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Ao encerrar sua fase de estrela teen da Disney, a cantora Miley Cyrus se desprendeu completamente da imagem pura e infantil para cantar sobre sexo e outros temas que ela considerava adultos. “Coming of age”: é assim que a mídia internacional chama a fase de amadurecimento de um artista que começou sua carreira ainda criança, como Miley. Em questão de processos, Miley fez o esperado dessa fase, que vem acompanhada de uma ação de marketing pesada, com novo álbum e novo visual. Mas a mídia e a opinião pública não aceitaram a versão adulta da estrela de Hannah Montana e, em meio a opiniões machistas sobre a artista, uma questão de preconceito e apagamento racial surgia, demandando atenção.

Muito frequentemente, esta nova era para os artistas brancos vem cheia de elementos apropriados da cultura negra que, em vez de traduzirem e homenagearem de fato a cultura em questão, vestem artistas brancos de estereótipos já atribuídos socialmente a pessoas negras, como a hipersexualização de corpos e a idealização da marginalidade. Logo, na leitura de Miley Cyrus, isso significou twerks e uso de drogas, tudo com o hip-hop como trilha sonora; já para o cantor Justin Bieber, significou aderir a dreads no cabelo, a um estilo mais próximo do rap americano de se vestir e até de fazer música, além de, é claro, firmar parcerias com rappers negros. Esta fase foi diretamente atrelada a atos irresponsáveis do, agora adulto, astro, incluindo uma prisão por dirigir bêbado.

Esta mudança de persona não é algo novo e, muitas vezes, pode acontecer de maneira sutil, como o amadurecimento de Justin Timberlake, que depois de sair de uma boy band formada por garotos jovens e brancos, com músicas dançantes sobre amor, trabalhou com o rapper e produtor negro Timbaland e passou a utilizar batidas de funk americano, jazz e até blues para falar sobre sexo. Quem percebeu essa tendência foi a cantora independente estadunidense Richey Collazo, que mostrou no Twitter exemplos também de com Britney Spears, Christina Aguilera e outros artistas fizeram o mesmo em suas fases de amadurecimento.

Em tempos de um governo que não apoia minorias nos Estados Unidos, Miley volta a renovar sua imagem pessoal e musical, dizendo, em matéria de capa da Billboard, que a música negra a impulsionou para o que ela agora julga ser uma imagem vulgar e que sua “redenção” será voltar a suas raízes, cantando pop e country. Tudo isso usando maquiagem e roupas leves e claras, quase uma personificação daquela ideia de mulher bela, recatada e do lar.

Este não é um questionamento sobre a liberdade sexual de Miley, mas sim de como ela e outros artistas brancos escolhem expressá-la, pois, em nome de sua própria liberdade, acabam colocando ainda mais amarras para pessoas negras, especialmente mulheres.

Mesmo recebendo slut shaming por seus rebolados e danças originárias da cultura negra, Miley foi mais presente e aceita no show business do que quando mulheres negras praticam a mesma arte. E elas quase sempre acabam sendo hipersexualizadas por isso. Um exemplo disso foi sua participação no VMA como uma cantora adulta. Depois da performance no VMA de 2013, ela foi convidada a apresentar a mesma premiação em 2015, enquanto a rapper Nicki Minaj usava as redes sociais para criticar a falta de indicações de artistas negros.

Hoje, Miley renega esta cultura, culpando-a por afastá-la do que agora acredita ser digno e respeitável. Assim, a cantora endossa a posição de marginalização e depreciação de mulheres negras, reafirmando que ser branca é mais culto, puro e recatado, ou seja, mais digno de respeito do público, já que é isso que ela busca atualmente.

Sendo a música e a cultura pop parte da formação cultural e de opinião do público de massa, é preciso se atentar para o racismo presente na indústria musical. A conversa sobre apropriação cultural não é uma proibição para pessoas brancas consumirem ou reproduzirem a cultura negra, mas sim um pedido de respeito a partir do entendimento de que o racismo existe e, por causa disso, existem batalhas para que esta cultura possa ser consumida sem criminalização. Mas, principalmente, para que artistas brancos reconheçam seus privilégios e não esvaziem a música negra em prol de seus interesses pessoais e comerciais.

Trazendo a situação para o contexto da música brasileira, a cantora Mallu Magalhães demonstrou, recentemente, o que é não reconhecer privilégios como artista branca performando música negra. O clipe da canção “Você Não Presta” foi considerado racista por movimentos e ativistas. Embora não tenha sido usada como um marco para a entrada da vida adulta dessa cantora (que ficou famosa aos 15 anos), a música é a primeira da divulgação do novo álbum de Mallu após a gravidez. Porém, quando a cantora dedicou, em rede nacional, uma música “pra quem é preconceituoso e fala que branco não pode tocar samba”, claramente se referindo às críticas que recebeu, demonstrou tudo menos amadurecimento e respeito à discussão sobre racismo na qual se viu inserida.

Para que Mallu entenda sobre a questão racial por trás da música que canta, é preciso sair do modo de defensiva, de proteger seu direito de cantá-la como se estivesse sendo tirado. É preciso ouvir. Como fez a sambista Beth Carvalho. Em entrevista para a Folha de São Paulo, ela fala sobre aprender e não repetir erros. “‘O Teu Cabelo Não Nega’ é racista. Martinho me chamou a atenção para isso. Eu já havia gravado quando entendi. Hoje, não teria gravado. Se Lamartine Babo errou, porque errar de novo?”

Para não errar de novo ou nem mesmo chegar a cometer o erro, é preciso atentar para a importância da empatia e interseccionalidade com as mulheres que saem prejudicadas por tais estereótipos. Como bem disse Audre Lorde: “eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”.

Para melhor entendimento e identificação deste processo de amadurecimento com apropriação cultural traduzimos os tweets de Richey Collazo:

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Texto original: 
Twitter: @richey_collazo 

Tradução: 
Think Olga
Ilustração e edição: 
Pri Ferrari
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Quando o cantor Biel voltou à mídia, depois de um ano afastado por conta da repercussão do assédio que cometeu à jornalista Giulia Bressani, tinha um discurso na ponta da língua para se justificar: o assediador era, na verdade, um personagem criado para ganhar dinheiro. Na ocasião, a Think Olga identificou a existência do “personagem assediador”: quando um homem famoso não quer ser responsabilizado pelo que fez, diz que estava agindo de forma caricata, desconectada de sua real personalidade. Contudo, o inverso também acontece: às vezes, a “fama” ou conduta do homem serve de justificativa para todos os seus atos, gerando assim uma proteção, concebida pela sociedade e pela mídia, quando casos de machismo e violência de gênero vêm à tona. Tais acusações deveriam ser “esperadas” quando atreladas a alguns elementos estereotípicos de masculinidade – e são suavizadas pela opinião pública.

Recentemente, a entrevista de Washington Olivetto à BBC Brasil, em que o publicitário expôs opiniões machistas e objetificantes sobre as mulheres, foi defendida – principalmente entre seus colegas de profissão – que usaram a experiência de Olivetto para colocá-lo como um gênio inquestionável, buscando carta branca para suas declarações. Muitos chegaram a insinuar que as mulheres é que não haviam compreendido o que ele quis dizer, mas a verdade é que frases como “Porsche é melhor do que mulher que, diga-se de passagem, é excelente”, já deixam o posicionamento deste homem bem claro; a questão é que ele poderá manter este tipo de discurso, uma vez que a opinião pública seguirá encontrando maneiras de protegê-lo.

A “genialidade” de Woody Allen também o protege de acusações ainda mais graves: abuso sexual de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando ela tinha 7 anos. Mesmo sendo passivo de punição legal, ele segue sendo um diretor renomado em Hollywood. Seus filmes são lançados anualmente, com grande sucesso de bilheteria. Quando é lembrado por conta desse possível ato criminoso, seu nome geralmente vem acompanhado de um debate puramente teórico sobre separar a arte do artista, como se seus atos não tivessem implicações reais para pessoas reais. A denúncia de um abuso de menor não manchou sua imagem porque, há décadas, Allen sustenta em seus filmes a figura do homem confuso, tímido e divertido que seus espectadores associam a ele. Ao representar este personagem nas telas, o diretor também o performa na vida real. A imagem do abusador não condiz com a ideia que os espectadores tem de Allen, entre o genial e o excêntrico – e ele se aproveita disso.

A premissa do “tudo pela arte” é o que mantém Allen livre para continuar trabalhando enquanto deveria estar sendo investigado, assim como permite que Johnny Depp continue sendo adorado e conquistando papéis milionários em Hollywood. Depois das acusações de violência doméstica por parte da ex-esposa Amber Heard tornaram-se públicas, o ator continuou sendo defendido pela opinião geral sem mover um dedo para tanto. A reputação de Depp de “causador de problemas”, sustentada desde os anos 90, também acompanha a “aura excêntrica” colocada em seus personagens de fantasia, que criam empatia no cinema. Por isso, não precisou se esconder; seria perdoado e amado de qualquer forma.

Entre Depp e Amber, houve um acordo jurídico – e como já apontamos antes, não há nada de errado com o fato de um homem reconstruir sua vida após cumprir a punição que lhe coube, mas existe algo de preocupante quando tantas oportunidades são tão facilmente concedidas a homens que machucaram e sacrificaram mulheres com quem se envolveram. Ainda mais problemático é perceber que essas oportunidades mostram que a opinião do público sobre os acusados não foi abalada.

No caso do fotógrafo americano Terry Richardson, muitos famosos o defendem pela “honra” de serem clicados por ele. Assim, segue trabalhando em meio a acusações de assédio e abuso sexual de atrizes e modelos. Em 2014, uma vítima de Richardson contou ao mundo como ele forçou seu pênis dentro de sua boca e ele alegou que as fotos eram consentidas e que “estava bem consigo mesmo e isso é o mais importante”. A carreira dele permanece ilesa; ainda é um dos fotógrafos mais célebres do mundo, sendo considerado, no máximo, “polêmico” e “controverso”.

Mas não é só a genialidade ou a excentricidade que poupam homens de suas acusações. Um exemplo disso é o que aconteceu durante a participação do ator Alexandre Frota no programa Agora É Tarde, em 2014. Em rede nacional, Frota deu detalhes do estupro que cometeu a uma mulher negra, mãe de santo, a ponto de fazê-la desmaiar. Apesar da confissão evidente de violência, tanto o apresentador do programa na época, Rafinha Bastos, quanto a plateia aplaudiram fervorosamente, às gargalhadas. A narrativa de Frota endossa sua imagem perante a audiência: a figura do “pegador” tão descontrolado que se acha no direito de atacar uma mulher que lhe prestava um serviço. Uma atitude como essa é esperada de homens como ele, portanto, minimizada. Embora tenha recebido mensagens de repúdio ao seu ato, Frota participa da vida pública como se nada tivesse acontecido – e chegou a intimidar uma mulher que ousou dar nome à “pegação” pelo que era de fato: um estupro.

Outro homem que se beneficia do estereótipo de “pegador” é Charlie Sheen. Entre as denúncias feitas por mulheres que se relacionaram com ele, estão agressões físicas e psicológicas, ameaças de morte com facas e ordens de restrição; a atriz Brittany Ashland, que namorou o ator, chegou a levar sete pontos nos lábios após um ataque de fúria de Sheen. Mesmo assim, por uma década, ele foi um dos atores mais bem pagos da televisão ao estrelar a série Two And A Half Men, onde também interpretava a figura do conquistador. Sheen foi afastado, inicialmente, por questões de saúde – estava em reabilitação contra as drogas -, não por sua postura hedionda em relação a mulheres. Relacionamentos tortuosos e violentos são esperados de homens como ele, e não afetaram em nada sua carreira por décadas.

Enquanto a sociedade permitir que certos estereótipos – do ator hollywoodiano acima do bem e do mal até o pegador (e abusador) de mulheres – estejam protegidos pela opinião pública, não avançaremos nas questões de gênero. Primeiro, porque mulheres são muito mais penalizadas pelos estereótipos que são atribuídos a elas. E segundo, porque a partir do momento em que delitos e agressões sequer arranham a imagem desses homens, estamos apenas endossando comportamentos violentos em todas as esferas sociais.  Precisamos que todos sejam investigados e punidos por seus atos, independentemente de sua fama e sucesso.

[Esta é a última parte de nossa série de conteúdos especiais analisando a entrevista de Washington Olivetto e como seus discursos demonstram diversos problemas sociais e de gênero. Clique para ler as primeira parte e a segunda]

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[Este post faz parte de uma série especial de conteúdos sobre declarações do publicitário Washington Olivetto e como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero. Leia a primeira parte aqui]

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Quando Washington Olivetto, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, comparou mulheres a Porsches e disse que “empoderamento feminino é um clichê constrangedor”, muitos vieram em sua defesa alegando que ele não sabia do que estava falando por ser um homem idoso. Aos 65 anos, Olivetto mostrou de fato ter completo desconhecimento sobre debate de gênero – sua opinião, no mínimo, encoraja a objetificação da mulher – mas isso não tem nada a ver com idade. Na verdade, parece muito mais provável que sinta-se confortável em pensar e se expressar assim por ter uma rede tão fiel de protetores que endossam seus atos. Isso nos faz pensar sobre um fenômeno que parece permear a vida do homem: a justificativa etária.

Os homens são perdoados por seu comportamento desde a infância. Quando jovens, são considerados “moleques” demais para prestar contas sobre o que fazem. Em maio de 2016, durante uma entrevista para o Ego sobre o término de um relacionamento, o cantor Biel disse: “Tenho 20 anos, sou uma criança. […] estou na fase de formar a minha personalidade ainda”. Uma semana depois, viria à tona o maior escândalo envolvendo sua carreira: o assédio à jornalista Giulia Pereira. Entrou em cena, então, o pai de Biel, naturalmente justificando seu comportamento violento… Com a juventude: “qualquer moleque faz uma palhaçada dessas”, disse ele ao Extra.

Aos vinte anos, homens não são mais crianças nem moleques. São plenamente responsáveis por seus atos, que podem ser passíveis de punição legal. É o caso de Justin Bieber. Apenas em 2013, o cantor canadense avançou aos socos em um motorista de sua limousine, pichou muros em São Paulo, agrediu um paparazzi… Tudo sem punição. Um ano depois, seria preso por dirigir alcoolizado. Autoridades na China e na Argentina proibiram a entrada de Bieber nesses países por suas atitudes irresponsáveis, mas para o resto do mundo, o astro está em fase de “amadurecimento” – sempre blindado pela justificativa de que homens amadurecem mais tarde e, eventualmente, seguem em frente.

Mas esse não parece ser o caso. Quando o homem envelhece e chega à terceira idade, seu comportamento é ainda mais endossado pela sociedade. Após o episódio de assédio com a figurinista Su Tonani, o ator José Mayer se justificou: “tristemente, sou, sim, fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”. A desculpa soou artificial, uma vez que José Mayer tentou, em um primeiro momento, culpar a vítima por “confundir” o ator com seu personagem na novela – outra desculpa que parece recorrente, como já apontamos. Além disso, culpar “sua geração” por seu comportamento individual é tirar de si toda a responsabilidade pelo crime.

Ainda que José Mayer esteja mais próximo do estereótipo do galã de novela do que do homem envelhecido, a sociedade abraça de forma questionável a maturidade masculina. Dependendo de seu status social, profissão e fama, o homem idoso pode tanto ser considerado “gênio” ou “ultrapassado”; tudo depende da perspectiva de quem fala. No caso de Washington Olivetto, o público se divide entre ambos os estereótipos. Algo parecido – e em maior escala – acontece com o apresentador Sílvio Santos. A história de vida do dono do SBT tem tons quase míticos: seu talento natural como comunicador seria responsável pela ascensão social que o removeu de uma situação de pobreza e vulnerabilidade até se tornar um dos homens mais ricos e influentes do país. Contudo, mesmo constrangendo funcionárias em público e sendo gordofóbico e racista com suas convidadas, segue sendo considerado um gênio da comunicação.

Talvez seja necessário ressignificar o que é genialidade, afinal. Ser genial é enxergar as necessidades de seu próprio tempo de forma original. Ficar congelado naquilo que foi, décadas atrás, considerado aceitável, é mais parecido com nostalgia do que genialidade. E impede a sociedade de se desprender de discursos que não servem mais. E é neste tópico que seguiremos nossa discussão no texto de amanhã.

Enquanto narrativas violentas e objetificantes insistirem em se perpetuar, seja qual for a idade daquele que os propaga, é preciso continuar lutando. E se você gosta do nosso conteúdo e quer manter a Olga firme e forte, considere doar para a gente.

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É inegável que as declarações machistas do publicitário Washington Olivetto sobre publicidade voltada para o empoderamento feminino, em entrevista publicada na BBC Brasil na última semana, são absurdas. Sendo assim, elas merecem ser questionadas, debatidas e confrontadas. Ou será que não?

Enquanto um grupo tecia críticas ao publicitário nas redes sociais, outro argumentava que o que foi dito precisava ser ignorado, pois Olivetto seria “muito ultrapassado”, “muito velho” ou “muito homem” para opinar sobre o assunto nos dias de hoje; logo, não é merecedor da atenção ou da “audiência” dos leitores. Desse modo, ambos os lados acabaram criando uma alvoroço em torno do que foi dito, mas pouca reflexão que saltasse de suas bolhas individuais na internet. Pensando nisso, a Think Olga preparou uma série especial de reportagens sobre como esse caso expõe diferentes problemas sociais e de gênero, sempre, de certo modo, colocando mais empecilhos para denunciarmos práticas e falas machistas, e até mesmo violências contra a mulher. O conteúdo será publicado ao longo dessa semana.

Entendemos que, quando se escolhe “não dar audiência” a discursos como este, seguindo-se de uma lista de justificativas para tanto, dá-se mais um aval para uma voz negativa e machista na comunicação, que, de qualquer modo, será repercutida – a diferença é que, sem as vozes de feministas opondo-se ao que foi dito. Sendo assim, questionamos: como se opor a declarações e atitudes nocivas pode ser um problema? Como apontar que um indivíduo está perpetuando machismo e violência é uma forma de “dar ibope” e relevância ao que ele diz?

Muitas vezes, figuras políticas com narrativas violentas parecem tão irreais que também acabam sendo vistas como sendo insignificantes por causa do que dizem, merecendo assim ser ignorados. Mas, com esta premissa, Donald Trump, assumidamente assediador e abusador de mulheres, venceu a corrida para a presidência dos Estados Unidos no ano passado, assim como o deputado Jair Bolsonaro e seus comentários machistas, racistas e LGBTfóbicos também caminham para cargos mais altos no governo.

As falas de Bolsonaro são gravíssimas e reproduzi-las sem críticas, sem apontamentos, também pode ser perigoso. Mais ainda seria seguir gerando espaços para que este homem siga seu discurso de ódio disfarçado de opinião, como entendeu a organização do clube Hebraica, que o proibiu de palestrar após declarações homofóbicas

E, muitas vezes, até mesmo espaços considerados seguros para um grupo minorizado podem se mostrar hostis, principalmente quando o assunto é gênero. Nos três primeiros bem sucedidos anos do reality show sobre cultura de drag queens, RuPaul’s Drag Race, da Logo, pouco se questionou uma piada transfóbica que o apresentador RuPaul Charles – um homem gay e negro, com uma vivência muito diferente de Olivetto ou Bolsonaro – usava em todos os episódios, quando dizia que os participantes haviam recebido uma mensagem nomeada de “She-Mail”, trocadilho com “She Male”, uma maneira pejorativa de se dizer “mulher trans” ou “travesti” na comunidade LGBT americana. Até que a ex-participante Carmen Carreira, após assumir sua transição para mulher trans, decidiu expor o problema e confrontar o apresentador e a produção do programa sobre o termo, que, consequentemente, foi retirado. Para isso, Carmem precisou sair como uma vilã para fãs fiéis do programa, que já tinham o termo tão naturalizado que o viam “somente uma piada” que, supostamente, poderia ser facilmente ignorada.

Sabemos que a escolha de “não dar audiência”, para as mulheres, vem como um modo de defender-se de declarações não representativas e, principalmente, ofensivas, que podem vir de trolls da vida real ou na internet. Mas é importante considerar que uma declaração como esta, vinda de um homem muito respeitado e conhecido em seu ambiente de trabalho, é muito diferente do discurso de ódio polvilhado pela internet por trás de uma garantia de anonimidade. Ambos merecem ser denunciados e combatidos, mas por diferentes meios. O caso de Olivetto, na verdade, deve ser um combustível para educar e empoderar mulheres para que não aceitem ataques individualmente.

Não estamos falando de textos mal-intencionados que motivam aquilo que chamamos, em 2013, de clique de indignação. O foco desta conversa é debater sobre a reação da sociedade a discursos vindos de homens públicos, famosos e que assinam embaixo de suas posições controversas.

Não discordamos que exista uma posição de privilégio para homens como Olivetto, inclusive, criticamos a mídia que dá voz somente a esta persona, como quando apontamos a atitude da Folha de São Paulo, que adicionou em uma matéria que, inicialmente tinha somente a versão do cantor Biel, passando a conter aspas da jornalista Giulia Bressani, que foi assediada por ele e as consequências que ela e a editora que a defendeu sofreram, como a demissão do Portal IG. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que a luta por um mundo igualitário é contra estes privilégios é árdua.

Expor opiniões como estas, para depois desconstruí-las, faz parte disso. Não expor os erros na fala de Olivetto, para nós, vai contra a nossa premissa de empoderar mulheres por meio da informação e da educação, principalmente pois partiria de um lugar de privilégio onde se supõe que todas as marcas, todos os publicitários ou mesmo todas as mulheres, conseguem identificar sozinhos tudo de problemático em seus discursos. Ainda não podemos nos dar o luxo de nos omitir, caso contrário ninguém falará por nós.

Por isso, o fato de que a nossa organização irmã, Think Eva, que existe justamente para mudar a representação feminina na publicidade, tenha escolhido responder aos comentários de Olivetto não nos surpreende, somente nos orgulha. Mas a afirmação da importância desse posicionamento está nas reações positivas da publicação.

A vivência de Olivetto, sua idade, seus ideais, seus privilégios, seu trabalho…Tudo isso blinda os homens e torna mais difícil questioná-los. Mas nós existimos para criar um futuro diferente, onde as próximas gerações enxerguem uns aos outros sem preconceitos.  E por isso, não deixaremos pra lá.

E, para que possamos seguir o nosso trabalho, contamos com seu apoio! Compartilhe nosso conteúdo ou doe para a nossa ONG na Benfeitoria.

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Há alguns meses, enfrentei uma depressão ao lidar com traumas e questões profundas da minha história. Quem já passou por isso sabe o quanto custa para uma pessoa deprimida ser obrigada a se relacionar. Mas ao que parece, para as mulheres, nos trancarmos no quarto, nos escondermos sob o travesseiro, não querer ser gentil, social e cordata o tempo todo não é uma opção bem aceita. Se somos o esteio emocional da família, como podemos falhar?

Minha família, assim como muitas outras, tem sempre uma mulher responsável pelo bem estar de todo mundo. É nela que recaem as responsabilidades de cuidar de idosos e crianças, de reunir a família em eventos especiais, de socorrer um irmão ou uma sobrinha, de ouvir queixas e desabafos de quem quer que esteja precisando. Ela cuida de todos, menos de si mesma. E isso consome tempo, energia e espaço mental e afetivo.

Eu, durante minha fase depressiva, não tinha forças para estar disponível, não conseguia ouvir os problemas alheios. Simplesmente não conseguia. Mas como isso é possível? Como eu não estaria ali para os que eu amo? Uma culpa enorme, uma sensação de débito emocional tomou conta de mim. E essa culpa – assim como o pressuposto que sempre devo estar disponível – tem uma grande relação com o machismo que está profundamente enraizado em nossa sociedade.

Em 1969, o psicólogo John Bowlby criou um conceito inovador para a comunidade psicanalítica: a “teoria do apego“, que descreve a relação entre mãe e filho, a interdependência de ambos e as expectativas e consequências dessa relação. Apesar de trazer algumas ideias polêmicas para a época, o termo vingou – e aos poucos, estimulou a conversa sobre a ideia de disponibilidade emocional em todas as relações afetivas, não apenas na maternidade.

Mas afinal, o que é estar emocionalmente disponível para o outro? É aí que mora o problema: ao que tudo indica, para a parcela masculina do mundo, significa apenas estar presente (ou não) em um relacionamento. Para a mulher, a disponibilidade emocional é obrigatória em todos os campos de sua vida. Desde a infância, somos estimuladas a sempre acolher, cuidar e ouvir. Somos a parte da população que “sabe abrir o coração”, que “tem talento para falar de sentimentos”. Em um estudo profundo sobre disponibilidade emocional, publicado em 2005 por Rebecca J. Erickson, todas essas tarefas estão atreladas não ao sexo, mas ao conceito de gênero feminino que se estende séculos a fio. Não somos “melhores” em emoções: somos educadas para acreditar que sim. A pior parte nisso tudo? Essas construções culturais e sociais são exploradas por outros.

Na trilha do estudo de Bowlby, a pesquisadora Arlie Russel Hochschild publicou, em 1983, o livro The Managed Heart, que mostra como esses sentimentos “femininos” são comercializados e prometidos por empresas. Um exemplo de Hochschild são as companhias aéreas, que estampam o sorriso das aeromoças em todas as suas campanhas. A simpatia e a solicitude da comissária de bordo são tão garantidas quanto o lanchinho durante o vôo.

Mas estamos falando sobre emoções humanas, que são complexas e, geralmente, exigem muito de nós. Segundo pesquisas, trabalhos que lidam com muita dedicação emocional – Hochschild identificou mais de 40 tipos – são mais exaustivos a longo prazo, mas isso raramente é notado pelos empregadores. No estudo Gênero, Emoções e Produção Cultural: Uma Análise da Autoajuda Brasileira, a mestre em Antropologia Social Talita Castro menciona Hochschild para explicar porque isso recai principalmente sobre as mulheres: “quanto maior o status social da pessoa, mais suas emoções são levadas em conta; em contraposição, quanto mais subordinada, mais ela é institucionalmente chamada a atuar sobre seus estados emocionais”.

Vale dizer que a expectativa da mulher profissional como boa ouvinte e sempre disponível emocionalmente se repete em todas as camadas da sociedade: espera-se que nós sejamos professoras mais gentis, líderes mais maleáveis – caso contrário, somos chamadas de “endurecidas” e acusadas de perder nossa feminilidade para alcançar o topo. Na política, a expectativa é que candidatas sejam mais bem humoradas e afáveis (além, é claro, de inteligentes e capazes) do que os homens. A lista de tarefas invisíveis da mulher parece interminável.  

Nos relacionamentos conjugais, essa exigência se repete: quem nunca passou a noite escutando o marido ou namorado reclamar do trabalho? Ou tentou contornar e conciliar brigas dele com a família? Administrou seus rompantes de raiva? Esta desigualdade também pode ocorrer em casais homoafetivos, é verdade, mas a disparidade de expectativas impostas a homens e mulheres nesse aspecto não pode ser ignorada. Segundo Hochschild, “[…] as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom.” Ou seja, além de acolher, também nos cabe fazer a relação funcionar até os mínimos detalhes. Em um longo artigo do The Guardian sobre trabalho emocional e disponibilidade, a autora Rose Hackman menciona uma lista de afazeres exclusivos da mulher em um relacionamento heterossexual, que vai do planejamento do melhor momento para ter filhos até ser a referência de coisas perdidas pela casa.

Este desequilíbrio profundo também tem a ver como os homens são educados. São encorajados, desde cedo, a esconder seus sentimentos e muitas vezes represam angústia, raiva, dor e sofrimento para proteger sua “masculinidade”. Estudos já relacionaram esta incapacidade de lidar com emoções com violência, comportamentos obsessivos e compulsões, como por exemplo a objetificação feminina por meio da pornografia. Mas na vida familiar, a disponibilidade emocional do homem é mais do que um pressuposto para um relacionamento saudável: o estudo “Mais do que o provedor”, realizado na Universidade de Michigan, estabeleceu a relação entre a disponibilidade emocional paterna e o desenvolvimento de habilidades como a fala e a coordenação motora de bebês. Ou seja, essa tarefa é grande e importante demais para ser exclusiva da mãe, embora recaia ainda sobre nós.

A manipulação de emoções de forma desequilibrada – seja para se encaixar em um estereótipo ou perpetuá-lo – é prejudicial a todos, mas a uma parcela mais do que outra. Se queremos realmente entender o quanto essas cobranças fazem mal, é essencial fazer um recorte racial aqui: as mulheres negras são as maiores vítimas desse sistema.

Em nossa sociedade racista, onde a população negra é invisibilizada, explorada e solitária, é muito conveniente perpetuar o mito da “mulher negra forte”, como diz Meri Danquah: “Supõe-se que as mulheres negras sejam fortes – amparadoras, nutridoras, que curam outras pessoas […]. Supõe-se que a dureza emocional que é construída na estrutura de nossas vidas esteja ligada ao fato de eu ser ao mesmo tempo negra e mulher”.

No subtexto sinistro dessas expressões, está a convicção de que a mulher negra deve ter ainda mais disponibilidade emocional, uma vez que, oprimida de todas as formas possíveis, não deve fraquejar ou abalar-se, sem direito à tristeza ou ao recolhimento. Tamara Beauboeuf-Lafontant faz uma avaliação precisa dos malefícios da perpetuação desse estereótipo: “o conceito de força associado à mulher negra esconde aquilo que acredito que seja sua verdadeira função: defender e manter uma ordem social estratificada ao ocultar as experiências de sofrimento, os atos desesperados e a raiva da mulher negra”. Negar-se a ser a “mulher negra forte”, permitir-se sentir e fraquejar, é um ato de resistência.

No texto “Nós negros não morremos só de tiros: tenho depressão” de Stephanie Ribeiro para a Afronta, ela resiste. “Ser forte não é bom para mim enquanto mulher negra. Pois ser forte é negar minha humanidade. Essa cobrança da mulher negra que não sente e lida bem com tudo é resquício da ideia que somos mais objeto do que gente. Existem dores na minha alma que me fazem querer chorar e ficar só. E sobre isso, é bem mais complexo falar, mas preciso me permitir apenas ‘Sentir’”.  

Doar-se – e ainda mais de forma obrigatória, diária, como forma de opressão e não de expressão afetiva – é exaustivo. Não é à toa que estamos esgotadas, como essa tirinha da quadrinista francesa Emma exemplifica muito bem. A exigência de trabalho emocional tão grande – seja no emprego, na vida familiar ou até mesmo nas amizades – nos sufoca, quando deveríamos ser dedicadas, de forma espontânea, apenas àqueles que queremos bem. A disponibilidade emocional deve ser tudo, menos tóxica.

A acadêmica portuguesa Sofia Pracana, da Universidade de Lisboa, tem uma definição bonita do termo: “estar emocionalmente disponível é a capacidade de me ligar a alguém de forma autêntica, intuitiva e dedicada. É abraçar, entendendo e aceitando a pessoa como ela é ou conforme está, e deixando-a ir e vir nos seus movimentos de vida”. A recíproca precisa ser verdadeira: a disponibilidade emocional só deve funcionar como uma via de mão dupla.

O feminismo assume, há décadas, a tarefa de quebrar estereótipos sobre a mulher. Há quem diga que a próxima grande revolução feminista terá como objetivo nos desvincular, de uma vez por todas, da obrigatoriedade de estar sempre disponível. Não entenda mal: somos fazedoras de laços e isso, para muitas, é prazeroso. Mas não podemos cair na armadilha de aceitar que isso é nossa obrigação – e apenas nossa. Todos perdem com isso.

Precisamos, urgentemente, ter um tempo de recolhimento. Precisamos ter o direito de, às vezes, simplesmente não estar ali.

Maíra Liguori é diretora da ONG Think Olga e criadora do projeto Olga Esporte Clube. 

Arte: Chloe Cushman para o The Guardian

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Quando falamos sobre a presença feminina no esporte como um ato revolucionário, seja aqui na Think Olga ou na Olga Esporte Clube, estamos jogando luz nos inúmeros obstáculos que a mulher encara até ocupar seu lugar na quadra. Muitas vezes, são desafios que digerimos de forma mais solitária: vergonha do corpo, insegurança com as próprias habilidades, falta de hábito. Mas e quando a prática esportiva é impedida pela violência externalizada, em grupo?

Na última semana, jogadoras de basquete amador foram hostilizadas, assediadas e ameaçadas pelo simples fato de quererem dividir o espaço público: uma quadra na Praça Rotary, no centro de São Paulo. Essas agressões não são novas: há meses, o grupo procura por um local de onde não fossem expulsas por outros times masculinos ou que tenha infraestrutura adequada. O conflito na praça, contudo, ganhou maiores proporções, uma vez que os jogadores pareciam ter entrado em um acordo com as basqueteiras – para ignorarem na semana seguinte, reagindo agressivamente à chegada delas. Um grupo de homens adultos impedindo que mulheres usassem a quadra por apenas um dia por semana não é uma agressão aleatória: é mais uma das numerosas provas que a presença das mulheres é sistematicamente negada nos esportes. Como apontou Joana Mendes, uma das integrantes do time, “a gente tem várias demandas que não são atendidas. Coisas muito básicas, como tênis feminino para jogar basquete. As marcas falam que não tem procura ”.

Em resposta à ofensa, o time das basqueteiras organizou um encontrão entre grupos de esportes femininos para que ocupassem o campo na noite da última segunda-feira. O evento #OccupyRotary reuniu dezenas de mulheres que só queriam jogar. O encontro chegou aos ouvidos, inclusive, de Magic Paula, uma das maiores jogadoras de basquete do Brasil. Somente com a persistência de Paula e daquele grande grupo de mulheres, os agressores, mesmo com uma desvantagem considerável em número, foram embora, não sem hostilidade e resistência.

No fim da noite, a sensação era de conquista e vitória – o que engajou ainda mais os times em quadra, rendendo disputas incríveis. Mas como garantir a segurança das esportistas em dias comuns, sem um grupo grande e pronto para fazer barulho? Em nossa pesquisa na Olga Esporte Clube, descobrimos de 57% das entrevistadas não fazem exercícios em lugares públicos por medo da violência (http://bit.ly/pesquisa-OEC).

Se, para as mulheres, praticar esporte em espaços públicos é um risco, esta é uma questão  governamental. Daniela Castro, Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, esteve no #OccupyRotary e entende que a organização entre os grupos para o uso do espaço é um exercício de cidadania. Isso não quer dizer que seja fácil, mas existem algumas ferramentas disponíveis. Espaços abertos de lazer geralmente possuem canais de contato, desde a Secretaria até coordenadores individuais de parques e clubes. Daniela orienta que se busque essas fontes no minuto que a agressão ocorrer, mas também reforça a importância de chegar a um acordo de forma pacífica. E, é claro, também incentiva o “chamamento coletivo”: a ideia de que é possível, sim, pressionar e fincar pé com grupos de mulheres.

Não vamos voltar atrás. Afinal, como disse Roberta Magalhães, do Rachão Basquete Feminino, na noite de #OccupyRotary: “Se a gente quisesse ocupar a quadra o dia inteiro, a gente também poderia. A gente tá acostumada a receber o mínimo do mínimo do mínimo… Chega. Não concordamos mais com isso”.

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Aqui na Olga, apesar de entendermos o quanto a construção da masculinidade está intimamente relacionada à desigualdade de gênero que nos afeta, a gente não costuma falar sobre homens. Mas, nesses 30 Dias por Rafael Braga, e diante de tantas injustiças que têm nos impactado recentemente, é difícil não refletir sobre a quem serve a justiça no Brasil e no mundo – e como raça, gênero e classe fazem parte dessa conversa. Ao relacionar a anulação do julgamento do estuprador em série Bill Cosby e a absolvição de Jeronimo Yanes, policial que covardemente assassinou o homem negro Philando Castile diante de sua namorada e da filha dela, o site Fusion trouxe uma afirmação que ressoou forte em nossos corações: “O sistema não está quebrado. Está funcionando exatamente como planejado”.

Existe uma dissonância fatal entre ideia que temos de justiça e como ela funciona na prática. Talvez o nome gere a confusão. Afinal, por justiça, de grosso modo, entendemos a distribuição adequada de responsabilidades, compensações e penalidades entre os indivíduos envolvidos em determinada situação. Na prática, esse equilíbrio é corrompido a favor de grupos historicamente favorecidos – a saber, homens brancos – ainda que homens negros por vezes ainda recebam algum privilégio de gênero quando este fator está envolvido, como nos casos de Bill Cosby e do diretor de cinema Nate Parker, acusado de estupro e também inocentado.

Apesar de tudo, nada disso é surpresa quando pensamos que essa injustiça encontra espelho nas indignações seletivas, que refletem a profundidade das diferenças estabelecidas entre grupos dominantes e minorizados. É o caso da comoção em torno da morte do estudante Otto Warmbier, preso na Coréia do Norte por roubar uma placa em um hotel do país e condenado a 15 anos de trabalhos forçados. Ele voltou aos EUA em coma e faleceu dias depois. O governo da Coréia afirma que ele foi acometido por botulismo, mas a família rejeita a versão. De toda forma, o caso revoltou americanos e o presidente Trump chegou a insinuar intenções de guerra contra o país, que também possui armas nucleares.

Ainda que não se esvazie a barbaridade da morte de Otto, certamente o fato de ele ser branco e de família influente tem um papel na comoção em torno do caso. É como se apenas com a morte de um jovem branco a opinião pública tenha encontrado motivos para se revoltar contra o regime totalitário que vitimiza o povo norte-coreano há décadas, quando o próprio fato de visitar o país é uma forma de apoiar o governo – afinal, a viagem ajuda a financiar e legitimar a barbárie. Em 2015, o filme A Entrevista, estrelado por Seth Rogen e James Franco, repleto de piadas racistas, fazia troça do país, apesar do clamor e críticas de ativistas asiáticos sobre a gravidade de transformar uma sangrenta ditadura em motivo de risada. Enquanto só padeciam asiáticos, tudo bem fazer piadas e tentar roubar “souvenirs” do regime de Kim Jong-un. Mas, quando esse mesmo regime mata um menino branco, só então eles foram longe demais?

Um silêncio ensurdecedor e uma perigosa relativização se manifestam também quando pensamos em nomes como Claudia Silva Ferreira, Sandra Bland, Rafael Braga, Philando Castile, Kalief Browder, Jandira Magdalena, Charleena Lyles e de tantas outras vítimas de estados que, para quem difere em cor de pele, gênero, orientação sexual ou classe, são tão ou mais cruéis que a Coréia do Norte, mas que se escondem sob um véu democrático que aplaca críticas e dissidências.

O que vivemos hoje, em termos de disseminação de informação, não tem precedentes na história e, apesar de muitas conquistas, estamos apenas começando a descobrir o alcance do nosso poder. Dizer os nomes dessas pessoas, preservar suas memórias, suas verdades e suas histórias deve ser o nosso compromisso. Se olharmos para os dados, para os números, para o sistema, a desesperança toma conta. Mas, se olharmos uns para e pelos outros, nos enchemos da certeza de que as nossas vozes têm poder e, juntas, não podem ser ignoradas.

Foto: New York Magazine, para reportagem especial com 35 mulheres denunciando Bill Cosby.

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Por mais absurdo que possa parecer, tem se tornado cada vez mais comum ter homens ocupando espaço de mulheres em premiações segmentadas. A nomeação de Bono Vox, vocalista da banda U2, no topo da lista de Mulheres do Ano 2016 da revista Glamour americana é um grande exemplo disso.

Mas homens já não ganham muitos prêmios? A revista disse não concordar: “Essa mentalidade começou a ficar defasada. Existem tantos homens fazendo coisas maravilhosas pelas mulheres hoje em dia”.

Para nós, ao invés de justificar, esta declaração só gerou mais questionamentos:

– Se hoje homens estão colaborando para a igualdade de gêneros, será que não devemos agradecer às mulheres que iniciaram e mantém essa luta?
– Será que, nessa posição de privilégio, Bono Vox e os “outros homens” não estão fazendo mais do que sua obrigação, ao colaborar com (e não protagonizar) as lutas das mulheres?
– Chegamos no mesmo patamar de oportunidades que os homens, a ponto de não mais precisarmos de premiações segmentadas?

Sabemos as respostas para todas essas perguntas e é por isso que, em 2013, iniciamos a lista de Mulheres Inspiradoras da Think Olga, onde não buscamos premiar, tampouco classificar as nomeadas, mas sim usar nosso espaço para exaltar trabalhos protagonizados e desenvolvidos por mulheres, como forma de combater a falta de reconhecimento.

E, acompanhando tantas mulheres inspiradoras em suas jornadas, podemos dizer que, ainda hoje, cada nova conquista merece méritos. Entre estes feitos, está o de tornar o feminismo e a luta por direitos iguais tão populares a ponto de engajar também os homens na causa.

Se os homens têm encontrado maneiras de ocupar listas segmentadas, pode-se imaginar a discrepância em prêmios mistos. Em uma das maiores honrarias da humanidade, o Prêmio Nobel, 97% dos vencedores na categoria de ciências são homens, uma área onde a participação feminina vem crescendo, mas ainda não o suficiente para mudar este quadro de representatividade.

Já na categoria Literatura, somente 14 mulheres foram agraciadas com o prêmio  em 116 anos. No ano passado, a academia escolheu Bob Dylan, o primeiro músico nomeado para Literatura em 103 anos, e foi questionada quanto às voltas dadas para premiar homens quando há tantas mulheres na mesma área buscando visibilidade. No fim das contas, uma mulher, a cantora e compositora Patti Smith, foi quem recebeu a honraria em nome de Bob Dylan, que não estava presente na cerimônia de entrega.  

Um refresco de diversidade aparece  na categoria Paz, a que mais cresce em nomeações femininas. E, em 2017, temos a chance de ter uma representante brasileira entre os indicados e, melhor ainda, pautar a importância da luta feminista, com Maria da Penha e seu trabalho em prol dos direitos e proteção das mulheres vítimas de violência: http://bit.ly/2qk4QMR.

Contudo, quando se traz um recorte social para a questão do reconhecimento, nota-se que ainda estamos longe da equiparação. Enquanto, para Bono Vox, ser o primeiro homem do ano da Revista Glamour foi um ato tido como histórico, Viola Davis de fato fez história ao tornar-se a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática na história da premiação em 2015, demonstrando que mesmo em uma categoria segmentada, as oportunidades não são as mesmas, como ela disse em seu discurso: “A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”  

Quando o assunto é música, as oportunidades que são dadas na maior premiação do mundo, o Grammy, não passam de categorização e limitação de artistas negras a estereótipos. No ano passado, Beyoncé levou “Melhor Álbum Urbano” pelo trabalho musical e audiovisual sobre identidade e ancestralidade negra que é “Lemonade”. Já a maior categoria da noite, “Álbum do Ano”, ficou para a britânica Adele que disse, em seu discurso, ter sido injusto não competir com Beyoncé, dedicando o prêmio a ela.

E até em listas menos prestigiadas, como a “O que é sexy” da marca de lingerie Victoria’s Secret, não pensa em mulheres negras. Em 2017, a marca falhou na oportunidade de redefinir padrões de beleza, nomeando somente Vanessa Hudgens, Priyanka Chopra e Jamie Chung como não-brancas.

Por isso, iniciativas como o Troféu Raça Negra ou ainda a lista de #25WebNegras do site Blogueiras Negras, que destaca mulheres negras que usam a internet para terem suas vozes ouvidas em diversas áreas, ainda são tão necessárias.  

A Victoria’s Secret ainda demonstrou como não falar de “diversidade de gênero” ao nomear, nesta lista só de mulheres, um homem cisgênero, James Corden, como apresentador de TV mais sexy. Não há mulheres ou homens transgêneros em nenhuma outra categoria. E, em resposta às críticas, a marca se manteve confiante ao dizer: “Isto é o que significa sexy para nós”.

Já na atualização que a MTV americana deu para a antiga premiação MTV Movie Awards, transformando-a em “MTV Movie & TV Awards” contou com mais inovação do que somente a inclusão de entretenimento de televisão e streaming para os nomeados. Nesta nova versão, as categorias de atuação não são separadas por gênero (https://glo.bo/2pQdAqM) e de primeira, duas garotas levaram o prêmio em formato de balde de pipoca para casa: Emma Watson, pela performance em A Bela e a Fera, desbancou os favoritos James McAvoy e Hugh Jackman na categoria “Atuação em Filmes”. E Millie Bobby Brown, a Eleven da série Stranger Things, de apenas 13 anos, venceu na categoria “Atuação em uma série de televisão”, atores consagrados em Game of Thrones e The Walking Dead.

Já vivemos em uma sociedade fomentada pelo trabalho de mulheres tanto quanto os trabalhos  de homens. Contudo, nem todos podem enxergar isso com clareza, já que o que as revistas e premiações destacam nem sempre representam de fato a pluralidade de nossa sociedade. Por isso, para que possamos um dia ver mais mulheres nomeadas, precisamos passar por listas segmentadas que lhes dêem destaque e não que colaborem para o apagamento de seus nomes.

Nos sentimos honradas por estarmos entre as finalistas do Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria Projeto Jornalístico, pois sabemos que estamos ao lado de mulheres inspiradoras de nossa área e em um ambiente que as reconhece.

A verdade é que a sociedade e os mercados devem muito às mulheres, por isso não vemos porque deixar de celebrar suas conquistas mesmo em um, ainda utópico, mundo igualitário. Afinal, esse mundo igualitário só será possível por conta delas.

Arte: Eleanor Shakespeare.

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Um estudo divulgado em março deste ano trouxe surpresa na comunidade científica: segundo a Elsevier, o Brasil, ao lado de Portugal, é o país líder em igualdade de gênero no ambiente das pesquisas. Sob o recorte do relatório, mulheres publicam artigos praticamente tanto quanto homens e representam 49% dos profissionais de pesquisa no Brasil. Esta é uma entre algumas notícias animadoras sobre as mulheres cientistas brasileiras; também sabemos que Celina Turchi, uma das responsáveis pela comprovação da relação entre zika e microcefalia, foi indicada pela Nature como uma das 10 cientistas mais importantes de 2016 (entre homens e mulheres); também podemos falar sobre Nadia Ayad, engenheira negra que venceu um desafio científico mundial por conta de suas pesquisas sobre a utilização do grafeno, um material à base de carbono.

Isso quer dizer que a comunidade científica é um lugar seguro e perfeito para as mulheres? Que todos os desafios foram conquistados e todas nós seremos recebidas de braços abertos em todos os laboratórios e salas de aulas que desejarmos entrar? Infelizmente, não. E ainda estamos bastante longe dessa realidade.

Por mais que os números sejam animadores, eles representam apenas um pequeno recorte do que é ser uma mulher na ciência. O estudo também revela grande disparidade da presença de mulheres em certas áreas do conhecimento – muitas delas exclusivamente “masculinas”, como as engenharias – e não contempla a cultura de publicação de artigos científicos no Brasil – nas ciências exatas, em especial, é exigido que pesquisadores e pesquisadoras publiquem muito para permanecerem relevantes no mercado. Além disso, a pesquisa não contempla em profundidade as questões de gênero e as microagressões diárias que mulheres na ciência, em todo lugar do mundo, enfrentam diariamente.

A verdade é que é duro ser mulher no espaço científico. Vera Rubin, uma das astrônomas mais importantes do século passado, responsável pela descoberta da existência da matéria escura, foi zombada pelos seus colegas e desestimulada a estudar física. Ada Lovelace, que pode tranqüilamente ser considerada a primeira programadora de computadores do mundo, volta e meia tem suas descobertas questionadas e atribuídas a seu colega de trabalho, Charles Babbage. Marie Curie, talvez a cientista mais famosa do mundo, ganhadora de dois prêmios Nobel em áreas diferentes, era proibida de entrar na universidade na Polônia, seu país de origem, simplesmente por ser mulher. No Brasil, o direito da mulher a entrar na universidade tem 120 anos. Isso sem falar que a história da ciência está polvilhada de casos de mulheres que, para serem aceitas no ambiente científico, assinavam seus trabalhos com nomes masculinos – e outros tantos casos de homens que simplesmente roubaram descobertas de grandes inventoras e pesquisadoras.

Há quem possa argumentar que os tempos mudaram. Nem tanto. O site Speak Your Story encoraja mulheres das áreas de exatas a denunciarem casos de assédio, abuso e até violência sexual no ambiente de trabalho. Universidades renomadas no mundo todo possuem centros de pesquisa que visam aumentar a representatividade nas áreas científicas, que ainda surgem como ambientes hostis para muitas mulheres. Infelizmente, o mesmo ambiente onde o trabalho de pesquisadoras é encorajado pode ser palco para dor e muito silêncio, já que muitas cientistas preferem ocultar seus casos de agressão para evitar conflitos com orientadores e outros alunos e colocar toda a carreira a perder. Vale dizer que as universidades brasileiras fazem de tudo para ocultar esses casos, inclusive encorajar esse medo do futuro acadêmico.

Não podemos acreditar que o Brasil seja perfeitamente igualitário no campo da ciência quando questões  de gênero tão urgentes são silenciadas no ambiente acadêmico.

Para auxiliar no debate desse tema tão importante – e por vezes esquecido, silenciado e fora do escopo de debate do mundo acadêmico -, estaremos mediando uma mesa com três cientistas brasileiras no lançamento do livro “As Cientistas”, de Rachel Ignotofsky, que traz a história de 50 cientistas mulheres que mudaram o mundo com sua genialidade. O evento acontece no dia 06 de maio, próximo sábado, a partir das 16h, no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo. Para mais informações, visite a página do evento!

Arte: Katherine Johnson por Rachel Ignotofsky para o livro As Cientistas.

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4529986797_c3b423948d_oA Lei Maria da Penha – considerada pelas Nações Unidas a terceira melhor lei do mundo no combate à violência doméstica – completou uma década de vigência no último domingo e temos muito o que comemorar. Segundo Leila Linhares Barsted, advogada, fundadora e diretora da ONG CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação) e uma das mulheres envolvidas na criação da Lei Maria da Penha, o avanço no combate à violência contra a mulher nos últimos dez anos foi bastante significativo. “Nesses 10 anos foram criados mais delegacias da mulher e juizados de violência doméstica, a legislação incluiu medidas de proteção, passamos a ter acesso à defensoria pública, além de uma mudança muito grande na própria cultura jurídica brasileira”, disse Leila à Think Olga.

Foram 10 anos de muita luta de organizações feministas e de muitos avanços no enfrentamento à violência contra a mulher, mas foi apenas o começo. Diante do congresso mais conservador desde 1964, a luta ainda é para aplicar a Lei Maria da Penha integralmente e impedir retrocessos na forma como ela é implementada. “É preciso ter muita cautela em relação aos diversos projetos de lei que pretendem alterar a Lei Maria da Penha porque apesar dos avanços ainda estamos lutando pela sua integral implementação. Nossas perspectivas de avanço no legislativo não são positivas e tem prevalecido a censura à expressão ‘gênero’ em diversos projetos de lei, sem falar nos possiveis retrocessos em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, como aqueles projetos que pretendem restringir ou ate mesmo extinguir as hipoteses de aborto legal no Brasil”, afirma Aline Yamamoto, ex-secretária adjunta de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República.

Para a diretora do CEPIA, é preciso investir muito mais em prevenção, mantendo, é claro, os esforços na repressão ao mesmo tempo. “A prevenção passa pelo sistema de ensino, pelos meios de comunicação, a parte cultural. Não é uma lei que vai mudar uma cultura milenar que coloca a mulher em posição de subordinação e que leva a essa situação de não reconhecer a mulher como cidadão ou como humana”, afirma. Por isso, é necessário olhar para as leis que são debatidas no Congresso hoje e as políticas públicas que estão sendo implementadas. Segundo Leila, há dois tipos de leis sobre violência contra a mulher tramitando no congresso hoje: “propostas que nada mais fazem do que repetir a Lei Maria da Penha e projetos que tentam desfigurar a lei”. Conscientes de que o aniversário de uma década de existência da Lei Maria da Penha merece comemoração e também um olhar apurado e crítico para garantir que o Brasil continue no caminho certo, elencamos os principais projetos de lei, políticas públicas e leis voltados ao combate à violência contra a mulher que merecem a atenção das mulheres, para o bem e para o mal. Confira abaixo:

Projetos e programas que beneficiam as mulheres:

– Lei do feminicídio

A aprovação da Lei 8305/14 que tipifica o feminicídio como homicídio qualificado e passa a ser considerado crime hediondo certamente foi um dos maiores avanços legislativos no país após a Lei Maria da Penha. Considerando que o Brasil é o sétimo país do mundo com maior taxa de homicídio de mulheres, uma punição mais severa ao assassinato de mulheres por razão de seu gênero se faz necessária.

– Ligue 180

O ‪#‎Ligue180‬ é um serviço confidencial e gratuito que funciona como uma central de amparo a mulheres vítimas de violência com orientações e encaminhamentos para serviços de proteção. Em 2015, a central atingiu 749 mil atendimentos, um aumento de 54,4% em relação ao ano anterior. A maior parte dos atendimentos serve para prestação de informações sobre os direitos das mulheres e a legislação vigente, mas também serve para encaminhamentos para outros serviços de teleatendimento, como o 190 da Polícia Militar.

– Casa da Mulher Brasileira

Política pública da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) que prevê a construção de 27 casas de apoio (uma em casa estado do país, além do Distrito Federal) que integram no mesmo espaço os mais diversos serviços especializados: acolhimento e triagem; apoio psicossocial; delegacia; Juizado; Ministério Público, Defensoria Pública; promoção de autonomia econômica; cuidado das crianças – brinquedoteca; alojamento de passagem e central de transportes.

– Mulher, Viver sem Violência

Programa nacional funciona como o próximo passo do pacto federativo e intersetorial de enfrentamento à violência liderado pela SPM que prevê metas, planos e repasse de verba a estados e municípios. O Mulher, Viver Sem Violência consiste na distribuição de unidades móveis de atendimento que levam políticas públicas de gênero ao interior do Brasil.

– Fundo para o Fim da Violência contra as Mulheres no Brasil

Atualmente em tramitação, o projeto de lei 7371/2014 propõe a criação de um Fundo Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher. Os recursos devem vir tanto do orçamento da União quanto de doações de entidades e empresas interessadas em contribuir e seriam empregados em ações como a criação de mais Delegacias da Mulher e de varas especiais na Justiça, além de na contratação de profissionais para o atendimento às vítimas. Seria uma forma de implementar dispositivos da Lei Maria da Penha que ainda não foram aplicados por falta de recursos públicos. No entanto, é preciso ficar atenta à denúncia que a líder do PCdoB na Câmara, deputada Jandira Feghali (RJ), fez sobre ameaças de desvirtuamento do Fundo. Segundo ela, o deputado Diego Garcia (PHS-PR), o mesmo que relatou o Estatuto da Família, está tentando acrescentar uma emenda para que a verba do fundo não seja utilizada em “equipamentos, serviços, ou atividades relacionados, direta ou indiretamente, ao aborto provocado, incluindo os casos especificados no artigo 128 do Decreto Lei 2.848/1940”. Dessa forma, nem mesmo os casos de aborto permitidos por lei (após violência sexual, por exemplo) poderiam ser atendidos pelo Fundo.

– Projeto de lei para aumentar a pena por estupro coletivo

Atualmente o Código Penal brasileiro estabelece pena de 6 a 10 anos de prisão para o crime de estupro, mas, em caso de estupro coletivo, a pena é aumentada em um quarto, o que equivale a pena máxima de 12 anos e meio de prisão. O Projeto de Lei do Senado 618/2015, da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), estende o aumento para um terço da pena, ampliando para um máximo de mais de 13 anos de prisão. A relatora, senadora Simone Tebet (PMDB-MS), apresentou emendas para tornar o texto mais rigoroso, uma fixando o aumento da pena em até dois terços ara estupro coletivo e outra determinando uma punição maior pela divulgação de imagens do delito. Depois do caso de estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro este ano, o texto foi rapidamente aprovado pelo Senado e remetido à Câmara dos Deputados.

Projetos de lei e políticas públicas que demandam cautela:

– Plano nacional de combate à violência contra a mulher

No final de maio deste ano, o ministro da Justiça Alexandre de Moraes anunciou um plano federal de combate a crimes contra a mulher focado em Segurança Pública. Sem detalhar quando as ações serão colocadas em prática nem seu custo, Moraes adiantou que os recursos devem sair do orçamento destinado à Força Nacional de Segurança. A ideia é repassar recursos aos Estados para que eles arquem com extensão de cargas horárias de policiais e, assim, eles atuem exclusivamente na repressão à violência contra a mulher durante a jornada extra. Para Aline Yamamoto, ex-secretária adjunta de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da SPM, é um enorme equívoco ignorar o trabalho que havia sido desenvolvido durante anos pela SPM e criar uma nova frente voltada para Segurança Pública. “Isso nao é aplicar a Lei Maria da Penha porque ela não é uma lei penal. Você não vai reduzir a violência com Segurança Pública porque a violência contra a mulher é um fenômeno cultural que tem a ver com uma desigualdade muito mais profunda e ampla de gêneros e com recorte racial, tratar como problema de polícia demonstra um enorme desconhecimento sobre o que estamos falando”, afirma.

– Retrocessos em projetos de lei que envolvam a palavra gênero

Considerando que a prevenção da violência contra a mulher demanda investimento na educação sobre o que é machismo, racismo, homofobia e outros crimes de ódio e preconceito envolvidos em ataques contra a integridade das mulheres, torna-se necessário abordar esses assuntos em sala de aula para que os estudantes tenham conhecimento sobre o assunto. Porém, a tentativa de incluir a igualdade de gênero como um princípio ou diretriz do projeto de lei original do Plano Nacional de Educação (PNE) intensificou uma mobilização contrária à igualdade de gênero por parte chamada bancada fundamentalista do Congresso. Como resultado, atualmente há ao menos cinco projetos de lei com o objetivo interferir diretamente nos conteúdos abordados em sala de aula evitando o que fundamentalistas religiosos chamam de “doutrinação política e ideológica” tramitando no Congresso. Um dos projetos é o 2731/2015, que altera o PNE proibindo a discussão de gênero nas escolas e prevê pena de prisão para professores que desrespeitem a determinação. Outro é o PL 7180/2014, que pretende alterar a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) para proibir o que o autor da proposta, deputado Erivelton Santana (PSC-BA), chama de “ideologia de gênero”. Além do Congresso, projetos semelhantes e inspirados no movimento Escola Sem Partido tramitam em assembleias legislativas de pelo menos nove estados e em 13 municípios.


Arte: Christopher Dombres

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