olga maternidade

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Muita gente tem uma visão antiquada de como uma mulher deve ser e se comportar. E, quando ela se torna mãe, esses estereótipos parecem se reforçar. Não à toa, a frase “ser mãe é viver com culpa” é tão divulgada. “A pressão é de que a mulher precisa ser uma heroína. Ela cuida da casa, da alimentação, do marido, dos filhos, trabalho, carreira, da saúde… E ainda achar um tempo para estar bem informada, se vestir como pede a moda, com o corpo em dia”, afirma Barbara Thomaz, ex-apresentadora do canal Glitz. “Os médicos pedem para que o bebê seja amamentado até os 6 meses, mas ela só tem 4 de licença maternidade. Se for celebridade, 2 ou 3 no máximo. A sociedade pressiona para que ela seja a mãe perfeita, mas não facilita em nada.” Aqui, ela dá um basta à pressão e nos ajuda a desconstruir os mitos da maternidade que tanto afligem as mulheres.


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GRAVIDEZ NÃO É UM PASSEIO NO PARQUE

A pressão sobre a mulher quanto à maternidade já começa na gestação, quando as pessoas esperam que você esteja RADIANTE. Quem espera isso de uma grávida provavelmente nunca passou pela experiência. Tive momentos em que sentia uma péssima mãe, porque nem sempre estava achando bacana aquela história de sono, ou de enjoo, espinhas, dores nas costelas, na coluna, dificuldade para dormir, uma bexiga do tamanho de uma cereja, hormônios ensandecidos. Perdi todas as roupas, tinha uma fome enlouquecedora, morria de medo do parto. Gravidez não é divertida: não podia beber, fumar, comer um monte de coisa que amava. Ainda ganhei 22 kg e pesava a responsabilidade enorme de gerar um filho 100% saudável. Como ficar radiante? Vou perguntar para aquelas moças dos comerciais de absorvente, elas entendem muito bem de conto de fada.

O PARTO PERFEITO NEM SEMPRE ROLA

Demorou nove meses para cair a ficha. Passei a gestação tendo dois empregos, trabalhando muito, viajando o Brasil e o mundo, guardando dinheiro porque sabia que os próximos meses seriam bem onerosos… Mas foi estressante. Me sentia sobrecarregada e já temia por um futuro parecido. Passei a perceber que não queria ser a mãe workaholic. Estudei, li tudo sobre gestação, parto, bebês, métodos de educação, psicologia… Virei a mãe nerd.

Bastou o parto para entender que ser mãe é uma questão de entrega, e não de controle. Nada aconteceu como eu esperava, fiquei frustrada comigo mesma, passei quase 20 horas em trabalho de parto. E, no fim, acabei cedendo para a anestesia e não pude sentir meu filho nascer como queria. Me senti menos mulher. Só faltou me dar chibatadas. Parecia uma louca me desculpando para o médico, para o meu marido e para a doula. E aí veio… “Epa! Quê isso? Calma aí… Eu fiz o meu melhor”. Estava sendo muito dura comigo mesma, e resolvi relaxar, aprender a improvisar e encarar as falhas com bom humor. O Enricco, meu marido, me ajuda muito nesse sentido. Sei que não sou a mãe perfeita, porque não sou uma mulher perfeita, porque não fui uma criança perfeita, porque meus pais, a sociedade, a medicina, a história, o mundo, nada é e nunca vai ser perfeito. Perfeito é chato, é artificial, é pura neurose.

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TODO MUNDO TEM UM PALPITE

Grávida é domínio público. A pressão vem até de estranhos, com perguntas, palpites e conselhos que você nunca cogitou solicitar. Parece incontrolável – as pessoas querem repassar as próprias convicções e experiências, ignorando completamente o fato de cada pessoa, cada gestação, filho ou marido é diferente. Um dos conselhos que mais ouvi foi o de optar por uma cesárea, pois depois do parto normal a vagina ficaria “frouxa”. Opa! Peraí… Quer dizer que isso poderia deixar o meu “mais precioso bem” prejudicado, e isso me faria o que? Uma mulher imprestável? Já imagino o motivo do divórcio: instrumento de prazer masculino avariado.

Depois vem a chuva do “não pode”: não pode ficar muito no colo, não pode sair de casa até os 3 meses, mamar só de 3 em 3 horas, deixa chorar no berço. Dei muito colo, muito peito, fomos na Bienal no primeiro mês, no segundo viajamos, fiz cama compartilhada até os 3 meses… Levei ele comigo até na manicure. Dei de ombros para quem disse que eu era louca de tentar o parto natural, também fiz o mesmo quando disseram que ele ficaria mal acostumado com amor, proteção e peito, fiz cara de paisagem com a senhora que nos parou um dia no shopping e nos mandou voltar para casa com o bebê pois ele só tinha 2 meses. Dei um sorrisinho paciente com quem me chamou de louca por fazer uma viagem deliciosa com minha família, com qualquer pessoa que invadisse a minha vida sem permissão ou afim de me julgar.

Uma mulher bem informada está empoderada e esse é o escudo para suas escolhas. Faça à sua maneira. É difícil ser mãe, é mais difícil ainda optar por não ser. Até nisso todo mundo vem meter o bedelho.

A IMAGEM TRADICIONAL DE MÃE INCOMODA

Por mais que você tente retornar a vida normal (dentro do possível), as pessoas esperam comportamentos diferentes das mães. Já ouvi de pessoas próximas coisas como “nossa, nem parece que você é mãe”. Hein??? Não fico chateada, porque sei que cumpro meu papel. Internamente, isso está muito bem resolvido. Aliás, passo o dia todo por perto, quando posso o levo comigo. Ser mãe não é ser chata, nem careta, nem pudica, nem santa. Ser mãe é acima de tudo estar emocionalmente disponível para o filho.

Minha imagem não existe mais sem o fator maternidade. Sinto isso na minha carreira e na curiosidade das pessoas a meu respeito, que mudou de foco. E tudo bem, porque também mudei de interesses, tenho outras opiniões, já não tenho mais paciência com certos assuntos, lugares e pessoas. Mas não é apenas pela maternidade. Faz parte do amadurecimento. As pessoas só precisam entender de uma vez por todas que as mães vivem.

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(NÃO) TRAGO SEU CORPO PERFEITO EM 3 DIAS

Logo quando o Theodoro nasceu começaram as perguntas: “E aí? Já emagreceu tudo? Tá na academia? Vai tomar remédio? Quando você volta a trabalhar?” Olhava para o lado, lá estava a mídia vendendo absurdos. Via uma conhecida cantora de axé saindo da maternidade quase de TOP, e dois meses depois já estava com a barriga chapada, pulando em cima de um trio. Parabéns, mas não, obrigada. Cada uma no seu tempo.

Você mal saiu da maternidade, ainda está tentando entender como o bebê funciona, está sem energia para mais nada além do filho, a rotina está de ponta-cabeça e o casal está se desdobrando para aprender uma nova dinâmica. O mundo não te dá esse tempo. Você quer curtir, mas te apressam. Quer relaxar, mas tem pressão. Isso nos faz sentir culpa por estar reclusa mesmo se dedicando integralmente como mãe. A mulher se sente improdutiva, feia, gorda, fora do mundo. Tive os meus momentos tensos e acabei descontando no meu marido, coitado.

E amamentar não emagrece!!! Pode funcionar para algumas mulheres, mas, assim como eu, muitas amigas sentiram que a fome aumentou. E você continua retendo líquido. No pós-parto perdi dez quilos. Um mês depois, três quilos resolveram voltar!! Enquanto não parei de amamentar, foi bem difícil perder peso.

“OS FILHOS SÃO UMA EXTENSÃO DE VOCÊ”

Os filhos são uma prioridade, mas a gente não pode perder a liberdade, nem a capacidade de se fazer feliz. Não adianta esquecer de você, da sua vida, dos seus sonhos e do casamento. Achar que os filhos são sua extensão é um peso enorme sobre a criança, tirando inclusive a liberdade dela como indivíduo. Sufoca e ainda tira espaço do pai. Te aprisiona. Existe uma simbiose inicial incontestável, e fui sentindo esse descolamento aos poucos. Está sendo lindo perceber que ele é um ser próprio. E ainda tem muito por vir.

NÃO DÁ PARA SER HEROÍNA

A pressão é a de que a mulher precisa ser uma heroína. Ela cuida da casa, dos empregados, da alimentação, do marido, dos filhos, do trabalho, da carreira, da saúde… Ainda deve achar um tempo para estar bem informada, se vestir como pede a moda, com as unhas, os cabelos, a pele e o corpo em dia. Para ter filho, ela para a carreira e morre de medo de como vai retornar. Não sabe se será substituída ou demitida.

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PRESSÃO TAMBÉM NOS PAIS

Onde estão os trocadores no banheiro masculino? Não se espera que os pais troquem fralda? E a licença paternidade? 5 dias úteis? Se eu fosse homem, ficaria puto. Estão tirando o papel do pai, subestimando o interesse e a capacidade deles.

O TRABALHO E A CULPA

Essa foi a primeira frase que ouvi: “Vai se acostumando, que ser mãe é ter culpa”. Quando estava em casa cuidando do Theo, às vezes me sentia inútil, improdutiva… Quando pensava na rotina que tinha antes, sofria por não conseguir me imaginar perdendo toda evolução do meu filho. Daí surgiu a ideia de investir em um projeto, onde eu pudesse fazer meus horários e estar mais perto do meu pequeno. Hoje estou me dedicando a esse novo plano dentro de casa.

Descobri que, se for para sentir culpa, melhor não fazer. Em primeiro lugar porque a criança capta muito bem as expressões. Se o bebê vê a mãe saindo de casa com culpa, ele automaticamente vai entender que algo ruim está acontecendo, e vai sofrer. Acho saudável para os pais e para a criança que exista liberdade, que os momentos de separação sejam bem compreendidos e bem vividos, sem exageros.

Ela vai saber que o trabalho é prazeroso, que os papais tem seus momentos de namoro, de diversão e que eles voltam, sempre estarão ali. Noto que muitas pessoas, mesmo as que ainda não são pais, estão mudando sua relação com o trabalho, priorizando qualidade de vida e refazendo os planos para evitar a culpa de não ser fiel aos seus desejos internos. Mães que corajosamente optam, por exemplo, por pararem de trabalhar e se dedicarem apenas aos filhos. É uma maneira de pressionar esse sistema opressor, cada um a sua maneira.

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olga marina santa helena

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Marina Santa Helena é apresentadora da Mix TV e criadora do portal feminino Supremas. Já foi VJ da MTV e fez fotos para Trip e Playboy. Se você acha que a fama a protege do assédio pelo qual qualquer mulher passa nas ruas, saiba que é o contrário.  Aqui, ela conta em detalhes como desde os 10 anos, e em vários momentos do dia-a-dia, foi intimidada por homens e sofreu machismo por parte das mulheres. E como aprendeu a lidar com isso.

Em um cenário em que temos tão pouco debate, números ou informações sobre as violências que as mulheres recebem na rua, são denúncias como essa que nos ajudam a despertar a consciência. Leia abaixo o depoimento de Marina:


Assédio aos 10 anos

Eu me desenvolvi muito cedo, e tem homem que é cara de pau e olha mesmo, pode ter a idade que for. Aos oito anos, era a mais alta da classe e usava sutiã. Aos nove, fiquei menstruada e chorei horrores porque não estava preparada para aquilo. Com dez anos, já ia sozinha pra escola – eu morava em cidade pequena e tudo era meio perto – e aí sim foi que sofri minha primeira intimidação sexual de verdade.

Um dia eu estava voltando da escola, quando um cara de bicicleta apareceu do nada e passou a mão na minha bunda. E não foi só uma simples passadinha de mão, ele encheu a mão mesmo, sem nenhuma vergonha. Daí saiu em sua bicicleta como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei parada uns minutos, sem saber o que fazer, sem saber se contava pra alguém, se chamava polícia. Poxa, há poucos minutos a minha maior preocupação era a boneca que ia levar no noutro dia pra escola ou o que seria servido no almoço lá em casa, daí apareceu esse cara…

Não chorei, nunca contei pra ninguém, nem deixei isso virar tema de terapia. Mas foi a primeira vez na vida que tive essa sensação horrível. Um gosto amargo na boca, o coração acelerado, uma vergonha, uma culpa por algo que eu nem conseguia entender ou explicar. Mal sabia que esse seria um sentimento recorrente a mim, e a todas as mulheres têm que lidar com situações de assédio nas ruas.

O dia-a-dia

Além dessa primeira história, que já foi bem marcante, aconteceram várias outras situações. Sempre tem um cara que acha que você tá lá, linda e cheirosa, vestida pra ele, e chega em você sem ter senso nenhum do ridículo, sem ter noção de que sim, essa é uma forma de violência, eu diria até de estupro.

Uma vez eu estava em um show e, também do nada, apareceu um sujeito completamente bêbado e veio certo pegar nos meus peitos. Claro que ele ganhou um belo de um tapa. Outra vez, quando tinha feito umas fotos de lingerie pra uma revista, o porteiro do prédio onde eu trabalhava decidiu que estava apaixonado por mim ou, sei lá, achou que eu tinha feito as fotos pensando nele, e começou a me dar presentes e pedir pra “me acompanhar até o ponto”. Sorte que não fiquei muito tempo nesse trabalho.

Fora as milhões de vezes que eu (e quase todas as mulheres) tenho que andar pelas ruas na defensiva, evitando olhar quando chamam, mesmo que seja pra pedir informações. Engraçado é que ontem mesmo aconteceu uma dessas. Eu estava andando de fones de ouvido – sempre, para evitar ouvir as bobagens que os homens falam – e aí veio um cara por trás de mim, pegou no meu ombro e eu, bobona, achei que ele queria perguntar algo pertinente. Desacelerei o passo, tirei o fone e ele disse “onde a princesa vai com tanta pressa?”. Ahh, mas fiquei tão brava, que caí na besteira de xingar o homem com todos os palavrões conhecidos, o que pareceu deixa-lo ainda mais instigado. Saí de perto do homem, quase correndo e fiquei olhando para trás o caminho inteiro, para ver se ele não tinha me seguido. Quase pego um taxi.

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Deixar de fazer coisas por medo

Sim e acho que muitas mulheres já deixaram. Por exemplo, se deixo o carro em casa e vou a pé, de ônibus ou de metrô para algum lugar, a roupa é outra. Visto uma calça jeans e um camisetão, jamais vou de saia. Se vejo um grupo de caras de um lado da rua, atravesso. Outra coisa que raramente faço é ir sozinha para um bar. Acho que a primeira vez que fiz isso foi há uns dois anos, quando estava viajando sozinha. Nessa noite, aconteceu outra história marcante. Chegaram alguns caras tentando me pagar drinks e neguei todos. Até que apareceu um outro, que só pode ter achado que eu estava lá a negócios, se é que você me entende. Ele foi tão insistente que achei melhor ir embora do bar. Mesmo assim, ele me seguiu até a esquina, falando bobagens e agarrou o meu braço quando tentei seguir por outro caminho. A rua estava vazia, não passava nenhum taxi e eu já estava entrando em desespero, quando apareceu um outro cara e eu ameacei gritar. Daí ele me largou e foi embora. Depois desse dia, apesar de não me privar de sair, penso três vezes antes de ir sozinha.

A culpa é nossa?

No início, eu sentia gosto amargo, uma vergonha, uma culpa. Era como se eu fosse a culpada por aquilo estar acontecendo, pelo simples fato de que meu corpo era o que “inspirava” os caras a cometerem esse tipo de violência – a velha e terrível mentalidade de que a culpa do estupro é do vestido, um pensamento horroroso que a sociedade tende a enfiar em nossas cabeças. Mas, ao longo do tempo, fui amadurecendo e vi que quem tem que ficar com vergonha não sou eu, mas um sujeito que faz isso, os pais que criam os filhos dentro dessa cultura, as mulheres que julgam o tamanho do seu vestido. Ninguém sai de casa com um vestido curto porque “tá pedindo pra ser estuprada”, ninguém faz fotos sensuais porque quer ser desejada e abordada a todo instante, ninguém anda nas ruas rezando para que o próximo mané da esquina a chame de gostosa e puxe um papinho. Hoje, o gosto amargo ainda volta e o coração ainda acelera nessas situações. Porém, não sinto mais culpa ou vergonha, só raiva.

Como é ser famosa e ler comentários sobre seu corpo

Essa ainda é uma questão que preciso trabalhar melhor. Sim, os comentários “positivos” desse naipe (“gostosa”, “delícia”) também incomodam. Esses dias recebi comentários no Instagram de um cara dizendo que queria me comer, que me pegava fácil e outras coisas do gênero (daí pra pior). Fiquei bastante incomodada, pensei por vários dias se deveria responder ou não. Mas, no final das contas, simplesmente apaguei os comentários e bloqueei o usuário. Pronto, a pessoa sumiu da minha vida. Pelo menos até o próximo imbecil aparecer para comentar tudo de novo. Não dá pra se acostumar com esse tipo de coisa, é algo que, assim como os comentários negativos, sempre estará lá pra te machucar naqueles dias em que você não está se sentindo tão bem assim.

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O machismo das mulheres

Por incrível que pareça, as reações mais absurdas de quando fiz um ensaio para a Trip e uma foto para o calendário da Playboy foram de mulheres. Tem muitas que acham que esse tipo de trabalho denigre a imagem das mulheres como um todo, tem quem ache que você é só mais uma pessoa insegura, carente de atenção e tem outras que queriam mesmo é estar no seu lugar.

Passei muito tempo tentando justificar os comentários que recebi, mas é complicado. Acho que, quando você faz uma foto, aparece num filme ou num programa de TV, a imagem deixa de ser sua para virar domínio público. Não tem nada que você possa fazer em relação a isso, a não ser se libertar. As pessoas vão te julgar sempre, para o bem ou para o mal. Eu já fiz fotos vestida, de biquíni, de lingerie e nua, sinceramente não vejo muita diferença. O preconceito, os julgamentos, os estereótipos, moram na cabeça das pessoas. Eu fiz fotos ditas “sensuais” porque me sinto confortável com elas, me sinto segura vestindo apenas a minha própria pele e não preciso justificar meus motivos para cada hater que aparece. Claro que, se isso me afetar diretamente de alguma forma, vou precisar me defender, mas até agora tudo o que recebi foram comentários pela internet.

Coragem para debater o assédio

Não acho que o assédio sexual é debatido minimamente na nossa sociedade e é por isso que estou aqui no Olga. Sinto que é uma coisa muito velada porque a gente se acostumou. Ora, onde já se viu passar pela obra e não ser chamada de gostosa? Onde já se viu passar um caminhão do seu lado e não buzinar? A gente acha que isso é normal, mas não deveria ser. É um constrangimento sem tamanho. Outro dia passei de carro e vi uma amiga andando na rua, buzinei para ela e ela não olhou, claro que não olhou. Podia ser uma cara fazendo gestos obscenos, podia ser alguém que ia apontar uma arma e obrigá-la a entrar no carro.  É comum. Se você for homem e não estiver entendendo, achar que estou exagerando, pode perguntar para sua irmã, sua mãe, namorada ou amiga se ela já sofreu algum tipo de assédio e eu tenho 100% de certeza que ela vai dizer que sim.

Mas acho que o debate não é tão grande porque ainda rola aquela coisa da vergonha. Muitas ficam envergonhadas de admitir que, sim, resolveram sair lindas de casa, passaram perfume, maquiagem e colocaram sainha. E se sentem culpadas porque isso desperta o interesse de dúzias de caras que se acham no direito de assediá-las sexualmente. Não vão ser os homens que vão começar a debater uma coisa que os afeta tão pouco, ainda por cima quando muitos deles são os responsáveis pela perpetuação desse tipo de comportamento.

Como lutar contra a intimidação sexual

Depende muito do tipo de intimidação. Não dá pra fazer um escândalo toda vez que um cara assobiar e te chamar de gostosa. Isso vai acabar com o seu dia, vai te transformar numa pessoa amarga e raivosa. Agora, nos casos de intimidação mais direta – como quando um sujeito passa a mão numa mulher, ou a segue ou tenta agarrar – acho que tem que pôr a boca no mundo mesmo. Vale gritar, espernear, chamar o cara de tarado, pedir ajuda. É muito comum acontecer isso no metrô, na hora do rush, quando tudo está lotado e aquele cara te dá uma encoxada, assim, como quem não quer nada. Eu sou muito a favor de partir para a violência para cima do cara ou de gritar até deixá-lo constrangido, para ver se aprende uma lição e nunca mais faz aquilo.

Agora, fora desse tipo de situação, o que dá pra fazer é debater o assunto, conversar mais com os amigos (homens e mulheres), educar as crianças para que elas tenham consciência de que interferir no caminho de uma mulher de qualquer forma (palavras ou atos), com o intuito de se obter vantagens sexuais, é sim uma violência.  Acho que muita gente não tem isso muito claro. Por exemplo, será que um cara que assobia pra você sabe que ele tá te deixando com nojinho e não com tesão? É por isso que esse tipo de conversa é importante, temos que criar uma nova cultura.

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olga games 2

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Quando tinha 16 anos, entrei em um jogo de estratégia online –  nele o jogador precisa desenvolver uma tribo, formar alianças e competir pelo domínio do servidor. Fiquei viciada. Passava horas jogando, traçando conspirações, desenvolvendo minhas cidades e programando batalhas. Tornei-me general da minha aliança, uma posição de importância crucial. Um belo dia, entrei no fórum do jogo e vi que havia uma enquete para eleger o jogador mais ‘temido’. Os candidatos estavam chamados de “Zézinho, o terrível gaulês” ou “Léo16, o sanguinário teutão”. Eu era a única jogadora (leia-se a única mulher) listada na votação. Minha descrição? “A doce romana”. Eu havia devastado cidades virtuais, saqueado alianças inteiras e era responsável pelo extermínio de vários jogadores. E era vista como doce. Ganhei a eleição – provavelmente só para provocar os outros jogadores listados ali, uma piada.

Parece um exemplo bobo, mas serviu para abrir meus olhos em relação ao que acontecia com garotas nesses jogos. Mudei de gráficos com outros games, mas o cenário era bem parecido. Em outra franquia  meu avatar era obrigado a usar roupas decotadas que nem de longe pareciam adequadas para a batalha. Minha personagem se protegia com uma espécie de sutiã de jade que mal tapava os mamilos (as opções eram sutiã de opala, de rubi, de ônix…). Tudo para preservar as tão valorizadas curvas exageradas com as quais a maioria dos títulos retratam suas personagens.

Em jogos de tiro, recebi cantadas e esculachos de jogadores de 10 a 40 anos ao usar um headphone para me comunicar com minha equipe. Era só uma voz feminina soar no grupo para que a atitude deles mudasse. Descobri que ‘tinha que ser mulher’ não é frase ouvida apenas no trânsito – basta levar um headshot. Ao comentar sobre games na escola e na faculdade via rapazes revirando os olhos por ‘eu não saber do que estava falando’ e moças achando que eu só tocava no assunto para chamar a atenção masculina. Será que já cunharam o termo nerdshaming?

Não é implicância minha, nem sou uma jogadora assim tão ruim para justificar a reação. Não sou a única que passa por isso – nem de longe, infelizmente. A revista New Media & Society publicou um estudo que revela que, ao comentarem coisas neutras (do tipo ‘oi, pessoal’) no headphone durante uma partida de Halo, mulheres recebem 3 vezes mais respostas negativas do que homens.

Recentemente, li uma entrevista com uma das roteiristas da franquia Bioshock, Susan O’Connor, que também participou do time de criação de Lara Croft e tem mais de 10 anos de experiência no mercado. Durante a conversa com o repórter ela se refere ao jogador sempre como uma figura masculina. Isso chama a atenção do jornalista que pergunta a ela “mas e a perspectiva feminina nos games?”. Susan então revela que nunca viu uma garota ser chamada para testar um game na produtora do Bioshock, a 2K Games. Logo depois é discutida uma personagem feminina do jogo Leisure Suit Larry que foi desenvolvida com uma história interessante, tem uma personalidade diferente, um prato cheio para uma roteirista… mas tudo para que, uma hora, o jogador fique ainda mais interessado em fazer sexo com ela. E então Susan revela que está cansada da indústria. “Não sou tão apaixonada por games para ignorar essas coisas sobre as quais discutimos”, confessa.

Se o machismo da indústria dos games é capaz de afastar uma roteirista com 10 anos de experiência, uma garota que está apenas começando a se interessar e sente tamanha resistência ao tentar entrar nesse mundo desiste sem pensar duas vezes. Acho que a maior prova de como o grupo dos gamers é fechado é o meme Idiotic Nerd Girl. Ele consiste em zoar meninas que por serem bonitas, ou populares, ou pegarem a crista da onda na moda de algum game, não teriam direito de participar de comunidades geeks por não serem nerds “de verdade” (suspiro).

Vamos pensar direito sobre o que esse meme realmente diz?

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Então a cultura nerd é machista? Mas eles também não eram minoria há alguns anos?  

O estereótipo do nerd, alguns anos atrás, era o menino emocionalmente e fisicamente frágil, extremamente introvertido, que só tirava nota boa na escola. Hoje, o cenário é bem diferente –  alunos tímidos e CDF viraram magnatas, ser nerd ou geek é visto como uma coisa boa e tem um apelo cada vez maior. Mas os próprios nerds não gostam dessa popularização. Há aqueles que acham que suas paixões, antes exclusivas desse grupo, estão sendo ‘roubadas’, como se ficassem menos nobres com um maior número de fãs. E aí entram mulheres que, ao se aproximarem desses domínios, são ridicularizadas por sua falta de habilidade ou conhecimento.

Vale lembrar que a popularização da figura do geek coincide também com uma maior liberdade feminina em relação à cultura e à tecnologia. Em lojas especializadas, vemos pais comprando quadrinhos e games para as filhas. No ‘meu tempo’, quando meu pai me levava para comprar cartas de Magic The Gathering, eu cheguei a ser olhada com espanto por vendedores. Mas, mesmo hoje, nem sempre nos é dada a opção de fazer parte disso – de várias formas, como as citadas acima, somos encorajadas a perseguir interesses considerados ‘mais úteis’ ao universo feminino. Não é como se não gostássemos de games, quadrinhos, ficção ou qualquer outro elemento nerd. É que poucas meninas têm contato com esses produtos e menos ainda são aquelas encorajadas a cultivar sua relação com eles. 

Gosto de acreditar que esse cenário está mudando. Na última conferência E3, a Nintendo revelou que a normalmente frágil Princesa Peach, cujo papel na maioria dos jogos é ficar esperando Mario resgatá-la, será um personagem jogável em Super Mario 3D World. Sim, ela ainda é uma princesa, ela ainda usa rosa. Mas ela já consegue matar monstros sozinha e acompanhar os encanadores italianos numa boa*. Há quem diga que a ideia da Nintendo é trazer mais meninas para a série – acho que não há necessidade disso. Os títulos da franquia  sempre tiveram um grande contingente de adeptas. Penso que se trate, realmente, de uma maior conscientização sobre a forma com que mulheres são representadas.

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A verdade é que que cada um, homem ou mulher, tem seu tempo. Da mesma forma que a filha de uma amiga descobriu como baixar apps com 4 anos de idade, minha mãe descobriu o Call of Duty só depois dos 50 (e detona muito moleque no jogo). Isso mostra que a pequena quantidade de mulheres ou o tempo de contato menor não significa que somos menos apaixonadas pelas causas nerd. Se você, homem, se considera um conhecedor profundo de algum produto cultural, significa que você precisou estudá-lo, gastar tempo nele. Você também já deu mancada antes de acertar. E, sim, também já foi xingado de noob, dentre outras coisas. Mas ninguém te julgou menos capaz por ser um homem. Um hora, seu conhecimento cresceu e você foi reconhecido por isso.

Dê crédito às mulheres, tanto às que nasceram jogando videogame quanto às que descobriram ontem a paixão por Star Wars. Dê a elas a oportunidade de descobrirem seus gostos, sem envergonhá-las por ainda não terem tantas informações ou habilidade. Se você é geek hoje, você já foi um noob. Dê a mesma chance para qualquer um, homem ou mulher, que quiser trilhar o mesmo caminho.

Quer se aprofundar no assunto? Recomendo fortemente a série Damsel In Distress da vlogger Anita Sarkeesian (Feminist Frequency).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=X6p5AZp7r_Q]

A história da própria série de vídeos já é digna de nota – ela apelou ao Kickstarter para arrecadar fundos e produzir seus vídeos sobre o modo com que mulheres são retratadas nos games. E, ao lançar a campanha, se tornou alvo de bullying. Ela compartilha essa história em sua palestra no TED sobre garotas, games e machismo.

*Em 2006, foi lançado um game de Nintendo DS que trazia Peach como personagem principal “Super Princess Peach”. No episódio, Peach é que devia salvar Mario. Mas por se tratar de um título separado da série de games convencional, com o marketing voltado para garotas, o apelo dele entre os homens não foi memorável.


Luciana Galastri é repórter do site da revista Galileu. Se a vida fosse como um navegador, a sua se alternaria entre as seguintes abas: internet, games e literatura.

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olga aborto

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Claudia Salgado, 28 anos, gerente de varejo, fala de forma corajosa sobre a ilegalidade do aborto e suas consequências absurdas. Um viés humano e sincero nesse momento em que se debate o projeto de lei do nascituro


Minha mãe tinha 18 anos na época em que foi estuprada. Ela não foi a única que sofreu este tipo de violência na família: tenho uma tia que também foi humilhada e estuprada por mais de um homem, mas não teve frutos disso, a não ser o trauma e a vida quebrada.

Somos de uma cidade muito pequena no interior de Santa Catarina. Ela havia saído com minha tia para dançar em uma matinê e, quando voltou para casa, sofreu agressão física muito brutal do avô, que era militar e muito rigído com regras e com relação às filhas saírem de casa. A família era muito grande – eram 5 filhas no total – e havia muita preocupação com relação as filhas ficarem mal faladas.

Estou abrindo isso para mostrar como ignorância só gera ignorância. Meu avô não é má pessoa, mas ele era alcoólatra e muito severo com as meninas.

Minha mãe ficou desesperada depois da surra que tomou e decidiu fugir de casa com minha tia. As duas estavam muito machucadas e vulneráveis e se sentaram desoladas nas escadarias da Catedral no centro da cidade, onde estes dois homens se aproximaram de forma amigável e ofereceram amparo. Elas inocentemente aceitaram e foram passar a noite na casa deles, onde haviam mais homens. Foi quando toda a violência física ocorreu. Minha tia era mais forte e conseguiu fugir, mas minha mãe não conseguiu e foi violentada por mais de um homem. Somos tão parecidas fisicamente que ela mesmo lamenta o fato de nem sequer saber qual deles é meu pai.

Naquela época as coisas não eram bem explicadas – em sua maioria, eram omitidas. Minha mãe não contou a ninguém o ocorrido, pois, além da vergonha, ela ainda se sentia mortificada de medo de que não acreditassem nela. Ela era tão inocente que nem sabia que estava grávida, nem foi atrás de justiça, apenas se fechou. E quando a barriga ficou impossível de disfarçar, ela não pôde mais negar e outra vez passou por mais humilhação. Teve que sair de casa às pressas, pois meu avô queria matá-la. Eu não acho que, para ela, seguir a gravidez foi uma escolha, ela não entendia o que estava acontecendo e só teve essa opção.

Essa história afetou minha vida e a relação com a minha mãe por muitas razões. Ela não tinha a menor estrutura emocional de ter um filho sob aquelas condições e naquela idade. E eu nunca me senti desejada. Minha infância ficou quebrada e minha vida, incompleta. Só soube dessa história quando tinha 11 anos. Até então, ela dizia que meu pai havia morrido num acidente enquanto ela estava grávida, o que eu sempre achei estranho, pois nunca havia visto uma foto ou algum registro de que ele realmente existira.

olga claudia

Minha infância ficou incompleta porque me faltou a figura paterna, minha mãe era instável emocionalmente, me senti enganada e não consegui assimilar quando ela me contou a minha origem. Me sentia humilhada quando via minhas amigas com seus pais num lar ajustado.

Sentia raiva da minha mãe porque ela me teve sem ter me desejado, embora existisse o respeito por saber que ela nunca deixou nada me faltar e sempre fez o possível para que eu crescesse com dignidade, tivesse uma boa educação e nada me faltasse.

Sempre tive o sentimento de que ela se importava comigo, mas não me amava… E até hoje tenho este sentimento, mas hoje é mais compreensível porque, com o tempo, adquiri maturidade para entender o quanto isso foi danoso e o quanto deve ter sido difícil para ela ter que conviver com o fantasma de um ato bárbaro. É muito difícil lidar com a dor da rejeição, ela nos deixa realmente miseráveis… E mesmo que você tente se agarrar a seu orgulho, esbravejar que está tudo bem e ser indiferente a situação, não tem como: aquilo está ali, é a realidade da sua vida e você precisa aceitar.

Acho que nesse caso é visível que a ignorância gerou tudo isso. Se ela tivesse mais abertura em casa e direito de expressão, mais compreensão da parte dos pais, nada disso teria acontecido.

Não sei se cabe dizer que ela poderia ter escolhido interromper a gravidez, pois acredito que ela nem se quer sabia que isso era possível naquela altura. E também sei que no fundo ela não se arrependeu, porque não fui uma filha ruim e nunca dei trabalho ou fiz algo que pudesse fazer com que ela se arrependesse de eu ter nascido. Pelo contrário, minha chegada na família foi recebida com muito amor, inclusive meu avô aceitou e foi um pai para mim. Quem me criou foram meus avós, minha mãe teve mais um papel de provedora, pois sempre trabalhou muito para garantir que nada me faltasse.
Acho apenas que ela deveria ter se empenhado mais em achar estes bandidos, mas, ao mesmo tempo, acredito que ela estava muito fragilizada naquele momento e não tinha condições de lutar por nada além da nossa sobrevivência. E devo confessar que sou uma pessoa de sorte, pois não tive um pré-natal e nasci muito saudável.

O projeto de lei do nascituro

Acho esse projeto de lei um grande equívoco. Acredito que as mulheres deveriam ter suporte financeiro e emocional do governo para tomarem a decisão que melhor fosse conveniente a elas, especialmente num caso de estupro, em que deveria ser totalmente amparada e ter o direito de escolha de continuar ou interromper a gravidez. Não se trata apenas de receber uma esmola do governo, vai muito além disso…  

A favor do aborto

Por ser fruto de um estupro, me sinto até mesmo no direito moral de ser a favor do aborto. Eu sei o quanto foi horrível e quantas vezes desejei não ter nascido, pois acredito que a vida da minha mãe teria sido muito melhor se isso não tivesse acontecido. Ela teria tido mais tempo para concluir os estudos, fazer coisas que uma jovem da idade dela faria se não tivesse um filho nos braços. Ela não teria passado pela dor da reprovação, pela humilhação que passou e teria muito mais chance de ter formado uma família e ter um lar ajustado. Demorou muitos anos até que ela conseguisse (eu já era adolescente quando ela conheceu uma pessoa, com qual ela já está há 12 anos e tem outra filha). Ela também acabou de se formar em Direito, aos 47 anos de idade. Acho muito mais digno interromper uma gravidez indesejada do que colocar uma criança no mundo para sofrer e passar necessidades.

Eu fiquei extremamente sequelada, e não sinto a menor vontade de ser mãe. Não acredito que poderei ser boa o suficiente. Me sinto extremamente insegura e tenho muita resistência ao assunto. Sempre digo que só terei um filho se algum dia estiver em uma relação estável com alguém que queira muito, que me passe essa segurança.

O que podemos fazer

Eu acho que falta promover a igualdade, no sentido de que nós, mulheres, tenhamos autonomia sobre nossos próprios corpos e que possamos decidir por nós mesmas como ter um filho afetará nossas vidas e a da criança inocente. Sem interferência de religião, a mulher necessita ter esse direito e centros de apoio moral e psicológico. Vamos supor que homens pudessem engravidar, vocês acham que o aborto já não estaria legalizado?

Leis como essa são criadas, pois vivemos num mundo cheio de pessoas ignorantes e incapazes de pensar no dano que um estupro causa à história de uma pessoa.

Devemos promover discussões saudáveis e positivas sobre o assunto em um aspecto geral, derrubar dogmas e aumentar a consciência de um assunto que é importante na vida de muitas pessoas. Trabalhar com comunidades locais oferecendo suporte psicológico, oferecer uma plataforma neutra onde a mulher tenha espaço, sem ser julgada, e analisar realisticamente os prós e contras da gravidez. E que a mulher possa fazer sua própria decisão.

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olga livros

olga livros

Fiquei um tempão pensando em que tipo de recorte eu daria para essa lista, mas no fim resolvi escrever sobre livros que, mesmo de forma indireta, me fizeram pensar no que significa ser mulher. Ironicamente, todos foram escritos por homens, mas acho que isso tem menos a ver com mulheres escritoras do que com as minhas escolhas de leitura – mesmo que inconscientemente.

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Casa de bonecas, Henrik Ibsen

Como tantas outras obras do século 19, esta também é protagonizada por uma heroína meio fútil, em crise com seu casamento, esposa de um marido bem sucedido, com três filhos para criar. Mas, ao contrário das outras obras do século 19, nesta, a protagonista não trai o homem e acaba morta e humilhada. Nesta, Nora decide largar tudo – o marido, a casa, os filhos – para (o horror, o horror!) tentar ser feliz. E traz o seguinte diálogo:

Helmer: Você seria capaz de negar a tal ponto seus deveres mais sagrados?
Nora: E quais são meus deveres mais sagrados, no seu parecer?
Helmer: E sou eu quem precisa dizer isso? Não serão os que você tem para com seu marido e seus filhos?
Nora: Tenho outros tão sagrados como esses.
Helmer: Não tem. Quais poderiam ser?
Nora: Meus deveres para comigo mesma. (…) Creio que antes de mais nada, sou um ser humano tanto quanto você…

E Nora sai para nunca mais voltar. Um ano antes da publicação da peça, em 1878, Ibsen havia escrito que “uma mulher não pode ser ela mesma na sociedade contemporânea. A sociedade é masculina, com leis escritas por homens e com tribunais e juízes que julgam as mulheres a partir de um ponto de vista masculino”. Se você, mulher moderna do século 21, nunca sentiu isso na pele, considere-se sortuda. Fica difícil ser mais atual do que Ibsen.

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A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro

O enredo é famoso: são as memórias sexuais de uma senhora baiana de 68 anos, narrados em forma de conversa. Masturbação, sexo anal, relações com mulheres, estupro (que ela cometeu), incesto (com o irmão dela) y otras cositas más: não há nada que você possa imaginar que essa protagonista não fez – duas vezes. O tema recorrente são as possibilidades da sexualidade feminina: parecem maiores, são mais sutis – são mais buracos, afinal. E ainda traz uma pensata: “não se pode querer ver a afirmação da mulher como uma vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é a nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, (…) O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não broxar, não afrouxar, não pedir penico.” É bom para checar como anda o machismo dentro de cada uma de nós: se você acha que homem não chora, não broxa, tem que pagar a conta no primeiro encontro, além da do motel, e ainda segurar a porta para você entrar, então é triste dizer, mas moças, somos machistas também.

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O poder do mito, Joseph Campbell

O livro é uma longa entrevista com Joseph Campbell, professor de literatura&mitologia&religião americano, conduzido pelo jornalista Bill Moyers. Vida, morte, felicidade, o sentido das coisas: tudo é tratado em suas 295 páginas. Moyers insiste nas perguntas de gênero (por que é a mulher a culpada pelo pecado original? qual é o papel dela nas religiões orientais? por que a reza começa com “pai nosso que está no céu” e não “mãe nossa que esta no céu?”) e Campbell não parece muito preocupado com o assunto, responde tudo rapidamente. Ainda assim, o que ele fala é valioso. Para todas as culturas, das tribos norte-americanas às comunidades indianas, o poder da mulher é o da vida – ela que gera e traz à luz todos os seres vivos, e é responsável também pela fertilidade: a dela mesma e a da Terra. Para os homens, sobram os poderes restantes: a guerra, o sacrifício, a transformação. Mas não a vida. Para nós, mulheres modernas preocupadas com a carreira, os impostos, um mundo melhor, é algo que às vezes esquecemos. Mas que não deveríamos. Poder gerar uma vida é incrível. Não há nada mais feminino – e feminista – do que isso.


Karin Hueck é uma das autoras do blog 3 Livros Sobre e editora da revista Superinteressante, onde resenha mais livros, escreve sobre cultura e edita infográficos.

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olga tv

olga tv

Do ponto de vista mercadológico e criativo, nunca falou-se tanto na ameaça que os seriados apresentam ao domínio simbólico do cinema: a sétima arte. A tevê, que não possui este status, experimenta um certo crédito (ao menos imediato) com a migração significativa de público, recursos e artistas que acolhe. Para ilustrar a questão: Al Pacino, o eterno Michael Corleone, encarnou Phil Spector em filme da HBO. Jessica Lange e Steve Buscemi à frente de American Horror Story e Boardwalk Empire, respectivamente. Os irmãos Wachowski, famosos pela trilogia Matrix, produzem uma série em parceria com o Netflix. Em breve, neurocientistas – os xamãs do novo milênio – estarão discutindo efeitos dos sites de streaming no comportamento das pessoas.

Com a mudança de cenário, as personagens femininas também respiraram novos ares. Não foi sempre assim, claro. Tradicionalmente, nos deparamos com três tipos unidimensionais de mulheres roteirizadas:

1) A neurótica control-freak às voltas com dramas amorosos. É através da aparição e consequente envolvimento com um homem-ideal que se justifica a existência dela na trama. É importante frisar que o sujeito em questão deve atender a uma lista louca de atributos de príncipe encantado, a ausência deles é história, a concordância com eles resulta em final feliz. Já virou piada: todas poderiam ser interpretadas pela Katherine Heigl. Exemplo: Carrie Bradshaw (Sex and the City), Penny (The Big Bang Theory), Zoe (Hart of Dixie).

2) A mulher inteligente e/ou em posição de poder, porém “emocionalmente travada” ou, pior, dona de um raciocínio masculinizado. Este tipo avança em consistência psicológica e dramática em relação à anterior, mas costuma ser mal desenvolvida. Mais uma vez, ela é “salva” de sua condição diante da aparição de um homem-ideal, que a feminiliza. Exemplos: Temperance Brennan (Bones), Olivia Pope (Scandal) e Robin (How I Met You Mother).

3) A mulher-musa. Tom Jobim e Vinícius de Moraes chamavam de Garota de Ipanema, os hipsters chamam de Zooey Deschanel. Lá fora, ela leva o nome de Manic Pixie Dream Girl e existe apenas para dar sentido e ação à vida de um protagonista masculino impotente. Exemplo: Jess Day (New Girl).

Não proponho a erradicação de nenhuma das personagens acima, até porque, toda tipificação é reducionista. Muitas das que se encaixam nestes modelos apresentam outras camadas dramáticas e, por isso mesmo, é interessante notar uma expansão nos retratos femininos em tevê. Vamos dar uma olhada em Joan Holloway/Harris, de Mad Men e Hannah Horvath, de Girls.

AS NOVAS MULHERES NA TV

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Joan Holloway/Harris (Mad Men)

Joan inicia seu percurso na série como o estereótipo da femme fatale, contudo, em busca do príncipe encantado. O que já apresenta uma forte contradição, mesmo que essa procura se dê menos por conta de romantismo exacerbado e mais por noções práticas de dificuldade da vida de mulher nos anos 60. A grande questão de Joan é sempre a honra. Um marido a estabilizaria e daria a ela respeitabilidade, acima de tudo. E é sempre este o seu valor que é negociado ao longo dos anos. Joan é estuprada pelo noivo e prostituída para atrair um cliente poderoso. Cede às aparências que busca controlar, mas, mesmo diante da passividade e dos “trabalhos de mulher” que lhe são imputados, assume outras nuances.

Seu maior laço amoroso vem de um relacionamento extraconjugal com Roger Sterling, um dos sócios da agência. É ela também quem administra o escritório e, em diversas oportunidades, ficamos sabendo que a agência não funciona sem Joan. Ainda no momento em que é mais vitimizada pelo machismo, ela assume algum controle: em vez de aceitar apenas os US$ 50 mil que lhe são oferecidos por dormir com o dono da Jaguar, pede 5% da empresa e poder de voto nas reuniões de sócios.

Joan também cria sozinha um filho gerado fora do casamento, põe o marido para fora de casa e lida com o preconceito das próprias colegas de trabalho como ninguém. Não supervalorizo migalhas, mas ainda que fragilizada e anacrônica, ela se mostra mais moderna e corajosa que a maior parte das protagonistas que abocanharam estatuetas do Oscar.

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Hannah Horvath (Girls)

Já Hannah, muito discutida e odiada, é mesmo em alguma medida a voz de outra geração. É ela quem expõe questões tão “millennial” quanto a supervalorização das experiências, que escravizam e afastam do próprio eu. Dos próprios desejos. O sexo, tão exaustivamente mostrado em Girls, nem sempre é motivo de prazer. Já o trabalho é uma empreitada quixotesca: enquanto busca um gigante, se depara com moinhos de vento. Ela passa por empregos que, muitas vezes, roubam a dignidade. Ao jogar esta verdade na cara de, principalmente, aqueles que já passaram por isso e acham que é o caminho natural das coisas, soa um abuso. Uma verdade amarga demais, que é melhor engolir sem passar muito tempo pela boca.

Seja Joan, uma mulher de ontem com arroubos do amanhã; ou Hannah, tão de hoje; elas assumem o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Não sei se todo mundo que reivindica a mudança de padrões está consciente da importância deste processo, mas vivemos em uma sociedade que tem paixão pelo real, se Žižek e Baudrillard me permitem o uso da expressão. Não à toa existem tantos reality shows. A ficção sempre viveu de mimetizar a realidade, mas esta questão me parece cada vez mais atual: a protagonista flat não cabe mais na vida das outras mulheres, não cabe na nossa medida de empatia. É por meio deste desejo de empatia (e de companhia, por que não?) que já se vislumbra uma ficção mais complexa e dialógica.


Mariana Araújo, 25 anos, é repórter de entretenimento da Revista GLOSS e autora do blog Louca Por Séries. Ela cursou 3 anos de Física na USP, mas se formou mesmo em jornalismo na Cásper Líbero.

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olga princesas
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olga princesas

Merida, a princesa da animação Valente, passou por uma mudança no visual por parte da Disney na semana passada. A protagonista – hábil em arco e flecha e famosa por ser, como o próprio nome do filme diz, corajosa – ganhou uma imagem sensualizada com decote maior, cintura menor, rosto menos infantil. O motivo? Neste mês, Merida entrou para a franquia Disney Princesas, que licencia todos os tipos de produtos infantis com desenhos das personagens. O propósito? Padronizá-la, deixá-la mais parecida com as outras princesas.

“Acho cruel o que eles fizeram com Merida”, escreveu Brenda Chapman, a criadora do desenho, no Marin Independent Journal. “Ela foi criada para servir de exemplo às garotas de um personagem que fosse melhor, mais forte e não apenas um rostinho bonito à espera de um príncipe encantado”. No site change.org, cerca de 230 mil pessoas contestaram a alteração do visual. “Merida era a princesa que por tanto tempo esperamos: forte, confiante, que não precisa de ninguém para socorrê-la. Ela era a princesa que se parecia com uma garota real, com as mesmas imperfeições que todo mundo tem”, diz o abaixo assinado.

olga merida

A Disney voltou atrás. E algumas pessoas até se perguntaram se era para tanto. Será? Durante um papo com a antropóloga Michele Escoura descubro que sim, é para tanto. Em sua pesquisa para a USP, ela analisou a influência das Princesas Disney nas meninas. Conversamos sobre como a distinção de gêneros feita logo cedo afeta as crianças que, aos 5 anos, já entendem o que são padrões de beleza.


“Quando dei início ao trabalho de campo, vi uma menina rodando a saia na sala de aula. Ela queria chamar a minha atenção e gritava ‘tia, tia, olha meu vestido, rodo igual princesa, sou a Cinderela’. Cinderela?, pensei. Como que um personagem de 1950, que eu, 20 anos atrás, assistia ao desenho, ainda tem influência nas crianças hoje? 

Logo percebi que a presença tão marcante da Cinderela se deve muito por conta da Disney Princesas, franquia que licencia a imagem das personagens para todo tipo de produto. E como as crianças consomem muito – mochila, estojo, caderno, roupas, decoração de festa – a princesa está em seu cotidiano. E a Cinderela é a líder desse grupo, sempre ao centro das imagens divulgadas.

Por um ano, acompanhei três turmas de crianças, em três escolas, para compreender a mensagem que recebiam das princesas. A primeira delas é que, para ser princesa, é preciso um príncipe. Uma das meninas até me falou: ‘para ser princesa, tia, precisa se casar. Senão não vai ser princesa, vai ser solteira‘.

Outra mensagem está associada à dimensão estética. Para ganhar uma coroa, é  necessário ser bonita, jovem e elegante. O título real, na verdade, não importa. O essencial é parecer uma. Além de Cinderela, passava o filme da Mulan  [heroína chinesa baseada em um mito chinês]. E um menino me disse uma vez que a Mulan não poderia ser uma princesa porque ela ‘usava uma maquiagem branca feia’. Outra menina disse que a Mulan era linda, mas quando pedi para desenhá-la, a pintou com o cabelo loiro.

olga rainha

Não são as princesas que inventaram o padrão de beleza. Isso é propagado há muito tempo. Mas os desenhos servem como mensageiros do que vemos nas revistas femininas, na protagonista da novela das 6… É impressionante perceber o quanto eles traduzem esses padrões de beleza para crianças entre 4 e 5 anos, e como essas meninas já entenderam como o mundo funciona. Em uma das escolas, onde a maioria dos alunos era negra, vi duas meninas brincando de cabeleireiro em que uma fingia alisar e pintar o cabelo da outra. Já entenderam que para ser mulher – a imagem da mulher que é divulgada e aceita como a única por aí – ela tem que ter cabelo liso e loiro. 

As crianças sabem que existem outras formas? Sim. Mas também entendem que apenas algumas delas são valorizadas. Por isso, precisamos circular outros valores. Dar o mesmo status de importância e poder às outras formas, aos diferentes tipos de cabelos, de pele, de estilo.”

ABDIQUE DA COROA 

Michele sugere livros que trabalham a feminilidade de forma diferente ao das princesas.

As tranças de Bitou

As Tranças de Bintou é uma linda história, escrita por Sylviane A. Diouf, que conta o sonho de Bintou, uma menina africana, de ter tranças como todas as mulheres mais velhas de sua aldeia. Mas, como ainda é criança, tem de se contentar com os birotes. A autora Sylviane A. Diouf, filha de pai senegalês e mãe francesa, criou uma delicada história sobre a angústia do rito de passagem e o aprendizado do crescimento.” (Bloginfo)

olga trancas de bitou

Uma princesa nada boba

“O escritor Luiz Antonio mostra uma menina negra contando em primeira pessoa seu sonho de ser uma princesa como as outras (loira e com nomes como Stephanie), e revela, no decorrer das páginas, como ela pode ser muito mais princesa do que imagina.” (Revista Crescer)

olga princesa nada boba

Existe algo mais chato do que ser uma princesa rosa?

Ainda sem tradução para o português, infelizmente. No entanto, é possível ler o livro em espanhol online e de graça aqui.
Carlota é uma princesa, mas está cansada da cor rosa e não quer mais saber de beijar sapos para ver se eles viram príncipes. Por que ela não pode salvar príncipes das garras de lobos, derrotar dragões e voar em balões?

olga princesa rosa

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angelina jolies olga
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angelina jolies olga

O mundo não fala em outra coisa hoje senão a dupla mastectomia de Angelina JolieNessa internet de meu Deus, eu já li de tudo: “que coragem!”, “ela só quer aparecer”, “era desculpa pra botar silicone”. Especulações e idiotices à parte, só consegui pensar uma coisa: “gente, que mulher!”

Os seios são um símbolo muito importante da feminilidade, mas não é porque a gente quer usar decote. Ter peitos faz parte dos contornos de ser mulher. Alimentar um bebê é parte de ser mulher. Tirar os seios (ainda mais os dois!) é uma decisão muito difícil para qualquer uma de nós.

Há alguns anos, vivi isso ao lado da minha mãe, que aos 45 anos precisou passar por uma mastectomia. Além da dor dos procedimentos, invasivos e traumatizantes, doía nela a sensação de que estava deixando de ser tão mulher. Como se um pedaço de sua feminilidade tivesse ido embora.

E observando a sua experiência – e a da Angelina – me vem logo à cabeça: “tem que ser muito macho pra encarar isso”. Uma atitude que exige culhões, uma força descomunal, que não combina com a fragilidade feminina. Porém, no momento seguinte, concluo que, justamente por isso, elas duas são muito mulheres.

Nos dois casos, existe uma preocupação muito grande com os filhos, tão grande que às vezes até maior do que consigo mesma. Angelina diz: “sabia que essa era a coisa certa a ser feita para a nossa família e que isso iria apenas nos unir mais”. E é verdade… Ser mulher é ter cuidado com o outro, é exercer uma força agregadora de pessoas.

E nestes momentos da vida, vemos a força do feminino surgir ainda mais poderosa. “Uma observação: não me sinto menos mulher. Sinto-me poderosa por ter tomado uma decisão tão forte que em nenhuma forma diminui minha feminilidade.”

Não mesmo, Angelina, pelo contrário. Você é mulher pra cacete! E, mãe, a mulher que você é me orgulha e me inspira todos os dias


Maíra Liguori é jornalista formada pela PUC-SP e trabalha como planejadora na CO.R Inovação. Seu trabalho concentra as duas coisas que mais gosta de fazer: estudar e aprender com pessoas.

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agnes cecile mulheres ti olga

agnes cecile mulheres ti olga
 
Bárbara Castro, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, desenvolveu uma pesquisa sobre relações de gêneros no mercado de TI. Aqui, ela explica por que o público feminino se distanciou do mundo da tecnologia nas últimas quatro décadas e como felizmente o cenário está mudando graças a ninguém menos do que as próprias mulheres. 
 

Eu estou bastante otimista com o cenário da TI para as mulheres hoje. Apesar da baixa participação feminina no setor no mundo todo (1/3 dos profissionais da União Européia, 20% dos profissionais no Brasil), percebi, nas entrevistas que fiz, uma diferença geracional nos discursos. E há uma diferença na socialização das mulheres com a tecnologia.

As pioneiras do setor no Brasil me contaram que a maioria dos alunos de Ciências da Computação, lá na década de 1970, era composta por mulheres. Ainda que, posteriormente, não tenham optado por ingressar no mercado de trabalho. Elas fizeram essa opção no momento do vestibular porque o computador e a computação lhe pareciam uma entidade mística, e que aquela aura de mistério (poucos tinham visto um computador de perto ou sabiam para quê ele funcionava) era o que as havia atraído para a área. Era como desvendar o funcionamento de uma célula, sabe? Calcular e desenvolver logaritmos eram mais associados a funções de cientista de laboratório, bastante distante de um uso prático e socialmente reconhecido.

Se fizermos uma análise rápida a partir dessas histórias, o que podemos dizer é que a área da computação não tinha o status que tem hoje. Não era atrativa, não era considerada “séria” ou uma profissão que “dá futuro”, como encorajam os nossos pais quando escolhemos uma profissão. E estamos falando de um contexto específico, em que a participação das mulheres no mercado de trabalho só cresce mesmo a partir dos anos 1980 e quando os homens ainda eram considerados os provedores da família.

É nesse sentido que podemos considerar a hipótese de que os homens não procuravam a computação como carreira porque não tinha status social e não embutia as ideias de segurança, estabilidade (veja que falo sempre, aqui, do tipo médio, porque é claro que tem sempre os que não seguem essas normas sociais). Quando o computador pessoal entra nos escritórios e nas casas das pessoas, ali em finais dos anos 1980, há uma mudança de percepção da profissão, da sua centralidade para a economia. Movimento que se reforça com a Internet.

No meio desse caminho, aquela imagem do computador como entidade mística se perde e é reconstruída, no imaginário social, pela ideia de uma máquina difícil de ser operada – assim como uma série de máquinas que sempre foram operadas por homens nas indústrias. A relação, óbvio, não é imediata, mas o que quero dizer é que o computador deixa de ser uma entidade abstrata para ser uma tecnologia concreta e complexa.

E tanto o status da profissão quanto a associação socialmente construída da tecnologia com as máquinas fizeram o movimento de levar mais homens para o setor, ao mesmo tempo em que as mulheres não se sentiram mais tão atraídas por ele. Seja por medo de não saber mexer, seja por terem sido ensinada de que máquinas são coisas de meninos, seja porque achavam que não dariam conta de uma carreira tão central à economia.

Mas por que estou otimista, então? Porque tem duas coisas legais acontecendo hoje. A primeira é que as mulheres estão se organizando e criando grupos e associações para debater a baixa participação das mulheres na TI e para tentar criar mecanismos de mudança desse cenário. A segunda é que a mística negativa, de não saber usar ou de quebrar um computador tentando aprender a usá-lo, está deixando de existir com essa nova geração, que já nasce conectada.

Apesar de muitos garotos ainda dizerem que mulheres não sabem programar ou de muitos clientes desconfiarem de mulheres em chefias de projetos técnicos, aos poucos esse domínio da programação e do desenvolvimento de software como habilidades complexas e exclusivas de um grupo vão perdendo o espaço no discurso mais geral pelo próprio uso diário das tecnologias. Ações que parecem corriqueiras, como instalar apps no celular ou mudar o mexer no código de um blog para mudar o template, vão mudando a forma de homens e mulheres se relacionarem com a linguagem da computação e desmistificando sua associação com o universo masculino.

Por isso que falo que estou otimista com o cenário atual: porque há uma mudança de discurso e de postura que podem provocar uma mudança na maneira como a TI é pensada enquanto profissão. Movimento muito parecido com o que ocorreu em outras profissões ao longo da história, como a medicina ou a dança, por exemplo.

Quem faz

Conheça algumas comunidades que incentivam a participação da mulher na TI com cursos de programação e workshops de gerenciamento. Ter pessoas dispostas a ensinar é importante. Mas o primeiro passo é existir quem diga que é possível ser feito.

Advancing Women in IT, EUA

Berlin Geekettes, Alemanha

Lady Geek, Inglaterra

/MNT, Brasil

Ônibus Hacker, Brasil

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