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Vó precisamos falar de aborto. Eu sei que a senhora é mãe de seis filhos e que cuidou deles praticamente sozinha depois que seu marido alcoólatra te abandonou. Eu sei que você mesmo na dificuldade, mesmo com pouco dinheiro, nunca pensou em abandoná-los, ou não tê-los, mas precisamos falar sobre isso. Eu mesma acho que não teria coragem de abortar, talvez em caso de um estupro. Mas nunca me vi nessa situação e tenho muito medo só em  pensar. Vó precisamos falar de aborto, porque mesmo eu não abortando eu não me acho melhor do que elas, mais correta, mas digna, mais amada por Deus.

Vó, você sabia que o aborto ilegal mata uma mulher a cada dois dias no Brasil? Segundo dados da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2013,  foram mais de 150 mil casos de mulheres internadas por complicações em abortos induzidos no país, a maioria preta e pobre. Você sabia que elas são como a gente, cada uma com a sua história e vivência. Muitas mulheres que decidem interromper uma gravidez são cristãs, algumas são adolescentes que tem medo de assumir para a família que engravidaram antes do casamento, medo do julgamento deles, dos amigos, da igreja. Outras são mulheres casadas, com filhos, mas não desejam mais um, tem mulher pobre, tem mulher preta, tem mulher branca, tem mulher com o dinheiro. Muitas mulheres, muitas histórias, muitos motivos.

Vó, você sabia que métodos contraceptivos falham né? Não são 100% seguros. Lembro da minha mãe contar que ela ficou gravida de mim quando meu pai não quis usar camisinha e acabou gozando dentro. Você lembra disso? Aconteceu com você? Poderia ser qualquer uma de nós. Você sabia que segundo o código penal brasileiro, a mulher grávida que abortar é punida com pena de prisão até 3 anos? Do outro lado, muitos homens metem o pé, não querem filhos, não apoiam suas companheiras, e nada acontece com eles. Imagina enfrentar toda essa dor, medo e angustia e ainda ser presa? Em vez de ser acolhida. Você sabia que mulheres vão continuar abortando mesmo que você seja contra? E elas continuaram morrendo, principalmente as pobres. E a vida dessas mulheres que estão morrendo ? O que a gente faz? Ignora?

Vó, esses dias escutei de uma amiga que ela era contra o aborto porque não queria que os “impostos dela pagasse aborto para putas”. Vó aquilo me doeu tanto. Primeiro porque a complexidade da história de uma mulher é muito mais profunda do que categorizá-la em Puta X Santa e segundo porque o sistema público de saúde gasta mais com curetagem e com as internações por complicações decorrentes do aborto clandestino do que gastaria se o aborto fosse legalizado no Brasil. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de curetagens pós-aborto ou puerpério,  se manteve nos últimos anos (190 mil em 2013, 187 mil em 2014 e 181 mil em 2015) enquanto o número de AMIUs, que é o esvaziamento do útero por aspiração manual intrauterina, aumentou (5.704 em 2013, 8.168 em 2014 e 10.623 em 2015). O custo, somando ambos os procedimentos, foi de R$ 40,4 milhões.

Vó, você sabia que se o aborto fosse legalizado no Brasil teria regras. Não seria de qualquer jeito. Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer. Não teria mais um mercado clandestino sem respeito nenhum a vida da mulher, que seria capaz de interromper uma gravidez em qualquer período gestacional. Aborto é questão de saúde pública e não de polícia. Junto com a legalização do aborto viria acompanhamento médico, psicológico e social. Lá no Uruguai isso já acontece desde 2012, e eles tem experimentado quedas tanto no número de mortes maternas quanto no número de abortos realizados.

Vó, você sabia que o aborto é crime muito mais por uma questão moral, que pune somente mulheres, mais do que pelo respeito a vida. Eu sei que você acredita que a vida acontece desde a sua concepção, lá no embriãozinho. E você não precisa deixar de acreditar nisso. Mas a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico. Você não precisa ser a favor do aborto, precisa ser A FAVOR QUE CADA MULHER POSSA TER O DIREITO DE DECIDIR O QUE FAZER COM SEU CORPO.

Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida dessas mulheres que morrem todos os dias em clinicas clandestinas. Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida das mulheres que sobrevivem a essa experiência traumática cheia de sequelas no corpo e na alma. Se realmente somos a favor da vida temos que respeitar a escolha das mulheres, respeitar a autonomia que cada uma de nós devemos ter sobre nossos corpos e acolher- las.

Vó, pela vida e pelo amor eu acredito que todxs as mulheres devem ter o direito de decidir, se querem ou não, terem filhxs.


Thamyra Thâmara é jornalista, social mídia, fotógrafa, afrofuturista e a idealizadora do GatoMídia.

Arte:  Ana Núñez

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Cento e cinquenta especialistas do mundo inteiro assinaram uma carta de recomendação para que as Olimpíadas sejam adiadas ou tenham seu local alterado do Rio de Janeiro para outra cidade por causa do vírus zika, transmitido pelo velho conhecido aedes aegypti e cuja relação com os muitos casos recentes de microcefalia após grávidas contraírem a doença já foi cientificamente comprovada. Mas será mesmo esse o maior perigo a que estão sujeitas as mulheres cariocas e as turistas a passeio?

“O risco de uma mulher ser infectada pelo vírus da zika durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro é 15 vezes menor do que o de ser estuprada.”, disse Herton Escobar em seu blog Imaginem Só!, ao noticiar cálculos feitos pelo professor Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da USP. É oficial: o Brasil está vivendo uma epidemia de vírus zika com números 15 vezes menores que o de estupros – mas não somos escutadas quando falamos sobre a calamidade silenciosa que são os crimes de violência sexual contra as mulheres no país.

Silenciosa, pois silenciadora de suas vítimas. Os dados sobre estupros afloraram como nunca antes após o caso da jovem de 16 anos do Rio de Janeiro que foi violentada por vários homens. O mais impressionante talvez seja o de que a cada 11 minutos uma mulher seja estuprada no Brasil segundo dados oficiais das secretarias estaduais da Segurança coletados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – sendo que não devemos perder de vista o fato de que apenas 35% dos casos são notificados.

Paira sobre a sociedade uma ignorância muito grande sobre a natureza do estupro. Acredita-se que ele pode ser provocado pela vítima por ter usado determinada roupa, ingerido bebida alcoólica, ter acenado a possibilidade de uma relação sexual e mudado de ideia, enfim, situações nas quais ela devia imaginar que isso poderia acontecer e evitar este fato ao mudar seu comportamento.

Entretanto, não existe um modo de ser que verdadeiramente sirva de escudo para as mulheres: casadas, crianças, portadoras de deficiência cognitiva, evangélicas de doutrinas rígidas, idosas e muitas outras mulheres que, em teoria, estariam a salvo de uma violência sexual são estupradas. E aí?

E aí que o estupro é a mais simbólica manifestação física do poder do patriarcado. A maior parte dos agressores são homens. A maioria das vitimas são mulheres – e, mesmo quando são homens, os agressores também o são. O crime se dá pelo uso da força ou ameaças para que o agressor realize um ato sexual contra a vontade da vítima. É transformar uma pessoa em um objeto para o seu gozo por sentir que esse é um direito dele, algo que está ao seu alcance.

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Não tem necessariamente a ver com lascívia, com um desejo sexual monstruoso e descontrolado – mas com poder. Tanto que o estupro é muito usado como gíria, algo observável no mundo dos games. “Eu vou te estuprar!”, “Vou comer o seu c*!” e outras ameaças semelhantes fazem parte dos diálogos e supostas brincadeiras entre muitos gamers. Eles não estão falando isso porque sua libido está exacerbada, mas porque desejam demonstrar poder e domínio uns sobre os outros.

Esse é o verdadeiro significado do estupro, que não devia jamais ser tema para piadas ou brincadeiras. Suas consequências são graves, desde doenças sexualmente transmissíveis, gravidezes e traumas gravíssimos, capazes de levar à síndrome do estresse pós-traumático, depressão e até ao suicídio.

A frequência com que estupros acontecem no Brasil é mais do que suficiente para ser tratado como motivo para pânico entre as mulheres, é um assunto urgentíssimo, mas também uma calamidade silenciosa por sistematicamente silenciar as suas vítimas em diversos espaços sociais.

NA CULTURA

 

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“Acho que com a sua idade/Já dá pra brincar de fazer neném”, cantavam os Raimundos no final dos anos 90. O estupro faz parte de uma cultura maior de violência contra a mulher muito presente nos países ocidentais. Encontramos exemplos no Brasil e no mundo de músicas, filmes e programas de tevê que tratam mulheres como objetos cujos corpos estão à disposição de olhares e toques indesejados.

A publicidade contribui, e muito, com a transmissão de mensagens negativas. Seja pelo uso da mulher como um mero display ou o recorte de partes do corpo que transformam um ser humano em um par de seios ou nádegas, seja pelo uso aberto e indiscriminado de conceitos abertamente machistas ou pela constante hiperssexualização das mulheres, os anúncios ajudam a desumanizar as mulheres e, quando esse processo se estabelece, elas se tornam foco de violência.

E a publicidade está em todo lugar: dentro e fora dos programas  e filmes que assistimos na tevê e na internet, nos nossos celulares, nos ônibus, outdoors, revistas, ao redor das notícias que lemos. Muitas gerações já cresceram e se desenvolveram sendo estimuladas pela publicidade a ter uma visão distorcida das mulheres – o que gera efeitos negativos em ambos os gêneros.

Filmes e seriados também fazem sua parte. O estupro dificilmente é incluído em tramas com o cuidado e a complexidade necessárias para tratar do assunto. Ele é utilizado para marcar a vida de mulheres – em Game of Thrones os criadores prometeram mudar as cenas após reclamações de fãs – ou até mesmo romantizado, como foi o caso da minissérie Ligações Perigosas.

Isso quando não é tratado como brincadeira. Insinuações de estupro são muito comuns em filmes de comédia, bem como tramas nas quais personagens colocam drogas nas bebidas uns dos outros. O filme “As Branquelas”, que arrecadou US$ 113 milhões de bilheteria no mundo inteiro, também foi um sucesso no Brasil e desde a sua estreia em 2004 já foi reprisado diversas vezes por aqui, traz em sua história a tentativa do personagem de Terry Crews de dopar uma mulher com o intuito de levá-la para o seu quarto de hotel. A trama se desenvolve comicamente e ele amanhece ao lado de um homem, em uma forte insinuação de que dois tiveram relações sexuais enquanto ambos estavam sob o efeito de drogas, mas se a personagem tivesse bebido seu drink, ela teria sido estuprada.

Outro grave problema é a erotização cada vez mais precoce das mulheres. A revista Galileu recentemente dedicou uma capa a esse fenômeno que, apesar de não ser recente, definitivamente é potencializado pela mídia e transforma corpos ainda infantis em objeto de desejo. Elas já foram lolitas, hoje são “novinhas”, celebradas por músicas que nem disfarçam a controvérsia. Em Amiga da Minha Irmã, Michel Teló canta: “Eu vou pra cima, pra cima/Ela é amiga da minha irmã, não quero nem saber/Se ela é novinha, novinha”.  E o desejo vai além: o termo novinha foi o mais buscado por brasileiros em um site pornô.

Não faltam exemplos do Brasil e do exterior, cujas produções dominam a maior parte da programação nacional, de outras músicas, filmes e séries que ajudam a banalizar o estupro e o assédio. Esse tipo de violência só é ignorado e varrido para debaixo do tapete quando as vítimas decidem falar sobre o que sofreram.

 

NA SOCIEDADE

Ainda que o estupro seja tão prevalente na mídia e em número de casos, as vítimas que assim se assumem frequentemente são socialmente isoladas. Em uma sociedade machista, que busca colocar a culpa nas vítimas, ter a coragem de fazer uma denúncia é um feito raro.

Isso acontece porque a maioria dos estupros é cometido por pessoas que a vítima conhece: por seus parceiros, amigos, pelo pai, por um tio, um parente. Segundo dados do Ipea, essa é a realidade em 70% dos casos. 70% também é o número de vítimas que são crianças ou adolescentes quando sofrem essa violência. Ou seja: quando analisamos  o problema do estupro no Brasil, estamos olhando para um cenário íntimo, não para uma maioria de casos nos quais o crime é cometido por um bandido sem rosto, o perigo das ruas. Em crianças, apenas 12,6% dos casos de violência sexual são praticados por desconhecidos.

Por isso que é muito difícil falar. Contar para alguém da família que o pai ou  avô fizeram algo sobre o qual a própria vítima sente medo, vergonha, culpa. Os abusos nem sempre deixam marcas e não têm testemunhas, além de frequentemente acontecerem sob ameaça e já serem uma terrível violência. Ainda que se fale, há o descrédito, a atenuação do fato.

Quando lançamos a hashtag #PrimeiroAssédio para ouvir das mulheres sobre a primeira vez em que foram importunadas de maneira sexual, abrimos uma verdadeira caixa de Pandora da pedofilia.

Brenda Jaci on Twitter Fui abusada sexualmente pelo meu padrasto dos 3 aos 14 anos. Encorajada por um terapeuta e pela campanha #P

 

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Liza on Twitter #PrimeiroAssédio foi com um tio q passava a mão em mim,sempre q eu passava perto dele,hoje tenho 35 anos e só ah 2

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Boa parte das histórias vinham de mulheres que estavam compartilhando o que viveram pela primeira vez em suas vidas. E sabemos que essas conversas não se resumiram às redes sociais, mas invadiram salas de estar, consultórios, grupos familiares no WhatsApp. O poder que essa hashtag teve é algo que nós jamais poderemos medir com precisão (apesar de termos alguma ideia de seu impacto e internacionalização), mas nos orgulhamos infinitamente de ter iniciado essa conversa com séculos de atraso.

Entre mulheres adultas, denunciar o estupro ganha contornos igualmente complexos. Quando seu agressor está em seu círculo social, por exemplo,  vítima pode experimentar uma exclusão completa ao falar contra alguém que todos os seus amigos adoram, além de ser chamada de mentirosa. Isso se dá pela distância que o machismo coloca entre os estupradores, os monstros, os doentes, do homem comum – quando eles são, comprovadamente, a maior parte dos agressores: pessoas que a vítima conhece e confia.

Além disso, existe uma rejeição da ideia de ser vítima. Ninguém que tenha sofrido um estupro quer ser definida somente por este fato, nem quer a pena da sociedade. O patriarcado valoriza também as emoções socialmente caracterizadas como masculinas: a força, a ausência de sentimentos, a capacidade de superar obstáculos. Após sofrer uma violência, muitas vítimas entram em negação, tentam continuar suas vidas normalmente, como se nada tivesse acontecido – tanto pelo silenciamento externo, quanto por um que começa dentro de si, por essa noção de que sofrer e chorar, ainda que coisas ruins tenham acontecido, são coisa “de mulherzinha”, sinais de fraqueza.

Entretanto, o fato de as mulheres serem as principais vítimas de estupro também joga sobre elas as consequências dessa violência, que envolvem também prejuízos financeiros e atrasos na sua trajetória profissional e de vida. Ainda que esse não seja o principal aspecto com que devemos nos preocupar, não devemos diminuir a importância desse impacto no desenvolvimento das mulheres em busca da equidade de gênero. Não chegaremos lá enquanto formos vistas como presas por agressores majoritariamente do sexo masculino.

Laura Hilgers acompanhou o doloroso processo que sua filha Willow viveu após ter sido estuprada por um colega de faculdade. A jovem levou um ano para criar coragem para falar sobre o assunto, mas nesse período seu comportamento já havia mudado completamente. Ela tinha crises de estresse pós-traumático, ataques de pânico, depressão e se tornou alcoólatra. Sofreu tanto que acabou abandonando a faculdade. Sua mãe não sabe descrever o tamanho da perda que é ver sua filha se tornar uma pequena e frágil parte do que um dia já foi – mas conseguiu fazer um cálculo das perdas financeiras reais e potenciais: foram US$ 100.573.63 ,00 perdidos entre as mensalidades perdidas na universidade, tratamentos psicológicos e até estéticos pós-trauma (o estresse fez com que seus cabelos caíssem) e US$ 145.000,00 de salários que Willow teria recebido desde então caso não tivesse sua vida abruptamente transformada.   Segundo estudo realizado pela Child Fund Alliance, as perdas econômicas globais causadas pela violência contra crianças chegam a 21 trilhões de reais.

Falar sobre um estupro sofrido não é mesmo uma tarefa fácil. Vivemos nossas vidas em uma sociedade machista que é responsável por essa violência e não aceita qualquer questionamento do status quo. Mas é na aceitação da condição de vítima, na exposição da história sem culpar a mulher de forma alguma e na busca por justiça que reside a chave para o fim da impunidade.  Entretanto, não existimos no vácuo: precisamos do apoio e da corroboração de instituições públicas e privadas que nos apoiem nessa jornada com políticas e iniciativas que nos protejam das muitas consequências negativas posteriores à denúncia.

 

NO MERCADO DE TRABALHO

A lei que dispõe sobre o crime de assédio sexual é insuficiente para proteger as vítimas, especialmente as mulheres. Ela diz: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.” e determina pena de 1 a 2 anos. Só isso. Apenas isso.

Ela é simbólica da maneira como o Estado brasileiro costuma lidar com crimes de natureza sexual: focando apenas em punições, mas não em dispositivos que sejam eficazes para resolver a questão. Não existe qualquer proteção para a denunciante, por exemplo, e limita-se a uma relação hierárquica.

Quando a estagiária de jornalismo do iG denunciou o assédio que sofreu ao entrevistar o cantor Biel, inicialmente o portal mostrou ao seu lado, publicando sua história e afirmando que estaria ao seu lado. Dias depois, o áudio da entrevista foi divulgado e, após perder patrocínios, ser banido da Rede Globo e impedido de conduzir a Chama Olímpica, o próprio Biel publicou um vídeo admitindo seu erro e pedindo desculpas.

Mesmo com todas as provas possíveis e imagináveis do que sofreu,  mais um boletim de ocorrência registrado em uma delegacia, a repórter foi demitida menos de um mês depois. A decisão do iG gerou polêmica. Lançamos a hashtag #ViolênciaEmDobro para denunciar o fato de que, quando uma mulher é vítima de assédio, ela sofre violência duas vezes: uma quando é assediada e novamente no momento da denúncia, quando ela é julgada e questionada como se fosse culpada, é ameaçada e, como aconteceu com a repórter do iG, até mesmo demitida.

E não apenas ela: dias após, sua editora e responsável pela matéria que a apoiou também perdeu o emprego sob a desculpa de “corte de gastos”. O posicionamento do iG perante o assédio gerou muita revolta foi o estopim para a criação do movimento #jornalistascontraoassédio. Essa classe de mulheres sofre cotidianamente com o machismo dentro e fora das redações. Segundo pesquisa realizada pelo Coletivo das Mulheres do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF), 77,9% das jornalistas ter sofrido algum tipo de perseguição por parte de colegas ou chefes diretos e 70% já sofreu assédio moral ou sexual.

Assim como mulheres grávidas precisaram ter o seu retorno ao emprego garantido por lei após a licença, as mulheres que denunciam assédio também merecem a a manutenção do seu cargo sem prejuízos durante a investigação do caso. Porque o que aconteceu com a repórter do iG não é raro, bem como outras medidas que também prejudicam a mulher, como a sua retirada de determinados projetos, mudanças de área e outras medidas paliativas que punem a vítima e não o agressor.

Para além disso, é necessária uma nova mentalidade dentro das empresas que talvez só possa ser alcançada com um número maior de mulheres nos cargos executivos. O assédio acontece porque aos agressores é quase garantida a impunidade pelo medo que as vítimas têm de fazer a denúncia e ficar queimadas na empresa ou, ainda pior, o mercado de trabalho.

É sob esse tipo de ameaça que jornalistas, publicitárias, médicas, engenheiras e muitas outras profissionais se resignam e tentam ignorar o incômodo que está dentro delas a cada assédio, piada inconveniente e demais agressões que sofrem apenas por serem mulheres – porque o risco de abrir a boca e falar sobre o que passam é alto demais. Pode custar-lhes sua fonte de renda, sua carreira e tudo pelo o que lutaram a vida inteira.

 

NO ESTADO

 

Quando lançamos o manifesto A Proteção Que Queremos, assinado por nós da Think Olga, pela Childhood Brasil, pela Artemis e pelo Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, o fizemos por saber que esse era o momento ideal para avançar na luta por um atendimento adequado às vítimas de violência sexual pelos órgãos públicos no Brasil.

Concentramos nossas forças no projeto de lei 3792/2015, desenvolvido pela Childhood Brasil em parceria com a Unicef, e apresentado pela Frente Parlamentar de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. O projeto propõe um protocolo de atendimento a ser seguido por todos os atores envolvidos no acolhimento de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência sexual – um direito que estamos nos articulando para que seja estendido também às mulheres.

Pois o que uma pessoa que foi estuprada sofre hoje ao buscar ajuda é muito mais agressivo e traumático que as burocracias e aborrecimentos que uma vítima de assalto teme encontrar – ainda que as duas situações sejam violentas e ambas mereçam atenção e dignidade do estado em sua investigação, o estupro é um crime íntimo, hediondo e sobre o qual dados apontam acontecer, em sua maioria, dentro da casa das vítimas, vindo de pessoas de sua confiança.

Como já dissemos, é muito complexo fazer uma denúncia de estupro. Existe toda a culpa e vergonha que a vítima sente sobre o que aconteceu – fruto da cultura machista em que vivemos. “Será que eu provoquei?”, “Eu não devia ter bebido tanto”, “As pessoas nos viram juntos na festa, quem vai acreditar em mim?” e muitas outras circunstâncias fazem parecer que ela teve alguma responsabilidade sobre fato. E quando o agressor, como na maioria dos casos, é alguém de seu convívio ou até de sua casa, é preciso ter ainda mais força, pois certamente muitos desconfiarão da sua acusação, entre elas pessoas muito queridas, o que fere ainda mais.

Uma parte das poucas que são corajosas o suficiente para buscar seus direitos compõe a faixa de aproximadamente 35% dos casos notificados – a outra é desestimulada pelo sistema: seja pela recusa de policiais em aceitar a denúncia, pelo descaso e machismo com que tratam essas vítimas, pelas perguntas que fazem durante seu depoimento, pela necessidade de repetir sua história e reviver o trauma diversas vezes, algumas diante do seu agressor e sendo questionada de maneira capciosa por seu advogado de defesa, enfim, um sistema frio e ineficiente na captura de agressores e que, em seu machismo, serve de escudo para eles.

Vale lembrar que a maior parte dessas vítimas são, na verdade, meninas. Crianças, como um dia todos nós fomos, que são revitimizadas pelo sistema quando tudo o que querem é segurança e justiça. Imagine buscar ajuda e sentir-se obrigada a se defender das muitas insinuações de que a culpa é sua, de que você está inventando isso ou que, no fundo, estava gostando de sofrer uma das violências mais brutais a que um ser humano pode ser submetido. Por isso é fácil desistir do processo, por isso é difícil seguir adiante e ir até fim na busca pela responsabilização dos agressores. É mais fácil colocar uma pedra no assunto, tentar olhar para o futuro e assim, infeliz e contra sua vontade, absolver seu algoz.

O Projeto de Lei 3792/15, desenvolvido pela ONG Childhood Brasil em parceria com a Unicef desde 2007, basicamente estabelece um protocolo de atendimento às crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual para evitar a revitimização. O que isso quer dizer? Que da delegacia ao atendimento médico, todos os atores envolvidos na escuta e no cuidado a essa vítima terão de obedecer a um sistema que protege e está do lado das vítimas para garantir uma investigação dos fatos que não condene o denunciante, como acontece hoje.

Como resposta ao clamor da sociedade ao caso de estupro coletivo do Rio de Janeiro, esse PL, apresentado pela deputada Maria do Rosário na Comissão Externa sobre o estupro coletivo, foi aprovado ser votado em caráter de urgência (em menos de um mês). Algo que poderia tardar dez, quinze anos na gaveta pode de fato virar lei em breve – uma grande vitória política em tempos sombrios no planalto central.

Afinal, estamos falando de uma mudança que pode, de fato, combater a cultura do estupro no Brasil ao atacar um de seus principais pilares: a impunidade. Com a instituição de um ambiente de confiança e proteção às vítimas desse tipo de crime, os órgãos públicos deixarão de ser um empecilho na busca por justiça para se tornar, finalmente, aliados no fim do estupro no país.

De nada adiantam medidas como a criação do Núcleo de Proteção à Mulher proposto pelo atual governo: a proteção que queremos é a das nossas vozes no momento em que vamos fazer uma denúncia de estupro. Que ela não seja silenciada por crenças pessoais e o machismo de quem nos atende, mas que em todo o país a busca por justiça seja sistematizada de forma a garantir o nosso direito de denunciar com segurança.

Já posso ouvir os machistas reclamões trazendo dados e mais dados sobre falsas denúncias de estupro que destruíram a vida de pobres homens inocentes e pais postando links sobre alienação parental nos comentários. O que eles esquecem é que a comunicação falsa de crimes ou contravenções já é contra a lei e tem pena de 6 meses a 1 ano de detenção caso comprovada. O que não pode acontecer é a presunção de que a vítima está mentindo, que é o que acontece em incontáveis casos.

Um exemplo simples é o fato de que, caso a PL 3792/15 já fosse lei e estivesse sendo aplicada, o delegado Rodrigo Thiers jamais perguntaria à uma vítima adolescente em depoimento sobre o estupro coletivo que sofreu se ela tinha por hábito participar de sexo grupal. O que isso tem a ver? Quando vivemos em uma cultura do estupro, a sociedade não está ao lado das vítimas. Precisamos de um modelo justo que garanta uma investigação que traga a verdade à tona sem ferir ainda mais as vítimas no processo, sem presunção de culpa para nenhum dos lados – e é isso o que esse projeto de lei propõe.

Nenhuma criança ou adolescente será obrigada a falar, mas, em concordância com a Convenção sobre os Direitos da Criança, da qual o Brasil é signatário, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu desenvolvimento moral, intelectual e social, além de direitos específicos à sua condição de vítima ou testemunha – estes últimos a ser formalmente garantidos pela nova lei, já que hoje são diariamente violados em todo o país.

O que precisamos agora, como sociedade civil, é fazer pressão para que essa lei aconteça. Vamos falar sobre ela, usar a hashtag #QueremosEscutaProtegida, tirar fotos com essa mensagem, escrever para nossos amigos nas redes sociais, para jornais e revistas, compartilhar notícias. Temos pouco tempo para fazer muito barulho e garantir que, ainda este ano, possamos avançar verdadeiramente em ao menos um aspecto da luta contra a violência sexual que aflige crianças, adultos, meninas e mulheres todos os dias: a garantia de ter a nossa voz ouvida.


Originalmente publicado em #AgoraÉQueSãoElas

Arte: Monica Garwood

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Muitas mulheres dizem que sonham em ter filhas meninas. Nesse sonho, as filhas são exatamente como elas e gostam de fazer as mesmas coisas. O triste é que no exercício dessa imaginação não há espaço para um menino que seja assim, que a acompanhe no que ela gosta, seja tranquilo ou companheiro. É como se algumas pessoas pensassem que meninos são de outro mundo e não podem se relacionar com nós. Mas, espera aí, eu tenho dois filhos meninos e eles são extremamente companheiros, respeitosos e tudo o que eu sempre sonhei.

Os papéis de gênero influenciam até mesmo nossos delírios de maternidade e aí surgem listas absurdas sobre o que é ser mãe de meninos. Pegamos alguns desses itens tidos como verdade absoluta sobre a maternidade de pequenos homens e vamos acabar com esses mitos.

1. Guerra nas Estrelas é uma religião
Isso acontece com meninos e meninas que são apaixonados por alguma coisa. Uma amiga costuma dizer que pessoas sem vícios em séries, livros, filmes ou músicas são pessoas chatas. Pessoas. E quando eu digo pessoas, estou falando de homens e mulheres de todas as idades. Meninas também amam Guerra nas Estrelas. Sabe por quê? Porque não é uma questão de gênero.

2. Odiar e agradecer ao mesmo tempo o privilégio que seu filho terá por ser um homem adulto
Li uma lista em que a autora diz que essa explicação é difícil, mas eu não acho. Acho apenas que essa mostra como ela é egoísta e preguiçosa. Meus filhos, eu tenho certeza, não terão uma vida fácil. Isso porque eles já são os caras que explicam que as coisas estão erradas. Meu filho mais velho, de 11 anos, luta contra a homofobia. E ele não é gay. Meu filho mais novo, de 4 anos, luta, do jeito dele, contra papéis de gênero ao explicar que não existem brinquedos de meninos e meninas enquanto coloca suas Barbies dentro de carros. Eles serão alvos fáceis e claros porque não são como os outros homens, aqueles do padrão de masculinidade burra e ogra. Eles terão privilégios? É claro! Mas não vão lidar com isso como se os merecessem, vão apontar esses privilégios e deixar claro que eles existem. E isso eles aprendem comigo, todos os dias, porque eu não quero respirar aliviada, eu quero mudar o mundo.

3. Meninos são mais carinhosos
Tenho certeza que se eu tivesse uma menina, seria igual. Porque isso chama amor e respeito e afinidade. Uma autora diz assim: “Ele não está tramando nada. A afeição dos meninos é simples. Você nunca vai encontrar nada mais puro neste mundo, garanto.”. Calma aí, amiga. Você está mesmo dizendo, nas entrelinhas, que mulheres sempre têm interesses? Bom, é por isso que nossa vida é tão difícil e você respira aliviada por ser mãe de homens. Mulheres são tão verdadeiras quanto homens, isso depende de características de cada um, da índole, da criação, não do gênero.

4. Meninos são escatológicos
Eu sou mulher. Sou assim desde que me conheço por gente. E nunca tive problema com puns, cocô ou coisas tidas como nojentas. Porém, meus filhos são ensinados de que não é educado soltar gases na frente dos outros. Em casa, tudo bem, afinal é fisiológico e normal, mas é preciso respeitar as pessoas. Mais uma vez, não é questão de gênero, mas de como você educa seus filhos.

5. Meninos não sabem fazer xixi no lugar certo
Vamos ter uma conversa séria: se você pensa isso é porque está criando animais. Pessoas que não respeitam nada. Nem espaço, nem higiene, nem os outros… Será que não está na hora de repensar os limites? Meu filho mais novo, inclusive, seca o pipi depois de ir ao banheiro. Novamente, nada com o gênero, tudo com a educacão.

6. Meninos gostam de armas
Quem nunca viu meninas brincando de brigar com bonecas? Ou com espadas? O fato é que a sociedade enfia esse gosto goela abaixo dos meninos. Meus filhos gostam de milhares de outras coisas. As amigas deles também. Será que isso não é uma maneira triste de colocar crianças dentro de caixinhas para facilitar a vida de adultos?

7. A energia dos meninos é física
A autora de um texto diz assim: “desde o instante em que eles irrompem das nossas vaginas e entram no mundo, os meninos são donos do espaço que habitam.” Uma mulher está dizendo isso. Imagina se essas crianças vão respeitar as pessoas ao seu redor? E as mulheres? E os espaços individuais? Meninos só são assim se ninguém lhes impõe limites. Limites são bons, são amigos, são saudáveis.

Meninos que não entendem limites são os que se tornam assediadores, que não respeitam o não de uma mulher, que tentam destruir a vida daquelas que os rejeitam. Criar qualquer criança, menino ou menina, sem limites é uma receita certeira para um fim bastante triste.

8. Meninos não ouvem
Eles ouvem. Quando querem. Assim como eu e você. Quantas vezes você simplesmente continuou fazendo o que estava fazendo apenas porque queria assim? Estudos mostram que os meninos têm audição menos sensível que as meninas quando nascem, e a diferença só aumenta com a idade, mas se você realmente acredita nisso, uma dica: vá na frente do seu filho, segure em seus ombros com firmeza, olhe em seus olhos e diga o que precisa. Vai surtir efeito sem que meio grito seja dado. Além disso, gritar é um tipo de agressão e, bem, nenhuma de nós quer ser uma agressora de crianças, né?

9. Eles fazem perguntas que você nem imagina a resposta
Se gostam de quadrinhos, por exemplo, vão querer saber se você prefere esse ou aquele super-herói. Assim como sua filha. E seus amigos. E seus pais. E seus chefes. E seus subordinados. E a pessoa que vende cortinas. Se eles se interessarem por quadrinhos, é claro. Bem, não preciso explicar muito sobre não ter nada com ser mãe de menino, né?

10. Eles não se preocupam com roupas ou visual
Miga, só se forem os seus filhos, porque para os meus… Meus filhos AMAM comprar roupas. É um gasto sem fim, se eu não ficar esperta. E não é só calça, bermuda e camiseta. São coletes, jaquetas, blusas fechadas de moletom, malhas, tênis, chuteiras, bonés, chapéus, toucas… Questão de personalidade.

11. Meninos amam incondicionalmente
E meninas amam como? Por favor, me explique. Uma autora diz “filhas batem o pé e pedem para ficar sozinhas. Filhos simplesmente te amam.” Eu diria essa frase de outra maneira: pessoas com certo tipo de personalidade batem o pé e blábláblá, já pessoas com outro tipo de personalidade apenas amam e aceitam o que você quiser que elas aceitem. Personalidade, né, não gênero.

Aí a gente sempre escuta uns papos de que meninos têm mais energia, são mais sensíveis – pra onde isso vai na idade adulta? É enterrado? -, são mais curiosos, inocentes e têm mais compaixão. Mas isso, pela milésima vez, é algo absurdo de se dizer. Medir o mundo por aquele único ser que você tem em casa. Se fosse uma menina e recebesse exatamente a mesma criação, talvez ela seria igualmente tudo isso…

Dividir gêneros, seus papéis, seus traços de personalidade e gostos não só não faz sentido, como é prejudicial para todas as gerações que virão. Homens podem ser delicados e gostar de balé. Mulheres podem ter uma agressividade notável e escolher luta como esporte. Todo mundo pode tudo porque somos pessoas, temos nossas individualidades e somos formados de experiências.

Essas experiências nos são oferecidas desde bem pequenos. Talvez a criação influencie, talvez não. Não há estudos conclusivos. O que há é observação e respeito por cada pessoa, independente do seu gênero.

Criar filhos é muito mais do que bater palmas para tudo o que eles querem fazer. Criar filhos é guia-los para a construção de um mundo melhor e mais justo. E isso se faz não deixando que eles abracem seus privilégios e aceitem imposições sociais. Amar é mostrar que o mundo é cheio de nuances e que eles precisam manter os olhos abertos, independente do seu gênero. Deixar que nossos filhos acreditem em um conto de fadas é preguiçoso, irresponsável e desastroso. Somos melhores do que isso, irmãs.


Carol Patrocinio é jornalista, escreve o Preliminares no Yahoo!, estuda relações de gênero e sexualidade e é mãe de dois meninos.

Arte: Ana Pez

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Se você ainda não ouviu falar da NFL, se prepare: o esporte cresce no Brasil a passos largos e aumenta sua presença a cada temporada. A ESPN, detentora dos direitos de transmissão por aqui, calcula um aumento de 800% nos últimos três anos, e não espera nada menos que mais crescimento nas próximas temporadas.

O futebol americano ainda é novidade pra maioria dos brasileiros que cresceram entendendo muito do outro futebol. A ideia geral do negócio é atravessar o campo inteiro com uma bola, um pique-bandeira cheio de contato físico e regras nada simples.

A NFL surgiu em meados dos anos 20 e, desde sempre, foi considerada essencialmente masculina. Mulheres sempre foram representadas como aquelas que se incomodavam com o fanatismo de seus maridos ou como cheerleaders. De resto, homens, homens e mais homens. E se você acha que isso é verdade, um dado importante: em 2012 a liga estimava que cerca de 44% dos espectadores dos jogos eram… mulheres. Naquele ano, o público feminino que assistia aos jogos de domingo a noite – conhecidos como Sunday Night Football – era maior do que o de Glee, Grey’s Anatomy e Dancing with the stars.

E a tendência é só crescer. Existem pesquisas que afirmam que a NFL não tem mais pra onde expandir nos Estados Unidos entre os homens. Todo homem que poderia ser fã, já é fã. O próximo passo é conquistar o público feminino, mas isso nem de longe é uma tarefa fácil para um esporte que perpetua o machismo há mais de 90 anos.

Se você esteve na internet no ano passado, mesmo não ligando para futebol americano, deve ter ouvido falar de Ray Rice. O running back – jogador que corre principalmente com a bola – do Ravens foi acusado de ter agredido Janay Palmer, sua noiva na época e atual esposa, dentro de um elevador de um casino.

A princípio, o time deu apoio ao jogador e a NFL o suspendeu por apenas dois jogos. Isso até o TMZ divulgar o vídeo da câmera de segurança. Nele, o casal discute do lado de fora do elevador e depois, já dentro dele, Janay leva um soco e cai desacordada. Momentos depois é arrastada para fora, até recobrar a consciência e ser amparada por outras pessoas. O episódio desencadeou um grande debate que questionava a gravidade da situação, a punição leve e se a liga tinha recebido essas imagens antes delas vazarem ou não.

Mas esse é só o caso mais emblemático de 2014. Outros jogadores foram acusados de agressões e estupros e, a cada dia, a liga é mais cobrada por conta da condução e das medidas disciplinares adotadas para cada uma dessas denúncias.

O negócio é tão sério nesse sentido que um vídeo foi criado por um grupo de advogadas progressistas, chamado Ultraviolet, para cobrar explicações (e uma possível renúncia) de Roger Goodell, o presidente da liga há mais de oito anos, sobre os 55 casos de agressão denunciados durante o exercício dele na função.


Mas eu disse que o negócio era mais complicado. Pois é. Ao mesmo tempo, a NFL decidiu ceder 30 segundos do espaço comercial do Super Bowl, a final do campeonato que, eventualmente, tem sua magnitude comparada à de aberturas de Copa do Mundo e Olimpíadas. Nesse tempo será veiculado um anúncio da campanha nomore.org, que já luta contra violência doméstica e assédio sexual desde 2013. Isso significa que a liga abriu mão de nada mais, nada menos que US$4.5 milhões por esse meio minuto.

As tentativas têm sido realmente visíveis. Para quem acompanha o futebol americano há algum tempo, é possível notar até a presença de um novo tipo de publicidade durante os jogos. Se antes tudo girava em torno de carros, cervejas e assinaturas de lâmina de barbear, já é possível ver hoje anúncios de marcas de diamantes e pílulas para impotência, que vendem a ideia de “fazer sua mulher feliz”.

Mas estamos falando de um esporte que em sua primeira tentativa de atingir o público feminino, o fez do jeito mais clichê e bobo possível: lançou camisetas femininas cor-de-rosa. Existem trinta e dois times na liga, nenhum deles tem rosa em seus uniformes. Uma baita ideia inclusiva, né? Hoje já existem jérseis, como são chamadas as camisas, de tamanhos e modelagens que respeitam minimamente a anatomia feminina. Um empate entre o gosto das fãs e as pretensões do departamento comercial.

O desafio da liga é tirar o machismo das suas raízes mais profundas. Tão profundas que, em janeiro, uma matéria da GQ americana colocou aspas de um dos vice-presidentes da liga, Joe Browne, soltando uma pérola sobre a contratação da presidente da MTV, Sara Levinson, para um cargo na NFL: “A boa notícia é que contratamos alguém. A ruim? É uma mulher.” Ele nega, mas não poderia ser diferente.

Esse texto não quer uma liga feminina, nem que mulheres desistam de assistir futebol americano. É só pra lembrar que a gente entrou no jogo, mas ainda falta um campo inteiro pra chegar no touchdown.

 


Dre Reze é fotógrafa, jornalista formada pela UCB, quase especializada em Semiótica Psicanalítica pela PUC – SP e colaboradora da Olga. Trabalha como produtora de – qualquer tipo de – conteúdo digital em uma agência de publicidade, mas por aqui fala só sobre esportes e um pouquinho de ciência quando der.

Arte: Laura Laine

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Falar com as mulheres ainda é um desafio para muitas marcas. Infelizmente, é mais fácil encontrar anúncios que retratem as mulheres de maneira equivocada do que aqueles que buscam fazê-lo com cuidado e profundidade.

O número de marcas que precisam repensar sua comunicação com o público feminino supera com folga o daquelas que já encontraram uma abordagem mais direta e honesta com suas consumidoras. Em um mercado de ideias fossilizadas sobre como se dirigir a esse target, inovações podem significar riscos que a maioria dos anunciantes não está pronta para encarar.

Entretanto, aqueles que decidem repensar sua comunicação com as mulheres para além dos estereótipos se colocam na vanguarda de uma mudança de um mercado ainda muito atrasado: o revolucionário entendimento de que mulheres também são pessoas.

Sendo assim, enquanto algumas marcas ainda tropeçam com flopadas gigantescas na hora de falar com elas, outras nos inspiram com campanhas super bacanas que fogem da mesmice. Conheça oito delas:

 

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=l1xxx4NYYUQ]

Volkswagen Passat – Meninas na banca de limonada

A Volkswagen do Canadá veiculou esse anúncio para divulgar o novo Passat em agosto de 2013. Sua proposta é simples: duas meninas (e vale ressaltar que uma delas é negra) estão trabalhando em uma banca de limonadas na calçada quando um carro se aproxima. Ao verem que se trata de um veículo caro, elas viram a placa de preço ao contrário, exibindo um valor mais alto, a ser praticado com clientes ricos. A ideia é simples, mas a grande sacada, que garantiu ao anúncio uma posição em nossa lista, é o uso aparentemente displicente de duas meninas como protagonistas de um anúncio de carros. Ao vermos o anúncio, essa escolha parece tão natural quanto deveria ser a presença feminina protagonizando cenas inteligentes nos comerciais – e não apenas adornando-os, como acontece na maioria dos anúncios.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Verizon – Inspirando meninas a amar exatas

Esse anúncio da Verizon mostra como muitas vezes os pais acabam desencorajando suas filhas a se interessar por ciências ao afastá-las de sujeira ou bagunça e as incentivar a estar sempre bonitas. Ele apresenta Samantha, que é uma menina que, em diversos momentos da infância, é reprimida por seus pais ao brincar na terra ou ao desarrumar o quarto enquanto trabalha em um projeto de ciências. “Cuidado pra não sujar o vestido”, “Deixa seu irmão fazer isso” e “Quem é a minha lindinha?” são algumas das frases que levam ao desfecho em que ela, um pouco mais velha, aparentemente ignora um cartaz sobre uma feira de ciências para passar gloss nos lábios. A mensagem é clara: é preciso incentivar e valorizar a inteligência das meninas, não só a beleza. O vídeo serve como um alerta para os pais e é encerrado com um dado preocupante: nos EUA, 66% das meninas até a 4ª série afirmam gostar de matemática, mas somente 18% dos estudantes de todas as engenharias são mulheres.

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GoldieBlox – Para futuras engenheiras

E é para incentivar meninas a gostar mais de engenharia que nasceu a marca GoldieBlox. Criada pela Debbie Sterling, uma engenheira formada em Stanford que não se conformava com o número pequeno de mulheres no seu curso e que cresceu insatisfeita com as poucas opções de brinquedos criativamente instigantes  para meninas. Com um anúncio veiculado no Super Bowl desse ano, a GoldieBlox oferece kits para meninas criarem as máquinas e resolverem os problemas propostos pela personagem Goldie e seus amigos. O vídeo apresenta três meninas entediadas ao assistir uma propaganda de bonecas na tevê que resolvem criar elas mesmas um enorme mecanismo para desligar o aparelho.

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Kotex – Fazendo graça em cima do clichê

A marca de absorventes Kotex lançou esse anúncio em 2010. Nele, a protagonista descreve de maneira irônica todas as situações lúdicas em que as mulheres são representadas em anúncios de absorventes, tais como caminhadas na praia, usar roupas brancas e sair para dançar – como se ficar menstruada fosse uma grande curtição. Divertido, o anúncio não subestima o senso de humor feminino e ainda gera cumplicidade entre as consumidoras e a marca.

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Aerie – Xô, Photoshop!

A marca de lingerie Aerie lançou no ano passado a campanha #AerieREAL, na qual nenhuma das fotos do catálogo sofreu qualquer retoque de imagem. Ao escolher modelos cujos corpos fogem do padrão imposto pela indústria da moda e eliminar o uso de Photoshop, a Aerie aposta em uma comunicação mais simples e honesta que, por si só, já é super bacana, mas que ainda gerou uma repercussão incrível com a viralização da iniciativa. Além disso, é que qualquer usuária da marca pode enviar fotos utilizando peças da Aerie para o site da loja, criando um catálogo incrível que torna toda mulher uma modelo da marca.

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Cover Girl – Garotas podem, sim!

As marcas de cosmético gringas fazem esforço para mostrar como a maquiagem deve ser utilizada como uma maneira de expressar a personalidade feminina, e não para atrair o sexo oposto como se essa fosse a única preocupação da mulher. Em 2012, Revlon fez uma campanha com a Halle Berry e a Emma Thompson falando sobre câncer de mama. No ano seguinte, a campanha #ShineStrong, da Pantene, falou sobre como as mulheres são rotuladas de maneira mais crítica que os homens ao adotar os mesmos comportamentos que eles. A Dove, pioneira em retratar “mulheres reais”, continua seus esforços em ajudar mulheres a encontrar sua real beleza e lançou um vídeo de três minutos sobre a importância das selfies para a autoestima feminina.

O vídeo em destaque, porém, é da Cover Girl, que convidou famosas que arrasam em áreas em que as mulheres costumam ser convencidas de que não têm acesso. Com a hashtag #GirlsCan, elas partilham suas experiências como comediantes, esportistas e roqueiras de sucesso em um mundo no qual é comum ouvir que mulheres não são engraçadas, nem fortes, etc. Elas aconselham as espectadoras a ter coragem e encarar cada “não” como uma chance de provar que elas podem, sim, fazer o que quiserem! Outro ponto positivo da Cover Girl é a diversidade na escolha das garotas-propaganda. Entre elas, estão Queen Latifah, Ellen Degeneres, Janelle Monae, Pink, Becky G e Talia Joy Castellano (uma menina de 13 anos que lutou contra o câncer).

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Always – Fazendo coisas como uma garota

A marca de absorventes Always resolveu mostrar como a expressão “como uma garota” é utilizada de maneira pejorativa. Ela convidou voluntários que deveriam simular a execução de tarefas simples como correr, mas com a ordem de fazê-las “como uma garota faria”. Participantes de ambos os sexos adotavam trejeitos desengonçados e fúteis, mas em seguida são questionados sobre por que agiram assim. A reflexão gerada os leva a repensar como essa atitude ofende as mulheres e que fazer as coisas como uma garota não é um sinal de incapacidade.

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Duloren – Pelo direito de amar a si mesma

A Duloren é conhecida por suas campanhas de conteúdo picante. Neste ano, resolveu mostrar que é possível uma mulher ser feliz sozinha em pleno dia dos namorados. Com peças com o título “Eu me amo” e imagens sugestivas, faziam referência à masturbação feminina. Conceito ousado que gerou polêmica e uma notificação do CONAR, mas cuja repercussão, em geral, foi positiva ao incentivar as mulheres a conhecer o próprio corpo.

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HelloFlo – Menstruação com humor

Dá para fazer propaganda de absorvente sem líquido azul, roupa branca colada, mulher feliz pulando ondinhas e outros clichês que tratam da menstruação como algo misterioso que não pode ser nomeado? Dá. A HelloFlo, com um approach leve e bem-humorado, mostra a história da menina que finge menstruar pela primeira vez. Sua mãe, sabendo da mentira, faz uma festona para celebrar a menarca e tirar sarro da filha.


Arte: Leah Goren

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Se eu te dissesse que amanhã você vai receber na sua casa, como visita, uma mulher que virá de longe, sem mala, sem absolutamente nada, quais são as primeiras coisas que você compraria para ela no supermercado? Se algum de vocês incluiu “absorventes íntimos” na sua lista, parabéns, você é mais inteligente do que muitos dos gestores das penitenciárias e demais carceragens femininas do Brasil.

Parece tão óbvia a associação mulher = menstruação que é difícil acreditar que o Estado esqueça de algo tão básico. Mas isso ocorre. Nos quase quatro anos em que pesquiso o sistema carcerário feminino, já ouvi histórias de mulheres que usavam papel higiênico, jornal e até miolo de pão para contornar o problema.

Depois de muita reflexão, cheguei à conclusão de que só há uma explicação para que isso ocorra: as presas acumulam duas características que as tornam socialmente invisíveis.

São elas:

1) cometeram crimes.
2) são mulheres.

Sobre a característica de número um, sinto que não preciso argumentar muito. Se você não acha que “bandido bom é bandido morto” aposto que tem ao menos um amigo que defenda essa máxima. Não tenho ambições de esgotar aqui essa polêmica, que talvez tenha nascido quando o ser humano decidiu se organizar em sociedade. Só deixo uma reflexão: será que esse argumento faz sentido em um país cuja Constituição garante a inerente dignidade da pessoa humana? Além disso, há um doce risco em perseguir esse princípio. Quando entramos em contato com a humanidade de nossos infratores, podemos encontrar, no caminho, a nossa própria humanidade.

Acerca do segundo item, há quem acredite que não faz diferença. Afinal, uma prisão que recebe bem um homem não poderia receber uma mulher com dignidade? A resposta é: de maneira alguma.

Por quê? Cabe lembrar aqui de outras especificidades das mulheres: elas têm câncer de mama, doenças sexualmente transmissíveis que exigem prevenção contínua e específica, engravidam, dão à luz e amamentam. Peraí… amamentam?! Exatamente, meu caro adepto do “bandido bom é bandido morto”, os filhos das presas não cometeram nenhum crime e, assim mesmo, pagam a pena com elas.

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Até pouco tempo atrás, a lei brasileira nem sequer obrigava as penitenciárias a permitir o aleitamento materno. Esses bebês nasciam com suas mães algemadas a macas, eram retirados como um apêndice que estuporou e, sem que as mães pudessem sequer conferir se eles tinham todos os dedos das mãos, eram levados para parentes e instituições. Em 2010, uma lei deu a essas crianças o direito de mamar e usufruir do convívio da mãe por seis meses – mas isso é raramente respeitado.

Não precisa ter muita imaginação (nem sensibilidade) para vislumbrar que tipo de consequências isso pode ter. Uma das mulheres que entrevistei, a quem chamo de Gardênia, deu à luz exatamente como descrevi acima. Só dias após o parto ela pôde conhecer o rosto da filha. Nem o nome da bebê ela escolheu. Virou Ketelyn porque algum parente entendeu que assim combinaria com o nome da outra irmã, Karen. Hoje, essa garota tem 18 anos e uma maneira bem peculiar de adormecer: ela bate a cabeça na parede até mergulhar no sono. Olha que impressionante: as detentas não são apenas “presos que menstruam”. Elas são mães.

Aliás, a maternidade é uma das razões pelas quais elas violam a lei. Explico: a maioria dos crimes cometidos por mulheres, hoje, serviria como complemento de renda em uma família monoparental. São delitos como tráfico de drogas, roubo, furto e outros crimes contra o patrimônio. Há uma tese vigente entre ativistas da área de que, depois que as mulheres assumiram a liderança da casa, elas se sentiram pressionadas a recorrer ao crime como uma maneira de melhorar o nível de vida de seus filhos. Afinal, mulheres ganham menos que os homens no Brasil, principalmente aquelas sem escolaridade.Uma das detentas que conheci, a Cristal, personalizava este caso. Ela havia começado a roubar porque os filhos passavam fome. Com o tempo, convenceu-se de que valia mais a pena sair para dois assaltos no mês e sustentar seus meninos do que gastar 12 horas por dia embrulhando compras no supermercado e vê-los chorar de fome ao fim do mês.

Outro surpreendente atrativo para o crime é o amor. Levantamentos da Pastoral Carcerária mostram que a mulher raramente é a protagonista dos delitos, adota mais o papel de cúmplice. Muitas delas relatam ter se envolvido com a criminalidade por influência de maridos, filhos e namorados. A maioria (que surpresa!) é abandonada pelo parceiro assim que é presa. Por último, quero lembrar das presas que têm não dois, mas três “problemas”. Além de terem o azar de nascerem mulheres e terem optado por desobedecer a lei, há aquelas que incorrem no “defeito” de serem gays. A essas não é dado o direito à visita íntima e, mais, se são pegas em trocas físicas de afeto com suas parceiras, recebem castigos.

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‘Orange is The New Black’ brasileira

O sistema carcerário feminino tem ganhado mais atenção desde o surgimento da série Orange is The New Black, do Netflix. Muitas pessoas têm me perguntado se o que a série mostra tem alguma conexão com a realidade brasileira. Ao que eu, normalmente, respondo: “Se fosse sobre o nosso sistema, seria bem, bem mais obscuro.”

As presas brasileiras têm mais acesso a drogas dentro do sistema carcerário. Elas não dormem naquelas caminhas ajeitadas de concreto com colchões por cima, mas no chão, em muitos casos – e, às vezes, acompanhadas de bebês recém-nascidos. Elas não podem fazer ligações para seus familiares com a facilidade das presas norte-americanas e nem têm tratamento médico da mesma qualidade. Em vez de banheiros sem porta, algumas frequentam banheiros sem descarga.

No lugar de paredes de cores pastel, paredes cobertas de musgo e mofo. Um ambiente escuro em que o preconceito da sociedade brasileira é visível e gritante: há muito mais negras e mulatas do que brancas presas no Brasil. Talvez sua realidade esteja mais próxima das séries de terror, na verdade, algo como uma Brazilian Horror Story. Eu não passei nenhum tempo detida como a autora da série, mas sou filha de uma advogada que ainda acredita em uma ideia ousada: a maneira como tratamos os nossos infratores diz muito mais sobre nós do que sobre eles.


Nana Queiroz se formou em jornalismo pela ECA/USP em 2010. É especialista em Relações Internacionais, com ênfase em direitos humanos, pela UnB. Estudou R.I. também em Nova York e na Finlândia. Trabalhou nas revistas Época, Galileu e Veja e no Jornal Correio Braziliense. Hoje, é editora de cultura do Jornal Metro de Brasília e trabalha no livro Presos que Menstruam, que será lançado pela editora Record no próximo ano.

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olga maternidade

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Muita gente tem uma visão antiquada de como uma mulher deve ser e se comportar. E, quando ela se torna mãe, esses estereótipos parecem se reforçar. Não à toa, a frase “ser mãe é viver com culpa” é tão divulgada. “A pressão é de que a mulher precisa ser uma heroína. Ela cuida da casa, da alimentação, do marido, dos filhos, trabalho, carreira, da saúde… E ainda achar um tempo para estar bem informada, se vestir como pede a moda, com o corpo em dia”, afirma Barbara Thomaz, ex-apresentadora do canal Glitz. “Os médicos pedem para que o bebê seja amamentado até os 6 meses, mas ela só tem 4 de licença maternidade. Se for celebridade, 2 ou 3 no máximo. A sociedade pressiona para que ela seja a mãe perfeita, mas não facilita em nada.” Aqui, ela dá um basta à pressão e nos ajuda a desconstruir os mitos da maternidade que tanto afligem as mulheres.


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GRAVIDEZ NÃO É UM PASSEIO NO PARQUE

A pressão sobre a mulher quanto à maternidade já começa na gestação, quando as pessoas esperam que você esteja RADIANTE. Quem espera isso de uma grávida provavelmente nunca passou pela experiência. Tive momentos em que sentia uma péssima mãe, porque nem sempre estava achando bacana aquela história de sono, ou de enjoo, espinhas, dores nas costelas, na coluna, dificuldade para dormir, uma bexiga do tamanho de uma cereja, hormônios ensandecidos. Perdi todas as roupas, tinha uma fome enlouquecedora, morria de medo do parto. Gravidez não é divertida: não podia beber, fumar, comer um monte de coisa que amava. Ainda ganhei 22 kg e pesava a responsabilidade enorme de gerar um filho 100% saudável. Como ficar radiante? Vou perguntar para aquelas moças dos comerciais de absorvente, elas entendem muito bem de conto de fada.

O PARTO PERFEITO NEM SEMPRE ROLA

Demorou nove meses para cair a ficha. Passei a gestação tendo dois empregos, trabalhando muito, viajando o Brasil e o mundo, guardando dinheiro porque sabia que os próximos meses seriam bem onerosos… Mas foi estressante. Me sentia sobrecarregada e já temia por um futuro parecido. Passei a perceber que não queria ser a mãe workaholic. Estudei, li tudo sobre gestação, parto, bebês, métodos de educação, psicologia… Virei a mãe nerd.

Bastou o parto para entender que ser mãe é uma questão de entrega, e não de controle. Nada aconteceu como eu esperava, fiquei frustrada comigo mesma, passei quase 20 horas em trabalho de parto. E, no fim, acabei cedendo para a anestesia e não pude sentir meu filho nascer como queria. Me senti menos mulher. Só faltou me dar chibatadas. Parecia uma louca me desculpando para o médico, para o meu marido e para a doula. E aí veio… “Epa! Quê isso? Calma aí… Eu fiz o meu melhor”. Estava sendo muito dura comigo mesma, e resolvi relaxar, aprender a improvisar e encarar as falhas com bom humor. O Enricco, meu marido, me ajuda muito nesse sentido. Sei que não sou a mãe perfeita, porque não sou uma mulher perfeita, porque não fui uma criança perfeita, porque meus pais, a sociedade, a medicina, a história, o mundo, nada é e nunca vai ser perfeito. Perfeito é chato, é artificial, é pura neurose.

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TODO MUNDO TEM UM PALPITE

Grávida é domínio público. A pressão vem até de estranhos, com perguntas, palpites e conselhos que você nunca cogitou solicitar. Parece incontrolável – as pessoas querem repassar as próprias convicções e experiências, ignorando completamente o fato de cada pessoa, cada gestação, filho ou marido é diferente. Um dos conselhos que mais ouvi foi o de optar por uma cesárea, pois depois do parto normal a vagina ficaria “frouxa”. Opa! Peraí… Quer dizer que isso poderia deixar o meu “mais precioso bem” prejudicado, e isso me faria o que? Uma mulher imprestável? Já imagino o motivo do divórcio: instrumento de prazer masculino avariado.

Depois vem a chuva do “não pode”: não pode ficar muito no colo, não pode sair de casa até os 3 meses, mamar só de 3 em 3 horas, deixa chorar no berço. Dei muito colo, muito peito, fomos na Bienal no primeiro mês, no segundo viajamos, fiz cama compartilhada até os 3 meses… Levei ele comigo até na manicure. Dei de ombros para quem disse que eu era louca de tentar o parto natural, também fiz o mesmo quando disseram que ele ficaria mal acostumado com amor, proteção e peito, fiz cara de paisagem com a senhora que nos parou um dia no shopping e nos mandou voltar para casa com o bebê pois ele só tinha 2 meses. Dei um sorrisinho paciente com quem me chamou de louca por fazer uma viagem deliciosa com minha família, com qualquer pessoa que invadisse a minha vida sem permissão ou afim de me julgar.

Uma mulher bem informada está empoderada e esse é o escudo para suas escolhas. Faça à sua maneira. É difícil ser mãe, é mais difícil ainda optar por não ser. Até nisso todo mundo vem meter o bedelho.

A IMAGEM TRADICIONAL DE MÃE INCOMODA

Por mais que você tente retornar a vida normal (dentro do possível), as pessoas esperam comportamentos diferentes das mães. Já ouvi de pessoas próximas coisas como “nossa, nem parece que você é mãe”. Hein??? Não fico chateada, porque sei que cumpro meu papel. Internamente, isso está muito bem resolvido. Aliás, passo o dia todo por perto, quando posso o levo comigo. Ser mãe não é ser chata, nem careta, nem pudica, nem santa. Ser mãe é acima de tudo estar emocionalmente disponível para o filho.

Minha imagem não existe mais sem o fator maternidade. Sinto isso na minha carreira e na curiosidade das pessoas a meu respeito, que mudou de foco. E tudo bem, porque também mudei de interesses, tenho outras opiniões, já não tenho mais paciência com certos assuntos, lugares e pessoas. Mas não é apenas pela maternidade. Faz parte do amadurecimento. As pessoas só precisam entender de uma vez por todas que as mães vivem.

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(NÃO) TRAGO SEU CORPO PERFEITO EM 3 DIAS

Logo quando o Theodoro nasceu começaram as perguntas: “E aí? Já emagreceu tudo? Tá na academia? Vai tomar remédio? Quando você volta a trabalhar?” Olhava para o lado, lá estava a mídia vendendo absurdos. Via uma conhecida cantora de axé saindo da maternidade quase de TOP, e dois meses depois já estava com a barriga chapada, pulando em cima de um trio. Parabéns, mas não, obrigada. Cada uma no seu tempo.

Você mal saiu da maternidade, ainda está tentando entender como o bebê funciona, está sem energia para mais nada além do filho, a rotina está de ponta-cabeça e o casal está se desdobrando para aprender uma nova dinâmica. O mundo não te dá esse tempo. Você quer curtir, mas te apressam. Quer relaxar, mas tem pressão. Isso nos faz sentir culpa por estar reclusa mesmo se dedicando integralmente como mãe. A mulher se sente improdutiva, feia, gorda, fora do mundo. Tive os meus momentos tensos e acabei descontando no meu marido, coitado.

E amamentar não emagrece!!! Pode funcionar para algumas mulheres, mas, assim como eu, muitas amigas sentiram que a fome aumentou. E você continua retendo líquido. No pós-parto perdi dez quilos. Um mês depois, três quilos resolveram voltar!! Enquanto não parei de amamentar, foi bem difícil perder peso.

“OS FILHOS SÃO UMA EXTENSÃO DE VOCÊ”

Os filhos são uma prioridade, mas a gente não pode perder a liberdade, nem a capacidade de se fazer feliz. Não adianta esquecer de você, da sua vida, dos seus sonhos e do casamento. Achar que os filhos são sua extensão é um peso enorme sobre a criança, tirando inclusive a liberdade dela como indivíduo. Sufoca e ainda tira espaço do pai. Te aprisiona. Existe uma simbiose inicial incontestável, e fui sentindo esse descolamento aos poucos. Está sendo lindo perceber que ele é um ser próprio. E ainda tem muito por vir.

NÃO DÁ PARA SER HEROÍNA

A pressão é a de que a mulher precisa ser uma heroína. Ela cuida da casa, dos empregados, da alimentação, do marido, dos filhos, do trabalho, da carreira, da saúde… Ainda deve achar um tempo para estar bem informada, se vestir como pede a moda, com as unhas, os cabelos, a pele e o corpo em dia. Para ter filho, ela para a carreira e morre de medo de como vai retornar. Não sabe se será substituída ou demitida.

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PRESSÃO TAMBÉM NOS PAIS

Onde estão os trocadores no banheiro masculino? Não se espera que os pais troquem fralda? E a licença paternidade? 5 dias úteis? Se eu fosse homem, ficaria puto. Estão tirando o papel do pai, subestimando o interesse e a capacidade deles.

O TRABALHO E A CULPA

Essa foi a primeira frase que ouvi: “Vai se acostumando, que ser mãe é ter culpa”. Quando estava em casa cuidando do Theo, às vezes me sentia inútil, improdutiva… Quando pensava na rotina que tinha antes, sofria por não conseguir me imaginar perdendo toda evolução do meu filho. Daí surgiu a ideia de investir em um projeto, onde eu pudesse fazer meus horários e estar mais perto do meu pequeno. Hoje estou me dedicando a esse novo plano dentro de casa.

Descobri que, se for para sentir culpa, melhor não fazer. Em primeiro lugar porque a criança capta muito bem as expressões. Se o bebê vê a mãe saindo de casa com culpa, ele automaticamente vai entender que algo ruim está acontecendo, e vai sofrer. Acho saudável para os pais e para a criança que exista liberdade, que os momentos de separação sejam bem compreendidos e bem vividos, sem exageros.

Ela vai saber que o trabalho é prazeroso, que os papais tem seus momentos de namoro, de diversão e que eles voltam, sempre estarão ali. Noto que muitas pessoas, mesmo as que ainda não são pais, estão mudando sua relação com o trabalho, priorizando qualidade de vida e refazendo os planos para evitar a culpa de não ser fiel aos seus desejos internos. Mães que corajosamente optam, por exemplo, por pararem de trabalhar e se dedicarem apenas aos filhos. É uma maneira de pressionar esse sistema opressor, cada um a sua maneira.

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olga marina santa helena

olga marina

Marina Santa Helena é apresentadora da Mix TV e criadora do portal feminino Supremas. Já foi VJ da MTV e fez fotos para Trip e Playboy. Se você acha que a fama a protege do assédio pelo qual qualquer mulher passa nas ruas, saiba que é o contrário.  Aqui, ela conta em detalhes como desde os 10 anos, e em vários momentos do dia-a-dia, foi intimidada por homens e sofreu machismo por parte das mulheres. E como aprendeu a lidar com isso.

Em um cenário em que temos tão pouco debate, números ou informações sobre as violências que as mulheres recebem na rua, são denúncias como essa que nos ajudam a despertar a consciência. Leia abaixo o depoimento de Marina:


Assédio aos 10 anos

Eu me desenvolvi muito cedo, e tem homem que é cara de pau e olha mesmo, pode ter a idade que for. Aos oito anos, era a mais alta da classe e usava sutiã. Aos nove, fiquei menstruada e chorei horrores porque não estava preparada para aquilo. Com dez anos, já ia sozinha pra escola – eu morava em cidade pequena e tudo era meio perto – e aí sim foi que sofri minha primeira intimidação sexual de verdade.

Um dia eu estava voltando da escola, quando um cara de bicicleta apareceu do nada e passou a mão na minha bunda. E não foi só uma simples passadinha de mão, ele encheu a mão mesmo, sem nenhuma vergonha. Daí saiu em sua bicicleta como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei parada uns minutos, sem saber o que fazer, sem saber se contava pra alguém, se chamava polícia. Poxa, há poucos minutos a minha maior preocupação era a boneca que ia levar no noutro dia pra escola ou o que seria servido no almoço lá em casa, daí apareceu esse cara…

Não chorei, nunca contei pra ninguém, nem deixei isso virar tema de terapia. Mas foi a primeira vez na vida que tive essa sensação horrível. Um gosto amargo na boca, o coração acelerado, uma vergonha, uma culpa por algo que eu nem conseguia entender ou explicar. Mal sabia que esse seria um sentimento recorrente a mim, e a todas as mulheres têm que lidar com situações de assédio nas ruas.

O dia-a-dia

Além dessa primeira história, que já foi bem marcante, aconteceram várias outras situações. Sempre tem um cara que acha que você tá lá, linda e cheirosa, vestida pra ele, e chega em você sem ter senso nenhum do ridículo, sem ter noção de que sim, essa é uma forma de violência, eu diria até de estupro.

Uma vez eu estava em um show e, também do nada, apareceu um sujeito completamente bêbado e veio certo pegar nos meus peitos. Claro que ele ganhou um belo de um tapa. Outra vez, quando tinha feito umas fotos de lingerie pra uma revista, o porteiro do prédio onde eu trabalhava decidiu que estava apaixonado por mim ou, sei lá, achou que eu tinha feito as fotos pensando nele, e começou a me dar presentes e pedir pra “me acompanhar até o ponto”. Sorte que não fiquei muito tempo nesse trabalho.

Fora as milhões de vezes que eu (e quase todas as mulheres) tenho que andar pelas ruas na defensiva, evitando olhar quando chamam, mesmo que seja pra pedir informações. Engraçado é que ontem mesmo aconteceu uma dessas. Eu estava andando de fones de ouvido – sempre, para evitar ouvir as bobagens que os homens falam – e aí veio um cara por trás de mim, pegou no meu ombro e eu, bobona, achei que ele queria perguntar algo pertinente. Desacelerei o passo, tirei o fone e ele disse “onde a princesa vai com tanta pressa?”. Ahh, mas fiquei tão brava, que caí na besteira de xingar o homem com todos os palavrões conhecidos, o que pareceu deixa-lo ainda mais instigado. Saí de perto do homem, quase correndo e fiquei olhando para trás o caminho inteiro, para ver se ele não tinha me seguido. Quase pego um taxi.

olga marina santa helena

Deixar de fazer coisas por medo

Sim e acho que muitas mulheres já deixaram. Por exemplo, se deixo o carro em casa e vou a pé, de ônibus ou de metrô para algum lugar, a roupa é outra. Visto uma calça jeans e um camisetão, jamais vou de saia. Se vejo um grupo de caras de um lado da rua, atravesso. Outra coisa que raramente faço é ir sozinha para um bar. Acho que a primeira vez que fiz isso foi há uns dois anos, quando estava viajando sozinha. Nessa noite, aconteceu outra história marcante. Chegaram alguns caras tentando me pagar drinks e neguei todos. Até que apareceu um outro, que só pode ter achado que eu estava lá a negócios, se é que você me entende. Ele foi tão insistente que achei melhor ir embora do bar. Mesmo assim, ele me seguiu até a esquina, falando bobagens e agarrou o meu braço quando tentei seguir por outro caminho. A rua estava vazia, não passava nenhum taxi e eu já estava entrando em desespero, quando apareceu um outro cara e eu ameacei gritar. Daí ele me largou e foi embora. Depois desse dia, apesar de não me privar de sair, penso três vezes antes de ir sozinha.

A culpa é nossa?

No início, eu sentia gosto amargo, uma vergonha, uma culpa. Era como se eu fosse a culpada por aquilo estar acontecendo, pelo simples fato de que meu corpo era o que “inspirava” os caras a cometerem esse tipo de violência – a velha e terrível mentalidade de que a culpa do estupro é do vestido, um pensamento horroroso que a sociedade tende a enfiar em nossas cabeças. Mas, ao longo do tempo, fui amadurecendo e vi que quem tem que ficar com vergonha não sou eu, mas um sujeito que faz isso, os pais que criam os filhos dentro dessa cultura, as mulheres que julgam o tamanho do seu vestido. Ninguém sai de casa com um vestido curto porque “tá pedindo pra ser estuprada”, ninguém faz fotos sensuais porque quer ser desejada e abordada a todo instante, ninguém anda nas ruas rezando para que o próximo mané da esquina a chame de gostosa e puxe um papinho. Hoje, o gosto amargo ainda volta e o coração ainda acelera nessas situações. Porém, não sinto mais culpa ou vergonha, só raiva.

Como é ser famosa e ler comentários sobre seu corpo

Essa ainda é uma questão que preciso trabalhar melhor. Sim, os comentários “positivos” desse naipe (“gostosa”, “delícia”) também incomodam. Esses dias recebi comentários no Instagram de um cara dizendo que queria me comer, que me pegava fácil e outras coisas do gênero (daí pra pior). Fiquei bastante incomodada, pensei por vários dias se deveria responder ou não. Mas, no final das contas, simplesmente apaguei os comentários e bloqueei o usuário. Pronto, a pessoa sumiu da minha vida. Pelo menos até o próximo imbecil aparecer para comentar tudo de novo. Não dá pra se acostumar com esse tipo de coisa, é algo que, assim como os comentários negativos, sempre estará lá pra te machucar naqueles dias em que você não está se sentindo tão bem assim.

olga jessica

O machismo das mulheres

Por incrível que pareça, as reações mais absurdas de quando fiz um ensaio para a Trip e uma foto para o calendário da Playboy foram de mulheres. Tem muitas que acham que esse tipo de trabalho denigre a imagem das mulheres como um todo, tem quem ache que você é só mais uma pessoa insegura, carente de atenção e tem outras que queriam mesmo é estar no seu lugar.

Passei muito tempo tentando justificar os comentários que recebi, mas é complicado. Acho que, quando você faz uma foto, aparece num filme ou num programa de TV, a imagem deixa de ser sua para virar domínio público. Não tem nada que você possa fazer em relação a isso, a não ser se libertar. As pessoas vão te julgar sempre, para o bem ou para o mal. Eu já fiz fotos vestida, de biquíni, de lingerie e nua, sinceramente não vejo muita diferença. O preconceito, os julgamentos, os estereótipos, moram na cabeça das pessoas. Eu fiz fotos ditas “sensuais” porque me sinto confortável com elas, me sinto segura vestindo apenas a minha própria pele e não preciso justificar meus motivos para cada hater que aparece. Claro que, se isso me afetar diretamente de alguma forma, vou precisar me defender, mas até agora tudo o que recebi foram comentários pela internet.

Coragem para debater o assédio

Não acho que o assédio sexual é debatido minimamente na nossa sociedade e é por isso que estou aqui no Olga. Sinto que é uma coisa muito velada porque a gente se acostumou. Ora, onde já se viu passar pela obra e não ser chamada de gostosa? Onde já se viu passar um caminhão do seu lado e não buzinar? A gente acha que isso é normal, mas não deveria ser. É um constrangimento sem tamanho. Outro dia passei de carro e vi uma amiga andando na rua, buzinei para ela e ela não olhou, claro que não olhou. Podia ser uma cara fazendo gestos obscenos, podia ser alguém que ia apontar uma arma e obrigá-la a entrar no carro.  É comum. Se você for homem e não estiver entendendo, achar que estou exagerando, pode perguntar para sua irmã, sua mãe, namorada ou amiga se ela já sofreu algum tipo de assédio e eu tenho 100% de certeza que ela vai dizer que sim.

Mas acho que o debate não é tão grande porque ainda rola aquela coisa da vergonha. Muitas ficam envergonhadas de admitir que, sim, resolveram sair lindas de casa, passaram perfume, maquiagem e colocaram sainha. E se sentem culpadas porque isso desperta o interesse de dúzias de caras que se acham no direito de assediá-las sexualmente. Não vão ser os homens que vão começar a debater uma coisa que os afeta tão pouco, ainda por cima quando muitos deles são os responsáveis pela perpetuação desse tipo de comportamento.

Como lutar contra a intimidação sexual

Depende muito do tipo de intimidação. Não dá pra fazer um escândalo toda vez que um cara assobiar e te chamar de gostosa. Isso vai acabar com o seu dia, vai te transformar numa pessoa amarga e raivosa. Agora, nos casos de intimidação mais direta – como quando um sujeito passa a mão numa mulher, ou a segue ou tenta agarrar – acho que tem que pôr a boca no mundo mesmo. Vale gritar, espernear, chamar o cara de tarado, pedir ajuda. É muito comum acontecer isso no metrô, na hora do rush, quando tudo está lotado e aquele cara te dá uma encoxada, assim, como quem não quer nada. Eu sou muito a favor de partir para a violência para cima do cara ou de gritar até deixá-lo constrangido, para ver se aprende uma lição e nunca mais faz aquilo.

Agora, fora desse tipo de situação, o que dá pra fazer é debater o assunto, conversar mais com os amigos (homens e mulheres), educar as crianças para que elas tenham consciência de que interferir no caminho de uma mulher de qualquer forma (palavras ou atos), com o intuito de se obter vantagens sexuais, é sim uma violência.  Acho que muita gente não tem isso muito claro. Por exemplo, será que um cara que assobia pra você sabe que ele tá te deixando com nojinho e não com tesão? É por isso que esse tipo de conversa é importante, temos que criar uma nova cultura.

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olga games 2

olga games 2

Quando tinha 16 anos, entrei em um jogo de estratégia online –  nele o jogador precisa desenvolver uma tribo, formar alianças e competir pelo domínio do servidor. Fiquei viciada. Passava horas jogando, traçando conspirações, desenvolvendo minhas cidades e programando batalhas. Tornei-me general da minha aliança, uma posição de importância crucial. Um belo dia, entrei no fórum do jogo e vi que havia uma enquete para eleger o jogador mais ‘temido’. Os candidatos estavam chamados de “Zézinho, o terrível gaulês” ou “Léo16, o sanguinário teutão”. Eu era a única jogadora (leia-se a única mulher) listada na votação. Minha descrição? “A doce romana”. Eu havia devastado cidades virtuais, saqueado alianças inteiras e era responsável pelo extermínio de vários jogadores. E era vista como doce. Ganhei a eleição – provavelmente só para provocar os outros jogadores listados ali, uma piada.

Parece um exemplo bobo, mas serviu para abrir meus olhos em relação ao que acontecia com garotas nesses jogos. Mudei de gráficos com outros games, mas o cenário era bem parecido. Em outra franquia  meu avatar era obrigado a usar roupas decotadas que nem de longe pareciam adequadas para a batalha. Minha personagem se protegia com uma espécie de sutiã de jade que mal tapava os mamilos (as opções eram sutiã de opala, de rubi, de ônix…). Tudo para preservar as tão valorizadas curvas exageradas com as quais a maioria dos títulos retratam suas personagens.

Em jogos de tiro, recebi cantadas e esculachos de jogadores de 10 a 40 anos ao usar um headphone para me comunicar com minha equipe. Era só uma voz feminina soar no grupo para que a atitude deles mudasse. Descobri que ‘tinha que ser mulher’ não é frase ouvida apenas no trânsito – basta levar um headshot. Ao comentar sobre games na escola e na faculdade via rapazes revirando os olhos por ‘eu não saber do que estava falando’ e moças achando que eu só tocava no assunto para chamar a atenção masculina. Será que já cunharam o termo nerdshaming?

Não é implicância minha, nem sou uma jogadora assim tão ruim para justificar a reação. Não sou a única que passa por isso – nem de longe, infelizmente. A revista New Media & Society publicou um estudo que revela que, ao comentarem coisas neutras (do tipo ‘oi, pessoal’) no headphone durante uma partida de Halo, mulheres recebem 3 vezes mais respostas negativas do que homens.

Recentemente, li uma entrevista com uma das roteiristas da franquia Bioshock, Susan O’Connor, que também participou do time de criação de Lara Croft e tem mais de 10 anos de experiência no mercado. Durante a conversa com o repórter ela se refere ao jogador sempre como uma figura masculina. Isso chama a atenção do jornalista que pergunta a ela “mas e a perspectiva feminina nos games?”. Susan então revela que nunca viu uma garota ser chamada para testar um game na produtora do Bioshock, a 2K Games. Logo depois é discutida uma personagem feminina do jogo Leisure Suit Larry que foi desenvolvida com uma história interessante, tem uma personalidade diferente, um prato cheio para uma roteirista… mas tudo para que, uma hora, o jogador fique ainda mais interessado em fazer sexo com ela. E então Susan revela que está cansada da indústria. “Não sou tão apaixonada por games para ignorar essas coisas sobre as quais discutimos”, confessa.

Se o machismo da indústria dos games é capaz de afastar uma roteirista com 10 anos de experiência, uma garota que está apenas começando a se interessar e sente tamanha resistência ao tentar entrar nesse mundo desiste sem pensar duas vezes. Acho que a maior prova de como o grupo dos gamers é fechado é o meme Idiotic Nerd Girl. Ele consiste em zoar meninas que por serem bonitas, ou populares, ou pegarem a crista da onda na moda de algum game, não teriam direito de participar de comunidades geeks por não serem nerds “de verdade” (suspiro).

Vamos pensar direito sobre o que esse meme realmente diz?

olga gamers

Então a cultura nerd é machista? Mas eles também não eram minoria há alguns anos?  

O estereótipo do nerd, alguns anos atrás, era o menino emocionalmente e fisicamente frágil, extremamente introvertido, que só tirava nota boa na escola. Hoje, o cenário é bem diferente –  alunos tímidos e CDF viraram magnatas, ser nerd ou geek é visto como uma coisa boa e tem um apelo cada vez maior. Mas os próprios nerds não gostam dessa popularização. Há aqueles que acham que suas paixões, antes exclusivas desse grupo, estão sendo ‘roubadas’, como se ficassem menos nobres com um maior número de fãs. E aí entram mulheres que, ao se aproximarem desses domínios, são ridicularizadas por sua falta de habilidade ou conhecimento.

Vale lembrar que a popularização da figura do geek coincide também com uma maior liberdade feminina em relação à cultura e à tecnologia. Em lojas especializadas, vemos pais comprando quadrinhos e games para as filhas. No ‘meu tempo’, quando meu pai me levava para comprar cartas de Magic The Gathering, eu cheguei a ser olhada com espanto por vendedores. Mas, mesmo hoje, nem sempre nos é dada a opção de fazer parte disso – de várias formas, como as citadas acima, somos encorajadas a perseguir interesses considerados ‘mais úteis’ ao universo feminino. Não é como se não gostássemos de games, quadrinhos, ficção ou qualquer outro elemento nerd. É que poucas meninas têm contato com esses produtos e menos ainda são aquelas encorajadas a cultivar sua relação com eles. 

Gosto de acreditar que esse cenário está mudando. Na última conferência E3, a Nintendo revelou que a normalmente frágil Princesa Peach, cujo papel na maioria dos jogos é ficar esperando Mario resgatá-la, será um personagem jogável em Super Mario 3D World. Sim, ela ainda é uma princesa, ela ainda usa rosa. Mas ela já consegue matar monstros sozinha e acompanhar os encanadores italianos numa boa*. Há quem diga que a ideia da Nintendo é trazer mais meninas para a série – acho que não há necessidade disso. Os títulos da franquia  sempre tiveram um grande contingente de adeptas. Penso que se trate, realmente, de uma maior conscientização sobre a forma com que mulheres são representadas.

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A verdade é que que cada um, homem ou mulher, tem seu tempo. Da mesma forma que a filha de uma amiga descobriu como baixar apps com 4 anos de idade, minha mãe descobriu o Call of Duty só depois dos 50 (e detona muito moleque no jogo). Isso mostra que a pequena quantidade de mulheres ou o tempo de contato menor não significa que somos menos apaixonadas pelas causas nerd. Se você, homem, se considera um conhecedor profundo de algum produto cultural, significa que você precisou estudá-lo, gastar tempo nele. Você também já deu mancada antes de acertar. E, sim, também já foi xingado de noob, dentre outras coisas. Mas ninguém te julgou menos capaz por ser um homem. Um hora, seu conhecimento cresceu e você foi reconhecido por isso.

Dê crédito às mulheres, tanto às que nasceram jogando videogame quanto às que descobriram ontem a paixão por Star Wars. Dê a elas a oportunidade de descobrirem seus gostos, sem envergonhá-las por ainda não terem tantas informações ou habilidade. Se você é geek hoje, você já foi um noob. Dê a mesma chance para qualquer um, homem ou mulher, que quiser trilhar o mesmo caminho.

Quer se aprofundar no assunto? Recomendo fortemente a série Damsel In Distress da vlogger Anita Sarkeesian (Feminist Frequency).

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=X6p5AZp7r_Q]

A história da própria série de vídeos já é digna de nota – ela apelou ao Kickstarter para arrecadar fundos e produzir seus vídeos sobre o modo com que mulheres são retratadas nos games. E, ao lançar a campanha, se tornou alvo de bullying. Ela compartilha essa história em sua palestra no TED sobre garotas, games e machismo.

*Em 2006, foi lançado um game de Nintendo DS que trazia Peach como personagem principal “Super Princess Peach”. No episódio, Peach é que devia salvar Mario. Mas por se tratar de um título separado da série de games convencional, com o marketing voltado para garotas, o apelo dele entre os homens não foi memorável.


Luciana Galastri é repórter do site da revista Galileu. Se a vida fosse como um navegador, a sua se alternaria entre as seguintes abas: internet, games e literatura.

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olga aborto

olga aborto

Claudia Salgado, 28 anos, gerente de varejo, fala de forma corajosa sobre a ilegalidade do aborto e suas consequências absurdas. Um viés humano e sincero nesse momento em que se debate o projeto de lei do nascituro


Minha mãe tinha 18 anos na época em que foi estuprada. Ela não foi a única que sofreu este tipo de violência na família: tenho uma tia que também foi humilhada e estuprada por mais de um homem, mas não teve frutos disso, a não ser o trauma e a vida quebrada.

Somos de uma cidade muito pequena no interior de Santa Catarina. Ela havia saído com minha tia para dançar em uma matinê e, quando voltou para casa, sofreu agressão física muito brutal do avô, que era militar e muito rigído com regras e com relação às filhas saírem de casa. A família era muito grande – eram 5 filhas no total – e havia muita preocupação com relação as filhas ficarem mal faladas.

Estou abrindo isso para mostrar como ignorância só gera ignorância. Meu avô não é má pessoa, mas ele era alcoólatra e muito severo com as meninas.

Minha mãe ficou desesperada depois da surra que tomou e decidiu fugir de casa com minha tia. As duas estavam muito machucadas e vulneráveis e se sentaram desoladas nas escadarias da Catedral no centro da cidade, onde estes dois homens se aproximaram de forma amigável e ofereceram amparo. Elas inocentemente aceitaram e foram passar a noite na casa deles, onde haviam mais homens. Foi quando toda a violência física ocorreu. Minha tia era mais forte e conseguiu fugir, mas minha mãe não conseguiu e foi violentada por mais de um homem. Somos tão parecidas fisicamente que ela mesmo lamenta o fato de nem sequer saber qual deles é meu pai.

Naquela época as coisas não eram bem explicadas – em sua maioria, eram omitidas. Minha mãe não contou a ninguém o ocorrido, pois, além da vergonha, ela ainda se sentia mortificada de medo de que não acreditassem nela. Ela era tão inocente que nem sabia que estava grávida, nem foi atrás de justiça, apenas se fechou. E quando a barriga ficou impossível de disfarçar, ela não pôde mais negar e outra vez passou por mais humilhação. Teve que sair de casa às pressas, pois meu avô queria matá-la. Eu não acho que, para ela, seguir a gravidez foi uma escolha, ela não entendia o que estava acontecendo e só teve essa opção.

Essa história afetou minha vida e a relação com a minha mãe por muitas razões. Ela não tinha a menor estrutura emocional de ter um filho sob aquelas condições e naquela idade. E eu nunca me senti desejada. Minha infância ficou quebrada e minha vida, incompleta. Só soube dessa história quando tinha 11 anos. Até então, ela dizia que meu pai havia morrido num acidente enquanto ela estava grávida, o que eu sempre achei estranho, pois nunca havia visto uma foto ou algum registro de que ele realmente existira.

olga claudia

Minha infância ficou incompleta porque me faltou a figura paterna, minha mãe era instável emocionalmente, me senti enganada e não consegui assimilar quando ela me contou a minha origem. Me sentia humilhada quando via minhas amigas com seus pais num lar ajustado.

Sentia raiva da minha mãe porque ela me teve sem ter me desejado, embora existisse o respeito por saber que ela nunca deixou nada me faltar e sempre fez o possível para que eu crescesse com dignidade, tivesse uma boa educação e nada me faltasse.

Sempre tive o sentimento de que ela se importava comigo, mas não me amava… E até hoje tenho este sentimento, mas hoje é mais compreensível porque, com o tempo, adquiri maturidade para entender o quanto isso foi danoso e o quanto deve ter sido difícil para ela ter que conviver com o fantasma de um ato bárbaro. É muito difícil lidar com a dor da rejeição, ela nos deixa realmente miseráveis… E mesmo que você tente se agarrar a seu orgulho, esbravejar que está tudo bem e ser indiferente a situação, não tem como: aquilo está ali, é a realidade da sua vida e você precisa aceitar.

Acho que nesse caso é visível que a ignorância gerou tudo isso. Se ela tivesse mais abertura em casa e direito de expressão, mais compreensão da parte dos pais, nada disso teria acontecido.

Não sei se cabe dizer que ela poderia ter escolhido interromper a gravidez, pois acredito que ela nem se quer sabia que isso era possível naquela altura. E também sei que no fundo ela não se arrependeu, porque não fui uma filha ruim e nunca dei trabalho ou fiz algo que pudesse fazer com que ela se arrependesse de eu ter nascido. Pelo contrário, minha chegada na família foi recebida com muito amor, inclusive meu avô aceitou e foi um pai para mim. Quem me criou foram meus avós, minha mãe teve mais um papel de provedora, pois sempre trabalhou muito para garantir que nada me faltasse.
Acho apenas que ela deveria ter se empenhado mais em achar estes bandidos, mas, ao mesmo tempo, acredito que ela estava muito fragilizada naquele momento e não tinha condições de lutar por nada além da nossa sobrevivência. E devo confessar que sou uma pessoa de sorte, pois não tive um pré-natal e nasci muito saudável.

O projeto de lei do nascituro

Acho esse projeto de lei um grande equívoco. Acredito que as mulheres deveriam ter suporte financeiro e emocional do governo para tomarem a decisão que melhor fosse conveniente a elas, especialmente num caso de estupro, em que deveria ser totalmente amparada e ter o direito de escolha de continuar ou interromper a gravidez. Não se trata apenas de receber uma esmola do governo, vai muito além disso…  

A favor do aborto

Por ser fruto de um estupro, me sinto até mesmo no direito moral de ser a favor do aborto. Eu sei o quanto foi horrível e quantas vezes desejei não ter nascido, pois acredito que a vida da minha mãe teria sido muito melhor se isso não tivesse acontecido. Ela teria tido mais tempo para concluir os estudos, fazer coisas que uma jovem da idade dela faria se não tivesse um filho nos braços. Ela não teria passado pela dor da reprovação, pela humilhação que passou e teria muito mais chance de ter formado uma família e ter um lar ajustado. Demorou muitos anos até que ela conseguisse (eu já era adolescente quando ela conheceu uma pessoa, com qual ela já está há 12 anos e tem outra filha). Ela também acabou de se formar em Direito, aos 47 anos de idade. Acho muito mais digno interromper uma gravidez indesejada do que colocar uma criança no mundo para sofrer e passar necessidades.

Eu fiquei extremamente sequelada, e não sinto a menor vontade de ser mãe. Não acredito que poderei ser boa o suficiente. Me sinto extremamente insegura e tenho muita resistência ao assunto. Sempre digo que só terei um filho se algum dia estiver em uma relação estável com alguém que queira muito, que me passe essa segurança.

O que podemos fazer

Eu acho que falta promover a igualdade, no sentido de que nós, mulheres, tenhamos autonomia sobre nossos próprios corpos e que possamos decidir por nós mesmas como ter um filho afetará nossas vidas e a da criança inocente. Sem interferência de religião, a mulher necessita ter esse direito e centros de apoio moral e psicológico. Vamos supor que homens pudessem engravidar, vocês acham que o aborto já não estaria legalizado?

Leis como essa são criadas, pois vivemos num mundo cheio de pessoas ignorantes e incapazes de pensar no dano que um estupro causa à história de uma pessoa.

Devemos promover discussões saudáveis e positivas sobre o assunto em um aspecto geral, derrubar dogmas e aumentar a consciência de um assunto que é importante na vida de muitas pessoas. Trabalhar com comunidades locais oferecendo suporte psicológico, oferecer uma plataforma neutra onde a mulher tenha espaço, sem ser julgada, e analisar realisticamente os prós e contras da gravidez. E que a mulher possa fazer sua própria decisão.

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