos prescrevia a pílula, com intervalos para o corpo descansar, e com a Marilena Chauí, falando sobre Spinoza. Nem imaginávamos o que era feminismo. Éramos felizes, fazíamos amor livre, sonhávamos com ética e felicidade.  Não éramos tristes, feias, feministas. Éramos mulheres querendo amar e ser amadas! — Andréa Nogueira

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Estava grávida pela segunda vez, mas não tinha filhos. Minha primeira gestação “não foi pra frente”, como dizem por aí, apesar de eu nunca ter entendido direito tal uso para essa expressão. Eu realizava consultas com o senhor obstetra, um desses figurões que deixam as mulheres constrangidas, com vontade de dizer “sim, senhor!” o tempo todo. Achava que gostava dele, apesar de ter tratado meu aborto como quem descarta um dente de leite. A culpa era minha. Sim, o mundo todo dizia que a culpa era minha, mesmo que ninguém usasse essas palavras. O feto não estava se alimentando direito, eu fiz muito exercício físico (kung fu não combina com garotas, menina!), meus hormônios estavam desregulados, meus genes não eram os melhores. Ouvi todo o tipo de coisa, e a culpa era minha, obviamente, e a sacanagem era que eu nem podia dizer em voz alta porque sabia que viria uma avalanche de olhares de pena. O senhor obstetra acompanhou todo a minha segunda gravidez. Sentia que eu ia lá só para provar a ele que podia ter um filho, podia levar uma gravidez até o fim. Ele recomendava meia o dia inteiro e eu passava mal de calor só de pensar. Não usei. Muito creme, nas nádegas, pernas, barriga e seios. Toneladas de creme. Passei, às vezes. Comer só o suficiente. Se der vontade de comer muito, não o faça, de jeito nenhum. Sentia tanto enjoo que a recomendação era inútil. O senhor obstetra dizia que meu marido precisava me desejar após a gravidez, então eu não podia ter varizes e estrias, nem ficar gorda. O que mais incomoda hoje é que eu achava que tinha sentido, na época. Quando estava de 36 semanas, percebi todos os sinais de que o senhor obstetra me colocaria numa sala de cirurgia e faria uma cesariana, a despeito do que fosse acontecer, e da minha vontade. Paciente não tem esse negócio de vontade! Conversei com uma amiga que eu percebia sempre engajada na causa por partos mais humanos. Podia jurar que eu já tinha dado risada dela numa roda de conversa, considerando-a uma maluquinha que pensa que está vivendo numa tribo indígena. Muito descolado para o meu gosto. Ela foi direto ao ponto: “você quer parir, de verdade?”. Sempre achei que a resposta fosse óbvia, que eu faria o que fosse melhor para meu filho e para mim. Eu só não sabia que esse papo de “que seja o melhor na hora” é uma grande armadilha. Tem muita gente envolvida, do senhor obstetra ao hospital e plano de saúde. Recebi um número de telefone que mudou minha vida. Conheci uma equipe de médicas humanizadas. Após duas semanas, meu filho nasceu. Durante o trabalho de parto, eu podia gritar, podia comer, podia andar, podia chorar, vomitar, xingar, bater. Eu pari meu menino. Senti seu cheiro e calor, dei o peito e ele mamou. Entendi que meu corpo podia e eu tinha todo o direito de viver aquele momento como desejasse. Vi respeito na minha equipe, em relação a mim e ao meu garoto. Sinto muito por tantas mulheres que sofrem violência obstétrica, sendo ridicularizadas, humilhadas e subjugadas. Elas não podem gritar, porque não gritaram na hora de fazer. Elas não podem tomar decisões, porque não são ninguém para fazer isso. Nada de parto normal porque pode rasgar tudo lá embaixo e como vai ser quando tiver relações? Devem preservar os seios, então não podem dar de mamar por muito tempo. Seios são para o marido. Não coma demais! Não esqueça as meias e cremes! Não grite! Não vá parir! Não amamente! … E leve maquiagem para sair bem nas fotos após a cirurgia! — Cláudia Coimbra

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Aos 14, grávida: me casaram. Ela nasceu e morreu 30 dias depois.Fingiram que nada aconteceu. Aos 21, me apaixonei, desabei em um romance que durou 8 anos. Um pesadelo. Aos 24, grávida. Pílulas: 2 cirurgias,6 meses de complicações.Culpa. Aos 27, grávida. Quis muito. Casei, agarrei o emprego pra sustentar filho e marido. Unha feia, bagunça, cansaço, culpas, amor, família. Mudamos pro sítio dele e saí do emprego. Ele procurou por uma travesti, perdi o desejo. Surgiu a misoginia. Me afundei em fumaça, frustração e humilhações diárias. Nunca pude tomar pílulas. Mais uma vez, gravidez. Escolhi não ter, ele pagou médico e distribuiu ofensas. Me expulsou de casa. Mergulhei no feminismo, joguei muita coisa fora, fui embora e renasci. — Thalita Prado

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Eu achava que minhas curvas eram feias e deviam ser escondidas. Eu achava que estar em um relacionamento abusivo era o preço a se pagar por ser amada. Eu achava que ser mulher era amar incondicionalmente. O feminismo mudou a minha vida. Eu entendi que não importa o que pensam ou o que querem que eu pense a respeito do meu corpo, mas como eu me relaciono com ele. Entendi que amar é diferente de se submeter à violência. Entendi, como se fosse loucura pensar isso antes, que sou humana.  O feminismo me mostrou que tem muita coisa fora do lugar no mundo, que há muito desrespeito e opressão escondida em atitudes quase banais, mas que posso lavar o rosto, erguer a cabeça, me amar e exigir respeito. — Eugenia Silva

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Desde que me entendi como feminista, minha raiva em relação à outras mulheres arrefeceu de uma maneira incrível. Não olho mais as meninas que passam procurando defeitos no seu modo de vestir, se maquiar, falar, sorrir. Acho todas bonitas, com ou sem maquiagem, de saia, calça ou bermuda, lendo um livro ou conversando com a amiga. Elogio internamente o “look do dia” e a coragem de, diariamente – e mesmo sem saber -,  colaborar com a causa, indo contra tudo que nos manda ficar quieta, ficar parada, obedecer, baixar a cabeça, ouvir desaforo, pegando trem, indo trabalhar, tomando suas decisões, vestindo o que prefere, ganhando seu dinheiro, estudando e vivendo a vida como ela deve ou pode ser vivida. — Livia Lara

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Um dia acreditei na monogamia instituída pelo patriarcado e nos papéis sociais de gênero. Eu pensava que deveria ser responsável pelas tarefas domésticas ainda que trabalhasse. Me sentia feliz em planejar o casamento com meu  primeiro namorado e por ele briguei com a minha melhor amiga e a odiei por disputa-lo comigo. Se não tivesse conhecido o feminismo jamais teria me graduado (casaria antes), os sonhos da pós graduação sequer teriam passado pela minha cabeça. Morar no Rio de Janeiro sozinha não seria algo desejado. Morar na Cidade do México para fazer um doutorado sanduiche seria uma proposta inusitada. E escrever e militar denunciando feminicídios no Brasil seria uma abstração. O feminismo mudou a minha vida. E pra muito melhor. — Izabel Solyszko

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Eu comecei a abrir meu mundo para o feminismo tardiamente, mas nunca tarde demais. Tenho dividido minhas descobertas com amigas, irmãs, porque quero que elas sintam a libertação que tenho descoberto. O feminismo é a luta pela igualdade dos sexos, mas, principalmente, pelo ideal de as mulheres serem vistas e tratadas como seres humanos. Parece extremo, exagerado, assumir que nossa realidade não é essa? Eu concordaria com o extremo disso até pouco tempo atrás, mas comecei a prestar atenção, a ler textos, a ler atitudes, a ler o que a publicidade ilustra como ideal do feminino, e o tanto que esses meios não nos representam. Sinto-me como que desperta, com os sentidos aguçados, é um novo mundo que se abriu. Depois de olhar para fora, e de ouvir e discutir com mulheres que estão nessa luta há mais tempo, comecei a olhar para mim mesma, e relembrei tantos e tantos momentos de autossabotagem e tristeza pelos quais passei, por “achar” que estava errada, inapropriada, ou não me dando ao respeito, quando poderia focar toda essa energia na tentativa de entender quem eu era. Inapropriado é um adjetivo de atitudes femininas, é inapropriado falar palavrão, é inapropriado transar sem compromisso, é inapropriado falar alto, é inapropriado ficar bêbada. Eu enxergava várias barreiras impostas às meninas, e como consequência entedia que os meninos eram responsáveis por ganhar seus privilégios, quando na verdade eles os recebiam como regra ao nascer com seus pintinhos. No mais, percebi que existe um mundo dentro de mim, e preciso aceitá-lo e compreendê-lo quanto antes, mas existe também um mundo de diferenças e injustiças para fora de mim. Eu sou branca, mulher, heterossexual, existe uma realidade ainda menos privilegiada que a minha. Pessoas morrem por causa do machismo, mas pessoas morrem por causa do racismo e pessoas morrem por causa da homofobia. Descobri que não é não levar na boa, quebrar o clima, ser muito radical, não achar graça nas piadas que tenham esses problemas sociais como base. De novo: pessoas estão morrendo, a piada não cabe aqui, ela é perigosa e perpetua esse problema. No feminismo eu descobri a sororidade, uma palavra que não deveria ser desconhecida, porque muito importante. Sororidade é a irmandade entre as mulheres. O contrário do que acontece na vida real, em que somos encorajadas a competir umas com as outras, desde muito novas. Consigo identificar essa competição na minha própria vida: com 7 anos eu já me sentia compelida a ser mais bonita para chamar a atenção do garotinho da minha sala, o mesmo garotinho que me chamou de gorda e quebrou meu pequeno coração em pedacinhos. Eu não sabia, naquele momento, que ele era um layout de babaca, minha certeza era que tinha algo errado comigo. Temos essa facilidade de abraçar nossas falhas, somos o erro, filhas de Eva, que mordeu a maçã e cagou tudo, nós somos ensinadas a pedir desculpas por qualquer coisa, antes mesmo de cogitarmos que não estamos erradas e, de novo, inadequadas. Somos isoladas em nossas pequenas ilhas, sem poder confiar umas nas outras, porque a outra pode roubar “nosso homem”. Nossas amizades crescem em cima dessa terra podre de desconfiança e competição, então seguimos soprando a vela da amiga, querendo sobressair como a mais gata na balada (!). Estou chegando aos 30, assim como a maioria das minhas amigas. Percebi há pouco que hoje nos elogiamos de forma sincera e com frequência, e isso não acontecia na adolescência, ainda estávamos naquele triste ciclo vicioso. Percebi como, juntas, somos mais fortes, juntas nos defendemos, nos empoderamos. O feminismo é um lugarzinho mais quente. — Vanessa Grigoletto

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Nunca achei que me encaixava como “feminista”, apesar de concordar com várias idéias propostas por esse movimento, até que li o discurso Chimamanda Ngoiz Adichie e me identifiquei. O feminismo mudou a ideia que eu tinha sobre mim, coisas como o movimento “chega de fiu-fiu”, a aceitação de como eu sou e de que eu posso ser mulher e dizer “não” , coisas simples que me fizeram pensar ” ei, você não está errada” mas, o melhor de tudo foi saber que eu não estou sozinha. — Samara Oliveira

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Na minha vida, o feminismo já era existente e muito presente mesmo sem eu saber direito. Desde muito pequena eu já não aceitava o fato de eu ter que lavar a louça e arrumar minhas coisas e meus primos homens não ou o porque eles tinham roupas e brinquedos considerados “de meninos” e eu não podia ter/brincar. Sem falar da minha infância e adolescência e o sofrimento da não aceitação do meu próprio corpo, eu o detestava e por muitas vezes eu desejei morrer ou ser homem por conta disto. Até que então, por meio de artigos e livros sobre o feminismo a ficha caiu, por completa. Sou eternamente grata por essa descoberta, mesmo que absolutamente óbvia e simples, eu comecei a olhar o mundo por um outro viés, enxergava coisas que antes seriam impossíveis de perceber, o machismo se tornou muito mais claro. Ganhei uma nova expectativa de vida, de que mulheres não estão fadadas a serem donas de casa e nem dependentes de seus maridos ou sequer precisam se casar (realidade de praticamente todas as mulheres da minha família), entendi que sou linda exatamente do jeito que sou e fiz tudo isso sozinha, pois meus familiares são totalmente machistas. Sei que sem o feminismo, eu seria incapaz de compreender o motivo de eu não concordar com várias coisas. Seria incapaz de enxergar o abuso sexual implícito de cada comercial de cerveja, seria incapaz de compreender o porque que a lesbofobia e a homofobia são tão recorrentes no mundo e várias outras coisas que eu apenas percebi depois que entendi que eu já era feminista antes mesmo de saber o que o feminismo significava. — Geovana Silva.

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Respondo logo no início. Mudou para melhor, muito melhor! Sofri violência sexual. Uma marca para a vida. Mas para o meu namorado (hoje ex) foi como se contasse um fato qualquer da vida. E isso doeu. Assim como doeu quando ele disse que gostava de me “desfilar”, porque sou bonita e causaria inveja. Fui um objeto que foi dopado e violentado por um homem, e depois um objeto de exposição para outro. Não queria ser um objeto, não sou coisa pra se mostrar, sou pessoa para respeitar! Cansada disso, o feminismo foi entrando de mansinho, de maneira orgânica na minha vida, mostrando que não sou prêmio para exibição, que não sou obrigada a aceitar as cantadas na rua, a desigualdade, a coisificação. O feminismo me levou a buscar a igualdade, a vencer preconceitos, a perceber a força que eu tenho para mudar. Buscar a igualdade da mulher me fez perceber a sociedade excludente, não somente com a mulher, mas com a cor e opção sexual. O feminismo me fez querer a igualdade da mulher, do negro do LGBT. Me fez entender o que é igualdade e como deve ser. Outro dia mesmo em uma conversa com um homem, quando disse que queremos direitos iguais, ouço em resposta: “mais?” Sim, mais. Quero o direito de sair de casa vestida de moletom ou de shortinho e decote. Quero o direito de ser tratada de forma igual e de ter um salário igual ao dos homens no ambiente de trabalho. Quero o direito de não usar maquiagem porque a mídia diz que preciso. Quero o direito de andar na rua sem ouvir cantadas, sem ser objeto. Quero o direito de me emputecer e estar de mau-humor e não falarem que é TPM. Quero o direito de namorar um homem. E depois uma mulher. E quero o direito de ser respeitada por isso. Quero o direito de transar com quem eu quiser. E não ser desumanizada. Quero o direito de não transar com ninguém, e não ser chamada de puritana. Quero o direito de ser dona de casa por opção. E não ser chamada de Amélia. Quero o direito de ser vista como igual. Quero o direito aos meus direitos. E devo isso ao feminismo. Devo também o fato de nunca mais falar que uma pessoa fraca é “mulherzinha” ou “veadinho”, ou falar que trabalho mal feito é “trabalho de preto”. Devo ao feminismo a perda dos meus preconceitos, dos dogmas pré-concebidos, das ofensas que sempre tratei como uma piada ou brincadeira. Antes não notava o machismo, e hoje é impossível não vê-lo. Não percebia que ele está atrás até do que parece um elogio no ambiente de trabalho, já que o “perfeito, querida, muito bem” não seria “perfeito, querido, muito bem”.  Mas acho que a maior dívida que tenho com o feminismo é a união de todas estas percepções e noções, é a realização da minha força como mulher, o meu empoderamento que segue dia após dia, com a sororidade, que me levou a conhecer muitos feminismos, e todos, mesmo que de forma diferente, buscando a mesma coisa. A IGUALDADE. — Thanee Degasperi

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O meu feminismo não é só meu, é de tod@s. É daquelas que se culpam por não ser  ‘a namorada perfeita’ ou a gostosa do pedaço. É dos homens que oprimem por mero “costume”, do garoto que não quer ser o “macho alfa”, é de HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS, de TOD@S. Meu feminismo é ABERTO, acolhe aos pais, mães, filhos, filhas e qualquer um que deseje uma sociedade mais justa, mais igualitária. O meu feminismo é DIALÉTICO, argumentativo, e cheio de debates questionadores que buscam mudar as estruturas de vida de nossa sociedade. O meu feminismo é LIBERTÁRIO,  removedor de estigmas e conflitos internos que nos amarram à uma imagem, um modo de agir, de pensar, de sentir. O meu feminismo me diz pra ser quem eu sou e não o que os demais querem que eu seja. No meu feminismo, seres humanos são PESSOAS, seu desenvolvimento vai muito além de seu gênero, sexualidade ou genitália. O meu feminismo ensinou-me sobre liberdade, equidade, SORORIDADE: palavra  bonita, diferente, mas que envolve sentimentos que não foram cultivados, até então, em minha vida. Ele me abriu os olhos, a mente e o coração. Mudou minha vida, meu relacionamento com o mundo e comigo mesma, criou laços com diferentes causas e me motivou ao ativismo. Meu feminismo é sobre AMOR… à mim mesma, ao meu corpo, às minhas escolhas e ao meu papel no mundo. É sobre EMPATIA, me faz compreender a dor do meu semelhante, me solidariza com el@, independente de ser algo distante da minha vida. Me faz sentir as amarras das minhas companheiras, por mais que não sejam as mesmas que me prendem. Assim, sinto as dores do parto violento sem nunca ter gestado, a homofobia sem  que eu questione minha sexualidade e o racismo sem que  considere minha cor. O meu feminismo é COLETIVO, em todos os sentidos. Na academia, leva o nome de LivraElas, coletivo feminista dentro da Universidade; na prática me leva às ruas pra reivindicar direitos e conscientizar sobre a revolução. O meu feminismo é REVOLUCIONÁRIO, quebra paradigmas, abala estruturas e construiu internamente o espaço para o florescimento de uma nova flor:  uma nova Florencia. O meu feminismo não é NORMAL, nem meu, nem possui VERDADES. Meu feminismo é só mais uma forma de ver o mundo sem preconceito, limitações ou qualquer coisa que me impeça de ser, naturalmente, EU. No meu feminismo somos livres, somos leves, somos loucas, somos tudo aquilo que queremos ser, ou apenas SERES HUMANOS. — Florencia Guarch
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O feminismo mudou a minha vida por que me disse o óbvio, mas que às vezes é tão difícil de enxergar. Me conscientizou de que não é normal eu ser subjulgada pelo simples fato de ser mulher; que o machismo mata (literalmente); que homens e mulheres são diferentes mas não devem ser desiguais, que o patriarcado ainda está ai, escolhendo as roupas que vestimos, os lugares por onde andamos, as profissões que exercemos, com quem e quando podemos gozar, até os sonhos que podemos (ou não) sonhar. O feminismo mudou  a minha vida ao passo que me deu a missão de mudar essa realidade tão perversa que nos cerca, me conscientizando que todas nós podemos ser uma célula revolucionária por um mundo melhor para as nossas filhas, netas e demais gerações.  — Amanda Carneiro
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O meu feminismo se parece como dar à luz a uma nova personalidade. Com a capacidade de assumir os acontecimentos do passado, iluminar e adotar um sentido que antes não existiam. Lembrando a primeira vez que vi um cara com uma ereção. Eu tinha 12 anos e fui obrigada a vê-lo. Voltava da escola pelos becos de um bairro tranquilo em Buenos Aires e ele me chamou insistentemente do outro lado da rua. O pequeno horror foi suavizado pela minha mãe: “coisas que acontecem”, disse, enquanto eu não parava de chorar. Meu feminismo aparece quando não aceito o assédio como algo normal que irá suceder ad eternum, algo que muitas outras meninas vivenciam e aceitam por que “sempre foi assim”. Então meu feminismo emerge em cada cantinho onde posso desnaturalizar uma injustiça — Florencia Goldsman
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Eu era uma Livia completamente diferente da que eu sou hoje. A minha visão de mundo, desde que me reconheci feminista e comecei a estudar e ler sobre, mudaram completamente. No que diz respeito ao próprio machismo, mas também, ao racismo, ao classicismo, a homofobia. Nunca fui nada disso, mas eu entendi o que é lutar e porque lutar por isso e pra isso. Sigamos a luta. Eles não passarão. — Livia Siqueira
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O feminismo me fez e me faz mais forte a cada dia. Mais forte pra olhar pra mim e perceber quando sou oprimida, mais forte pra olhar pro lado e perceber que minha irmã é oprimida, mais forte pra erguer a cabeça e resistir à opressão: me trouxe a sororidade quando mais precisei. Vivi um relacionamento opressor sem perceber, e não foi fácil conseguir olhar pra mim, pro meu companheiro, e admitir isso; sem o feminismo talvez eu não resistisse tão fortemente, me vitimizasse e aceitasse meu destino de “ser mulher”, aceitasse a natureza do homem e a minha loucura imposta por sua razão, me calasse diante do patriarcado e aprisionasse minha liberdade, que hoje quero plena. Sem o feminismo, eu teria perdido minha essência de ser livre e de ser mulher. — Isadora Laguna Soares
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O feminismo me fez menina, moça, mulher. Me acordou e abriu meu olhos. Parei de olhar pro meu próprio umbigo, e enxerguei o mundo em geral, não só o das mulheres e também de toda a minoria. Me tornei gente e aprendi a ter força e nao me deixa calar. Agradeço sempre por ter conhecido o feminismo. Apesar de ser nova ja sei a importância dele pro mundo. Espero aprender cada vez mais com ele. O feminismo e toda essa luta por igualdade é minha vida. — Enilse Viriato
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Eu conheci o feminismo por meio da minha irmã, após termos uma conturbada discussão com o nosso pai. Depois do calor do momento, fomos conversando, e mencionei que eu e minhas colegas de classe vínhamos passando ( e ainda passamos) por situações machistas. E, depois  do que minha irmã contou, eu me modifiquei e fui percebendo várias coisas. Quero listar duas delas aqui, pois são de suma importância na minha vida:
1- Desde cedo, muitas meninas vão recebendo de presente o mesmo tipo de presente: cor de rosa, que as ensinam a cuidar da casa e blá blá blá. Tipo, mulheres são muito mais que isso, mulheres são independentes, tem autonomia e habilidade para ser muito mais do que uma simples dona de casa. Deviam ensinar isso as nossas meninas.
2-Existe beleza de todas as formas (e mulheres se arrumam para si mesmas, não para agradar os outros) . Muitas revistas de adolescentes têm aquele padrão da garota magérrima, branca.  Alôô! Desde quando é assim? Cada menina é bonita de um jeito, não importa o peso, não importa a cor. Infelizmente, isso não é muito divulgado atualmente. Chega de esteriótipos! — Melissa D’Arienzo
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Entrei de cabeça num relacionamento com um cara bem mais velho, que se mostrou abusivo. Aconteceram tantas coisas ruins e ele me fez tanto mal que passei a falar cada vez menos. Comecei a me fechar, como numa “concha”, como dizia minha mãe – que até tentou me salvar disso, mas eu estava com a autoestima tão baixa, tão carente e tão envolvida que não permiti que ela me ajudasse. Chegou uma hora que parei de falar. Parei. Comecei a travar. Não conseguia mais debater, defender um ponto de vista, colocar minha opinião. Mesmo com a mente fervilhando, mesmo com bons argumentos, eu travava. Suava frio, a pressão baixava e eu não conseguia mais falar. Parecia um pesadelo. E eu fiquei assim por quase 10 anos. (…) Um dia apareceu na tl do meu facebook um convite para a Marcha das Vadias na minha cidade. Atraída pelo nome, fui pesquisar do que se tratava. Meu coração começou a bater forte, me fazia lembrar os protestos que eu organizava na adolescência. Chamei várias amigas para irem comigo, mas nenhuma aceitou. No dia da Marcha, não tinha com quem deixar minha filha nem uma amiga com quem ir. Pensei em desistir, mas refletindo percebi que tinha na minha filha de apenas 8 meses a melhor companhia que eu poderia desejar. Coloquei ela no carrinho e fui para a concentração. Ver todas aquelas moças empoderadas, gritando frases feministas, fazendo cartazes… aquilo tudo mexeu demais comigo. Foi ali que me dei conta de que eu era feminista, de que eu sou feminista! Muitas delas vieram conversar comigo, trocamos ideias sobre o feminismo, mas mais ouvi do que falei. Além de ainda estar travada, estava emocionada demais pra conseguir dizer muito. A hora do almoço se aproximava e a marcha propriamente dita não começava. Comecei a ficar aflita porque não queria ir embora, queria fazer parte daquilo ali, mas precisava fazer o almoço da minha filha. Vendo que não tinha como ficar mais, decidi ir embora com um cartaz pregado no carrinho dela e andar bem devagar. “Por um mundo onde minha filha seja livre”, escrevi numa cartolina. Fiquei mais um pouco e então comecei minha marcha simbólica e silenciosa. Nossa marcha. As pessoas olhavam curiosas, me paravam para perguntar do que se tratava, pediam para fotografar. E então começaram a me rodear, pra saber mais. E eu comecei a falar. Comecei a explicar, a dizer, a debater, a rebater. Só me dei conta disso quando já estava chegando perto de casa. Eu tinha falado pra várias pessoas o que eu penso, sinto, falado sobre o que eu acredito. Eu tinha falado. Não conseguia acreditar. Fui cuidar da comida e da Olívia, só à noite consegui sentar no computador para ver as notícias e os comentários sobre a Marcha. Pra minha surpresa, a foto do cartaz no carrinho estava em diversos grupos, páginas e blogs. Pessoas diferentes fotografaram e publicaram a foto, que foi compartilhada com frases muito bacanas. Aquilo me emocionou demais e me encheu de uma esperança absurda, coisa que eu não sentia há tanto tempo que não sabia quanto. Se eu tinha medo pela minha filha, agora também tinha esperança e começava a ter coragem pra lutar e tentar mudar as coisas. Porque eu podia sim me unir a outras mulheres e lutar por um mundo melhor pra todas nós. A partir dali, as coisas mudaram muito. Eu voltei a falar e me posicionar e, claro, isso não passou despercebido. As pessoas ficaram muito surpresas e até assustadas com essa “nova” atitude, não compreendiam. Passei a ser tratada com hostilidade e agressividade, inclusive por familiares, que me viam como uma feminista louca e histérica. Foi tão opressor que a coragem foi sumindo, comecei a me sentir desanimada e com medo de viver um novo inferno. Eu estava quase desistindo dessa minha voz quando no espaço de apenas uma semana presenciei três episódios de violência contra mulheres nos quais pude de alguma forma interferir e até ajudar. Entendi que não tinha mais como voltar atrás e me calar, não dava pra desistir da minha voz e do feminismo. Por mim, por minha filha e pelas outras mulheres. Decidi então escrever um longo post no Facebook sobre isso e pedi a todos meus contatos que lessem. Entre muitas coisas, escrevi: “Deixei que me silenciassem uma vez, mas isso não vai acontecer de novo. Se você não concorda com o que digo ou escrevo, sinta-se à vontade para se afastar, me tirar do seu feed ou me deletar. Eu não vou parar de falar”. Amizades se desfizeram, mas por incrível que pareça as coisas só melhoraram a partir dali. O feminismo devolveu minha voz, e junto com ela parte do que eu sou, da minha essência. Me devolveu a esperança, a coragem e a força pra lutar por aquilo que acredito. Um mês depois da Marcha, com apenas 9 meses, minha filha começou a falar. Achei simbólico. Uma das primeiras coisas que ensinei ela a dizer foi: não é não. E agora, com o feminismo, espero ajuda-la a jamais se fazer silenciar. — Ana Barcellos
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Quando um amigo me deu o livro que abordava a temática do feminismo, jamais poderia imaginar a bomba que colocava em minhas mãos. A leitura lenta, preguiçosa, a princípio se mostrava só como um interesse meramente didático. Decidi, com o tempo, pesquisar mais, afinal, uma semente tinha sido brotada. Curti algumas páginas no facebook e comecei a ler todo o material que aparecia e foi assim que o feminismo mudou de lado, cá na cuca. E do interesse histórico/pedagógico, foi surgindo uma dúvida aqui, uma crítica ali e então, percebi, que eu já estava absurdamente envolvida com essa causa que é minha, só esteve amortecida todo esse tempo. — Jacqueline Lino Cavalcante
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​O meu feminismo despertou a busca por novas ideias. Ideias contrarias as de que cresci sonhando. Sonhava em casar, ter filhos, me dedicar ao marido. Com o amadurecimento, já a partir de 30 me deparei com outra realidade. 1°) E se eu não quiser ter filhos?​ A reposta da sociedade quase unanime: toda mulher precisa ter filhos. 2°) E se eu quiser me separar? A reposta da sociedade era sempre você precisa mudar seu pensamento, pois sua vida de casada é ótima, com todo mundo é assim mesmo. Em fim: porque não ser independente, ter sonhos diferentes, buscar minha felicidade trabalhando só pra mim, com tempo pra fazer tudo como quero, na hora em que quero. Sem compromisso com filhos ou marido, dedicando meu amor ao que eu realmente gosto? Daí descobri há apenas dois anos: SOU FEMINISTA. Me reconheci, e procuro acompanhar o estilo de vida de quem também é assim. Resultado: estou feliz! — Debinha
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