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Aqui na Olga, apesar de entendermos o quanto a construção da masculinidade está intimamente relacionada à desigualdade de gênero que nos afeta, a gente não costuma falar sobre homens. Mas, nesses 30 Dias por Rafael Braga, e diante de tantas injustiças que têm nos impactado recentemente, é difícil não refletir sobre a quem serve a justiça no Brasil e no mundo – e como raça, gênero e classe fazem parte dessa conversa. Ao relacionar a anulação do julgamento do estuprador em série Bill Cosby e a absolvição de Jeronimo Yanes, policial que covardemente assassinou o homem negro Philando Castile diante de sua namorada e da filha dela, o site Fusion trouxe uma afirmação que ressoou forte em nossos corações: “O sistema não está quebrado. Está funcionando exatamente como planejado”.

Existe uma dissonância fatal entre ideia que temos de justiça e como ela funciona na prática. Talvez o nome gere a confusão. Afinal, por justiça, de grosso modo, entendemos a distribuição adequada de responsabilidades, compensações e penalidades entre os indivíduos envolvidos em determinada situação. Na prática, esse equilíbrio é corrompido a favor de grupos historicamente favorecidos – a saber, homens brancos – ainda que homens negros por vezes ainda recebam algum privilégio de gênero quando este fator está envolvido, como nos casos de Bill Cosby e do diretor de cinema Nate Parker, acusado de estupro e também inocentado.

Apesar de tudo, nada disso é surpresa quando pensamos que essa injustiça encontra espelho nas indignações seletivas, que refletem a profundidade das diferenças estabelecidas entre grupos dominantes e minorizados. É o caso da comoção em torno da morte do estudante Otto Warmbier, preso na Coréia do Norte por roubar uma placa em um hotel do país e condenado a 15 anos de trabalhos forçados. Ele voltou aos EUA em coma e faleceu dias depois. O governo da Coréia afirma que ele foi acometido por botulismo, mas a família rejeita a versão. De toda forma, o caso revoltou americanos e o presidente Trump chegou a insinuar intenções de guerra contra o país, que também possui armas nucleares.

Ainda que não se esvazie a barbaridade da morte de Otto, certamente o fato de ele ser branco e de família influente tem um papel na comoção em torno do caso. É como se apenas com a morte de um jovem branco a opinião pública tenha encontrado motivos para se revoltar contra o regime totalitário que vitimiza o povo norte-coreano há décadas, quando o próprio fato de visitar o país é uma forma de apoiar o governo – afinal, a viagem ajuda a financiar e legitimar a barbárie. Em 2015, o filme A Entrevista, estrelado por Seth Rogen e James Franco, repleto de piadas racistas, fazia troça do país, apesar do clamor e críticas de ativistas asiáticos sobre a gravidade de transformar uma sangrenta ditadura em motivo de risada. Enquanto só padeciam asiáticos, tudo bem fazer piadas e tentar roubar “souvenirs” do regime de Kim Jong-un. Mas, quando esse mesmo regime mata um menino branco, só então eles foram longe demais?

Um silêncio ensurdecedor e uma perigosa relativização se manifestam também quando pensamos em nomes como Claudia Silva Ferreira, Sandra Bland, Rafael Braga, Philando Castile, Kalief Browder, Jandira Magdalena, Charleena Lyles e de tantas outras vítimas de estados que, para quem difere em cor de pele, gênero, orientação sexual ou classe, são tão ou mais cruéis que a Coréia do Norte, mas que se escondem sob um véu democrático que aplaca críticas e dissidências.

O que vivemos hoje, em termos de disseminação de informação, não tem precedentes na história e, apesar de muitas conquistas, estamos apenas começando a descobrir o alcance do nosso poder. Dizer os nomes dessas pessoas, preservar suas memórias, suas verdades e suas histórias deve ser o nosso compromisso. Se olharmos para os dados, para os números, para o sistema, a desesperança toma conta. Mas, se olharmos uns para e pelos outros, nos enchemos da certeza de que as nossas vozes têm poder e, juntas, não podem ser ignoradas.

Foto: New York Magazine, para reportagem especial com 35 mulheres denunciando Bill Cosby.

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Por mais absurdo que possa parecer, tem se tornado cada vez mais comum ter homens ocupando espaço de mulheres em premiações segmentadas. A nomeação de Bono Vox, vocalista da banda U2, no topo da lista de Mulheres do Ano 2016 da revista Glamour americana é um grande exemplo disso.

Mas homens já não ganham muitos prêmios? A revista disse não concordar: “Essa mentalidade começou a ficar defasada. Existem tantos homens fazendo coisas maravilhosas pelas mulheres hoje em dia”.

Para nós, ao invés de justificar, esta declaração só gerou mais questionamentos:

– Se hoje homens estão colaborando para a igualdade de gêneros, será que não devemos agradecer às mulheres que iniciaram e mantém essa luta?
– Será que, nessa posição de privilégio, Bono Vox e os “outros homens” não estão fazendo mais do que sua obrigação, ao colaborar com (e não protagonizar) as lutas das mulheres?
– Chegamos no mesmo patamar de oportunidades que os homens, a ponto de não mais precisarmos de premiações segmentadas?

Sabemos as respostas para todas essas perguntas e é por isso que, em 2013, iniciamos a lista de Mulheres Inspiradoras da Think Olga, onde não buscamos premiar, tampouco classificar as nomeadas, mas sim usar nosso espaço para exaltar trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres, como forma de combater a falta de reconhecimento.

E, acompanhando tantas mulheres inspiradoras em suas jornadas, podemos dizer que, ainda hoje, cada nova conquista merece méritos. Entre estes feitos, está o de tornar o feminismo e a luta por direitos iguais tão populares a ponto de engajar também os homens na causa.

Se os homens têm encontrado maneiras de ocupar listas segmentadas, pode-se imaginar a discrepância em prêmios mistos. Em uma das maiores honrarias da humanidade, o Prêmio Nobel, 97% dos vencedores na categoria de ciências são homens, uma área onde a participação feminina vem crescendo, mas ainda não o suficiente para mudar este quadro de representatividade.

Já na categoria Literatura, somente 14 mulheres foram agraciadas com o prêmio  em 116 anos. No ano passado, a academia escolheu Bob Dylan, o primeiro músico nomeado para Literatura em 103 anos, e foi questionada quanto às voltas dadas para premiar homens quando há tantas mulheres na mesma área buscando visibilidade. No fim das contas, uma mulher, a cantora e compositora Patti Smith, foi quem recebeu a honraria em nome de Bob Dylan, que não estava presente na cerimônia de entrega.  

Um refresco de diversidade aparece  na categoria Paz, a que mais cresce em nomeações femininas. E, em 2017, temos a chance de ter uma representante brasileira entre os indicados e, melhor ainda, pautar a importância da luta feminista, com Maria da Penha e seu trabalho em prol dos direitos e proteção das mulheres vítimas de violência: http://bit.ly/2qk4QMR.

Contudo, quando se traz um recorte social para a questão do reconhecimento, nota-se que ainda estamos longe da equiparação. Enquanto, para Bono Vox, ser o primeiro homem do ano da Revista Glamour foi um ato tido como histórico, Viola Davis de fato fez história ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática na história da premiação em 2015, demonstrando que mesmo em uma categoria segmentada, as oportunidades não são as mesmas, como ela disse em seu discurso: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”  

Quando o assunto é música, as oportunidades que são dadas na maior premiação do mundo, o Grammy, não passam de categorização e limitação de artistas negras a estereótipos. No ano passado, Beyoncé levou “Melhor Álbum Urbano” pelo trabalho musical e audiovisual sobre identidade e ancestralidade negra que é “Lemonade”. Já a maior categoria da noite, “Álbum do Ano”, ficou para a britânica Adele que disse, em seu discurso, ter sido injusto não competir com Beyoncé, dedicando o prêmio a ela.

E até em listas menos prestigiadas, como a “O que é sexy” da marca de lingerie Victoria’s Secret, não pensa em mulheres negras. Em 2017, a marca falhou na oportunidade de redefinir padrões de beleza, nomeando somente Vanessa Hudgens, Priyanka Chopra e Jamie Chung como não-brancas.

Por isso, iniciativas como o Troféu Raça Negra ou ainda a lista de #25WebNegras do site Blogueiras Negras, que destaca mulheres negras que usam a internet para terem suas vozes ouvidas em diversas áreas, ainda são tão necessárias.  

A Victoria’s Secret ainda demonstrou como não falar de “diversidade de gênero” ao nomear, nesta lista só de mulheres, um homem cisgênero, James Corden, como apresentador de TV mais sexy. Não há mulheres ou homens transgêneros em nenhuma outra categoria. E, em resposta às críticas, a marca se manteve confiante ao dizer: “Isto é o que significa sexy para nós”.

Já na atualização que a MTV americana deu para a antiga premiação MTV Movie Awards, transformando-a em “MTV Movie & TV Awards” contou com mais inovação do que somente a inclusão de entretenimento de televisão e streaming para os nomeados. Nesta nova versão, as categorias de atuação não são separadas por gênero (https://glo.bo/2pQdAqM) e de primeira, duas garotas levaram o prêmio em formato de balde de pipoca para casa: Emma Watson, pela performance em A Bela e a Fera, desbancou os favoritos James McAvoy e Hugh Jackman na categoria “Atuação em Filmes”. E Millie Bobby Brown, a Eleven da série Stranger Things, de apenas 13 anos, venceu na categoria “Atuação em uma série de televisão”, atores consagrados em Game of Thrones e The Walking Dead.

Já vivemos em uma sociedade fomentada pelo trabalho de mulheres tanto quanto os trabalhos  de homens. Contudo, nem todos podem enxergar isso com clareza, já que o que as revistas e premiações destacam nem sempre representam de fato a pluralidade de nossa sociedade. Por isso, para que possamos um dia ver mais mulheres nomeadas, precisamos passar por listas segmentadas que lhes dêem destaque e não que colaborem para o apagamento de seus nomes.

Nos sentimos honradas por estarmos entre as finalistas do Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico, pois sabemos que estamos ao lado de mulheres inspiradoras de nossa área e em um ambiente que as reconhece.

A verdade é que a sociedade e os mercados devem muito às mulheres, por isso não vemos porque deixar de celebrar suas conquistas mesmo em um, ainda utópico, mundo igualitário. Afinal, esse mundo igualitário só será possível por conta delas.

Arte: Eleanor Shakespeare.

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Um estudo divulgado em março deste ano trouxe surpresa na comunidade científica: segundo a Elsevier, o Brasil, ao lado de Portugal, é o país líder em igualdade de gênero no ambiente das pesquisas. Sob o recorte do relatório, mulheres publicam artigos praticamente tanto quanto homens e representam 49% dos profissionais de pesquisa no Brasil. Esta é uma entre algumas notícias animadoras sobre as mulheres cientistas brasileiras; também sabemos que Celina Turchi, uma das responsáveis pela comprovação da relação entre zika e microcefalia, foi indicada pela Nature como uma das 10 cientistas mais importantes de 2016 (entre homens e mulheres); também podemos falar sobre Nadia Ayad, engenheira negra que venceu um desafio científico mundial por conta de suas pesquisas sobre a utilização do grafeno, um material à base de carbono.

Isso quer dizer que a comunidade científica é um lugar seguro e perfeito para as mulheres? Que todos os desafios foram conquistados e todas nós seremos recebidas de braços abertos em todos os laboratórios e salas de aulas que desejarmos entrar? Infelizmente, não. E ainda estamos bastante longe dessa realidade.

Por mais que os números sejam animadores, eles representam apenas um pequeno recorte do que é ser uma mulher na ciência. O estudo também revela grande disparidade da presença de mulheres em certas áreas do conhecimento – muitas delas exclusivamente “masculinas”, como as engenharias – e não contempla a cultura de publicação de artigos científicos no Brasil – nas ciências exatas, em especial, é exigido que pesquisadores e pesquisadoras publiquem muito para permanecerem relevantes no mercado. Além disso, a pesquisa não contempla em profundidade as questões de gênero e as microagressões diárias que mulheres na ciência, em todo lugar do mundo, enfrentam diariamente.

A verdade é que é duro ser mulher no espaço científico. Vera Rubin, uma das astrônomas mais importantes do século passado, responsável pela descoberta da existência da matéria escura, foi zombada pelos seus colegas e desestimulada a estudar física. Ada Lovelace, que pode tranqüilamente ser considerada a primeira programadora de computadores do mundo, volta e meia tem suas descobertas questionadas e atribuídas a seu colega de trabalho, Charles Babbage. Marie Curie, talvez a cientista mais famosa do mundo, ganhadora de dois prêmios Nobel em áreas diferentes, era proibida de entrar na universidade na Polônia, seu país de origem, simplesmente por ser mulher. No Brasil, o direito da mulher a entrar na universidade tem 120 anos. Isso sem falar que a história da ciência está polvilhada de casos de mulheres que, para serem aceitas no ambiente científico, assinavam seus trabalhos com nomes masculinos – e outros tantos casos de homens que simplesmente roubaram descobertas de grandes inventoras e pesquisadoras.

Há quem possa argumentar que os tempos mudaram. Nem tanto. O site Speak Your Story encoraja mulheres das áreas de exatas a denunciarem casos de assédio, abuso e até violência sexual no ambiente de trabalho. Universidades renomadas no mundo todo possuem centros de pesquisa que visam aumentar a representatividade nas áreas científicas, que ainda surgem como ambientes hostis para muitas mulheres. Infelizmente, o mesmo ambiente onde o trabalho de pesquisadoras é encorajado pode ser palco para dor e muito silêncio, já que muitas cientistas preferem ocultar seus casos de agressão para evitar conflitos com orientadores e outros alunos e colocar toda a carreira a perder. Vale dizer que as universidades brasileiras fazem de tudo para ocultar esses casos, inclusive encorajar esse medo do futuro acadêmico.

Não podemos acreditar que o Brasil seja perfeitamente igualitário no campo da ciência quando questões  de gênero tão urgentes são silenciadas no ambiente acadêmico.

Para auxiliar no debate desse tema tão importante – e por vezes esquecido, silenciado e fora do escopo de debate do mundo acadêmico -, estaremos mediando uma mesa com três cientistas brasileiras no lançamento do livro “As Cientistas”, de Rachel Ignotofsky, que traz a história de 50 cientistas mulheres que mudaram o mundo com sua genialidade. O evento acontece no dia 06 de maio, próximo sábado, a partir das 16h, no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo. Para mais informações, visite a página do evento!

Arte: Katherine Johnson por Rachel Ignotofsky para o livro As Cientistas.

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4529986797_c3b423948d_oA Lei Maria da Penha – considerada pelas Nações Unidas a terceira melhor lei do mundo no combate à violência doméstica – completou uma década de vigência no último domingo e temos muito o que comemorar. Segundo Leila Linhares Barsted, advogada, fundadora e diretora da ONG CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação) e uma das mulheres envolvidas na criação da Lei Maria da Penha, o avanço no combate à violência contra a mulher nos últimos dez anos foi bastante significativo. “Nesses 10 anos foram criados mais delegacias da mulher e juizados de violência doméstica, a legislação incluiu medidas de proteção, passamos a ter acesso à defensoria pública, além de uma mudança muito grande na própria cultura jurídica brasileira”, disse Leila à Think Olga.

Foram 10 anos de muita luta de organizações feministas e de muitos avanços no enfrentamento à violência contra a mulher, mas foi apenas o começo. Diante do congresso mais conservador desde 1964, a luta ainda é para aplicar a Lei Maria da Penha integralmente e impedir retrocessos na forma como ela é implementada. “É preciso ter muita cautela em relação aos diversos projetos de lei que pretendem alterar a Lei Maria da Penha porque apesar dos avanços ainda estamos lutando pela sua integral implementação. Nossas perspectivas de avanço no legislativo não são positivas e tem prevalecido a censura à expressão ‘gênero’ em diversos projetos de lei, sem falar nos possiveis retrocessos em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, como aqueles projetos que pretendem restringir ou ate mesmo extinguir as hipoteses de aborto legal no Brasil”, afirma Aline Yamamoto, ex-secretária adjunta de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República.

Para a diretora do CEPIA, é preciso investir muito mais em prevenção, mantendo, é claro, os esforços na repressão ao mesmo tempo. “A prevenção passa pelo sistema de ensino, pelos meios de comunicação, a parte cultural. Não é uma lei que vai mudar uma cultura milenar que coloca a mulher em posição de subordinação e que leva a essa situação de não reconhecer a mulher como cidadão ou como humana”, afirma. Por isso, é necessário olhar para as leis que são debatidas no Congresso hoje e as políticas públicas que estão sendo implementadas. Segundo Leila, há dois tipos de leis sobre violência contra a mulher tramitando no congresso hoje: “propostas que nada mais fazem do que repetir a Lei Maria da Penha e projetos que tentam desfigurar a lei”. Conscientes de que o aniversário de uma década de existência da Lei Maria da Penha merece comemoração e também um olhar apurado e crítico para garantir que o Brasil continue no caminho certo, elencamos os principais projetos de lei, políticas públicas e leis voltados ao combate à violência contra a mulher que merecem a atenção das mulheres, para o bem e para o mal. Confira abaixo:

Projetos e programas que beneficiam as mulheres:

– Lei do feminicídio

A aprovação da Lei 8305/14 que tipifica o feminicídio como homicídio qualificado e passa a ser considerado crime hediondo certamente foi um dos maiores avanços legislativos no país após a Lei Maria da Penha. Considerando que o Brasil é o sétimo país do mundo com maior taxa de homicídio de mulheres, uma punição mais severa ao assassinato de mulheres por razão de seu gênero se faz necessária.

– Ligue 180

O ‪#‎Ligue180‬ é um serviço confidencial e gratuito que funciona como uma central de amparo a mulheres vítimas de violência com orientações e encaminhamentos para serviços de proteção. Em 2015, a central atingiu 749 mil atendimentos, um aumento de 54,4% em relação ao ano anterior. A maior parte dos atendimentos serve para prestação de informações sobre os direitos das mulheres e a legislação vigente, mas também serve para encaminhamentos para outros serviços de teleatendimento, como o 190 da Polícia Militar.

– Casa da Mulher Brasileira

Política pública da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) que prevê a construção de 27 casas de apoio (uma em casa estado do país, além do Distrito Federal) que integram no mesmo espaço os mais diversos serviços especializados: acolhimento e triagem; apoio psicossocial; delegacia; Juizado; Ministério Público, Defensoria Pública; promoção de autonomia econômica; cuidado das crianças – brinquedoteca; alojamento de passagem e central de transportes.

– Mulher, Viver sem Violência

Programa nacional funciona como o próximo passo do pacto federativo e intersetorial de enfrentamento à violência liderado pela SPM que prevê metas, planos e repasse de verba a estados e municípios. O Mulher, Viver Sem Violência consiste na distribuição de unidades móveis de atendimento que levam políticas públicas de gênero ao interior do Brasil.

– Fundo para o Fim da Violência contra as Mulheres no Brasil

Atualmente em tramitação, o projeto de lei 7371/2014 propõe a criação de um Fundo Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher. Os recursos devem vir tanto do orçamento da União quanto de doações de entidades e empresas interessadas em contribuir e seriam empregados em ações como a criação de mais Delegacias da Mulher e de varas especiais na Justiça, além de na contratação de profissionais para o atendimento às vítimas. Seria uma forma de implementar dispositivos da Lei Maria da Penha que ainda não foram aplicados por falta de recursos públicos. No entanto, é preciso ficar atenta à denúncia que a líder do PCdoB na Câmara, deputada Jandira Feghali (RJ), fez sobre ameaças de desvirtuamento do Fundo. Segundo ela, o deputado Diego Garcia (PHS-PR), o mesmo que relatou o Estatuto da Família, está tentando acrescentar uma emenda para que a verba do fundo não seja utilizada em “equipamentos, serviços, ou atividades relacionados, direta ou indiretamente, ao aborto provocado, incluindo os casos especificados no artigo 128 do Decreto Lei 2.848/1940”. Dessa forma, nem mesmo os casos de aborto permitidos por lei (após violência sexual, por exemplo) poderiam ser atendidos pelo Fundo.

– Projeto de lei para aumentar a pena por estupro coletivo

Atualmente o Código Penal brasileiro estabelece pena de 6 a 10 anos de prisão para o crime de estupro, mas, em caso de estupro coletivo, a pena é aumentada em um quarto, o que equivale a pena máxima de 12 anos e meio de prisão. O Projeto de Lei do Senado 618/2015, da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), estende o aumento para um terço da pena, ampliando para um máximo de mais de 13 anos de prisão. A relatora, senadora Simone Tebet (PMDB-MS), apresentou emendas para tornar o texto mais rigoroso, uma fixando o aumento da pena em até dois terços ara estupro coletivo e outra determinando uma punição maior pela divulgação de imagens do delito. Depois do caso de estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro este ano, o texto foi rapidamente aprovado pelo Senado e remetido à Câmara dos Deputados.

Projetos de lei e políticas públicas que demandam cautela:

– Plano nacional de combate à violência contra a mulher

No final de maio deste ano, o ministro da Justiça Alexandre de Moraes anunciou um plano federal de combate a crimes contra a mulher focado em Segurança Pública. Sem detalhar quando as ações serão colocadas em prática nem seu custo, Moraes adiantou que os recursos devem sair do orçamento destinado à Força Nacional de Segurança. A ideia é repassar recursos aos Estados para que eles arquem com extensão de cargas horárias de policiais e, assim, eles atuem exclusivamente na repressão à violência contra a mulher durante a jornada extra. Para Aline Yamamoto, ex-secretária adjunta de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da SPM, é um enorme equívoco ignorar o trabalho que havia sido desenvolvido durante anos pela SPM e criar uma nova frente voltada para Segurança Pública. “Isso nao é aplicar a Lei Maria da Penha porque ela não é uma lei penal. Você não vai reduzir a violência com Segurança Pública porque a violência contra a mulher é um fenômeno cultural que tem a ver com uma desigualdade muito mais profunda e ampla de gêneros e com recorte racial, tratar como problema de polícia demonstra um enorme desconhecimento sobre o que estamos falando”, afirma.

– Retrocessos em projetos de lei que envolvam a palavra gênero

Considerando que a prevenção da violência contra a mulher demanda investimento na educação sobre o que é machismo, racismo, homofobia e outros crimes de ódio e preconceito envolvidos em ataques contra a integridade das mulheres, torna-se necessário abordar esses assuntos em sala de aula para que os estudantes tenham conhecimento sobre o assunto. Porém, a tentativa de incluir a igualdade de gênero como um princípio ou diretriz do projeto de lei original do Plano Nacional de Educação (PNE) intensificou uma mobilização contrária à igualdade de gênero por parte chamada bancada fundamentalista do Congresso. Como resultado, atualmente há ao menos cinco projetos de lei com o objetivo interferir diretamente nos conteúdos abordados em sala de aula evitando o que fundamentalistas religiosos chamam de “doutrinação política e ideológica” tramitando no Congresso. Um dos projetos é o 2731/2015, que altera o PNE proibindo a discussão de gênero nas escolas e prevê pena de prisão para professores que desrespeitem a determinação. Outro é o PL 7180/2014, que pretende alterar a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) para proibir o que o autor da proposta, deputado Erivelton Santana (PSC-BA), chama de “ideologia de gênero”. Além do Congresso, projetos semelhantes e inspirados no movimento Escola Sem Partido tramitam em assembleias legislativas de pelo menos nove estados e em 13 municípios.


Arte: Christopher Dombres

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Vó precisamos falar de aborto. Eu sei que a senhora é mãe de seis filhos e que cuidou deles praticamente sozinha depois que seu marido alcoólatra te abandonou. Eu sei que você mesmo na dificuldade, mesmo com pouco dinheiro, nunca pensou em abandoná-los, ou não tê-los, mas precisamos falar sobre isso. Eu mesma acho que não teria coragem de abortar, talvez em caso de um estupro. Mas nunca me vi nessa situação e tenho muito medo só em  pensar. Vó precisamos falar de aborto, porque mesmo eu não abortando eu não me acho melhor do que elas, mais correta, mas digna, mais amada por Deus.

Vó, você sabia que o aborto ilegal mata uma mulher a cada dois dias no Brasil? Segundo dados da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2013,  foram mais de 150 mil casos de mulheres internadas por complicações em abortos induzidos no país, a maioria preta e pobre. Você sabia que elas são como a gente, cada uma com a sua história e vivência. Muitas mulheres que decidem interromper uma gravidez são cristãs, algumas são adolescentes que tem medo de assumir para a família que engravidaram antes do casamento, medo do julgamento deles, dos amigos, da igreja. Outras são mulheres casadas, com filhos, mas não desejam mais um, tem mulher pobre, tem mulher preta, tem mulher branca, tem mulher com o dinheiro. Muitas mulheres, muitas histórias, muitos motivos.

Vó, você sabia que métodos contraceptivos falham né? Não são 100% seguros. Lembro da minha mãe contar que ela ficou gravida de mim quando meu pai não quis usar camisinha e acabou gozando dentro. Você lembra disso? Aconteceu com você? Poderia ser qualquer uma de nós. Você sabia que segundo o código penal brasileiro, a mulher grávida que abortar é punida com pena de prisão até 3 anos? Do outro lado, muitos homens metem o pé, não querem filhos, não apoiam suas companheiras, e nada acontece com eles. Imagina enfrentar toda essa dor, medo e angustia e ainda ser presa? Em vez de ser acolhida. Você sabia que mulheres vão continuar abortando mesmo que você seja contra? E elas continuaram morrendo, principalmente as pobres. E a vida dessas mulheres que estão morrendo ? O que a gente faz? Ignora?

Vó, esses dias escutei de uma amiga que ela era contra o aborto porque não queria que os “impostos dela pagasse aborto para putas”. Vó aquilo me doeu tanto. Primeiro porque a complexidade da história de uma mulher é muito mais profunda do que categorizá-la em Puta X Santa e segundo porque o sistema público de saúde gasta mais com curetagem e com as internações por complicações decorrentes do aborto clandestino do que gastaria se o aborto fosse legalizado no Brasil. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de curetagens pós-aborto ou puerpério,  se manteve nos últimos anos (190 mil em 2013, 187 mil em 2014 e 181 mil em 2015) enquanto o número de AMIUs, que é o esvaziamento do útero por aspiração manual intrauterina, aumentou (5.704 em 2013, 8.168 em 2014 e 10.623 em 2015). O custo, somando ambos os procedimentos, foi de R$ 40,4 milhões.

Vó, você sabia que se o aborto fosse legalizado no Brasil teria regras. Não seria de qualquer jeito. Você sabia que lá no Uruguai o aborto pode ser feito por qualquer motivo até a 12ª semana de gestação, ou seja, antes da formação do sistema nervoso. O feto não iria sofrer. Não teria mais um mercado clandestino sem respeito nenhum a vida da mulher, que seria capaz de interromper uma gravidez em qualquer período gestacional. Aborto é questão de saúde pública e não de polícia. Junto com a legalização do aborto viria acompanhamento médico, psicológico e social. Lá no Uruguai isso já acontece desde 2012, e eles tem experimentado quedas tanto no número de mortes maternas quanto no número de abortos realizados.

Vó, você sabia que o aborto é crime muito mais por uma questão moral, que pune somente mulheres, mais do que pelo respeito a vida. Eu sei que você acredita que a vida acontece desde a sua concepção, lá no embriãozinho. E você não precisa deixar de acreditar nisso. Mas a gente não pode querer que a nossa forma de pensar ou a nossa forma de se relacionar com a fé seja regra para a sociedade. Não podemos querer que religião seja lei, o estado é laico. Você não precisa ser a favor do aborto, precisa ser A FAVOR QUE CADA MULHER POSSA TER O DIREITO DE DECIDIR O QUE FAZER COM SEU CORPO.

Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida dessas mulheres que morrem todos os dias em clinicas clandestinas. Se realmente somos a favor da vida devemos nos importar com a vida das mulheres que sobrevivem a essa experiência traumática cheia de sequelas no corpo e na alma. Se realmente somos a favor da vida temos que respeitar a escolha das mulheres, respeitar a autonomia que cada uma de nós devemos ter sobre nossos corpos e acolher- las.

Vó, pela vida e pelo amor eu acredito que todxs as mulheres devem ter o direito de decidir, se querem ou não, terem filhxs.


Thamyra Thâmara é jornalista, social mídia, fotógrafa, afrofuturista e a idealizadora do GatoMídia.

Arte:  Ana Núñez

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Cento e cinquenta especialistas do mundo inteiro assinaram uma carta de recomendação para que as Olimpíadas sejam adiadas ou tenham seu local alterado do Rio de Janeiro para outra cidade por causa do vírus zika, transmitido pelo velho conhecido aedes aegypti e cuja relação com os muitos casos recentes de microcefalia após grávidas contraírem a doença já foi cientificamente comprovada. Mas será mesmo esse o maior perigo a que estão sujeitas as mulheres cariocas e as turistas a passeio?

“O risco de uma mulher ser infectada pelo vírus da zika durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro é 15 vezes menor do que o de ser estuprada.”, disse Herton Escobar em seu blog Imaginem Só!, ao noticiar cálculos feitos pelo professor Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da USP. É oficial: o Brasil está vivendo uma epidemia de vírus zika com números 15 vezes menores que o de estupros – mas não somos escutadas quando falamos sobre a calamidade silenciosa que são os crimes de violência sexual contra as mulheres no país.

Silenciosa, pois silenciadora de suas vítimas. Os dados sobre estupros afloraram como nunca antes após o caso da jovem de 16 anos do Rio de Janeiro que foi violentada por vários homens. O mais impressionante talvez seja o de que a cada 11 minutos uma mulher seja estuprada no Brasil segundo dados oficiais das secretarias estaduais da Segurança coletados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – sendo que não devemos perder de vista o fato de que apenas 35% dos casos são notificados.

Paira sobre a sociedade uma ignorância muito grande sobre a natureza do estupro. Acredita-se que ele pode ser provocado pela vítima por ter usado determinada roupa, ingerido bebida alcoólica, ter acenado a possibilidade de uma relação sexual e mudado de ideia, enfim, situações nas quais ela devia imaginar que isso poderia acontecer e evitar este fato ao mudar seu comportamento.

Entretanto, não existe um modo de ser que verdadeiramente sirva de escudo para as mulheres: casadas, crianças, portadoras de deficiência cognitiva, evangélicas de doutrinas rígidas, idosas e muitas outras mulheres que, em teoria, estariam a salvo de uma violência sexual são estupradas. E aí?

E aí que o estupro é a mais simbólica manifestação física do poder do patriarcado. A maior parte dos agressores são homens. A maioria das vitimas são mulheres – e, mesmo quando são homens, os agressores também o são. O crime se dá pelo uso da força ou ameaças para que o agressor realize um ato sexual contra a vontade da vítima. É transformar uma pessoa em um objeto para o seu gozo por sentir que esse é um direito dele, algo que está ao seu alcance.

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Não tem necessariamente a ver com lascívia, com um desejo sexual monstruoso e descontrolado – mas com poder. Tanto que o estupro é muito usado como gíria, algo observável no mundo dos games. “Eu vou te estuprar!”, “Vou comer o seu c*!” e outras ameaças semelhantes fazem parte dos diálogos e supostas brincadeiras entre muitos gamers. Eles não estão falando isso porque sua libido está exacerbada, mas porque desejam demonstrar poder e domínio uns sobre os outros.

Esse é o verdadeiro significado do estupro, que não devia jamais ser tema para piadas ou brincadeiras. Suas consequências são graves, desde doenças sexualmente transmissíveis, gravidezes e traumas gravíssimos, capazes de levar à síndrome do estresse pós-traumático, depressão e até ao suicídio.

A frequência com que estupros acontecem no Brasil é mais do que suficiente para ser tratado como motivo para pânico entre as mulheres, é um assunto urgentíssimo, mas também uma calamidade silenciosa por sistematicamente silenciar as suas vítimas em diversos espaços sociais.

NA CULTURA

 

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“Acho que com a sua idade/Já dá pra brincar de fazer neném”, cantavam os Raimundos no final dos anos 90. O estupro faz parte de uma cultura maior de violência contra a mulher muito presente nos países ocidentais. Encontramos exemplos no Brasil e no mundo de músicas, filmes e programas de tevê que tratam mulheres como objetos cujos corpos estão à disposição de olhares e toques indesejados.

A publicidade contribui, e muito, com a transmissão de mensagens negativas. Seja pelo uso da mulher como um mero display ou o recorte de partes do corpo que transformam um ser humano em um par de seios ou nádegas, seja pelo uso aberto e indiscriminado de conceitos abertamente machistas ou pela constante hiperssexualização das mulheres, os anúncios ajudam a desumanizar as mulheres e, quando esse processo se estabelece, elas se tornam foco de violência.

E a publicidade está em todo lugar: dentro e fora dos programas  e filmes que assistimos na tevê e na internet, nos nossos celulares, nos ônibus, outdoors, revistas, ao redor das notícias que lemos. Muitas gerações já cresceram e se desenvolveram sendo estimuladas pela publicidade a ter uma visão distorcida das mulheres – o que gera efeitos negativos em ambos os gêneros.

Filmes e seriados também fazem sua parte. O estupro dificilmente é incluído em tramas com o cuidado e a complexidade necessárias para tratar do assunto. Ele é utilizado para marcar a vida de mulheres – em Game of Thrones os criadores prometeram mudar as cenas após reclamações de fãs – ou até mesmo romantizado, como foi o caso da minissérie Ligações Perigosas.

Isso quando não é tratado como brincadeira. Insinuações de estupro são muito comuns em filmes de comédia, bem como tramas nas quais personagens colocam drogas nas bebidas uns dos outros. O filme “As Branquelas”, que arrecadou US$ 113 milhões de bilheteria no mundo inteiro, também foi um sucesso no Brasil e desde a sua estreia em 2004 já foi reprisado diversas vezes por aqui, traz em sua história a tentativa do personagem de Terry Crews de dopar uma mulher com o intuito de levá-la para o seu quarto de hotel. A trama se desenvolve comicamente e ele amanhece ao lado de um homem, em uma forte insinuação de que dois tiveram relações sexuais enquanto ambos estavam sob o efeito de drogas, mas se a personagem tivesse bebido seu drink, ela teria sido estuprada.

Outro grave problema é a erotização cada vez mais precoce das mulheres. A revista Galileu recentemente dedicou uma capa a esse fenômeno que, apesar de não ser recente, definitivamente é potencializado pela mídia e transforma corpos ainda infantis em objeto de desejo. Elas já foram lolitas, hoje são “novinhas”, celebradas por músicas que nem disfarçam a controvérsia. Em Amiga da Minha Irmã, Michel Teló canta: “Eu vou pra cima, pra cima/Ela é amiga da minha irmã, não quero nem saber/Se ela é novinha, novinha”.  E o desejo vai além: o termo novinha foi o mais buscado por brasileiros em um site pornô.

Não faltam exemplos do Brasil e do exterior, cujas produções dominam a maior parte da programação nacional, de outras músicas, filmes e séries que ajudam a banalizar o estupro e o assédio. Esse tipo de violência só é ignorado e varrido para debaixo do tapete quando as vítimas decidem falar sobre o que sofreram.

 

NA SOCIEDADE

Ainda que o estupro seja tão prevalente na mídia e em número de casos, as vítimas que assim se assumem frequentemente são socialmente isoladas. Em uma sociedade machista, que busca colocar a culpa nas vítimas, ter a coragem de fazer uma denúncia é um feito raro.

Isso acontece porque a maioria dos estupros é cometido por pessoas que a vítima conhece: por seus parceiros, amigos, pelo pai, por um tio, um parente. Segundo dados do Ipea, essa é a realidade em 70% dos casos. 70% também é o número de vítimas que são crianças ou adolescentes quando sofrem essa violência. Ou seja: quando analisamos  o problema do estupro no Brasil, estamos olhando para um cenário íntimo, não para uma maioria de casos nos quais o crime é cometido por um bandido sem rosto, o perigo das ruas. Em crianças, apenas 12,6% dos casos de violência sexual são praticados por desconhecidos.

Por isso que é muito difícil falar. Contar para alguém da família que o pai ou  avô fizeram algo sobre o qual a própria vítima sente medo, vergonha, culpa. Os abusos nem sempre deixam marcas e não têm testemunhas, além de frequentemente acontecerem sob ameaça e já serem uma terrível violência. Ainda que se fale, há o descrédito, a atenuação do fato.

Quando lançamos a hashtag #PrimeiroAssédio para ouvir das mulheres sobre a primeira vez em que foram importunadas de maneira sexual, abrimos uma verdadeira caixa de Pandora da pedofilia.

Brenda Jaci on Twitter Fui abusada sexualmente pelo meu padrasto dos 3 aos 14 anos. Encorajada por um terapeuta e pela campanha #P

 

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Liza on Twitter #PrimeiroAssédio foi com um tio q passava a mão em mim,sempre q eu passava perto dele,hoje tenho 35 anos e só ah 2

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Boa parte das histórias vinham de mulheres que estavam compartilhando o que viveram pela primeira vez em suas vidas. E sabemos que essas conversas não se resumiram às redes sociais, mas invadiram salas de estar, consultórios, grupos familiares no WhatsApp. O poder que essa hashtag teve é algo que nós jamais poderemos medir com precisão (apesar de termos alguma ideia de seu impacto e internacionalização), mas nos orgulhamos infinitamente de ter iniciado essa conversa com séculos de atraso.

Entre mulheres adultas, denunciar o estupro ganha contornos igualmente complexos. Quando seu agressor está em seu círculo social, por exemplo,  vítima pode experimentar uma exclusão completa ao falar contra alguém que todos os seus amigos adoram, além de ser chamada de mentirosa. Isso se dá pela distância que o machismo coloca entre os estupradores, os monstros, os doentes, do homem comum – quando eles são, comprovadamente, a maior parte dos agressores: pessoas que a vítima conhece e confia.

Além disso, existe uma rejeição da ideia de ser vítima. Ninguém que tenha sofrido um estupro quer ser definida somente por este fato, nem quer a pena da sociedade. O patriarcado valoriza também as emoções socialmente caracterizadas como masculinas: a força, a ausência de sentimentos, a capacidade de superar obstáculos. Após sofrer uma violência, muitas vítimas entram em negação, tentam continuar suas vidas normalmente, como se nada tivesse acontecido – tanto pelo silenciamento externo, quanto por um que começa dentro de si, por essa noção de que sofrer e chorar, ainda que coisas ruins tenham acontecido, são coisa “de mulherzinha”, sinais de fraqueza.

Entretanto, o fato de as mulheres serem as principais vítimas de estupro também joga sobre elas as consequências dessa violência, que envolvem também prejuízos financeiros e atrasos na sua trajetória profissional e de vida. Ainda que esse não seja o principal aspecto com que devemos nos preocupar, não devemos diminuir a importância desse impacto no desenvolvimento das mulheres em busca da equidade de gênero. Não chegaremos lá enquanto formos vistas como presas por agressores majoritariamente do sexo masculino.

Laura Hilgers acompanhou o doloroso processo que sua filha Willow viveu após ter sido estuprada por um colega de faculdade. A jovem levou um ano para criar coragem para falar sobre o assunto, mas nesse período seu comportamento já havia mudado completamente. Ela tinha crises de estresse pós-traumático, ataques de pânico, depressão e se tornou alcoólatra. Sofreu tanto que acabou abandonando a faculdade. Sua mãe não sabe descrever o tamanho da perda que é ver sua filha se tornar uma pequena e frágil parte do que um dia já foi – mas conseguiu fazer um cálculo das perdas financeiras reais e potenciais: foram US$ 100.573.63 ,00 perdidos entre as mensalidades perdidas na universidade, tratamentos psicológicos e até estéticos pós-trauma (o estresse fez com que seus cabelos caíssem) e US$ 145.000,00 de salários que Willow teria recebido desde então caso não tivesse sua vida abruptamente transformada.   Segundo estudo realizado pela Child Fund Alliance, as perdas econômicas globais causadas pela violência contra crianças chegam a 21 trilhões de reais.

Falar sobre um estupro sofrido não é mesmo uma tarefa fácil. Vivemos nossas vidas em uma sociedade machista que é responsável por essa violência e não aceita qualquer questionamento do status quo. Mas é na aceitação da condição de vítima, na exposição da história sem culpar a mulher de forma alguma e na busca por justiça que reside a chave para o fim da impunidade.  Entretanto, não existimos no vácuo: precisamos do apoio e da corroboração de instituições públicas e privadas que nos apoiem nessa jornada com políticas e iniciativas que nos protejam das muitas consequências negativas posteriores à denúncia.

 

NO MERCADO DE TRABALHO

A lei que dispõe sobre o crime de assédio sexual é insuficiente para proteger as vítimas, especialmente as mulheres. Ela diz: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.” e determina pena de 1 a 2 anos. Só isso. Apenas isso.

Ela é simbólica da maneira como o Estado brasileiro costuma lidar com crimes de natureza sexual: focando apenas em punições, mas não em dispositivos que sejam eficazes para resolver a questão. Não existe qualquer proteção para a denunciante, por exemplo, e limita-se a uma relação hierárquica.

Quando a estagiária de jornalismo do iG denunciou o assédio que sofreu ao entrevistar o cantor Biel, inicialmente o portal mostrou ao seu lado, publicando sua história e afirmando que estaria ao seu lado. Dias depois, o áudio da entrevista foi divulgado e, após perder patrocínios, ser banido da Rede Globo e impedido de conduzir a Chama Olímpica, o próprio Biel publicou um vídeo admitindo seu erro e pedindo desculpas.

Mesmo com todas as provas possíveis e imagináveis do que sofreu,  mais um boletim de ocorrência registrado em uma delegacia, a repórter foi demitida menos de um mês depois. A decisão do iG gerou polêmica. Lançamos a hashtag #ViolênciaEmDobro para denunciar o fato de que, quando uma mulher é vítima de assédio, ela sofre violência duas vezes: uma quando é assediada e novamente no momento da denúncia, quando ela é julgada e questionada como se fosse culpada, é ameaçada e, como aconteceu com a repórter do iG, até mesmo demitida.

E não apenas ela: dias após, sua editora e responsável pela matéria que a apoiou também perdeu o emprego sob a desculpa de “corte de gastos”. O posicionamento do iG perante o assédio gerou muita revolta foi o estopim para a criação do movimento #jornalistascontraoassédio. Essa classe de mulheres sofre cotidianamente com o machismo dentro e fora das redações. Segundo pesquisa realizada pelo Coletivo das Mulheres do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJPDF), 77,9% das jornalistas ter sofrido algum tipo de perseguição por parte de colegas ou chefes diretos e 70% já sofreu assédio moral ou sexual.

Assim como mulheres grávidas precisaram ter o seu retorno ao emprego garantido por lei após a licença, as mulheres que denunciam assédio também merecem a a manutenção do seu cargo sem prejuízos durante a investigação do caso. Porque o que aconteceu com a repórter do iG não é raro, bem como outras medidas que também prejudicam a mulher, como a sua retirada de determinados projetos, mudanças de área e outras medidas paliativas que punem a vítima e não o agressor.

Para além disso, é necessária uma nova mentalidade dentro das empresas que talvez só possa ser alcançada com um número maior de mulheres nos cargos executivos. O assédio acontece porque aos agressores é quase garantida a impunidade pelo medo que as vítimas têm de fazer a denúncia e ficar queimadas na empresa ou, ainda pior, o mercado de trabalho.

É sob esse tipo de ameaça que jornalistas, publicitárias, médicas, engenheiras e muitas outras profissionais se resignam e tentam ignorar o incômodo que está dentro delas a cada assédio, piada inconveniente e demais agressões que sofrem apenas por serem mulheres – porque o risco de abrir a boca e falar sobre o que passam é alto demais. Pode custar-lhes sua fonte de renda, sua carreira e tudo pelo o que lutaram a vida inteira.

 

NO ESTADO

 

Quando lançamos o manifesto A Proteção Que Queremos, assinado por nós da Think Olga, pela Childhood Brasil, pela Artemis e pelo Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, o fizemos por saber que esse era o momento ideal para avançar na luta por um atendimento adequado às vítimas de violência sexual pelos órgãos públicos no Brasil.

Concentramos nossas forças no projeto de lei 3792/2015, desenvolvido pela Childhood Brasil em parceria com a Unicef, e apresentado pela Frente Parlamentar de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. O projeto propõe um protocolo de atendimento a ser seguido por todos os atores envolvidos no acolhimento de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência sexual – um direito que estamos nos articulando para que seja estendido também às mulheres.

Pois o que uma pessoa que foi estuprada sofre hoje ao buscar ajuda é muito mais agressivo e traumático que as burocracias e aborrecimentos que uma vítima de assalto teme encontrar – ainda que as duas situações sejam violentas e ambas mereçam atenção e dignidade do estado em sua investigação, o estupro é um crime íntimo, hediondo e sobre o qual dados apontam acontecer, em sua maioria, dentro da casa das vítimas, vindo de pessoas de sua confiança.

Como já dissemos, é muito complexo fazer uma denúncia de estupro. Existe toda a culpa e vergonha que a vítima sente sobre o que aconteceu – fruto da cultura machista em que vivemos. “Será que eu provoquei?”, “Eu não devia ter bebido tanto”, “As pessoas nos viram juntos na festa, quem vai acreditar em mim?” e muitas outras circunstâncias fazem parecer que ela teve alguma responsabilidade sobre fato. E quando o agressor, como na maioria dos casos, é alguém de seu convívio ou até de sua casa, é preciso ter ainda mais força, pois certamente muitos desconfiarão da sua acusação, entre elas pessoas muito queridas, o que fere ainda mais.

Uma parte das poucas que são corajosas o suficiente para buscar seus direitos compõe a faixa de aproximadamente 35% dos casos notificados – a outra é desestimulada pelo sistema: seja pela recusa de policiais em aceitar a denúncia, pelo descaso e machismo com que tratam essas vítimas, pelas perguntas que fazem durante seu depoimento, pela necessidade de repetir sua história e reviver o trauma diversas vezes, algumas diante do seu agressor e sendo questionada de maneira capciosa por seu advogado de defesa, enfim, um sistema frio e ineficiente na captura de agressores e que, em seu machismo, serve de escudo para eles.

Vale lembrar que a maior parte dessas vítimas são, na verdade, meninas. Crianças, como um dia todos nós fomos, que são revitimizadas pelo sistema quando tudo o que querem é segurança e justiça. Imagine buscar ajuda e sentir-se obrigada a se defender das muitas insinuações de que a culpa é sua, de que você está inventando isso ou que, no fundo, estava gostando de sofrer uma das violências mais brutais a que um ser humano pode ser submetido. Por isso é fácil desistir do processo, por isso é difícil seguir adiante e ir até fim na busca pela responsabilização dos agressores. É mais fácil colocar uma pedra no assunto, tentar olhar para o futuro e assim, infeliz e contra sua vontade, absolver seu algoz.

O Projeto de Lei 3792/15, desenvolvido pela ONG Childhood Brasil em parceria com a Unicef desde 2007, basicamente estabelece um protocolo de atendimento às crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual para evitar a revitimização. O que isso quer dizer? Que da delegacia ao atendimento médico, todos os atores envolvidos na escuta e no cuidado a essa vítima terão de obedecer a um sistema que protege e está do lado das vítimas para garantir uma investigação dos fatos que não condene o denunciante, como acontece hoje.

Como resposta ao clamor da sociedade ao caso de estupro coletivo do Rio de Janeiro, esse PL, apresentado pela deputada Maria do Rosário na Comissão Externa sobre o estupro coletivo, foi aprovado ser votado em caráter de urgência (em menos de um mês). Algo que poderia tardar dez, quinze anos na gaveta pode de fato virar lei em breve – uma grande vitória política em tempos sombrios no planalto central.

Afinal, estamos falando de uma mudança que pode, de fato, combater a cultura do estupro no Brasil ao atacar um de seus principais pilares: a impunidade. Com a instituição de um ambiente de confiança e proteção às vítimas desse tipo de crime, os órgãos públicos deixarão de ser um empecilho na busca por justiça para se tornar, finalmente, aliados no fim do estupro no país.

De nada adiantam medidas como a criação do Núcleo de Proteção à Mulher proposto pelo atual governo: a proteção que queremos é a das nossas vozes no momento em que vamos fazer uma denúncia de estupro. Que ela não seja silenciada por crenças pessoais e o machismo de quem nos atende, mas que em todo o país a busca por justiça seja sistematizada de forma a garantir o nosso direito de denunciar com segurança.

Já posso ouvir os machistas reclamões trazendo dados e mais dados sobre falsas denúncias de estupro que destruíram a vida de pobres homens inocentes e pais postando links sobre alienação parental nos comentários. O que eles esquecem é que a comunicação falsa de crimes ou contravenções já é contra a lei e tem pena de 6 meses a 1 ano de detenção caso comprovada. O que não pode acontecer é a presunção de que a vítima está mentindo, que é o que acontece em incontáveis casos.

Um exemplo simples é o fato de que, caso a PL 3792/15 já fosse lei e estivesse sendo aplicada, o delegado Rodrigo Thiers jamais perguntaria à uma vítima adolescente em depoimento sobre o estupro coletivo que sofreu se ela tinha por hábito participar de sexo grupal. O que isso tem a ver? Quando vivemos em uma cultura do estupro, a sociedade não está ao lado das vítimas. Precisamos de um modelo justo que garanta uma investigação que traga a verdade à tona sem ferir ainda mais as vítimas no processo, sem presunção de culpa para nenhum dos lados – e é isso o que esse projeto de lei propõe.

Nenhuma criança ou adolescente será obrigada a falar, mas, em concordância com a Convenção sobre os Direitos da Criança, da qual o Brasil é signatário, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu desenvolvimento moral, intelectual e social, além de direitos específicos à sua condição de vítima ou testemunha – estes últimos a ser formalmente garantidos pela nova lei, já que hoje são diariamente violados em todo o país.

O que precisamos agora, como sociedade civil, é fazer pressão para que essa lei aconteça. Vamos falar sobre ela, usar a hashtag #QueremosEscutaProtegida, tirar fotos com essa mensagem, escrever para nossos amigos nas redes sociais, para jornais e revistas, compartilhar notícias. Temos pouco tempo para fazer muito barulho e garantir que, ainda este ano, possamos avançar verdadeiramente em ao menos um aspecto da luta contra a violência sexual que aflige crianças, adultos, meninas e mulheres todos os dias: a garantia de ter a nossa voz ouvida.


Originalmente publicado em #AgoraÉQueSãoElas

Arte: Monica Garwood

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Muitas mulheres dizem que sonham em ter filhas meninas. Nesse sonho, as filhas são exatamente como elas e gostam de fazer as mesmas coisas. O triste é que no exercício dessa imaginação não há espaço para um menino que seja assim, que a acompanhe no que ela gosta, seja tranquilo ou companheiro. É como se algumas pessoas pensassem que meninos são de outro mundo e não podem se relacionar com nós. Mas, espera aí, eu tenho dois filhos meninos e eles são extremamente companheiros, respeitosos e tudo o que eu sempre sonhei.

Os papéis de gênero influenciam até mesmo nossos delírios de maternidade e aí surgem listas absurdas sobre o que é ser mãe de meninos. Pegamos alguns desses itens tidos como verdade absoluta sobre a maternidade de pequenos homens e vamos acabar com esses mitos.

1. Guerra nas Estrelas é uma religião
Isso acontece com meninos e meninas que são apaixonados por alguma coisa. Uma amiga costuma dizer que pessoas sem vícios em séries, livros, filmes ou músicas são pessoas chatas. Pessoas. E quando eu digo pessoas, estou falando de homens e mulheres de todas as idades. Meninas também amam Guerra nas Estrelas. Sabe por quê? Porque não é uma questão de gênero.

2. Odiar e agradecer ao mesmo tempo o privilégio que seu filho terá por ser um homem adulto
Li uma lista em que a autora diz que essa explicação é difícil, mas eu não acho. Acho apenas que essa mostra como ela é egoísta e preguiçosa. Meus filhos, eu tenho certeza, não terão uma vida fácil. Isso porque eles já são os caras que explicam que as coisas estão erradas. Meu filho mais velho, de 11 anos, luta contra a homofobia. E ele não é gay. Meu filho mais novo, de 4 anos, luta, do jeito dele, contra papéis de gênero ao explicar que não existem brinquedos de meninos e meninas enquanto coloca suas Barbies dentro de carros. Eles serão alvos fáceis e claros porque não são como os outros homens, aqueles do padrão de masculinidade burra e ogra. Eles terão privilégios? É claro! Mas não vão lidar com isso como se os merecessem, vão apontar esses privilégios e deixar claro que eles existem. E isso eles aprendem comigo, todos os dias, porque eu não quero respirar aliviada, eu quero mudar o mundo.

3. Meninos são mais carinhosos
Tenho certeza que se eu tivesse uma menina, seria igual. Porque isso chama amor e respeito e afinidade. Uma autora diz assim: “Ele não está tramando nada. A afeição dos meninos é simples. Você nunca vai encontrar nada mais puro neste mundo, garanto.”. Calma aí, amiga. Você está mesmo dizendo, nas entrelinhas, que mulheres sempre têm interesses? Bom, é por isso que nossa vida é tão difícil e você respira aliviada por ser mãe de homens. Mulheres são tão verdadeiras quanto homens, isso depende de características de cada um, da índole, da criação, não do gênero.

4. Meninos são escatológicos
Eu sou mulher. Sou assim desde que me conheço por gente. E nunca tive problema com puns, cocô ou coisas tidas como nojentas. Porém, meus filhos são ensinados de que não é educado soltar gases na frente dos outros. Em casa, tudo bem, afinal é fisiológico e normal, mas é preciso respeitar as pessoas. Mais uma vez, não é questão de gênero, mas de como você educa seus filhos.

5. Meninos não sabem fazer xixi no lugar certo
Vamos ter uma conversa séria: se você pensa isso é porque está criando animais. Pessoas que não respeitam nada. Nem espaço, nem higiene, nem os outros… Será que não está na hora de repensar os limites? Meu filho mais novo, inclusive, seca o pipi depois de ir ao banheiro. Novamente, nada com o gênero, tudo com a educacão.

6. Meninos gostam de armas
Quem nunca viu meninas brincando de brigar com bonecas? Ou com espadas? O fato é que a sociedade enfia esse gosto goela abaixo dos meninos. Meus filhos gostam de milhares de outras coisas. As amigas deles também. Será que isso não é uma maneira triste de colocar crianças dentro de caixinhas para facilitar a vida de adultos?

7. A energia dos meninos é física
A autora de um texto diz assim: “desde o instante em que eles irrompem das nossas vaginas e entram no mundo, os meninos são donos do espaço que habitam.” Uma mulher está dizendo isso. Imagina se essas crianças vão respeitar as pessoas ao seu redor? E as mulheres? E os espaços individuais? Meninos só são assim se ninguém lhes impõe limites. Limites são bons, são amigos, são saudáveis.

Meninos que não entendem limites são os que se tornam assediadores, que não respeitam o não de uma mulher, que tentam destruir a vida daquelas que os rejeitam. Criar qualquer criança, menino ou menina, sem limites é uma receita certeira para um fim bastante triste.

8. Meninos não ouvem
Eles ouvem. Quando querem. Assim como eu e você. Quantas vezes você simplesmente continuou fazendo o que estava fazendo apenas porque queria assim? Estudos mostram que os meninos têm audição menos sensível que as meninas quando nascem, e a diferença só aumenta com a idade, mas se você realmente acredita nisso, uma dica: vá na frente do seu filho, segure em seus ombros com firmeza, olhe em seus olhos e diga o que precisa. Vai surtir efeito sem que meio grito seja dado. Além disso, gritar é um tipo de agressão e, bem, nenhuma de nós quer ser uma agressora de crianças, né?

9. Eles fazem perguntas que você nem imagina a resposta
Se gostam de quadrinhos, por exemplo, vão querer saber se você prefere esse ou aquele super-herói. Assim como sua filha. E seus amigos. E seus pais. E seus chefes. E seus subordinados. E a pessoa que vende cortinas. Se eles se interessarem por quadrinhos, é claro. Bem, não preciso explicar muito sobre não ter nada com ser mãe de menino, né?

10. Eles não se preocupam com roupas ou visual
Miga, só se forem os seus filhos, porque para os meus… Meus filhos AMAM comprar roupas. É um gasto sem fim, se eu não ficar esperta. E não é só calça, bermuda e camiseta. São coletes, jaquetas, blusas fechadas de moletom, malhas, tênis, chuteiras, bonés, chapéus, toucas… Questão de personalidade.

11. Meninos amam incondicionalmente
E meninas amam como? Por favor, me explique. Uma autora diz “filhas batem o pé e pedem para ficar sozinhas. Filhos simplesmente te amam.” Eu diria essa frase de outra maneira: pessoas com certo tipo de personalidade batem o pé e blábláblá, já pessoas com outro tipo de personalidade apenas amam e aceitam o que você quiser que elas aceitem. Personalidade, né, não gênero.

Aí a gente sempre escuta uns papos de que meninos têm mais energia, são mais sensíveis – pra onde isso vai na idade adulta? É enterrado? -, são mais curiosos, inocentes e têm mais compaixão. Mas isso, pela milésima vez, é algo absurdo de se dizer. Medir o mundo por aquele único ser que você tem em casa. Se fosse uma menina e recebesse exatamente a mesma criação, talvez ela seria igualmente tudo isso…

Dividir gêneros, seus papéis, seus traços de personalidade e gostos não só não faz sentido, como é prejudicial para todas as gerações que virão. Homens podem ser delicados e gostar de balé. Mulheres podem ter uma agressividade notável e escolher luta como esporte. Todo mundo pode tudo porque somos pessoas, temos nossas individualidades e somos formados de experiências.

Essas experiências nos são oferecidas desde bem pequenos. Talvez a criação influencie, talvez não. Não há estudos conclusivos. O que há é observação e respeito por cada pessoa, independente do seu gênero.

Criar filhos é muito mais do que bater palmas para tudo o que eles querem fazer. Criar filhos é guia-los para a construção de um mundo melhor e mais justo. E isso se faz não deixando que eles abracem seus privilégios e aceitem imposições sociais. Amar é mostrar que o mundo é cheio de nuances e que eles precisam manter os olhos abertos, independente do seu gênero. Deixar que nossos filhos acreditem em um conto de fadas é preguiçoso, irresponsável e desastroso. Somos melhores do que isso, irmãs.


Carol Patrocinio é jornalista, escreve o Preliminares no Yahoo!, estuda relações de gênero e sexualidade e é mãe de dois meninos.

Arte: Ana Pez

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Se você ainda não ouviu falar da NFL, se prepare: o esporte cresce no Brasil a passos largos e aumenta sua presença a cada temporada. A ESPN, detentora dos direitos de transmissão por aqui, calcula um aumento de 800% nos últimos três anos, e não espera nada menos que mais crescimento nas próximas temporadas.

O futebol americano ainda é novidade pra maioria dos brasileiros que cresceram entendendo muito do outro futebol. A ideia geral do negócio é atravessar o campo inteiro com uma bola, um pique-bandeira cheio de contato físico e regras nada simples.

A NFL surgiu em meados dos anos 20 e, desde sempre, foi considerada essencialmente masculina. Mulheres sempre foram representadas como aquelas que se incomodavam com o fanatismo de seus maridos ou como cheerleaders. De resto, homens, homens e mais homens. E se você acha que isso é verdade, um dado importante: em 2012 a liga estimava que cerca de 44% dos espectadores dos jogos eram… mulheres. Naquele ano, o público feminino que assistia aos jogos de domingo a noite – conhecidos como Sunday Night Football – era maior do que o de Glee, Grey’s Anatomy e Dancing with the stars.

E a tendência é só crescer. Existem pesquisas que afirmam que a NFL não tem mais pra onde expandir nos Estados Unidos entre os homens. Todo homem que poderia ser fã, já é fã. O próximo passo é conquistar o público feminino, mas isso nem de longe é uma tarefa fácil para um esporte que perpetua o machismo há mais de 90 anos.

Se você esteve na internet no ano passado, mesmo não ligando para futebol americano, deve ter ouvido falar de Ray Rice. O running back – jogador que corre principalmente com a bola – do Ravens foi acusado de ter agredido Janay Palmer, sua noiva na época e atual esposa, dentro de um elevador de um casino.

A princípio, o time deu apoio ao jogador e a NFL o suspendeu por apenas dois jogos. Isso até o TMZ divulgar o vídeo da câmera de segurança. Nele, o casal discute do lado de fora do elevador e depois, já dentro dele, Janay leva um soco e cai desacordada. Momentos depois é arrastada para fora, até recobrar a consciência e ser amparada por outras pessoas. O episódio desencadeou um grande debate que questionava a gravidade da situação, a punição leve e se a liga tinha recebido essas imagens antes delas vazarem ou não.

Mas esse é só o caso mais emblemático de 2014. Outros jogadores foram acusados de agressões e estupros e, a cada dia, a liga é mais cobrada por conta da condução e das medidas disciplinares adotadas para cada uma dessas denúncias.

O negócio é tão sério nesse sentido que um vídeo foi criado por um grupo de advogadas progressistas, chamado Ultraviolet, para cobrar explicações (e uma possível renúncia) de Roger Goodell, o presidente da liga há mais de oito anos, sobre os 55 casos de agressão denunciados durante o exercício dele na função.


Mas eu disse que o negócio era mais complicado. Pois é. Ao mesmo tempo, a NFL decidiu ceder 30 segundos do espaço comercial do Super Bowl, a final do campeonato que, eventualmente, tem sua magnitude comparada à de aberturas de Copa do Mundo e Olimpíadas. Nesse tempo será veiculado um anúncio da campanha nomore.org, que já luta contra violência doméstica e assédio sexual desde 2013. Isso significa que a liga abriu mão de nada mais, nada menos que US$4.5 milhões por esse meio minuto.

As tentativas têm sido realmente visíveis. Para quem acompanha o futebol americano há algum tempo, é possível notar até a presença de um novo tipo de publicidade durante os jogos. Se antes tudo girava em torno de carros, cervejas e assinaturas de lâmina de barbear, já é possível ver hoje anúncios de marcas de diamantes e pílulas para impotência, que vendem a ideia de “fazer sua mulher feliz”.

Mas estamos falando de um esporte que em sua primeira tentativa de atingir o público feminino, o fez do jeito mais clichê e bobo possível: lançou camisetas femininas cor-de-rosa. Existem trinta e dois times na liga, nenhum deles tem rosa em seus uniformes. Uma baita ideia inclusiva, né? Hoje já existem jérseis, como são chamadas as camisas, de tamanhos e modelagens que respeitam minimamente a anatomia feminina. Um empate entre o gosto das fãs e as pretensões do departamento comercial.

O desafio da liga é tirar o machismo das suas raízes mais profundas. Tão profundas que, em janeiro, uma matéria da GQ americana colocou aspas de um dos vice-presidentes da liga, Joe Browne, soltando uma pérola sobre a contratação da presidente da MTV, Sara Levinson, para um cargo na NFL: “A boa notícia é que contratamos alguém. A ruim? É uma mulher.” Ele nega, mas não poderia ser diferente.

Esse texto não quer uma liga feminina, nem que mulheres desistam de assistir futebol americano. É só pra lembrar que a gente entrou no jogo, mas ainda falta um campo inteiro pra chegar no touchdown.

 


Dre Reze é fotógrafa, jornalista formada pela UCB, quase especializada em Semiótica Psicanalítica pela PUC – SP e colaboradora da Olga. Trabalha como produtora de – qualquer tipo de – conteúdo digital em uma agência de publicidade, mas por aqui fala só sobre esportes e um pouquinho de ciência quando der.

Arte: Laura Laine

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Falar com as mulheres ainda é um desafio para muitas marcas. Infelizmente, é mais fácil encontrar anúncios que retratem as mulheres de maneira equivocada do que aqueles que buscam fazê-lo com cuidado e profundidade.

O número de marcas que precisam repensar sua comunicação com o público feminino supera com folga o daquelas que já encontraram uma abordagem mais direta e honesta com suas consumidoras. Em um mercado de ideias fossilizadas sobre como se dirigir a esse target, inovações podem significar riscos que a maioria dos anunciantes não está pronta para encarar.

Entretanto, aqueles que decidem repensar sua comunicação com as mulheres para além dos estereótipos se colocam na vanguarda de uma mudança de um mercado ainda muito atrasado: o revolucionário entendimento de que mulheres também são pessoas.

Sendo assim, enquanto algumas marcas ainda tropeçam com flopadas gigantescas na hora de falar com elas, outras nos inspiram com campanhas super bacanas que fogem da mesmice. Conheça oito delas:

 

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=l1xxx4NYYUQ]

Volkswagen Passat – Meninas na banca de limonada

A Volkswagen do Canadá veiculou esse anúncio para divulgar o novo Passat em agosto de 2013. Sua proposta é simples: duas meninas (e vale ressaltar que uma delas é negra) estão trabalhando em uma banca de limonadas na calçada quando um carro se aproxima. Ao verem que se trata de um veículo caro, elas viram a placa de preço ao contrário, exibindo um valor mais alto, a ser praticado com clientes ricos. A ideia é simples, mas a grande sacada, que garantiu ao anúncio uma posição em nossa lista, é o uso aparentemente displicente de duas meninas como protagonistas de um anúncio de carros. Ao vermos o anúncio, essa escolha parece tão natural quanto deveria ser a presença feminina protagonizando cenas inteligentes nos comerciais – e não apenas adornando-os, como acontece na maioria dos anúncios.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=XP3cyRRAfX0]

Verizon – Inspirando meninas a amar exatas

Esse anúncio da Verizon mostra como muitas vezes os pais acabam desencorajando suas filhas a se interessar por ciências ao afastá-las de sujeira ou bagunça e as incentivar a estar sempre bonitas. Ele apresenta Samantha, que é uma menina que, em diversos momentos da infância, é reprimida por seus pais ao brincar na terra ou ao desarrumar o quarto enquanto trabalha em um projeto de ciências. “Cuidado pra não sujar o vestido”, “Deixa seu irmão fazer isso” e “Quem é a minha lindinha?” são algumas das frases que levam ao desfecho em que ela, um pouco mais velha, aparentemente ignora um cartaz sobre uma feira de ciências para passar gloss nos lábios. A mensagem é clara: é preciso incentivar e valorizar a inteligência das meninas, não só a beleza. O vídeo serve como um alerta para os pais e é encerrado com um dado preocupante: nos EUA, 66% das meninas até a 4ª série afirmam gostar de matemática, mas somente 18% dos estudantes de todas as engenharias são mulheres.

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GoldieBlox – Para futuras engenheiras

E é para incentivar meninas a gostar mais de engenharia que nasceu a marca GoldieBlox. Criada pela Debbie Sterling, uma engenheira formada em Stanford que não se conformava com o número pequeno de mulheres no seu curso e que cresceu insatisfeita com as poucas opções de brinquedos criativamente instigantes  para meninas. Com um anúncio veiculado no Super Bowl desse ano, a GoldieBlox oferece kits para meninas criarem as máquinas e resolverem os problemas propostos pela personagem Goldie e seus amigos. O vídeo apresenta três meninas entediadas ao assistir uma propaganda de bonecas na tevê que resolvem criar elas mesmas um enorme mecanismo para desligar o aparelho.

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[youtube https://www.youtube.com/watch?v=FRf35wCmzWw]

Kotex – Fazendo graça em cima do clichê

A marca de absorventes Kotex lançou esse anúncio em 2010. Nele, a protagonista descreve de maneira irônica todas as situações lúdicas em que as mulheres são representadas em anúncios de absorventes, tais como caminhadas na praia, usar roupas brancas e sair para dançar – como se ficar menstruada fosse uma grande curtição. Divertido, o anúncio não subestima o senso de humor feminino e ainda gera cumplicidade entre as consumidoras e a marca.

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Aerie – Xô, Photoshop!

A marca de lingerie Aerie lançou no ano passado a campanha #AerieREAL, na qual nenhuma das fotos do catálogo sofreu qualquer retoque de imagem. Ao escolher modelos cujos corpos fogem do padrão imposto pela indústria da moda e eliminar o uso de Photoshop, a Aerie aposta em uma comunicação mais simples e honesta que, por si só, já é super bacana, mas que ainda gerou uma repercussão incrível com a viralização da iniciativa. Além disso, é que qualquer usuária da marca pode enviar fotos utilizando peças da Aerie para o site da loja, criando um catálogo incrível que torna toda mulher uma modelo da marca.

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Cover Girl – Garotas podem, sim!

As marcas de cosmético gringas fazem esforço para mostrar como a maquiagem deve ser utilizada como uma maneira de expressar a personalidade feminina, e não para atrair o sexo oposto como se essa fosse a única preocupação da mulher. Em 2012, Revlon fez uma campanha com a Halle Berry e a Emma Thompson falando sobre câncer de mama. No ano seguinte, a campanha #ShineStrong, da Pantene, falou sobre como as mulheres são rotuladas de maneira mais crítica que os homens ao adotar os mesmos comportamentos que eles. A Dove, pioneira em retratar “mulheres reais”, continua seus esforços em ajudar mulheres a encontrar sua real beleza e lançou um vídeo de três minutos sobre a importância das selfies para a autoestima feminina.

O vídeo em destaque, porém, é da Cover Girl, que convidou famosas que arrasam em áreas em que as mulheres costumam ser convencidas de que não têm acesso. Com a hashtag #GirlsCan, elas partilham suas experiências como comediantes, esportistas e roqueiras de sucesso em um mundo no qual é comum ouvir que mulheres não são engraçadas, nem fortes, etc. Elas aconselham as espectadoras a ter coragem e encarar cada “não” como uma chance de provar que elas podem, sim, fazer o que quiserem! Outro ponto positivo da Cover Girl é a diversidade na escolha das garotas-propaganda. Entre elas, estão Queen Latifah, Ellen Degeneres, Janelle Monae, Pink, Becky G e Talia Joy Castellano (uma menina de 13 anos que lutou contra o câncer).

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Always – Fazendo coisas como uma garota

A marca de absorventes Always resolveu mostrar como a expressão “como uma garota” é utilizada de maneira pejorativa. Ela convidou voluntários que deveriam simular a execução de tarefas simples como correr, mas com a ordem de fazê-las “como uma garota faria”. Participantes de ambos os sexos adotavam trejeitos desengonçados e fúteis, mas em seguida são questionados sobre por que agiram assim. A reflexão gerada os leva a repensar como essa atitude ofende as mulheres e que fazer as coisas como uma garota não é um sinal de incapacidade.

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Duloren – Pelo direito de amar a si mesma

A Duloren é conhecida por suas campanhas de conteúdo picante. Neste ano, resolveu mostrar que é possível uma mulher ser feliz sozinha em pleno dia dos namorados. Com peças com o título “Eu me amo” e imagens sugestivas, faziam referência à masturbação feminina. Conceito ousado que gerou polêmica e uma notificação do CONAR, mas cuja repercussão, em geral, foi positiva ao incentivar as mulheres a conhecer o próprio corpo.

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HelloFlo – Menstruação com humor

Dá para fazer propaganda de absorvente sem líquido azul, roupa branca colada, mulher feliz pulando ondinhas e outros clichês que tratam da menstruação como algo misterioso que não pode ser nomeado? Dá. A HelloFlo, com um approach leve e bem-humorado, mostra a história da menina que finge menstruar pela primeira vez. Sua mãe, sabendo da mentira, faz uma festona para celebrar a menarca e tirar sarro da filha.


Arte: Leah Goren

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Se eu te dissesse que amanhã você vai receber na sua casa, como visita, uma mulher que virá de longe, sem mala, sem absolutamente nada, quais são as primeiras coisas que você compraria para ela no supermercado? Se algum de vocês incluiu “absorventes íntimos” na sua lista, parabéns, você é mais inteligente do que muitos dos gestores das penitenciárias e demais carceragens femininas do Brasil.

Parece tão óbvia a associação mulher = menstruação que é difícil acreditar que o Estado esqueça de algo tão básico. Mas isso ocorre. Nos quase quatro anos em que pesquiso o sistema carcerário feminino, já ouvi histórias de mulheres que usavam papel higiênico, jornal e até miolo de pão para contornar o problema.

Depois de muita reflexão, cheguei à conclusão de que só há uma explicação para que isso ocorra: as presas acumulam duas características que as tornam socialmente invisíveis.

São elas:

1) cometeram crimes.
2) são mulheres.

Sobre a característica de número um, sinto que não preciso argumentar muito. Se você não acha que “bandido bom é bandido morto” aposto que tem ao menos um amigo que defenda essa máxima. Não tenho ambições de esgotar aqui essa polêmica, que talvez tenha nascido quando o ser humano decidiu se organizar em sociedade. Só deixo uma reflexão: será que esse argumento faz sentido em um país cuja Constituição garante a inerente dignidade da pessoa humana? Além disso, há um doce risco em perseguir esse princípio. Quando entramos em contato com a humanidade de nossos infratores, podemos encontrar, no caminho, a nossa própria humanidade.

Acerca do segundo item, há quem acredite que não faz diferença. Afinal, uma prisão que recebe bem um homem não poderia receber uma mulher com dignidade? A resposta é: de maneira alguma.

Por quê? Cabe lembrar aqui de outras especificidades das mulheres: elas têm câncer de mama, doenças sexualmente transmissíveis que exigem prevenção contínua e específica, engravidam, dão à luz e amamentam. Peraí… amamentam?! Exatamente, meu caro adepto do “bandido bom é bandido morto”, os filhos das presas não cometeram nenhum crime e, assim mesmo, pagam a pena com elas.

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Até pouco tempo atrás, a lei brasileira nem sequer obrigava as penitenciárias a permitir o aleitamento materno. Esses bebês nasciam com suas mães algemadas a macas, eram retirados como um apêndice que estuporou e, sem que as mães pudessem sequer conferir se eles tinham todos os dedos das mãos, eram levados para parentes e instituições. Em 2010, uma lei deu a essas crianças o direito de mamar e usufruir do convívio da mãe por seis meses – mas isso é raramente respeitado.

Não precisa ter muita imaginação (nem sensibilidade) para vislumbrar que tipo de consequências isso pode ter. Uma das mulheres que entrevistei, a quem chamo de Gardênia, deu à luz exatamente como descrevi acima. Só dias após o parto ela pôde conhecer o rosto da filha. Nem o nome da bebê ela escolheu. Virou Ketelyn porque algum parente entendeu que assim combinaria com o nome da outra irmã, Karen. Hoje, essa garota tem 18 anos e uma maneira bem peculiar de adormecer: ela bate a cabeça na parede até mergulhar no sono. Olha que impressionante: as detentas não são apenas “presos que menstruam”. Elas são mães.

Aliás, a maternidade é uma das razões pelas quais elas violam a lei. Explico: a maioria dos crimes cometidos por mulheres, hoje, serviria como complemento de renda em uma família monoparental. São delitos como tráfico de drogas, roubo, furto e outros crimes contra o patrimônio. Há uma tese vigente entre ativistas da área de que, depois que as mulheres assumiram a liderança da casa, elas se sentiram pressionadas a recorrer ao crime como uma maneira de melhorar o nível de vida de seus filhos. Afinal, mulheres ganham menos que os homens no Brasil, principalmente aquelas sem escolaridade.Uma das detentas que conheci, a Cristal, personalizava este caso. Ela havia começado a roubar porque os filhos passavam fome. Com o tempo, convenceu-se de que valia mais a pena sair para dois assaltos no mês e sustentar seus meninos do que gastar 12 horas por dia embrulhando compras no supermercado e vê-los chorar de fome ao fim do mês.

Outro surpreendente atrativo para o crime é o amor. Levantamentos da Pastoral Carcerária mostram que a mulher raramente é a protagonista dos delitos, adota mais o papel de cúmplice. Muitas delas relatam ter se envolvido com a criminalidade por influência de maridos, filhos e namorados. A maioria (que surpresa!) é abandonada pelo parceiro assim que é presa. Por último, quero lembrar das presas que têm não dois, mas três “problemas”. Além de terem o azar de nascerem mulheres e terem optado por desobedecer a lei, há aquelas que incorrem no “defeito” de serem gays. A essas não é dado o direito à visita íntima e, mais, se são pegas em trocas físicas de afeto com suas parceiras, recebem castigos.

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‘Orange is The New Black’ brasileira

O sistema carcerário feminino tem ganhado mais atenção desde o surgimento da série Orange is The New Black, do Netflix. Muitas pessoas têm me perguntado se o que a série mostra tem alguma conexão com a realidade brasileira. Ao que eu, normalmente, respondo: “Se fosse sobre o nosso sistema, seria bem, bem mais obscuro.”

As presas brasileiras têm mais acesso a drogas dentro do sistema carcerário. Elas não dormem naquelas caminhas ajeitadas de concreto com colchões por cima, mas no chão, em muitos casos – e, às vezes, acompanhadas de bebês recém-nascidos. Elas não podem fazer ligações para seus familiares com a facilidade das presas norte-americanas e nem têm tratamento médico da mesma qualidade. Em vez de banheiros sem porta, algumas frequentam banheiros sem descarga.

No lugar de paredes de cores pastel, paredes cobertas de musgo e mofo. Um ambiente escuro em que o preconceito da sociedade brasileira é visível e gritante: há muito mais negras e mulatas do que brancas presas no Brasil. Talvez sua realidade esteja mais próxima das séries de terror, na verdade, algo como uma Brazilian Horror Story. Eu não passei nenhum tempo detida como a autora da série, mas sou filha de uma advogada que ainda acredita em uma ideia ousada: a maneira como tratamos os nossos infratores diz muito mais sobre nós do que sobre eles.


Nana Queiroz se formou em jornalismo pela ECA/USP em 2010. É especialista em Relações Internacionais, com ênfase em direitos humanos, pela UnB. Estudou R.I. também em Nova York e na Finlândia. Trabalhou nas revistas Época, Galileu e Veja e no Jornal Correio Braziliense. Hoje, é editora de cultura do Jornal Metro de Brasília e trabalha no livro Presos que Menstruam, que será lançado pela editora Record no próximo ano.

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