olga aborto

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Claudia Salgado, 28 anos, gerente de varejo, fala de forma corajosa sobre a ilegalidade do aborto e suas consequências absurdas. Um viés humano e sincero nesse momento em que se debate o projeto de lei do nascituro


Minha mãe tinha 18 anos na época em que foi estuprada. Ela não foi a única que sofreu este tipo de violência na família: tenho uma tia que também foi humilhada e estuprada por mais de um homem, mas não teve frutos disso, a não ser o trauma e a vida quebrada.

Somos de uma cidade muito pequena no interior de Santa Catarina. Ela havia saído com minha tia para dançar em uma matinê e, quando voltou para casa, sofreu agressão física muito brutal do avô, que era militar e muito rigído com regras e com relação às filhas saírem de casa. A família era muito grande – eram 5 filhas no total – e havia muita preocupação com relação as filhas ficarem mal faladas.

Estou abrindo isso para mostrar como ignorância só gera ignorância. Meu avô não é má pessoa, mas ele era alcoólatra e muito severo com as meninas.

Minha mãe ficou desesperada depois da surra que tomou e decidiu fugir de casa com minha tia. As duas estavam muito machucadas e vulneráveis e se sentaram desoladas nas escadarias da Catedral no centro da cidade, onde estes dois homens se aproximaram de forma amigável e ofereceram amparo. Elas inocentemente aceitaram e foram passar a noite na casa deles, onde haviam mais homens. Foi quando toda a violência física ocorreu. Minha tia era mais forte e conseguiu fugir, mas minha mãe não conseguiu e foi violentada por mais de um homem. Somos tão parecidas fisicamente que ela mesmo lamenta o fato de nem sequer saber qual deles é meu pai.

Naquela época as coisas não eram bem explicadas – em sua maioria, eram omitidas. Minha mãe não contou a ninguém o ocorrido, pois, além da vergonha, ela ainda se sentia mortificada de medo de que não acreditassem nela. Ela era tão inocente que nem sabia que estava grávida, nem foi atrás de justiça, apenas se fechou. E quando a barriga ficou impossível de disfarçar, ela não pôde mais negar e outra vez passou por mais humilhação. Teve que sair de casa às pressas, pois meu avô queria matá-la. Eu não acho que, para ela, seguir a gravidez foi uma escolha, ela não entendia o que estava acontecendo e só teve essa opção.

Essa história afetou minha vida e a relação com a minha mãe por muitas razões. Ela não tinha a menor estrutura emocional de ter um filho sob aquelas condições e naquela idade. E eu nunca me senti desejada. Minha infância ficou quebrada e minha vida, incompleta. Só soube dessa história quando tinha 11 anos. Até então, ela dizia que meu pai havia morrido num acidente enquanto ela estava grávida, o que eu sempre achei estranho, pois nunca havia visto uma foto ou algum registro de que ele realmente existira.

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Minha infância ficou incompleta porque me faltou a figura paterna, minha mãe era instável emocionalmente, me senti enganada e não consegui assimilar quando ela me contou a minha origem. Me sentia humilhada quando via minhas amigas com seus pais num lar ajustado.

Sentia raiva da minha mãe porque ela me teve sem ter me desejado, embora existisse o respeito por saber que ela nunca deixou nada me faltar e sempre fez o possível para que eu crescesse com dignidade, tivesse uma boa educação e nada me faltasse.

Sempre tive o sentimento de que ela se importava comigo, mas não me amava… E até hoje tenho este sentimento, mas hoje é mais compreensível porque, com o tempo, adquiri maturidade para entender o quanto isso foi danoso e o quanto deve ter sido difícil para ela ter que conviver com o fantasma de um ato bárbaro. É muito difícil lidar com a dor da rejeição, ela nos deixa realmente miseráveis… E mesmo que você tente se agarrar a seu orgulho, esbravejar que está tudo bem e ser indiferente a situação, não tem como: aquilo está ali, é a realidade da sua vida e você precisa aceitar.

Acho que nesse caso é visível que a ignorância gerou tudo isso. Se ela tivesse mais abertura em casa e direito de expressão, mais compreensão da parte dos pais, nada disso teria acontecido.

Não sei se cabe dizer que ela poderia ter escolhido interromper a gravidez, pois acredito que ela nem se quer sabia que isso era possível naquela altura. E também sei que no fundo ela não se arrependeu, porque não fui uma filha ruim e nunca dei trabalho ou fiz algo que pudesse fazer com que ela se arrependesse de eu ter nascido. Pelo contrário, minha chegada na família foi recebida com muito amor, inclusive meu avô aceitou e foi um pai para mim. Quem me criou foram meus avós, minha mãe teve mais um papel de provedora, pois sempre trabalhou muito para garantir que nada me faltasse.
Acho apenas que ela deveria ter se empenhado mais em achar estes bandidos, mas, ao mesmo tempo, acredito que ela estava muito fragilizada naquele momento e não tinha condições de lutar por nada além da nossa sobrevivência. E devo confessar que sou uma pessoa de sorte, pois não tive um pré-natal e nasci muito saudável.

O projeto de lei do nascituro

Acho esse projeto de lei um grande equívoco. Acredito que as mulheres deveriam ter suporte financeiro e emocional do governo para tomarem a decisão que melhor fosse conveniente a elas, especialmente num caso de estupro, em que deveria ser totalmente amparada e ter o direito de escolha de continuar ou interromper a gravidez. Não se trata apenas de receber uma esmola do governo, vai muito além disso…  

A favor do aborto

Por ser fruto de um estupro, me sinto até mesmo no direito moral de ser a favor do aborto. Eu sei o quanto foi horrível e quantas vezes desejei não ter nascido, pois acredito que a vida da minha mãe teria sido muito melhor se isso não tivesse acontecido. Ela teria tido mais tempo para concluir os estudos, fazer coisas que uma jovem da idade dela faria se não tivesse um filho nos braços. Ela não teria passado pela dor da reprovação, pela humilhação que passou e teria muito mais chance de ter formado uma família e ter um lar ajustado. Demorou muitos anos até que ela conseguisse (eu já era adolescente quando ela conheceu uma pessoa, com qual ela já está há 12 anos e tem outra filha). Ela também acabou de se formar em Direito, aos 47 anos de idade. Acho muito mais digno interromper uma gravidez indesejada do que colocar uma criança no mundo para sofrer e passar necessidades.

Eu fiquei extremamente sequelada, e não sinto a menor vontade de ser mãe. Não acredito que poderei ser boa o suficiente. Me sinto extremamente insegura e tenho muita resistência ao assunto. Sempre digo que só terei um filho se algum dia estiver em uma relação estável com alguém que queira muito, que me passe essa segurança.

O que podemos fazer

Eu acho que falta promover a igualdade, no sentido de que nós, mulheres, tenhamos autonomia sobre nossos próprios corpos e que possamos decidir por nós mesmas como ter um filho afetará nossas vidas e a da criança inocente. Sem interferência de religião, a mulher necessita ter esse direito e centros de apoio moral e psicológico. Vamos supor que homens pudessem engravidar, vocês acham que o aborto já não estaria legalizado?

Leis como essa são criadas, pois vivemos num mundo cheio de pessoas ignorantes e incapazes de pensar no dano que um estupro causa à história de uma pessoa.

Devemos promover discussões saudáveis e positivas sobre o assunto em um aspecto geral, derrubar dogmas e aumentar a consciência de um assunto que é importante na vida de muitas pessoas. Trabalhar com comunidades locais oferecendo suporte psicológico, oferecer uma plataforma neutra onde a mulher tenha espaço, sem ser julgada, e analisar realisticamente os prós e contras da gravidez. E que a mulher possa fazer sua própria decisão.

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olga livros

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Fiquei um tempão pensando em que tipo de recorte eu daria para essa lista, mas no fim resolvi escrever sobre livros que, mesmo de forma indireta, me fizeram pensar no que significa ser mulher. Ironicamente, todos foram escritos por homens, mas acho que isso tem menos a ver com mulheres escritoras do que com as minhas escolhas de leitura – mesmo que inconscientemente.

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Casa de bonecas, Henrik Ibsen

Como tantas outras obras do século 19, esta também é protagonizada por uma heroína meio fútil, em crise com seu casamento, esposa de um marido bem sucedido, com três filhos para criar. Mas, ao contrário das outras obras do século 19, nesta, a protagonista não trai o homem e acaba morta e humilhada. Nesta, Nora decide largar tudo – o marido, a casa, os filhos – para (o horror, o horror!) tentar ser feliz. E traz o seguinte diálogo:

Helmer: Você seria capaz de negar a tal ponto seus deveres mais sagrados?
Nora: E quais são meus deveres mais sagrados, no seu parecer?
Helmer: E sou eu quem precisa dizer isso? Não serão os que você tem para com seu marido e seus filhos?
Nora: Tenho outros tão sagrados como esses.
Helmer: Não tem. Quais poderiam ser?
Nora: Meus deveres para comigo mesma. (…) Creio que antes de mais nada, sou um ser humano tanto quanto você…

E Nora sai para nunca mais voltar. Um ano antes da publicação da peça, em 1878, Ibsen havia escrito que “uma mulher não pode ser ela mesma na sociedade contemporânea. A sociedade é masculina, com leis escritas por homens e com tribunais e juízes que julgam as mulheres a partir de um ponto de vista masculino”. Se você, mulher moderna do século 21, nunca sentiu isso na pele, considere-se sortuda. Fica difícil ser mais atual do que Ibsen.

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A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro

O enredo é famoso: são as memórias sexuais de uma senhora baiana de 68 anos, narrados em forma de conversa. Masturbação, sexo anal, relações com mulheres, estupro (que ela cometeu), incesto (com o irmão dela) y otras cositas más: não há nada que você possa imaginar que essa protagonista não fez – duas vezes. O tema recorrente são as possibilidades da sexualidade feminina: parecem maiores, são mais sutis – são mais buracos, afinal. E ainda traz uma pensata: “não se pode querer ver a afirmação da mulher como uma vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é a nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, (…) O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não broxar, não afrouxar, não pedir penico.” É bom para checar como anda o machismo dentro de cada uma de nós: se você acha que homem não chora, não broxa, tem que pagar a conta no primeiro encontro, além da do motel, e ainda segurar a porta para você entrar, então é triste dizer, mas moças, somos machistas também.

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O poder do mito, Joseph Campbell

O livro é uma longa entrevista com Joseph Campbell, professor de literatura&mitologia&religião americano, conduzido pelo jornalista Bill Moyers. Vida, morte, felicidade, o sentido das coisas: tudo é tratado em suas 295 páginas. Moyers insiste nas perguntas de gênero (por que é a mulher a culpada pelo pecado original? qual é o papel dela nas religiões orientais? por que a reza começa com “pai nosso que está no céu” e não “mãe nossa que esta no céu?”) e Campbell não parece muito preocupado com o assunto, responde tudo rapidamente. Ainda assim, o que ele fala é valioso. Para todas as culturas, das tribos norte-americanas às comunidades indianas, o poder da mulher é o da vida – ela que gera e traz à luz todos os seres vivos, e é responsável também pela fertilidade: a dela mesma e a da Terra. Para os homens, sobram os poderes restantes: a guerra, o sacrifício, a transformação. Mas não a vida. Para nós, mulheres modernas preocupadas com a carreira, os impostos, um mundo melhor, é algo que às vezes esquecemos. Mas que não deveríamos. Poder gerar uma vida é incrível. Não há nada mais feminino – e feminista – do que isso.


Karin Hueck é uma das autoras do blog 3 Livros Sobre e editora da revista Superinteressante, onde resenha mais livros, escreve sobre cultura e edita infográficos.

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olga tv

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Do ponto de vista mercadológico e criativo, nunca falou-se tanto na ameaça que os seriados apresentam ao domínio simbólico do cinema: a sétima arte. A tevê, que não possui este status, experimenta um certo crédito (ao menos imediato) com a migração significativa de público, recursos e artistas que acolhe. Para ilustrar a questão: Al Pacino, o eterno Michael Corleone, encarnou Phil Spector em filme da HBO. Jessica Lange e Steve Buscemi à frente de American Horror Story e Boardwalk Empire, respectivamente. Os irmãos Wachowski, famosos pela trilogia Matrix, produzem uma série em parceria com o Netflix. Em breve, neurocientistas – os xamãs do novo milênio – estarão discutindo efeitos dos sites de streaming no comportamento das pessoas.

Com a mudança de cenário, as personagens femininas também respiraram novos ares. Não foi sempre assim, claro. Tradicionalmente, nos deparamos com três tipos unidimensionais de mulheres roteirizadas:

1) A neurótica control-freak às voltas com dramas amorosos. É através da aparição e consequente envolvimento com um homem-ideal que se justifica a existência dela na trama. É importante frisar que o sujeito em questão deve atender a uma lista louca de atributos de príncipe encantado, a ausência deles é história, a concordância com eles resulta em final feliz. Já virou piada: todas poderiam ser interpretadas pela Katherine Heigl. Exemplo: Carrie Bradshaw (Sex and the City), Penny (The Big Bang Theory), Zoe (Hart of Dixie).

2) A mulher inteligente e/ou em posição de poder, porém “emocionalmente travada” ou, pior, dona de um raciocínio masculinizado. Este tipo avança em consistência psicológica e dramática em relação à anterior, mas costuma ser mal desenvolvida. Mais uma vez, ela é “salva” de sua condição diante da aparição de um homem-ideal, que a feminiliza. Exemplos: Temperance Brennan (Bones), Olivia Pope (Scandal) e Robin (How I Met You Mother).

3) A mulher-musa. Tom Jobim e Vinícius de Moraes chamavam de Garota de Ipanema, os hipsters chamam de Zooey Deschanel. Lá fora, ela leva o nome de Manic Pixie Dream Girl e existe apenas para dar sentido e ação à vida de um protagonista masculino impotente. Exemplo: Jess Day (New Girl).

Não proponho a erradicação de nenhuma das personagens acima, até porque, toda tipificação é reducionista. Muitas das que se encaixam nestes modelos apresentam outras camadas dramáticas e, por isso mesmo, é interessante notar uma expansão nos retratos femininos em tevê. Vamos dar uma olhada em Joan Holloway/Harris, de Mad Men e Hannah Horvath, de Girls.

AS NOVAS MULHERES NA TV

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Joan Holloway/Harris (Mad Men)

Joan inicia seu percurso na série como o estereótipo da femme fatale, contudo, em busca do príncipe encantado. O que já apresenta uma forte contradição, mesmo que essa procura se dê menos por conta de romantismo exacerbado e mais por noções práticas de dificuldade da vida de mulher nos anos 60. A grande questão de Joan é sempre a honra. Um marido a estabilizaria e daria a ela respeitabilidade, acima de tudo. E é sempre este o seu valor que é negociado ao longo dos anos. Joan é estuprada pelo noivo e prostituída para atrair um cliente poderoso. Cede às aparências que busca controlar, mas, mesmo diante da passividade e dos “trabalhos de mulher” que lhe são imputados, assume outras nuances.

Seu maior laço amoroso vem de um relacionamento extraconjugal com Roger Sterling, um dos sócios da agência. É ela também quem administra o escritório e, em diversas oportunidades, ficamos sabendo que a agência não funciona sem Joan. Ainda no momento em que é mais vitimizada pelo machismo, ela assume algum controle: em vez de aceitar apenas os US$ 50 mil que lhe são oferecidos por dormir com o dono da Jaguar, pede 5% da empresa e poder de voto nas reuniões de sócios.

Joan também cria sozinha um filho gerado fora do casamento, põe o marido para fora de casa e lida com o preconceito das próprias colegas de trabalho como ninguém. Não supervalorizo migalhas, mas ainda que fragilizada e anacrônica, ela se mostra mais moderna e corajosa que a maior parte das protagonistas que abocanharam estatuetas do Oscar.

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Hannah Horvath (Girls)

Já Hannah, muito discutida e odiada, é mesmo em alguma medida a voz de outra geração. É ela quem expõe questões tão “millennial” quanto a supervalorização das experiências, que escravizam e afastam do próprio eu. Dos próprios desejos. O sexo, tão exaustivamente mostrado em Girls, nem sempre é motivo de prazer. Já o trabalho é uma empreitada quixotesca: enquanto busca um gigante, se depara com moinhos de vento. Ela passa por empregos que, muitas vezes, roubam a dignidade. Ao jogar esta verdade na cara de, principalmente, aqueles que já passaram por isso e acham que é o caminho natural das coisas, soa um abuso. Uma verdade amarga demais, que é melhor engolir sem passar muito tempo pela boca.

Seja Joan, uma mulher de ontem com arroubos do amanhã; ou Hannah, tão de hoje; elas assumem o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Não sei se todo mundo que reivindica a mudança de padrões está consciente da importância deste processo, mas vivemos em uma sociedade que tem paixão pelo real, se Žižek e Baudrillard me permitem o uso da expressão. Não à toa existem tantos reality shows. A ficção sempre viveu de mimetizar a realidade, mas esta questão me parece cada vez mais atual: a protagonista flat não cabe mais na vida das outras mulheres, não cabe na nossa medida de empatia. É por meio deste desejo de empatia (e de companhia, por que não?) que já se vislumbra uma ficção mais complexa e dialógica.


Mariana Araújo, 25 anos, é repórter de entretenimento da Revista GLOSS e autora do blog Louca Por Séries. Ela cursou 3 anos de Física na USP, mas se formou mesmo em jornalismo na Cásper Líbero.

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Merida, a princesa da animação Valente, passou por uma mudança no visual por parte da Disney na semana passada. A protagonista – hábil em arco e flecha e famosa por ser, como o próprio nome do filme diz, corajosa – ganhou uma imagem sensualizada com decote maior, cintura menor, rosto menos infantil. O motivo? Neste mês, Merida entrou para a franquia Disney Princesas, que licencia todos os tipos de produtos infantis com desenhos das personagens. O propósito? Padronizá-la, deixá-la mais parecida com as outras princesas.

“Acho cruel o que eles fizeram com Merida”, escreveu Brenda Chapman, a criadora do desenho, no Marin Independent Journal. “Ela foi criada para servir de exemplo às garotas de um personagem que fosse melhor, mais forte e não apenas um rostinho bonito à espera de um príncipe encantado”. No site change.org, cerca de 230 mil pessoas contestaram a alteração do visual. “Merida era a princesa que por tanto tempo esperamos: forte, confiante, que não precisa de ninguém para socorrê-la. Ela era a princesa que se parecia com uma garota real, com as mesmas imperfeições que todo mundo tem”, diz o abaixo assinado.

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A Disney voltou atrás. E algumas pessoas até se perguntaram se era para tanto. Será? Durante um papo com a antropóloga Michele Escoura descubro que sim, é para tanto. Em sua pesquisa para a USP, ela analisou a influência das Princesas Disney nas meninas. Conversamos sobre como a distinção de gêneros feita logo cedo afeta as crianças que, aos 5 anos, já entendem o que são padrões de beleza.


“Quando dei início ao trabalho de campo, vi uma menina rodando a saia na sala de aula. Ela queria chamar a minha atenção e gritava ‘tia, tia, olha meu vestido, rodo igual princesa, sou a Cinderela’. Cinderela?, pensei. Como que um personagem de 1950, que eu, 20 anos atrás, assistia ao desenho, ainda tem influência nas crianças hoje? 

Logo percebi que a presença tão marcante da Cinderela se deve muito por conta da Disney Princesas, franquia que licencia a imagem das personagens para todo tipo de produto. E como as crianças consomem muito – mochila, estojo, caderno, roupas, decoração de festa – a princesa está em seu cotidiano. E a Cinderela é a líder desse grupo, sempre ao centro das imagens divulgadas.

Por um ano, acompanhei três turmas de crianças, em três escolas, para compreender a mensagem que recebiam das princesas. A primeira delas é que, para ser princesa, é preciso um príncipe. Uma das meninas até me falou: ‘para ser princesa, tia, precisa se casar. Senão não vai ser princesa, vai ser solteira‘.

Outra mensagem está associada à dimensão estética. Para ganhar uma coroa, é  necessário ser bonita, jovem e elegante. O título real, na verdade, não importa. O essencial é parecer uma. Além de Cinderela, passava o filme da Mulan  [heroína chinesa baseada em um mito chinês]. E um menino me disse uma vez que a Mulan não poderia ser uma princesa porque ela ‘usava uma maquiagem branca feia’. Outra menina disse que a Mulan era linda, mas quando pedi para desenhá-la, a pintou com o cabelo loiro.

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Não são as princesas que inventaram o padrão de beleza. Isso é propagado há muito tempo. Mas os desenhos servem como mensageiros do que vemos nas revistas femininas, na protagonista da novela das 6… É impressionante perceber o quanto eles traduzem esses padrões de beleza para crianças entre 4 e 5 anos, e como essas meninas já entenderam como o mundo funciona. Em uma das escolas, onde a maioria dos alunos era negra, vi duas meninas brincando de cabeleireiro em que uma fingia alisar e pintar o cabelo da outra. Já entenderam que para ser mulher – a imagem da mulher que é divulgada e aceita como a única por aí – ela tem que ter cabelo liso e loiro. 

As crianças sabem que existem outras formas? Sim. Mas também entendem que apenas algumas delas são valorizadas. Por isso, precisamos circular outros valores. Dar o mesmo status de importância e poder às outras formas, aos diferentes tipos de cabelos, de pele, de estilo.”

ABDIQUE DA COROA 

Michele sugere livros que trabalham a feminilidade de forma diferente ao das princesas.

As tranças de Bitou

As Tranças de Bintou é uma linda história, escrita por Sylviane A. Diouf, que conta o sonho de Bintou, uma menina africana, de ter tranças como todas as mulheres mais velhas de sua aldeia. Mas, como ainda é criança, tem de se contentar com os birotes. A autora Sylviane A. Diouf, filha de pai senegalês e mãe francesa, criou uma delicada história sobre a angústia do rito de passagem e o aprendizado do crescimento.” (Bloginfo)

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Uma princesa nada boba

“O escritor Luiz Antonio mostra uma menina negra contando em primeira pessoa seu sonho de ser uma princesa como as outras (loira e com nomes como Stephanie), e revela, no decorrer das páginas, como ela pode ser muito mais princesa do que imagina.” (Revista Crescer)

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Existe algo mais chato do que ser uma princesa rosa?

Ainda sem tradução para o português, infelizmente. No entanto, é possível ler o livro em espanhol online e de graça aqui.
Carlota é uma princesa, mas está cansada da cor rosa e não quer mais saber de beijar sapos para ver se eles viram príncipes. Por que ela não pode salvar príncipes das garras de lobos, derrotar dragões e voar em balões?

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angelina jolies olga
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angelina jolies olga

O mundo não fala em outra coisa hoje senão a dupla mastectomia de Angelina JolieNessa internet de meu Deus, eu já li de tudo: “que coragem!”, “ela só quer aparecer”, “era desculpa pra botar silicone”. Especulações e idiotices à parte, só consegui pensar uma coisa: “gente, que mulher!”

Os seios são um símbolo muito importante da feminilidade, mas não é porque a gente quer usar decote. Ter peitos faz parte dos contornos de ser mulher. Alimentar um bebê é parte de ser mulher. Tirar os seios (ainda mais os dois!) é uma decisão muito difícil para qualquer uma de nós.

Há alguns anos, vivi isso ao lado da minha mãe, que aos 45 anos precisou passar por uma mastectomia. Além da dor dos procedimentos, invasivos e traumatizantes, doía nela a sensação de que estava deixando de ser tão mulher. Como se um pedaço de sua feminilidade tivesse ido embora.

E observando a sua experiência – e a da Angelina – me vem logo à cabeça: “tem que ser muito macho pra encarar isso”. Uma atitude que exige culhões, uma força descomunal, que não combina com a fragilidade feminina. Porém, no momento seguinte, concluo que, justamente por isso, elas duas são muito mulheres.

Nos dois casos, existe uma preocupação muito grande com os filhos, tão grande que às vezes até maior do que consigo mesma. Angelina diz: “sabia que essa era a coisa certa a ser feita para a nossa família e que isso iria apenas nos unir mais”. E é verdade… Ser mulher é ter cuidado com o outro, é exercer uma força agregadora de pessoas.

E nestes momentos da vida, vemos a força do feminino surgir ainda mais poderosa. “Uma observação: não me sinto menos mulher. Sinto-me poderosa por ter tomado uma decisão tão forte que em nenhuma forma diminui minha feminilidade.”

Não mesmo, Angelina, pelo contrário. Você é mulher pra cacete! E, mãe, a mulher que você é me orgulha e me inspira todos os dias


Maíra Liguori é jornalista formada pela PUC-SP e trabalha como planejadora na CO.R Inovação. Seu trabalho concentra as duas coisas que mais gosta de fazer: estudar e aprender com pessoas.

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agnes cecile mulheres ti olga

agnes cecile mulheres ti olga
 
Bárbara Castro, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, desenvolveu uma pesquisa sobre relações de gêneros no mercado de TI. Aqui, ela explica por que o público feminino se distanciou do mundo da tecnologia nas últimas quatro décadas e como felizmente o cenário está mudando graças a ninguém menos do que as próprias mulheres. 
 

Eu estou bastante otimista com o cenário da TI para as mulheres hoje. Apesar da baixa participação feminina no setor no mundo todo (1/3 dos profissionais da União Européia, 20% dos profissionais no Brasil), percebi, nas entrevistas que fiz, uma diferença geracional nos discursos. E há uma diferença na socialização das mulheres com a tecnologia.

As pioneiras do setor no Brasil me contaram que a maioria dos alunos de Ciências da Computação, lá na década de 1970, era composta por mulheres. Ainda que, posteriormente, não tenham optado por ingressar no mercado de trabalho. Elas fizeram essa opção no momento do vestibular porque o computador e a computação lhe pareciam uma entidade mística, e que aquela aura de mistério (poucos tinham visto um computador de perto ou sabiam para quê ele funcionava) era o que as havia atraído para a área. Era como desvendar o funcionamento de uma célula, sabe? Calcular e desenvolver logaritmos eram mais associados a funções de cientista de laboratório, bastante distante de um uso prático e socialmente reconhecido.

Se fizermos uma análise rápida a partir dessas histórias, o que podemos dizer é que a área da computação não tinha o status que tem hoje. Não era atrativa, não era considerada “séria” ou uma profissão que “dá futuro”, como encorajam os nossos pais quando escolhemos uma profissão. E estamos falando de um contexto específico, em que a participação das mulheres no mercado de trabalho só cresce mesmo a partir dos anos 1980 e quando os homens ainda eram considerados os provedores da família.

É nesse sentido que podemos considerar a hipótese de que os homens não procuravam a computação como carreira porque não tinha status social e não embutia as ideias de segurança, estabilidade (veja que falo sempre, aqui, do tipo médio, porque é claro que tem sempre os que não seguem essas normas sociais). Quando o computador pessoal entra nos escritórios e nas casas das pessoas, ali em finais dos anos 1980, há uma mudança de percepção da profissão, da sua centralidade para a economia. Movimento que se reforça com a Internet.

No meio desse caminho, aquela imagem do computador como entidade mística se perde e é reconstruída, no imaginário social, pela ideia de uma máquina difícil de ser operada – assim como uma série de máquinas que sempre foram operadas por homens nas indústrias. A relação, óbvio, não é imediata, mas o que quero dizer é que o computador deixa de ser uma entidade abstrata para ser uma tecnologia concreta e complexa.

E tanto o status da profissão quanto a associação socialmente construída da tecnologia com as máquinas fizeram o movimento de levar mais homens para o setor, ao mesmo tempo em que as mulheres não se sentiram mais tão atraídas por ele. Seja por medo de não saber mexer, seja por terem sido ensinada de que máquinas são coisas de meninos, seja porque achavam que não dariam conta de uma carreira tão central à economia.

Mas por que estou otimista, então? Porque tem duas coisas legais acontecendo hoje. A primeira é que as mulheres estão se organizando e criando grupos e associações para debater a baixa participação das mulheres na TI e para tentar criar mecanismos de mudança desse cenário. A segunda é que a mística negativa, de não saber usar ou de quebrar um computador tentando aprender a usá-lo, está deixando de existir com essa nova geração, que já nasce conectada.

Apesar de muitos garotos ainda dizerem que mulheres não sabem programar ou de muitos clientes desconfiarem de mulheres em chefias de projetos técnicos, aos poucos esse domínio da programação e do desenvolvimento de software como habilidades complexas e exclusivas de um grupo vão perdendo o espaço no discurso mais geral pelo próprio uso diário das tecnologias. Ações que parecem corriqueiras, como instalar apps no celular ou mudar o mexer no código de um blog para mudar o template, vão mudando a forma de homens e mulheres se relacionarem com a linguagem da computação e desmistificando sua associação com o universo masculino.

Por isso que falo que estou otimista com o cenário atual: porque há uma mudança de discurso e de postura que podem provocar uma mudança na maneira como a TI é pensada enquanto profissão. Movimento muito parecido com o que ocorreu em outras profissões ao longo da história, como a medicina ou a dança, por exemplo.

Quem faz

Conheça algumas comunidades que incentivam a participação da mulher na TI com cursos de programação e workshops de gerenciamento. Ter pessoas dispostas a ensinar é importante. Mas o primeiro passo é existir quem diga que é possível ser feito.

Advancing Women in IT, EUA

Berlin Geekettes, Alemanha

Lady Geek, Inglaterra

/MNT, Brasil

Ônibus Hacker, Brasil

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