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Por mais absurdo que possa parecer, tem se tornado cada vez mais comum ter homens ocupando espaço de mulheres em premiações segmentadas. A nomeação de Bono Vox, vocalista da banda U2, no topo da lista de Mulheres do Ano 2016 da revista Glamour americana é um grande exemplo disso.

Mas homens já não ganham muitos prêmios? A revista disse não concordar: “Essa mentalidade começou a ficar defasada. Existem tantos homens fazendo coisas maravilhosas pelas mulheres hoje em dia”.

Para nós, ao invés de justificar, esta declaração só gerou mais questionamentos:

– Se hoje homens estão colaborando para a igualdade de gêneros, será que não devemos agradecer às mulheres que iniciaram e mantém essa luta?
– Será que, nessa posição de privilégio, Bono Vox e os “outros homens” não estão fazendo mais do que sua obrigação, ao colaborar com (e não protagonizar) as lutas das mulheres?
– Chegamos no mesmo patamar de oportunidades que os homens, a ponto de não mais precisarmos de premiações segmentadas?

Sabemos as respostas para todas essas perguntas e é por isso que, em 2013, iniciamos a lista de Mulheres Inspiradoras da Think Olga, onde não buscamos premiar, tampouco classificar as nomeadas, mas sim usar nosso espaço para exaltar trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres, como forma de combater a falta de reconhecimento.

E, acompanhando tantas mulheres inspiradoras em suas jornadas, podemos dizer que, ainda hoje, cada nova conquista merece méritos. Entre estes feitos, está o de tornar o feminismo e a luta por direitos iguais tão populares a ponto de engajar também os homens na causa.

Se os homens têm encontrado maneiras de ocupar listas segmentadas, pode-se imaginar a discrepância em prêmios mistos. Em uma das maiores honrarias da humanidade, o Prêmio Nobel, 97% dos vencedores na categoria de ciências são homens, uma área onde a participação feminina vem crescendo, mas ainda não o suficiente para mudar este quadro de representatividade.

Já na categoria Literatura, somente 14 mulheres foram agraciadas com o prêmio  em 116 anos. No ano passado, a academia escolheu Bob Dylan, o primeiro músico nomeado para Literatura em 103 anos, e foi questionada quanto às voltas dadas para premiar homens quando há tantas mulheres na mesma área buscando visibilidade. No fim das contas, uma mulher, a cantora e compositora Patti Smith, foi quem recebeu a honraria em nome de Bob Dylan, que não estava presente na cerimônia de entrega.  

Um refresco de diversidade aparece  na categoria Paz, a que mais cresce em nomeações femininas. E, em 2017, temos a chance de ter uma representante brasileira entre os indicados e, melhor ainda, pautar a importância da luta feminista, com Maria da Penha e seu trabalho em prol dos direitos e proteção das mulheres vítimas de violência: http://bit.ly/2qk4QMR.

Contudo, quando se traz um recorte social para a questão do reconhecimento, nota-se que ainda estamos longe da equiparação. Enquanto, para Bono Vox, ser o primeiro homem do ano da Revista Glamour foi um ato tido como histórico, Viola Davis de fato fez história ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática na história da premiação em 2015, demonstrando que mesmo em uma categoria segmentada, as oportunidades não são as mesmas, como ela disse em seu discurso: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”  

Quando o assunto é música, as oportunidades que são dadas na maior premiação do mundo, o Grammy, não passam de categorização e limitação de artistas negras a estereótipos. No ano passado, Beyoncé levou “Melhor Álbum Urbano” pelo trabalho musical e audiovisual sobre identidade e ancestralidade negra que é “Lemonade”. Já a maior categoria da noite, “Álbum do Ano”, ficou para a britânica Adele que disse, em seu discurso, ter sido injusto não competir com Beyoncé, dedicando o prêmio a ela.

E até em listas menos prestigiadas, como a “O que é sexy” da marca de lingerie Victoria’s Secret, não pensa em mulheres negras. Em 2017, a marca falhou na oportunidade de redefinir padrões de beleza, nomeando somente Vanessa Hudgens, Priyanka Chopra e Jamie Chung como não-brancas.

Por isso, iniciativas como o Troféu Raça Negra ou ainda a lista de #25WebNegras do site Blogueiras Negras, que destaca mulheres negras que usam a internet para terem suas vozes ouvidas em diversas áreas, ainda são tão necessárias.  

A Victoria’s Secret ainda demonstrou como não falar de “diversidade de gênero” ao nomear, nesta lista só de mulheres, um homem cisgênero, James Corden, como apresentador de TV mais sexy. Não há mulheres ou homens transgêneros em nenhuma outra categoria. E, em resposta às críticas, a marca se manteve confiante ao dizer: “Isto é o que significa sexy para nós”.

Já na atualização que a MTV americana deu para a antiga premiação MTV Movie Awards, transformando-a em “MTV Movie & TV Awards” contou com mais inovação do que somente a inclusão de entretenimento de televisão e streaming para os nomeados. Nesta nova versão, as categorias de atuação não são separadas por gênero (https://glo.bo/2pQdAqM) e de primeira, duas garotas levaram o prêmio em formato de balde de pipoca para casa: Emma Watson, pela performance em A Bela e a Fera, desbancou os favoritos James McAvoy e Hugh Jackman na categoria “Atuação em Filmes”. E Millie Bobby Brown, a Eleven da série Stranger Things, de apenas 13 anos, venceu na categoria “Atuação em uma série de televisão”, atores consagrados em Game of Thrones e The Walking Dead.

Já vivemos em uma sociedade fomentada pelo trabalho de mulheres tanto quanto os trabalhos  de homens. Contudo, nem todos podem enxergar isso com clareza, já que o que as revistas e premiações destacam nem sempre representam de fato a pluralidade de nossa sociedade. Por isso, para que possamos um dia ver mais mulheres nomeadas, precisamos passar por listas segmentadas que lhes dêem destaque e não que colaborem para o apagamento de seus nomes.

Nos sentimos honradas por estarmos entre as finalistas do Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico, pois sabemos que estamos ao lado de mulheres inspiradoras de nossa área e em um ambiente que as reconhece.

A verdade é que a sociedade e os mercados devem muito às mulheres, por isso não vemos porque deixar de celebrar suas conquistas mesmo em um, ainda utópico, mundo igualitário. Afinal, esse mundo igualitário só será possível por conta delas.

Arte: Eleanor Shakespeare.

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Em um debate sobre representatividade negra e racismo na mídia, uma pessoa na plateia questionou às presentes: “Como fazer uma comunicação justa e inclusiva para mulheres negras?”

Embora eu estivesse mediando a conversa, sussurrei para minha colega que ela cuidasse do assunto, pois era delicado para mim. Como jornalista, descobri a resposta para esta pergunta já na faculdade e acreditei que poderia colocá-la em prática no mercado de trabalho. Mas logo me deparei com uma realidade de oportunidades negadas pelo racismo institucional, responsável por moldar e disseminar estereótipos de pessoas negras e não suas histórias. Precisei enfrentar muitas barreiras até me encontrar no jornalismo independente.

Logo, a pergunta me trouxe, imediatamente, lembranças e sentimentos, entre eles de raiva e impotência. Minha primeira reação foi me proteger. Porém, nem sempre um assunto que consideramos um gatilho faz somente enfraquecer. Naquele momento, me veio exatamente o contrário e, pela primeira vez em muito tempo, tive coragem de enfrentar colegas de profissão e responder: “Chame mulheres negras para falar. Abra espaço para elas escreverem, contarem suas histórias, falarem sobre si mesmas”.

Parece uma solução tão simples, mas na prática, é dizer, na cara de editoras e jornalistas, que eles são racistas em suas produções de conteúdo, que, muitas vezes, pautam questões raciais em função de uma cobrança da militâncias mas não o fazem de maneira correta. Isso acontece pois não ouvem tais cobranças, já que continuam sem dar oportunidades para que pessoas negras façam parte das redações.

Como a personagem Samantha White, da série Cara Gente Branca (Dear White People), disponível na Netflix, sempre diz e repete para seus colegas brancos: o medo, a revolta e a resistência negra ainda existem por causa dos efeitos da escravidão.

Como já apontei, esta série é para e sobre pessoas negras e as diversas questões e vivências em torno delas. Porém, Cara Gente Branca continua fazendo jus ao título, quando coloca uma mulher negra, Sam White, para falar sobre racismo estrutural diretamente para pessoas brancas. Para isso, ela usa um veículo de comunicação independente em seu campus universitário e enfrenta as confrontações com relação ao suposto “racismo reverso”. Basicamente, ela faz o que precisei reunir coragem para fazer somente uma vez, naquela mesa de debate, só que em alto e bom som em um programa de rádio periódico.

No fim das contas, a série acaba sendo sobre a importância de se reconhecer privilégios, até mesmo para pessoas brancas que se dizem “acordadas” para a existência do racismo. Uma mensagem importante é a de que amar uma pessoa negra ou se juntar à militância não livra alguém de ser racista.

Claro que ninguém quer ter este título, receber esta acusação. Não só no contexto americano que a série traz. No Brasil, 90% dos brasileiros admitem que existe preconceito de cor, mas 96% dos entrevistados se identificaram como não racistas, segundo uma pesquisa histórica do Datafolha, de 1995.

No dia da Abolição da Escravatura no país, não é estranho perceber que esta resistência a admitir a profundidade do racismo no Brasil ainda existe? Mesmo  que a conversa sobre racismo esteja sendo expandida, ainda encontramos estereótipos nocivos, a ponto de ser necessária a criação de uma parte do nosso Minimanual de Jornalismo Humanizado dedicada a apontar práticas ruins e fornecer maneiras  honestas de como contar as histórias de pessoas negras e ainda a criação do projeto Entreviste um Negro, pela jornalista Helaine Martins. 

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Se ser racista é tão pesado e negativo, o que estamos fazendo para mudar isso? Melhor: o que as pessoas brancas estão fazendo para mudar isso?

Ainda paira sobre a sociedade, principalmente no Brasil, uma ideia de que preconceito de raça só acontece quando é vociferando, gritado ou caracterizado por agressões físicas, como em tempos de escravidão, apagando o fato de que somente a abolição não foi suficiente para igualar as raças.

Logo, é muito fácil se agarrar nisso para relativizar agressões que parecem pequenas, mas que são dolorosas. Em outras palavras, ainda vivemos em um mundo em que as pessoas brancas julgam o que é racismo e se mascaram para não parecerem racistas.

A Cara Gente Branca a qual a série se refere é um grupo que precisa parar de ver um apontamento de racismo como algo pessoal e aprender a ouvir quem aponta. E agora eu também me refiro a esta Cara Gente Branca, mais especificamente meus colegas de profissão, pois minha coragem não pode ficar naquela situação isolada da mesa de debates e espero ser ouvida.

A mídia e a comunicação são grandes responsáveis por propagar ideais que geram violência e segregação. Logo, está em nossas mãos, como comunicólogos, não deixar que os esforços de pessoas negras para superar gatilhos e falar sobre suas angústias sejam em vão. Retribuam com respeito e espaço de fala.

Ficar na defensiva ou buscar uma redenção por ter sido chamado de racista não resolve um problema tão grande. Mas assumir o erro e aprender com ele, sim.

Karoline Gomes é produtora de conteúdo e assistente de comunidades da ONG Think Olga.

Arte: Akilah Richards

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Uma carta de ódio às mulheres é divulgada pela imprensa como se nada fosse. Nem a chacina de uma família inteira motivada por misoginia é capaz de despertar alguns veículos de imprensa para sua responsabilidade na cobertura do caso. Qual é o sentido de dar tanto valor, espaço e voz aos motivos que levaram um homem a cometer um crime tão bárbaro?

Nos comentários dos portais e espaços de convivência virtuais, o resultado óbvio: aqueles que se abertamente rejeitam o fato de que mulheres são seres humanos sentem-se fortalecidos em seu argumento e têm um novo mártir. E as matérias sobre o caso não cansam de humanizá-lo: contam sua profissão, descrevem seus sentimentos, tentam entender seus motivos. Já para Isamara Filier, sua ex-esposa, sobra apenas o título de vítima e a suspeita à boca pequena de que alguma coisa deve ter feito para merecer esse destino.

Mas se a guerra contra as mulheres chegou a esse ponto e está tão às claras é porque nós mesmas quebramos o silêncio e, assim, aprendemos, ouvindo o grito umas das outras, que estamos sendo atacadas e que devemos lutar contra isso. Por misoginia nós morremos há séculos. Hoje, porém, muitos homens se debatem e sentem muito mais ódio não por estarmos tomando seus direitos, mas porque estamos fazendo valer os nossos. Eles não estão perdendo nada que não mereçam, apenas seus privilégios e não merecem qualquer simpatia por isso.

Não é o primeiro caso de terrorismo misógino. Um dos mais emblemáticos aconteceu na Califórnia em 2014 quando o Elliot Rodger abriu fogo contra seis mulheres antes de tirar a própria vida, não sem antes deixar para trás vídeos e escritos detalhando sua frustração por não se sentir desejado pelo sexo feminino. Ele participava de fóruns na internet frequentado por homens que partilhavam da mesma opinião – bem similares a muitos espaços brasileiros onde hoje o assassino de Isamara está sendo endeusado.

É preciso despertar para o fato de que é dessa forma como hoje está composto o nosso tecido social. O que aconteceu em Campinas não foi um caso isolado, mas a manifestação explosiva do ódio às mulheres que perpassa as interações de gênero. Precisamos urgentemente que as instituições descruzem os braços para nos proteger e se coloquem abertamente contra essa mentalidade estabelecida.

Na cobertura do caso, por exemplo, mesmo uma postura neutra colabora com a disseminação desse tipo de ataque. O Brasil é o quinto país do mundo em feminicídios: nossas mulheres estão morrendo diariamente nas mãos de homens com quem se relacionaram. Existe um padrão de comportamento que merece destaque e hoje não são poucas as fontes de informação sobre o tema:

Minimanual do jornalismo humanizado – Parte 1
Dossiês Patrícia Galvão

É nesse contexto que o crime acontece e é trazendo-o a tona que vamos combater o problema pela raiz, que é o ódio pelas mulheres, sem perder tempo com as asneiras odiosas que um terrorista misógino deixou para trás. Precisamos seguir adiante, com coragem e inteligência, porque esse tipo de comportamento não é nenhuma surpresa para quem está bem informado. Não é esse o papel da imprensa, afinal?

Arte: Jarek Puczel.

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Por meio das campanhas Chega de Fiu Fiu, #MandaPrints e #PrimeiroAssedio, temos acompanhado uma evolução na discussão sobre assédio no Brasil. Seja compartilhando experiências pessoais ou em manifestos coletivos, as mulheres têm vencido o medo da culpabilização e deixando claro que cantada não é elogio, mas sim uma violência. Em mais um passo importante no combate ao assédio, a conversa começa a sair das redes sociais para chegar à justiça.

Sabemos que, para isso, é preciso combater um sistema ainda movido pela cultura do estupro – no Brasil, 40% da população acredita que mulheres precisam se dar o respeito para não serem estupradas, de acordo com o Datafolha. Contudo, alguns casos demonstram que a punição para assediadores é possível e tem acontecido.

Depois da injusta demissão da repórter do Portal iG que denunciou assédio por parte do cantor Biel, presenciamos a punição pelo ocorrido sendo direcionada ao único culpado: o agressor. Além de perder contratos para shows, campanhas e também espaço na mídia, ele foi condenado a pagar uma multa de R$ 4.400, estabelecida pelo Ministério Público para encerrar o processo. A quantia será doada para uma instituição de caridade.

Além de servir como exemplo para que estas violências não se repitam, as punições podem ajudar a manter as vítimas seguras, longe de seus agressores. Pensando nisso, a Universidade Estadual da Bahia (UNEB), afastou o professor de sociologia Alex Macedo por dois meses, enquanto as denúncias de assédio sexual de alunas do campus Eunápolis, no sul da Bahia, são investigadas.

A empresa americana de aviação Alaska Airlines expulsou um passageiro de um voo, pois todas as pessoas presentes no avião foram testemunhas do momento em que um sonoro “ooh, sexy” constrangeu uma comissária de bordo enquanto ela passava as instruções de segurança para a viagem. Uma das testemunhas, Amber Nelson, publicou a história no Facebook agradecendo à Alaska por ter levado o caso a sério e teve milhares de compartilhamentos.

Uma atitude esperada em um país que debate a cultura do estupro em função das acusações de assédio à Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos. Uma delas já está comprovada: um vídeo dos bastidores da participação de Trump no programa Access Hollywood em 2005, vazado na reta final da corrida eleitoral, mostra o empresário falando sobre como gosta de beijar ou agarrar mulheres sem consentimento – o mesmo vídeo também causou a suspensão do apresentador Billy Bush, que concorda e ri dos comentários de Trump na gravação.

Esta revelação fez Trump perder intenções de votos e até alianças dentro do próprio partido, que agora o pressiona para desistir da candidatura. Além disso, ele agora enfrenta outras acusações de assédio de mulheres que decidiram contar suas histórias motivadas pela possibilidade de ter suas vozes ouvidas.

Nunca antes na história vimos tantos homens sendo punidos profissional ou legalmente por atos de assédio. Por isso é tão importante contarmos nossas histórias e denunciarmos, pois assim colaboramos com a transformação de uma cultura de tolerância ao assédio, em busca de um entendimento de que este é um ato violento e inaceitável.

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Não há dúvidas de que o aborto, quinto maior causador de mortes maternas no Brasil, é um problema grave de saúde pública. Há diferentes estimativas sobre quantas mulheres abortam no país — segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são um milhão de brasileiras por ano, enquanto dados oficiais do governo apontam 205.855 internações decorrentes de abortos no país, a maioria delas por interrupção induzida. De acordo com a ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, o número de abortos induzidos é de quatro a cinco vezes maior que o de internações, já que nem todas as mulheres recorrem a hospitais e o fazem na ilegalidade, muitas vezes colocando sua vida em risco.

O Código Penal brasileiro prevê prisão de um a três anos para quem interrompe a gravidez propositalmente, com três exceções: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. Mesmo quando legal, não é simples ter acesso ao procedimento e, legal ou não, mulheres continuam abortando em situações precárias que muitas vezes levam à morte. Como mudar essa realidade? “Há vários caminhos para alterar esse regime perverso de enquadramento do aborto, mas o mais simples deles é afastar as religiões das leis: nenhuma mulher será forçada a fazer um aborto contra sua vontade, mas um estado laico deve garantir as formas de proteção à saúde que estão a sua disposição. Descriminalizar é proteger a saúde; descriminalizar é permitir que cada mulher, na intimidade de suas escolhas, tome suas decisões”, afirma a antropóloga Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética Anis.

Por isso, a luta pela legalização do aborto também é uma luta feminista. Queremos ter o direito de decisão sobre nossos próprios corpos independentemente de dogmas religiosos ou morais, queremos ter o direito a um tratamento de saúde. Mas como nós, mulheres da sociedade civil, podemos colaborar com essa luta? Apontamos três maneiras iniciais de fazer algo a respeito:

1) Às ruas!

No final do ano passado, dezenas de milhares de mulheres foram às ruas protestar contra o projeto de lei 5.069/2013, de autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta a interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro. O PL estabelece que os casos de estupro sejam obrigatoriamente notificados às autoridades e que as mulheres passem por um exame de corpo de delito. Protestar é importante porque mostramos que somos muitas, estamos unidas, e não vamos aceitar retrocessos.

2) Precisamos falar sobre aborto

Por ser um assunto tão tabu para a moral hegemônica, o aborto não é discutido abertamente como deveria. Muitas têm medo de serem julgadas ou até denunciadas ao falar sobre, mas uma em cada cinco mulheres já abortaram no Brasil. Ou seja, todo mundo conhece alguém que já abortou, mulheres comuns que se sentiram criminosas por não poder tomar uma decisão amparada pelo Estado. Falar sobre é importante para derrubar o mito de que aborto é algo que só “certas” mulheres fazem. “Vamos contar essas histórias de duas maneiras: rompendo a fantasia de que a mulher que aborto é uma outra distante da mulher comum, ela é a mulher comum, mas mostrando o como o aborto é um evento perturbador para as mulheres comuns pela ilegalidade. Precisamos falar mais do aborto como evento comum e retirá-lo dessa classificação ‘tabu’ imposta pelos homens para aumentar o pânico e controle. Aborto é um evento ordinário à vida reprodutiva das mulheres. Vergonhosa é sua criminalização”, afirma Debora.

3) Resistência

É inegável a manobra política e religiosa para transformar o aborto em uma questão moral. A começar pela pergunta “você é contra ou a favor do aborto?”: ninguém deve ser contra ou a favor de deixar pessoas tomarem decisões privadas sobre suas vidas seguindo sua religião ou não. A questão é: uma mulher que aborta deveria ser presa? Ou ainda: por que uma proteção à saúde da mulher é crime? “Temos que resistir, enfaticamente, às tentativas de transformar aborto em questão de opinião, pró ou contra, ou plebiscito. Nosso desafio é enquadrar o aborto em outros termos: queremos falar de mulheres, não de quando a vida humana tem início; queremos falar de tortura psicológica contra as mulheres, e não se a adoção deveria ser um dever; queremos falar de patriarcado, e não de religiões”, diz Débora. Você pode considerar errado uma mulher abortar e mesmo assim ser a favor da descriminalização do aborto para salvar vidas. O debate sobre o tema não exige respostas prontas e opinião formada sobre o início da vida ou sobre o aborto em si, já que a decisão pelo aborto é individual e íntima sem fórmulas sobre certo ou errado. Fato é que um estado democrático e laico deveria prover cuidados de saúde das mulheres e isso envolve disponibilizar o acesso ao aborto seguro a todas.

Quanto às enquetes do Senado, Débora acredita que é importante reagir e votar, mas que não é um agendamento feminista porque não é uma multidão que deveria decidir a vida privada de alguém. O que devemos fazer é enquadrar a discussão da nossa maneira e não transformar essas perguntas em enquetes, mas fazer delas agendas políticas para o feminismo. Vamos?


Arte: Victoria Pacimeo

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Até que ponto estamos dispostas a deixar pra lá? Até que ponto isso é uma escolha ou uma obrigação? A cantora Solange Knowles estava com sua família em um show da banda Kraftwerk, em Nova Orleans, Estados Unidos. Seu marido, filho, um amigo e ela estavam entre as pouquíssimas pessoas negras presentes no evento. E começaram a dançar, afinal, era um show de música eletrônica. Quatro senhoras brancas começaram a gritar para que eles se sentassem. Solange explicou que estavam dançando em um show. Foi quando começaram a jogar frutas (!) nas suas costas.

Ela escreveu um ensaio em seu site sobre a experiência, no qual descreve sua impossibilidade de reagir: “Você está cheia de raiva e em choque, compartilha essa história no Twitter, suas mãos tremem, porque você realmente deseja que essas mulheres sejam responsabilizadas de alguma forma. Você sabe que não adianta falar com elas sem que a situação saia de controle porque elas não têm qualquer respeito por você ou seu filho, e isso só vai terminar mal para você, e você sabe que não vale a pena envolver a polícia nisso.” Solange sabe que está em desvantagem por ser uma mulher negra sobre a qual recai o preconceituoso estereótipo de “barraqueiras”. Ela concluiu seu relato no Twitter dizendo: “Em espaços predominantemente brancos, não somos nós [negros] que ‘armamos barraco’. Conserte-se.”

Em outra situação, há alguns dias, a deputada Maria do Rosário presidia uma sessão da Comissão Geral na Câmara dos Deputados sobre Cultura do Estupro e Proteção às Vítimas quando o deputado Jair Bolsonaro, ignorando completamente sua autoridade, invade a mesa e passa a gritar em seu ouvido, exigindo equivocadamente um direito de resposta. Maria do Rosário não sai do sério e pede calma, tenta manter a ordem dos trabalhos e depois afirma que não será intimidada.

Na web, textos de cunho machista vira e mexe se tornam o assunto do dia e a internet divide-se entre aqueles que acham errado problematizar, pois assim eles ganham mais fama; os que problematizam; e outros que nem enxergam o machismo e acham tudo um exagero (grande maioria). Em todos os casos, parece que a melhor saída é sempre ficar em silêncio, pois qualquer reação a provocações deliberadas de pessoas privilegiadas cairá contra nós que fazemos partes de grupos minorizados. E, no fundo, às vezes nós ficamos mesmo é cansadas de tentar convencer o mundo inteiro de que somos humanas e merecemos respeito. Daí calamos.

Apesar disso, analisando esses e tantos outros casos, será que somos nós que criamos problemas ou são os outros que criam problemas com a gente? Vivemos em um mundo injusto, frequentemente saímos perdendo, e querem nos convencer de que não merecemos justiça – ou, ao menos, que é feio brigar por causa disso. Pega mal. E pode ser até que pegue, mas parte da nossa jornada como feministas é conhecer os momentos que valem a nossa indisposição e, assim, valorizar também o nosso autocuidado. #RaivaComRazão

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“O pai a abandonou grávida, mas ela não vai correr atrás da pensão porque é muito GUERREIRA e vai criar sem a ajuda dele”

“Ela é uma GUERREIRA, suportou anos de abuso por causa dos filhos.”

“Ela chegou à diretoria mesmo com todo machismo, *provou* ser tão capaz quanto os homens para chegar lá. Que GUERREIRA!”

É curioso como a nomenclatura de guerreira nesses casos traz pouca ou nenhuma reflexão sobre a guerra. Vamos falar abertamente? Nosso inimigo é o machismo. E é difícil negar que ele não esteja por trás da celebração de mulheres que, para vencê-lo, abriram mão dos seus próprios direitos. São essas mulheres, as que encontram caminhos alternativos às custas da sua própria integridade e paz de espírito, que são celebradas – como se não fosse necessário enfrentar e combater esse sistema de injustiças.

Para começar, não estamos de forma alguma dizendo que essas mulheres não são fortes e determinadas. Elas são – e muito. A gente sabe porque a luta contra o machismo é mesmo uma guerra diária e nós fazemos tudo o que está ao nosso alcance para vencê-la. Mas o pagamento da pensão é uma obrigação do pai – e chamar os homens à essa responsabilidade é um direito garantido por lei, não há demérito nenhum em fazê-lo. Nenhuma mulher deve sentir-se na obrigação de submeter-se à violência doméstica – precisamos de políticas públicas que as acolham, protejam e punam agressores. E chegar ao topo da carreira não deve ser mais sacrificante para uma mulher do que é para um homem – e são as empresas que devem proporcionar isso ativamente por meio de medidas que eliminem diferenças de gênero no ambiente de trabalho.

Nós aprendemos que é bom e bonito silenciar e superar os desafios “apesar de tudo”, mas as únicas que estão lidando com o dano físico, mental e financeiro disso tudo somos nós. É do nosso bolso (no qual já entra menos dinheiro que no dos homens) que sai o valor necessário para criar o filho, é a nossa carne que sofre com a violência física e é a nossa personalidade e a nossa saúde mental que estão em risco quando delas precisamos abdicar para ter sucesso profissional.

Essa conversa precisa mudar. Vamos celebrar as mulheres, sim, mas vamos falar sobre os seus verdadeiros inimigos nessa guerra e criar estratégias para combatê-los. Chega de carregarmos sozinhas o peso dessa injustiça e sermos parabenizadas por sermos fortes quando essa é a nossa única opção. Vamos ser fracas e sentir raiva e exigir, sempre, a dignidade que merecemos como seres humanos, sem precisar provar para ninguém que sabemos sofrer nesse silêncio que nunca nos protegeu. #RaivaComRazão

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primeiroassedio

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Para a minha fala no TEDxSão Paulo sobre a campanha Chega de Fiu Fiu, precisei juntar coragem. Contei, no Auditório do MASP, sobre minha história com violência sexual não apenas para o público de 450 pessoas, mas também para câmeras que eternizariam o momento – aos 11 anos, escutei comentários grotescos sobre meu corpo de um estranho na rua.

Falar sobre o #PrimeiroAssedio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. “O que será que eu fiz para provocar isso?”, me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Naquele mesmo palco, desabafei sobre isso: apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, só consegui voltar a falar sobre ele 16 anos depois. Aos 27 anos, ao ver, pela primeira vez em toda minha vida, uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos de forma pública, em post no Facebook, tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Decidi ali que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #primeiroassedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade! E, infelizmente, o caso do MasterChef Jr. jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

 

HASHTAG TRANSFORMAÇÃO

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. o fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina – e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.  Ela não é operada por um super vilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero,  que é preciso esquecer,  que “o que passou,  passou”,  e que reclamar disso é  “vitimismo”.  Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano,  então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.
É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse. Descobrem-se,  enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância.  E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag  #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo. Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

 

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Demos ali a largada em um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, até em 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

 

Os depoimentos recebidos até então pela campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio sexual em locais públicos já mostravam que o problema começava cedo, mas não há precedentes na quantidade de histórias recebidas sobre a prevalência desse problema na infância.  Recebemos depoimentos de mulheres que lembram ter passado por abusos com até cinco anos de idade.

 

Ao ler isso, a reação inicial de muitos é acreditar que ela foi vítima de um pedófilo, o que isola e minimiza a questão da cultura de pedofilia em que vivemos – retratada com louvor por seus próprios representantes na ocasião dos ataques à menina do programa de televisão.  Existe uma desinformação muito conveniente para os homens em relação à gravidade das “brincadeiras” com pedofilia,  estupro e assédio que os deixa confortáveis o suficiente para reproduzi-las sem se preocupar com as consequências.

ANÁLISE

Até a meia-noite de domingo, a hashtag foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos a constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

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A seguir, veja a cloud de palavras mais citadas nesse grupo de tweets:

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Nossa jornada contra a violência contra a mulher, via Chega de Fiu Fiu, nos mostrou que, enquanto mulheres, NÃO temos o controle da nossa vida sexual. Somos iniciadas por meio de um ritual bárbaro e sádico – e grande parte dos crimes, 65%, são cometidos por conhecidos. Ou seja, aqueles em que mais deveríamos confiar. Adentramos, então, nessa área tão delicada da vida de forma totalmente despreparada, cheias de dores, traumas e ansiedades.

Mas também descobrimos que anos de silêncio têm a capacidade de tornar as vozes ensurdecedores quando redescobertas.  Nunca duvide do poder das redes sociais para provocar reflexão e empoderamento. A Internet é feita de pessoas e é a partir delas que as mudanças acontecem.  Nesse caso,  para o bem e para mostrar um problema que está longe de acabar,  mas que felizmente a hashtag ajudou a mostrar que existe,  sim,  e muito, e que é preciso não ignorar as vítimas,  mas responsabilizar quem colabora com a manutenção de sua existência – nem que seja com uma “brincadeira” no Twitter.

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Parece simples, mas não é. A fronteira entre o estupro e o sexo ainda está embaçada na cabeça de muita gente. O hit Blurred Lines, sucesso absoluto na voz do cantor Robin Thicke em parceria com o rapper Pharrell, é basicamente uma ode à violência sexual. Pra se ter uma ideia, o Projeto Unbreakable, que reúne fotos de vítimas de estupro segurando cartazes com o que seus agressores diziam na hora da violência, conseguiu recriar a letra da música apenas com imagens previamente publicadas.

A popularidade desse tipo de canção é um forte indício da identificação ou da conformidade do público com essa abordagem. “Eu sei que você quer”, “A maneira como me segura, deve estar querendo mais”: a canção (e a sociedade?) está lotada de suposições equivocadas sobre o desejo da mulher. Ela é considerada apenas parte interessante, mas não interessada, pois em nenhum momento perguntam o que ela quer.

Consentimento é a certeza de que as duas (ou mais) pessoas estão dispostas a participar de uma interação afetiva. Do flerte ao sexo, qualquer tipo de aproximação entre um casal só pode ter sucesso caso ambos estejam absolutamente certos do desejo do outro em estar ali. É preciso ter um entendimento inequívoco da vontade de ambos – tanto de um para o outro, quanto individualmente (ou seja, se VOCÊ quer mesmo que isso aconteça).

Relacionamentos, sejam de uma noite ou para a vida inteira, não devem ser encarados como uma obrigação, mas como uma escolha. Independente dos motivos que levam duas pessoas a ficar juntas, o ideal é que eles venham de dentro, que sejam genuínos e pessoais. Consentir é diferente de “deixar” ou “dar permissão”: é verdadeiramente querer e desejar que aquilo aconteça.

O consentimento só pode ser dado por livre e espontânea vontade. Todo ato íntimo proveniente de ameaça, coerção e intimidação é considerado estupro. Por isso, antes de continuarmos nosso papo sobre consentimento, precisamos primeiro acabar com alguns mitos sobre violência sexual:

Mito 1 – Estupro só acontece em vielas escuras e são cometidos por tarados malucos que vivem atrás de moitas

A maioria dos estupros é cometida por pessoas conhecidas pelas vítimas, muitas vezes em suas próprias casas e por seus parceiros íntimos. Por mais desagradável que esse pensamento seja, é preciso encarar a realidade de que é preciso muito mais que “evitar andar sozinha à noite” para evitar ser violentada.

Mito 2 – Mulheres provocam o estupro por se vestirem de maneira sexy

“Mas ela está pedindo!”. Não, ninguém pede para ser estuprada e nem todas as vítimas estão de saia curta. A única pessoa responsável por um estupro é o estuprador. Os homens (que geralmente são os aqueles percebidos como perpetrores desse tipo de violência) não são bestas selvagens e deveriam se ofender com a acusação de que não podem se controlar ao ver um decote. Uma mulher deve ser livre para vestir o que quiser sem temer ser violentada por isso.

Mito 3 – Mulheres que bebem ou se drogam estão pedindo pra ser estupradas

A vulnerabilidade que acompanha o entorpecimento não implica que a mulher esteja disponível para fazer sexo. Se ela está inconsciente ou parece incapaz de tomar uma decisão, tal como dar consentimento, é estupro. Beber não é crime, estupro sim.

Mito 4 –Se a vítima não gritou, fugiu ou se machucou, então não é estupro

Qualquer relação sexual sem consentimento é estupro. Não é necessário nada além disso para que essa situação configure como violência sexual. Em muitos casos, a vítima coopera com o estuprador por temer pela própria vida, ou por consequência de sua personalidade ou da situação, não têm coragem ou força de reagir, sentindo-se paralisadas pelo pavor. Esse tipo de questionamento transfere a responsabilidade de evitar o estupro para a vítima – e, como já dissemos anteriormente, o único culpado pelo estupro é o estuprador.

Mito 5 – Se a vítima não reclama ou dá queixa logo em seguida, não é estupro.

Um estupro pode provocar sentimentos de vergonha e culpa tão grandes que impedem a vítima de falar sobre o assunto. Ainda mais vivendo em uma sociedade que tenta justificar o estupro de todas as formas (vide esses mitos!) e constantemente transfere a culpa

Mito 6 – Estupro de prostituta não conta

A prostituição é baseada fundamentalmente no consenso em praticar atos sexuais em troca de dinheiro.  O que passa desse acordo é estupro.

 

Ok, então… como consentir e como obter consentimento?

Comunicação! Comunicação! Comunicação! Para ser eficaz, o consentimento deve ser expresso de maneira ativa e voluntária, por meio de palavras ou ações que indiquem o desejo mútuo de participar de uma atividade sexual. Confira abaixo algumas reflexões importantes sobre consentimento:

– Ambiguidade não ajuda em nada. Sim é sim e não é não. É importante é respeitar esses limites quando dados pelo seu parceiro ou parceira.

– Sentiu desconforto para dizer não? Sinal vermelho! É um forte indicativo de intimidação e medo – coisas que não combinam com momentos de intimidade nos quais devemos nos sentir seguras para expressar nossos desejos.

– Se o parceiro ou parceira está hesitando, o ideal é não ir adiante com o contato íntimo. Consentimento é ter absoluta certeza de que o que está acontecendo naquele momento é algo que os envolvidos desejam verdadeiramente. Talvez é não.

– Consentimento para um ato sexual específico não significa que todos as outras formas de interação íntima estão liberadas.

– Mesmo depois que o consentimento tenha se estabelecido entre o casal, ambos são livres para mudar de ideia em qualquer momento do ato sexual.

– Caso isso aconteça, seja por palavras ou ações, a relação deve ser interrompida imediatamente. Ainda que o “não” tenha soado meio indeciso ou confuso, ele deve ser respeitado como uma quebra do acordo prévio. E sem consentimento, sem sexo.

– Especialmente entre casais que já se relacionam a mais tempo, o consentimento deve ser obtido toda vez em que houver atividade sexual. A intimidade pode levar a deduções que nem sempre são corretas e, consequentemente, levar a experiências desagradáveis.

– Ser casado com a vítima não exime o marido de ser um criminoso. A inglesa Sarah Tetley, por exemplo, foi estuprada mais de 300 vezes pelo marido enquanto dormia. Ela trouxe sua história a público recentemente para aumentar a conscientização sobre o abuso.

– Silêncio, falta de resistência verbal ou física e relações anteriores não são sinônimos de consentimento, bem como tipos de roupa, flertar, um drink, um jantar ou qualquer outro gasto com alguém, também não significam que ele ou ela consentiu em fazer sexo com você.

– Usar drogas ou beber não impedem deliberadamente uma pessoa de consentir em fazer sexo, mas certos níveis de intoxicação a tornam incapaz de tomar essa decisão.

– Consentimento não se obtém com o uso de força (literal ou implicitamente), ameaças, intimidação e coerção.

– É sempre OK dizer não. Seja por que você não tá afim, por causa de religião, por ter medo de pegar uma doença, se quiser ir devagar ou só ver a pessoa como amigo e não como parceiro sexual. Se você acha que tem que consentir, então a escolha não é mais sua.

Sexo é pra ser divertido e empoderador. Falar sobre isso, também. Respeitar o consentimento é uma das responsabilidades de quem tem uma vida sexual ativa. Não se trata de preciosismo, mas de tomar cuidado para não ultrapassar os limites do seu parceiro e transformar um momento prazeroso em uma experiência traumática.

 


Arte:  Emily North

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Já parou pra pensar em quem propõe as ideias que você lê, escuta ou vê por aí? De acordo com um estudo sobre literatura brasileira atual, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Na pesquisa A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004), a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Embora o levantamento não leve em conta livros de poesia, não é difícil notar a enorme desigualdade de representação entre os sexos. Além de não refletir a diversidade social brasileira, o predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras contribui para que seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, principalmente, no imaginário coletivo. Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista diferentes – por isso, a participação das mulheres na literatura é tão importante para ampliar esse campo de visão.

No livro O segundo sexo (1949), uma das obras de referência da Segunda Onda Feminista, a filósofa francesa Simone de Beauvoir disse que, até então, nenhuma mulher havia escrito uma obra de importância central na literatura mundial devido à falta de oportunidade: “elas não contestam a condição humana porque mal começaram a poder assumi-la integralmente”. Para ela, assumir a condição humana significa ser autônoma e livre. Essa liberdade é o que permite ao ser humano realizar-se plenamente, usando suas potencialidades para uma atividade que o transcenda e crie algo novo na sociedade – seja funcional ou artístico.

Apesar de desfrutarmos de muito mais liberdade e autonomia hoje do que naquela época, ainda vivemos cercados por opressões. Essa tensão evidencia a necessidade de fazer literatura, pois a criação literária é um ato de ruptura subjetiva. Ao criar, extrapolamos as fronteiras definidas para ou por nós mesmos frente à comunidade e criamos um espaço de liberdade pessoal onde conseguimos quebrar tabus muito mais difíceis de serem superados pela sociedade como um todo.

Uma das áreas da vida mais atormentadas por moralismos e tabus até hoje é o sexo. O inconsciente coletivo ainda contém uma pesada carga de estigmas que impedem a liberdade sexual de mulheres e homens de todas as orientações sexuais. Por isso, a criação literária erótica representa um espaço especialmente propício à libertação, emancipação e autodeterminação – isso vale para todos os gêneros, mas sobretudo para as mulheres, já que sua produção ainda é mais escassa ou menos divulgada.

Escrevo desde que aprendi a combinar as letras e percebo na prática como a escrita contribui para a construção da minha própria subjetividade. Desde 2012, passei a experimentar esse território de libertação no erotismo ao criar com minhas amigas o Circular de Poesia Livre. Somos um coletivo de mulheres que estuda, discute, cria e divulga arte e literatura sobre gênero, sexualidade e sexo. A cada encontro, percebemos novas oportunidades de ressignificar conceitos e dizer não ditos, vamos tirando as amarras que nos limitam ao escrever sobre sexo. Assim, construímos uma emancipação pessoal e criativa transformadora que tentamos compartilhar em saraus abertos, o Sarau das Mulheres Livres.

Foi por sentir o poder desse conhecimento na pele, que decidi estudar mais a fundo a poesia erótica feminina em um projeto acadêmico. E como a academia nem sempre é acessível, compartilho aqui um pouco da minha pesquisa sobre as mulheres na história da literatura brasileira, com mais foco na poesia erótica. É importante conhecermos nossas escritoras, porque valorizar os discursos delas melhora a compreensão sobre as necessidades e reivindicações femininas na luta por uma igualdade social concreta.

 

Nossas primeiras escritoras

Desde o descobrimento, os jesuítas incentivaram a literatura e os primeiros textos brasileiros datam do século 16. Mas o estudo A literatura feita por mulheres no Brasil da professora Nádia Battella Gotlib mostra que os primeiros escritos de mulheres brasileiras com alguma divulgação surgiram apenas no século 19. A razão é simples: somente os homens tinham acesso à educação formal em seminários religiosos, já que a criação de universidades era proibida pela coroa portuguesa.

Nos tempos coloniais, algumas mulheres até escreviam, mas seus textos não apareciam publicamente, como é o caso dos diários de senhoras de classes mais altas. Mesmo assim, o romance moralista Aventuras de Diófanes de Tereza Margarida da Silva e Orta é considerado por alguns estudiosos como o primeiro romance brasileiro, porque a escritora nasceu no Brasil; outros consideram a obra portuguesa, já que ela foi viver em Portugal aos 5 anos de idade e nunca mais voltou à sua terra natal.

As tipografias só passaram a funcionar livremente por aqui com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a primeira legislação que garante estudos elementares às mulheres é de 1827. Nessa época, a jovem Nísia Floresta Brasileira Augusta iniciou sua militância política e jornalística em Recife, que passava por constantes revoltas populares. Ela defendeu a proclamação da república, a libertação dos escravos, os direitos da mulher e foi considerada a primeira feminista brasileira ao publicar o livro Direito das mulheres e injustiça dos homens em 1832.

Ainda no final do século 19, a carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) destacou-se por sua vasta produção literária, incluindo romances, contos, literatura infantil, teatro, matérias jornalísticas, crônicas e livros didáticos. A autora defendeu os direitos da mulher em colunas para importantes jornais do país e participou ativamente de grupos feministas. Em entrevista ao escritor João do Rio, contou que escrevia escondida na juventude, pois uma escritora não era vista com bons olhos à época.

A ligação entre as primeiras escritoras brasileiras e o feminismo evidencia os obstáculos sociais encontrados pelas mulheres para se colocarem como autoras. Francisca Júlia (1871 – 1920) foi uma das poucas que conseguiram ultrapassar essas barreiras moralistas no início do século 20 e chegou a ser considerada um dos grandes nomes do Parnasianismo, ao lado de poetas como Olavo Bilac.

Na mesma época, outra poetisa de língua portuguesa enfrentava o moralismo com ainda mais polêmica. A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) era vista como libertina por seus três casamentos e diversos casos amorosos, além dos rumores de que sofria de problemas psiquiátricos. Famosa por seus sonetos, Florbela foi uma das primeiras a lutar pela emancipação literária feminina em Portugal ao expor suas frustrações frente à opressão patriarcal com intenso e emotivo erotismo:

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

é condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Voltando ao Brasil do início do século 20, encontramos a explosão do Modernismo, principalmente, na década de 1920. A importância da participação feminina no movimento é amplamente reconhecida – especialmente, das pintoras Tarsila do Amaral e Anina Malfatti, além da patrocinadora Olívia Guedes Penteado –, mas a produção literária e as ideias mais disseminadas dessa corrente ainda são as de seus expoentes masculinos, como Mário e Oswald de Andrade.

 

A palavra é ousadia

Em meio à agitação do Modernismo, surge no Brasil uma escrita feminina ainda mais revolucionária: a poesia erótica de Gilka Machado (1893 – 1980). Diferente de poetisas como Francisca Júlia (1871 – 1934), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Henriqueta Lisboa (1901 – 1985), que não buscavam se colocar como mulheres em seus poemas, Gilka decide falar sobre o desejo sexual feminino e denuncia as desigualdades sociais enfrentadas pelas mulheres. Lançado em 1928, Meu glorioso pecado foi o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil.

Sua obra foi considerada extremamente ousada à época, não pela forma, como os modernistas, mas pela temática. O furor despertado pelas críticas moralistas que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional e afetou até sua vida pessoal. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do país em um concurso da revista O Malho. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

No desenvolvimento do Modernismo após a Semana de Arte Moderna de 1922, Patrícia Galvão (1910 – 1960), a Pagu, destacou-se na literatura com o romance Parque industrial (1933), sob o pseudônimo de Mara Lobo. Já as poetisas que despontaram naquele momento e tornaram-se consagradas durante as décadas seguintes são as muito menos polêmicas Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. Apesar de sua qualidade literária, não questionavam as características do que era visto tradicionalmente como “escrita feminina”: pureza, beleza, doçura, passividade.

Com obras publicadas desde 1943, Clarice Lispector (1920 – 1977) torna-se outra referência de escrita feminina, desta vez, contrariando os estereótipos tradicionais e posicionando-se como mulher de maneira forte, contestadora e criativa. Ainda que no território da prosa, sua contribuição reverbera em todo meio literário nacional pela força da sua narrativa, uma mulher que se apropria verdadeiramente das estruturas da linguagem e da ficção, até desconstruí-las.

 

Erotismo e liberdade

A partir da década de 1950, no âmbito da poesia, destaca-se a paulista Hilda Hilst, consagrada como uma das principais autoras de língua portuguesa do século 20 nas décadas seguintes. Corajosa, questiona temas existências considerados tabus à época, como a morte, o sexo, a loucura e o divino. Sempre misturado ao sagrado, o erotismo é um dos elementos centrais de sua obra:

 

II

Demora-te sobre minha hora.

Antes de me tomar, demora.

Que tu me percorras cuidadosa, etérea

Que eu te conheça lícita, terrena

 

Duas fortes mulheres

Na sua dura hora.

 

Que me tomes sem pena

Mas voluptuosa, eterna

Como as fêmeas da Terra.

 

E a ti, te conhecendo

Que eu me faça carne

E posse

Como fazem os homens.

 

Em 1966, Hilda cria a Casa do Sol, perto de Campinas – SP, um espaço para inspiração e criação artística, onde viveu e recebeu diversos escritores e artistas para temporadas de produção e pesquisa. Uma de suas hóspedes foi a poeta paraense Olga Savary (1933 – ), que finalizou Magma, o segundo livro de poesia erótica publicado por uma mulher no brasil – 60 anos depois da publicação de Gilka Machado! – justamente durante sua temporada ali. Assim como Hilda, a poesia de Olga revela uma profunda intimidade com a natureza e a afirma a força feminina em igualdade com a masculina:

 

Nome

 

Diria que amor não posso

dar-te de nome, arredia

é o que chamas de posse

à obsessão que te mostra

ao vale das minhas coxas

e maior é o apetite

com que te morde as entranhas

este fruto que se abre

e ele sim é que te come,

que te como por inteiro

mesmo não sendo repasto

o fruto teu que degluto,

que de semente me serve

à poesia.

 

A estas duas poetas, soma-se a voz da mineira Adélia Prado (1935 – ), que explora os detalhes corriqueiros do cotidiano cheia de erotismo. Diferente das duas primeiras poetas, sua relação com o divino é fervorosamente católica, mas nem por isso deixa de questionar o pudor tradicionalmente associado ao sagrado, como mostra este poema do livro Terra de Santa Cruz de 1981:

 

Festa do corpo de Deus

 

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”.

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.

Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta arvore de execração

o que dizer é amor,

amor do corpo, amor.

 

Em 1984, Olga Savary organiza e lança Carne Viva – 1º [sic] Antologia Brasileira de Poemas Eróticos, com a participação de 30 autoras e 47 autores, entre consagrados e desconhecidos. Ainda na década de 1980, a poetisa Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), parte da Geração Mimeógrafo, atua como crítica literária, defendendo a literatura feminina e afronta as regras da literatura convencional com sua poética de erotismo livre e caótico:

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

A escolha do erotismo como tema por poetas que se impõem como mulheres na escrita como estas coincide com a retomada das reivindicações feministas no Brasil – que haviam enfraquecido após a conquista do voto feminino na década de 1930 e, em seguida, foram sobrepostas à luta contra a ditadura militar. O fortalecimento do feminismo nas décadas de 1970 e 80 no país foi impulsionado pelo Ano Internacional da Mulher promovido pela ONU em 1975 e com a propagação das ideias da Segunda Onda Feminista (iniciada nos EUA nos anos 1960 – 1970), que propunha o direito à libertação do corpo e ao prazer feminino.

Estas são apenas algumas das nossas escritoras até finais do século 20 – já passado! Ainda falta muito mais incentivo para que se estude e divulgue a literatura feminina brasileira, principalmente quando falamos de poesia. Daquela época até hoje, muitas outras poetas surgiram e nascem a todo momento – muitas vezes, sem que sequer nos demos conta nessa avalanche de conteúdo que nos assola. Mas mesmo que não faça barulho, cada poema feminino é um grito que liberta. Pra encerrar, dois poemas contemporâneos, um da reconhecida Angélica Freitas e outro do nosso desconhecido Circular de Poesia Livre:

 

porque uma mulher boa

é uma mulher limpa

e se ela é uma mulher limpa

ela é uma mulher boa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

a mulher era braba e suja

braba e suja e ladrava

 

porque uma mulher braba

não é uma mulher boa

e uma mulher boa

é uma mulher limpa

 

há milhões, milhões de anos

pôs-se sobre duas patas

não ladra mais, é mansa

é mansa e boa e limpa

 

Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho (2012)

 

 

a garota do hímen ½ rompido

 

lá vai a garota do hímen meio rompido

abalado, mas resistente

resquício de honra confuso

 

– você é virgem?

– mais ou menos.

– ?

 

lá vai ela, vontade errante

metade, rompeu com um

a outra, perdeu com outro

o restinho, foi-se com um terceiro

 

– quem tirou sua virgindade?

– ninguém.

– então ainda é donzela?

– ?

 

lá vai a garota, agora sem hímen

foi-se a película, nasceu a pele

de corpos em corpos, conhece seu próprio

amarras alheias já não lhe seguram

 

– afinal, você perdeu a virgindade?

– não, ganhei a liberdade.

– e foi com quem?

– comigo.

 

lá vai ela, mundo afora

nem tente acompanhá-la

hímen rompido

integridade intacta

 

Bruna Escaleira em entranhamento (2014)

 


 

Bruna Escaleira é jornalista e escritora, autora do livro de poesia entranhamento.

Arte: desconhecido

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